qualificacao do ensino basico documento para discussao

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    PRESIDNCIA DA REPBLICA SECRETARIA DE ASSUNTOS ESTRATGICOS

    PTRIA EDUCADORA:

    A QUALIFICAO DO ENSINO BSICO COMO OBRA DE CONSTRUO NACIONAL

    Este documento, proposta preliminar para discusso, apresenta diretrizes de um projeto nacional de qualificao do ensino bsico. O documento divide-se em duas partes. A primeira parte -- A TAREFA -- esboa o iderio do projeto. A segunda parte -- INICIATIVAS -- elenca conjunto de aes que, executadas em ordem sucessiva, comeariam a dar realidade ao iderio.

    Braslia, 22 de abril de 2015

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    PARTE I: A TAREFA O Brasil j avanou decisivamente na ampliao do acesso ao ensino, desde a creche at a universidade. H muito ainda a fazer para assegurar a universalizao do acesso em todos os nveis. No podemos, porm, aguardar que a universalizao se complete para enfrentar nosso outro grande problema em matria de educao pblica: a qualidade do ensino. A onda da ampliao precisa ser seguida agora por onda de qualificao. Nossa situao dramtica. No h outro pas entre as maiores economias do mundo que figura, como figura o Brasil, entre os pases com pior desempenho nas comparaes internacionais. Oito estados brasileiros tm, pelos critrios utilizados nestas comparaes, resultados piores do que o ltimo pas nos rankings. No final do terceiro ano do ensino mdio, mais da metade dos alunos mal consegue ler ou escrever texto simplrio. E s pequena porcentagem alcana em matemtica nvel considerado internacionalmente aceitvel. A tarefa de qualificar o ensino pblico desdobra-se em trs vertentes: a construo de iderio que oriente a transformao pretendida; a definio de elenco de aes que sinalize o caminho e identifique os primeiros passos para trilh-lo; e a organizao de debate que engaje a nao na definio e execuo da tarefa. Na histria moderna, os que lideraram a qualificao do ensino pblico tornaram-se figuras centrais na histria de seus pases, identificados como refundadores ou libertadores de suas naes. Foi no sculo 19 o caso de Domingos Sarmiento na Argentina e no sculo 20 o de Jos Vasconcelos no Mxico. No Brasil, Ansio Teixeira foi quem mais se aproximou deste papel, embora tenha ficado longe de exercer influncia da dimenso destes inovadores. No h na histria do Brasil ou do mundo um nico exemplo de grande mudana em educao que no tenha sido liderada por grupo coeso e vanguardista, com posio dentro do Estado ou influncia forte sobre as polticas pblicas. Em cada caso de transformao, tal grupo formou iderio que definiu trajetria. Traduziu o iderio em iniciativas que representaram os primeiros passos de caminho ambicioso. E construiu,

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    com base no iderio e nas iniciativas, mstica nacional capaz de despertar adeso e arrebatamento. No h exemplo de qualificao do ensino que tenha dado certo apenas pelo caminho de aes pontuais, por mais meritrias que fossem. H de haver, mais em educao do que em qualquer outro campo, dialtica entre a viso inspiradora e as iniciativas imediatas. Ao mexer simultaneamente com instituies e com conscincias, qualquer mudana sria em educao revolucionria em seu alcance, ainda que progrida em partes e por etapas. Ningum faz revoluo com mentalidade ou mtodo de tecnocrata.

    O contexto maior da empreitada O esforo para qualificar o ensino pblico surge no Brasil dentro de contexto maior: a construo de nova estratgia de desenvolvimento nacional. Nas ltimas dcadas nosso crescimento econmico foi alavancado pela produo e exportao de commodities e pela popularizao do consumo. Milhes de brasileiros foram resgatados da pobreza. A alta no preo de nossos produtos agropecurios e minerais obscureceu, porm, as limitaes e as fragilidades desta maneira de crescer. Temos agora de fazer a travessia para outra estratgia de desenvolvimento: produtivismo includente, pautado por democratizao de oportunidades econmicas e educacionais. Trata-se de democratizar a economia do lado da oferta, no apenas, como foi at agora, do lado da demanda. A democratizao do lado da demanda pode progredir s com dinheiro. A democratizao do lado da oferta requer inovao institucional. E tem por contraparte e condio o aprofundamento da democracia. O objetivo, mais do que construir novas vantagens comparativas na economia mundial, dar a cada brasileiro chance melhor para ficar de p. neste quadro que se insere a qualificao do ensino bsico: ela a parte mais importante deste novo modelo de desenvolvimento -- produtivista, capacitador e democratizante.

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    Pontos de partida A proposta a construir e a implementar tem trs pontos de partida. 1. Aproveitar e ultrapassar o exemplo do que deu certo. Nos ltimos anos o Brasil viu grande nmero de experimentos na tentativa de melhorar os resultados do ensino pblico. Muitos destes experimentos seguiram lgica de eficincia empresarial, valendo-se de prticas como a fixao de metas de desempenho, a continuidade da avaliao, o uso de incentivos e de mtodos de cobrana, o acompanhamento e, quando necessrio, o afastamento de diretores, a despolitizao da escolha de diretores e a individualizao do ensino, especialmente para alunos em dificuldade. Tais prticas surtiram efeitos positivos inegveis. Devem ser incorporadas ao projeto de qualificao do ensino pblico. Esto, porm, longe de compor o conjunto do projeto de que precisamos: so mais eficazes nos degraus inferiores do ensino bsico do que nos superiores; tm eficcia decrescente, uma vez alcanado o patamar que possibilitam alcanar; deixam intocado o paradigma curricular e pedaggico e no sustentam o movimento de que precisamos para enfrentar interesses e preconceitos contrariados. Temos muito a aprender com a orientao empresarial. Precisamos, contudo, de muito mais do que ela capaz de oferecer. 2. Mudar a maneira de ensinar e de aprender. Nosso ensino tradicionalmente pautado por enciclopedismo raso e informativo. De acordo com o ponto de vista que imperou no Brasil, o melhor aluno seria o que melhor conseguisse decorar a enciclopdia ainda que no demonstrasse capacidade para mobilizar a informao a servio do raciocnio analtico. A interpretao de textos exemplifica o problema. Mesmo quando vence a barreira da alfabetizao funcional grande parte de nossos alunos no consegue ou mal consegue interpretar textos, sobretudo quando nestes textos se introduz algum componente de abstrao. Instados a interpretar o texto, repetem seu contedo, literalmente ou por parfrase. Oscilam entre repetio e devaneio.

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    Que futuro pode ter um pas em que repetio e devaneio so as nicas duas maneiras de responder a ideias escritas? O que encontram dificuldade em fazer os estudantes formados por este regime destrinchar os elementos do texto, compreender e explicar as relaes entre eles e tom-los como base para outras formulaes. Tal prtica pedaggica a negao de ns mesmos: das caractersticas mais constantes de nossa maneira de ser. E contradiz os requisitos do experimentalismo cientfico e do vanguardismo tecnolgico. Precisamos de ensino que use o aprofundamento seletivo como palco para a aquisio de capacitaes analticas, direcionadas s habilidades centrais de anlise verbal e de raciocnio lgico. E que permita massa de alunos, vindos do meio pobre, superar as barreiras pr-cognitivas que os impedem de aceder s capacitaes analticas. Ser obra de libertao. 3. Organizar a diversidade para permitir a evoluo. Nunca tivemos sistema nacional de ensino. A educao pblica no Brasil tem sido simultaneamente desorganizada e uniforme: uniforme no conformismo com a mediocridade. Ao propor organizar sistema nacional de ensino, corremos o risco de nos deixar seduzir pela associao de organizao com uniformidade. Resistamos a esta tentao. A imposio de planilha uniforme ao ensino brasileiro seria incompatvel com nosso federalismo e com nossas diferenas. E suprimiria o espao para o experimentalismo. Nosso objetivo deve ser o de substituir a uniformidade desorganizada pela diversidade organizada. Sem organizao no h como aprender com a experincia. No h como evoluir.

    Eixos da qualificao do ensino pblico A transformao do ensino pblico que comece nestes pontos de partida deve incluir iniciativas em quatro campos: a organizao da cooperao federativa na educao; a reorientao do currculo e da maneira de ensinar e de aprender; a qualificao de diretores e de professores e o aproveitamento de novas tecnologias.

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    Cada aspecto deste projeto animado pelo mesmo esprito: o de construir ensino que d olhos energia humana que fervilha, desequipada, no Brasil.

    Construir o federalismo cooperativo no ensino bsico Em todos os setores das polticas pblicas, avanos costumam depender de cooperao dentro da federao. Graas ao Sistema nico de Sade (SUS), a cooperao federativa est desenhada muito melhor na sade do que na educao. Na educao temos apenas elementos fragmentrios do federalismo cooperativo, explcito no desenho do FUNDEB e implcito na prtica do FNDE. O Plano Nacional de Educao invoca o regime de cooperao, porm no o desdobra em pormenor. Nunca vivemos na educao movimento como aquele que culminou no SUS. Maneira simples de colocar a problemtica do federalismo cooperativo na educao dizer que se destina a reconciliar a gesto das escolas pelos estados e municpios com padres nacionais de investimento e de qualidade. A qualidade do ensino que uma criana brasileira recebe no deve depender do acaso do lugar -- ou da classe social -- em que ela nasce. A soluo em pas de nosso tamanho, de nossa complexidade e de nossas tradies polticas e constitucionais no federalizar o ensino bsico. organizar o federalismo cooperativo em educao. Para reconciliar gesto local com padres nacionais, precisamos de trs instrumentos: sistema nacional de avaliao e de acompanhamento; mecanismo para redistribuir recursos e quadros de lugares mais ricos para lugares mais pobres e procedimentos corretivos para consertar redes escolares locais defeit