qual é a crítica da geografia crítica

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  • O QUE CRTICA.OU: QUAL A CRTICA DA GEOGRAFIA CRTICA?

    Jos William Vesentini*

    RESUMOEste texto procura problematizar o que crtica. Para isso realiza um breve histrico do vocbulodesde a Grcia antiga, onde surgiu, at Kant, pensador que redefiniu essa atitude. De fato, a partir deKant inclusive em autores como Hegel, Marx, Adorno, Habermas e outros crtica passou a ser vistacomo superao com subsuno e como engajamento num projeto de autonomia. Alm disso, esteensaio procura verificar como o termo crtica tem sido entendido na geografia crtica, mostrando queesta uma questo e um importante debate em andamento nos dias de hoje.

    PALAVRAS CHAVE: crtica, autonomia, geografia crtica, ps-modernidade.

    ABSTRACTThis text has tried to understand critical as an intellectual issue. Thereby, a brief history of the word isproduced: since the Ancient Greece, where the word was created, until Kant, thinker who redefinedthis expression and attitude. Indeed, from Kant include authors like Hegel, Marx, Adorno, Habermasand others critical means an overcome with subsume and at the same time a commitment in anautonomy project. Moreover, this essay has tried to verify how the word critical has been understoodin the critical geography, showing that this is an important question and argument that has gone onnowadays.

    KEY WORDS: critics, autonomy, critical geography, postmodernism.

    Geografia ou geografias cr t icas. Abibliografia da/sobre essa vertente geogrficaj bastante significativa. Entretanto, umadvida se impe: o que crtica? Em que sentidoesse verbete vem sendo empregado na(s)geografia(s) cr t i ca(s)? Qual , a f inal , osignificado do adjetivo crtico, frequentementeut i l izado, algumas vezes com d iferentessentidos, em vrias reas do conhecimento?(Basta lembrarmos das ideias de reflexo crtica,atitude crtica, teoria crtica, pensamento crtico,ensino crtico, pedagogia crtica, racionalismocrtico e inmeras outras).

    Esta preocupao, longe de ser diletanteou superficial, algo que se impe fortemente

    com as mudanas na realidade social, emespecial com a crise terminal do antigo mundosocialista e com a relativizao das noespolticas de esquerda e direita, que para muitosno tm mais sentido na realidade atual. Comoiremos esquadrinhar logo adiante, a noo decrtica (especialmente a crtica social) a partirda Revoluo Francesa e principalmente notranscorrer do sculo XIX viu-se associada ideia poltica de uma esquerda, isto , quelesque propugnavam uma mudana radical nasociedade com vistas a uma maior igualdade eliberdade. Por isso tornou-se muito comum aidenfificao das noes de crtica e de radical,que tambm iremos problematizar.

    GEOUSP - Espao e Tempo, So Paulo, N 26, pp. 29 - 43, 2009

    * Professor Livre Docente do Departamento de Geografia da FFLCH da Universidade de So Paulo. E-mail: jwilliam@uol.com.br

  • 30 - GEOUSP - Espao e Tempo, So Paulo, N 26, 2009 VESENTINI, J.W.

    Para incio de conversa, a verdade queningum mais sabe ao certo o que esquerda edireita hoje. Isso por vrias razes. Pelo fracassode todas as experincias autodenominadassocialistas, fundamentadas bem ou mal nomarxismo e tendo se apresentado como crticasao capitalismo e alternativas radicais a ele. Pelacrescente complexizao da sociedade moderna,em especial com o declnio das lutas trabalhistasque tanto marcaram o sculo XIX e a primeirametade do XX, lutas essas sempre identificadascom a esquerda e com todas as vertenteslibertrias ou socialistas. Pelo advento de novossujeitos e frentes de lutas no plural feministas,ecolgicas, tnicas, de orientao sexual, demoradia, imigrantes de regies pobres em reasmais desenvolvidas, etc. , que por vezes soat antagnicos. Pela expanso e o enormepoderio da mdia, que juntamente com aspesquisas de opinio faz com que praticamentetodos os partidos polticos reformulem os seusdiscursos em funo do que o pblico quer nesteou naquele momento independentemente de suaposio ideolgica (se que isso ainda existe).Por tudo isso, reiteramos, as noes de esquerdae direita tornaram-se problemticas para definirtodo um espectro de posies polticas no mundoatual. Existe ainda uma perda de referncias. Agrande bandeira de luta da velha e heroicaesquerda, aquela do sculo XIX e da primeirametade do sculo XX, a de uma sociedadeutpica1 que garantisse concomitante o mximode liberdade e de igualdade, foi completamentedestroada por inmeros acontecimentos eestudos cientficos: pela triste realidade de todosos socialismos reais, em primeiro lugar, e tambmpor pesquisas e reflexes lgico-matemticas, taiscomo, por exemplo, aquelas do prmio Nobel deeconomia Amartya SEN (2001), nas quais sedemonstra cabalmente que impossvel existirum mximo de igualdade sem sacrificar aliberdade e vice-versa.

    Nesses termos, alguns autores que seconsideram progressistas e apregoam um mundomelhor, com maior justia entendida comogarantias para as liberdades democrticas, queno so algo eterno e acabado e sim partes deum processo de constante criao e reinveno

    de direitos e igualdade (embora nunca total),falam em ir alm da esquerda e da direita(LEFORT, 1983; GIDDENS, 1995), enquanto quealguns poucos outros despendem os maioresesforos no sent ido de conservar, emboraredefinindo, essas categorias polticas (BOBBIO,1995; FAUSTO, 2007).

    A manuteno desses rtulos algo queno Brasil e na Amrica Latina em geral umesforo quase exclusivo da autodenominadaesquerda, sendo que nos Estados Unidos, aoinverso, mais identificado com os conservadores no deixa de pagar um elevado preo terico.De fato, trata-se mais de um apego a umaidentidade vista como positiva (esquerda naAmrica Latina e direita nos Estados Unidos), queno fundo faz parte da autodefinio de certaspessoas e grupos, uma tentativa de se manterfiel a um certo passado (ou a determinadastradies), e no extremo no caso de algunspartidos algo que visa angariar simpatias evotos.

    Sem dvida que existem tericos srios ebem intencionados que procuram manter essesrtulos polticos. No estamos nos referindo aautores panfletrios com visveis insuficienciastericas, que no conseguem ir alm domarxismo-leninismo, do tipo Igncio Rangel, EmirSader, Robert Kurz e outros, que escrevem comose ainda vivssemos no sculo XIX, que serecusam a analisar seriamente e aprender com a experincia dos totalitarismos (nazismo,fascismo e comunismo), que menosprezam asconquistas democrticas. Pensamos em tericosdo calibre de Norberto BOBBIO (1995) e RuyFAUSTO (2007), entre alguns poucos outros.Bobbio, por exemplo, acredita que a esquerdahoje define-se fundamentalmente pela busca deuma maior igualdade social, enquanto que adefesa da liberdade seria mais um atributo dadireita. E Fausto pensa que uma esquerda nosdias atuais deve ser defensora intransigente dademocracia por sinal, Bobbio tambm advogaessa posio, embora identificando democraciacom o liberalismo, algo que Fausto repudia e iralm do marxismo (posio tambm defendidapelo liberal Bobbio), deixando de lado a ideia de

  • O que crtica. Ou: qual a crtica da geografia crtica?, pp. 29 - 43 31

    uma ditadura do proletariado (ou de qualqueroutro tipo de ditadura) e mesmo a de umaeconomia planificada sem a propriedade privadanos moldes genericamente apontados por Marx,recuperando o ideal anarquista e socialista utpicode autogesto, de cooperativas de pequenosprodutores ou trabalhadores, etc.

    Essas proposies, contudo, emborasejam as mais palatveis (sem dvida que as maisdemocrticas) entre os que se autointitulam deesquerda, nos parecem em certa medida frgeis.Primeiro, no caso de Bobbio, significaria deixarde lado os reclames por liberdades (contra asprises arbitrrias e a tortura, contra a violaodos direitos humanos, pela ampliao dos direitosdas mulheres, dos homossexuais, das etniasminoritrias, dos idosos, etc.) para a direita, algoevidentemente absurdo e oposto a toda tradioprogressista da esquerda. certo que Bobbioassinalou que a liberdade que a direita maisdefende a do mercado, mas mesmo assiminsistiu que a bandeira de luta da esquerda basicamente a igualdade e no as liberdades. Emesmo a liberdade do mercado algo que nosdias atuais inclui a proteo dos consumidores,o combate aos cartis e monoplios, inclusivequeles estatais, etc. fundamental paraqualquer democracia moderna na medida em queainda no foi encontrado um substituto aceitvel.Durante algum tempo pensou-se que aestatizao e a planificao da economia fossemmelhor que o mercado, mas isso j foicompletamente descartado ao ponto de algunsautores da new left, inclusive economistas queparticiparam de planos quinquenais na Hungria ena China na poca em que vigorava a economiaplanificada, terem afirmado que se houver umnovo socialismo no sculo XXI sem dvida queele ter por base a economia de mercado (cf.NOVE, 1989). Depois, existe o fato bvio de quesomente a vigncia da democracia, logo dasliberdades e da participao, que pode garantirum mnimo de igualdade mas nunca total, poisisso um sonho utpico no sentido literal dapalavra [isto , que no existe em lugar algum],tal como a ilha imaginada por Thomas Morus. Naprtica, a prpria vigncia das liberdades conduza uma certa desigualdade na medida em que as

    pessoas e os grupos so desiguais nas suaspotencialidades, nas suas necessidades, no seuvalor de barganha para a sociedade, nacriatividade ou nas formas de luta, etc. E tentarimpor uma igualdade total atravs da nica formapossvel, qual seja, pela fora atravs de umregime no democrtico um partido nico nopoder (ou um l der carismtico) que dizrepresentar os trabalhadores ou o povo , comofoi demonstrado ad nauseam, algo que sempreresulta em privilgios abusivos para alguns, quemandam e desmandam de forma arbitrria, queusam em seu proveito pessoal os bens tidos comopblicos. Quanto posio de Fausto, acreditoque de fato seja interessante investir esforos nabusca de alternativas libe

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