Quem tem medo_da_ead_artigo (1)

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  • QUEM TEM MEDO DA EAD?/ Por Edson Martins

    A constatao de que o mundo em que vivemos est em constante transformao um fato. Os diversos campos de

    pesquisa esto a cada dia descobrindo coisas novas e elaborando novas ferramentas para atualizar ou suplantar as

    existentes, numa corrida desenfreada. Em algumas reas, como as tecnologias de comunicao, muito difcil acompanhar

    em tempo real todas as novidades que aparecem. Se tais transformaes atingem todas as reas, certamente tem

    alcanado a educao, no ? A resposta a esta pergunta no e sim.

    O no se refere ao fato de que, diferentemente de outras reas como o comrcio, o turismo e lazer e a indstria, a rea

    educacional ainda cultiva um vis bastante conservador. As mudanas na educao sempre sofreram resistncias e

    demoraram um bom tempo para se efetivarem. So vrias as razes para que isto acontea, sendo que a principal delas o

    temor, por grande parte dos educadores, de que as mudanas iro prejudicar a sua prtica docente, prtica que vem sendo

    executada por muitos anos e considerada satisfatria por eles, embora muitas vezes as avaliaes digam o contrrio. A

    grande pergunta que muitos profissionais da educao fazem quando se deparam com propostas de mudanas : o quanto

    eu vou perder com isso?.

    Porm, preciso deixar claro que a resistncia s mudanas, sejam elas quais forem no privilgio de educadores. uma

    reao normal dos seres humanos, que ocorre, na viso de Koenig (1982, p. 349), pela impacincia com as imperfeies

    iniciais das inovaes, pela ignorncia e usar as novas teorias ou tecnologias, pelo hbito e costume de se fazer a mesma

    coisa da mesma maneira por longo tempo, sendo esta realidade mais forte entre os mais idosos, e finalmente, pelos

    interesses contrariados causados pelas mudanas. A boa notcia no caso da educao a distncia que a resistncia s

    tecnologias menor que as invenes sociais.

    Quanto ao sim, inegvel que se por um lado, h conservadores na rea educacional, h tambm muitos que esto

    procurando inovar, buscar alternativas para melhorar e ou facilitar a prtica docente. So educadores inquietos com as

    dificuldades que os mtodos tradicionais encontram para proporcionar uma educao de qualidade para a grande maioria

    da populao, principalmente no Ensino Superior e vem na Educao a Distncia uma oportunidade de tornar estas metas

    uma realidade. Porm, para que isto acontea no Brasil, so necessrias algumas reformas importantes.

    Pierre Lvy (1999), escreveu serem duas as reformas necessrias ao sistema educacional. Para ele, imprescindvel que

    haja uma assimilao dos mecanismos que regem o ensino aberto e a distncia por parte da sociedade, o que implica em

    uma nova viso pedaggica, em que o professor um indutor ao conhecimento coletivo de seus alunos e no apenas um

    mero recitador de contedos. Esta a primeira grande reforma proposta por ele. A segunda reforma permitir que as

    experincias adquiridas pelas pessoas atravs das diversas tecnologias existentes hoje e das que ainda vo surgir como um

    conhecimento vlido, chancelando os saberes no-acadmicos.

  • Alm destas reformas acima propostas, creio que no Brasil preciso quebrar o paradigma instalado na memria coletiva

    nacional de que apenas o ensino presencial (com forte fiscalizao) possui qualidade e que o ensino a distncia uma fuga

    para quem no quer estudar de verdade.

    difcil identificar com preciso as causas desta viso. Mas possvel apresentar algumas pistas. Uma delas de carter

    histrico, visto que os primeiros e mais visveis exemplos de educao a distncia no Brasil foram os cursos

    profissionalizantes oferecidos pelo Instituto Universal Brasileiro ou pelo Instituto Monitor, sem muitas exigncias de

    escolaridade formal. Seus cursos eram ofertados majoritariamente para as classes populares usando como ferramenta

    principal os livros textos enviados pelos Correios. possvel que muita gente pense que o ensino a distncia seja til em

    cursos profissionalizantes, cursos livres, mas no em cursos superiores, de carter acadmico formal.

    Outra possvel razo que ainda no h no Brasil exemplos contnuos de egressos de cursos superiores a distncia que

    quando avaliados juntamente com egressos do ensino presencial, apresentem rendimento igual ou superior a eles.

    possvel que esta seja uma razo para que o mercado de trabalho ainda demonstre resistncia ao ensino a distncia. Com a

    implantao de cursos a distncia por parte de grandes universidades (federais, estaduais, regionais e privadas), o que j

    est ocorrendo, os preconceitos sero diminudos. Mas preciso deixar claro que esta uma tarefa de convencimento de

    longo prazo. Exemplo recente a greve e o protesto de alunos e professores da Universidade de So Paulo, contrrios

    abertura de cursos de graduao a distncia pela instituio.

    Outro fator que deve ser levado em conta o problema de supervalorizar a tecnologia em detrimento do pedaggico. Muita

    gente que trabalha com a EAD fica to deslumbrada com os fantsticos e fascinantes recursos que as tecnologias da

    informao colocam nossa disposio que acabam esquecendo que elas no so um fim em si mesmo, mas sim

    ferramentas teis para se atingir objetivos educacionais. Assim, tecnologia e modelos pedaggicos devem andar juntos, de

    modo a atingirem os alvos educativos propostos.

    Um erro muito comum tentar encaixar o modelo de ensino presencial no ensino a distncia. So dois modelos diferentes,

    com caractersticas prprias, que devem ser respeitadas, pois como afirma Behar (2009, p. 24). Fala-se de um novo

    domnio na educao, passando de uma relao de um-para-muitos e/ou muitos-para-muitos, com espao-tempo definidos,

    e em que predomina a comunicao oral, para uma interao de um-para-muitos, um-para-um e inclusive muitos-para-

    muitos. Esse novo domnio baseado em comunicao multimedial, no exigindo a copresena espacial e temporal. Por

    isso trata-se de um novo patamar em que no se podem adaptar modelos pedaggicos derivados do ensino presencial para

    a distncia.

    Concluindo, ainda que existam resistncias, e isto normal, o ensino a distncia veio para ficar. As novas geraes estaro

    cada vez mais ancoradas nas inmeras possibilidades que as tecnologias da informao proporcionam e o prprio mercado

    de trabalho est caminhando na direo de recrutar funcionrios que estejam estudando sempre, atualizando seus

    conhecimentos. No basta apenas um diploma que ateste um conhecimento passado. preciso, como afirma Lvy (1999),

    que os funcionrios do futuro sejam gerenciadores de processos, em que seus conhecimentos, disponibilizados on line,

    aliados aos de seus colegas, formem memrias dinmicas, numa virtualizao da relao com o conhecimento.

    Edson Martins Educador

  • REFERNCIAS

    BEHAR, Patrcia Alejandra (Org.). Modelos pedaggicos em Educao a Distncia. Porto Alegre: Artmed, 2009.

    KOENIG, Samuel. Elementos de Sociologia. 6 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

    LVY, Pierre. As mutaes da educao e a economia do saber. In: Cibercultura. So Paulo: Ed. 34, 1999, p. 169-176.

    LVY, Pierre. A nova relao com o saber. In: Cibercultura. So Paulo: Ed. 34, 1999, p. 156 e 157.