³QUEM NÃO TEM DO CARNAVAL A SUA AVENTURA?”: ?o-Paulo-Ayub.pdf · 1 ³quem nÃo tem do carnaval…

Download ³QUEM NÃO TEM DO CARNAVAL A SUA AVENTURA?”: ?o-Paulo-Ayub.pdf · 1 ³quem nÃo tem do carnaval…

Post on 21-Jan-2019

212 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

  • 1

    QUEM NO TEM DO CARNAVAL A SUA AVENTURA?: ABJEO E

    TESTEMUNHO NO CONTO O BEB DE TARLATANA ROSA,

    DE JOO DO RIO

    Prof. Dr. Joo Paulo AyubUFG/Regional Catalo

    joaoayub@gmail.com

    RESUMO: O conto O beb de Tarlatana Rosa, do escritor carioca Joo do Rio, conduz

    a narrativa ao desvelamento de uma intensa experincia de abjeo, surpresa e horror,

    sensao de angustioso imprevisto.... Num movimento que faz transbordar os excessos

    caractersticos da temporalidade carnavalesca (realizao plena, efusiva, do baixo

    corporal, nos termos de M. Bakhtin), o personagem Heitor de Alencar narra a histria de

    um encontro espantoso com uma face desmascarada: o cair da mscara do beb de

    tarlatana rosa abre as portas de entrada a uma territorialidade informe, violenta, espao

    irredutvel de negao das formas corpreas consagradas que compem o rosto humano.

    Sob a inspirao da afirmao de Georges Bataille, segundo a qual o excesso que

    ilumina o sentido do movimento, pretende-se destacar o papel performtico da narrativa

    literria de Joo do Rio no registro do processo de emergncia do Real, entendido aqui

    enquanto dimenso do vivido que excede a capacidade de apreenso subjetiva. Esse

    instante de desencontro com a realidade, evento traumtico, no pode ser representado

    nos termos clssicos da representao enquanto adequao da expresso realidade. A

    arte da narrativa ficcional se destaca no desafio que consiste em traduzir a experincia

    intraduzvel da abjeo, materializada no conto atravs da imagem de uma cabea

    estranha, uma cabea sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodo, uma

    cabea que era alucinante - uma caveira com carne... A experincia do horror narrado

    no conto revela, ainda, uma das caratersticas estruturantes do conceito de abjeo tal

    como pensado por Bataille, qual seja, a relao indissocivel entre angstia e prazer,

    desejo e medo.

    PALAVRAS-CHAVE: Joo do Rio, representao, abjeo, testemunho, excesso.

    - Eu adoro o horror. a nica feio verdadeira da Humanidade.

    Joo do Rio

    Introduo

    O beb de Tarlatana Rosa, do escritor carioca Joo do Rio, pseudnimo literrio

    de Joo Paulo Emlio Cristvo dos Santos Coelho Barreto (1881-1921), conduz a

    narrativa ao desvelamento de uma intensa experincia de surpresa, abjeo e medo. A

    histria contada pelo personagem Heitor de Alencar no conto de Joo do Rio uma

    histria de mscaras!: neste domnio especfico da existncia humana, sustentado por

  • 2

    formas de expresso as mais diversas, deliberadas ou inconscientes, assiste-se a

    transmutao dos estados objetivos e subjetivos dos indivduos. A existncia encenada

    num baile de mscaras se torna refm de um movimento de inverso em que a prpria

    vida representa e ao mesmo tempo se v representada por figuraes ideais, imaginrias,

    que escapam ao ritmo constrito da normalidade ordinria. Pe-se em jogo, enfim, a

    possibilidade de irrupo daquilo que se encontra submerso ou apagado na dinmica da

    vida cotidiana.

    Oh! Uma histria de mscaras! Quem no a tem na sua vida?: Heitor de Alencar

    encontra-se diante do baro Belfort, Anatlio de Azambuja (de que as mulheres tinham

    tanta implicncia) e Maria de Flor (a extravagante bomia), e todos ardiam por saber

    a aventura de Heitor. Entre um trago e outro de um gianaclis autntico, ele narra, ento,

    a histria de um encontro espantoso com a face desmascarada de um folio, um beb de

    tarlatana rosa, durante a visita ao baile pblico do Recreio. Heitor um personagem

    que frequenta a boa sociedade carioca, como fica claro na reao de seus companheiros

    ao receberem a proposta de irem todos visitar o carnaval de rua, pblico, da cidade do

    Rio de Janeiro, o carnaval tal como era vivenciado do lado de dentro dos cordes.

    O primeiro encontro de Heitor com o Beb foi marcante, porem fugaz, verdadeira

    manifestao da efemeridade das relaes caractersticas das festas de carnaval,

    atravessadas por uma temporalidade torrencial, alucinante.

    Nesta primeira noite, sbado de carnaval, Heitor deitou um belisco na perna do

    Beb, que caiu ao cho e disse: Ai que di!. O belisco fora devolvido no alvoroo da

    noite de domingo: em plena avenida, indo eu ao lado do chauffeur, no borborinho

    colossal, senti um belisco na perna e uma voz rouca dizer: para pagar o de ontem.

    Somente na madrugada de tera-feira os dois voltaram a se encontrar: atracaram-se,

    enfim, misturando os corpos e fluidos entre as frestas dos becos e das ruas escuras da

    cidade, dando vazo a um mar de desejo incontido. Somente ao final deste encontro pde

    Heitor vislumbrar o rosto desmascarado do beb de tarlatana rosa, movimento que abriu

    as portas de entrada a uma territorialidade informe, violenta, espao irredutvel de

    negao das formas corpreas consagradas que compem a face do humano.

  • 3

    O carnaval de dentro dos cordes

    Seja atravs da crnica, da reportagem ou dos gneros de fico, toda a escrita de

    Joo do Rio contribui de modo surpreendente para a ilustrao de quadros caractersticos

    da cidade do Rio de Janeiro do incio do sculo XX. Sob os traos do escritor, enxerga-

    se um precioso retrato que restitui os laos sensveis, quase invisveis, que articulam numa

    mesma unidade existencial a vida das pessoas e a do espao urbano. Como ele mesmo diz

    em seu ensaio magistral sobre a rua, Oh! sim, as ruas tm alma! (2008, p. 34)

    No conto O beb de tarlatana rosa, a atmosfera que enforma a descrio das

    cenas da cidade, do movimento irredutvel que arrasta rua afora o conjunto heterogneo

    de seus moradores, encontra-se profundamente contaminada pelo ambiente festivo do

    carnaval. No de qualquer carnaval, mas do carnaval que avana sobre as horas do dia e

    anuncia, num grito derradeiro, escancarado noite adentro, sua verdade profunda. E aqui,

    mais uma vez, preciso escutar a voz do ensasta: A alma da rua s inteiramente

    sensvel a horas tardias. (Rio, 2008, p.37)

    Manifestao coletiva singular, o carnaval constitui-se num operador mximo da

    transubstanciao do registro mais ou menos estvel das regras que organizam a esfera

    social. Leis, hbitos, obrigaes morais e tabus de toda espcie so transgredidos no

    perodo da festa, dando lugar a novas vias e formas de comunicao entre os sujeitos.

    Segundo definio precisa de Mikhail Bakhtin, o carnaval caracteriza-se pela abolio

    provisria das diferenas e barreiras hierrquicas entre as pessoas e a eliminao de certas

    regras e tabus vigentes na vida cotidiana criavam um tipo especial de comunicao ao

    mesmo tempo ideal e real entre as pessoas, impossvel de estabelecer na vida ordinria.

    (2002, p. 14)

    A manifestao subjetiva desse estado de coisas marcado pela suspenso do usual,

    do convencional e do estvel nos domnios da comunicao e do contato entre os

    habitantes da cidade repercute de modo intenso em cada frase de Joo do Rio. O escritor

    identifica no vasto repertrio existencial inaugurado pela dissoluo momentnea das

    formas de vida ordinria um componente estruturante deste tipo de experincia: a

    aventura. E o sentido empregado por Joo do Rio a esse modo de ser que se manifesta

    intensamente durante as festividades do carnaval radicaliza, em termos que se fazem

    presentes tanto sob a perspectiva do ordenamento coletivo, quanto no da experincia

    ntima de cada indivduo, sua potncia acidental, perigosa, imprevisvel, passageira e

  • 4

    incerta. A aventura ressaltada j no primeiro pargrafo do conto, nas primeiras palavras

    de Heitor de Alencar:

    As ruas da cidade (a alma das ruas, tal como buscava enxerg-las o prprio Joo

    do Rio) tambm incorporam o movimento imprevisto, desencadeado pelo jogo

    transfigurador do carnaval. Seja atravs de descries da horda citadina que se transforma

    sob a imposio da nova (des)ordem carnavalesca, seja pelas vias da resignificao e da

    profanao de espaos consagrados, nada escapa pena incisiva do escritor, sempre

    atento s formas tomadas pela ao corruptora do carnaval. mais ou menos isso o que

    ocorre na cena em que Heitor e o Beb transitam por entre o edifcio de Belas Artes (Ao

    fundo, o edifcio das Belas Artes era desolador e lgubre) e o Conservatrio de Msica

    (Atravessamos a rua Luiz de Cames, ficamos bem em baixo das sombras espessas do

    Conservatrio de Msica. Era enorme o silncio [...]). A queda inevitvel dos folies

    ao nvel corporal da existncia, a imposio de desejos aflitos, testemunha tambm o

    rebaixamento material daquilo que elevado, espiritual, ideal e abstrato. s imagens que

    refletem o aspecto lgubre, fnebre, do edifcio das Belas Artes e o silncio mortal que

    envolve o Conservatrio de Msica, soma-se um jogo de luz e sombra que adiciona um

    carter penumbroso ao trnsito de humores e suspiros do casal. Heitor e o Beb vacilam

    entre as ruas do Rio, e o ambiente tinha uma cor vagamente rua com a treva espancada

    um pouco pela luz dos combustores distantes.

    A expresso esttica que mergulha a narrativa sobre o limiar de um espaotempo

    caracterizado pela impreciso de formas e arranjos precrios, indecisos, adquire

    representao mxima nas passagens que articulam o encontro. Mas no s. O testemunho

    de Heitor atesta o fato de que toda a cidade encontra-se submetida lgica do mundo s

    avessas, gramtica existencial que submerge todas as esferas mundanas perspectiva

    singular de uma baixeza material e corporal. Nesse sentido, tal como afirma Bakhtin sobre

    as formas festivas do princpio corporal e material, o csmico, o social e o corporal esto

    ligados indissoluvelmente numa totalidade viva e indivisvel. (2002, p. 17)

    Joo do Rio prepara como ningum o movimento que faz transbordar os excessos

    caractersticos da temporalidade carnavalesca. Mais uma vez, realizao plena, efusiva,

    do baixo corporal. Submetido engrenagem existencial que repele a ordem e ressalta a

    presena dominante dos instintos, este incontrolvel processo de redistribuio do

    sensvel tudo transforma e transfigura:

  • 5

    No o vi mais nessa noite, e segunda-feira no o vi tambm. Na tera

    desliguei-me do grupo e ca no mar alto da depravao, s, com uma roupa

    leve por cima da pele todos os maus instintos fustigados. De resto a cidade

    inteira estava assim. o momento em que por trs das mscaras as meninas

    confessam paixes aos rapazes, o instante em que as ligaes mais secretas

    transparecem, em que a virgindade dbia e todos ns a achamos intil, a

    honra uma caceteao, o bom senso uma fadiga. Nesse momento tudo

    possvel, os maiores absurdos, os maiores crimes; nesse momento h um riso

    que galvaniza os sentidos e o beijo se desata naturalmente.

    Uma pasta oleosa e sangrenta: testemunho e abjeo

    No h como no enxergar, sob a pena do contista, os traos inspirados do

    jornalista e reprter do incio do sculo XX. Observa-se com facilidade a tonalidade da

    voz do cronista Joo do Rio, autor de As religies do Rio, publicado em 1904, e A alma

    encantadora das ruas, de1908, na experincia narrada por este tambm cronista da vida

    da cidade, Heitor de Alencar. Joo do Rio se destacou como reprter num momento em

    que, ao mesmo tempo, praticamente inventou o ofcio: a modernizao incipiente da

    imprensa numa poca de profundas transformaes verificadas tambm em diversos

    setores da sociedade brasileira ainda no havia distribudo em funes e mesas distintas,

    no interior das redaes de jornal, as figuras do redator e do reprter.1

    importante destacar que o escritor abriu as portas de entrada a lugares at ento

    postos margem da sensibilidade oficial. No exatamente por determinao da prtica

    profissional (talvez tenha feito, mesmo, apesar dela). Sua escrita resulta da presena

    consistente de um esprito determinado a flanar indistintamente por entre vielas mal

    iluminadas, becos sujos, sales refinados e banquetes onde bem gastava a vida a elite da

    ento capital federal. Determinado por um impulso irrefrevel a escutar e ilustrar a

    diversidade de lugares e habitantes da cidade, o escritor arriscou-se em cada palmo de

    rua, onde h suor humano na argamassa do seu calamento, revelando uma dedicao

    irrestrita a cada pequeno espao onde transita a vida na cidade. Eu amo a rua, ele diz.

    Neste carter que encontra expresso no exerccio vital do flneur, repercute

    tambm de um modo singular certa disposio para uma relao estreitada com seres e

    espaos limiares. Este encontro, contudo, no se d sem o risco da aventura, sem a

    presena do perigo e, no limite, sem a ameaa da destruio. Tendo em vista a tenso

    1 - Ver, sobre a atuao profissional de Joo do Rio, a biografia de Renato Cordeiro Gomes, intitulada

    Joo do Rio.

  • 6

    subjacente histria da modernizao da cidade do Rio de Janeiro, verifica-se um

    paralelo possvel entre a experincia vivida pelo sujeito Joo do Rio, inscrita em cada

    linha de seus textos um mulato que cresceu na profisso mediante o esforo do prprio

    trabalho, um sujeito gordo e homossexual , e a transformao profunda dos espaos

    percorridos por ele. No perodo em que escreveu suas crnicas, a cidade enfrentava as

    consequncias de um processo de ampla reformulao urbana: em 1902, sob a gesto do

    prefeito Pereira Passos, iniciou-se a mais famosa reforma urbana submetida cidade do

    Rio de Janeiro, conhecida tambm por Bota-abaixo.2

    A avaliao histrica desse processo deve dar conta do conjunto de foras que o

    inscreve num regime de controle biopoltico da populao, ressaltando, ainda, todo o

    aparato normalizador e moralizante das relaes sociais que o acompanha. Etapa

    significativa na formao da medicina social, segundo Foucault (1979), a chamada

    medicina urbana constituiu-se historicamente num fenmeno caracterstico da

    biopoltica dos estados modernos. A capital federal do incio do sculo passado, atravs

    no s do episdio da reforma urbana do Rio de Janeiro, mas tambm da campanha de

    vacinao contra a varola de 1904, cuja resistncia popular ganhou o nome de Revolta

    da Vacina, contribuiu de forma significativa para o que hoje pode ser visto como um

    amplo processo de disciplinarizao e docilizao do corpo social. A partir da leitura da

    obra de Joo do Rio, vale destacar, entre outras coisas, o modo como o escritor responde

    a esse conjunto de foras que atuavam no enquadramento poltico da poca. De que modo

    os personagens e os espaos cartografados pelo escritor experimentam um processo de

    apagamento e retrao? Que sentido adquire sua escrita tendo em vista essa capacidade

    peculiar de dar sentido ao marginal, ao excludo? Vale dizer que tais questes encontram

    nas crnicas e contos respostas de considervel valor.

    A investigao proposta neste artigo no tem a pretenso de indicar todo o alcance

    da obra do escritor carioca para a compreenso da distribuio do sensvel que ela capaz

    2 - A significao desse processo de reconstruo urbana do Rio de Janeiro no incio do sc. passado

    ultrapassa e muito o escopo de justificativas imediatas que apontavam para a necessidade de reorientao

    do espao e de sua melhor distribuio. s operaes realizadas no mbito esttico, virio e sanitrio

    corresponde uma transformao mais profunda, de ordem moral, que implicam novos jogos de

    estratificao social e a materializao de barreiras sociais variadas. No caberia aqui uma discusso

    aprofundada desse perodo histrico, bastando assinalar a fora da obra de Joo do Rio enquanto

    composio esttica que responde aos movimentos de deslocamento e transformao humana no interior

    da cidade, essa unidade existencial a cidade que articula vida e espao.

  • 7

    de revelar e, ao mesmo tempo, subverter. Importa, sobretudo, destacar a presena do teor

    testemunhal3 na escrita de Joo do Rio considerando os desafios impostos expresso

    propriamente esttica daquilo que no pode ser representado nos termos da concepo

    tradicional de representao.4

    O aspecto inapreensvel, indizvel, da face descarnada do beb de tarlatana rosa,

    uma caveira com carne..., aponta para a presena de um evento singular, uma espcie

    de buraco negro, cuja representao radicalmente negada ao registro da linguagem,

    fundada em elementos universais. No conto de Joo do Rio est em jogo a possibilidade

    de manifestao da realidade (real) enquanto aquilo que excede as dimenses do

    simblico e do imaginrio, algo, portanto, inassimilvel pela experincia.5 Devido ao fato

    de ser inapreensvel, a imagem perturbadora provocou uma combusto interna em Heitor:

    Despeguei-a, recuei num imenso vmito de mim mesmo. Todo eu tremia de horror, de

    nojo. O pavor, o horror e o nojo constituem uma espcie de resduo, resto de um

    acontecimento que, inevitavelmente, escapa quele que o testemunha. De acordo com

    Seligmann-Silva (2000), ao comentar a situao dos sobreviventes dos campos de

    concentrao da segunda guerra mundial, se est diante da impossibilidade de reduzir o

    acontecido ao meramente discursivo, dado que o momento da representao destrudo

    devido singularidade absoluta desse evento-limite. Sendo assim, ao identificarmos a

    impossibilidade da representao nos termos de uma correspondncia ou adequao da

    realidade a um enunciado lingustico; ou ento, considerando-se o repertrio cultural e

    lingustico desde sempre insuficiente por basear-se em generalizaes em vista das quais

    o evento est sempre aqum de ser compreendido, condenando toda tentativa de

    represent-lo a um fracasso priori, resta somente a manifestao concreta do

    testemunho diante do fato vivido.

    3 - De acordo com Mrcio Seligmann-Silva, o testemunho deve ser compreendido tanto no sentido jurdico

    e de testemunho histrico [...], como tambm no sentido de sobreviver, de ter-se passado por um evento-

    limite, radical, passagem essa que foi tambm um atravessar a morte, que problematiza a relao entre

    a linguagem e o real (Seligmann-Silva, 2003, p. 8) 4 - A noo clssica de representao, entre outras coisas, admite que o real pode ser apreendido por meio

    de sistemas de significao, configurando um discurso autnomo sobre a verdade daquilo que

    representado. 5 - Determinao muda de um instante traumtico, o real caracteriza-se fundamentalmente por uma

    perda do objeto, desencontro com o real, assinalando, ainda, uma ruptura ou confuso entre o sujeito

    e o mundo, entre o dentro e o fora. (Foster, 2014, p. 129)

  • 8

    H, ainda, outra questo importante no interior desta temtica que traduz a

    impossibilidade da representao de eventos-limites, qual seja, a incapacidade de

    experimentao desses eventos por parte do sujeito que os vivencia. As coisas tornamse

    infinitamente mais complexas se consideramos a relao do sujeito com esse tipo de

    evento a partir do registro da experincia traumtica, momento em que a realidade

    psquica, 6 nos termos de Freud, simplesmente incapaz de absorver e dar sentido ao

    real vivenciado.7 Desse processo resulta a formao de um vcuo de sentido entre o

    fato vivido e aquele que o vivencia. Mas, ainda assim, h uma espcie de fantasma a

    rondar o sujeito da experincia. E o testemunho, ao mesmo que abriga, tenta nomear esse

    fantasma.

    Diante deste quadro de uma dupla impossibilidade, tanto da representao quanto

    da experimentao plena do evento, o testemunho realiza a funo de manifestao do

    Real. Novamente com Seligmann-Silva:

    Na literatura de testemunho no se trata mais de imitao da realidade, mas

    sim de uma espcie de manifestao do real. evidente que no existe

    uma transposio imediata do real para a literatura: mas a passagem para o

    literrio, o trabalho do estilo e com a delicada trama de som e sentido das

    palavras que constitui a literatura marcada pelo real que resiste

    simbolizao. (2003, p. 382-383)

    Assombrado, Heitor recuou diante dos braos do beb, que suplicava para que

    ele no o batesse. A criatura monstruosa no se dava conta de que a splica intensificava

    o estado da fria, e o beb justificava-se dizendo que foi ele, Heitor, quem quis:

    Perdoa! Perdoa! No me batas. A culpa no minha! S no Carnaval que eu

    posso gozar. Ento, aproveito, ouviste? aproveito. Foste tu que quiseste...

    Sacudi-a com fria, pu-la de p num safano que a devia ter desarticulado.

    Uma vontade de cuspir, de lanar apertava-me a glote, e vinha-me o imperioso

    6 - De acordo com Elisabeth Roudinesco e Michel Plon, a realidade psquica um termo empregado

    em psicanlise para designar uma forma de existncia do sujeito que se distingue da realidade material, na

    medida em que dominada pelo imprio da fantasia e do desejo. (1998, p. 646) 7 - Sobre a relao entre a experincia traumtica e o testemunho, diz Seligmann-Silva: A experincia traumtica , para Freud, aquela que no pode ser assimilada totalmente enquanto ocorre. Os exemplos de eventos traumticos so batalhas e acidentes: o testemunho seria a narrao no tanto desses fatos violentos, mas da resistncia compreenso dos mesmos. A linguagem tenta cercar e dar limites quilo que no foi submetido a uma forma no ato da sua recepo. Da Freud destacar a repetio constante, alucinatria, por parte do traumatizado da cena violenta: a histria do trauma a histria de um choque violento, mas tambm de um desencontro com o real. A incapacidade de simbolizar o choque o acaso que surge com a face da morte e do inimaginvel determina a repetio e a constante posterioridade, ou seja, a volta aprs-coup da cena. (2003, p. 48-49)

  • 9

    desejo de esmurrar aquele nariz, de quebrar aqueles dentes, de matar aquele

    atroz reverso da luxria... Mas um apito trilou. O guarda estava na esquina e

    o1hava-nos, reparando naquela cena da semi-treva. Que fazer? Levar a caveira

    ao posto policial? Dizer a todo a mundo que a beijara? No resisti. Afastei-me,

    apressei o passo e ao chegar ao largo inconscientemente deitei a correr como

    um louco para a casa, os queixo batendo, ardendo em febre.

    Infelizmente, para Heitor, o ato de correr e deixar mais rpido possvel o cenrio

    daquela experincia monstruosa no bastava para apagar as marcas do vivido. Ao chegar

    em casa, restava em seu bolso um testemunho inapagvel do mrbido encontro, um trao

    irredutvel do contato com a face descarnada do beb: o nariz viscoso de tarlatana rosa.

    Quando parei porta de casa para tirar a chave, que reparei que a minha mo

    direita apertava uma pasta oleosa e sangrenta. Era o nariz do beb de tarlatana

    rosa... Heitor de Alencar parou, com o cigarro entre os dedos, apagado. Maria

    de Flor mostrava uma contrao de horror na face e o doce Anatlio parecia

    mal. O prprio narrador tinha a camarinhar-lhe a fronte gotas de suor. Houve

    um silncio agoniento. Afinal o baro Belfort ergueu-se, tocou a campainha

    para que o criado trouxesse refrigerantes, e resumiu: Uma aventura, meus

    amigos, uma bela aventura. Quem no tem do carnaval a sua aventura? Esta

    pelo menos empolgante. E foi sentar-se ao piano.

    Por ltimo, vale a pena chamar a ateno para o fato de que Heitor ainda

    carregava consigo, aps o traumtico encontro, um pedao do beb. No um pedao

    qualquer, mas a pea principal, o nariz, que compunha a mscara da horrenda criatura:

    um nariz to bem feito, to acertado, que foi preciso observar para verifica-lo falso.

    Dos dois buracos sangrentos atulhados de algodo Heitor se livrou correndo, fugindo.

    Contudo, ele trazia a mscara, o resto que insistia em lhe perseguir, um objeto sombrio

    no interior da mo direita, exatamente onde esperava encontrar as chaves de casa. A

    operao de abjetar (expulsar, separar) no se mostrou suficiente para anular a condio

    de ser abjeto (ser repulsivo, emperrado; ser sujeito em risco). (FOSTER, 2014, p. 148)

    O retorno ao universo estabilizado da casa, em oposio rua, era tambm o

    retorno do real, vestgio do trauma, do carnaval. No fundo, percebe-se que a narrativa

    de Joo do Rio conserva, em seu desenlace, num surpreendente movimento performtico,

    o dispositivo testemunhal que determina a repetio e a constante

    posterioridade, ou seja, a volta aprs-coup da cena. (Seligmann-Silva, 2003, p.

    4849)

  • 10

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS:

    ANTELO, Ral. Introduo. In: RIO, Joo do. A alma encantadora das ruas: crnicas.

    SP: Cia das Letras, 2008.

    BAKHTIN, M. M. A cultura popular na Idade Mdia e no Renascimento: o contexto de

    Franois Rabelais. 5 ed. So Paulo: Hucitec, 2002.

    BATAILLE, Georges. O Erotismo. Porto Alegre: L&PM, 1987.

    FOSTER, Hal. O retorno do Real: a vanguarda no final do sculo XX. So Paulo:

    Cosac Naify, 2014.

    FOUCAULT. M. Microfsica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

    GOMES, Renato Cordeiro. Rio de Janeiro: Agir, 2005.

    KRISTEVA, Julia. Powers of Horror. An Essay on Abjection. Translatede by Leon S.

    Roudiez. New York, Columbia University Press, 1982.

    NESTROVSKI, A. SELIGMANN-SILVA, M. (Orgs.) Catstrofe e Representao.

    SP: Escuta, 2000.

    RIO, Joo do. A alma encantadora das ruas: crnicas. SP: Cia das Letras, 2008.

    ROUDINESCO, E. PLON, M. Dicionrio de psicanlise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. -

    SELIGMANN-SILVA, M. Histria, memria, literatura. (Orgs.) O testemunho na era das

    catstrofes. Campinas, SP: Ed. da Unicamp, 2003.

    SHECHTER, Relli. Selling luxury: The rise of the Egyptian cigarette and the

    transformation of the Egyptian tobacco market, 1850-1914. International Journal of

    Middle East Studies 35.1 (Feb 2003): 51-75.