Psicopatologia Fenomenológica - Gestalt- ?· 1 Loeci Maria Pagano Galli Psicopatologia Fenomenológica…

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    Loeci Maria Pagano Galli

    Psicopatologia Fenomenolgica

    Psicopatologia o estudo dos transtornos da conduta. A palavra conduta provm do latim e quer dizer conduzindo ou guiando.

    A psicopatologia toma suas origens da filosofia alem e, mais particularmente, da obra de Husserl (1859-1938) e de Heidegger (1889-1976). A contribuio da fenomenologia conduziu a uma pluralidade de pontos de vista em psicopatologia. Dois mtodos so mais conhecidos, o primeiro que se pode qualificar de descritivo dos fenmenos de Karl Jaspers (1883 1969) nesta concepo a psicopatologia ocupa-se, sobretudo como os doentes vivem, visa desvelar significaes. O segundo mtodo o de Ludwig Binswanger (1881 1966) seu trabalho conduz a Daseinsanalyse (anlise existencial, anlise da presena humana), atitude partindo da compreenso do homem em todas as suas formas e todos os seus mundos. De acordo com Binswanger preciso compreender o mundo do doente e de situar os momentos que contriburam para desenvolver a estrutura de sua personalidade.

    Os planos qualitativos de pesquisa se iniciam com observaes especficas, com o exame minucioso de casos individuais. Tentar compreender os fenmenos tais como naturalmente vo surgindo constitui a prpria justificativa da utilizao de planos qualitativos de empregar uma anlise indutiva e do desenrolar na forma de uma entrevista naturalista.

    A reflexo de Heidegger (1997) em Ser e Tempo sobre o ser humano segundo Binswagner se tornou indispensvel para a psiquiatria enquanto cincia. Sua ontologia fundamental no apenas se converteu num marco do pensamento filosfico do sculo XX, como causou grande repercusso nas cincias humanas. A daseinsanalyse foi aplicada por Binswanger e Minkowski, entre outros, na compreenso das doenas mentais.

    A noo do ser-no-mundo difundiu-se amplamente pelas cincias humanas desde que foi formulada por Martin Heidegger no tratado Ser e Tempo (Sei und Zeit) de 1927. Ele busca em sua obra o sentido do ser. A investigao fenomenolgica de Heidegger de carter ontolgico1, isto ; busca as determinaes essenciais do ser dos entes2. Dessa maneira pretende sempre se situar aqum de plano emprico ou ntico3 (dos entes) e constituir-se na condio de possibilidade do mesmo.

    1 Ontolgico designa o pensar curioso, espantado, assustado sobre o fato de que eu existo e de que qualquer coisa exista (Safranski, Rdger). Heidegger, um mestre da Alemanha entre o bem e o mal. So Paulo: Gerao Editorial, 2000. p.190 2 Entes - Palavra grega ou latina que hoje traduzimos por entes, no h traduo em portugus. As coisas que so agora. Os gregos usavam a palavra ou, assim como ns falamos objetos. Ente em grego foi o conceito geral para objeto. Precisamos de uma palavra para falar de todas as coisas. Ser sempre o ser de um ente. Heidegger (1997) 3 ntico - A expresso ntico designa tudo que existe.

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    O ser no mundo pode ser desmembrado em trs partes: o ser, o mundo e o em. O mundo em que o ser , o quem no mundo, e o modo de ser-em-si-mesmo. A mundaneidade (materialidade) s se deixa caracterizar mediante a compreenso do ser para quem existe um mundo, o ser que -no-mundo, por sua vez, s se revela a partir de sua morada (o mundo), e a relao de ser-em pressupe a compreenso dos termos que se relacionam no modo do em. O homem no primeiramente para depois criar relaes com um mundo, ele homem na exata medida de seu ser-em, isto , na exata medida em que possui um mundo ou abre o sentido de um mundo.

    No h sentimento, comportamento ou qualquer outro modo de ser de uma pessoa que exista isoladamente como um fenmeno em si. Se olharmos de perto, veremos que a angustia de uma pessoa, que nos parece vir de dentro, est tambm fora, que em ltima instncia no existe nem dentro e nem fora e que em seu ser, algum s se angstia porque o mundo o arrasta em sua angstia, isso reflete uma inseparabilidade.

    A perspectiva ontolgica compreende um sintoma ou sndrome no como uma coisa individual, mas como um estilo de ser no mundo, uma postura total, e que como tal pode ser encontrado em vrios domnios da atividade humana.

    O sintoma enquanto estilo de ser um modo do ser-a impregnado de uma determinada experincia. A abordagem existencial, portanto opera a partir da compreenso do mundo como o indivduo se instalou na estrutura do ser no mundo. Um sintoma pode ser compreendido como um estilo de ser no mundo, no modo que ele se d existencialmente. De acordo com Merleau-Ponty (1908-1961) o campo fenomenal da experincia vivida, da insero no mundo, aquele que d sentido a existncia de certos fatos objetivos isolados.

    Sabemos que o organismo adaptvel s condies do meio exterior, os poros fecham-se com o frio, as pupilas dos olhos contraem-se com o brilho da luz, assim tambm nos adaptamos psicologicamente. Este processo constitui a interpretao e o ajuste personalizado realidade de um ser humano nico. Toda a pessoa nasce com um valor prprio e incondicional. De acordo com Heidegger a essncia do Dasein encontra-se em sua existncia no h essncia do ser j que ser-uma-essncia em si mesmo um modo de ser. A questo sobre o que faz um ente ser o que ele , portanto sobre o que perfaz seu ser-o-que, sobre a entidade dos entes.

    Essncia aqui apenas uma outra palavra para ser (no sentido de entidade) significa o acontecimento medida que acontece. Ser no : ser essencializa. A essncia do Dasein encontra-se em sua existncia. O Dasein responsvel pelo seu ser-com. O Dasein d um passo frente para dentro do mundo e faz algo de si mesmo; ele ecsttico, excntrico. Existenz no envolve nenhum contraste com essncia ao contrario de Sartre de que a existncia precede a essncia. Heidegger frequentemente escreve ex-sistenz ou Ek-sistenz para enfatizar o passo para fora. Faz-se presente por si mesmo.

    O conceito existencial (o de Heidegger) de existncia significa o ser si mesmo do homem medida que est relacionado no com o si mesmo individual, mas com o ser e a relao com o ser.

    Existenz concerne relao do Dasein com ser, mais do que com os entes, significa encontrar-se em, encontrar-se na abertura ecsttica do tempo, e em seu sentido corrente urgncia, permanecer na incessante relao essencial com o ser dos entes.

    Heidegger forja um outro adjetivo existencirio, aplica-se estrutura ontolgica da existncia, relaciona-se ao leque de possibilidades aberto para o Dasein, a compreenso que delas possui e a escolha que faz (ou recusa) entre elas. Se Dasein escolhe escolher e decide, estes so problemas existencirios. A distino entre

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    existencial e existencirio anloga distino entre ontolgico e ntico, embora estes no se restrinjam a Desain.

    Somos irrepetveis no decorrer de toda a histria humana, mas nossa capacidade de auto avaliao em grande parte resultado da relao familiar, se o amor dos pais era condicional, que s se manifestava quando atendamos suas exigncias e desaparecia quando no atendamos o que queriam, seu amor estava condicionado a nosso desempenho, nosso valor ento de alguma forma estaria fora de ns, em nosso interior no poderia surgir nenhum amor-prprio, auto-estima, auto-respeito. Desistimos muito cedo de ser ns mesmos para tentarmos ser outra pessoa.

    No h duvida sobre a atitude que cada um de ns tem em relao a si mesmo, a mais importante de todas, ela estar sempre afetando nossas outras atitudes, influenciando nossa forma de ver e contatar a realidade, ex: se me vejo um fracassado, ajo como tal. Diante de qualquer relao nova com mentalidade de fracassado que reajo. Nossas expectativas de fracasso do luz a nossos fracassos.

    Segundo Carl Rogers (1902-1987), na verdade todos podem ter os mesmos problemas, mas apresentam sintomas diferentes, o verdadeiro problema no aceitar-se e respeitar-se. Se pudermos desenvolver uma aceitao plena do outro, cresceremos individualmente em auto-aceitao e auto-compreenso. Quando nos conhecemos verdadeiramente aprimoramos nossa qualidade de vida. Os traos de maturidade podem ser reconhecidos pela capacidade de ir em direo aos outros, ter auto-suficincia razovel, exercer sua vontade, ter flexibilidade, estabilidade emocional e capacidade adaptativa.

    Se uma flor for atingida por uma forte geada fora da estao, ela no se abrir; a pessoa da mesma forma, quando no recebe amor, afeto, afago, precisa suportar sua ausncia, assim seu afeto se torna preso em si mesmo. A dinmica da personalidade fica emperrada, e quando a personalidade apresenta danos, chama-se neurose ou psicose, os gestalt-terapeutas chamam de ajuste criativo. O terapeuta precisa ver o valor criativo em uma resistncia; embora ela seja evitao de um comportamento, na verdade ela contato intra-psquico, pois se protege de um possvel sofrimento. Estar encoberto uma realidade existencial no um estado patolgico. O reconhecer este existencial de forma compartilhada que permite a cura. Podemos entender conflitos interiores como conflitos entre a existncia do organismo e o social.

    Em Gestalt-terapia, quando a fenomenologia empregada como mtodo, quer dizer que preciso observar a realidade com ateno, descrev-la no sentido lato do termo. A totalidade ocorre no aqui e agora, portanto mister estar atento temporalidade e espacialidade na qual a pessoa se movimenta e se revela na vida. importante observar a pessoa no seu modo de agir verbal e no-verbal.

    O ente pode mostrar-se desde si mesmo de diversas

    maneiras, cada vez segundo a forma de acesso a ele.

    Inclui-se a possibilidade de que o ente se mostre como

    o que ele no em si mesmo Neste mostrar-se o ente

    parece. Quer dizer um bem que parece tal, porm em

    realidade no o que pretende ser. Fenmeno

    igual ao que se mostra. Fenmeno igual a

    aparncia.

    (Heidegger, 1997, p. 52)

    No mostrar-se, esse ente parece (tem o aspecto de) semelhante mostra-se significa parecer. Uma pessoa mostra-se fria e distante como ajuste criativo para se

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    auto-proteger. Pode parecer insensibilidade, porm, nesse caso, o que aparece no reflete seu verdadeiro self, mas um comportamento defensivo de um falso self ou self possvel.

    Em qualquer diagnstico h sempre uma viso do mundo antes do mundo, uma teoria antes de uma pessoa, um saber antes de um acontecer. Diagnosticar aprisionar o ser do outro. Perls (1997) fez a ruptura com a frieza e o distanciamento para dar lugar ao encontro humano e ao conviver.

    Perls definia a sade e a maturidade psicolgica como sendo a capacidade de emergir do apoio e da regulao ambientais para um auto-apoio e uma auto-regulao, o elemento fundamental no auto-apoio e na auto-regulao o equilbrio, uma das premissas bsicas da Gestalt-terapia de que todo o indivduo possui potencialidades naturais que possibilitam buscar o equilbrio do seu organismo. Perls considera o ritmo de contato / fuga com o meio ambiente como o componente principal do equilbrio organsmico.

    Indivduos auto-apoiados e auto-regulados caracterizam-se pelo livre fluir e pelo livre delineamento mais claro da formao fugura-fundo nas expresses de suas necessidades de contato e retraimento.

    De acordo com Perls temos cinco camadas at o crescimento psicolgico. As pessoas vivem papis e tratam de ser aquilo que no so criando vcios e neste

    processo renunciam grande parte de si mesmo. Cinco camadas at o crescimento psicolgico. 1 camada - Clichs - O jogo opressor / oprimido surge da tentativa de doutrinar o

    outro criando ameaas para que se comportem bem, os clichs incluem sinais de contato tais como: bom dia, oi, o tempo est bom no ?

    2 camada - Fbica So papis ou jogos do como se em que as pessoas fingem

    que so aquelas que gostariam de ser, o homem de negcios competente, a pessoa importante, etc. Na medida em que tomamos conscincia das condutas e manipulaes que nos foram impostas, surgem alguns temores com a finalidade de mant-las, aparece o desejo de evitar condutas novas ou fantasias de eventuais conseqncias que podero acarretar impedimento para que aparea o comportamento genuno.

    3 camada Impasse - Camada da anti-existncia ou do evitar fbico. Aqui

    experimenta-se o vazio, o nada , o ponto em que para evitarmos o nada interrompemos nossa camada de conscincia e retrocedemos camada dos papis. Se conseguirmos manter a autoconscincia neste vazio, alcanaremos quarta camada. O impasse nos perturba e ficamos sem saber o que fazer ou para onde devemos nos mover. Sentimos a perda do apoio ambiental, pois ainda no aprendemos a valorizar o que se ganha na confiana de nossos prprios recursos.

    4 camada O Implosivo - Morte ou camada implosiva aparece como medo da

    morte, pois consiste na paralisia de foras opostas, experimenta-se esta camada contrando-se ou implodindo-se, se pudermos ficar em contato com esta morte alcanaremos a ltima camada, a explosiva. Ela ocorre atravs da aflio, do desespero ou da clareza do que fizemos conosco nos limitando, comeamos a experimentar em meio do temor e das vacilaes, condutas novas. As energias, antes inativas se liberam e criam um impacto onde surge o 5 comportamento.

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    5 camada O Explosivo A culpa ou o ressentimento que sente em relao aos

    seus progenitores por no terem sido o que imaginava que necessitava, culpando-os por seus problemas, ao invs de desenvolver seus prprios recursos de maneira autnoma. A tomada de conscincia deste nvel constitui a pessoa autntica, o verdadeiro self, o self possvel capaz de experenciar e expressar suas emoes. A estrutura de nossos papeis coesiva e destina-se a absorver e controlar a energia destas exploses que podem ser como Perls denominava joie de vivre (alegria de viver).

    Depois desta camada interpretamos a experincia do vazio como sendo um vazio frtil e no um vazio estril.

    Quatro so os mecanismos que impedem o crescimento:

    Introjeo Projeo Confluncia Retroflexo

    Introjeo. Introjeo ou engolir tudo o mecanismo pelo quais os indivduos

    incorporam padres, atitudes e modos de agir e pensar que no so deles prprios e que no assimilam ou digerem o suficiente para torn-los seus. Um dos efeitos prejudiciais da introjeo que os indivduos introjetivos acham muito difcil distinguir entre o que realmente sentem e o que os outros querem que eles sintam ou simplesmente o que os outros sentem. A introjeo tambm pode constituir uma fora desintegradora da personalidade, uma vez que quando os conceitos e as atitudes engolidas so incompatveis uns com os outros, os indivduos introjetivos se tornam divididos.

    Projeo. Outro mecanismo neurtico a projeo; num certo sentido, o oposto

    da introjeo. A projeo a tendncia de responsabilizar o outro pelo que se origina no self. Envolve um repudio de seus prprios impulsos, desejos e comportamentos, colocando fora o que pertence ao self.

    Confluncia. O terceiro mecanismo neurtico a confluncia (patolgica) 4. Na confluncia, os indivduos no experienciam nenhum limite entre eles mesmos e o meio ambiente. A confluncia torna impossvel um ritmo saudvel de contato e de fuga, visto que tanto o primeiro quanto o segundo pressupe um outro. Este mecanismo tambm impossibilita a tolerncia das diferenas entre as p...

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