quem tem medo da arte contemporanea? fernando cocchiarale, 2006

Download Quem tem medo da arte contemporanea? Fernando Cocchiarale, 2006

Post on 28-Jul-2016

213 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Quem tem medo da arte contempornea? Se por um lado essa pergunta remete a algo capaz de provocar pavor, por outro retrata um sentimento comum quando o assunto arte. No por acaso, tal indagao d ttulo a um livro publicado em 2007 pela Fundao Joaquim Nabuco, do Recife, com base em uma srie de aulas ministradas pelo crtico de arte e curador Fernando Cocchiarale. E por que a arte contempornea suscita temores? Porque, como descreve o autor, habituamo-nos a pensar que a arte uma coisa muito diferente da vida, dela separada pela moldura e pelo pedestal e, alis, a arte foi mesmo isso durante a maior parte de sua histria. Assim foi no Renascimento, no sculo XVIII, e tambm at meados do sculo XX, antes de o planeta assistir ao ocaso de sua prpria ideia de mundo com guerras e novas tecnologias de produo e comunicao. Dessa forma, continua Cocchiarale, a ideia de uma arte que se confunda com a vida difcil de assimilar porque o nosso repertrio ainda inform

TRANSCRIPT

  • QUEM TEM MEDODAARTE

    CONTEMPORNEA?

    Fernando Cocchiarale

    FU NDAO JOAQUIM NABUCO

    E D IT O R A MASSANGANA

  • ISBN 978-85-7019-446-6 2007 Fernando Cocchiarale

    Reservados todos os direitos desta edio. Reproduo proibida. mesmo parcialmente, sem autorizao da Editora Massangana da Fundao Joaquim Nabuco.

    Fundao Joaquim Nabuco. Editora Massangana. Av. Dezessete de Agosto, 2187. Casa Forte. Recife. Pernambuco. Brasil. CEP 52061-540. Linha direta (81) 30736321. Vendas (81) 30736323. Tele fax (81) 307.36.319. www.fundaj.gov.br

    PRESIDENTE DA FUNDAO )OAOUIM NABUCO Fernando Lyra DJRETOIA DO INSTITUTO DE CULTURA Isabcla Cribari CooRDENADOR-GERAL DA EDITORA MASSANGANA Mrio Hlio Gomes de Lima CooRDENADOR DE EDITORAo Sidney Rocha PROJETO GRFICO/CAPA Editora Massangana

    1 a. reimpresso

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Fundao Joaquim Nabuco)

    Quem tem medo da arte contempornea; Fernando Cocchiarale- Recife: Fundao Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2006. 80 p.: il: ISBN 978-85-7019-44(>.6 1. Arte contempornea- arte 2 .. I. Cocchiaralle, Fernando. CDU 347.78

  • Quem tem medo da arte contempornea?

    Muitos. A maioria diz no entend-la, por ach-la estranha quilo que consideram arte. Outros, ainda que com conhecimento de causa, seja por conservadorismo, seja por preferirem a arte clssica ou por sua fidelidade terica (paixo, na verdade) arte moderna.

    Curioso que medida que nos aproximamos da atualidade a incompreenso parece crescente. A arte prmoderna parece ser entendida mais facilmente do que a moderna e esta ltima menos arbitrria que a produo contempornea. Duvido que um leigo diga que entende a Mona Lisa saiba o que sfumato, seo urea, claroescuro. O que anatomia? O que a perspectiva? No entanto, essas informaes no participam necessariamente de fruio esttica.

    Uma das prticas mais generalizadas do mundo institucional das artes, compreendendo a o chamado grande pblico, a necessidade de mediao pela palavra, para a produo de sentido. No me refiro aqui s teorias

    11

  • da arte, tanto histricas quanto filosficas, cuja generalidade e universalidade s poderiam ser produzidas pelo discurso. O que est em questo a busca ansiosa pela explicao verbal de obras reais e concretas, como se sem a palavra fosse-nos impossvel entend-las. A explicao assassina a fruio esttica, j que ao reduzir a obra a uma explicao mata sua riqueza polissmica e ambgua, direcionando-a num sentido unvoco.

    O problema que essas pessoas usam um nico verbo: entender. Entender significa reduzir uma obra esfera inteligvel. Eu nunca ouvi ningum dizer: eu no consegui sentir essa obra. Como as pessoas tm medo de sentir, elas entendem, reduzem sua relao ao ato inteligvel e, por isso, esperam pelo socorro do suposto farol da opinio daqueles que sabem: historiadores, filsofos, crticos, artistas, curadores ... Quando mal feita uma visita guiada pode estimular esse tipo de coisas, a no ser quando o educador tem uma perspectiva menos formal e estimula o pblico a estabelecer suas prprias relaes. O artista contemporneo nos convoca para um jogo onde as regras no so lineares, mas desdobradas em redes de relaes possveis ou no de serem estabelecidas.

    Hoje em dia a formao de pblico tornou-se uma preocupao essencial. O pblico passou a ser visto como

    14

    algo a ser permanentemente formado, sim. Mas quando se fala em formao significa que se vai transmitir alguma coisa. H casos e casos. No d pra se ter uma regra a priori. Ento, se algum est movido por esse tipo de idia, tem que pensar muito bem se vai tratar o aluno como um receptculo, ou o visitante como um receptculo, se vai despejar suas idias sobre a arte e as obras ali. No devemos confundir a formao de um terico de arte, historiador ou esteta com aquilo que devemos fazer com o pblico.

    Todos os museus hoje ou tm headfone ou textos plotados nas paredes da sala expositiva. Mas, o monitor, o educador ou mediador deve ser menos a pessoa que transmit..a contedos acabados e mais algum que estimule o pblico a estabelecer algumas relaes de seu prprio modo.

    A arte contempornea no um campo especializado como foi a arte moderna. Centradas na busca de uma arte autnoma em relao ao universo temtico, particularmente aquele do naturalismo acadmico, as primeiras safras de artistas modernos pretendiam proteger o campo da arte das infiltraes de elementos literrios ou narrativos (temas). A partir do Impressionismo, a arte moderna passou a refletir e a investigar de modo crescente

    15

  • No mundo contemporneo, as noes de sujeito, de indivduo, de identidade, de unidade esto visivelmente em crise e possvel mapear vrios pontos em pocas diversas o prenncio dessa crise que no comea agora, j que estava em gestao no sculo XIX e hoje tornou-se, em alguns casos, parte do senso comum.

    Se ns quisermos entender um pouco da arte contempornea ns no podemos fazer isso do ponto de vista estrito do especialista (o terico de arte: crtico, historiador, esteta), discutindo as obras que outros especialistas produziram (os artistas como especialistas nas linguagens que utilizam). Ambos restritos ao universo exclusivo da produo artstica, um mundo de especialistas. No que especialistas tenham desaparecido, mas sua autoridade e seu poder de vida e morte numa avaliao perderam muito espao, j que eles esto subordinados atualmente multidisciplinaridade, ou interface.

    As identidades no mundo contemporneo no podem mais ser pensadas como uma plantao (onde cada planta tem .a sua raiz) porque ele est em rede. E no estou falando s da internet. Uma rede em que a identidade migra de um canto para outro. Mas de todas as relaes que antes supunham identidades estveis em todos os nveis. Hoje termos n identidades, e no mais uma s.

    18

    Todas as sociedades desenvolveram noes de pessoa diferentes umas das outras. A nossa desenvolveu a noo de pessoa ligada ao conceito de indivduo sem diviso e como uma unidade. Se ele um artista, tem um estilo s seu, inconfundvel. A idia de estilo individual, a coerncia como um valor do artista no natural, mas uma inveno possvel do incio do Renascimento.

    no Renascimento que a arte e artesanato se separam, se no na escala dos valores e das idias, ao menos na conscincia e na prtica dos artistas. Quando Leonardo da Vinci escreveu que a "pintura coisa mental", ele afirmava em primeiro lugar que sua arte no era uma arte mecnica, isto , meramente manual, tal como era ento classificada. Para ele, o uso das mos no era suficiente para reduzi-la esfera mecnica, j que a pintura, por causa da perspectiva, do sombreado e demais aspectos, possua questes racionalmente inteligveis que justificavam uma mudana de patamar. Ela devia ser pensada como uma das chamadas artes liberais em que o intelecto possua um

    peso decisivo.

    A afirmao do carter mental da pintura teve outras conseqncias. Ela afastava-se do artesanato (estritamente manual) e de seus esquemas autorais coletivos. Alm disso, tambm importantssima porque

    19

  • pode indiretamente at esclarecer certos aspectos da produo contempornea, na qual o fazer (manual) deu lugar inveno e idia. O ready-made de Mareei Duchamp poderia ser visto dessa forma. Se coisa mental o fazer no mais integra necessariamente o trabalho do artista.

    A idia que as pessoas seriam unitrias, sem fraturas ou divises internas, indivisveis qual indivduos, est em crise. O que aparece no mundo contemporneo a possibilidade de uma nova noo de pessoa, fragmentria. A gente pode falar disso de vrias maneiras, mas eu gostaria de voltar a essa investigao do indivduo que tem a ver com a noo de unidade que absolutamente familiar a todos ns at hoje. Tenho certeza de que at os mais jovens quando definem uma pessoa como ntegra querem dizer que ela inteira. Mas integridade em si no qualidade de ningum.

    Tradicionalmente a unidade foi pensada qual algo que emana, no caso da nossa condio, de dentro para fora, e plasmada como personalidade ou como estilo de dentro para fora, alguma coisa que venha do interior para o exterior. Mas, no mundo das trs ltimas dcadas, tudo o que aparece como unitrio fruto de um processo exteriorizado de montagem ou de edio.

    20

    Indissocivel da noo de identidade, a noo de unidade presidiu todos os processos cognitivos, dos mais intelectuais aos ticos e polticos desenvolvidos no Ocidente pelo menos nos ltimos 2500 anos. Na Grcia clssica o pensamento filosfico orientara-se para a busca das qualidades permanentes que especificavam um conjunto com o objetivo de defini-las. Imaginem o espanto de um homem daquele tempo ao olhar para um mundo onde tudo se movia e se transformava, no s as coisas em relao umas s outras, mas cada uma delas tomadas em si mesmas.

    Algumas dessas transformaes so observveis com facilidade como, quando, por exemplo, uma semente germina em quinze dias; outras necessitam de uma longa espera, como aquela em que percebemos as transformaes de um beb at a fase adulta. Alm de todos sermos diferentes uns dos outros, tambm o somos em ns mesmos, se nos compararmos com o que j fomos em outros momentos de nossas vidas.

    Como se pode afirmar que para alm do movimento, da mudana e da transformao de tudo percebida pelos sentidos existem traos permanentes? E essa unidade de ordem conceitual ou real? So perguntas que os gregos faziam e que responderam de diversas maneiras.

    21

  • X i I og ravu r a de Albert Drer.

    Para Gilles Deleuze, por exemplo, um dos filsofos mais importantes do sculo XX, a filosofia - e eu, sem qualquer dvida, poderia acrescentar a cincia tambm - busca reduzir a pluralidade unidade; reduzir, por exemplo, essa pequena amostra que somos ns, to diferentes j uns dos outros, a um nico conceito que o conceito de homem.

    O conceito de homem teria de abranger todo