Quem tem medo da lei antifumo? - ?· Quem+tem+medo+da+lei+antifumo.html Quem tem medo da lei antifumo?…

Download Quem tem medo da lei antifumo? - ?· Quem+tem+medo+da+lei+antifumo.html Quem tem medo da lei antifumo?…

Post on 10-Dec-2018

213 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

Artigo publicado em Terra Magazine em 06/07/09 http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3859460-EI11353,00-Quem+tem+medo+da+lei+antifumo.html

Quem tem medo da lei antifumo? Rizzatto Nunes

De So Paulo

Poucas vezes vi discusses to bizarras a respeito da possibilidade de cumprimento de uma lei,

como essa em relao a Lei Estadual 13.541 que probe o "consumo de cigarros, cigarrilhas,

charutos ou de qualquer outro produto fumgeno, derivado ou no de tabaco" (art. 2 da Lei) e que

entra em vigor no prximo dia 7 de agosto no Estado de So Paulo.

Li em artigos e ouvi em debates nas rdios, pessoas dizendo que a lei "autoritria", que tira a

"liberdade das pessoas" etc. Alm disso, a pergunta mais recorrente para os ouvintes e leitores se

as pessoas cumpriro a lei.

Muito bem. Vamos aos fatos e ao direito. Em primeiro lugar, o que mais interessa saber que a Lei

promulgada pelo Governador Jos Serra no dia 7-5-2009 , pelo que penso, perfeitamente

constitucional e, claro, legtima. Ela foi aprovada com base na competncia concorrente

estabelecida no art. 24 da Constituio Federal (CF).

Como se sabe, no mbito desse tipo de competncia estabelecida no texto constitucional, a Unio

Federal pode legislar criando normas gerais, assim como o Estado-Membro e o Distrito Federal.

Inexistindo lei federal sobre normas gerais, os Estados-Membros detm competncia legislativa

plena (pargrafo 3 do mesmo art. 24 da CF). "Quanto matria em si, no resta dvida da

competncia do Estado-Membro porque a CF enumera produo e consumo" (inciso V do art. 24),

"responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artstico,

esttico, histrico, turstico e paisagstico" (inciso VIII) e "previdncia social, proteo e defesa da

sade" (inciso XII).

Logo, o Estado de So Paulo pode legislar sobre consumo, dano ao meio ambiente e ao consumidor

e proteo e defesa da sade.

essa altura, em pleno ano de 2009, a cincia j deixou mais do que comprovado os malefcios da

ingesto de tabaco. Isso no se discute. Nem se discute tambm o mal causado aos fumantes

passivos. Nenhum fumante inveterado pode discutir essa questo. Alis, anote-se desde logo que a

lei no probe que as pessoas fumem, mas apenas que o faam em "ambientes de uso coletivo,

pblicos ou privados" (art. 2). Quem quiser, pois, continuar fumando, pode. Mas, que o faa em

sua residncia (se bem que l melhor respeitar seus familiares, muitas vezes crianas e idosos) ou

em espaos ao ar livre.

A questo, portanto, envolve meio ambiente e proteo sade. Os locais em que as pessoas se

renem, possam ser eles bares, restaurantes, locais de trabalho etc so, pela prpria natureza meio

ambiente coletivo. Ora, o ar que se respira nesses lugares no pertence a nenhum dos que ali

esto. de todos e por isso, como bem ambiental coletivo, pode ser controlado pelo Estado, em

especial para garantir sua qualidade. o que ocorre com todas as normas que controlam a poluio

ambiental sem que ningum se revolte contra elas. Jamais vi algum, fumante ou no, reclamar de

leis que pretendem controlar a poluio atmosfrica ou evitar o desmatamento ou a destruio da

flora.

H opinies contrrias lei, sob o argumento de que a Unio Federal j legislou sobre o assunto. A

lei federal referida a de n 9294 de 15-7-1996. De fato, o art. 2 dessa lei diz que " proibido o

uso de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos ou de qualquer outro produto fumgero, derivado

ou no do tabaco, em recinto coletivo, privado ou pblico, salvo em rea destinada exclusivamente

a esse fim, devidamente isolada e com arejamento conveniente".

Com base, no que acima falei, percebe-se que a Lei Federal 9294 cuidou de regrar a proibio de

uso geral e penso que a Lei Estadual 13.541 no viola a Lei Federal, e, logo, est adequada aos

ditames constitucionais. que, pela interpretao que se pode dar abrangncia e incidncia da

norma antifumo paulista, v-se que o legislador estadual apenas especificou a norma geral: tratou

de dizer que as "reas destinadas exclusivamente" ao uso de produtos fumgeros so os

estabelecimentos exclusivos "destinados ao consumo no prprio local" e "desde que essa condio

esteja anunciada, de forma clara, na respectiva entrada" (inciso V do art. 6).

E detalhou a especificao ao explicar o que rea devidamente isolada e com arejamento

conveniente", o que fez no pargrafo nico do art. 6 que dispe que "devero ser adotadas

condies de isolamento, ventilao ou exausto do ar que impeam a contaminao de ambientes

protegidos por esta lei". Realce-se que a lei federal no faz essa especificao. Logo, o legislador

estadual estava livre para faz-lo.

V-se, pois, que h plena compatibilidade entre a Lei Federal e Lei Estadual. quela trs norma

geral, como manda a CF e esta, norma especfica dentro de sua esfera de competncia.

Recordo, tambm, que as supostas separaes de ambientes feitas em muitos restaurantes e bares

-- segundo consta visando cumprir a lei federal --, nunca funcionou. Isto porque, com a devida

licena da expresso, como a fumaa no obedece ordens ela nunca ficou parada em volta do

fumante. Fumaa tem o pssimo hbito de circular no ambiente: Nesses estabelecimentos em que

os fumantes ficavam prximos aos no fumantes, separados apenas por uma linha imaginria,

jamais houve respeito a quem quer que seja.

Antes de prosseguir, quero consignar uma vez mais meu espanto diante da relutncia de fumantes

de quererem no cumprir a lei por um motivo que sempre me chamou a ateno: No se v

nenhum fumante reclamar que no pode fumar dentro das salas de cinema. E, muitas vezes, ele

fica l dentro mais de duas horas assistindo ao filme. O mesmo acontece dentro dos avies. Os

fumantes no reclamam e tambm no fumam. E nesse caso, muitas vezes so longos perodos de

viagem sem fumar: duas, trs, cinco, dez horas ou mais. A questo, pois, outra e no o argumento

de ficar algum tempo sem fumar.

O que ainda existe uma falta de conscincia de alguns fumantes em relao ao respeito que eles

deveriam ter para com aqueles que no fumam. Estes sempre foram por demais tolerantes e

aceitaram a violao do ar que respiravam. Muitos no fumantes adoeceram por culpa dos

fumantes e, ainda assim, estes insistem em continuar no respeitando o direito sade dos que

no fumam. Mas, isso estava mesmo na hora de acabar. um novo momento no s no Brasil,

como em vrios pases desenvolvidos. O que vejo de resistncia por aqui, diz respeito a esse caldo

de cultura ultrapassado de se dizer e se perguntar se as pessoas iro ou no cumprir a lei. Em

outros lugares, essa questo no se pe. proibido fumar em locais pblicos, por exemplo, nos

Estados Unidos. Ento, as pessoas simplesmente cumprem a lei e no fumam. A Frana, num outro

exemplo, que era conhecida por seus bares enfumaados, proibiu h algum tempo o uso em locais

pblicos e o que v por l, que as pessoas cumprem a determinao.

Quanto questo da limitao liberdade individual, embora no tenha espao para desenvolver o

tema aqui apropriadamente, lembro que uma caracterstica marcante de muitas leis exatamente

a de impedir ou limitar a liberdade individual na sua relao com a coletividade. Ningum pode,

mesmo querendo, ultrapassar sinal vermelho no trnsito, nem deixar de matricular seus filhos na

escola de ensino fundamental ainda que isso seja sua vontade. Mesmo que algum tenha vontade

de sair nu s ruas, tambm est impedido, etecetera, isto , um longo etecetera de situaes em

que a vontade individual esta podada ou limitada e, na maior parte das vezes, ningum reclama.

Essa a regra: O limite de ao de um indivduo termina no respeito liberdade de ao de outro.

Por isso, evidentemente, a lei antifumo no viola liberdade de nenhum fumante, que pode, como

j disse acima, continuar fumando vontade desde que no polua o ar dos que esto sua volta.

(Tambm repito algo mais: A proibio de fumar no vale para as residncias, mas chegar um dia

em que membros da famlia tomaro conscincia de que o outro membro est estragando o ar que

se respira em casa. Em pleno sculo XXI uma enorme falta de respeito poluir o ar domstico,

muitas vezes atingindo bebs e crianas indefesas).

Rizzatto Nunes mestre e doutor em Filosofia do Direito e livre-docente em Direito do Consumidor pela

PUC/SP. desembargador do Tribunal de Justia de So Paulo. Autor de diversos livros, lanou recentemente "Superdicas para comprar bem e defender seus direitos de consumidor" (Editora Saraiva) e o romance "O abismo" (Editora da Praa).

Fale com Rizzatto Nunes: rizzattonunes08@terra.com.br

Opinies expressas aqui so de exclusiva responsabilidade do autor e no necessariamente esto de acordo com os

parmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine