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  • RELATRIO TCNICO-CIENTFICO

    SOBRE A COMUNIDADE DE

    QUILOMBO DA CAANDOCA

    MUNICPIO DE UBATUBA / SO PAULO.

    Junho/2000.

  • 2

    Sumrio

    1. INTRODUO................................................................................................. 3

    2. A ATUALIZAO DO CONCEITO DE QUILOMBO: O PRIMADO DA IDENTIDADE TNICA E DO TERRITRIO NAS DEFINIES TERICAS ............................................................................................................ 6

    3. UBATUBA: HISTRICO DA OCUPAO E CARACTERIZAO. ...... 13

    4. CAANDOCA: FORMAO E CARACTERIZAO DO BAIRRO E DOSEU MODO DE VIDA ........................................................................................ 16

    4.1. O territrio e sua ocupao..................................................................................................................... 16

    4.2. Modo de vida............................................................................................................................................ 25

    4.3. O direito terra ....................................................................................................................................... 32

    5. HISTRICO DO CONFLITO: A CONSTRUO DA BR 101 E A INVESTIDA DAS EMPRESAS IMOBILIRIAS .............................................. 34

    6. A CAANDOCA DE 1974 AT O PRESENTE......................................... 43

    6.1. Aes junto ao poder pblico ................................................................................................................. 44

    6.2. A Caandoca hoje .................................................................................................................................... 52

    6.3. Relaes scio-polticas no interior do grupo........................................................................................ 54

    7. CONCLUSO .................................................................................................. 56

    8. BIBLIOGRAFIA............................................................................................... 59

    9. ANEXOS.......................................................................................................... 611. Iconografia2. Mapa planimtrico e memorial descritivo do territrio 3. Mapa planialtimtrico 4. Croqui da ocupao atual5. Foto area da rea em 19706. Croqui da ocupao da rea em 1970 7. Genealogia8. Cpias de Certides9. Certides de Registros de Terra

  • 3

    1. INTRODUO

    Este relatrio tcnico-cientfico resultado de um trabalho de pesquisa

    antropolgica que objetivou verificar se o grupo populacional denominado

    Comunidade Caandoca, situado no municpio de Ubatuba, Estado de So Paulo,

    se constitui como remanescente de comunidade de quilombo a fim de adjudicar-

    lhe o direito previsto no artigo n. 68 do Ato das Disposies Transitrias da

    Constituio Federal de 1988, sob o enunciado: Aos remanescentes das

    comunidades de quilombos que estejam ocupando suas terras reconhecida a

    propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os ttulos respectivos1. Esta

    verificao segue os requisitos e critrios estabelecidos pelo Grupo de Trabalho e

    pelo Grupo Gestor, em obedincia ao referido Artigo 68, bem como aos artigos

    215 e 216 da Constituio Federal e, ainda, legislao estadual: lei nmero

    9757/97 e os decretos 41.774/97 e 42.839/98.

    Grande parte das famlias da Comunidade da Caandoca perdeu o

    acesso terra ao longo da dcada de 70, em processos que envolveram coero

    e violncia. Alguns tentaram reav-la atravs de recursos judiciais de reintegrao

    de posse, cujos julgamentos resultaram desfavorveis aos reivindicantes. A

    comunidade da Caandoca contatou o ITESP em julho de 1998, quando solicitou

    o seu reconhecimento enquanto comunidade remanescente de quilombo. Naquela

    ocasio acontecia um conflito decorrente da ordem judicial de reintegrao de

    1 A criao desta categoria de investigao denominada Relatrio Tcnico Cientfico, bem como os parmetros que o norteiam, so resultantes dos esforos do Grupo de Trabalho criado pelo Governo do Estado de So Paulo por meio do Decreto n 40.723, de 21 de maro de 1996, que tinha por objetivo fazer proposies visando a plena aplicabilidade dos dispositivos constitucionais conferentes do direito de propriedade aos remanescentes das comunidades de quilombos em territrio paulista. O Grupo foi composto por representantes da Secretaria da Justia e Defesa da Cidadania, Instituto de Terras do Estado de So Paulo Jos Gomes da Silva, Secretaria do Meio Ambiente, Procuradoria Geral do Estado, Secretaria de Governo e Gesto Estratgica, Secretaria de Cultura, Conselho de Defesa do Patrimnio Histrico, Arqueolgico, Artstico e Turstico, Conselho de Participao e Desenvolvimento da Comunidade Negra no Estado de So Paulo, Subcomisso do Negro da Comisso de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil -Seco So Paulo e Frum Estadual de Entidades Negras. Os trabalhos deste Grupo levaram criao: a) do Programa de Cooperao Tcnica e de Ao Conjunta para identificao, discriminao e legitimao de terras devolutas do Estado ocupadas por remanescentes de comunidades de quilombos e de sua regularizao fundiria, implantando medidas socio-econmicas, ambientais e culturais e b) de um Grupo Gestor para implementao do Programa. O Programa e o Grupo Gestor foram criados por meio do decreto n 41.774 de 13 de maio de 1997.

  • 4

    posse emitida contra o grupo de ex-moradores da Caandoca que havia ento

    acampado na rea reivindicada, como forma de pressionar o poder pblico.

    Apesar da desagregao ocorrida nos anos 70, o grupo mantm uma

    identidade que os unifica e que baseada tanto em suas origens comuns quanto

    no fato de compartilharem o mesmo territrio desde meados do sculo XIX,

    quando seus antepassados foram escravos na fazenda que existia na localidade.

    Ademais, a comunidade da Caandoca est reunida em torno da Associao para

    Melhoramentos do Bairro Caandoca desde 1988, com o objetivo de organizar-se

    para reaver a totalidade de seu territrio e poder voltar a reunir-se s famlias que

    permanecem morando na rea.

    Fruto de um processo perpetrado s custas da violncia, da intimidao e

    do logro, a grilagem das terras da Caandoca est inserida numa estrutura

    histrica nacional de profunda concentrao fundiria, que no litoral, esteve

    geralmente motivada por interesses de especulao imobiliria, cuja injustia

    engendrada buscamos agora reparar.

    Na Caandoca, bem como em outras diversas reas de comunidades

    negras rurais, acresce-se o fato de que no foram apenas camponeses pobres e

    analfabetos a serem expropriados, mas sobretudo negros, marcados pelo

    preconceito, pela discriminao ainda hoje vigentes e, num passado no muito

    distante, considerados prias pela sociedade branca dominante2.

    Frente a este quadro, h que se considerar o Artigo 68 do ADCT e suas

    posteriores regulamentaes como legislao imperativa, posto o seu carter

    premente de mecanismo capaz de saldar, ainda que parcialmente, a dvida social

    e moral de toda uma nao com um segmento tnico que, escravizado, foi

    responsvel por grande parte das riquezas acumuladas pelo pas e permanece

    alijado das benesses deste empreendimento.

    2 Mesmo em mbito acadmico, pretensamente tolerante e democrtico, estudiosos do problema negro" como Slvio Romero e Nina Rodrigues no se furtavam, nas primeiras dcadas deste sculo, a expor uma viso preconceituosa, atribuindo aos negros e miscigenao a dificuldade para o desenvolvimento do Brasil e pregando, como soluo lgica de suas teorias racistas, o embranquecimento da populao.

  • 5

    Como parte integrante do processo de reconhecimento e titulao

    territorial da Comunidade da Caandoca, este Relatrio Tcnico-Cientfico

    apresenta uma discusso terica sobre o conceito de quilombo, sintetizando a

    acepo moderna e atualizada do mesmo, tal como vem sendo usado por

    antroplogos e legisladores. Segue-se um histrico do municpio de Ubatuba, a

    fim de localizar o leitor. Em sua poro central - luz da pesquisa de campo

    efetuada e dos dados secundrios recolhidos (bibliografia acadmica e

    documentos histricos e jurdicos) - o presente trabalho discorre, na forma de uma

    etnografia, sobre a origem da comunidade em questo, as formas de ocupao da

    terra, as relaes de trabalho antigas e atuais, seu modo de vida, os conflitos

    pela posse da terra, as contendas jurdicas que foram impetradas pelo grupo e a

    sua situao atual.

    Colaboraram na elaborao deste relatrio Rose Leine Bertaco Giacomini

    e Maria Ignes Maricondi, Nelso Antnio Simo Gimenes, Carlos Eduardo Dias

    Machado e Eliane Martins Lima, Maria Celina Pereira de Carvalho e Maria Ceclia

    Manzoli Turatti.

  • 6

    2. A ATUALIZAO DO CONCEITO DE QUILOMBO: O PRIMADO DA IDENTIDADE TNICA E DO TERRITRIO NAS DEFINIES TERICAS

    O reconhecimento, por parte do Estado, da existncia de comunidades

    negras rurais como uma categoria social carente de demarcao e regularizao

    das terras que ocupam longevamente e s quais se convencionou denominar

    comunidades remanescentes de quilombos, traz tona a necessidade de

    redimensionar o prprio conceito de quilombo, a fim de abarcar a gama variada de

    situaes de ocupao de terras por grupos negros e ultrapassar o binmio fuga-

    resistncia, instaurado no pensamento corrente quando se trata de caracterizar os

    quilombos.

    Em 1740, reportando-se