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<ul><li><p>1 </p><p>QUEM NO TEM DO CARNAVAL A SUA AVENTURA?: ABJEO E </p><p>TESTEMUNHO NO CONTO O BEB DE TARLATANA ROSA, </p><p>DE JOO DO RIO </p><p> Prof. Dr. Joo Paulo AyubUFG/Regional Catalo </p><p> joaoayub@gmail.com </p><p>RESUMO: O conto O beb de Tarlatana Rosa, do escritor carioca Joo do Rio, conduz </p><p>a narrativa ao desvelamento de uma intensa experincia de abjeo, surpresa e horror, </p><p>sensao de angustioso imprevisto.... Num movimento que faz transbordar os excessos </p><p>caractersticos da temporalidade carnavalesca (realizao plena, efusiva, do baixo </p><p>corporal, nos termos de M. Bakhtin), o personagem Heitor de Alencar narra a histria de </p><p>um encontro espantoso com uma face desmascarada: o cair da mscara do beb de </p><p>tarlatana rosa abre as portas de entrada a uma territorialidade informe, violenta, espao </p><p>irredutvel de negao das formas corpreas consagradas que compem o rosto humano. </p><p>Sob a inspirao da afirmao de Georges Bataille, segundo a qual o excesso que </p><p>ilumina o sentido do movimento, pretende-se destacar o papel performtico da narrativa </p><p>literria de Joo do Rio no registro do processo de emergncia do Real, entendido aqui </p><p>enquanto dimenso do vivido que excede a capacidade de apreenso subjetiva. Esse </p><p>instante de desencontro com a realidade, evento traumtico, no pode ser representado </p><p>nos termos clssicos da representao enquanto adequao da expresso realidade. A </p><p>arte da narrativa ficcional se destaca no desafio que consiste em traduzir a experincia </p><p>intraduzvel da abjeo, materializada no conto atravs da imagem de uma cabea </p><p>estranha, uma cabea sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodo, uma </p><p>cabea que era alucinante - uma caveira com carne... A experincia do horror narrado </p><p>no conto revela, ainda, uma das caratersticas estruturantes do conceito de abjeo tal </p><p>como pensado por Bataille, qual seja, a relao indissocivel entre angstia e prazer, </p><p>desejo e medo. </p><p>PALAVRAS-CHAVE: Joo do Rio, representao, abjeo, testemunho, excesso. </p><p>- Eu adoro o horror. a nica feio verdadeira da Humanidade. </p><p>Joo do Rio </p><p>Introduo </p><p>O beb de Tarlatana Rosa, do escritor carioca Joo do Rio, pseudnimo literrio </p><p>de Joo Paulo Emlio Cristvo dos Santos Coelho Barreto (1881-1921), conduz a </p><p>narrativa ao desvelamento de uma intensa experincia de surpresa, abjeo e medo. A </p><p>histria contada pelo personagem Heitor de Alencar no conto de Joo do Rio uma </p><p>histria de mscaras!: neste domnio especfico da existncia humana, sustentado por </p></li><li><p>2 </p><p>formas de expresso as mais diversas, deliberadas ou inconscientes, assiste-se a </p><p>transmutao dos estados objetivos e subjetivos dos indivduos. A existncia encenada </p><p>num baile de mscaras se torna refm de um movimento de inverso em que a prpria </p><p>vida representa e ao mesmo tempo se v representada por figuraes ideais, imaginrias, </p><p>que escapam ao ritmo constrito da normalidade ordinria. Pe-se em jogo, enfim, a </p><p>possibilidade de irrupo daquilo que se encontra submerso ou apagado na dinmica da </p><p>vida cotidiana. </p><p>Oh! Uma histria de mscaras! Quem no a tem na sua vida?: Heitor de Alencar </p><p>encontra-se diante do baro Belfort, Anatlio de Azambuja (de que as mulheres tinham </p><p>tanta implicncia) e Maria de Flor (a extravagante bomia), e todos ardiam por saber </p><p>a aventura de Heitor. Entre um trago e outro de um gianaclis autntico, ele narra, ento, </p><p>a histria de um encontro espantoso com a face desmascarada de um folio, um beb de </p><p>tarlatana rosa, durante a visita ao baile pblico do Recreio. Heitor um personagem </p><p>que frequenta a boa sociedade carioca, como fica claro na reao de seus companheiros </p><p>ao receberem a proposta de irem todos visitar o carnaval de rua, pblico, da cidade do </p><p>Rio de Janeiro, o carnaval tal como era vivenciado do lado de dentro dos cordes. </p><p>O primeiro encontro de Heitor com o Beb foi marcante, porem fugaz, verdadeira </p><p>manifestao da efemeridade das relaes caractersticas das festas de carnaval, </p><p>atravessadas por uma temporalidade torrencial, alucinante. </p><p>Nesta primeira noite, sbado de carnaval, Heitor deitou um belisco na perna do </p><p>Beb, que caiu ao cho e disse: Ai que di!. O belisco fora devolvido no alvoroo da </p><p>noite de domingo: em plena avenida, indo eu ao lado do chauffeur, no borborinho </p><p>colossal, senti um belisco na perna e uma voz rouca dizer: para pagar o de ontem. </p><p>Somente na madrugada de tera-feira os dois voltaram a se encontrar: atracaram-se, </p><p>enfim, misturando os corpos e fluidos entre as frestas dos becos e das ruas escuras da </p><p>cidade, dando vazo a um mar de desejo incontido. Somente ao final deste encontro pde </p><p>Heitor vislumbrar o rosto desmascarado do beb de tarlatana rosa, movimento que abriu </p><p>as portas de entrada a uma territorialidade informe, violenta, espao irredutvel de </p><p>negao das formas corpreas consagradas que compem a face do humano. </p></li><li><p>3 </p><p>O carnaval de dentro dos cordes </p><p>Seja atravs da crnica, da reportagem ou dos gneros de fico, toda a escrita de </p><p>Joo do Rio contribui de modo surpreendente para a ilustrao de quadros caractersticos </p><p>da cidade do Rio de Janeiro do incio do sculo XX. Sob os traos do escritor, enxerga-</p><p>se um precioso retrato que restitui os laos sensveis, quase invisveis, que articulam numa </p><p>mesma unidade existencial a vida das pessoas e a do espao urbano. Como ele mesmo diz </p><p>em seu ensaio magistral sobre a rua, Oh! sim, as ruas tm alma! (2008, p. 34) </p><p>No conto O beb de tarlatana rosa, a atmosfera que enforma a descrio das </p><p>cenas da cidade, do movimento irredutvel que arrasta rua afora o conjunto heterogneo </p><p>de seus moradores, encontra-se profundamente contaminada pelo ambiente festivo do </p><p>carnaval. No de qualquer carnaval, mas do carnaval que avana sobre as horas do dia e </p><p>anuncia, num grito derradeiro, escancarado noite adentro, sua verdade profunda. E aqui, </p><p>mais uma vez, preciso escutar a voz do ensasta: A alma da rua s inteiramente </p><p>sensvel a horas tardias. (Rio, 2008, p.37) </p><p>Manifestao coletiva singular, o carnaval constitui-se num operador mximo da </p><p>transubstanciao do registro mais ou menos estvel das regras que organizam a esfera </p><p>social. Leis, hbitos, obrigaes morais e tabus de toda espcie so transgredidos no </p><p>perodo da festa, dando lugar a novas vias e formas de comunicao entre os sujeitos. </p><p>Segundo definio precisa de Mikhail Bakhtin, o carnaval caracteriza-se pela abolio </p><p>provisria das diferenas e barreiras hierrquicas entre as pessoas e a eliminao de certas </p><p>regras e tabus vigentes na vida cotidiana criavam um tipo especial de comunicao ao </p><p>mesmo tempo ideal e real entre as pessoas, impossvel de estabelecer na vida ordinria. </p><p>(2002, p. 14) </p><p>A manifestao subjetiva desse estado de coisas marcado pela suspenso do usual, </p><p>do convencional e do estvel nos domnios da comunicao e do contato entre os </p><p>habitantes da cidade repercute de modo intenso em cada frase de Joo do Rio. O escritor </p><p>identifica no vasto repertrio existencial inaugurado pela dissoluo momentnea das </p><p>formas de vida ordinria um componente estruturante deste tipo de experincia: a </p><p>aventura. E o sentido empregado por Joo do Rio a esse modo de ser que se manifesta </p><p>intensamente durante as festividades do carnaval radicaliza, em termos que se fazem </p><p>presentes tanto sob a perspectiva do ordenamento coletivo, quanto no da experincia </p><p>ntima de cada indivduo, sua potncia acidental, perigosa, imprevisvel, passageira e </p></li><li><p>4 </p><p>incerta. A aventura ressaltada j no primeiro pargrafo do conto, nas primeiras palavras </p><p>de Heitor de Alencar: </p><p>As ruas da cidade (a alma das ruas, tal como buscava enxerg-las o prprio Joo </p><p>do Rio) tambm incorporam o movimento imprevisto, desencadeado pelo jogo </p><p>transfigurador do carnaval. Seja atravs de descries da horda citadina que se transforma </p><p>sob a imposio da nova (des)ordem carnavalesca, seja pelas vias da resignificao e da </p><p>profanao de espaos consagrados, nada escapa pena incisiva do escritor, sempre </p><p>atento s formas tomadas pela ao corruptora do carnaval. mais ou menos isso o que </p><p>ocorre na cena em que Heitor e o Beb transitam por entre o edifcio de Belas Artes (Ao </p><p>fundo, o edifcio das Belas Artes era desolador e lgubre) e o Conservatrio de Msica </p><p>(Atravessamos a rua Luiz de Cames, ficamos bem em baixo das sombras espessas do </p><p>Conservatrio de Msica. Era enorme o silncio [...]). A queda inevitvel dos folies </p><p>ao nvel corporal da existncia, a imposio de desejos aflitos, testemunha tambm o </p><p>rebaixamento material daquilo que elevado, espiritual, ideal e abstrato. s imagens que </p><p>refletem o aspecto lgubre, fnebre, do edifcio das Belas Artes e o silncio mortal que </p><p>envolve o Conservatrio de Msica, soma-se um jogo de luz e sombra que adiciona um </p><p>carter penumbroso ao trnsito de humores e suspiros do casal. Heitor e o Beb vacilam </p><p>entre as ruas do Rio, e o ambiente tinha uma cor vagamente rua com a treva espancada </p><p>um pouco pela luz dos combustores distantes. </p><p>A expresso esttica que mergulha a narrativa sobre o limiar de um espaotempo </p><p>caracterizado pela impreciso de formas e arranjos precrios, indecisos, adquire </p><p>representao mxima nas passagens que articulam o encontro. Mas no s. O testemunho </p><p>de Heitor atesta o fato de que toda a cidade encontra-se submetida lgica do mundo s </p><p>avessas, gramtica existencial que submerge todas as esferas mundanas perspectiva </p><p>singular de uma baixeza material e corporal. Nesse sentido, tal como afirma Bakhtin sobre </p><p>as formas festivas do princpio corporal e material, o csmico, o social e o corporal esto </p><p>ligados indissoluvelmente numa totalidade viva e indivisvel. (2002, p. 17) </p><p>Joo do Rio prepara como ningum o movimento que faz transbordar os excessos </p><p>caractersticos da temporalidade carnavalesca. Mais uma vez, realizao plena, efusiva, </p><p>do baixo corporal. Submetido engrenagem existencial que repele a ordem e ressalta a </p><p>presena dominante dos instintos, este incontrolvel processo de redistribuio do </p><p>sensvel tudo transforma e transfigura: </p></li><li><p>5 </p><p> No o vi mais nessa noite, e segunda-feira no o vi tambm. Na tera </p><p>desliguei-me do grupo e ca no mar alto da depravao, s, com uma roupa </p><p>leve por cima da pele todos os maus instintos fustigados. De resto a cidade </p><p>inteira estava assim. o momento em que por trs das mscaras as meninas </p><p>confessam paixes aos rapazes, o instante em que as ligaes mais secretas </p><p>transparecem, em que a virgindade dbia e todos ns a achamos intil, a </p><p>honra uma caceteao, o bom senso uma fadiga. Nesse momento tudo </p><p>possvel, os maiores absurdos, os maiores crimes; nesse momento h um riso </p><p>que galvaniza os sentidos e o beijo se desata naturalmente. </p><p>Uma pasta oleosa e sangrenta: testemunho e abjeo </p><p>No h como no enxergar, sob a pena do contista, os traos inspirados do </p><p>jornalista e reprter do incio do sculo XX. Observa-se com facilidade a tonalidade da </p><p>voz do cronista Joo do Rio, autor de As religies do Rio, publicado em 1904, e A alma </p><p>encantadora das ruas, de1908, na experincia narrada por este tambm cronista da vida </p><p>da cidade, Heitor de Alencar. Joo do Rio se destacou como reprter num momento em </p><p>que, ao mesmo tempo, praticamente inventou o ofcio: a modernizao incipiente da </p><p>imprensa numa poca de profundas transformaes verificadas tambm em diversos </p><p>setores da sociedade brasileira ainda no havia distribudo em funes e mesas distintas, </p><p>no interior das redaes de jornal, as figuras do redator e do reprter.1 </p><p> importante destacar que o escritor abriu as portas de entrada a lugares at ento </p><p>postos margem da sensibilidade oficial. No exatamente por determinao da prtica </p><p>profissional (talvez tenha feito, mesmo, apesar dela). Sua escrita resulta da presena </p><p>consistente de um esprito determinado a flanar indistintamente por entre vielas mal </p><p>iluminadas, becos sujos, sales refinados e banquetes onde bem gastava a vida a elite da </p><p>ento capital federal. Determinado por um impulso irrefrevel a escutar e ilustrar a </p><p>diversidade de lugares e habitantes da cidade, o escritor arriscou-se em cada palmo de </p><p>rua, onde h suor humano na argamassa do seu calamento, revelando uma dedicao </p><p>irrestrita a cada pequeno espao onde transita a vida na cidade. Eu amo a rua, ele diz. </p><p>Neste carter que encontra expresso no exerccio vital do flneur, repercute </p><p>tambm de um modo singular certa disposio para uma relao estreitada com seres e </p><p>espaos limiares. Este encontro, contudo, no se d sem o risco da aventura, sem a </p><p>presena do perigo e, no limite, sem a ameaa da destruio. Tendo em vista a tenso </p><p> 1 - Ver, sobre a atuao profissional de Joo do Rio, a biografia de Renato Cordeiro Gomes, intitulada </p><p>Joo do Rio. </p></li><li><p>6 </p><p>subjacente histria da modernizao da cidade do Rio de Janeiro, verifica-se um </p><p>paralelo possvel entre a experincia vivida pelo sujeito Joo do Rio, inscrita em cada </p><p>linha de seus textos um mulato que cresceu na profisso mediante o esforo do prprio </p><p>trabalho, um sujeito gordo e homossexual , e a transformao profunda dos espaos </p><p>percorridos por ele. No perodo em que escreveu suas crnicas, a cidade enfrentava as </p><p>consequncias de um processo de ampla reformulao urbana: em 1902, sob a gesto do </p><p>prefeito Pereira Passos, iniciou-se a mais famosa reforma urbana submetida cidade do </p><p>Rio de Janeiro, conhecida tambm por Bota-abaixo.2 </p><p>A avaliao histrica desse processo deve dar conta do conjunto de foras que o </p><p>inscreve num regime de controle biopoltico da populao, ressaltando, ainda, todo o </p><p>aparato normalizador e moralizante das relaes sociais que o acompanha. Etapa </p><p>significativa na formao da medicina social, segundo Foucault (1979), a chamada </p><p>medicina urbana constituiu-se historicamente num fenmeno caracterstico da </p><p>biopoltica dos estados modernos. A capital federal do incio do sculo passado, atravs </p><p>no s do episdio da reforma urbana do Rio de Janeiro, mas tambm da campanha de </p><p>vacinao contra a varola de 1904, cuja resistncia popular ganhou o nome de Revolta </p><p>da Vacina, contribuiu de forma significativa para o que hoje pode ser visto como um </p><p>amplo processo de disciplinarizao e docilizao do corpo social. A partir da leitura da </p><p>obra de Joo do Rio, vale destacar, entre outras coisas, o modo como o escritor responde </p><p>a esse conjunto de foras que atuavam no enquadramento poltico da poca. De que modo </p><p>os personagens e os espaos cartografados pelo escritor experimentam um processo de </p><p>apagamento e retrao? Que sentido adquire sua escrita tendo em vista essa capacidade </p><p>peculiar de dar sentido ao marginal, ao excludo? Vale dizer que tais questes encontram </p><p>nas crnicas e contos respostas de considervel valor. </p><p>A investigao proposta neste artigo no tem a pretenso de indicar todo o alcance </p><p>da obra do escritor carioca para a compreenso da distribuio do sensvel que ela capaz </p><p> 2 - A significao desse processo de reconstruo urbana do Rio de Janeiro no incio do sc. passado </p><p>ultrapassa e muito o escopo de justificativas imediatas que apontavam para a necessidade de reorientao </p><p>do espao e de sua melhor distribuio. s operaes realizadas no mbito esttico, virio e sanitrio </p><p>corresponde uma transformao mais profunda, de ordem moral, que implicam novos jogos de </p><p>estratificao social e a materializao de barreiras sociais variadas. No caberia aqui uma discusso </p><p>aprofundada desse perodo histrico, bastando assinalar a fora da obra de Joo do Rio enquanto </p><p>composio esttica que responde aos movimentos de deslocamento e transformao humana no interior </p><p>da cidade, essa unidade existencial a cidade que articula vida e espao. </p></li><li><p>7 </p><p>de revelar e, ao mesmo tempo, subverter. Importa, sobretudo, destacar a presena do teor </p><p>testemunhal3 na escrita de Joo do Rio considerando os desafios impostos expresso </p><p>propriamente esttica daquilo que no pode ser representado nos termos da concepo </p><p>tradicional de representao.4 </p><p>O aspecto inapreensvel, indizvel, da face descarnada do beb de tarlatana rosa, </p><p>uma caveira com carne..., aponta para a presena de um evento singular, uma espcie </p><p>de buraco negro, cuja representao radicalmente negada ao registro da linguagem, </p><p>fundada em elementos universais. No conto de Joo do Rio est em jogo a possibilidade </p><p>de manifestao da realidade (real) enquanto aquilo que excede as dimenses do </p><p>simblico e do imaginrio, algo, portanto, inassimilvel pela experincia.5 Devido ao fato </p><p>de ser inapreensvel, a imagem perturbadora provocou uma combusto interna em Heitor: </p><p>Despeguei-a, recuei num imenso vmito de mim mesmo. Todo eu tremia de horror, de </p><p>nojo. O pavor, o horror e o nojo constituem uma espcie de resduo, resto de um </p><p>acontecimento que, inevitavelmente, escapa quele que o testemunha. De acordo com </p><p>Seligmann-Silva (2000), ao comentar a situao dos sobreviventes dos campos de </p><p>concentrao da segunda guerra mundial, se est diante da impossibilidade de reduzir o </p><p>acontecido ao meramente discursivo, dado que o momento da representao destrudo </p><p>devido singularidade absoluta desse evento-limite. Sendo assim, ao identificarmos a </p><p>impossibilidade da representao nos termos de uma correspondncia ou adequao da </p><p>realidade a um enunciado lingustico; ou ento, considerando-se o repertrio cultural e </p><p>lingustico desde sempre insuficiente por basear-se em generalizaes em vista das quais </p><p>o evento est sempre aqum de ser compreendido, condenando toda tentativa de </p><p>represent-lo a um fracasso priori, resta somente a manifestao concreta do </p><p>testemunho diante do fato vivido. </p><p> 3 - De acordo com Mrcio Seligmann-Silva, o testemunho deve ser compreendido tanto no sentido jurdico </p><p>e de testemunho histrico [...], como tambm no sentido de sobreviver, de ter-se passado por um evento-</p><p>limite, radical, passagem essa que foi tambm um atravessar a morte, que problematiza a relao entre </p><p>a linguagem e o real (Seligmann-Silva, 2003, p. 8) 4 - A noo clssica de representao, entre outras coisas, admite que o real pode ser apreendido por meio </p><p>de sistemas de significao, configurando um discurso autnomo sobre a verdade daquilo que </p><p>representado. 5 - Determinao muda de um instante traumtico, o real caracteriza-se fundamentalmente por uma </p><p>perda do objeto, desencontro com o real, assinalando, ainda, uma ruptura ou confuso entre o sujeito </p><p>e o mundo, entre o dentro e o fora. (Foster, 2014, p. 129) </p></li><li><p>8 </p><p>H, ainda, outra questo importante no interior desta temtica que traduz a </p><p>impossibilidade da representao de eventos-limites, qual seja, a incapacidade de </p><p>experimentao desses eventos por parte do sujeito que os vivencia. As coisas tornamse </p><p>infinitamente mais complexas se consideramos a relao do sujeito com esse tipo de </p><p>evento a partir do registro da experincia traumtica, momento em que