Psicologia Social Contempornea 21 Edio

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psicologia social

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  • PSICOLOGIA SOCIAL

    PSICOLOGIA SOCIAL CONTEMPORNEA

    Livro-texto

    21a Edio

    ia Graa Corra Jacques ie Neves Strey

    Nara Maria Guazzelli Bernardes Pedrinho Arcides Guareschi Srgio Antnio Carlos Tnia Mara Galli Fonseca

    A EDITORA VOZES

  • COLEO PSICOLOGIA SOCIAL

    Coordenadores:Pedrinho Arcides Guareschi - Pontifcia

    Univ. Catlica do Rio Grande do Sul (PUCRS)Sandra Jovchelovitch - London School of

    Economics and Political Science (LSE) - Londres

    Conselho editorial:Denise Jodelet - L/cole des Hautes tudes en Sciences Sociales - ParisIvana Markov - Universidade de Stirling - Reino Unido Paula Castro - Instituto Superior de Cincias do Trabalho e da Empresa (ISCTE) - Lisboa, PortugalAna Maria Jac-Vilela - Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)Regina Helena de Freitas Campos - Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Angela Arruda - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)Neuza M.F. Guareschi - Pontifcia Univ. Catlica do Rio Grande do Sul (PUCRS)Leoncio Camino - Universidade Federal da Paraba (UFPB)

    - Psicologia social contempornea (Livro-texto)

    Vrios autores- As razes da psicologia social moderna

    Robert M. Farr- Paradigmas em psicologia social

    Regina Helena de Freitas Campos e Pedrinho A. Guareschi (orgs.)

    - Psicologia social comunitria Regina Helena de Freitas Campos e outros

    - Textos em representaes sociais Pedrinho A. Guareschi e Sandra Jovchelovitch

    - As artimanhas da excluso Bader Sawaia (org.)

    - P sicolo0a social do racismoIray Carone e Maria Aparecida Silva Bento (orgs.)

    - Psicologia social e sade Mary Jane P. Spink

    - R epresentaes sociais - Investigaes em psicologia social

    Serge Moscovici- Subjetividade e constituio do sujeito em Vygotsky

    Susana Ins Molon- O social na psicolo0a e a psicologia social

    Fernando Lus Gonzlez Rey- D ialogicidade e representaes sociais - As dinmicas da m ente

    Ivana Markov- Psicologia do cotidiano - R epresentaes sociais em ao

    Marlia Verssimo Veronese e Pedrinho A. Guareschi (orgs.)

    - Argumentando e pensando - Uma abordagem retrica psicologia social

    Michael Billig- Os contextos do saber - Representaes, comunidade e cultura

    Sandra Jovchelovitch- Polticas pblicas e assistncia social -'M logo com as prticas psicolgicas

    Lflian Rodrigues da Cruz e Neuza Guareschi

    - A identidade em psicologia social - Dos processos identitrios s representaes sociais

    Jean-Claude Deschamps e Pascal Moliner

    - A inveno da sociedade - Sociologia e Psicologia

    Serge Moscovici- Psicologia das minorias ativas

    Serge Moscovici- Inventando nossos sels - Psicologia, poder e subjetividade

    Nikolas Rose- A Psicanlise, sua imagem e seu pblico

    Serge Moscovici- O psiclogo e as polticas pblicas de assistncia social

    Llian Rodrigues da Cruz e Neuza Guareschi (orgs.)

    - Envelhecendo com apetite pela vida - Interlocues psicossociais

    Sueli Souza dos Santos e Sergio Antonio Carlos (orgs.)

  • Maria da Graa Corra Jacques M arlene Neves Strey

    M aria Guazzelli Bernardes Pedrinho Arcides Guareschi

    Srgio A ntnio Carlos Tnia Mara Galli Fonseca

    A SISTEMA INTEGRADO

    PSICOLOGIA SOCIALCONTEMPORANEA

    DEBIBLIOTECAS

    Liv r o -te x to

    A N H A N G U E R A ED U C A C IO N A L BIBLIOTECA B E LEN ZIN H O

    ty EDITORA VOZES

    P e tr p o lis

  • 1998, Editora Vozes Ltda.Rua Frei Lus, 100

    25689-900 Petrpolis, RJ Internet: http: //www.vozes.com.br

    Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poder ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrnico ou mecnico, incluindo fotocpia e gravao) ou

    arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permisso escrita da Editora.

    Diretor editorialFrei Antnio Moser

    EditoresAna Paula Santos Matos

    Jos Maria da Silva Ldio Peretti

    Marilac Loraine Oleniki

    Secretrio executivoJoo Batista Kreuch

    Editorao e org. literria: Jaime Clasen Projeto grfico: AG.SR Desev. Grfico

    Capa: Graph-it

    ISBN 978-85-326-1974-7

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

    Psicologia social contempornea : livro-texto / Marlene Neves Strey et al. 21. ed. - Petrpolis, RJ : Vozes, 2013.

    1. Psicologia Social I. Strey, Marlene Neves.

    98-0583 CDD 302

    ndices para catlogo sistemtico: 1. Psicologia social 302

    Editado conforme o novo acordo ortogialh i >

    REG.: ' H t o - S l f l

    CLAS.:..3 c CPHA.J f c i ^ U

    Este livro foi composto e impresso pela K

  • SUMRIO

    Prefcio, 7

    Apresentao, 9

    Introduo, 13

    PARTE 1 - PRESSUPOSTOS, 17

    Histria, 19

    Epistemologia, 36

    tica, 49

    Indivduo, cultura e sociedade, 58

    Pesquisa, 73

    PARTE 2 - TEMTICAS, 87

    Ideologia, 89

    Representaes sociais, 104

    Linguagem, 118

    Conhecimento, 133

    Comunicao, 146

    Identidade, 158

    Subjetividade, 167

    Gnero, 180

    O processo grupai, 198

    Psicologia poltica, 206

  • PARTE 3 - EXPERINCIAS, 219

    Psicologia social e escola, 221

    Psicologia social no trabalho, 230

    Psicologia social e comunidade, 241

    ndice, 257

  • PREFCIO

    sempre um grande prazer introduzir mais uma obra de Psicologia Social, produzida por brasileiros, para brasileiros. Pois isto significa que estamos construindo um saber prprio, que dever refletir no s na prtica de futuros psiclogos, mas tambm nas pessoas atendidas por eles, que esperamos serem a grande maioria to carente de nossa populao.

    Ao fazer tal afirmativa, o fao ciente de que se trata de um conjunto de artigos comprometidos com uma postura crtica, visando promover relaes sociais, que no neguem o poder que nos diferencia, mas que tm por objetivo ltimo gerar a igualdade, respeitando peculiaridades individuais.

    O conjunto de autores que contriburam na elaborao desta obra j so uma garantia de que esta meta ser atingida, pois no s os seus escritos, mas, principalmente, suas prticas cotidianas so o testemunho objetivo de uma psicologia social crtica.

    O exame cuidadoso dos captulos que constituem o livro tambm retrata esta postura, ao introduzir pressupostos que indicam a preocupao com uma insero histrica, com um compromisso tico tanto na teoria quanto na prtica da pesquisa.

    O referencial terico abrange os temas fundamentais desta nova abordagem da Psicologia Social, permitindo ao leitor superar a contradio enfrentada pela psicologia tradicional entre subjetividade vs. objetividade. Pois, hoje temos clareza de que o objeto de nossa cincia a relao dialtica unvoca entre objetividade e subjetividade na constituio do psiquismo humano.

    A prtica de uma psicologia social crtica, como no poderia deixar de ser, compe a ltima parte deste livro, visando introduzir o aluno no que consideramos uma prxis cientfica. Esses captulos tentam resgatar um saber construdo numa poca de represso poltica, para as possibilidades que hoje se abrem para uma atuao do psiclogo em instituies como creches, postos de sade, escolas que prestem servios patrocinados pelo Estado, para aquela faixa da populao que vem sendo alvo de uma psicologia social crtica.

  • Gostaramos ainda de dedicar algumas palavras aos professores e alunos que iro trabalhar com esta teoria: ela sempre uma sntese precria da qual ns partimos para a elaborao de conhecimentos concretos. Ela jamais neutra ou universal, assim um saber gerado no sul do Brasil ter peculiaridades que o diferenciam da psicologia de outras regies do pas, principalmente pelas diferenas histricas e geogrficas de um pas-continente:

    - a realidade concreta, construda historicamente, o objetivo ltimo de nossa cincia, a qual permitir conhecer o indivduo em sua totalidade. Jamais devemos usar fatos cotidianos para exemplificar uma teoria, pois eles sempre podero estar questionando o saber elaborado at o presente;

    - Bachelard, em sua obra A filosofia do no, afirma que o conhecimento cientfico s avana quando o pesquisador se questiona: "por que no o contrrio?" Portanto, no devemos temer nossas dvidas ou as excees que comprovam a lei. Certamente, elas nos estaro dando novas pistas a serem pesquisadas, abrindo caminho para anlises cada vez mais prximas a um saber concreto;

    - No podemos, contudo, nos esquecer que tambm existem aspectos universais no comportamento humano e devemos procurar suas razes nas condies filogenticas que nos constituem. O reforo squineriano aumenta a frequncia de qualquer organismo, do rato at o homem, este um fato inegvel. Do mesmo modo, somos capazes de sentir a beleza esttica das obras primitivas (desde que conheamos um pouco de sua histria e cultura). O mesmo no se d com valores morais e ticos, pois estes so produtos ontogenticos, conseqncias da mediao da linguagem, do pensamento e das emoes;

    - Aproveitem as lies contidas nesta obra, sem esquecer jamais da reflexo crtica voltada para as nossas atividades cotidianas, repletas de contedos emocionais, que permitir o avano constante de nossa conscincia e de nossa identidade como metamorfose;

    - Bom trabalho! Sem esquecer que o verdadeiro saber produto de uma comunidade cientfica, da qual participam sujeitos e pesquisadores.

    Silvia T. Maurer Lane - PUC-SP

  • APRESENTAO

    O V e o VI Encontros Regionais da Abrapso (Associao Brasileira de Psicologia Social) realizados em 1994 e 1996 resultaram na elaborao de dois livros - R elaes sociais e tica, Psicologia e p iticas so ciais -, marcos significativos da produo de conhecimentos gerada nos diversos momentos de reflexo coletiva propiciada por esses eventos cientficos.

    Tais obras permitiram a socializao mais ampla dos questionamentos, das inquietaes, das sistematizaes tericas, metodolgicas e prticas que vm constituindo a psicologia social crtica em nosso pas. O xito de divulgao alcanado por essas produes conduziu um grupo de participantes da Abrapso/SUL a enfrentar o desafio de construir um livro que apresentasse snteses das discusses temticas que podem configurar o campo da psicologia social crtica de tal forma que permitisse atender s necessidades de formao nos cursos de Psicologia assim como em outros cursos que tambm exploram essa rea do conhecimento.

    Portanto, esta produo tem o carter de um manual que apresenta os conhecimentos de forma acessvel sem ser, contudo, simplista e/ou superficial. Pretende introduzir novas" temticas e/ou novos olhares sobre uma mesma temtica. Pretende, ainda, ser um recurso til de ensino-aprendizagem tanto para alunos como para professores.

    O presente volume representa uma ao coletiva de construo desses conhecimentos e est organizado em trs partes. A primeira tem um carter geral, focalizando fundamentos histricos, epistemo- lgicos e metodolgicos. A segunda expe alguns temas fundamentais da Psicologia Social e bsicos para a compreenso do sujeito humano. Na terceira parte so apresentadas algumas experincias fundamentadas na concepo de psicologia social crtica as quais vm sendo desenvolvidas em diferentes espaos como comunidades, organizaes e instituies e que podem representar rupturas e avanos no saber/fazer do psiclogo ou de outros profissionais comprometidos com a transformao social.

  • Construram este livro:Adriane Roso - psicloga, mestranda de Pslcolooln Hoeml e da

    Personalidade (PUCRS), bolsista da Capes.Adriano Henrique Nuernberg - psiclogo e mestrando um Psico

    logia (UFSC), pesquisador do Laboratrio de Educao e Sado Popular da UFSC.

    Andra Zanella - psicloga, doutora em Psicologia da Educao (PUCSP), professora do Departamento de Psicologia da UFSC e pesquisadora do Laboratrio de Educao e Sade Popular. Foi vice-presidente da Regional Sul e presidente nacional da Abrapso.

    Carmem Lgia Iochins Grisci - psicloga, mestre em Psicologia Social e da Personalidade (PUCRS), doutora em Psicologia Social (PUCRS), professora da Faculdade de Administrao (UFRGS).

    Cleci Maraschin - psicloga, doutora em Educao (UFRGS), professora do Instituto de Psicologia (UFRGS) e pesquisadora do Laboratrio de Estudos Cognitivos.

    Ftima O. de Oliveira - psicloga, mestranda em Psicologia Social e da Personalidade (PUCRS), tesoureira da Abrapso/SUL.

    Gislei Lazzarotto - psicloga, mestre em Psicologia Social e da Personalidade (PUCRS), professora do curso de Psicologia da Ulbra e assessora em Psicologia Social.

    Graziela C. Werba - psicloga, mestra em Psicologia Social e da Personalidade (PUCRS), grupoterapeuta em formao (CEA-PEG) e secretria da Abrapso/SUL.

    Jaqueline Tittoni - psicloga, doutoranda em Sociologia (UFRGS), professora do Instituto de Psicologia da UFRGS.

    Jefferson de Souza Bernardes - psiclogo, mestre em Psicologia Social e da Personalidade (PUCRS), professor de Psicologia Social e coordenador do curso de Psicologia da Unisinos.

    Luiz F. Rolim Bonin - doutor em Psicologia Social (PUCSP) e professor de Psicologia da Universidade Federal do Paran.

    Louise A. Lhullier - psicloga, doutora em Psicologia Social (PUCSP), professora do Mestrado em Psicologia e do Doutorado em Cincias Humanas na UFSC, pesquisadora do CNPq.

    Maria da Graa Corra Jacques - psicloga, doutora em Educao (PUCRS), professora do Instituto de Psicologia da UFRGS, pesquisadora do CNPq. Vice-presidente da Regional Sul da Abrapso.

  • Maria Juracy Toneli Siqueira - psicloga, doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (USP), professora do departamento de Psicologia da UFSC e pesquisadora do Laboratrio de Educao e Sade Popular.

    Margarete Axt - doutora em Lingstica (PUCRS), professora Titular da Faculdade de Educao (UFRGS) e pesquisadora do Laboratrio de Estudos Cognitivos do Instituto de Psicologia da UFRGS.

    Marlene Neves Strey - psicloga, doutora em Psicologia Social (Universidade Autnoma de Madri), professora do Instituto de Psicologia da PUCRS.

    Nara Maria Guazzelli Bernardes - psicloga, doutora em Educao (UFRGS), professora da Faculdade de Educao e do Mestrado em Psicologia da PUCRS e coordenadora do grupo de pesquisa Educao, Trabalho, Subjetividade e Gnero. Membro do Geerge (UFRGS).

    Nilza da Rosa Silva - psicloga e esquizoanalista. Realiza estudos, assessorias e consultorias sobre temas como subjetividade, cultura, relaes grupais e institucionais, idosos e ansiedade.

    Pedrinho A. Guareschi - graduado em filosofia, teologia e letras, doutor em Sociologia (Universidade de Wisconsin), professor e pesquisador do Instituto de Psicologia da PUCRS. Foi vice-presidente da Regional Sul da Abrapso.

    Srgio Antnio Carlos - assistente social, doutor em Servio Social (PUCSP), professor do Instituto de Psicologia da UFRGS, coordenador do Ncleo para a Terceira Idade.

    Sissi Malta Neves - psicloga e terapeuta corporal e psicodrama- tista, mestre em Psicologia Social e da Personalidade (PUCRS).

    Tnia Mara Galli Fonseca - psicloga, doutora em Educao (UFRGS), professora titular do Instituto de Psicologia da UFRGS e coordenadora do Mestrado em Psicologia Social e Institucional desta instituio.

  • INTRODUO

    Na vida anmica individual aparece integrado sempre, efetivamente, "o outro", como modelo, objeto, auxiliar ou adversrio, e, deste modo, a psicologia individual ao mesmo tempo e desde um princpio psicologia social, em um sentido amplo e plenamente justificado (Sigmund FREUD).

    A afirmao de Freud suscita uma importante questo para reflexo sobre a natureza da cincia psicolgica: possvel uma psicologia que no seja uma psicologia social j que no tem sentido conceber um indivduo isolado de seu contexto social?

    A resposta a esta indagao passa, necessariamente, pelo exame do processo de diviso em compartimentos (as diferentes disciplinas) das Cincias Humanas e Sociais. A partir de uma viso reducionista e simplista e de uma perspectiva de dicotomia entre o individual e o social, coube psicologia o estudo do indivduo e sociologia o estudo da sociedade. Esta diviso se consolida de tal forma que, por exemplo, reconhece-se os estudos de Wundt (considerado o fundador da psicologia como cincia independente) sobre psicologia individual e desco- nhece-se os trabalhos desse mesmo autor sobre temas hoje classificados como psicologia social.

    No entanto, a constatao da impossibilidade de estudar o homem como um ser isolado - objeto da psicologia - conduz ao desenvolvimento de teorias e mtodos para explicar a influncia dos fatores sociais sobre os processos psicolgicos bsicos da percepo, motivao, pensamento, aprendizagem e memria, organizando-se, dessa forma, a Psicologia Social enquanto uma das reas da Psicologia. Constitui-se como objeto dessa Psicologia Social o estudo da interao entre indivduo e sociedade; portanto, indivduo e sociedade como duas instncias distintas que, apenas, interagem entre si. So privilegiados temas como atitudes, preconceitos, comunicao, relaes grupais, liderana, entre outros; sobre uma matriz desenvolvida pela Psicologia Individual, procura-se analisar e explicar as influncias do meio social e avaliar e promover o ajustamento do indivduo sociedade.

  • Essa perspectiva adaptacionista - que na opinio de alguns autores uma caracterstica da psicologia como um todo - enquanto obstculo transformao social, somada continuidade na ausncia de soluo para os graves problemas sociais vigentes, instalam todo um questionamento sobre o conhecimento e a prtica produzidos pela Psicologia Social, principalmente a Psicologia Social de origem estadunidense.

    As crticas que se iniciam na Frana e na Inglaterra chegam ao Congresso Interamericano de Psicologia realizado em Miami no ano de 1976 atravs, principalmente, de psiclogos latino-americanos. So crticas que vo se tornando mais substantivas nos congressos subsequentes, apontando, com veemncia, a ausncia de consonncia entre a produo da chamada Psicologia Social e os problemas emergentes dos pases latino-americanos.

    neste contexto que funda-se a Associao Brasileira de Psicologia Social (Abrapso) cujo documento de proposta de criao expressa a preocupao do grupo brasileiro em redefinir o campo da Psicologia Social, descobrir novos recursos metodolgicos, propor prticas sociais e construir um referencial terico inscrito em princpios epistemo- lgicos diferentes dos at ento vigentes.

    Acompanhando a tendncia europeia, mas sinalizando para diferenas consistentes e prprias aos pases da Amrica Latina, esbo- a-se a criao de uma "nova" Psicologia Social - no Brasil representada pela Abrapso - que recebe, em um primeiro momento, algumas qualificaes como Psicologia Social Crtica, Psicologia Social Histri- co-Crtica, Psicologia Scio-Histrica. So qualificaes que expressam a perspectiva crtica em relao Psicologia Social hegemnica de at ento e que apontam para uma concepo de ser humano como produto histrico-social e, ao mesmo tempo, como construtor da sociedade e capaz de transformar essa sociedade por ele construda. Esta concepo de ser humano recoloca a relao indivduo e sociedade, rompe a perspectiva dualista e dicotmica e, ao invs de considerar indivduo e contexto social influenciando-se mutuamente, prope a construo de um espao de interseco em que um implica o outro e vice-versa.

    Em termos tericos, essa psicologia social aproxima-se de alguns referenciais como os da psicanlise e do materialismo histrico propondo uma releitura desses referenciais que vo fundamentar o estudo de temas tradicionais da Psicologia Social sob nova perspectiva

  • terica tais como comunicao, processo grupai, linguagem, ideologia, entre outros. Da mesma forma, tal Psicologia Social gera novas e estimulantes temticas entre as quais representaes sociais so o exemplo mais representativo.

    Como recursos metodolgicos so privilegiados aqueles que rompem com o modelo de reduo do complexo ao simples, do global ao elementar, da organizao ordem e da qualidade quantidade.

    Como objeto de estudos e pesquisas prope a preocupao com aspectos de relevncia e aplicabilidade ao contexto brasileiro e que possam responder s questes sociais especficas de sua populao.

    Esta Psicologia Social que se constri no Brasil no final dos anos 1970 e a partir dos anos 1980 depara-se com uma literatura disponvel que no responde s suas inquietaes e que reproduz o modelo tradicional da Psicologia Social. O primeiro desafio de publicao, O que psicologia social, de Silvia Lane, da Coleo nos Passos da Editora Brasiliense, editado em 1981, passa a leitura constante de alunos de cursos universitrios de todo o pas, sinalizando para a necessidade de um conhecimento alternativo em psicologia social. Dessa sinalizao, nasce Psicologia Social: o homem em movimento, em 1984, texto de vrios autores organizado por Silvia Lane e Wanderley Codo, que se toma, desde ento, um marco referencial na Psicologia Social brasileira.

    Psicologia Social que enseja a complexificao do simples, a pluralidade terico-metodolgica, a interseco das diferentes reas de aplicao da psicologia, a prtica interdisciplinar e a preocupao tica em relao aos seus compromissos sociais e polticos. Psicologia social que vai alm da simples assertiva de um ser humano social, mas de um ser humano social com base na convico de que no h possibilidade do humano sem ser no social.

    Neste momento se retoma a proposio inicialmente exposta: a partir dessa concepo de ser humano possvel falar em psicologia que no seja psicologia social?

    Assim como emprestamos o argumento de Sigmund Freud para iniciar essa exposio, emprestamos o posicionamento de Silvia Lane para conclu-la e com isto responder a nossa pergunta e definir a proposta deste livro:

    Toda a psicologia social. Esta afirmao no significa reduzir as reas especficas da Psicologia Psicologia Social, mas sim cada uma assumir dentro de sua especificidade a natureza histrico-social do

  • ser humano. Desde o desenvolvimento infantil at as patologias e as tcnicas de interveno, caractersticas do psiclogo, devem ser analisadas criticamente luz dessa concepo do ser humano - a clareza de que no se pode conhecer qualquer comportamento humano, isolando-o ou fragmentando-o, como existisse em si e por si.

    Tambm com essa afirmativa no negamos a especificidade da Psicologia Social - ela continua tendo por objetivo conhecer o indivduo no conjunto de suas relaes sociais, tanto naquilo que lhe especfico como naquilo em que ele manifestao grupai e social. Porm, agora a Psicologia Social poder responder questo de como o homem sujeito da histria e transformador de sua prpria vida e da sua sociedade, assim como qualquer outra rea da Psicologia (Silvia Lane1).

    1. LANE, Silvia. A psicologia social e uma nova concepo de homem pam n psicologia. In: LANE, Silvia & CODO, Wanderley (orgs.). Psicologia Social', o homem em movimonto. Sfo Paulo: Brasiliense, 1984, p. 19.

  • PRESSUPOSTOS

  • HISTRIA

    Jefferson d e Souza B em ard es

    Falaremos aqui da histria da psicologia social no Brasil e no Ocidente. Propomos revisitar os critrios constitudos para os relatos histricos que quase sempre se resumem ao mundo dos autores e das ideias e no s instituies e fatos que marcaram os destinos e trajetrias da psicologia social no Ocidente, conforme Robert Farr (1996) nos mostra. A histria da psicologia social reduzida a determinados autores e ideias, encontradas nos clssicos manuais de Psicologia Social (LINDZEY, 1954; LINDZEY & ARONSON, 1968-1969; LINDZEY & ARONSON, 1985), acaba por privilegiar uma determinada filosofia da cincia, a saber, o positivismo, estabelecendo um recorte grosseiro na construo e desenvolvimento do conhecimento da psicologia social. O privilgio do positivismo vem em decorrncia da crena de alguns pesquisadores de que a definio de pensamento cientfico praticamente se resume ao mtodo ou ao caminho para se estudar algum objeto ou fenmeno, no caso o mtodo experimental.

    Abordaremos o florescimento da psicologia social moderna como um fenmeno caracteristicamente norte-americano, embora suas razes sejam europeias.

    Seguindo esta lgica, no Brasil, apontamos para a importncia de associaes, instituies e fatos relevantes que marcaram o surgimento da psicologia social no pas e finalizamos com indicaes de alguns dos principais desdobramentos e atravessamentos epistemolgicos e tericos que vivenciamos contemporaneamente na psicologia social.

    Algumas rpidas palavras sobre histrias

    Iniciamos com o bvio: existem formas e formas de se contar histrias. Trabalhamos aqui em uma perspectiva relativista da histria. Em ltima instncia, a perspectiva do autor, seu texto e seu contexto,

  • crenas, conceitos e pr-conceitos delimitam os recortes do contar a histria. A forma como se conta a histria tambm influencia o que e como esta ser contada. Se nos prendemos s pessoas (reais ou imaginrias) a histria de determinada ideia, cultura ou sociedade ganha contornos inimaginveis. Como exemplo desta questo, citamos os norte-americanos, que so mestres nisto. Basta passarmos rapidamente os olhos na histria dos Estados Unidos e percebermos a enorme habilidade de transformaes de sujeitos simples em mrtires. Ao nvel imaginrio, os super-heris da Era Moderna surgem ali! Por outro lado, se nos prendemos a fatos, instituies ou acontecimentos relevantes, a histria ganha novos limites, novas cores e texturas. Assim, de imediato algumas questes se colocam: a perspectiva determinis- ta-linear de histria se encontra em xeque. A relao entre passado (determinando) o presente (que determina) o futuro, apresentada nesta linearidade, na maioria das vezes mais obscurece o desenvolvimento de determinada questo do que lana luzes. Procuraremos adiante, atravs da histria da psicologia social, mostrar que fatos presentes acabam por ressignificar o passado e, consequentemente, modificar o presente. Os caminhos do futuro, antes j delimitados, tornam-se incertos e imprecisos. Abala-se a estrutura linear da temporalidade. Tempo e espao se modificam, se ampliam e entra em cena um ponto extremamente importante: o simblico. Em outras palavras, este simblico se define pelos sentidos e significados que conferimos s coisas e aos fenmenos. exatamente nestes sentidos que conferimos s coisas e aos fenmenos que nossa relao com o tempo, e com a histria, se transforma.

    O processo histrico contnuo, mas no linear. No uma linha reta, muito ao contrrio, possui idas e vindas, desvios, avanos e recuos, inverses etc. Todos os acontecimentos presentes possuem relaes com os fatos passados, todas as chamadas rupturas histricas no acontecem da noite para o dia e, sim, so lentamente preparadas (BORGES, 1987). Por exemplo, uma guerra no estoura de uma hora para outra. Os conflitos fazem parte de tradies e histrias entre os povos. s vezes so abafados anos a fio por estados ditatoriais, governando mo de ferro, como vimos recentemente com a derrocada do Muro de Berlim e a corrida pela independncia de vrios povos que habitam o Leste Europeu ou no Brasil com o golpe militar de 1964. Todas as rivalidades, dios, jogos de interesses econmicos, sociais, polticos e relaes de poder estavam sempre presentes no cotidiano dos povos envolvidos e agora assistimos boquiabertos vizinhos em duros

  • conflitos. J no Brasil, a todo momento novos documentos vm tona, ressignificando o passado e transformando o presente.

    Um passeio pela psicologia social no Ocidente

    Trs pontos importantes para a histria da psicologia social: primeiro, (a) resgataremos alguns pontos fundamentais da histria que foram, seno deliberadamente, ao menos ingenuamente esquecidos da histria da psicologia social. Dentre outros, destacaremos, o que foi chamado de o "repdio positivista de Wundt. Em segundo lugar, (b) tentaremos mostrar que a histria da psicologia social narrada at o momento, excessivamente trabalhada nos cursos de graduao em Psicologia no pas e no mundo, so permeadas por uma filosofia da cincia claramente vinculada ao positivismo. Decorre da que a prpria perspectiva histrica dos acontecimentos levam de forma indelvel a marca do positivismo. Finalizamos este tpico (c) com a perspectiva de narrativa histrica da psicologia social apresentada por Farr (1996), apontando para a importncia e influncia de determinadas instituies e fatos histricos no desenvolvimento da psicologia social. Com isto, enfocamos a histria da psicologia social atravs de um olhar crtico sobre o desenvolvimento da prpria psicologia social.

    a) O "Repdio positivista de Wundt"

    Wilhelm Wundt (1832-1920), que por muitos considerado o pai da psicologia, era um filsofo e estudioso extremamente metdico. Por volta de 1860, estabeleceu trs objetivos para sua carreira profissional, sendo que ao final de sua vida cumpriu aquilo a que se props. Seu primeiro objetivo era a construo de uma psicologia experimental ou tambm conhecido como o projeto wundtiano de estabelecer um projeto de psicologia como cincia independente. Objetivo este alcanado pela criao do Laboratrio em Psicologia em 1879 em Leip- zig, atravs da criao de uma psicologia experimental da mente, com seu objeto de estudo definido: a experincia imediata conscincia; assim como seu mtodo: experimental-introspectivo. Alm disso, Wundt publicou a primeira edio de sua Psicologia fisiolgica (Physio- logical Psychology) em 1874 e em 1881 a revista Estudos Filosficos (Philosophische Studien).

  • Seu segundo objetivo, elaborado entre 1880 at 1900, era a criao de uma metafsica cientfica ou uma filosofia cientfica. Aqui Wundt elabora trs obras que compem sua metafsica cientfica: uma de Lgica (conjunto de estudos que visam determinar quais so os processos intelectuais ou as categorias racionais para a apreenso do conhecimento), uma de tica (conjunto de estudos dos juzos de apreciao da conduta humana) e uma de Sistemas Filosficos (conjunto de estudos das principais concepes filosficas para Wundt). Para um positivista uma filosofia que se proponha a ser metafsica cientfica um retrocesso no desenvolvimento do pensamento cientfico. Pois de acordo com Augusto Comte, formulador do pensamento positivista, existem trs estgios no desenvolvimento do conhecimento para atingir a verdade: toda forma de conhecimento origina-se da teologia (pensamento mtico, religioso, sensitivo, intuitivo), a partir da o conhecimento se aprimora e se acumula, transformando-se em metafsica (pensamento filosfico, mas sem mtodos rigorosos e sistemticos de comprovao da realidade) e da, tambm em processos de aprimoramentos e acmulos, chegamos ao estgio positivo ou cientfico onde, atravs do mtodo cientfico, o conhecimento transforma uma leitura da realidade em verdade. A partir da, para os positivistas, a cincia dita o conhecimento, a luz e a verdade.

    O terceiro objetivo wundtiano era a criao de uma psicologia social. Entre 1900 e 1920, Wundt elabora sua Volkeipsychologie (Psicologia do povo ou Psicologia das massas). Uma obra de 10 volumes, onde Wundt elabora sua psicologia social, tendo como objeto de estudo, principalmente, temas como a Linguagem, Pensamento, Cultura, Mitos, Religio, Costumes e fenmenos correlatos. Para Wundt, tais temas so fenmenos coletivos que no podem ser explicados nem reduzidos conscincia individual. No somente seu objeto de estudo primeiro (conscincia) era incapaz de fornecer subsdios para suas explicaes, como seu mtodo (experimental-introspectivo) tambm era limitado a pequenos experimentos de laboratrio. Sobre as limitaes do uso da introspeo na explorao do fenmeno mental coletivo, Wundt dizia:

    verdade que se tem tentado frequentemente investigar as funes complexas do pensamento na base da mera introspeo. No entanto, estas tentativas foram sempre frustradas. A conscincia individual completamente incapaz de nos fornecer uma histria do pensamento

  • humano, pois est condicionada por uma histria anterior sobre a qual no nos pode dar nenhum conhecimento sobre si mesma (WUNDT, 1916, p. 3).

    William James referiu-se utilizao do mtodo experimen- tal-introspectivo para os estudos de processos psquicos superiores como um total absurdo. James comparou este empreendimento com a estupidez de acender uma luz a fim de ver melhor a escurido que nos cerca" (GUARESCHI et al, 1993, p. 81). Neste terceiro objetivo Wundt rev suas primeiras posies acerca de sua psicologia experimental, estabelecendo seus limites.

    Assim, faz-se mister este breve retorno a Wundt, resgatando sua obra na integralidade e no estabelecendo recortes e vieses comprometidos com uma nica perspectiva filosfica na psicologia. exatamente este recorte grosseiro e abusivo de Wundt que Danziger (1979) chama do repdio positivista de Wundt. contra esta tica utilita- rista, de determinados historiadores, aproveitando o que lhes interessava e jogando fora o que no condizia com seus valores e ideias, que fez com que a influncia positivista e os fortes atravessamentos ideolgicos se estabelecessem de forma clara no surgimento e desenvolvimento da psicologia como um todo.

    b) "O longo passado e o curto presente da psicologia"

    Propomos agora um pequeno esforo de memria: lembrarmos como estudamos, em geral, a histria da psicologia. A psicologia tinha um pai (Wilhelm Wundt), uma me (a filosofia), uma maternidade (Laboratrio de Psicologia Experimental), toda uma certido de nascimento (1879, Leipzig - Alemanha, Objeto de Estudo e Mtodo prprios, uma revista de psicologia - Philosophische Studien), e um rompimento de seu cordo umbilical (o projeto da psicologia como cincia independente) claramente colocados.

    Diante da tentativa de transformar a psicologia em uma cincia independente surgem algumas indagaes e dvidas, compartilhadas por autores como Farr (1996), Koch e Leary (1985), dentre outros: por que a psicologia se preocupa com esta data de nascimento? Quer dizer que a partir da cincia e o que temos para trs no mais interessa? Que outro campo amplo do conhecimento possui este tipo de preocupao? A filosofia ou os campos da rea das Cincias Humanas

  • tambm possuem data de nascimento? Encontramos alguma data de fundao da filosofia? Da fsica, da histria, da pintura, da literatura?

    A histria e pr-histria das grandes reas de investigao ou de produo do conhecimento se mesclam, no possuindo limites e fronteiras claras para delimit-las. No caso da psicologia, as questes lanadas do que venha a significar o ser humano ou seu psiquismo tm sido perseguidas na histria da humanidade h muito tempo.

    No contexto da poca (final do sculo XIX), Wundt representava para os positivistas o desgarramento da filosofia e o incio do projeto da psicologia como uma cincia independente. Assim como para os psiclogos experimentais Wundt o pai da psicologia, para os psiclogos sociais experimentais tal paternidade dedicada a Augusto Comte. Gordon Allport (1897-1967) deixa isto muito claro no prefcio do H andbook o f social psychology (LINDZEY, 1954). E vai mais alm: dedica-se a pensar que a partir do prprio H andbook que a psicologia social cientfica (leia-se com base experimental) floresce nos Estados Unidos:

    Por que se preocupar com o estgio metafsico' da especulao, como Comte o chamou, quando a nova era do positivismo e do progresso j nasceu? (ALLPORT, G.W. 1954, p. 3).

    O longo passado e a curta histria da psicologia a frase cunhada por Ebbinghaus em 1908, quando se referia que a curta histria da psicologia se iniciava com Wundt em 1879 com seu Laboratrio de Psicologia. Do mesmo modo, G.W. Allport e Lindzey assinalam o corte positivo da psicologia social, o ponto sem retorno da cincia, publicao do H andbook o f Social Psychology de Lindzey em 1954.

    Sequer o H andbook de Murchison (1935) considerado como sendo parte do curto presente ou da curta histria da psicologia social como uma cincia experimental. Lindzey (1954) trata de rebater o H andbook de Murchison como fazendo parte do passado metafsico da psicologia social que agora deve ser jogado no ostracismo.

    c) Formas e form as de contar histrias da psicologia social

    Ao invs de tratarmos da histria da psicologia social atravs das teorias e autores da Era Moderna, preferimos lidar com a perspectiva adotada, principalmente, por Robert Farr (1996), quando releva a importncia de fatos, instituies e pesquisas publicadas para o surgimento e desenvolvimento de um determinado conhecimento.

  • Neste sentido, procuraremos destacar a influncia do positivismo, provocando distores na historiografia da psicologia social no mundo ocidental.

    Assim, o prprio Farr (1996), de imediato, destaca a importncia, por exemplo, das guerras para a psicologia social, ao afirmar que a psicologia social est para a Segunda Guerra Mundial assim como os testes psicomtricos esto para a Primeira Guerra Mundial.

    O melhor exemplo disto a publicao do The American Soldier (O soldado Americano, 1949), publicado aps a Segunda Guerra, sob a editorao geral do socilogo Stouffer e vrias outras obras com estudos referentes ao perodo da guerra. Os temas de estudo versavam, por exemplo, sobre a adequao de soldados vida no exrcito, avaliao da eficcia nas instrues no exrcito, mudana de atitudes e comunicao de massa.

    Ainda nesta perspectiva, o Tribunal de Nurenberg sobre crimes de guerra foi decisivo para apresentar os principais procedimentos ticos em pesquisas experimentais com seres humanos e foi tambm decorrente do perodo entre guerras. O Tratado de Nurenberg extrado do Tribunal teve peso fundamental no desenvolvimento de pesquisas em psicologia social, principalmente com relao aos experimentos com humanos. No precisamos ir alm dos exemplos de pesquisas realizadas com humanos durante as guerras mundiais, principalmente nos campos de concentrao nazistas, para demonstrar a importncia do tratado.

    Outro exemplo sobre como as guerras influenciaram o pensamento em psicologia social a famosa Escola de Frankfurt de Cincias Sociais (representada por autores como Adorno, Horkheimer, Marcuse, Fromm, dentre outros), que imigraram no perodo entre guenas, principalmente aps Hitler ter fechado seus institutos de pesquisa. Construram, imediatamente, aps a imigrao, o estudo da personalidade autoritria (ADORNO et al., 1950), marco na psicologia social europeia.

    Farr (1996) acredita que a psicologia social na Era Moderna um fenmeno tipicamente americano, embora suas razes sejam europei- as. O surgimento do nazismo na Alemanha, com o intelectualismo e o antissemitismo pernicioso que o acompanharam, resultou, como todos sabemos muito bem, na migrao para a Amrica de muitos lderes acadmicos, cientistas, artistas da Europa... Mal poderamos imaginar como seria a situao hoje se pessoas tais como Lewin, Heider, Kohler, Wertheimer, Katona, Lazersfeld e os Brunswiks no tivessem

  • ido aos Estados Unidos no momento em que foram" (CARTWRIGHT apud FARR, 1996, p. 6). O florescimento da psicologia social em solo americano se deve em grande parte migrao de grandes pesquisadores para os Estados Unidos na era entre guerras.

    A principal migrao foi dos gestaltistas da ustria e Alemanha para os Estados Unidos. E foi este fato que possibilitou o surgimento da psicologia social cognitiva, com razes na fenomenologia:

    Foi desse conflito entre duas filosofias rivais, mas incompatveis (isto , fenomenologia e positivismo), que a psicologia social emergiu na A- mrica, na forma especfica de como se deu, logo no incio do perodo moderno. [...]

    A psicologia da gestalt foi o ingrediente crucial nessa transformao. O conflito ocorreu no solo americano, e tambm o resultado - uma forte psicologia social cognitiva - foi um produto claramente americano. A psicologia social moderna pode, pois, ser, na verdade, um fenmeno caracteristicamente americano, mas ao menos a fenomenologia era europeia (FARR, 1996, p. 7).

    Em termos institucionais, destacamos algumas universidades que realizaram importante papel no desenvolvimento da psicologia social moderna como um fenmeno caracteristicamente americano. A primeira delas a Universidade de Yale, com o Ncleo do Programa de Pesquisa do Ps-Guerra, com temtica central em comunicao e mudana de atitude. Aqui foram elaboradas por Stouffer, por Hovland e outros a srie American Soldier (em seus trs volumes). Uma segunda universidade importante foi o Instituto de Tecnologia de Massachu- setts (MIT), com Kurt Lewin, onde ele fundou em 1945 o Centro de Pesquisa em Dinmica de Grupo. Foi o grupo, por excelncia, que refletiu na Amrica toda a influncia da Psicologia Gestalt para a psicologia social. Seu papel foi vital no desenvolvimento de uma psicologia social cognitiva. Aps a prematura morte de Lewin, em 1947, o Centro de Pesquisa em Dinmica de Grupo do MIT se transfere, sob a direo de Cartwright, para a Universidade de Michigan, onde se tornou parte do Instituto de Pesquisas Sociais.

    Em termos de desenvolvimento das cincias cognitivas (dentre elas a Psicologia Cognitiva), os psiclogos da Gestalt e seus trabalhos em psicologia social foram determinantes para o desenvolvimento da rea. "Os psiclogos sociais na Amrica eram tericos cognitivistas numa poca em que no em moda, isto , no auge do behaviorismo" (FARR, 1996, p. 7).

  • Um outro ponto de destaque para a narrativa histrica so os manuais de Psicologia escritos at o momento. Os H andbooks o f Social Psychology (MURCHISON, 1935; LINDZEY, 1954; LINDZEY & ARON- SON, 1968-1969; 1985).

    Na primeira edio do H andbook em 1954, Lindzey diz provocar o rompimento com o que chama de Psicologia social metafsica" presente nas razes (europeias) da psicologia social. A "Psicologia social metafsica, para Lindzey, aquela forma de psicologia social no cientfica, pois no utiliza em sua construo de conhecimento o rigor e sistematizao do mtodo experimental. Seguindo a tradio positivista, o ponto sem retorno para Lindzey o H andbook de Murchison (1935). Embora, ainda para Lindzey, a obra inicial que aponta para a m odernidade na psicologia social, ou seja, agora nos transformamos em cincia", o seu H andbook de 1954. Allport escreve, no H andbook de 1954, o captulo sobre a histria da psicologia social. Nele a ances- tralidade da psicologia social remetida a Comte. Para Allport a psicologia social era uma cincia eminentemente social. J nos Handbook de 1968-1969 e de 1985, o captulo de Allport sofre pequenas alteraes, mas o mais interessante a incluso do captulo da Psicologia social modema por Jones (1985), onde o mesmo desenvolve uma linha de raciocnio situando o captulo da psicologia social, escrito por Allport, como um relato do longo passado da psicologia social e o seu captulo, que descreve a trajetria da psicologia social a partir do ps-guerra, trazendo o incio da curta histria da psicologia social como uma cincia eminentemente experimental.

    Os desdobramentos epistemolgicos e tericos relacionados psicologia social como um fenmeno que floresceu na Amrica do Norte sero melhor desenvolvidos no ltimo tpico deste captulo, mas, de antemo, destacamos que a psicologia social ali florescida uma forma de psicologia social psicolgica (FARR, 1995; 1996). Seus princpios bsicos nas explicaes dos fenmenos sociais so: tra- t-los como fenmenos naturais atravs de mtodos experimentais, sendo que seus modelos explicativos nos remetem sempre, em ltima instncia, a explicaes centradas no indivduo. o fenmeno da indi- vidualizao da psicologia social que Farr (1991; 1994; 1996) tanto refere. Um outro desdobramento desta lgica positivista o esquecimento ou abandono de determinadas ideias ou autores que foram essenciais nos rumos e projetos da psicologia social. Citaremos dois casos: o primeiro a negao de perspectivas e referenciais histrico-cr-

  • ticos. A perspectiva marxista da histria e do fazer psicolgico no se encontram contemplados como psicologia social nos Handbooks (LINDZEY, 1954; LINDZEY e ARONSON, 1968-1969; 1985), nem tampouco nos principais livros clssicos de histria da psicologia como, por exemplo, um livro bastante trabalhado nos cursos de graduao em Psicologia no Brasil: Schultz & Schultz (1994). Os autores iniciam seu prefcio da seguinte forma:

    O tema deste livro a histria da psicologia moderna, aquele perodo que se inicia no final do sculo XIX, no qual a psicologia se tornou uma disciplina distinta e basicamente experimental. Embora no ignoremos o pensamento filosfico anterior, concentramo-nos nos fatores que tm relao direta com o estabelecimento da psicologia como campo de estudo novo e independente (SCHULTZ & SCHULTZ, 1994, p. 5).

    A perspectiva positivista se encontra claramente explicitada logo no incio da obra anteriormente citada, atravs da apresentao da psicologia moderna, no como uma reflexo sobre a prpria psicologia ou um recorte histrico em torno de fatos e instituies e, sim, pelo surgimento de determinadas ideias e a aplicao do mtodo experimental. Os autores continuam mais adiante: Preferimos narrar a histria da psicologia em termos de suas grandes ideias ou escolas de pensamento. Desde o comeo formal do campo (1879), a psicologia tem sido definida de vrias maneiras, medida que novas ideias conseguem o apoio de grande nmero de seguidores e passam, por algum tempo, a dominar a rea" (SCHULTZ & SCHULTZ, 1994, p. 5).

    Outro ponto interessante que no quarto captulo do SCHULTZ e SCHULTZ (1994), denominado A Nova Psicologia, que dedica 13 pginas a Wilhelm Wundt, apresentando o projeto da psicologia como cincia independente, sequer mencionada sua Volkerpsychologie" (ou sua psicologia das massas, do povo, enfim, sua psicologia social)! O positivismo influenciou e influencia a forma de contar a histria da psicologia em geral e da psicologia social em particular de maneira significativa, estabelecendo com a prpria psicologia reducionismos em sua construo de conhecimento e deixando transparecer questes ideolgicas marcantes no universo psicolgico.

    O segundo caso desta influncia positivista se refere ao abandono nos manuais clssicos do pensamento do filsofo George Herbert Mead e, como parte integrante de seu pensamento, sua teoria do be- haviorismo social que eminentemente uma psicologia social. Mead

  • era um behaviorista, mas produzia um pensamento muito distinto de Watson e de Skinner. Estava mais preocupado com os estudos da linguagem como um comportamento social: "Mead construiu foi uma explicao behaviorista da mente, baseada em sua concepo da linguagem" (GUARESCHI et al., 1993, p. 82). Na literatura e tradies norte-americanas h uma certa confuso de Mead com o interacionis- mo simblico. Na realidade, interacionismo simblico foi o nome dado por Blumer aos estudos de Mead logo aps a sua morte em 1931.

    Os principais pontos que distinguem o behaviorismo social de Mead do behaviorismo clssico de Watson e do behaviorismo radical de Skinner so: em primeiro, o estudo da linguagem e do pensamento humano dentro de um contexto evolucionista. Em segundo, a linguagem como um fenmeno intrinsecamente social. E, em terceiro, o self de Mead estabelece a intermediao entre mente e sociedade. Mead rompe com o modelo de mente proposta pela psicologia da conscincia do primeiro Wundt. Seu modelo da mente era sntese de fenmenos tanto em nvel coletivo quanto em nvel individual.

    Finalizamos este terceiro tpico resgatando seu objetivo: o de mostrar ao menos duas formas diferentes de histria da psicologia social: uma primeira com forte influncia positivista, centrada em ideias e determinados autores, e uma segunda, apresentada por Farr (1996), centrada em instituies e fatos histricos. Deixamos a tarefa de encerrar ao prprio Farr:

    A histria da psicologia social, como uma investigao do passado conduzindo a uma compreenso melhor do presente, ainda est para ser escrita (SAMELSON, 1974, p. 229). A rejeio de distines extremamente simplistas entre o passado longnquo" e a curta histria da disciplina pode ser um bom ponto de partida. Deveria ser possvel escrever uma histria da psicologia social que seja tanto internacional como interdisciplinar. No seria nem a histria de ideias (como a que Allport escreveu), nem uma narrativa etnocntrica das realizaes de psiclogos sociais experimentais na Amrica (como a que Jones escreveu). No h nada de errado, a meu ver, em fazer distines entre o passado e o presente de uma disciplina, desde que a distino no esteja to estreitamente ligada a uma filosofia especfica de cincia. Historiadores internos" ( disciplina) tm maiores probabilidades que os historiadores "externos de aderir a tal filosofia, pois, ao mesmo tempo em que so historiadores de uma cincia, so tambm praticantes dessa cincia (FARR, 1996, p. 167).

  • Psicologia social no Brasil

    No Brasil assim como em quase toda a Amrica Latina, nas dcadas de 1960 e 1970, a psicologia social seguia um rumo muito prximo forma de psicologia social importada dos Estados Unidos. A transposio e replicao das teorias e mtodos norte-americanos fica evidente em algumas obras de psicologia social da poca como, por exemplo, Rodrigues (1976; 1979; 1981).

    Tal posicionamento colonialista, onde a importao desenfreada e acrlica de posturas tericas estava muito presente, levou alguns psiclogos sociais latino-americanos, no final da dcada de 1970, a constatar o perodo que se chamou de a crise da psicologia social. Ou a crise de referncia". Vale retomar que esta crise era europeia j na dcada de 1960.

    No Brasil e na Amrica Latina, a crise comea a tomar corpo nos Congressos da Sociedade Interamericana de Psicologia, principalmente em Miami - EUA (1976) e em Lima - Peru (1979). Como pontos principais da crise da psicologia social, estavam a dependncia teri- co-metodolgica, principalmente dos Estados Unidos, a descontextu- alizao dos temas abordados, a simplificao e superficialidade das anlises destes temas, a individualizao do social na psicologia social, assim como a no preocupao poltica com as relaes sociais no pas e na Amrica Latina em decorrncia das teorias importadas. A palavra de ordem era a transformao social. Nos anos de 1960, surge a Associao Latino-Americana de psicologia social (Alapso). Vrios psiclogos sociais experimentais como, por exemplo, Aroldo Rodrigues e J. Varela levam a Alapso ao extremo da psicologia social norte-americana. Em toda a Amrica Latina comea um movimento de rechao Alapso e vrias associaes comeam a surgir identificadas com uma nova proposta de psicologia social. Como exemplo, na Venezuela surge a Associao Venezuelana de Psicologia Social (Avep- so) e no Brasil a Associao Brasileira de Psicologia Social (Abrapso).

    A Abrapso surge em 1980 no Brasil atravs da mo de alguns pesquisadores, dentre tantos outros, Silvia Lane. Lane e Codo organizam em 1984 a obra marco da ruptura da psicologia social brasileira: Psicologia social: o homem em movimento. Aqui o rompimento com a psicologia social norte-americana est claramente colocado. A discusso de fundo como extrair entidades psicolgicas de fenmenos sociais. O materialismo histrico dialtico ditava as discusses da

  • poca. Tambm conhecida como a psicologia marxista, tal perspectiva no Brasil rompe de vez com a psicologia social cientificista (nor- te-americana).

    O contexto da poca do surgimento da Abrapso: o pas mergulhado na ditadura militar. Hoje a realidade parece ser outra. Os pases latino-americanos conseguem construir uma produo em psicologia social que no deixa nada a desejar produo do restante do Ocidente. Contextualizada, histrica, preocupada com a cultura, valores, mitos e rituais, brasileiros e latino-americanos em geral, j no veem mais necessidade de importao desenfreada de teorias e mtodos cientifi- cistas. A interlocuo, principalmente com os pases europeus, est acirrada, como nos diz Farr:

    No incio da Era Moderna, a psicologia social nas universidades da Amrica Latina foi fortemente influenciada pela forma psicolgica dominante de psicologia social da Amrica do Norte. A psicologia social na Era Moderna foi um fenmeno caracteristicamente americano. Muitos dos proeminentes professores de Psicologia Social nas universidades latino-americanas receberam sua formao de ps-graduao nos Estados Unidos da Amrica. Essa uma situao que agora est comeando a reverter, na medida em que a psicologia social est se fortificando mais na Europa e a hegemonia da lngua inglesa como veculo de publicao em psicologia social est sendo desafiado pela literatura florescente, em psicologia social, nos idiomas latino-americanos (FARR, 1996, p. 11-12).

    Indicaes de leituras dos desdobramentos e atravessamentos tericos

    Iremos situar agora, rapidamente, algumas concepes tericas que se desdobraram ou que se atravessaram na psicologia social. Cada uma dessas concepes tericas ou atravessamentos daria, no mnimo, um livro. Portanto, optamos por uma rpida apresentao do desdobramento ou atravessamento terico e remetemos o leitor a obras ou textos recomendados para o estudo e aprofundamento destas concepes.

    Segundo Farr (1994), existem duas formas diferentes de psicologia social: formas psicolgicas e formas sociolgicas. As formas psicolgicas de psicologia social reduzem as explicaes do coletivo e do social a leis individuais. O indivduo o centro da anlise. Indivduo aqui entendido como uma entidade liberal, autnoma, independente das

  • relaes com o contexto social que o cerca e consciente de si. Isto gera a individualizao da psicologia social. Um bom exemplo desta perspectiva se encontra em Allport quando afirma que no h psicologia dos grupos que no seja essencialmente e inteiramente uma psicologia dos indivduos' (ALLPORT, 1924, p. 4). Para Allport no existem pensamentos sociais, pois so os indivduos que expressam suas opinies (as clssicas pesquisas de opinio pblica), ou no a nao quem decide, so os leitores que votam. A individualizao do social a caracterstica marcante da forma de psicologia social psicolgica predominante, atualmente, nos Estados Unidos da Amrica. Tanto o behaviorismo quanto a Gestalt sustentam formas de psicologia social psicolgica. Atualmente, a Psicologia Cognitiva de Tratamento de Informaes cumpre esta funo. J as formas sociolgicas de psicologia social refletem a relao entre o individual e o coletivo. Buscam uma superao desta dicotomia, no reduzindo as explicaes da psicologia social ao individual, nem tampouco ao coletivo. So exemplos desta perspectiva a Teoria das Representaes Sociais (MOSCOVICI, 1978) e o behaviorismo social (MEAD, 1934; 1982), dentre outros.

    Para a histria da psicologia recomendamos tambm Lus Cludio Figueiredo em Matrizes do pensam ento psicolgico (1991), psicologia: 4 sculos de subjetivao (1992); Revisitando as psicologias (1995) e Psicologia: uma introduo (1995). Nestas obras Figueiredo traz a histria da psicologia sob uma perspectiva epistemolgica, antropolgica, ontolgica e tica. Discute o contexto scio-histrico-cultural para o surgimento da psicologia, e que concepes de ser humano e psi- quismo surgem da. Embora de fundamental importncia, no abordaremos tal perspectiva aqui pura e simplesmente por uma questo de tempo e espao.

    Contribuindo com a discusso da psicologia social como um todo, mas ainda seguindo uma tradio da forma de psicologia social sociolgica, as perspectivas mais culturalistas com autores como, por exemplo, Erving Goffman (1978; 1987) (Estigma, Manicmios, presdios e conventos) e Berger e Luckman (1996) (A construo social da realidade). Sob a influncia da psicanlise, primeiro em Freud (1974) (O m al-estar na civilizao; O futuro de uma iluso). Em tradio mais la- caniana, enfocando o conceito de Sintoma Social, encontramos Otvio de Souza (1994) (Fantasia de Brasil), Contardo Caligaris (1993; 1991) (Hello Brasil e Clnica do social), e Mrio Fleig (1993) (Psicanlise e Sintoma Social).

  • Para finalizar, mas no menos importante, recomendamos a revista da Abrapso: Psicologia e Sociedade. Com periodicidade semestral, a revista da Abrapso traz importantes artigos sobre a psicologia social no Brasil e no mundo. Assim como os livros que Manualmente so editados das regionais da Abrapso, principalmente resultantes dos Encontros Regionais da Abrapso.

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  • EPISTEMOLOGIA

    Tnia M ara Gali F on seca

    Viver h apenas trs anos do nascimento de um novo sculo e de um novo milnio torna-se para muitos de ns um dispositivo de provocao a respeito do que fomos, do que estamos sendo e do que queremos vir a ser. A questo da temporalidade, seja como experincia, memria e/ou como categoria analtica, reaparece revigorada. Nosso entorno faz-nos reconhecer os tempos e suas formas; pede e d passagem a discusses que nos remetem busca de sentidos e significados, mais do que histria linear dos fatos e das cronologias. Impor- ta-nos saber as condies que tornaram possveis os fatos histricos; importa-nos, pois, a tessitura genealgica dos acontecimentos que, na perspectiva das cincias, devem ser analisados desde uma escala temporal lentificada e ampliada. Os nascimentos", as "mortes" e as transformaes processuais, quando se trata de cincia, so gastados em tempos de longa durao; engendram-se nunca de forma natural, uma vez que em cincia tudo arbitrrio, historicamente determinado e no necessrio. Assim, o tempo da cincia nunca pode ser referido ordem do eterno, do estvel e do imutvel. Ele pertence somente histria e s suas contingncias.

    No contexto da Modernidade, a cincia ocupa um lugar preponderante na tessitura dos poderes sociais e simblicos, sendo considerada, segundo Feigl (apud FIGUEIREDO, 1988), como uma reao contra a servido imposta pelo dogma e pelas especulaes metafsicas, razo oponente razo teocntrica, fundada na racionalidade do cogito e no expurgo do impensvel. A cincia capaz de nomear as espcies que existem no universo; possui um poder simblico perfor- mativo, instituinte de verdades e supostas realidades; considerada, pois, como legitimadora ontolgica e fonte da verdade. Falar de cincia implica falar do projeto de tornar centrais o homem e sua capacidade racional de analisar, conhecer e dominar o mundo. Implica si

  • multaneamente em falar de luzes e sombras, de conquistas e de exclu- ses, de finitude/infinitude, enfim, de crises do prprio conhecimento como das formas de conhecer. A cincia, como inveno da humanidade - referente aos modos de conhecer e controlar o universo e seus elementos -, longe de manter-se no suposto e pretendido lugar de intocvel reitora e juza do conhecimento, revela-se, antes do que conjunto de verdades objetivas, como reflexo objetivante das faltas e precariedades do sujeito conhecedor.

    Se epistemologia, de acordo com o dicionrio Aurlio, diz respeito ao estudo crtico dos princpios, hipteses e resultados das cincias j constitudas e visa determinar os fundamentos lgicos, o valor e o alcance objetivo deles; que se trata, enfim, da teoria da cincia, ou seja, da teoria das teorias, torna-se fcil reconhecer o valor de tal discusso num momento em que no apenas a cronologia indica a proximidade da passagem de sculo e de milnio, como tambm se colocam novas perspectivas para a prpria discusso, ensaiada e auspiciada por novos paradigmas ou modelos, eles prprios gerados e geradores dos novos tempos sociais e humanos. Se verdade que a cincia e suas prticas necessitam ser criticadas e reconhecidas como importantes fundadoras de realidades humanas e sociais, tambm se torna significativo que tal produo seja dotada do mais agudo, sutil e permanente esprito tico, visto que o conhecer constitui o mundo ao nome-lo, muito antes do que apenas represent-lo. Se pelo conhecimento inventamos mundos, que possamos invent-los de maneira decente!

    A crise e a perda da confiana na epistemologia

    Muitos so os sentidos atribudos palavra crise. Em sua maioria, entretanto, eles se evidenciam como inevitavelmente associados s ideias de transio, deciso e mudana.

    A crise por que passa a psicologia social no pode ser considerada como distante desses significados e tampouco alheia lgica do pensamento cientfico e do pensamento social. Embora possamos saber de pocas em que a psicologia parece ter estado em paz com seus objetos e mtodos de estudo, na verdade ela, enquanto cincia, est sempre em causa. Tal como as demais cincias sociais, sua caracterstica a de autocriticar-se, fazendo da sobressair o fato de que a rea

  • lidade social e humana viva, complexa, dinmica, contraditria, em contnuo devir. Os objetos de estudo da psicologia esto em constante transformao, da mesma forma que os mtodos para conhec-los. Quando termina o sculo XX e j se anuncia o XXI, pode-se dizer que o objeto de estudo da psicologia social torna-se mais complexo e ao mesmo tempo menos conhecido, visto que o patrimnio terico acumulado revela-se insuficiente para dar conta de relaes, processos e estruturas ainda pouco estudados, ou propriamente desconhecidos. As metamorfoses do objeto de estudo da psicologia revelam que no basta apenas acomodar ou reformular conceitos e interpretaes. Tra- ta-se de repensar os fundamentos da prpria reflexo psicolgica. Nesta poca de contemporaneidade, o que vinha germinando h muito tempo parece mais explcito. Para Ianni (1994), o que singulariza o mundo contemporneo, quando j se anunciam as caractersticas fundamentais dos comeos do sculo XXI, que se tornam explcitas algumas das profundas transformaes sociais e mentais que se vinham elaborando ao longo do sculo XX. Um emblema desse tempo est simbolizado nos contrapontos Modernidade e Ps-modernidade, realidade e virtualidade, globalizao e diversidade.

    Nesse final de milnio, vivemos um tempo de transio, caracterizado por complexidades e ambigidades. possvel dizer, junto com Boaventura de Souza Santos (1996), que, se olharmos para o passado, em termos cientficos vivemos ainda no sculo XIX e que o sculo XX ainda no comeou. Podemos tambm, ao olhar para o futuro, reconhecer que o sculo XXI comea antes mesmo de comear. Nosso tempo contemporneo marcado tanto pela durao de um passado quanto pela obcecada tendncia pela instantaneidade. Durao e ins- tantaneidade, tal como num campo de batalha, realizam a luta pela constituio e prevalncia de sentidos. A contemporaneidade revela-se como um tempo social que, antes do que requerer nossa nostalgia, pode nos incitar construo coletiva de novos modos de existir e de conhecer. Para tanto, deve-nos fazer pensar sobre os reducionis- mos que temos praticado em nossa noo de histria, seja quando a entendemos como um tempo circular e de repetio, que reatualiza o imemorial, seja quando a entendemos como linearidade que estabelece o que permanece e o que fica, como declnio ou progresso. A contemporaneidade nos instiga fragmentao de nossa viso, para que possamos apreender outros regimes temporais consistentes e poten

  • ciais. Ela pode nos ensinar que, na memria social e subjetiva, todos os dados encontram-se acessveis e em remanejo constante. Que no h mesmo um passado, seno o seu remanejo. Que o passado se torna um presente disponvel. Que o tempo, enfim, torna-se uma rede de multiplicidades e a histria a matria para as virtualizaes possveis, para mltiplos futuros simultneos compossveis".

    Esta mesma condio contempornea traz consigo a perda da nossa confiana epistemolgica que, gestada nos padres cientficos da Modernidade, nos aponta para o fim de um ciclo de uma certa ordem cientfica.

    Sabemos que as crises - e a da psicologia social no seria uma exceo - podem ser to tnues e circunstanciais, que sua extino acontece por si mesma; podem ser to radicais a ponto de suscitar transformaes radicais na situao que a motivou. A crise da psicologia social no da espcie tnue. Ela a sacode, j por dcadas, como de resto a toda psicologia, reclamando por aes de mudana. Como intervir na crise, ns, professores, psiclogos e pesquisadores de psicologia, se nossos instrumentos de pensamento constituram-se eles prprios nos elementos que a geraram? Como pode algum ser sujeito de uma cura se v a si mesmo contaminado pelo que quer curar? Como os cuidados com o conhecer se implicam nos cuidados de si?

    Estes so alguns dos nossos desafios quando constatamos ao mesmo tempo a potncia e a impotncia de nossas prticas profissionais, de ensino e pesquisa. Quer em seus efeitos produtivos, quer em suas omisses e inafetabilidades, nossas prticas revelam-se muito distantes daquilo que sonhramos que fossem. Chamam-nos, contudo, a ateno, por produzirem o efeito, seno suficiente, necessrio de registrarem em nossos juzos os descompassos nelas existentes.

    Para Toms Ibanez (1994), a crise da psicologia social, longe de constituir um fenmeno localizado, conjuntural e especfico, tem suas razes em uma problemtica muito mais geral que atinge a prpria concepo da racionalidade cientfica. Esta problemtica tem se configurado em torno de fenmenos que marcam os tempos da contem- poraneidade, tais como: a derrubada das bases neopositivistas do paradigma epistemolgico vigente, em especial no que concerne sua formulao verificacionista, sua concepo da natureza e do papel desempenhado pela atividade terica em relao aos dados empri

  • cos; a configurao de uma sociologia do conhecimento e de uma sociologia da cincia que no podiam seno apontar para o carter construdo, reflexivo e scio-histrico" do conhecimento cientfico e de suas prticas constitutivas. Estes so alguns dos elementos que tm propiciado intenso clima de discusso filosfica e epistemol- gica, prprio de uma poca de mutao dos grandes paradigmas cientficos. E precisamente esta discusso que nutre o novo pensamento sobre o social e que tm alimentado a crtica que afeta a Psicologia Social e outras disciplinas.

    Com relao racionalidade cientfica moderna, estendida, no sculo XIX, das cincias naturais para as sociais, pode-se dizer tratar-se de um modelo global e totalitrio, "na m edida que nega o carter racional a todas as form as de conhecim ento que no se pautarem pelos princpios epistem olgicos e pelas regras m etodolgicas" (SANTOS, 1996, p. 11). Desta forma, o empirismo lgico (ou positivismo) proje- tou-se na histria do pensamento ocidental moderno como uma continuao e renovao do projeto iluminista, tornando ntida sua pretenso de ser a encarnao moderna da cultura sensata, viril e racional, de permanente combate aos fantasmas, s iluses, s tradies e autoridades ilegtimas que no se sustentam diante dos tribunais da experincia e da razo (FIGUEIREDO, 1988). A confiana epistemolgica infundida pela Modernidade pode ser pensada ainda como resultado de uma concepo a respeito da natureza como sendo uma espcie de mecanismo passivo, eterno e reversvel, passvel de se deixar desmontar e depois relacionar sob a forma de leis. Passvel, assim, de ser dominado e controlado.

    A implementao de tal cultura cientfica implicava a procura de um conjunto de regras de aplicao mecnica e universal, que permitisse, alm da excluso de falsos problemas e de falsas solues, a construo metdica de conceitos e leis. Tal conjunto de regras deveria ter a sua operatividade independente de quem as aplicasse e da natureza especfica dos objetos; buscava a validade intersubjetiva universal, a objetividade dos enunciados cientficos, a homogeneidade dos procedimentos e a possibilidade de fundao do projeto de uma "Cincia universal unificada. Tal ideal de um saber universalizante encarna o ideal iluminista de uma comunidade formada por seres iguais e dotados de instrumentos capazes de garantir entre eles o consenso. Os particularismos, seja dos sujeitos, seja do mundo, seriam,

  • em ltima anlise, redutiveis frmula universal da cultura cientfica. Ao mtodo ento creditado o poder de realizar o padro de convivncia idealizado. Agora, deste reino, acham-se excludas as decises acerca de valores ticos e polticos, supostamente no passveis de uma avaliao objetiva pelos fatos e pela lgica. Obtendo a expulso da inteno dos agentes, e gerido no pela causa material, e sim pela causa formal/eficiente/final, o conhecimento cientfico avana pela observao descomprometida, sistemtica e tanto quanto possvel rigorosa dos fenmenos naturais. Ope a incerteza da razo entregue a si mesma certeza da experincia ordenada (KOYR, apud SANTOS, 1996); orienta-se das ideias para as coisas, e no das coisas para as ideias e estabelece a prioridade metafsica como fundamento ltimo da cincia. Matematiza o universo, quando adota a lgica das matemticas como instrumento privilegiado de anlise. Conhecer significa quantificar. O rigor cientfico aferido pelo rigor das medies, passando a ser irrelevante tudo o que no quantificvel. Realizando de forma plena a regra cartesiana de "dividir cada uma das dificuldades em tantas parcelas quanto for possvel e requerido para as resolver". O mtodo cientfico apregoado reduz a complexidade, revelando a que conhecer tambm significa reduzir e classificar para depois determinar as relaes sistemticas entre o que se separou. Impondo-se como esquecimento de que a complexidade est na realidade social e no numa vontade (BOURDIEU, 1990), tambm, hoje, nos permite ver aquilo que diz Bachelard: o simples nunca mais que um simplificado (apud BOURDIEU, 1990). Cria-se, nesse contexto, a ideia de um mundo mquina, capaz de ser regulado desde a manipulao externa, porque uma vez compreendido desde a ordem e a estabilidade torna-se mesmo uma pr-condio para que seja transformado. Mais do que para compreender o real, este conhecimento mostra pretenses funcionais e utilitrias.

    Se tal racionalidade se pretendia instituinte de um regime de verdade e foi capaz de estabelecer uma arrogante confiana epistemolgica atravs tanto da deslegitimao dos chamados saberes ordinrios - provindos da experincia imediata como de suas concepes meca- nicistas a respeito da natureza, ela tambm percebia, como potencialmente perturbadoras, as chamadas humanidades que, colocadas em lugar marginal, passaram a perseguir seu estatuto social enquanto cincia, a partir da adoo daqueles preceitos ditados pela prpria racionali

  • dade que as negava. Para colocar-se como cincia e no filosofia, a psicologia inaugura, nos idos do sculo passado, com Wundt, seu ingresso na galeria das cincias, desvinculando-se, ento, de sua longa histria com a filosofia, tal como assinala Robert Farr (1996). Transbordado, assim, para o estudo dos homens e das sociedades, o empirismo lgico v-se confrontado com obstculos epistemolgicos, mostrando-se, contudo, no mais capaz de opor-se mar de irracionalismo ento suscitada. Sofre algumas variantes que, mesmo estando assentadas numa postura antipositivista e fenomenolgica, revelam-se ainda subsidirias do modelo de racionalidade das cincias naturais.

    A crise do paradigma dominante que acabo de descrever o resultado interativo de uma pluralidade de condies, dentre elas as de ordem terica. Assim, no incio do sculo XX, as descobertas da fsica, especialmente as da Teoria da Relatividade de Einstein, as da mecnica quntica, no domnio da microfsica, o princpio da incerteza de Hei- senberg, e as experincias do fsico-qumico Ilya Prigogine relacionadas teoria das estruturas dissipativas e ao princpio da ordem atravs de flutuaes, so exemplos de que o aprofundamento do conhecimento permitiu ver a fragilidade dos pilares em que se funda (SANTOS, 1996).

    Neste novo contexto, a reflexo crtica tem mostrado, dentre outras coisas, o declnio da hegemonia das leis e das causas. Incide, ou- trossim, mais sobre o contedo do conhecimento cientfico, do que sobre sua forma e permite, portanto, revelar que o aviltamento da natureza, operado pelo paradigma mecanicista e empiricista, acaba por aviltar o prprio cientista, na medida em que reduz o suposto dilogo experimental ao exerccio de uma prepotncia.

    Novos espaos, novos paradigmas

    Do movimento crtico acima caracterizado originam-se mltiplos efeitos, sendo possvel detectar, no contexto da psicologia social atual, pluralizaes diversas que apontam para um quadro de fragmentao antes do que para a unidade. Novos espaos se constituem pelas conjunes e disjunes realizadas. Implicaes antigas so questionadas e descentramentos so propostos. Tornam-se vigorosos os discursos da interdisciplinaridade e das conjunes, bem como o da ecolo

  • gia social e cognitiva que lhe conseqente, revelando um contexto propcio anlise cujos componentes se amalgamam, no se comportando como configuraes isoladas. Redes de saberes se propem a interconexes, possibilitando uma infindvel trama de possibilidades de conhecer. A conscincia crescente do papel criativo da desordem (PRIGOGINE, 1996), da auto-organizao (MATURANA & VARELA, 1990) e da no linearidade fazem reconhecer que o mundo rico em evolues imprevisveis, cheio de formas complexas e fluxos turbulentos, caracterizado por relaes no lineares entre causas e efeitos, e fraturado entre escalas mltiplas de diferente magnitude que tomam precria a globalizao (SCHNITMAN, 1996).

    Vive-se uma espcie de apogeu do instituinte, mesmo que se saiba do peso das determinaes do j institudo. O novo discurso cientfico um convite busca antes do que a certeza e privilegia, como nunca dantes o fizera, a multiplicidade, a polifonia, a descentralizao do sujeito e da razo. O duvidar sobre a dvida, a perda das certezas e das metanarrativas, introduzem aquilo que se pode chamar de processos de segunda ordem, ou seja, a reflexividade sobre a reflexividade. O pensamento se constitui como potencialmente relativista, relacionan- te e autocognoscitivo (SCHNITMAN, 1996) e a cincia reconhece-se como no suficiente se tomada como referncia legitimao do conhecer. olhada e olha-se como constituda e constituinte nas/das redes de poder, reconhecendo-se como efeito de regimes de verdade antes do que fonte de verdades. A cincia revela-se contingente e no autoevidente; mostra-se como construo social.

    Sendo construda, pode-se dizer que ela pode vir a ser desconstru- da, interrogada e questionada. Assim que na seo final deste captulo pretendo enfocar algumas discusses que tm animado o cenrio cientfico e acadmico. Ibanez (1994) chama a ateno para o surgimento de uma espcie de galxia construcionista da cincia, ou seja, um conjunto heterogneo de disciplinas, assentado em preocupaes e formulaes comuns que apontam para uma posio de ruptura com boa parte dos pressupostos da "concepo herdada de cincia". Para o psiclogo espanhol acima referido, o fato de que o construcionismo transite por disciplinas to diversas, como a Fsica, a Biologia e a Psicologia, por exemplo, dota-o de um carter de metadiscurso, ou seja, trata-se de um tipo de discurso cujo alto nvel de generalidade e de abstrao permite inspirar concretizaes diversas segundo as particularidades de cada disciplina.

  • Desde o intuito simultaneamente construtivista, desconstrutivis- ta contemporaneamente proposto, uma das primeiras questes a ser reconhecida pela psicologia a do seu carter autoritrio. Pretendendo constituir um conhecimento cientfico acerca da complexa realidade psicolgica e dele utilizar-se para incidir sobre a infinidade de problemas psicossociais propostos e existentes, almejando assim melhorar a qualidade de vida dos sujeitos, as boas intenes da psicologia necessitam ser desconstrudas, com o objetivo de fazer aflorar perigosas ingenuidades que tm sustentado nossas prticas.

    Assim que, para dar incio a esse processo, chamo a ateno, juntamente com Ibanez (op. cit.), para a concepo de conhecimento e realidade implicada nas hegemnicas tradies psicolgicas.

    Em princpio, a psicologia considera como separados a realidade e o conhecimento desta, fundando uma tradio representacional do conhecimento, que simultaneamente desimplicado das intenes e valores do sujeito cognoscente e dos efeitos do saber sobre a realidade. Nessa perspectiva, a realidade o que deve estar em correspondncia com a teoria, e o conhecimento privilegiado da realidade o obtido atravs da objetividade cientfica.

    Ora, os novos paradigmas permitem-nos colocar no a dvida sobre a existncia, ou no, da realidade, mas de privilegiar a questo de que a realidade no exista com independncia de nosso acesso a ela. A realidade existe e est composta por objetos, mas no porque estes objetos sejam intrinsecamente constitutivos da realidade, mas porque nossas prprias caractersticas os pem, por assim dizer, na realidade. E precisamente porque so nossas caractersticas as que os constituem que no podemos crer que se a realidade depende de ns, ento, podemos construir a realidade que queiramos (IBANEZ, 1994). Assim que podemos compreender que os objetos que compem a realidade psicolgica no procedem de uma suposta natureza humana na qual estariam pr-contidos de forma natural, mas que resultam das prticas de objetivao que a cincia tem desenvolvido. Os fenmenos psicolgicos no so dados, mas construdos atravs de prticas contingentes, sociais e histricas. Isso quer dizer, tambm, que os fenmenos psicolgicos esto parcialmente conformados pela maneira como os representamos, ou seja, pelos conhecimentos que produzimos a seu respeito. E ainda significa dizer que os psiclogos auxiliam a conformar a realidade psicolgica, no somente utilizando conheci

  • mentos para incidir sobre ela, mas muito mais diretamente a partir dos prprios conhecimentos elaborados sobre a realidade.

    Como dispositivo autoritrio, a psicologia tende a naturalizar a realidade psicolgica e social, mascarando o papel que desempenham certas prticas humanas na construo dessa realidade, sugerindo, por exemplo, a existncia de certos padres de normalidade psicolgica marcados pela prpria natureza e aos quais devemos nos conformar e adequar. Desde sua inteno de fazer incidir o seu corpo de conhecimentos sobre a realidade humana e social no intuito de transform-la e melhor-la, a psicologia , ento, evidentemente exercida como prtica normativa e autoritria. Herdeira da concepo cartesiana de cincia e devotada filha dos ideais da Modernidade, a psicologia alimenta a crena de que existe um acesso privilegiado realidade, que permite, graas objetividade, conhecermos a realidade "tal como ela ". Tal crena se impe com importante fora, conduzindo ao dilema assim colocado por Ibanez (1994): "Como posso aceder realidade com independncia do conhecim ento que tenho dela para compar-la com o conhecim ento da realidade?" (p. 269)

    No tem sentido pensar que o conhecimento nos diz como a realidade porque no h forma de saber como a realidade com independncia do seu conhecimento e no h forma de saber se o conhecimento cientfico acerta em sua descrio da realidade. O conhecimento cientfico tem muitas virtudes, mas nunca a virtude de refletir sobre a realidade tal como ela . bastante til esta discusso se concordamos com a ideia de que, quando se trata de eleger um modo privilegiado de acesso realidade, a defesa da perspectiva objetivista uma forma de impedir a presena do sujeito nos conhecimentos que este produz. A produo de "verdades", neste sentido, tende a ser encarada como absoluta e transcendente. A retrica da verdade funda-se no prprio mito da objetividade.

    As tenses resultantes de tais consideraes e os princpios nor- teadores que elas evocam tornam imperativo o reconhecimento do fato de que a realidade psicolgica uma construo contingente, dependente de nossas prticas scio-histricas e que no nos define como essncia, em termos de algo que estaria inscrito em nossa natureza. Da mesma forma, deve permitir revelar o discurso do psiclogo nunca desatado das convenes nele inculcadas, constituindo-se,

  • portanto, em uma das maneiras de interpretar a realidade dentre tantas outras possveis.

    Nesse final de texto, podemos dar as mos aos diversos autores aqui citados e mais a outros, como Maritza Montero, da Venezuela, para ressituarmos nossa cincia e a ns mesmos no contexto de nossa prpria condio: frgil, contingente, histrica, processual e relativa. Juntamente com Ibanez (1996), afirmamos que este giro recoloca o ser humano no centro mesmo da razo cientfica e da disciplina psicolgica, mas sem apelaes humanistas, pois temos aprendido que o ser humano socialmente construdo e que sua autonomia no deixa de ser, o mais das vezes, uma iluso e que no h nenhuma natureza humana a resgatar.

    Sugesto de leituras

    Com a finalidade de saber mais a respeito de epistemologia e psicologia social, sugere-se a paciente leitura do livro Psicologia social cons- trucionista, de Toms Ibanez, editado pela Universidade de Guadalaja- ra, Mxico, em 1994. Esta obra trata com detalhamento da histria da Psicologia vista sob o ponto de vista de sua ideologizao, crises e rupturas. Ibanez privilegia o enfoque epistemolgico, fundamentando sua anlise em levantamentos quantitativos e qualitativos do acervo bibliogrfico em psicologia disponvel em especial na Europa e nos EUA. Para os mais apressados e para os que preferirem encaminhar suas reflexes mais diretamente ao estado atual da arte, sugiro, neste mesmo livro, a fixao do estudo nos seus captulos V, VI, VII e VEH.

    Um outro importante livro para auxiliar a contextualizar a discusso propriamente psicolgica o denominado Um discurso sobre as cincias, de Boaventura de Souza Santos, produzido em Portugal pela Editora Afrontamento e que se encontrava em 1996 na sua oitava edio. Trata-se de uma verso ampliada da Orao da sapincia proferida pelo autor na abertura solene das aulas da Universidade de Coimbra, em 1985/1986. Refere-se a uma ampla e crtica viso sobre a dis- cursividade cientfica, suas tendncias e rupturas, bem como seus compromissos ticos e polticos.

    Da mesma forma, em Revisitando as psicologias, editado pela Vozes, em 1995, Lus Cludio M. Figueiredo conjuga textos impor

  • tantes que versam sobre epistemologia, tica e prticas da psicologia. O livro, em especial seu captulo intitulado Os lugares da psicologia , fornece muitos elementos a uma discusso bem fundada e sobretudo crtica.

    Dora Fried Schnitman organiza o muito bem-vindo livro Novos p a radigmas, cultura e subjetividade, que, editado em 1996 pela editora Artes Mdicas/Porto Alegre, apresenta como ncleo as apresentaes e dilogos do "Encontro Interdisciplinar Internacional Novos Paradigmas, Cultura e Subjetividade", levado a efeito em Buenos Aires no incio da dcada de 1990. Trata-se de uma importante obra, seja pelas manifestaes cientficas, culturais e teraputicas que expressa, seja pela alta qualidade de seus manifestantes, cientistas de diversas reas, caracterizados pelas mais altas distines e reconhecimento.

    O livro de Isabelle Stengers - Quem tem m edo da cincia?-, editado em 1990 pela Siciliano/So Paulo, mostra-se tambm como importante contribuio discusso epistemolgica, levando a considerar a importncia das relaes entre cincia e poder. Torna-se significativo registrar que Stengers parceira de trabalho intelectual de Ilya Prigo- gine, atuando com o mesmo na consolidao de novos paradigmas.

    E, por fim, gostaria de sugerir a leitura do artigo Paradigmas, cor- rientes y tendencias d e la psicologia finisecular, escrito por Maritza Montero e publicado na revista Psicologia e Sociedade da Abrapso, volume 8, n. 1, janeiro/junho 1996, p. 102-119. Neste texto, Montero, alm de examinar as tendncias de mudana de paradigma na psicologia social contempornea, apresenta uma perspectiva que considera o objeto de estudo da disciplina como uma construo coletiva, histrica e transitria. Para a autora, tal nova perspectiva coexiste com os demais modelos cientficos e pretende colocar a Psicologia Social a servio das transformaes sociais demandadas pelas maiorias oprimidas.

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  • TICA

    Pedrinho A. Guareschi

    Introduo

    Ao nos aproximarmos do Terceiro Milnio, tem-se a impresso de que estamos vivendo um paradoxo: ao invs de vermos a humanidade superar, empregando a linguagem de Teilhard de Chardin, a mile- nria fase da individualizao, que levou ao individualismo e ao liberalismo na sociedade em geral, para entrar numa nova fase de su- per-humanizao e de socializao, na base do uma nova percepo da realidade e da vida como relao, estamos presenciando, e aqui est o paradoxo, uma excrescncia de individualismo, de egocentrismo, de luta e competio, de maneira aguda e esquizofrnica, que leva o mundo a uma situao de apartao e excluso. Os pressupostos da filosofia liberal so hegemnicos e tomam conta do cenrio mundial.

    Mas ao mesmo tempo preciso ver que essa situao est ocasionando tantas contradies e conflitos, que no pode perdurar. Percebem-se sinais de estertores de uma era que teve profunda influncia em quase todas as instituies da sociedade, mas que no consegue mais resistir e se legitimar.

    O modelo antropolgico individualista est em crise; vemos nascer um novo modelo de ser humano e de uma sociedade fundada na comunho, na convergncia, na superao de barreiras fsicas e psicolgicas, espaciais e temporais, territoriais e culturais. Esse trabalho quer discutir, da maneira mais simples possvel, dentro de um tema complexo, alguns pressupostos ticos que julgamos importantes para um estudante de psicologia que queira desenvolver uma viso crtica e global da sua disciplina e dos grandes e importantes acontecimentos mundiais que modelam a problemtica atual.

  • tica, o que isso?

    Voc j tentou perguntar a algum, quando fala em tica, o que ele entende por isso? Ou melhor: voc j tentou, alguma vez, responder a voc mesmo o que seja tica? interessante notar que a toda hora escutamos algum dizendo que tal procedimento no tico, que tal ao antitica etc. Que significa isso?

    Quando se comea a refletir sobre o que seja tica, e sobre os fundamentos da tica, damo-nos conta de quo complexa a questo. Mas ao mesmo tempo vemos que todos ns, de um modo ou de outro, temos nossas convices ticas", possumos nossa tica". Para termos tal tica", temos de nos basear em algum fundamento, algum pressuposto filosfico e valorativo. Mas curioso notar que a maioria das pessoas, apesar de possurem esses fundamentos e pressupostos, poucas vezes pararam para refletir e tomar conscincia de quais seriam esses pressupostos. Essa rpida discusso quer trazer baila esses pressupostos e facilitar, a quem desejar, descobrir qual o fundamento de sua tica. Mesmo os estudos de Kohlberg, e em parte os de Piaget, apesar de ajudarem a identificar estgios" de conscincia tica, no fornecem elementos para que se possa identificar os pressupostos filosficos e, consequentemente, se possa fazer uma crtica a esses pressupostos.

    Podem ser identificados dois paradigmas principais que fundamentariam as exigncias ticas, ou os valores ticos. O primeiro o da lei natural; o segundo o da lei positiva.

    O paradigma da lei natural

    O grande referencial do paradigma da lei natural a natureza. Esse referencial tem a pretenso de dizer que a partir do exame, da anlise e da ateno que se d compreenso "natureza, possvel, de um lado, identificar uma tica que governe todos os povos e em todas as pocas e, de outro lado, possvel descobrir uma fonte para essa tica que no sejam os costumes ou instituies de determinados povos ou naes. Entre os defensores de tal paradigma podemos citar Aristteles, os estoicos, Ccero, e muitos outros seguidores at os dias de hoje (quem sabe at voc mesmo que est lendo esse trabalho).

    Essa tradio dividiu-se em duas vertentes: uma pr-moderna, religiosa, inspirada em Toms de Aquino, centrada na ideia de um Cria

  • dor e numa ordem imutvel estabelecida por Deus; outra moderna, secular, inspirada nos escritos de Grotius e John Locke, fiel mentalidade do mundo moderno, sem negar a origem divina da natureza, investe em defender os direitos humanos. Joo Batista Libnio diz que a primeira se caracteriza como o "momento do objeto, como pr-moderna; a segunda como o momento do sujeito, tpica do pensamento moderno. Uma privilegia a estabilidade do objetivo, e a outra a liberdade e a iniciativa do subjetivo. Mas para ambas o critrio que as fundamenta algo exterior: a natureza como produto de Deus Criador para a primeira, ou a dignidade e os direitos fundamentais do ser humano que podem ser racionalmente conhecidos e justificados, para a segunda.

    O paradigma da lei positiva

    O paradigma da lei positiva surge como reao ao paradigma da lei natural, tanto na sua verso religiosa como na verso secular. H uma rejeio, tanto em nvel epistemolgico, como em nvel ideolgico, de um apelo a uma ordem natural como referencial tico. Em nvel epistemolgico, a partir do relativismo cultural, questiona-se a possibilidade de dar contedo concreto a leis ditas naturais, que sejam as mesmas em todas e para todas as pocas e culturas. Em nvel ideolgico, a partir da experincia histrica do abuso, tanto de poderes religiosos como civis, de apelar para leis naturais para esmagar seres humanos que se opunham a determinados regimes, levou rejeio de uma ordem humana e social determinada por uma lei natural prees- tabelecida. O critrio tico passa a ser o que foi escrito e promulgado aps as diversas instncias de discusso. o que passou a se chamar de contratualismo. Uma vez discutida e estabelecida uma negociao social, ela passa a ser vlida. Com isso se evita a arbitrariedade e pode-se apelar para algo objetivo que foi formulado e promulgado. Podemos nos libertar, assim, de uma natureza cega, de um lado, e dos mandos e desmandos autoritrios de governantes e grupos, de outro.

    Pode-se perceber logo que se as leis fossem justas, discutidas democraticamente e aplicadas da maneira mais imparcial possvel, o estado de direito poderia ser um forte defensor do direito e das liberdades dos seres humanos. Mas o que acontece quando os governadores e os juizes so autoritrios e quando alguns legislam em causa prpria? Que dizer quando grupos e minorias poderosas foram a criao

  • de acordos e negociaes em proveito prprio? Pode-se ainda dizer que o que institudo tico? Que dizer de exemplos como o das ditaduras militares, e especificamente o caso do Brasil e outros pases da Amrica Latina, onde alguns grupos, base da fora e da presso, impuseram sobre uma maioria suas vontades e seus privilgios? E tudo atravs de constituies" escritas e promulgadas.

    Como acabamos de ver, o fundamento da tica colocado por alguns na lei natural (tanto por ser essa lei originada de um Deus Criador, ou por estar radicada na dignidade do ser humano e de seus direitos inalienveis), ou num positivismo jurdico, que se radica no texto de uma lei escrita e promulgada.

    Mas damo-nos conta tambm das limitaes e perigos que se originam de tais pressupostos. Que fazer, ento? Haveria outra alternativa para fundamentar a dimenso tica? O que seria, afinal, a tica?

    tica como instncia crtica

    Se as colocaes acima discutidas mostram suas limitaes e precariedades, ao mesmo tempo indicam pistas por onde se pode iniciar uma busca de uma fundamentao tica das aes e relaes. Mas decisivamente importante que, ao perseguirmos tais fundamentaes, tenhamos sempre em mente seus possveis limites. E a isso poderamos chamar de postura crtica diante de todo criado e de todo o institucionalizado. Enquanto permanecermos dentro do humanamente institudo, sem apelarmos para o eterno e o transcendente, temos de reconhecer nossa limitude histrica. E, ao reconhecermos essa limitude, temos de deixar sempre uma porta aberta, a porta de possibilidade de alternativas, de crescimento, de transformaes, de aperfeioamento.

    Nesse contexto, creio que nos seria muito til uma noo de tica como sendo uma "instncia crtica propositiva sobre o dever ser das relaes humanas em vista de nossa plena realizao como seres humanos" (DOS ANJOS, 1996, p. 12).

    Perscrutando a fundo essa colocao, podemos extrair dela duas dimenses fundantes: a dimenso crtica e propositiva, e a dimenso das relaes. Elas so centrais para a compreenso mais profunda da tica.

  • a) A dim enso crtica e propositiva

    A dimenso crtica da tica significa que ela pode ser considerada como algo pronto, algo acabado. Ao contrrio, ela est sempre por se fazer. E ao mesmo tempo ela est presente nas relaes humanas existentes. medida em que ela se atualiza, ela passa a sofrer suas contradies, e por isso deve ser questionada e criticada. Ao mesmo tempo ela tem que ser propositiva. No pode se furtar a colocar exigncias e desafios. Mas esses desafios e exigncias podem ser reela- borados, redimensionados, refeitos e retomados. E a tica sempre do dever ser das relaes humanas em vista de nossa plena realizao. uma busca infinita, interminvel; uma conscincia ntida de nossa incompletude; um impulso permanente em busca de crescimento e transformao.

    No seria fora de propsito mencionar aqui a posio de alguns autores da escola crtica, como Karl Otto Apel e Jurgen Habermas, que procuram resgatar a dimenso tica a partir do discurso. O discurso o que temos de mais prximo, de mais real, e ao mesmo tempo de mais interminvel; ele possui a maior possibilidade de criar todas as alternativas possveis. E ao mesmo tempo ele possui pressupostos indispensveis, sem os quais ele mesmo no pode se sustentar, isto , ele traz consigo tambm uma infinidade de caminhos diferentes, e entre eles a possibilidade de seu prprio resgate. Os pensadores acima citados so chamados por Lima Lopes (1996, p. 31) de crticos, som ando tanto a crtica kantiana quanto a marxista: podem ser tidos com o herdeiros dos ideais de liberdade dos m odernos ao m esm o tem po que levam a srio a im possibilidade de existncia do ser hum ano no socializado" .

    minha convico que fundamental enfatizar a dimenso da crtica ao se discutir a questo da tica. Num trabalho anterior (GUARESCHI, 1992) tentei mostrar como o uso cuidadoso e srio da crtica, mesmo ao se discutir as diferentes teorias cientficas, leva a prpria evidncia da impossibilidade de uma cincia, ou de uma prtica cientfica neutra, isto , sem uma dimenso tica. A crtica resgata a dimenso tica de toda ao humana. Mas ao mesmo tempo no fecha a questo sobre a presena de uma dimenso tica especfica. Alis, a prpria Teoria Crtica (tambm chamada de Escola de Frankfurt ou Crtica da Ideologia) tem como pressuposto a impossibilidade de neutralidade das aes humanas. Toda ao humana, segundo essa escola de pensamento, deve ter como finalidade iluminar e eman

  • cipar; a ao que se diz neutra, se no estiver direcionada a tais fins, possivelmente estar servindo a propsitos contrrios de ocultao da realidade e de manipulao das conscincias (GEUSS, 1988).

    tambm iluminador notar, nesse contexto, como John B. Thompson (1995, p. 76), um dos melhores analistas da ideologia, define esse conceito. Para ele ideologia o uso de formas simblicas que servem para criar ou manter relaes de dominao. Uma forma simblica s ideolgica quando se puder mostrar que ela serve aos propsitos de criar ou manter relaes que sejam de dominao, isto , relaes assimtricas, desiguais, injustas. Dominao aqui um conceito diferente de "poder. Poder uma capacidade, uma qualidade individual de pessoas, algo singular, particular. Nesse sentido, todos os que podem fazer algo (trabalhar, falar, escrever etc.) tm um poder. J "dominao" uma "relao, isto , sempre se d entre dois ou mais sujeitos, e acontece quando h uma expropriao de poder, isto , quando um retira, de maneira assimtrica ou injusta, um poder de outro parceiro. Para essa concepo de ideologia, ento, a dimenso "tica, isto , a dimenso do "dever (ou no dever) fazer, est presente. A anlise ideolgica, nesse sentido, sempre uma demonstrao e uma denncia da existncia de relaes assimtricas, desiguais. Ela leva, naturalmente, constatao de situaes que provocam uma tomada de posio, que dificilmente vai deixar as pessoas impassveis, tranqilas. Esse o grande risco de se tomar ideologia na acepo crtica. E ao mesmo tempo a grande vantagem. Na verdade, de que ajuda aos grupos humanos dizer, simplesmente, que as coisas so assim, sem que se apresentem elementos de transformao e superao de tais situaes? Mas o mais importante, contudo, o fato de que uma postura terica que simplesmente toma a cincia como uma prtica que diz como as coisas so esconde, por detrs dela, uma postura conservadora. E tanto uma como a outra possuem dimenses ticas, pois ser conservador (isto , permitir que as coisas sejam assim, ou impedir que elas mudem) uma ao to tica como lutar pela mudana (lutar para que a situao se transforme).

    b) A dimenso da relao

    Uma segunda dimenso que gostaramos de discutir a partir da definio acima a questo das relaes", ou da tica como tica das relaes. Essa uma discusso extremamente provocante. Dentro de

  • uma cosmoviso individualista, onde o ser humano considerado como indivduo ("indivisum in se et divisum a quolibet alio"), sob o imprio do liberalismo, fica difcil de se perceber que a tica s pode ser dita das relaes, e onde ela mesma sempre uma relao.

    Entendemos por relao a ordenao intrnseca de alguma coisa em direo a outra, que a filosofia define como ordo ad aliquid". Em outras palavras, relao algo que no pode ser sem outro. Vejamos como a questo da relao tem a ver com a justia e a tica.

    Olinto Pegoraro (1996) acaba de publicar um livro cujo ttulo : tica justia. O que o referido autor faz recuperar a argumentao de Aristteles, na tica a Nicmaco, onde ele afirma que a justia a virtude central da tica, pois ela comanda os atos de todas as virtudes. "Essa forma de justia no parte da virtude, mas a virtude inteira e seu contrrio, a injustia, tambm no uma parte do vicio, m as o vcio inteiro" (ARISTTELES, V, 3, 1130a 9-12).

    Dizer que tica justia torna-se muito claro quando pensamos sobre o que significa justia". Justia provm de jus", que no latim quer dizer direito. Algum justo quando estabelece relaes com outros que so justas. Em outras palavras, algum sozinho no pode ser justo. Algum sozinho pode ser alto, branco, simptico etc., pois isso no implica relao, isto , no implica outros". Agora, justo, ele no consegue ser sozinho, pois a justia, ou a injustia, s entram em campo no momento em que algum se relaciona com outros. Isso quer dizer que s "relao que se pode aplicar o adjetivo justo, e no de um polo apenas da relao. Eu sou justo quando estabeleo relaes com outros que so justas, isto , que respeitem os direitos dos outros. Justia tem a ver, pois, com o respeito aos direitos das pessoas. H justia quando os direitos das pessoas so respeitados.

    Do mesmo modo com a tica. Dizer que tica relao, ou dizer que tica s se pode aplicar s relaes", afirmar que ningum pode se arvorar o predicativo de tico a partir de si mesmo, como quer, exatamente, o liberalismo. O pensamento liberal, ao partir da definio de ser humano como indivduo", centraliza tudo no eu, no sujeito da proposio. Perdemos a dimenso relacionai, e como conseqncia mistificamos o verdadeiro sentido de tica. Chegamos, assim, a absurdos sociais como os que vivemos hoje, em que um tero da populao no possui seus direitos garantidos, e nos blasonamos como ticos, ou como um pas onde exista a tica. Por incrvel que parea, quem vai decidir se somos, ou no, ticos, so os outros. Isso parece

  • chocante, e de fato o , dentro da cosmoviso egocntrica e individualista, como a cosmoviso do liberalismo.

    No documento Exigncias ticas da Ordem Democrtica, da CNBB, a seguinte afirmao vem mostrar quem o juiz da tica numa verdadeira democracia: "a existncia de milhes de empobrecidos a negao radical da ordem democrtica. A situao em gue vivem os pobres critrio para medir a bondade, a justia, a moralidade, enfim, a efetivao da ordem democrtica. Os pobres so os juizes da ordem democrtica de uma nao".

    Concluso

    Entendemos o ser humano como um ser dialgico, relacionai, que se vai construindo a partir das relaes que vai estabelecendo com os outros seres humanos. Sem perder sua singularidade, pois continua sempre sendo um ser nico e irrepetvel, sua subjetividade composta dos milhes de relaes que ele estabelece durante toda sua existncia. A dimenso tica se apoia diretamente sobre essa antropologia personalista e dialgica. Reconhecemos o outro como pessoa com quem entramos em dilogo, e no como um simples indivduo" que est ao nosso lado, com quem entramos em contato pelo simples motivo de sobrevivncia, em competio potencial conosco. Na afirmao de Dussel (1977, p. 98), no reconhecimento dessa alteridade consiste toda eticidade da existncia.

    Leituras complementares

    Um livro acessvel, que traz vrios artigos sobre tica, principalmente na sua aplicao, Relaes sociais e tica, Porto Alegre: Edies Abrapso/Sul, 1995, organizado por Maria da Graa Jacques. Pode ser conseguido na PUCRS.

    Outro livro que pode ajudar a aprofundar essa questo tica Justia, de Olinto Pegoraro, Petrpolis: Vozes, 1995. Mostra como a tica sempre uma relao e que a essncia da tica reside na relao de justia.

    Finalmente, o livro A emergncia da conscincia tica de Pedrinho Guareschi e Luiz Carlos Suzin, Aparecida: Editora Santurio, 1995.

  • Bibliografia

    ARISTTELES. tica a Nicmaco. Braslia: Ed. da Universidade, 1985 [Kury, Mrio da Gama (org.)].

    CNBB (Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil). Exigncias ticas da ordem democrtica. So Paulo: Paulinas, 1994.

    DOS ANJOS, M.F. Apresentao. In: DOS ANJOS, M.F. & LIMA LOPES, J.R. tica e direito: um dilogo. Aparecida: Santurio, 1996.

    DUSSEL, Enrique. Para uma tica da libertao Latino-Americana. Vol. II: Eti- cidade e Moralidade. So Paulo: Loyola-Unimep, 1977.

    GEUSS, R. Teoria crtica: Habermas e a Escola de Frankfurt. Campinas: Papi- rus, 1988.

    GUARESCHI, P. Sociologia crtica. 38. ed. Porto Alegre: Mundo Jovem, 1996.

    ______ . tica e Relaes Sociais: entre o existente e o possvel. In: JACQUES, M.G. (org.). Relaes sociais e tica. Porto Alegre: Abrapso/Sul, 1995.

    ______ . A emergncia da conscincia tica. In: GUARESCHI, P. & SUZIN,L.C. Conscincia moral emergente. Aparecida: Santurio, 1992.

    LIMA LOPES, J.R. tica e Direito - Um panorama s vsperas do sculo XXI. In: DOS ANJOS, M.F. & LIMA LOPES, J.R. tica e direito: um dilogo. Aparecida, So Paulo: Santurio, 1996.

    PEGORARO, O. tica justia. Petrpolis: Vozes, 1996.

    THOMPSON, J.B. Ideologia e cultura moderna : teoria social crtica na era dos meios de comunicao de massa. Petrpolis: Vozes, 1995.

  • INDIVDUO, CULTURA E SOCIEDADE

    Luiz Fernando Rolim Bonin

    Para compreender o ser humano, alm de estudar seu corpo e sua origem animal, necessrio pesquisar, principalmente, como ele se constitui em um contexto sociocultural.

    O homem tambm um animal, mas um animal que difere dos outros por ser cultural. Os outros primatas podem ser considerados como entes protoculturais, pois transmitem hbitos atravs de geraes como peneirar alimentos, nadar e lavar batatas. Usam instrumentos simples e aprendem por mera observao o comportamento de outrem. Para a teoria histrico-cultural, o primata humano pode ser definido como um ser biolgico antes de possuir o domnio da fala, mas pode-se consider-lo nessa fase como tendo uma protocul- tura (BONIN, 1996). Por exemplo, as crianas de um a dois anos j aprendem usar instrumentos simples da cultura por imitao ou reforo, mas no entendem ainda uma informao verbal. No entanto, entram num processo plenamente cultural quando j dominam o uso da fala, o que as permite processar o simblico contido nas instituies culturais. Entretanto, no possvel deixar de considerar o aspecto biolgico do ser humano, apesar deste ser histrico-cultural. Afinal, o homem est no mundo por ter um corpo. Os neuropsiclo- gos tm demonstrado que as habilidades envolvidas na atividade humana supem uma condio necessria, mas no suficiente e elementar, um sistema nervoso e hormonal. Pode-se dizer que o homem um animal que usa smbolos porque houve um desenvolvimento do seu crebro para tal, no decorrer de sua filognese. No incio do desenvolvimento da criana, que um animal da espcie humana, os processos da atividade se do de maneira semelhante de outros primatas, isto , no envolvem a fala, ou melhor, processos simblicos. A primeira comunicao da criana recm-nascida com o outro seria atravs do choro. Esta ainda uma expresso direta do estado afetivo da criana no sendo, contudo, uma comunicao que envolva, neste momento, uma representao mental.

  • Indivduo e sociedade

    A teoria histrico-cultural considera importante a filognese dos processos psicolgicos. O ser humano, ao nascer, traz consigo determinados comportamentos inatos, ligados sua estrutura biolgica. Entretanto, no decorrer de seu desenvolvimento, moldado pela atividade cultural de outros com quem ele/ela se relaciona. Cada indivduo, ao nascer, encontra um sistema social criado atravs de geraes j existente e que assimilado por meio de inter-relaes sociais. A sociedade com suas instituies, crenas e costumes, no paira acima dos indivduos, mas sim ela constituda por indivduos. No se trata de colocar a sociedade acima do indivduo ou o indivduo como um ser isolado acima da sociedade. Ela tambm no uma gestalt (forma) fsica como os tijolos em uma casa, mas sim uma rede de inter-relaes individuais em constante mobilidade. Uma dana de quadrilha seria uma metfora adequada, j que os indivduos no s interagem exteriormente como bolas de bilhar, mas tambm se inter-relacionam cada um procurando entender e se adaptar aos movimentos intencionais e futuros de outrem. O indivduo histrico-social, que tambm um ser biolgico, se constitui atravs da rede de inter-relaes sociais. Cada indivduo pode ser considerado como um n em uma extensa rede de inter-relaes em movimento. O ser humano desenvolve, atravs dessas relaes, um "eu" ou pessoa (self), isto , um autocontrole egoi- co", que um aspecto do eu" no qual o indivduo se controla pela au- toinstruo falada, de acordo com sua autoimagem ou imagem de si prprio. um ser que, tendo instintos" ou comportamentos pr-pro- gramados, passa atravs da vida social a adquirir a fala e planejar e controlar sua atividade e de outrem, atravs de representaes mentais (ELIAS, 1994; 1995). Neste ponto, importante mencionar que a noo de eu supe dois aspectos fundamentais: 1. a do sujeito ativo que toma decises e se orienta no mundo; 2. uma autoimagem e uma autoestima que, para alguns autores, esto relacionadas ao conceito de identidade e constituem o que George Mead denominou de me ou mim (MEAD, 1953). O desenvolvimento do controle da fala sobre o comportamento realizado a partir dos comandos da me sobre a criana (relao interpessoal), que passa a se autoinstruir sobre como deve se comportar (controle intrapessoal). Isto , o indivduo passa de uma relao interpessoal para um controle e planejamento intrapessoal da sua prpria atividade.

    Isto se torna possvel pela existncia da fala o que, no fundo, envolve um controle egoico (LURIA, 1987; VYGOTSKY, 1984).

  • No h, basicamente, uma contradio entre indivduo e sociedade. O indivduo um ser histrico-cultural que constitudo pelas interpelaes sociais. Mesmo quando est sozinho, como Robinson Cruso, um ser humano que tem o habitus de sua sociedade. Isto , tem o jeito de andar, hbitos de higiene, de expressar emoes, de usar instrumentos que adquiriu das relaes pessoais com indivduos da sociedade que o constituiu. Na sociedade ocidental atual, extremamente individualista e conflituosa, os indivduos podem se representar como seres isolados em oposio sociedade. Isto, entretanto, uma criao da prpria sociedade neste momento histrico. Necessariamente, no h por que ter um alto grau de competio e tenso grupai, tornando difcil um equilbrio entre as inclinaes pessoais e as tarefas sociais. O verdadeiro" eu no est enclausurado e isolado dessa sociedade. somente uma iluso. O indivduo no estranho sociedade. A vida social supe entrelaamento entre necessidades e desejos em uma alternncia entre dar e receber. A razo e a mente no so substncias, mas produtos de relaes em constantes transformaes. Os instintos e as emoes sofrem transformaes no decorrer da vida social.

    Os papis sociais e as instituies humanas se originam de in- ter-relaes pessoais que so cristalizadas atravs de regras e que inicialmente so hbitos adquiridos e as instituies, alm das relaes sociais, envolvem tambm determinados materiais e artefatos e cdigos. Assim, uma universidade uma instituio que basicamente supe determinadas inter-relaes humanas e locais como laboratrios, onde existem determinados materiais, aparelhos e instrumentos. Como j se sabe, possvel estudar a sociognese das instituies atravs da histria e, por exemplo, uma instituio como o Parlamento Britnico surgiu para resolver conflitos entre os nobres, atravs do entendimento entre as partes litigantes, pelo constante dilogo em direo ao consenso.

    Cultura, indivduo e atividade

    Neste tpico sero examinadas quatro perspectivas sobre a noo de psicologia cultural. O termo cultura pode ser definido inicialmente de maneira simples, como um conjunto de hbitos, instrumentos, objetos de arte, tipos de relaes interpessoais, regras sociais e institui

  • es em um dado grupo. Em primeiro lugar, a) a cultura como uma varivel independente, em que cultura e mente eram consideradas separadas. Em seguida, b) a perspectiva de que a mente est inserida nas prticas e atividades culturais. Em terceiro lugar, c) a cultura na mente, ou seja, a cultura como uma descrio ou narrao das atividades e prticas de um grupo. Por ltimo, d) a cultura e a pessoa, isto , a pessoa como agente intencional em um mundo que constitudo de interpretaes e objetos culturais.

    a) Nas dcadas de 1960/1970, as relaes entre cultura e cognio eram pesquisadas em formas tradicionais como estudos-relaes entre variveis. A cultura era considerada como varivel independente e a atividade mental e prtica como varivel dependente. Nesta poca certas pesquisas de alfabetizao em determinadas culturas eram relacionadas a testes de memria e outras atividades cognitivas. S posteriormente que surgiu uma outra perspectiva que procurava desvendar como se processam a cognio e a aprendizagem num contexto cultural. Mas, inicialmente, a cultura era vista como separada da mente, ou seja, supunha-se um dualismo ou dicotomia entre mente e cultura. O mental era concebido como um processador interno de alguma coisa que poderia ser pensamento abstrato, raciocnio, etc., que era afetado de fora pela cultura, mas no por ela constitudo, ainda que parcialmente. Por exemplo, escolhia-se uma atividade cognitiva como a memria, classificao ou percepo tomadas como unidades de medida e chegava-se concluso que, em determinada cultura como a dos Wolops, no h ordenao de cor e forma desenvolvida. Nessa poca, tambm passou-se a estudar o efeito da escolaridade e tipos de escrita em um grupo de uma dada sociedade. Aqui j se procurava a interao entre mente e cultura. Esse um perodo de transio em que cultura e cognio j no so vistas como meras variveis externas. Prope-se que a cultura seja definida face ao uso de mediaes, isto , artefatos fsicos e simblicos, ou seja, alm de considerar um conjunto de condies biolgicas, necessrio levar em conta as mediaes como o uso de artefatos para entender o desenvolvimento humano (LURIA, 1990 & VYGOTSKY, 1984; 1990).

    Nesse perodo, seguidores de Piaget estavam interessados em provar que os estgios de desenvolvimento infantil eram universais e, portanto, foi dada pouca ateno a como os processos culturais constituam a cognio e tambm qual o papel da fala nessas atividades. Atualmente essas concepes esto sendo revisadas pelos pia- getianos.

  • Nos estudos interculturaln (i < :* peiiodo, tambm no se levava em conta a formao histrico cultuiul do "ou" ou pessoa, que tambm supe a identidadi) do hu |oil.o i ia < 'iilu n a O sujeito no era concebido como ativo intencional lni.o iiiio quni dizor que j no existissem tericos como G. Mead quo |a t.fjit.i::i
  • teresse, apresentando um modelo de tarefa e modelos de inter-rela- es, oferecendo suporte ou apoio, conforme o nvel de progresso de sua aquisio. A ao dos novatos no passiva, mas participativa nas tarefas do grupo. Os novatos procuram se inserir e ter um papel na rede de atividades. Por exemplo, o aprendiz de alfaiate comea com tarefas simples e paulatinamente e simultaneamente adquire sua identidade profissional. Neste sentido, a prtica da cultura no se reduz a uma dimenso abstrata ou ao estudo de variveis independentes. necessrio entender os processos no contexto da atividade grupai.

    c) Um terceiro enfoque envolvendo a relao indivduo-cultura denominado a cultura na mente ou na narrativa dos atores culturais. Aqui as tarefas cognitivas no so mais unidades de anlise. Essa proposta supe um conjunto de interpretaes ou, mais especificamente, as narrativas das atividades do sujeito no cotidiano, isto , descries sobre modos de pensar e agir que incluem aes, situaes e intenes. Pode-se imaginar esse processo como se fosse uma descrio autobiogrfica de vrios atores. No se limita a categorias cognitivas como memria, pensamento, percepo e motivao, mas implica um pensar sobre a vida, incluindo a psicologia do cotidiano. Essa noo leva ao extremo a ideia da cultura como sistema simblico. Toda a atividade humana implicaria uma classificao e interpretao; qualquer percepo ou ao seria mediada pelo simblico. Por exemplo, se ingerimos alguma coisa, porque esse objeto j foi classificado como alimento. Da mesma forma, um local debaixo de uma pedra que pode servir como abrigo envolve uma interpretao prvia. Nem sempre tudo supe uma interpretao prvia. Por exemplo, uma pedra pode revelar-se como abrigo no decorrer de uma ao sem necessariamente ter passado por uma classificao prvia. Assim, os bebs podem descobrir tambm informaes sobre objetos, sem que outrem os ensine. Considera-se tambm que no possvel descartar a possibilidade de a criana que ainda no domina a fala aprender a lidar com objetos guiada por um membro experiente da cultura. A questo de fundo a discusso entre uma aprendizagem mediada e no mediada pela fala.

    d) O quarto e ltimo tipo de teoria de psicologia cultural a que prope a cultura na pessoa, considerada como agente intencional em atividade prtica no seu grupo. O sujeito cria e seleciona percursos de ao, podendo aceitar ou no a interferncia de outrem. Os objetos so criados coletiva ou individualmente e revelam uma inteno do produtor. Pode-se fazer com que objetos em um meio lembrem de nossas intenes para nos autocontrolarmos. Por exemplo, pode-se

  • acionar um despertador para despertar ou um bilhete na geladeira para no comer ou, ainda, colocar objetos longe do alcance de crianas. Esta posio supe que a pessoa seja um agente intencional em um mundo de objetos culturais e que o mundo constitudo de interpretaes. As relaes interpessoais no revelam s comportamentos sem significado, mas intenes e ironias sobre a prpria inteno, atravs de gestos significativos. Por exemplo, pode-se fazer um gesto para uma segunda pessoa e piscar de maneira sorrateira para uma terceira pessoa, mostrando que o gesto no srio. O homem pode enganar simbolicamente, j que tem facilidade para se colocar no lugar de outrem e mesmo tomar atitudes hipotticas sobre suas interaes. George Mead j havia demonstrado que as relaes interpessoais so uma conversao de gestos e, o que importante nesta atividade, saber se colocar no lugar do outro. Tem-se tambm uma noo do outro generalizado e internalizado. Os chimpanzs tm dificuldade de conceber o outro como agente intencional e, portanto, de colocar-se no lugar do outro. Essas caractersticas parecem ser prprias do ser humano.

    Outros enfoques sobre a relao indivduo-cultura

    As pessoas se constituem em um sistema cultural dado previamente, formando uma rede de inter-relaes, mas so sujeitos ativos e no constitudos passivamente pelo meio. Isto quer dizer que no so constitudos automaticamente pelo processo narrativo cultural estabelecido. As pessoas tomam posies fazendo novas interpretaes, ou seja, recebendo e construindo criativamente e coletivamente um processo cultural em determinada poca histrica.

    importante lembrar que a psicologia cultural tem uma longa histria, uma vez que Vico, no sculo XVII, j tratava do tema. Na Amrica Latina existem poucos trabalhos sobre o tema. um tpico de pesquisa bastante recente nessa regio.

    A teoria histrico-cultural no enfatiza somente as mediaes, mas leva em conta tambm o papel da pessoa como sujeito e no se limita a processos lgico-cognitivos. No deixa de lado a emoo e o contexto onde surgem essas atividades. Em defesa dessa posio terica, pode-se dizer que a mente no s um componente, mas produto emergente da inter-relao entre pessoas face a objetos, supondo tambm o uso de instrumentos. A mente no est no corpo e nem

  • nos instrumentos, mas se revela atravs das atividades humanas, na cultura. Os sujeitos tambm criam regras e instituies atravs de atividades coletivas (COLE & ENGESTROM, 1995).

    A teoria histrico-cultural, como j foi dito, colocou tambm a questo da pessoa e da intencionalidade. Uma outra vertente enfatiza a questo semitica e enfoca a mente como formada atravs de um dilogo de vozes, envolvendo a produo de representaes e de ideologias. O ser humano assimila a narrativa de sua cultura, que supe uma diversidade de dilogos que incluem conformidade, contradio e discordncia.

    Neste ponto tambm importante mencionar a concepo de cultura de Geertz (1978), que extremamente complexa. A cultura, para ele, no redutvel ao fenmeno mental nem a meros padres de comportamento e de desejos exclusivamente individuais. O que importa estudar esses processos em estruturas de significados formadas publicamente. Pblico aqui significa que algo compartilhado tambm visualmente, como em rituais e na fabricao e uso de artefatos. Por exemplo, a apresentao de um quarteto tocando Beethoven supe a habilidade dos msicos para tocar, assim como a sensibilidade e o conhecimento dos ouvintes. Produzir msica envolve aes humanas no decorrer de um tempo, mas no se trata aqui de mencionar especificamente crenas, conhecimentos e outros processos mentais individuais. A nfase est nas atividades, nos objetos, nos artefatos e nos smbolos compartilhados.

    Viver em grupo j difcil, mas o mais problemtico tentar conviver com grupos que tm diferentes regras de relaes e de poderes. O trabalho principal do antroplogo narrar interpretando o que observa e o que lhe foi narrado, supondo sempre atividades concretas dos indivduos em inter-relaes (GEERTZ, 1978).

    Outro enfoque que enfatiza tambm a questo semitica (cincia que trata de sinais e smbolos) concentrando-se no simblico-inter- pretativo e de carter histrico-cultural coloca que a concepo de Geertz no d suficiente ateno aos problemas de poder e de conflito nos contextos culturais, onde mensagens so transmitidas e recebidas. Nessa viso, importante tambm considerar que o sujeito humano criado dentro de instituies e que pode, coletivamente, alter-las, assim como por elas afetado. Resumidamente, as instituies envolvem recursos, tipos de inter-relaes pessoais, regras e esquemas, supondo recursos materiais e simblicos (THOMPSON, 1995).

  • Considera-se tambm necessrio estudar a produo e reproduo do simblico, seus agentes, receptores e as condies de produo. Os processos de formao de valores, legitimao de status, excluso, estratgias de resistncias e de aceitao. As atividades de Gandhi na ndia servem como exemplos encarnados do processo de valorizao e de resistncia cultural.

    A cultura, o eu e as atividades, a emoo e a motivao

    Como j foi dito, o eu construdo atravs da conversao de gestos em determinados grupos sociais. Esse eu" supe um eu que decide sobre o curso das aes e um "me" ou "mim" que envolve auto- estima e imagem de si prprio. J foi demonstrado que a concepo de si como indivduo na Idade Mdia e na Renascena eram diferentes. Na poca atual o eu mais enfatizado do que o ns na cultura ocidental (BONIN, 1997). Uma questo interessante verificar como a construo do eu em diferentes grupos ou culturas afeta as atividades dos indivduos.

    Foi realizado um mapeamento de problemas, pesquisas e consideraes tericas relativas ltima questo. Dedicaram-se especialmente a comparaes entre a cultura japonesa e cultura americana contempornea. Colocam que principalmente na cultura americana em geral as pessoas se veem como independentes e autnomas, tendo habilidades e valores nicos e agindo segundo atributos internos. Esta concepo pode ser denominada de eu independente. Na cultura japonesa em geral tem-se a ideia que o eu no existe em si e um produto de relaes que se definem face aos outros em determinadas situaes - o "eu faz parte do grupo ou da famlia. Esta uma viso contextualista relacionai em que os outros participam na definio de si. Afirmam que a pessoa age como esperado pelos outros, no se colocando em primeiro lugar, procurando harmonizar seus desejos e atributos pessoais com os de outrem. Por exemplo, no Japo se diz s crianas: o prego que est fora leva batidas. A concepo de indivduo na cultura japonesa pode ser considerada como eu interdependente. Nos EUA: "a roda que chia leva graxa, a expresso revela uma concepo de eu independente. importante lembrar que na maioria dos pases existe uma pluralidade cultural. Assim, nos EUA, existem diferentes grupos. Por exemplo, em um grupo como os Amish a tendncia a de ser interdependente e pacifista. Isto no quer dizer que

  • um pas no possua caractersticas gerais, em que certos valores predominam devido a correlao de foras internas (MARKUS & KI- TAYAMA, 1991).

    Na cultura japonesa a concepo de eu" envolve uma nfase na empatia pelo outro, cujo resultado um comportamento polido e auto- contido para harmonizar-se com o comportamento do outro. O sujeito no se gabar de sua criatividade, mas dir: sou criativo junto com meus colegas, a no ser que seja figura notvel. O pesadelo japons o da excluso do grupo. Nos EUA, e provavelmente em alguns pases da Europa e da Amrica Latina, o pesadelo no se firmar, no ser notado e no se distinguir. Supe-se que o indivduo seja um agente com autocontrole individual e assertivo na afirmao de seus atributos. Para os indivduos na cultura americana mais importante sobressair-se, ser nico elevando sua autoestima, mesmo que isto cause dificuldades em relao aos outros; o que para um japons uma atitude imatura, no autntica, pois no se deve sobressair ao grupo e querer ser tratado de maneira especial. S aos artistas e pessoas notveis se permitem atitudes individualistas no conformistas. Os sujeitos na cultura japonesa, devido a esta concepo de eu", so treinados a procurar ler" as necessidades de outrem para servi-lo. Considera-se, ento, que o tipo de sistema de eu" est relacionado a formas de cognio: percepo, afeto e motivao, afetando a atividade cotidiana dos indivduos.

    Informaes baseadas em dados antropolgicos e, na maioria das vezes, em pesquisas envolvendo entrevistas, estudos de variveis dependentes e independentes e respostas a histrias propostas pelos ex- perimentadores, propem inicialmente como hiptese o fato de que de se esperar que eus" interdependentes sejam mais atentos e mais sensveis aos outros do que eus independentes. Isto produziria uma cognio mais elaborada em relao aos outros do que em relao a si. Em segundo lugar, os eus" interdependentes representariam a si e aos outros em contextos sociais especficos, enquanto que os eus" independentes produziriam representaes mais abstratas e generalizadas. Pesquisas revelaram que na cultura indiana as pessoas consideram seu eu" mais semelhante ao de outros do que o outro se considera em relao a ele. Diferente do que em geral encontrado na cultura americana. Outra pesquisa revelou ainda que sujeitos indianos descrevem mais outros indivduos de maneira situacional e relacionai e no qualidades abstratas e fora de contexto. Por exemplo, os ameri

  • canos descreveriam generlcamontn n (iii/ilhlndo do uma pessoa como mo de vaca" ou po dura", nriquaiiU)
  • em culturas que enfatizam o self interdependente; neste caso, os indivduos valorizam mais os papis e obrigaes sociais que seus motivos privados de coerncia. Por exemplo, um indivduo do tipo acima pode dizer para si: "para ser coerente eu penso desta maneira, mas devo agir segundo as regras de meu grupo.

    Em geral, os motivos ligados realizao em sujeitos do tipo acima esto principalmente mais ligados realizao e sucesso do grupo e da famlia do que relacionados a padres de excelncia e coerncia pessoal. Neste caso, por exemplo, espera-se que um lder seja protetor e orientador como um pai, e que os membros do grupo realizem har- monicamente suas tarefas, em vez de competir.

    Consideraes finais

    De incio, concluiu-se a necessidade das cincias sociais se posicionarem aos achados das cincias biolgicas, principalmente no que diz respeito ao comportamento animal. O indivduo como ser corp- reo, incluindo seu sistema nervoso e hormonal, no pode ser ignorado. Ao se estudar a vida social de populaes de diferentes faixas etrias no possvel ignorar os aspectos biolgicos especficos das diferentes fases da vida, como o caso da infncia, da adolescncia, da vida adulta e da velhice.

    As relaes entre indivduo e sociedade/cultura so complexas e envolvem pesquisas com conceitos de difcil definio. Assim como os antroplogos ainda debatem o conceito de cultura, tambm os socilogos divergem quanto ao conceito de instituio social.

    Procurou-se utilizar em grande parte as ideias de que a sociedade no paira sobre os indivduos e sim o conjunto das relaes interpessoais. Estas so cruciais para conceituar instituies, atividades culturais e o eu. Considerou-se importante enfatizar o papel da pessoa sem incorrer em um solipcismo ou individualismo exacerbado, mostrando que o eu" construdo na vida social e que esta constitui as atividades e habilidades dos sujeitos na sua vida emocional, motivacio- nal e cognitiva.

    importante salientar que alguns autores, como Goodnow, Bour- dieu, Foucault e Habermas, sugerem que grupos e indivduos apresentam resistncias a prticas e valores culturais globais" contrrias

  • s suas identidades grupais e pessoais. ento necessrio estudar a relao dialtica entre valores globais, nacionais e regionais. Os valores culturais afetam a aquisio de conhecimentos e habilidades. As preferncias e julgamentos estticos, morais e acadmicos so afetados por esses processos. Tambm as prticas de poder e excluso, regras de expresso e consenso e tipos de comunicao dependem da sociedade/cultura em que os indivduos foram criados. Por exemplo, indivduos de determinados grupos sociais tm seus gostos musicais ligados sua identidade cultural e resistem a mudanas.

    importante considerar que, apesar de o indivduo ser concebido como um produto da histria e da cultura, tambm um ser intencional e criativo, em constante transformao, e que, coletivamente, pode mudar o prprio processo cultural que o constitui.

    Esta perspectiva supe a utilizao de diferentes mtodos de pesquisa ainda sobre os quais ainda no existe consenso. Por exemplo, at que ponto um relato verbal se relaciona com as prticas reais dos indivduos? Como possvel traduzir conceitos sobre emoo em diferentes culturas? Ser que as atividades culturais afetam somente a expresso ou o estilo emocional/motivacional, ou constituem um processo bsico?

    Um dos maiores problemas ao pesquisar os temas acima apresentados est relacionado ao fato de que nas culturas no existem grupos totalmente homogneos, ou seja, existem variaes tanto individuais como subgrupos. Fica difcil, por exemplo, falar em cultura japonesa, j que esta no homognea e sofreu informaes no deconer da sua histria.

    O fato de o indivduo pertencer a um grupo interdependente no significa, necessariamente, que se sinta interdependente ou solidrio em relao a outros grupos e humanidade em geral. Um tema importante para a psicologia social como desenvolver a solidariedade em relao a outros grupos, superando um certo etnocentrismo e desenvolvendo um sentimento que no se restrinja ao prprio grupo, mas que englobe tambm a humanidade.

    Em pases como o Brasil existem inmeras variaes culturais. Apesar disso, pode-se dizer que existem valores, preferncias e maneiras de comunicao que so comuns e perpassam as diferenas culturais internas. Existem questes tericas difceis em relao a este tema.

  • Leituras complementares recomendadas

    ANTHROPOS. Revista de documentacin cientfica de la cultura. Barcelona, n. 156, mayo, 1994. - Apresenta um panorama da psicologia social lati- no- cimericana, incluindo temas de EtnoPsicologia ou, em outros termos, Psicologia Cultural.

    ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivduos. Rio de Janeiro: Zahar, 1994. - Nesta obra discutida profunda e extensamente a relao entre indivduo e sociedade de maneira original.

    LANE, Silvia Maurer & CODO, Wanderley. (orgs.) Psicologia social. So Paulo: Brasiliense, 1984. - Um importante livro de psicologia social realizado no Brasil, que contm temas referentes a questes sobre o indivduo e sociedade, em diferentes contextos sociais.

    LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropolgico. Rio de Janeiro: Zahar, 1986. - uma interessante introduo aos diferentes usos do conceito de cultura. A leitura agradvel, com inmeros exemplos.

    LURIA, Alexandre. Desenvolvimento cognitivo. So Paulo: cone, 1990. - Um dos poucos livros em lngua portuguesa que trata da relao entre cognio e cultura. Contm inmeras pesquisas e uma obra clssica de fcil leitura. Continua importante, apesar de ter sido escrita h algumas dcadas.

    RODRIGUES, Jos Carlos. Antropologia e comunicao: princpios radicais. Rio de Janeiro: Espao e Tempo, 1989. - Explica as diferentes teorias e temas da antropologia, com exemplos adequados. A leitura exige um conhecimento mnimo sobre o tema.

    Bibliografia

    BONIN, L.F.R. Consideraes sobre as teorias de Elias e de Vygotsky. In ZANELLA, Andra V. et al. (orgs.). Psicologia eprticas sociais. Porto Alegre: Abrapso/Sul, 1997.

    ______. A teoria histrico-cultural e condies biolgicas. Tese de Doutorado. PUC/SP, 1996.

    COLE, M. & ENGESTRM, Y. Commentary. Human Development. 1995, 38: 19-24.

    ELIAS, N. O processo civilizador. 2 vol. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

    ______. A sociedade dos indivduos. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.

  • GEERTZ, C. A interpretao das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

    LEONTIEV, A. Activit, conscience, personnalit. Moscou: ditions du Progrs, 1984

    ______. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Livros Horizonte, 1978.

    LUCARIELLO, J. Mind, culture, person: elements in a cultural psychology. Human Development. 1995, 38: 2-18.

    LURIA, A.R. Desenvolvimento cognitivo. So Paulo: cone, 1990.

    ______. Pensamento e linguagem. Porto Alegre: Artes Mdicas, 1987.

    MARKUS, H.R. & KITAYAMA, S. Culture andthe self: implications for cognition, emotion and motivation. Psychological Review, 1991, 98, 2: 224-253.

    MEAD, G.H. Espiritu, persona y sociedad. Buenos Aires: Paids, 1953.

    THOMPSON, J.B. Ideologia e cultura moderna. Petrpolis: Vozes, 1995.

    VYGOTSKY, L.S. Stora dello svilluppo deUe unzione psichiche superiore. Roma: Ginti, 1990.

    ______. A formao social da mente. So Paulo: Martins Fontes, 1984.

  • PESQUISA

    Jaqu elin e TittoniMaria da Graa Corra Ja c q u es

    A atividade de pesquisar est, geralmente, associada ao trabalho do cientista. Inscreve-se no nosso imaginrio como uma atividade que se desenvolve em um laboratrio, em meio a instrumentos da Fsica e da Qumica. O cientista, via de regra, nos parece um gnio; algum cujas descobertas so obras do acaso, ou, melhor dizendo, das possibilidades que sua genialidade tem de explicar o acaso. Estes gnios povoam nossas lembranas desde a escola bsica, construindo uma forma de compreender o que cincia, produo de conhecimento e pesquisa. A imagem do laboratrio expressa uma concepo de cincia conhecida como tradicional" cujos pressupostos bsicos so a neutralidade, a objetividade, a experimentao e a generalizao.

    Estas lembranas e imagens fixadas nas nossas histrias pessoais no so, tambm elas, frutos do acaso, mas de uma forma de pensar e viver a definio do que ser cientfico que sustenta a histria da prpria construo do conhecimento. At o sculo XVIII, a discusso sobre a cincia moderna tinha como centralidade tornar o conhecimento o mais objetivo possvel, cultivando uma ideia de que o conhecimento cientfico detinha o poder de construir uma verdade sobre a vida real". A problemtica da verdade, da aproximao maior ou menor do conhecimento com o real, instalou-se como questo principal de confronto entre os diferentes pontos de vista sobre quem melhor garantiria o domnio deste real, atravs do conhecimento produzido.

    O sculo XX instaura todo um questionamento a respeito do critrio de verdade enquanto Verdade-Absoluta, relativizando a noo de verdade e instaurando a importncia da dvida e dos erros na produo do conhecimento cientfico (BACHELARD, 1968). Esta relativi- zao instaura uma crtica importante ao modelo de cincia dominante na poca e vai influenciar autores contemporneos de diferentes

  • perspectivas epistemolgicas como Foucault (1987), Morin (1986) e Kuhn (1989). Consequentemente, a busca do conhecimento e no da verdade seria o objetivo da cincia. Do mesmo modo, a constatao de que o "dado" , ao mesmo tempo, resultado terico e emprico, pois mister antes decidir o que procurar (definio do objeto da pesquisa e do problema ) e como procurar (estratgias metodolgicas).

    Desta forma, a pesquisa no pode ser compreendida, exclusiva- mente, como um conjunto de tcnicas utilizadas para o conhecimento da vida, mas como um recurso ligado a diferentes modos de produzir conhecimento e a histria de suas legitimaes. Vinculando a pesquisa s diferentes formas de produo do conhecimento, associamos a atividade de pesquisar, no exclusivamente, ao trabalho do cientista, mas a esta infindvel atividade humana de tentar recobrir, com alguma racionalidade, o desconhecido. Atividade esta que um imperativo de sobrevivncia e, portanto, fala da vida e das suas mltiplas formas de expresso, inscrevendo-se no nosso cotidiano e no se restringindo s regradas e controladas situaes de laboratrio.

    A pesquisa em psicologia social ser abordada atravs da anlise de alguns pressupostos que fundamentam a noo de cincia e seus efeitos na produo do conhecimento em psicologia social. Assim, a pesquisa ser pensada como uma estratgia para a produo do conhecimento cientfico, possuindo um aspecto tcnico - que orienta para as tcnicas e discusses internas ao campo cientfico e outro aspecto tico, que aponta para a relao dos pesquisadores com a sociedade.

    Definindo a atividade de pesquisa em psicologia social

    A atividade de pesquisar em psicologia social, de imediato, coloca em questo as nossas imagens vinculadas ao cientista e ao seu laboratrio, por ter o "social" como referncia para sua produo de conhecimento. Mas, ao coloc-las em questo, parece remeter-nos a um certo vazio". Como ficaria a produo do conhecimento cientfico em um campo onde a referncia no o imaginrio do laboratrio, como no caso das cincias sociais?

    A referncia s cincias sociais no obra do acaso. Retoma uma particularidade da psicologia social: a de dialogar" com as cincias sociais, por vezes at de modo mais ntimo do que com a psicologia,

  • na medida em que tm em comum o estudo dos processos e dos fenmenos sociais.

    A histria da psicologia, recontada por alguns autores contemporneos como Farr (1996), aponta que o estudo dos processos sociais, para alm dos chamados processos bsicos em psicologia, sempre acompanhou sua trajetria. Mesmo Freud (1970), ainda que estudando no campo da psicanlise, nos lembra que toda a psicologia individual , ao mesmo tempo e por princpio, psicologia social. Portanto, pode-se concluir que a separao entre processos sociais e individuais talvez no seja fruto das caractersticas do objeto de estudo da psicologia, mas das diferentes formas como abordamos a produo do conhecimento em Psicologia.

    A separao entre o indivduo e o social no uma questo exclusiva da psicologia. Durkheim (1989), quando define o campo da sociologia, define, concomitantemente, o da psicologia, reservando s cincias sociais o estudo dos processos sociais e psicologia, o estudo dos processos individuais. Tal diviso procurava dar conta de um todo, formado pelos indivduos e pelo social, mas se fundamentava em uma concepo de que as regras que regem a vida individual (no caso das representaes individuais) no so as mesmas que regem a vida coletiva (no caso, as representaes coletivas); buscar estas diferentes regras seria abordar de forma diferenciada os fenmenos da vida, separando indivduo e coletivo.

    A definio de que o estudo do indivduo do mbito da psicolo gia tornou necessrio, tambm, adequar esses estudos ao formato do modelo de cincia vigente, pautado nos parmetros das cincias fsicas e naturais, cujos mtodos e procedimentos deveriam se estender a todo o domnio do conhecimento que pretendesse ser qualificado como cientfico. Esta concepo de cincia que rege a fundao da Psicologia como disciplina independente, a qual prope que os chamados processos psicolgicos sejam passveis de experimentao, objetivao e generalizao, procurando romper com um certo romantismo filosfico que acompanhou os estudos sobre o sujeito e o subjetivo ao longo da histria.

    neste cenrio que vai se definir o que pesquisar em psicologia e em psicologia social e onde vo se estabelecer os parmetros de ci- entificidade para os estudos sobre o social. A nascente psicologia social sofre importante influncia da psicologia norte-americana tanto na concepo do objeto quanto das estratgias metodolgicas para

  • abordagem dos processos sociais. Esta influncia se expande para alm das fronteiras norte-americanas e, no caso do Brasil, fica explicitada na traduo da obra de Otto Klineberg em 1959, que introduz a psicologia social no Brasil.

    A partir da dcada de 1970, evidencia-se um questionamento da hegemonia desta forma de conceber a cincia, tanto no que diz respeito ao objeto da psicologia social, quanto aos seus objetivos e estratgias metodolgicas.

    Nesta poca, a Amrica Latina vive uma situao de turbulncia, marcada pela violncia dos regimes polticos. Nesse cenrio, emerge a necessidade de pensar uma estratgia poltica capaz de dar conta das diferentes (e violentas, no sentido foucaultiano) formas de represso social e poltica. Possivelmente, tambm por esses fatores, pensar a produo de conhecimento em psicologia social requer pens-la de forma estratgica, sempre vinculada a alguma forma de prtica social e poltica capaz de articular as questes da teoria com os aspectos empricos, os objetivos da produo do conhecimento com as transformaes sociais. As vertentes da psicologia social derivadas desta perspectiva esto bem representadas nas chamadas psicologia poltica e psicologia social histrico-crtica, fortemente influenciadas pelo materialismo histrico.

    Todo esse processo marca profundamente a concepo da pesquisa em psicologia social. Num primeiro momento (e essa discusso, em muitos nveis, permanece at nossos dias) questiona-se o pressuposto da neutralidade cientfica, incorporando as questes polticas produo do conhecimento. A viso de mundo e de homem como produto e produtor da histria, que vai fundamentar a crtica psicologia social tradicional, implica a impossibilidade de gerar um conhecimento "neutro" ou um conhecimento do outro que no interfira na sua existncia. Como prope Lane (1985, p. 18):

    Pesquisador e pesquisado se definem por relaes sociais que tanto podem ser reprodutoras como podem ser transformadoras das condies sociais onde ambos se inserem; desta forma, conscientes ou no, sempre a pesquisa implica em interveno, ao de uns sobre os outros.

    O privilgio reservado s prticas e aos objetivos da transformao social proposto pela pesquisa em psicologia social, se em um primeiro momento reserva a um segundo plano o rigor metodolgico,

  • conduz por outro lado construo de novas e importantes estratgias metodolgicas.

    Alm de incorporar a problematizao quanto objetividade cientfica a partir do questionamento do critrio de verdade enquanto "Verdade-Absoluta", qualificada criticamente por Morin (1986, p. 79) como "Cincia-Soluo, "Cincia-Farol ou Cincia-Guia e neutralidade do cientista e conseqente separao entre teoria e prtica social, a pesquisa em Psicologia Social, nos anos 1990, assume outras peculiaridades. Adota como suporte uma concepo de cincia que prope a complexificao, a pluralidade terico-metodolgica (rompendo o falso dilema de evocar UM objeto, de almejar u m a unicidade para dar conta da complexidade do real), a interseco de diferentes reas do conhecimento e a prtica interdisciplinar e, ainda, uma preocupao tica em relao aos seus compromissos sociais e polticos. Desta forma, relativiza o tensionamento entre o cientfico e o poltico, a teoria e a prtica. Do mesmo modo, relativiza a importncia da separao entre o indivduo e o coletivo atravs da redefinio da noo de subjetividade e de uma concepo de homem em que as dimenses individual e social se interpenetram.

    Decorrncias metodolgicas

    A discusso sobre o cientfico tem vrias conseqncias, sendo importante ressaltar seus efeitos na concepo sobre a pesquisa cientfica e, em especial, sobre metodologia. Neste caso, ressalta-se a subordinao das estratgias metodolgicas s teorias explicativas escolhidas pelo pesquisador. Como apontam-nos alguns autores, [...] o mtodo est vinculado a uma concepo de realidade e de vida em seu conjunto (FRIGOTTO, 1989, p. 77) e [...] mtodo instrumento, caminho, procedimento e por isso nunca vem antes da concepo de realidade. Para se colocar como captar, mister ter-se ideia do que captar (DEMO, 1990, p. 24). No caso de psicologia social tais teorias explicativas geralmente esto fundadas em uma concepo de natureza humana, de relao indivduo-sociedade e de necessidade e (im)possibilidade de transformao social.

    Com base no pressuposto de complexidade, onde uma teoria incapaz de dar conta do conhecimento do real como um todo e muito menos fornecer todas as respostas passveis de serem levantadas, h sempre uma opo terica pelo pesquisador que vai determinar suas

  • escolhas metodolgicas. Nessa concepo, os procedimentos metodolgicos no so vistos como tcnicas desvinculadas dos pressupostos derivados da teoria, mas como estratgias utilizadas para integrar o emprico e o terico.

    Essas ideias trazem efeitos importantes para a pesquisa em psicologia social, alterando a forma de conceber e realizar a pesquisa nesta rea. Ao tomar como pressupostos a complexidade, a relativizao da verdade, a no neutralidade do pesquisador, entre outros, pressionam para transformaes importantes no desenho da pesquisa, coleta, anlise e interpretao, em geral mais identificadas com as abordagens qualitativas da pesquisa.

    Cabe ressaltar, no entanto, que a pesquisa quantitativa pode constituir-se em importante recurso para a pesquisa em psicologia social, dependendo da temtica a ser pesquisada. Estudos populacionais na rea da sade (os estudos em epidemiologia, por exemplo) so fontes fundamentais para o conhecimento das condies de vida social. A metfora utilizada por Montero (1996) para explicitar a discusso entre a pesquisa qualitativa e quantitativa bastante esclarecedora. Refere a autora que se quisermos conhecer uma floresta no seu aspecto geral, recobrindo ao mximo possvel a totalidade de sua extenso, devemos pegar um helicptero e sobrevo-la. Se quisermos conhecer os caminhos internos da floresta, aprofundar nosso conhecimento sobre as rvores e sobre as particularidades do local, deveremos abandonar o helicptero e andar pela floresta. No teremos, possivelmente, uma viso do conjunto, mas seremos capazes de descrever e interpretar de modo mais aprofundado os caminhos que percorremos.

    A abordagem qualitativa se apresenta como uma possibilidade de escolha do pesquisador, no como uma simples alternativa aos modelos quantitativos a partir das vantagens sumrias de uma abordagem e os defeitos congnitos de outra, mas como necessria dentro do quadro terico construdo pelo pesquisador. Ou seja, partindo de uma referncia terica, o pesquisador passa a lidar com categorias analticas e explicativas e no exclusivamente com dados quantitativos. Estas categorias so formuladas na interface do emprico com o terico, buscando evidenciar as possibilidades de interpretao dos fatos estudados e no exclusivamente demonstrar sua evidncia.

    A necessidade mtua de teoria e prtica, na maior profundidade possvel, como um princpio da pesquisa em psicologia social enseja

  • que o problema de pesquisa se constitua muito mais como um ponto de partida do que de chegada, possvel de ser reformulado, recolocado, substitudo, na trajetria da pesquisa. A formulao, em geral, de questes norteadoras, visto sua maior flexibilidade e abrangncia, encontra apoio na afirmativa de Morin (1986) de que as interaes entre os diversos fenmenos sociais so tantos que no possvel isol-los, e que, portanto, no se encontra um meio verdadeiramente seguro de verificao de uma hiptese em cincias humanas.

    A questo da amostragem tambm assume uma outra especificidade, pois nem sempre o objetivo a generalizao estatstica, mas a "generalizao analtica", termo cunhado por Yin (1989) quando discute o mtodo do estudo de caso, para se referir articulao dos dados com a teoria proposta. Deste modo, nem sempre so os procedimentos estatsticos que pautam a escolha da amostra, mas os indivduos estudados podero ser escolhidos em funo de aspectos ou condies consideradas significativas aos propsitos do estudo e, muitas vezes, a opo no definida a prior, emergindo no prprio desen- volvimertto do trabalho (LANE, 1985).

    Os procedimentos de anlise e interpretao empregados na pesquisa em psicologia social admitem uma diversidade de propostas cuja opo depende da conceitualizao do objeto, do material pesquisado e do aporte terico de fundamentao. Os quadros tericos de referncia vo "recortar o real, permitindo variaes de leitura deste real. Um exemplo apresentado por Demo (1990) nos permite compreender melhor essa diversidade de leitura do real: a taxa inflacionria medida pelos diferentes institutos de pesquisa. Uma taxa de inflao no acusa a inflao como tal, mas aquela inflao que a respectiva taxa foi teoricamente predeterminada a medir atravs da determinao dos itens do consumo que devero entrar na coleta de preos e do peso atribudo no cmputo geral a cada item. Quando nos referimos leitura do real estamos chamando a ateno para a questo da interpretao j que o dado emprico s adquire sentido a partir de uma concepo de carter interpretativo da realidade.

    Neste aspecto, o mtodo de anlise de contedo proposto por Bardin (1977) tem sido largamente empregado na pesquisa em psicologia social, em seu modelo original, com nfase nos indicadores quantitativos, ou atravs de adaptaes mais ou menos fiis proposio original. Outros modelos como a anlise de discurso (BRANDO, 1994), a hermenutica de profundidade (THOMPSON, 1995) ou,

  • ainda, o mtodo dialtico de anlise de contedo (PAGS, 1990) por exemplo, tambm so empregados.

    Uma nfase especial recai na capacidade do pesquisador tanto de construir estratgias metodolgicas de anlise e interpretao como de emprestar mtodos e tcnicas alheios ao objeto de pesquisa construdo.

    Outro aspecto de vital importncia na pesquisa em psicologia social a relao pesquisador-pesquisado enquanto inerente ao processo investigatrio. A recusa de aceitao do postulado de distanciamento entre sujeito e objeto de pesquisa e o princpio tico de que a cincia no pode ser apropriada to somente por grupos dominantes, propem a participao efetiva da populao pesquisada no processo e a socializao do conhecimento produzido. Atendendo a estes propsitos que a pesquisa-ao e a pesquisa participante se constituram em importantes estratgias de pesquisa em psicologia social, ainda que no sejam as nicas estratgias neste campo.

    Alguns modos de pesquisar: a pesquisa-ao e a pesquisa participante

    Os termos pesquisa-ao e pesquisa participante tm origem na perspectiva em psicologia social de Kurt Lewin, embora no tenham se restringido a este modelo terico e tenham sofrido grandes transformaes. Para alguns autores a diferenciao entre essas duas propostas reside na nfase no componente ao"; sob este ponto de vista a pesquisa-ao uma forma de pesquisa participante, mas nem toda a pesquisa participante concentra suas atenes no requisito da ao (THIOLLENT, 1985). Outros autores discordam, pois registram experincias de pesquisa participante em que o componente ao privilegiado (HAGUETTE.1987). O ponto comum entre as duas modalidades o envolvimento efetivo da populao pesquisada em todas as etapas do desenvolvimento da investigao, desde a formulao do problema at a divulgao dos conhecimentos produzidos.

    Os diferentes contextos sociais de emprego dessas propostas de pesquisa determinaram alternativas diversas de aplicao. Na Europa, especialmente na Frana, a pesquisa-ao se direcionou para as instituies sociais e para os movimentos sociais de libertao, inclu

  • indo enfoques diferenciados representados pelos trabalhos de Thiol- lent (Enqute operria, inspirada em Marx), Touraine (Interveno sociolgica) e Barbier (Pesquisa-ao institucional). Na Amrica Latina, esta alternativa de investigao dirigiu-se para a populao da base da pirmide social, aproximou-se dos princpios humanistas e adquiriu um carter prprio representado, principalmente, pela vertente educativa de Paulo Freire. tambm na Amrica Latina que o termo pesquisa participante assume primazia sobre termos correlates e , conceituai e metodologicamente, definida.

    A definio de pesquisa participante no unnime entre os autores (BRANDO, 1983; GIANOTTEN e DE WITH, 1985; DEMO, 1985), embora alguns elementos se apresentem consensuais em todas as propostas: a realizao concomitante da investigao e da ao, a participao conjunta de pesquisadores e pesquisados e a proposta poltico-pedaggica a favor dos oprimidos. Um quarto elemento - o objetivo de mudana ou transformao social - pela sua ambigidade contempla diferentes concepes do que seja mudana ou transformao social, podendo incluir efeitos transformadores, reformistas, conservadores ou at reacionrios (HAGUETTE, 1987).

    A metodologia da pesquisa participante e da pesquisa-ao afas- ta-se, sobremaneira, dos procedimentos propostos pela pesquisa tradicional. A populao interessada (ou seus representantes) participa, junto com os investigadores, da definio do objeto de pesquisa, dos seus objetivos e do seu planejamento. Embora possam ser empregadas algumas tcnicas de coleta de informaes tambm utilizadas na pesquisa tradicional como o questionrio, a observao participante e a entrevista, o trabalho de campo conjunto e a anlise dos dados inclui a participao de todos os envolvidos onde so esperados feed- backs para validao dos resultados e onde so estabelecidas as propostas de ao da decorrentes.

    A pesquisa participante e a pesquisa-ao no representam os nicos modelos de pesquisa em psicologia social muito embora alguns de seus princpios tenham sido generalizados para a pesquisa em geral neste campo de conhecimento. Alguns processos so melhor desvendados e compreendidos a partir de outras estratgias metodolgicas desde que consoantes com os fundamentos tericos escolhidos pelo pesquisador. Um cuidado especial deve ser conferido falsa concepo de que o conhecimento "popular" o "verdadeiro", pois

  • recai-se na mesma questo inicialmente apresentada e criticada: o critrio de verdade enquanto Verdade-Absoluta.

    preciso construir a necessidade de construir caminhos - Pedro Demo.

    importante frisar que a forma como se pesquisa em psicologia social, sobretudo nas suas vertentes mais crticas, uma forma de pesquisa cientfica. uma forma de pesquisa que se orienta por uma epistemologia crtica que tem seus fundamentos no pensamento de Bachelard (1968), entre outros autores mais contemporneos. Assim, no se pode buscar na pesquisa em psicologia social os pressupostos de uma concepo de cincia que tenha por base a neutralidade, a objetividade ou a generalizao e experimentao, pois so outros seus fundamentos. Do mesmo modo, no se pode buscar uma metodologia que se oriente para a anlise das causas e dos resultados, pois neste modo de pesquisar se tem por objetivo interpretar os processos, os movimentos, as relaes. Trata-se, portanto, de uma epistemologia de suporte e de uma forma de pesquisar que inscreve-se em outra concepo de cincia e de produo de conhecimento cientfico.

    A pesquisa em psicologia social tambm implica no ponto de vista tico, ou seja, na relao do pesquisador com o(os) pesquisado(os), na relao com os outros pesquisadores, na relao com a sociedade. Trata-se, portanto, de pensar como Morin (1996), de uma "cincia com conscincia. Conscincia no duplo sentido que aponta o autor, de conscincia moral associado ao controle tico e poltico da atividade cientfica e conscincia como atividade autorreflexiva, associada capacidade da cincia pensar-se a si prpria atravs de uma reflexo filosfica.

    Assim, no se trata de uma atividade de pesquisa pronta, acabada e com estatuto de verdade absoluta e invarivel. Nesse sentido coloca sempre a necessidade de construir caminhos e refletir sobre esta construo. Pode-se pensar que o estatuto de cincia traduzido pela ideia de que o conhecimento cientfico explica, orienta e ilumina, ntima do pensamento de sculo XIX, precisa ser redefinido na perspectiva contempornea. Para tanto, pode-se pensar com Barthes (1986), quando refere ao fato de que o lugar mais escuro sempre debaixo de uma lmpada. Construir caminhos pode parecer uma tarefa rdua, mas, por certo, atravs deste percurso que se pode enriquecer o conhecimento em psicologia social.

  • Sugesto de leituras

    A bibliografia sobre pesquisa em psicologia social extensa e contempla diferentes concepes de cincia, consequentemente, procedimentos muito diferenciados sobre a atividade de pesquisar. Uma discusso interessante sobre cincia pode ser encontrada na obra de Edgar Morin, O mtodo: o conhecimento do conhecimento, referendada na bibliografia.

    Se o interesse recair no estudo das particularidades da pesqui- sa-ao e da pesquisa participante recomenda-se as obras de Thiol- lent, Metodologia da pesquisa-ao e de Brando, Pesquisa participante e Repensando a pesquisa participante. Essas duas ltimas contemplam o ponto de vista de diferentes autores e relatam algumas experincias concretas. Esto tambm apresentadas na bibliografia de forma completa. Ainda sobre pesquisa participante, o livro de Maria Ozanira da Silva e Silva, Refletindo a pesquisa participante, So Paulo, Cortez, 1986, apresenta algumas reflexes sobre a produo teri- co-prtica desenvolvida no Brasil e na Amrica Latina.

    Sobre anlise e interpretao se sugere a consulta a obras especficas dependendo dos procedimentos escolhidos. Os trabalhos de Thompson (1995) e de Pags (1990) por exemplo, tambm referendados na bibliografia, descrevem em detalhes os procedimentos analticos e tecem importantes consideraes sobre os fundamentos tericos que lhes servem de base.

    Uma discusso interessante sobre pesquisa quantitativa e pesquisa qualitativa pode ser encontrada em um artigo de John Smith intitulado "Pesquisa quantitativa versus qualitativa: uma tentativa de esclarecer a questo, presente na revista Psico, editada pelo Instituto de Psicologia da PUCRS, vol. 25, n. 2, de jul. a dez. 1994, p. 33-51.

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  • TEMTICAS

    PARTE

    2

  • IDEOLOGIA

    PedrnhoA . G uareschi

    A ideologia nem era mencionada, ao se falar em psicologia social, pelos autores que pretenderam tomar conta da psicologia social, transformando-a numa disciplina individualizante e experimental. Farr (1996) mostra muito bem como a psicologia social americana, com pretenses de se tomar hegemnica, descartou totalmente a dimenso social e a dimenso crtica da psicologia social. Essa dimenso mais relacionai permaneceu, tenuemente, nos escritos de George Herbert Mead, nos incios do sculo. E a dimenso crtica surgiu a partir da dcada de 1930, com os tericos da Escola de Frankfurt, cuja escola se chamou especificamente "Crtica da Ideologia" (Ideologiekri- tik) (GEUSS 1988, & FREITAG, 1992). O conceito e a teoria da ideologia se fizeram mais presentes na psicologia social a partir da dcada de 1970, quando muitos autores, principalmente da Europa e Amrica Latina, comearam a incorporar o tema em seus estudos e pesquisa. Moscovici, por exemplo, chega a afirmar que "o objeto central e exclusivo da Psicologia Social deve ser o estudo de tudo o que se refere ideologia e comunicao do ponto de vista de sua estrutura, sua g nese e sua funo" (1972, p. 55).

    Ideologia: domando um conceito amplo e complexoTalvez no exista conceito mais complexo, escorregadio e sujeito

    a equvocos, no campo das cincias sociais, do que o de ideologia. Embora o nome como tal - ideologia - somente tenha aparecido h pouco mais de um sculo, sua realidade j estava presente desde que se comeou a pensar a vida social, com diferentes nomes, mas querendo designar a mesma realidade.

    Assim, por exemplo, a ideologia j era discutida nas culturas gregas e romanas. Mas foi sobretudo a partir do sculo XV e XVI que estudos mais pertinentes comearam a ser feitos sobre o assunto, apesar de ainda no empregarem o nome. Machiavelli (in CRICK, 1970), ao discutir as

  • prticas dos prncipes, principalmente o uso da fora e da fraude, para conseguir o poder, refere-se a estratgias que no se diferenciam das usadas hoje pelos poderes dominantes para se legitimarem.

    Mas principalmente Bacon (in PIEST, 1960) quem desenvolve um estudo extremamente prximo ao que hoje se costuma entender por ideologia, atravs de sua teoria sobre as quatro classes de dolos, que nos dificultam chegar mais prximos da verdade. Esses dolos so os da caverna: nossas idiossincrasias, carter; da tribo: supersties, paixes; da praa: as inter-relaes humanas, principalmente atravs da linguagem; e os dolos do teatro: a transmisso das tradies e doutrinas dogmticas e autoritrias, atravs do teatro, que seriam, hoje, os meios de comunicao social.

    A crescente importncia da ideologia deve-se hoje, certamente, ao fato de nossa sociedade e nosso mundo tornarem-se, a cada dia, mais "imateriais, sempre mais sustentados numa comunicao verbal e simblica.

    A primeira coisa a que precisamos prestar ateno, ao querer penetrar nessa realidade da ideologia, que existem hoje inmeros enfoques tericos, que do ao conceito de ideologia diferentes significados e funes. No tarefa fcil tratar esse assunto de maneira clara e inteligvel. Vamos nos arriscar por esse terreno acidentado, minado, mostrando, quanto possvel, as semelhanas, diferenas, sobreposies e relaes dos vrios aspectos presentes, em geral, na realidade da ideologia.

    Para melhor esclarecer e compreender os muitos significados de ideologia, vamos tentar traar duas linhas divisrias, em forma de cruz, formando quatro planos, quatro quadrantes, e discutir, a partir da, as diversas acepes de ideologia.

    Primeira linha: horizontal - ideologia como algo positivo ou algo negativo.

    Vamos inicialmente traar uma linha horizontal, onde faremos uma primeira distino central, onde a ideologia vai ser localizada em dois grandes planos: a dimenso positiva e a dimenso negativa (Quadro 1):

    Dimenso positiva

    Dimenso negativa

  • Ideologia no sentido positivo, ou neutro, entendida como sendo uma cosmoviso, isto , um conjunto de valores, ideias, ideais, filosofias de uma pessoa ou grupo. Nesse sentido, todas as pessoas, ou grupos sociais, possuem sua ideologia, pois impossvel algum no ter suas ideias, ideais ou valores prprios.

    J ideologia no sentido negativo, ou crtico (alguns falam at em sentido "pejorativo"), seria constituda pelas ideias distorcidas, enganadoras, mistificadoras; seriam as meias-mentiras, algo que ajuda a obscurecer a realidade e a enganar as pessoas. Ela se apresenta como algo abstrato ou impraticvel; como algo ilusrio ou errneo, expressando interesses dominantes e como que sustentando relaes de dominao.

    Na faixa de cima, numa concepo positiva ou neutra, poderiam ser colocados autores como o prprio criador do termo, Destutt De Tracy (1803): ideologia o estudo das ideias, que por sua vez so uma emanao do crebro; de Lenin (1969), e Lukcs (1971), como as ideias de um grupo revolucionrio; e a formulao geral da concepo total de Mannheim (1954), que afirma que tudo o que ns pensamos ideolgico, pois impossvel no se deixar contaminar pela situao social em que algum nasce e vive; em outras palavras, Mannheim identifica aqui ideologia com conhecimento: como todo conhecimento condicionado, assim toda ideologia condicionada. Mas nisso no h nada de errado.

    Entre as concepes crtico-negativas poderiam ser colocadas as trs concepes de Marx (cf. THOMPSON, 1995): ideias puras como autnomas e eficazes, conforme defendiam os hegelianos, sem ligao com a realidade (1989); as ideias da classe dominante (1989); e um sistema de representaes que serve para sustentar relaes de dominao (1968). Tambm estaria aqui a concepo restrita de ideologia de Mannheim (1954), isto , as ideias dominantes de um grupo sobre outro (dominao de classe).

    Segunda linha: vertical - ideologia como algo materializado, cor- porificado, ou como prtica.

    Na tentativa de compreenso das diversas acepes de ideologia podemos agora traar uma segunda linha, agora vertical, onde distin- guiremos outros dois grandes conjuntos de ideologias: ideologias como sendo algo materializado, onde a ideologia est corporificada na prpria ideia, na forma simblica, ou mesmo concretizada numa instituio, como a escola ou a famlia; e ideologia como modo e estrat

  • gia, onde a ideologia vista como uma prtica, uma maneira como as formas simblicas servem para criar e manter as relaes sociais entre pessoas (Quadro 2):

    Dimenso Dimenso

    material dinmica

    concreta prtica

    Essa dimenso material, concreta, exemplificada pela concepo descrita por Marx (1989), onde ideologia definida como sendo "as ideias da classe dominante. Isto , as ideias da classe dominante, pelo simples fato de serem da classe dominante, j seriam ideologia. A ideologia se concretiza nessas ideias. Outro exemplo desse tipo de ideologia a acepo empregada por Althusser (1972), onde ele define ideologia como sendo aparelhos ideolgicos de estado". Esses aparelhos so as instituies que so criadas no desenrolar da histria, e que so frutos de tenses que se do nas relaes entre os homens, como por exemplo a escola, a famlia, as igrejas, os meios de comunicao social, as entidades assistenciais, etc. Para Althusser a ideologia est materializada nessas instituies, elas constituem a ideologia.

    Na sua dimenso dinmica, porm, a ideologia vista como uma determinada prtica, um modo de agir, uma maneira de se criar, produzir ou manter determinadas relaes sociais. A funo da ideologia seria tambm a produo, reproduo e transformao das experincias vitais, na construo de subjetividades. Therborn, ao definir ideologia, diz que "a operao da ideologia na vida humana envolve, fundamentalmente, a constituio e a padronizao de como os seres humanos vivem suas vidas como iniciadores conscientes e reflexivos de aes num universo de significados... Nesse sentido, ideologia constitui os seres humanos como sujeitos" (1980, p. 2). E, logo aps, ele afirma que estudar o aspecto ideolgico duma prtica "deter-se na maneira pela qual ela opera na formao e transformao da subjetividade humana".

  • Juntando as duas linhas

    At aqui analisamos dois eixos, onde sempre aparece uma dicotomia, com dimenses opostas de ideologia. Na juno dos dois eixos, ormam-se quatro amplos campos, que servem para visualizar, identificar e relacionar quatro grandes concepes de ideologia (Quadro 3):

    1 2

    CO 4

    Cada um desses campos possui, tambm, seus tericos. Assim, no quadrante 1, h autores que definem ideologia no sentido positivo e como algo material. o caso, por exemplo, de Mannheim (1954), para quem a ideologia algo positivo e concreto, como as cosmovises das pessoas. J no quadrante 2, temos ideologia como algo positivo, mas como uma prtica: a viso de Therbom (1980), e muitos outros, que veem a ideologia como uma maneira de se criar e manter as relaes sociais, sejam elas de que tipo forem. No quadrante 3 ideologia passa a ser algo negativo, mas algo concreto, como, por exemplo, as ideias da classe dominante, de Marx (1989). No caso de Althusser (1972), ideologia abrangeria tanto o 1 como o 3, pois uma escola, por exemplo, materializa a ideologia, mas pode ser tanto positiva, como negativa. Finalmente, no quadrante 4 teramos ideologia como uma prtica, mas no uma prtica qualquer; deve ser uma prtica que serve para criar, ou manter, relaes assimtricas, desiguais, injustas. essa exatamente a definio de John B. Thompson (1995), que, no nosso modo de ver, o autor que melhor trata a problemtica da ideologia. Vamos nos deter especificamente nesse autor e nesse quadrante, daqui para a frente.

    Muitos talvez estejam se perguntando por que fazer todas essas distines. Pois h muitas razes para isso. Em primeiro lugar, preciso deixar claro que o termo ideologia possui, como acabamos de ver, muitos sentidos diferentes. Toda vez que formos empregar tal conceito, devemos, pois, dizer qual o sentido que damos a esse termo. Isso fundamental para podermos estabelecer uma comunicao honesta e correta. Ao mesmo tempo sempre que formos ler, ou escutar, algum empregando esse termo, devemos ver de imediato qual o sentido que

  • esse autor ou locutor est dando palavra. Somente assim possvel progredir no dilogo e na investigao.

    Em segundo lugar, podemos, a partir dessas distines, vermos qual o melhor enfoque para podermos fazer uma boa pesquisa e podermos realizar um trabalho que seja prtico e til cincia e sociedade. nosso entendimento, por exemplo, que tomar ideologia no sentido negativo bem mais interessante que simplesmente empreg-lo como sendo um conjunto de ideias. Ideias, cosmovises, todos ns temos, e no h como ser diferente. O importante, porm, saber se essas ideias so falsas, enganadoras, se elas podem trazer prejuzos aos nossos colegas.

    Finalmente, sempre mais honesto, diramos, empregar ideologia como uma prtica, pois se a tomamos como materializada em alguma instituio, ou ideia, arriscado, cremos, afirmar que ela automaticamente negativa. O que vai mostrar se uma ideia, ou uma instituio, possui uma dimenso negativa a maneira como empregada, isto , sua funo, se ela serve, ou no, para criar ou reproduzir relaes que chamaremos, daqui para a frente, de relaes de dominao. Nenhuma ideia, mesmo que seja da classe dominante, , por definio, mistifica- dora ou falsa. Precisamos ver, caso a caso, se ela est enganando ou no. Se ela de fato ilude e esconde a realidade, ento diz-se que uma ideologia. Do mesmo modo com as instituies. Uma instituio, por si mesma, como a escola, por exemplo, no se constitui numa ideologia negativa. S negativa quando se consegue mostrar que ela ajuda a criar, ou reproduzir, relaes de dominao, assimtricas, desiguais. Apesar disso, contudo, importante deixar claro que no h critrios intrnsecos que forcem a adoo de uma, ou outra, dessas dimenses. Cada pesquisador tratar de fazer sua opo por uma delas, e nessa opo os critrios escolhidos sero os que, conforme o autor em questo, possam ajudar a investigar e corppreender mais claramente os fenmenos concretos e os que possam ser teis aos propsitos de cada investigador. o que pretendemos fazer a seguir. Arriscamos sugerir um modo que julgamos prtico e eficaz no tratamento dessa realidade complexa e provocante, dentro de uma perspectiva histrico-crtica.

    Um modo prtico de se tratar a ideologia

    Em anos bem recentes, principalmente a partir dos estudos de Thompson (1995), uma nova aproximao ao estudo da ideologia co-

  • raeou a ser desenvolvido, como vimos, em parte, no item anterior. A grande diferena nesse estudo que se comea a deixar de lado a preocupao com a verdade ou falsidade de um conceito (p. ex. o entendimento da ideologia como as ideias da classe dominante); ou a preocupao com a constituio especfica de uma instituio que seja ideolgica (p. ex. os "aparelhos ideolgicos de estado de Althusser); ou a preocupao com a concepo de uma ideologia reihcada (p. ex., ideologia como um ismo", por exemplo, socialismo, comunismo). Ideologia assume a dimenso de uma prtica, de um modo de operao, de uma estratgia de ao.

    A concepo e o emprego da ideologia dentro dessa perspectiva evita a difcil e ingente tarefa de se verificar, em cada caso, a validade ou falsidade dos conceitos j estabelecidos.

    Essa concepo j pode ser visualizada em Marx, no de maneira clara, mas implcita, quando ele emprega ideologia como sendo um sistema de representaes que servem para sustentar relaes existentes de dominao atravs da orientao das pessoas para o passado, ou para imagens ou ideias que desviam da busca de mudana social. Essa teria sido a legitimao do golpe de estado de Lus Napoleo Bonaparte (MARX, 1968). uma concepo bem distinta da que apresentada na Ideologia alem (1989), onde a ideologia tomada como sendo as ideias da classe dominante".

    Essa nova concepo de ideologia afasta nossa ateno de ideias abstratas de doutrinas filosficas e tericas, concentrando, em vez disso, nossa ateno nas m anetas como as formas simblicas so usadas e transformadas em contextos sociais especficos. E uma concepo que nos obriga a examinar as maneiras como as relaes sociais so criadas e sustentadas por formas simblicas que circulam na vida social, aprisionando as pessoas e orientando-as para certas direes.

    De acordo com esse enfoque, "estudar a ideologia estudar as maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relaes de dominao" (THOMPSON, 1995, p. 76). Assim, um fenmeno ideolgico s ideolgico se ele serve, em circunstncias especficas, para estabelecer e sustentar relaes de dominao. Isso quer dizer que os fenmenos no so ideolgicos em si mesmos; no se pode retirar o carter ideolgico dos prprios fenmenos como tais, mas somente quando os situamos em contextos scio-histricos onde eles passam a estabelecer e sustentar relaes de dominao. E a questo de se dizer se essas relaes estabelecem ou sustentam relaes de domina

  • o s pode ser respondida quando se examina a interao entre sentido e poder em circunstncias particulares.

    Analisamos a seguir algumas implicaes derivadas dessa concepo:

    a) Ideologia como uma concepo crtica

    Concepo crtica contrape-se aqui a concepo neutra. Concepo neutra a que caracteriza fenmenos como ideolgicos, sem implicar que esses fenmenos sejam necessariamente enganadores, ilusrios ou ligados a interesses de algum grupo particular. Ideologia seria um aspecto da vida social, entre outros. Pode servir para a revoluo, restaurao, reforma ou perpetuao de qualquer ordem social. Exemplos de concepes neutras de ideologia seriam concepes que veem ideologia como puro e simples estudo das ideias; a como um conhecimento que socialmente condicionado; ou mesmo a concepo de ideologia como uma plataforma de anlise e de luta do proletariado.

    J a concepo crtica possui um sentido negativo, ou at certo ponto pejorativo. Implica que o fenmeno caraterizado como ideolgico enganador, ilusrio ou parcial e a prpria caracterizao do fenmeno como ideologia carrega consigo a prpria condenao desses fenmenos.

    b) Sentido e formas simblicas

    Vimos acima que, dentro de uma perspectiva crtica, estudar ideologia a maneira pela qual o sentido se serve para sustentar relaes de dominao. O sentido" de que se fala aqui o sentido das formas simblicas. E por "formas simblicas" se entende o amplo espectro de aes e falas, imagens e textos, que so produzidos por pessoas e reconhecidos por elas como contendo um significado. Essas formas so principalmente as falas e expresses lingsticas, faladas ou no, mas podem ser tambm formas no lingsticas, ou quase-lingusticas, como uma imagem visual ou um construto que combine imagens e palavras.

    O carter significativo das formas simblicas pode ser analisado atravs de quatro dimenses especficas, que so: a dimenso intencional - as formas simblicas so expresses de um sujeito e para um sujeito; a dimenso convencional - a produo, construo, emprego e interpretao das formas simblicas so processos que envolvem a

  • aplicao de regras ou convenes de vrios tipos; a dimenso estrutural - as formas simblicas so construes que exibem uma estrutura articulada; a dimenso referencial - so construes que representam algo de modo especfico, referem-se a algo, dizem algo sobre alguma coisa; finalmente, a mais importante, a dimenso contextual, isto , as formas simblicas esto sempre inseridas em processos e contextos scio-hitricos determinados, dentro dos quais e por meio dos quais elas so produzidas, transmitidas e recebidas.

    c) O conceito de dominao

    importante e estratgico distinguir aqui dois conceitos: o conceito de poder e o conceito de dominao. Essa distino no ainda muito comum nas cincias sociais.

    Poder definido aqui como sendo uma capacidade de produzir algo, capacidade essa especfica de cada prtica (GUARESCHI, 1992). Todo tipo de prtica envolve, assim, certa quantidade de poder. Alm disso, toda pessoa situada dentro de um contexto socialmente estruturado tem, em virtude de sua localizao, diferentes quantidades e diferentes graus de acesso a recursos disponveis. Isso significa que tal localizao e as qualificaes associadas a essas posies, nas instituies e na sociedade, fornecem a esses indivduos diferentes graus de "poder.

    J a dominao uma relao, e se d quando determinada pessoa expropria poder (capacidades) de outro, ou quando relaes estabelecidas de poder so sistematicamente assimtricas, fazendo com que determinados agentes, ou grupos de agentes, no possam participar de determinados benefcios, sendo assim injustamente deles privados, independentemente da base sobre a qual tal excluso levada a efeito.

    d) Modos e estratgias como o sentido pode servir para estabelecer e sustentar relaes de dominao

    Esse , certamente, o ponto mais prtico e til para quem quer se arriscar numa anlise da ideologia. Quais os modos e estratgias empregados na criao e manuteno das relaes de dominao? Ou: como o sentido pode servir para estabelecer e sustentar tais relaes?

  • Evidentemente, as maneiras so muitssimas. Cada pesquisa vem contribuir para que se descubram novas e diferentes maneiras. Melhor discutir isso atravs de alguns exemplos:

    - Suponhamos um poltico pronunciando um discurso em que afirma que a competio em mbito mundial e o processo de globalizao so condies indispensveis que vm favorecer o progresso e o desenvolvimento de todas as naes. Que est afirmado, ou suposto, aqui? Estamos diante de uma estratgia ideolgica que poderamos chamar de universalizao. Esses processos iro, de fato, favorecer, e so indispensveis a todos os pases, ou s a alguns? Na verdade, eles vm favorecer apenas aos mais desenvolvidos, pois como mostrou muito bem Nelson W. Sodr (1995) globalizao simplesmente um novo nome para colonizao. O que os pases colonizadores faziam com os colonizados o que fazem hoje os pases com mais tecnologia e recursos com respeito aos menos desenvolvidos. Primeiro afirmam que a competio o fator essencial a todo progresso e desenvolvimento. Depois a transportam a nvel mundial. Nessa competio globalizada os mais fracos saem, fica claro, fortemente prejudicados. o mesmo que dizer que um atleta que ao iniciar uma corrida est muitos metros frente, e que possui muito mais recursos e preparo fsico, tem as mesmas chances de vencer que seu parceiro colocado atrs e com menos recursos. Como no fica bem falar em colonizao hoje, fala-se em globalizao.

    - Ou vejamos a atitude de uma me solcita ao descobrir que sua filha est namorando vrios rapazes. A reao imediata : Minha filha, isso no natural! Isso nunca foi assim!" Mal sabe essa santa me que as tibetanas possuem muitos maridos. E que os rabes possuem muitas mulheres. Que estratgia usada aqui? A estratgia da naturalizao, ou da eternalizao, que consiste em tirar dos fenmenos seu carter histrico, relativo e transform-los em eternos, imutveis, naturais.

    - Ou seno escutemos a fala daquela empregada que ao ser perguntada por que h pessoas ricas, responde absolutamente convicta: Rico quem poupa!" Que se esconde por detrs dessa fala? Uma enorme legitimao e justificao de uma situao desigual e muitas vezes injusta. Na verdade grande nmero de pessoas ricas assim o so, em geral, por explorarem o trabalho dos outros. Quando digo, por isso, que rico quem poupa, estou mistificando a realidade, propiciando uma explicao distorcida do fenmeno, legitimando a riqueza

  • de uns, por um lado, e explicando por que alguns (no caso, a empregada) so pobres, por outro lado. Eles explicam a si mesmos que so pobres porque no pouparam, quando, na grande maioria das vezes, so pobres porque foram explorados. E mais: quando, por acaso, sobrarem alguns tostes, eles iro correndo coloc-los na "poupana", propiciando, indiretamente, mais lucros ainda aos que fazem uso dessa poupana para empreg-la em investimentos muito mais lucrativos.

    Os exemplos poderiam assim ser multiplicados. Thompson (1995) enumera cinco modos gerais de operao da ideologia (legitimao, dissimulao, unificao, fragmentao, reificao), junto com inmeras estratgias tpicas de construo simblica associadas a cada modo geral. Remetemos a seu texto para a descrio e exemplificao tanto dos modos como das estratgias.

    Esses mecanismos no so as nicas maneiras de operao da ideologia. Vrias outras estratgias j foram identificadas em diversas pesquisas, que poderiam se somar s descritas acima, tais como a ro- tulao ou estigmatizao, onde se ligam determinados esteretipos a um sujeito ou instituio, propiciando, com isso, que relaes de dominao se criem ou se perpetuem; a sacralizao, ou divinizao, atravs das quais caratersticas sobrenaturais so referendadas a acontecimentos ou pessoas, criando-se com isso situaes onde relaes assimtricas de poder so institudas, com o prejuzo de diversas pessoas ou grupos; e ainda outras possibilidades (GUARESCHI, 1996).

    Alm do mais, esses modos e estratgias podem se sobrepor e se reforar, ou se legitimar mutuamente.

    e) A valorizao das formas simblicas

    H ainda um ltimo ponto que merece ser assinalado, que se mostrou extremamente til na anlise da ideologia. Como vimos, as formas simblicas possuem diversas caractersticas. Elas tm um carter intencional, convencional, estrutural, referencial e contextual. O carter contextual significa que elas esto sempre inseridas num contexto sociocultural especfico. So produzidas por sujeitos historicamente situados que possuem recursos e capacidades especficas. Ao mesmo tempo, elas so recebidas por sujeitos que esto inseridos em contextos scio-histricos particulares. Esses fatos fazem com que as formas simblicas carreguem consigo diferentes particularidades a partir desses sujeitos. So essas especificidades que Bourdieu (1977) discute

  • A N H A N G ftA ED U C A C IO N A L BIBLIOTECA B E LEN ZIN H O

    ao analisar os diferentes campos de interao. E a esses recursos e capacidades Bourdieu chama de capital"; e um desses tipos o capital simblico.

    Em tais circunstncias, as formas simblicas podem ser valorizadas de diferentes maneiras. Quando se conectam as posies que determinada pessoa ocupa dentro de certo campo de interao a diversos processos de valorizao simblica, podemos identificar diferentes graus de poder" que passam a ser atribudos a diferentes atores. "Poder" entendido aqui como a capacidade de agir para conseguir diferentes objetivos: poder de fazer algo, ou de agir de determinada maneira. Ao agir, a pessoa emprega recursos disponveis (capital). Ora, o fato de uma pessoa ocupar determinada posio, num campo de interao (como nas instituies, por exemplo), "possibilita, capacita" a essa pessoa a conseguir determinados fins, realizar seus objetivos, tomar tais decises. E, pelo fato de possuir graus diferentes de poder, relaciona-se diferentemente com os outros. Surgem assim, dessas interaes, diferentes relaes, que, ao se constiturem como sistematicamente assimtricas (desiguais), transformam-se em relaes de dominao. Retornamos, ento, ao campo da ideologia, entendida como maneira de criar e manter relaes de dominao. A "dominao" dentro de tais situaes uma dominao mais estvel, que no depende de circunstncias que podem ser facilmente mudadas e transformadas, mas que por se situarem em instituies (e at mesmo na estrutura social) possuem caratersticas mais estveis e cristalizadas.

    Surgem daqui outros tipos de estratgias tpicas de valorizao simblica, que podem servir, dependendo das circunstncias, para criar ou manter relaes de dominao, isto , prestam-se a ser recurso ideolgico dentro da definio por ele defendida.

    Exemplificando, pode-se dizer que uma pessoa, ao ocupar uma posio dominante dentro de um campo de interao, pode apelar a estratgias de valorizao simblica como a de "distino (o uso de vestimentas que materializam situaes de prestgio, como o uso de gravata etc.), de menosprezo, de condescendncia, e assim por diante. Tais estratgias permitem s pessoas que esto em posio dominante reafirmar sua dominao, sem necessitar de demonstraes mais claras e especficas.

    J quem est numa posio intermediria pode empregar estratgias de moderao (valorizao dos bens sua disposio), pretenso

  • (fingindo ser o que de fato no e buscando assemelhar-se aos de cima) ou desvalorizao (depreciando as produes dos dominantes).

    E quem ocupa uma posio subordinada pode empregar estratgias de praticidade (em vez de buscar requintes, d valor a coisas prticas e baratas), de resignao respeitosa (aceita sua posio como inevitvel), ou de rejeio (no aceita e ridiculariza o que produzido pelos dominantes, rotulando muitas vezes tais produes como intelectuais" ou efeminadas).

    Concluso

    Tentamos mostrar, de um lado, como o conceito de ideologia complexo e multifacetado, tomado em acepes bem diversas; de outro lado, argumentamos que, quando tomado no sentido negativo e crtico, e como uma prtica, isto , como o uso de formas simblicas para criar ou manter relaes de dominao, ele se presta para fazer com que os estudos e pesquisas se tornem mais teis e frutferos, realmente o que torna os estudos e pesquisas frutferos. Mais que identificar cosmovises gerais de pessoas ou grupos, o que na verdade cremos ser importante e necessrio revelar como as pessoas sofrem e so prejudicadas, na sua vida cotidiana, devido a relaes que so estabelecidas de maneira desigual e injusta. Com isso nosso trabalho poder contribuir, de maneira iluminadora e emancipatria, na construo de uma sociedade economicamente justa, politicamente democrtica, culturalmente plural, eticamente solidria.

    Leituras complementares

    Em estudo abrangente, bastante completo e crtico do conceito e da teoria da ideologia pode ser encontrado no livro de John B. Thompson, Ideologia e cultura moderna, Petrpolis: Vozes, 1995. Alm do histrico do conceito, ele mostra os diversos sentidos em que ideologia foi tomada e sugere maneiras de se poder analis-la. Um outro livro do mesmo autor, Studies in the Theory o f Ideology, Londres, Polity Press, 1984, traz tambm excelente material para compreender e criticar a ideologia.

  • 0 livro de Marilena Chaui, O gue Ideologia, So Paulo: Brasiliense, 1983, tambm um timo tratado introdutrio e mais simples para quem quiser se familiarizar com o que seja ideologia.

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  • REPRESENTAES SOCIAIS

    Ftim a O. d e Oliveira Graziela C. W erba

    Discorrer sobre Representaes Sociais (RS) no tem sido uma tarefa fcil. Elas se colocam, em parte, na ordem da utopia". Por que RS lembra utopia? Porque nunca se chega ao limite deste conceito: ao nos aproximarmos dele, o vemos escorregar para mais longe, obrigando-nos a transpor nossas prprias fronteiras buscando, novamente, aquele horizonte perdido.

    Atualmente, as discusses em torno da teoria das RS tm ocupado um grande espao no campo da Psicologia Social, obrigando muitos tericos e acadmicos a revisarem seus enfoques, proporcionando a todos novas formas de olhar, entender e interpretar os fenmenos sociais, ajudando a compreender, em ltima anlise, por que as pessoas fazem o que fazem.

    Como nasceu esta teoria?

    Para Moscovici (1994, p. 8), o conceito de representao social tem suas origens na Sociologia e na Antropologia, atravs de Durkheim e de Lvi-Bruhl. Inicialmente chamado de representao coletiva, serviu como elemento bsico para elaborao de uma teoria da religio, da magia e do pensamento mtico. Tambm contriburam para a criao da teoria das RS, a teoria da linguagem de Saussure, a teoria das representaes infantis de Piaget e a teoria do desenvolvimento cultural de Vygotsky.

    A teoria das RS pode ser considerada como uma forma sociolgica de Psicologia Social (FARR, 1994). O conceito mencionado pela primeira vez por Moscovici, em seu estudo sobre a representao social da psicanlise, intitulado Psychanalyse: Son image et son public. Nesta obra, Moscovici conduz um estudo tentando compreender mais

  • profundamente de que forma a psicanlise, ao sair dos grupos fechados e especializados, ressignificada pelos grupos populares. O que motivou Moscovici a desenvolver o estudo das RS dentro de um trabalho cientfico foi, principalmente, sua crtica aos pressupostos positivistas e funcionalistas das demais teorias que no davam conta de explicar a realidade em outras dimenses, principalmente na dimenso histrico-crtica.

    No Brasil o interesse pela teoria das RS iniciou no final da dcada de 1970, lembrando sua estreita relao com o desenvolvimento da prpria psicologia social que, a partir de algumas instituies, assume uma postura mais crtica, no apenas em relao psicologia americana, mas tambm em contrapartida ao papel subserviente da cincia frente s questes de ordem macrossocial (SPINK, 1996, p. 170).

    A teoria das RS tem sido discutida, criticada, reformulada e cada vez mais empregada em muitos trabalhos cientficos. Apesar de Moscovici recusar-se a conceitu-la de modo definitivo, muitos autores tm-se esforado para compreend-la mais profundamente, bem como contribuir para seu desenvolvimento enquanto teoria.

    Mas o que so as representaes sociais?

    As Representaes Sociais so "teorias sobre saberes populares e do senso comum, elaboradas e partilhadas coletivamente, com a finalidade de construir e interpretar o real. Por serem dinmicas, levam os indivduos a produzir comportamentos e interaes com o meio, aes que, sem dvida, modificam os dois.

    De Rosa (1994) distingue entre trs nveis de discusso e anlise das RS:

    Nvel enomenolgico - as RS so um objeto de investigao. Esses objetos so elementos da realidade social, so modos de conhecimento, saberes do senso comum que surgem e se legitimam na conversao interpessoal cotidiana e tm como objetivo compreender e controlar a realidade social.

    Nvel terico - o conjunto de definies conceituais e metodolgicas, construtos, generalizaes e proposies referentes s RS.

    Nvel metaterico - o nvel das discusses sobre a teoria. Neste colocam-se os debates e as refutaes crticas com respeito aos

  • postulados e pressupostos da teoria, juntamente a uma comparao com modelos tericos de outras teorias.

    Para evitar confuses fundamental distinguir entre estes trs nveis, bem como assinalar sobre qual deles se est falando. Quanto metodologia, nas RS, ela vai variar de acordo com o objeto de estudo, acompanhando paralelamente estes trs nveis de discusso.

    Apesar de Moscovici no ter apresentado um conceito definitivo de RS, tentou situ-la da seguinte forma:

    Moscovici (1981, p. 181) refere que por Representaes Sociais entendemos um conjunto de conceitos, proposies e explicaes originado na vida cotidiana no curso de comunicaes interpessoais. Elas so o equivalente, em nossa sociedade, aos mitos e sistemas de crena das sociedades tradicionais: podem tambm ser vistas como a verso contempornea do senso comum".

    Talvez seja Jodelet quem melhor e mais detalhadamente conceitue RS como "uma forma de conhecim ento, socialm ente elaborada e partilhada, tendo uma viso prtica e concorrendo para a construo de uma realidade comum a um conjunto social (JODELET, 1989, p. 36).

    Para Guareschi (1996a) so muitos os elementos que costumam estar presentes na noo de RS. Nelas h elementos dinmicos e explicativos, tanto na realidade social, fsica ou cultural; elas possuem uma dimenso histrica e transformadora; nelas esto presentes aspectos culturais, cognitivos e valorativos, isto ideolgicos. Esses elementos das RS esto sempre presentes nos objetos e nos sujeitos; por isso as RS so sempre relacionais, e portanto sociais.

    Um dos elementos fundamentais da teoria das RS a interligao possvel entre cognio, afeto e ao no processo de representao. Tanto Jovchelovitch (1996), como Guareschi, mostram a importncia desta interligao no processo cognitivo.

    A representao, como um processo mental, carrega sempre um sentido simblico. Jodelet (1988) identifica no ato de representar cinco caractersticas fundamentais: 1) representa sempre um objeto; 2) imagem e com isso pode alterar a sensao e a ideia, a percepo e o conceito; 3) tem um carter simblico significante; 4) tem poder ativo e construtivo; 5) possui um carter autnomo e generativo.

  • Estudar RS buscar conhecer o modo de como um grupo humano constri um conjunto de saberes que expressam a identidade de um grupo social, as representaes que ele forma sobre uma diversidade de objetos, tanto prximos como remotos, e principalmente o conjunto dos cdigos culturais que definem, em cada momento histrico, as regras de uma comunidade.

    Uma das principais vantagens desta teoria sua capacidade de descrever, mostrar uma realidade, um fenmeno que existe, do qual muitas vezes no nos damos conta, mas que possui grande poder mo- bilizador e explicativo. Torna-se necessrio, por isso, estud-lo para que se possa compreender e identificar como ela atua na motivao das pessoas ao fazer determinado tipo de escolha (comprar, votar, agir, etc.).

    fundamental darmo-nos conta de que, na maioria das vezes, ns praticamos determinadas aes, como por exemplo comprar e votar, no por razes lgicas, racionais ou cognitivas, mas por razes principalmente afetivas, simblicas, mticas, religiosas, etc. A teoria das RS chama a ateno a essa realidade e tenta mostrar a importncia de se conhecer essas representaes para se compreender o comportamento das pessoas.

    O conceito de RS verstil e trs importantes postulados podem se combinar em seu emprego:

    um conceito abrangente, que compreende outros conceitos tais como: atitudes, opinies, imagens, ramos de conhecimento;

    possui poder explanatrio: no substitui, mas incorpora os outros conceitos, indo mais a fundo na explicao causai dos fenmenos;

    o elemento social na teoria das RS algo constitutivo delas, e no uma entidade separada. O social no determina a pessoa, mas substantivo dela. O ser humano tomado como essencialmente social.

    Como podemos ver, a teoria das RS bastante abrangente e seu conceito dinmico pode nos ajudar a entender as vrias dimenses da realidade, quais sejam: a fsica, a social, a cultural, a cognitiva, e isso tudo de forma objetiva e subjetiva. Essa abertura torna as RS um instrumento valioso e imprescindvel no campo da psicologia social.

  • Tentando entender a formao e origem das RS, constata-se que criamos as RS para tornar familiar o no familiar. Este movimento que se processa internamente vem a servio de nosso "bem-estar, pois tendemos a rejeitar o estranho, o diferente, enfim, tendemos a negar as novas informaes, sensaes e percepes que nos trazem desconforto. Para assimilar o no familiar, dois processos bsicos podem ser identificados como geradores de RS, o processo de ancoragem e objetivao. Vejamos primeiro o que significam os conceitos: familiar e no familiar, a partir das noes de Universos Reificados e Universos Consensuais.

    Poderamos dizer que existem, na sociedade, dois tipos diferentes de universos de pensamento: os Universos Consensuais (UC) e os Universos Reificados (UR).

    Nos UR, que so mundos restritos, circulam as cincias, a objetividade, ou as teorizaes abstratas. Nos UC, que so as teorias do senso comum, encontram-se as prticas interativas do dia a dia e a produo de RS.

    No UC a sociedade vista como um grupo de pessoas que so iguais e livres, cada uma com possibilidade de falar em nome do grupo. Nenhum membro possui competncia exclusiva. J no UR, a sociedade percebida como um sistema de diferentes papis e classes, cujos membros so desiguais.

    O no familiar situa-se, e gerado, muitas vezes, dentro do UR das cincias e deve ser transferido ao UC do dia a dia. Essa tarefa , geralmente, realizada pelos divulgadores cientficos de todos os tipos, como jornalistas, comentaristas econmicos e polticos, professores, propagandistas, que tm nos meios de comunicao de massa um recurso fantstico.

    Podemos agora retomar as noes de Ancoragem e Objetivao e ver que papel desempenham nesse contexto.

    Ancoragem o processo pelo qual procuramos classificar, encontrar um lugar, para encaixar o no familiar. Pela nossa dificuldade em aceitar o estranho e o diferente, este muitas vezes percebido como ameaador. A ancoragem nos ajuda em tais circunstncias. um movimento que implica, na maioria das vezes, em juzo de valor, pois, ao ancorarmos, classificamos uma pessoa, ideia ou objeto e com isso j o situamos dentro de alguma categoria que historicamente compor

  • ta esta dimenso valorativa. Quando algo no se encaixa exatamente a um modelo conhecido, ns o foramos a assumir determinada forma, ou entrar em determinada categoria, sob pena de no poder ser decodificado. Este processo fundamental em nossa vida cotidiana, pois nos auxilia a enfrentar as dificuldades de compreenso ou conceitua- o de determinados fenmenos. Por exemplo, quando surgiu o problema da Aids, diante das perplexidades e dificuldades em entend-la e classific-la, uma das formas encontrada pelo senso comum para dar conta de sua ameaa, foi ancor-la como uma "peste", mais especificamente "a peste gay ou "o cncer gay. Assim representada, embora classificada de forma equivocada e preconceituosa, a nova doena pareceu menos ameaadora, pois j havia sido categorizada pelo senso comum como uma peste, e s aconteceria aos gays.

    Um dos melhores exemplos de como ocorre a Ancoragem fornecido por Jodelet, em seu trabalho sobre a representao social da loucura. Ao abrirem as portas do manicmio e colocarem os doentes mentais em contato com os aldees na ma, aqueles foram imediatamente julgados por padres convencionais e comparados a idiotas, vagabundos, epilpticos, ou aos que, no dialeto local, eram chamados de maloqueiros. Quando determinado objeto, ou ideia, comparado ao paradigma de uma categoria, ele adquire caractersticas dessa categoria e reajustado para que se enquadre nela. Neste exemplo, a ideia destes aldees sobre os idiotas, vagabundos ou epilpticos, foi transferida, sem modificao, aos doentes mentais.

    J a Objetivao o processo pelo qual procuramos tornar concreto, visvel, uma realidade. Procuramos aliar um conceito com uma imagem, descobrir a qualidade icnica, material, de uma ideia, ou de algo duvidoso. A imagem deixa de ser signo e passa a ser uma cpia da realidade. Um dos exemplos fornecidos por Moscovici refere-se religio. Ao se chamar de "pai a Deus, est-se objetivando uma imagem jamais visualizada (Deus), em uma imagem conhecida (pai), facilitando assim a ideia do que seja Deus.

    Qual a diferena entre representaes sociais e outras teorias?

    Podemos dizer que a principal diferena entre o conceito de RS de outros conceitos sua dinamicidade e historicidade especficas. As

  • RS esto associadas s prticas culturais, reunindo tanto o peso da histria e da tradio, como a flexibilidade da realidade contempornea, delineando as representaes sociais como estruturas simblicas desenhadas tanto pela durao e manuteno como pela inovao e metamorfose.

    Existem diferenas entre o enfoque dado psicologia social americana e o enfoque europeu. A psicologia social que floresceu nos EUA uma Psicologia essencialmente cognitivista, que foi exportada para a Europa (e Amrica do Sul). Ao florescer em solo norte-americano, a psicologia social do ps-guerra alimenta-se de uma viso individualista especfica de sua cultura, o que Farr (1994) denomina de psicologia social psicolgica, enfraquecendo a vertente mais interdisciplinar com a sociologia que se chama de psicologia social sociolgica. neste contexto que nasce a teoria das RS, teoria esta que, tendo origem em Durkheim, um socilogo, contrape-se vertente americana e assim o campo de estudos das RS acaba por ampliar a noo de social.

    Deve-se fazer uma distino entre RS e as Representaes Coletivas, como empregadas por Durkheim. Sperber (1985), ao explicar a diferena, faz uma analogia com a medicina: diz ele que a mente humana susceptvel de representaes culturais, do mesmo modo que o organismo humano susceptvel de doenas. Ele divide as representaes em: coletivas - representaes duradouras, amplamente distribudas, ligadas cultura, transmitida lentamente por geraes, "so tradies e se comparam endemia; e sociais - so tpicas de culturas modernas, espalham-se rapidamente por toda a populao, possuem curto perodo de vida, so parecidos com os "modismos" e se comparam epidemia.

    A Teoria das RS diferencia-se de muitas outras, tambm no que concerne viso do social e ser humano. Para a Teoria Comportamen- talista, o social dado como pronto, e o ser humano condicionado; para a psicanlise, o social relegado a uma categoria de menor importncia e o ser humano determinado pelo inconsciente; j para a teoria das RS o social coletivamente edificado e o ser humano construdo atravs do social.

    Outra importante diferena entre a teoria das RS e outras de tendncia mais positivista e funcionalista, que aquela aceita a existncia de contedos contraditrios, ou seja, seu estudo e pesquisa no descartam os achados conflitantes; pelo contrrio, a possibilidade

  • de trabalhar com as diferenas que enriquece a compreenso do fenmeno investigado, conferindo teoria das RS uma dimenso dialtica.

    No menos importante na pesquisa das RS a relao que ela estabelece com o estudo da ideologia, que veremos a seguir.

    Que relaes se podem estabelecer entre o estudo das RS e ideologia?

    A relao que as RS estabelecem com ideologia provoca ainda muitas discusses. Se ideologia for definida como algo reificado, pronto e acabado, como parece ser o sentido que Moscovici d ideologia, evidente que as RS no podem ser identificadas com ela, exatamente pelo fato de serem dinmicas e sempre passveis de transformao.

    Ultimamente est havendo uma ampla tendncia de se definir ideologia de acordo com a definio proposta por Thompson (1995, p. 76): "Ideologia o uso das formas simblicas para criar ou manter relaes de dominao"; em outras palavras, o sentido a servio de relaes assimtricas, desiguais. O conceito de "sentido" embutido em ideologia o sentido" das formas simblicas inseridas nos contextos sociais. As "formas simblicas" so um amplo conjunto de aes e falas, imagens e textos que so produzidos pelas pessoas e reconhecidas por elas e outros como construtos significativos. As falas e expresses lingsticas so centrais na anlise podendo ser tambm imagens visuais ou construtos que combinam imagens e palavras. Ainda para se entender melhor o que seja ideologia importante discutir o que se entende por dominao. Dominao uma relao que se estabelece entre pessoas ou grupos, onde uns interferem e se apropriam das capacidades ou habilidades de outros, de maneira assimtrica. Portanto, existem diversas formas de dominao que podem ser: econmica, de gnero, de raa, de etnia, de idade, religiosa, etc. (GUARESCHI, 1996b).

    Se tomarmos, pois, ideologia como o uso de formas simblicas para criar ou reproduzir relaes de dominao, podemos concluir que as RS, pelo fato de serem formas simblicas, podem ser ideolgicas, mas no podemos deduzir isto a priori. Para dizer que uma RS ideolgica precisamos primeiro mostrar que ela serve em determinadas circunstncias para criar ou reproduzir relaes de dominao.

  • No existe uma metodologia exclusiva para a investigao das RS, sendo que encontramos desde investigaes realizadas em uma base quantitativa, como as que trabalham com dados qualitativos, e ainda alguns que fazem uso complementar destas duas abordagens.

    Um dos instrumentos mais usados e desenvolvidos na investigao das RS tem sido a tcnica dos grupos focais. Existem, claro, outros tantos que podem ser empregados, de acordo com o propsito da pesquisa, recursos disponveis (tempo, verba, sujeitos, etc.), inclusive o estilo do investigador. Mas a tcnica dos grupos focais parece se adaptar de maneira mais adequada a esta investigao.

    Os grupos focais podem ser descritos, basicamente, como entrevistas que se fundamentam na interao desenvolvida dentro do grupo. O ponto-chave destes grupos o uso explcito dessa interao para produzir dados e nsights que seriam difceis de conseguir fora desta situao. Isso se constitui na grande vantagem desses grupos, a oportunidade que eles oferecem de se estabelecer uma intensa troca de ideias sobre determinado tpico, num perodo limitado de tempo, onde os dados so discutidos e aprofundados em conjunto. A qualidade dos dados pode ser, em conseqncia, superior aos de uma entrevista individual. Embora esta tcnica tenha sido e ainda muito usada com fins publicitrios, est sendo tambm cada vez mais frequentemente utilizada no campo das cincias sociais.

    Morgan (1988, p. 22) afirma que "a finalidade mais comum dos grupos focais conduzir uma discusso em grupo que se assem elhe a uma conversao normal e viva entre amigos e vizinhos..." Os grupos focais se prestam, pois, muito bem para a finalidade de se "chegar mais prximo s compreenses que os participantes possuem do tpico de interesse do pesquisador". Pode-se compreender, alm disso, no apenas o que, mas tambm por que os participantes pensam da maneira como pensam (p. 24).

    O papel do coordenador, nos grupos focais, o de conduzir a discusso de forma livre, porm com o cuidado de no desviar o tema proposto. As falas dos grupos so geralmente registradas em cassete e seguem os seguintes passos para o trabalho de tratamento dos dados:

    a) transcrio das entrevistas;

  • b) leitura flutuante do material, intercalando a escuta do material gravado com a leitura do material transcrito, de modo a captar os temas propostos, detendo-se na construo, na retrica, permitindo a emergncia dos investimentos afetivos;

    c) retorno aos objetivos da pesquisa para, aps a categorizao dos dados, fazer sua interpretao de acordo com os referenciais tericos em questo.

    Desse modo, aps a atenta escuta e leitura, so pinadas verbalizaes que revelam uma ideia, ou avaliao, referentes ao tema proposto. A partir da possvel uma categorizao de dados, agrupando-os por afinidade. Destes, surgem as categorias principais a partir das quais se permite a construo de um mapeamento das categorias dos grupos focais.

    Um uso muito apropriado do grupo focal tambm servir de fundamentao para se criar uma entrevista, ou questionrio, mais estruturados para serem aplicados a outros grupos, pessoas, ou para entrevistas individuais.

    O nmero de grupos para se discutir um tema especfico pode variar entre trs a quatro e a durao normal de uma hora, chegando s vezes a hora e meia. O tamanho dos grupos varia de no mnimo quatro participantes, at o mximo de doze, mas o mais recomendado entre seis e oito participantes.

    Umas das possveis maneiras de se interpretar as RS aps terem sido levantadas nos grupos focais e mapeadas utilizar o referencial metodolgico baseado em John B. Thompson (1995, captulo 6) denominado por ele de Hermenutica de Profundidade (HP). Este autor distingue dois nveis de anlise na compreenso dos fatos sociais, em especial as formas simblicas. Um primeiro nvel o da hermenutica da vida cotidiana, que consiste numa descrio fenomenolgica dos fatos. Em um segundo nvel, denominado hermenutica de profundidade, busca-se investigar e interpretar as formas simblicas mais profundamente. O processo compe-se de trs fases: a anlise s- cio-histrica, que investiga o fenmeno na dimenso espcio-tem- poral, as suas inter-relaes sociais, as instituies e a estrutura social; a anlise formal ou discursiva, que investiga as formas simblicas em si mesmas atravs de diversos tipos de anlise de discurso, como a semitica, a anlise sinttica, a anlise da conversao, a anlise ar-

  • gumentativa, a anlise narrativa, etc.; finalmente a interpretao, ou reinterpretao, que o espao onde se interpretam as formas simblicas de acordo com os referenciais tericos em questo. importante lembrar que toda a interpretao aberta e conflitiva, sujeita a outras e novas interpretaes.

    Consideraes finais

    Ao finalizarmos este captulo, podemos retomar a questo inicial: que teoria essa? Parece-nos ser uma teoria nova, aberta e fecunda. No uma teoria pronta. Cremos que essa sua incompletude seja justamente uma das suas importantes possibilidades.

    Podemos identificar dois grandes avanos, a nosso ver, trazidos por essa teoria:

    a) a teoria das RS trata do conhecimento construdo e partilhado entre pessoas, saberes especficos realidade social, que surgem na vida cotidiana no decorrer das comunicaes interpessoais, buscando a compreenso de fenmenos sociais;

    b) a teoria das RS colocou os saberes do senso comum em uma categoria cientfica. Ela veio valorizar este conhecimento popular, tornando possvel e relevante sua investigao.

    Talvez estejamos demasiadamente acostumados a trabalhar com teorias j prontas, onde o que poderia ser descoberto j o foi, ou, em outras palavras, teorias que nos so familiares, que no nos assustam, mas que, por outro lado, pouco nos provocam. Poderamos dizer que a provocao a alma da pesquisa; talvez at possamos arriscar pensar que este despertar da curiosidade pelo que nos no familiar, no reconhecido previamente, o que nos move a novas descobertas cientficas. Alis, Aristteles j dizia que a curiosidade a alma da cincia.

    A teoria das RS certamente nos obriga a pensar, exige muito trabalho de interpretao e reinterpretao, coloca-nos frente a dicoto- mias, conflitos, deixa-nos diante do desconhecido, ela desconcerta! justamente a que ela favorece nosso crescimento, pois vemo-nos obrigados a desconstruir certezas envelhecidas e a nos abrirmos para novas possibilidades. Todo esse movimento est contido no cerne da prpria teoria, que dinmica em essncia.

  • Leituras complementares

    Conforme mencionamos no incio deste captulo, a teoria das RS recente, por isso, a bibliografia em portugus a respeito do assunto no extensa.

    No Brasil, na PUC de So Paulo, h um grupo que trabalha com Mary Jane Spink, organizadora de "O conhecimento no cotidiano: as representaes sociais na perspectiva da psicologia social". So Paulo: Brasiliense, 1993, que apresenta bons trabalhos tericos e metodolgicos sobre representaes sociais.

    Na PUC do Rio Grande do Sul, outro grupo liderado por Pedrinho Guareschi tem-se dedicado ao estudo e pesquisa em RS. O livro Textos em representaes sociais. Petrpolis: Vozes, 1994, que organizou com Sandra Jovchelovitch (London School of Economics and Political Science), traz boas discusses sobre a teoria, metodologia e pesquisa em RS. Do mesmo autor, para quem est se iniciando em representaes sociais, sugerimos um texto bsico: Representaes sociais: alguns comentrios oportunos, (ver bibliografia).

    Na Uerj h outro grupo ligado a Celso Pereira de S, autor de A teoria e pesquisa do ncleo central. Petrpolis: Vozes, 1996, que discute proposies bsicas e a produo emprica da abordagem do ncleo central.

    Para quem tem facilidade com outros idiomas pode ser interessante a leitura de trabalhos clssicos como do prprio Moscovici, de Denise Jodelet, ou ainda de Annamaria S. De Rosa (citados na bibliografia).

    Finalmente, para quem est interessado em conhecer e produzir trabalhos na linha dos que encontrou neste captulo, poder acompanhar as atividades que vm sendo desenvolvidas pela Associao Brasileira de Psicologia Social - Abrapso, que publica a excelente revista cientfica Psicologia & Sociedade (PUC-So Paulo).

    Bibliografia

    DE ROSA, Annamaria S. From theory to metatheory in social representations: the lines of argument of a theoretical - methodological debate. Social Science Information. Vol. 33, n. 2, 1994, p. 273-303.

  • FARR, R.M. Representaes sociais: a teoria e sua histria. In: GUARESCHI, P. & JOVCHELOVITCH, S. Textos em representaes sociais. Petrpolis: Vozes, 1994, p. 31-59.

    GUARESCHI, P. Sem dinheiro no h salvao: ancorando o bem e o mal entre neopentecostais. In: GUARESCHI, P. & JOVCHELOVITCH, S.

    ______ . Representaes sociais: alguns comentrios oportunos. Revista Coletneas da Anpepp n. 10, vol. 1, set., 1996a, p. 9-36.

    ______ . A ideologia: um terreno minado. Psicologia & Sociedade, Revista daAssociao Brasileira de Psicologia Social - Abrapso, 8 (2): 82-94, jul/dez, 1996b.

    ______ . Textos em representaes sociais. Petrpolis: Vozes, 1994, p.191-225.

    JODELET, D. Reprsentations sociales: un domaine en expansion. In: ID (ed.) Les reprsentations sociales. Paris: Presses Universitaires de France, 1989.

    ______ . Reprsentations sociales: phnomnes, concept et thorie. In:FARR, R. & MOSCOVICI, S. (eds.). Psycologie sociale. 2. ed. Paris: Presses Universitaires de France, 1988, p. 357-378.

    JOVCHELOVITCH, S. Espao de mediao e gnese das representaes sociais. Revista Psico. Porto Alegre, 27 (1): 193-205, jan/jun, 1996.

    MORGAN, D.L. Focus groups as quatative research. Newbury Park, CA: Sage Publications, 1988.

    MOSCOVICI, S. Prefcio. In: GUARESCHI, P. & JOVCHELOVITCH, S. Textos em representaes sociais. Petrpolis: Vozes, 1994, p. 7-16.

    ______ . The phenomenon of social reprsentations. In: FARR, R.M. &MOSCOVICI S. (eds.). Social reprsentations. Cambridge: Cambridge Univer- sity Press, 1984, p. 3-69.

    ______ . On social representatios. In: FORDAS, J.P. (eds.) Social cognition:perspectives on everyday ubderstanding. London: Academic Press, 1981, p. 181-209.

    ______ .A representao social da psicanlise. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

    SPERBER, D. Anthropology and psycology: towards an epedimiology of reprsentations. Mann (news series), 1985, p. 73-89.

  • SPINK, M.J. Representaes sociais: questionando o estado da arte. Psicologia & Sociedade, Revista da Associao Brasileira de Psicologia Social - Abrapso, 8 (2): 166-186, jul/dez, 1996.

    THOMPSON, J.B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crtica na era dos meios de comunicao de massa. Petrpolis: Vozes, 1995.

  • LINGUAGEM

    Maria Juracy Toneli Siqueira Adriano H enrique N u em berg

    O que a linguagem

    0 que fazemos quando queremos mostrar a uma pessoa o que estamos pensando ou sentindo? Em geral, falamos. E se, por algum motivo qualquer, estamos impossibilitados de falar? Podemos tentar co- municarmo-nos atravs de gestos, da mmica, da escrita, de atitudes, do corpo, enfim, podemos utilizar outras formas de linguagem para transmitir aos demais o que pretendemos.

    Segundo alguns estudiosos da comunicao humana (WATZ- LAWICK, 1967) impossvel no comunicar, pois mesmo em silncio estamos comunicando algo como, por exemplo, no quero falar" ou no quero falar agora ou isto aqui est muito chato ou no estou entendendo nada", e assim por diante. Sem buscarmos formas de fornecer aos outros meios mais claros para identificarem o que queremos dizer, no entanto, ficamos merc de sua interpretao arbitrria. No que nossos ouvintes no nos interpretem sempre, mas, certamente, h que se estabelecer um cdigo comum entre ns para que possamos comunicarmo-nos mais facilmente.

    Neste sentido, os grupos humanos constroem formas partilhadas, cdigos pelos quais seus vrios membros possam transmitir as informaes uns aos outros. As lnguas atestam isto, sendo que, mesmo entre aqueles que falam uma lngua nica, h diferenas significativas segundo as tradies do grupo ao qual pertencem. No Brasil, por exemplo, usamos pelo menos trs palavras diferentes para nomear uma mesma raiz comestvel: mandioca, aipim, macaxeira. Se no pertencemos ao grupo que a ela nomeia mandioca, necessitaremos de al

  • gumas pistas adicionais para compreendermos do que se trata afinal. Para alm de sua funo de nomeao, as palavras apresentam-se tambm carregadas de sentido. Neste caso, ao falar mandioca eu falo muito mais coisas do que uma mera referncia raiz em si. Para alguns, lembranas de uma poca de infncia so imediatamente evocadas, resgatando os almoos em famlia, nos sbados, em que em cima da mesa a comida mineira, com carne de porco, couve refogada e mandioca cozida com manteiga enchia os olhos, os narizes e o estmago. Para outros, certamente, sentidos diferentes existiro, posto que cada um de ns, embora pertencendo a grupos que compartilham uma mesma cultura, compreende atravs de distintas maneiras os enunciados em trnsito nas relaes sociais.

    Outra variao da comunicao humana a linguagem escrita, cuja caracterstica principal a possibilidade de registro e transmisso de informaes de maneira mais permanente do que a linguagem oral. Se esta ltima surgiu em decorrncia da necessidade da comunicao imediata, a escrita vem para garantir a durabilidade destas informaes no tempo e no espao, permitindo tambm o acesso a um interlocutor ausente do campo. Atravs da escrita nos comunicamos com amigos queridos que se encontram longe de ns, registramos nossas experincias profissionais sob a forma de currculum vtae, apresentamos nossas ideias em trabalhos cientficos, deixamos bilhetes para nossos companheiros de moradia, firmamos relaes contratuais, enfim, entre tantas possibilidades, organizamos nosso cotidiano imediato e deixamos nossa marca atravs dos tempos. possvel, por exemplo, reconstituir toda uma poca histrica, incluindo modos de viver, atravs das diferentes formas de registro e dos textos produzidos pela humanidade.

    Das primeiras verbalizaes e pinturas nas cavernas at as lnguas atuais e suas formas escritas evidencia-se a dimenso histrica e social desta produo humana. Se o homem primitivo lia os sinais da natureza (pegadas, direo do vento, galhos quebrados etc.) e com eles orientava sua ao no mundo, com a criao dos signos (enquanto sinais artificialmente criados por homens e mulheres) amplia-se o mbito das possibilidades da existncia humana.

    Convm ressaltar que a linguagem, enquanto uma funo complexa, apresenta-se como uma das grandes questes das Cincias Humanas e Sociais neste sculo, sobretudo nas reas da Psicologia,

  • Sociologia e, evidentemente, da Lingstica. Inmeras teorias dedicaram nfase linguagem, ainda que defendendo distintos pontos de vista e chamando a ateno para diferentes aspectos desse tema.

    A linguagem segundo Vygotsky e Bakhtin

    Homens e mulheres diferenciam-se dos outros animais pelo fato de que as categorias fundamentais de sua ao no mundo mudaram substancialmente no transcurso de sua histria com a introduo do trabalho social e das formas de vida societria a ele vinculadas. O trabalho social, portanto, mediante a diviso de suas funes, originou novas formas de ao, no imediatamente relacionadas aos motivos biolgicos elementares. O segundo fator decisivo nesta trajetria o surgimento da linguagem. Faz-se necessrio, ento, tratar da linguagem dentro do processo histrico de desenvolvimento da cultura e, consequentemente, dos prprios homens e mulheres. Sendo assim, parte-se do pressuposto de que h uma relao de tenso entre a histria do ser humano enquanto espcie com a produo da linguagem, entendida como resultado da necessidade de complexificao das formas de comunicao.

    Conforme a ontologia marxista, a linguagem teria sido produzida por homens e mulheres a partir do processo de complexificao de suas necessidades e da diviso do trabalho, o que engendrou uma nova necessidade: a de uma comunicao mais estreita (LURIA, 1986)1. Face a isso, passou-se a designar aes e situaes por meio de cdigos, os quais estariam fundamentalmente vinculados ao momento mais imediato de seu contexto social. Partimos tambm do fato de que

    A linguagem to velha como a conscincia: a conscincia real, prtica, que existe tambm para outros homens e que portanto existe igualmente s para mim e, tal como a conscincia, s surge com a necessi

    1. Alexander R. Luria integrou, Juntamente com Lev S. Vygotsky e Alexis Leontiev, a famosa troi- ka russa que marcou toda a histria e a produo da psicologia ao lanar as bases de uma psicologia segundo o pensamento marxista. Para estes pesquisadores, o desenvolvimento humano um processo histrico no qual o social constitudo e constituinte inalienvel do homem. A linguagem, para eles, ocupa um lugar fundamental neste processo, sendo que o significado das palavras fornece criana os resultados destilados da histria de sua sociedade.

  • dade, as exigncias dos contatos com outros homens. Onde existe uma relao, ela existe para mim (MARX & ENGELS, 1989, p. 36).

    Em A ideologia alem (1989), Marx e Engels afirmam que no se pode atribuir um carter autnomo linguagem, como os filsofos idealistas fizeram com o pensamento. Ambos so expresses da vida real. Por outro lado, o prprio Engels, em carta a Bloch, de 21/09/1890, argumenta que nem todas as alteraes que acontecem nas instituies sociais se devem a causas estritamente econmicas, o que nos leva a crer que a linguagem goza de relativa autonomia em relao s formaes sociais. Aparentemente contraditrias, estas duas afirmaes demonstram o carter complexo da linguagem, que pode ser estudada a partir de mltiplos pontos de vista, sendo, ao mesmo tempo, individual e social, fsica, fisiolgica e psquica. Neste sentido, faz-se importante no desvincul-la da vida social sem, no entanto, desconsiderar sua especificidade. Neste caso, reduzi-la a um complexo lngua e fala por um lado, apostando na sua baixa mobilidade histrica e no fato de que o sujeito da fala axiomaticamente individual, como o quer Perry Anderson, em seu livro A crse da crise do marxismo (1985), ou, por outro, reduzi-la ao nvel ideolgico, parece no nos ajudar muito a compreend-la em suas mltiplas facetas e determinaes. Da mesma forma, repetir que a linguagem instrumento de poder no nada inovador ou esclarecedor. Tentaremos, com base nas teorias da Abordagem Histrico-Cultural, desenvolver esse tema, tendo em vista a importncia desse princpio para a noo de um homem histrico e socialmente constitudo que se defende aqui.

    A linguagem, transformando-se atravs da histria, passou de uma funo de designao de objetos na atividade prtica entre os homens a uma funo de acmulo e transmisso de conhecimento indivduo a indivduo e atravs das geraes. Tal processo histrico expressa-se tambm na unidade central da linguagem, a saber, a palavra, cuja transformao implicou a estabilizao do mbito de generalizao e na progressiva reduo do universo de sua referncia (LURIA, 1986). Assim, se nos primrdios uma palavra era utilizada para comunicar um nmero considervel de eventos ou informaes, aos poucos foi se restringindo o grau de alcance de seus significados, os quais passaram a uma determinao maior do contexto. Na base da linguagem esto as suas propriedades de comunicao e significao,

  • sendo esta ltima pautada no carter instrumental do signo2, cuja orientao d-se no sentido da transformao dos prprios homens e mulheres, ou, dito de outra forma, da constituio da conscincia. Nesse sentido, poder-se-ia dizer que, at certo ponto, a histria da palavra reflete a prpria histria da origem social da conscincia.

    Diante desse pressuposto da indissociabilidade da linguagem com a conscincia, destacamos que estas categorias so a chave para a compreenso do processo de hominizao. Atravs da linguagem, homens e mulheres emanciparam-se da imediatez da realidade prtica e passaram a usufruir de uma capacidade exclusiva de sua espcie: a de planejar, regular e refletir sobre a prpria atividade. Com a linguagem desenvolvida, seu mundo duplica-se e o homem passa a poder operar mentalmente com objetos ausentes de seu campo perceptivo e vivencial imediato. Ele pode evocar voluntariamente as imagens, objetos, aes, relaes, independente de sua presena e, voluntariamente, dirigir este segundo mundo, o que inclui sua memria e suas aes. Assim, pode-se dizer que no apenas a duplicao do mundo nasce da linguagem, mas tambm a ao voluntria (Luria). Sem o trabalho e sem a linguagem, o pensamento abstrato categorial" no poderia existir no homem (p. 22).

    Vygotsky quem aprofunda o estudo da linguagem no processo da constituio dos sujeitos, trazendo para esse mbito a perspectiva do ser humano histrico e social a que nos referimos. Basicamente, esse autor desenvolve a tese de que no h nada que exista no indivduo que no tenha existido num primeiro momento no contexto das relaes sociais. Para ele, a linguagem o veculo de constituio da conscincia a partir do contexto das relaes sociais, sendo que esta ltima categoria abrange o conjunto das Funes Psicolgicas Superiores. A linguagem exerce, portanto, uma dupla funo. De um lado, ela exerce o papel de instrumento criado pelos homens para promover

    2. Segundo Vygotsky (1995, p. 83): "...todo estmulo condicional criado pelo homem artificialmente e do qual se utiliza como meio para dominar a conduta - prpria ou alheia - um signo." Para ele, a diferena fundamental entre os homens e os outros animais, do ponto de vista psicolgico, ... a significao, ou seja, a criao e o emprego dos signos (p. 84). As atividades mediadas pelas ferramentas (adaptaes mecnicas criadas pelos homens para facilitar seu trabalho corporal) tm como alvo o externo, ou se]a, atravs de seu uso o homem influi sobre o objeto de sua atividade, modificando-o. 0 signo, por sua vez, no modifica imediatamente nada no objeto exterior; est voltado para dentro, para a atividade interior, o meio pelo qual o homem domina a prpria conduta, reorienta/reestrutura a operao psquica. O domnio da natureza e o domnio da prpria conduta esto reciprocamente relacionados, uma vez que a transformao da natureza implica, para o homem, a transformao de sua prpria natureza, (p. 94).

  • a comunicao entre eles e entre as geraes, permitindo o registro e a transmisso da produo cultural historicamente acumulada. De outro, ela exerce a funo de mediao simblica que permite ao homem desenvolver modos peculiares de pensamento s a ele possveis. Assim, a linguagem constituinte de homens e mulheres ao lhes facultar o acesso e o desenvolvimento das funes psicolgicas superiores: raciocnio lgico, memria voluntria, ateno dirigida etc.

    Atravs da Lei da Dupla Formao que Vygotsky (1984) estabeleceu, destaca-se que a linguagem possibilita a transformao das funes psicolgicas elementares em superiores, as quais so caracteris- ticamente humanas. Ou seja, transforma funes como a memria elementar em memria deliberada (onde controlo minha memria); ou a ateno elementar, em ateno concentrada (onde concentro minha ateno no foco desejado). Em resumo, atravs da instrumentalizao dos signos, as funes psicolgicas passam a possibilitar ao sujeito atuar na realidade de forma consciente e deliberada. Assim, a conscincia, em seu mbito particular, constituda no contexto das relaes de significao com o outro e afirma o ser consciente, o ser capaz de regular a prpria conduta e vontade (ZANELLA, 1997). Nas palavras de Vygotsky,

    O sistema de signos reestrutura a totalidade do processo psicolgico, tomando a criana capaz de dominar seu movimento. Ela reconstri o processo de escolha em bases totalmente novas. O movimento desco- la-se, assim, da percepo direta, submetendo-se ao controle das funes simblicas includas na resposta de escolha. Esse desenvolvimento representa uma ruptura fundamental com a histria do comportamento e inicia a transio do comportamento primitivo dos animais para as atividades intelectuais superiores dos seres humanos (VYGOTSKY, 1984, p. 39-40).

    A linguagem abrange a dimenso da significao enquanto funo do signo (PINO, 1995). A gnese da conscincia, nesse sentido, a apropriao da significao da atividade na relao com o outro, processo em que o indivduo transforma as funes interpsicolgicas presentes/constitudas nas/pelas relaes sociais em funes intraps- quicas. Por isso, homens e mulheres so seres culturais, na medida que o que os torna humanos a apropriao da cultura que , por sua vez, produzida pelos prprios seres humanos.

    Compreender essa dimenso dialtica do processo de constituio dos sujeitos condio sine qua non para entender a perspectiva aqui defendida. O que se pretende destacar aqui a forma de pensar

  • nessa perspectiva. Esto a presentes duas dimenses que se relacionam dialeticamente. A primeira a de um sujeito passivo, que constitudo socialmente pela apropriao dos significados das relaes sociais, pela ao do outro que significa a atividade do sujeito, a atuao deste no mundo. Por outro lado, h a dimenso de um sujeito ativo, pois essa significao que este sujeito internaliza nica, particular, uma vez que apropriao de um ser que possui uma histria nica, a qual determina tambm as caractersticas desse processo de significao. Homens e mulheres so, neste sentido, a sntese que realizam das relaes sociais que entabulam em suas vidas, e suas singularidades correspondem s condies e contingncias sociais a que foram submetidos e ao mesmo tempo constituram.

    A apropriao da linguagem se apresenta atravs de um sentido onde a fala compartilhada na relao com o outro a base para a constituio da fala interior, ou seja, do discurso interno que estabelece a capacidade de autorregulao para o sujeito. A princpio, a fala do outro organiza a atividade de criana, que por sua vez apropria-se dos signos presentes nestas relaes e passa a operar com eles, dando ordens a si mesma e significando verbalmente sua prpria atividade. Posteriormente, a apropriao da linguagem configura um plano interno da fala que se caracteriza pela abreviao de seus aspectos fonticos. Predomina, nesse plano do discurso interior, a operao com significados puros, face a sua independncia dos fatores externos. A linguagem interna, dirigindo-se para o prprio sujeito, diferencia-se tambm pela preponderncia do sentido3 da palavra em relao a seu significado e pela constituio da capacidade de autorregulao da conduta.

    bastante conhecido o exemplo de Vygotsky delineado atravs de uma situao cotidiana da maternidade. Uma me, ao ver seu beb esticando o brao em direo a algum objeto, interpreta esse gesto alcanando o objeto criana. A partir da o gesto adquire significao, propiciando criana que dela se aproprie e passe a operar com base nela. Assim, num outro momento, ela mesma utiliza-se do gesto na in

    3 .0 sentido aqui possui uma amplitude e uma variabilidade diferentes do significado que, por sua vez, mais estvel em sua dimenso social. 0 sentido inclui aspectos relacionados s vivncias singulares do sujeito em sua trajetria no mundo, constituindo a dimenso afetiva-volitiva do signo e, portanto, guarda um carter mais privado embora no descolado de sua origem social.

  • teno de pedir a algum que lhe d algo que no esteja ao seu alcance. O cume desse processo se d no momento em que a apropriao dos significados coincide com a criana orientando sua prpria ao de forma consciente, atravs da mediao dos signos.

    Nesse complexo processo de apropriao, destaca-se a temtica da relao pensamento e linguagem. As concluses de Vygotsky (1979) caminham no sentido de defender a tese de que o pensamento e a linguagem no so relacionados a priori. Tais categorias possuem diferentes razes genticas, sendo que ambas inicialmente desenvolvem-se autonomamente em distintos canais, caracterizando uma fase pr-verbal no desenvolvimento do intelecto e uma fase pr-intelectual do desenvolvimento da fala. Com a apropriao dos signos, essas duas linhas se intercruzam, formando o pensamento verbal e a fala significativa, ambos vistos aqui como sntese da contradio formada neste intercruzamento. Pensamento e linguagem so distintos e, no entanto, inseparveis a partir do desenvolvimento histrico da conscincia.

    Vygotsky identifica o significado da palavra como a unidade desta relao, onde pensamento e linguagem so mutuamente constitutivos. Para esse autor, o significado da palavra se constitui, ao mesmo tempo, como fenmeno do pensamento e da linguagem, atravs da fala significativa. Entretanto, ressalta-se que pensamento e linguagem preservam suas caractersticas estruturais especficas, na medida em que, como diz Vygotsky,

    A estrutura da linguagem no um simples reflexo especular da estrutura do pensamento. Por isto o pensamento no pode usar a linguagem como um traje sob medida. A linguagem no expressa o pensamento puro. O pensamento se reestrutura e se modifica ao transformar-se em linguagem. O pensamento no se expressa na palavra, mas se realiza nela (VYGOTSKY, 1993, p. 298).

    Destaca-se, pois, que a expresso de um pensamento via linguagem promove a reorganizao deste. O significado da palavra, transitando atravs das especificidades destas funes, adquire um carter de constante transformao. Sendo o significado da palavra a unidade de anlise da relao pensamento e linguagem, e posto que este se modifica, evolui, apresenta-se a questo de que h, no decurso do desenvolvimento do sujeito, diferentes configuraes desta relao. Nesse processo de transformao dos significados, contribui em muito a apropriao do conhecimento sistematizado, ou, como nos aponta Vygotsky, dos conceitos cientficos.

  • Em sntese, o processo de desenvolvimento dos conceitos4 e, por conseguinte, do significado da palavra, decorre de um progressivo desvencilhamento da palavra da atividade prtica, concomitante ao estabelecimento de relaes entre as prprias palavras, o que caracteriza o conceito cientfico. Este ltimo, devido s suas propriedades, estabelece um nvel diferenciado entre pensamento e linguagem, ao mesmo tempo em que reorganiza os conceitos cotidianos. Sua estrutura e sua natureza semitica permitem que se atinjam formas superiores e mais complexas de organizao da conscincia: o do discernimento desta no ato de pensar.

    Faz-se importante ressaltar, nesse sentido, a dimenso dinmica do significado da palavra, na medida em que o mbito de sua representao e/ou generalizao modifica-se nas relaes sociais. Por sua vez, modificando-se o significado da palavra, estabelece-se outra relao entre pensamento e linguagem. Tal abordagem a este processo est de acordo com o pressuposto fundamental da teoria de Vygotsky, ou seja, da formao social do psiquismo humano, na medida em que as transformaes do significado da palavra deconem de transformaes mais amplas que incidem sobre o sujeito e das aes do mesmo na sua relao com o mundo. Esse pressuposto pauta-se, por sua vez, em um dos princpios bsicos do marxismo, a saber, o de que o homem, na sua atividade, transforma o mundo e, concomitantemente, transforma a si mesmo, numa relao dialtica (MARX & ENGELS, 1989).

    O processo de significao que constitui os sujeitos, todavia, dada sua natureza social, permeado por um universo de fatores que o constituem. Dentre estes, destaca-se o contexto, do qual os significados no se distinguem. Referimo-nos ao fato de que o significado da palavra se apresenta atravs de diversos sentidos, decorrentes do contexto em que se d o dilogo. Deste modo, a influncia do contexto nos significados pode tanto ampliar a palavra para novas significaes, atravs de novos sentidos, quanto estreitar o mbito desta significao (VYGOTSKY, 1979).

    Atravs da obra de Bakhtin (1981), incorporamos outros elementos para compreender a trama constituinte dos processos de significaes. Para esse autor, no h uma realidade da lngua que exista fora

    4. A definio de conceitos est ligada sua caracterstica de generalizao, o que abrange o aspecto de representao semitica do objeto e o aspecto de abstrao de suas propriedades (VYGOTSKY, 1993).

  • de sua expresso no dilogo. Tal como define enquanto questes bsicas no possvel: 1) separar a ideologia da realidade material do signo; 2) dissociar os signos das formas concretas de comunicao social; 3) dissociar a comunicao e as formas de sua base material (1981, p. 44). Assim, esse autor ressalta a importncia dos fatores (micro e macro) contextuais presentes nas relaes sociais onde as enun- ciaes so produzidas. Desta forma,

    [...] o signo e a situao social em que se insere esto indissoluvel- mente ligados. O signo no pode ser separado da situao social sem ver alterada sua natureza semitica (BAKHTIN, 1981, p. 62).

    Face a isso, o signo, sempre ideolgico, s encontra existncia nas relaes onde se concretiza enquanto palavra, adquirindo sua significao de acordo com o contexto. Ressaltando esse aspecto, Bakh- tin destaca ainda mais a importncia dos signos, apontando que a atividade mental s existe em funo da expresso semitica na enunci- ao, o que implica que s atravs dos enunciados possvel o entendimento do fato ideolgico. Para Bakhtin, o signo , por sua natureza, vivo e mvel, plurivalente, expressando-se pela dialtica da unicidade e pluralidade da significao. A ideologia dominante, no entanto, tem interesse em torn-lo monovalente. Mesmo as menores variaes das relaes sociais, mesmo aquelas que ocorrem em nvel das ideologias do cotidiano, que se exprimem na vida corrente onde se formam e se renovam as ideologias institudas, so registradas atravs da palavra, do signo.

    Para Bakhtin (1981, p. 62) o discurso verbal est intrinsecamente associado vida real e no pode ser dela divorciado analiticamente sob pena de perder sua significao. Neste sentido, ele assume a seguinte tese:

    A verdadeira substncia da lngua no constituda por um sistema abstrato de formas lingsticas nem pela enunciao monolgica isolada, nem pelo ato psicofisiolgico da sua produo, mas pelo fenmeno social da interao verbal, realizada atravs da enunciao ou das enunciaes. A interao verbal constitui, assim, a realidade fundamental da lngua (BAKHTIN, 1981, p. 123).

    Segundo o autor, toda enunciao um dilogo, mesmo tratando-se de um sujeito individual, posto que todo enunciado pressupe aqueles que o antecederam e todos que o sucedero. Desta forma, fazendo parte de um processo de comunicao ininterrupto, o enun

  • ciado um elo de uma cadeia que, para ser compreendido, precisa ser associado aos demais. A dialogia, conceito-chave na teoria de Bakhtin, transcende, portanto, a acepo derivada do conceito de dilogo, referindo-se s diversas formas de interao das vozes presentes nos enunciados. Para esse autor, em qualquer enunciado h sempre mais de uma voz, o que ilustra seu carter social. Sendo assim, toda enunciao s pode ser compreendida na relao com outras enunciaes. Tal caracterstica de polifonia (WERTSCH & SMOLKA,1994) tratada por Bakhtin quando fala sobre o processo de compreenso dos significados:

    "A cada palavra da enunciao, que estamos em processo de compreender, fazemos corresponder uma srie de palavras nossas, formando uma rplica. [...] A compreenso uma forma de dilogo; ela est para a enunciao assim como uma rplica est para outra no dilogo. Compreender opor palavra do locutor uma contrapalavra" (BAKHTIN, 1981, p. 132).

    De outro lado, cada enunciado inclui toda uma srie de contedos que extrapolam sobremaneira o que dito imediatamente: as avaliaes, os contedos normativos, os juzos de valor, as contradies sociais, envolvendo critrios de ordens diversas (ticos, polticos, religiosos, afetivos entre outros). A situao extraverbal, a atmosfera social que envolve o sujeito que emite o enunciado e aquele que o recebe parte constituinte essencial de sua significao. Assim, outro aspecto importante a se destacar na perspectiva bakhtiniana a participao do outro como auditrio social especfico (ausente ou no) da enunciao de forma que

    Na realidade, toda palavra comporta duas faces. Ela determinada tanto pelo fato de que procede de algum, como pelo fato de que se dirige para algum. Ela constitui justamente o produto da interao do locutor e do ouvinte. Toda palavra serve de expresso a um em relao ao outro. Atravs da palavra, defino-me em relao ao outro, isto , em ltima anlise, em relao coletividade (BAKHTIN, 1981, p. 113).

    Neste sentido, incluso nesse contexto como fator determinante da palavra, destaca-se o outro. A palavra, portanto, atravs da enunciao, o "territrio comum do locutor e do interlocutor" (p. 113), ou seja, a palavra liga uma pessoa a outra e, por conseguinte, constitui o elo de toda a coletividade.

  • Ressalta-se, nesse sentido, que tais elementos da linguagem convergem para a compreenso do tema aqui proposto, ou seja, do papel desta funo na constituio dos sujeitos. Em Bakhtin, h a nfase na categoria da conscincia e na dimenso dialgica desse processo. Para esse autor, a conscincia "constitui um fato socioideolgico, posto que a realidade da conscincia a linguagem e esta eminentemente ideolgica. A conscincia formada pelo conjunto dos discursos interiorizados pelo sujeito ao longo de sua trajetria, por um progressivo distanciamento da origem das vozes alheias, as quais se tornam prprias do sujeito. Atravs destes discursos o homem aprende a ver o mundo e os reproduz em sua fala. Se o discurso determinado, ao menos em parte, por formaes ideolgicas (que atravs dele ganham existncia, materializam-se), se a conscincia constituda a partir dos discursos assimilados e se no h homens constitudos fora de seu contexto de relaes sociais, pode-se dizer que no h individualidade absoluta nem em nvel do sujeito nem em nvel do discurso.

    Desta forma, o enunciador, o falante, ao construir seu discurso, materializa valores, desejos, justificativas, contradies, enfim, os contedos e embates existentes em sua formao social. Reproduz de certa maneira em seu discurso, portanto, as vrias formaes discursivas que circulam na estrutura social. O chamado discurso crtico, por exemplo, no surge do nada, posto que se constitui a partir dos conflitos e contradies existentes na realidade. A palavra , pois, a arena onde se confrontam os valores sociais contraditrios, relaes de dominao e de resistncia, conflitos, de tal forma que segundo Bakhtin

    Na realidade, no so palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou ms, importantes ou triviais, agradveis ou desagradveis etc. A palavra est sempre canegada de um contedo ou de um sentido ideolgico ou vivencial (BAKHTIN, 1981, P, 95).

    Se a linguagem cria e sintetiza concepes de mundo, ela, ao mesmo tempo, produto social e histrico. Constitui-se como um elemento e um produto da atividade prtica do homem e, em seu aspecto semntico, continua sendo determinada por fatores sociais, embora goze de relativa autonomia enquanto sistema lingstico. A viso de mundo por ela veiculada, portanto, no arbitrria, posto que resultante das relaes sociais. Sua transformao, por conseguinte, no pode se dar a partir de uma escolha arbitrria.

  • guisa de concluso para o momento

    Atravs da interface dos pressupostos de Vygotsky e Bakhtin, temos indicativos fundamentais sobre as especificidades do processo de constituio do sujeito e o papel da linguagem. Aprofundar na questo dos limites da relao terico-metodolgica destes autores, no entanto, no nos parece adequado para este momento. O que queremos assinalar o quanto os pressupostos tericos destes autores complementam-se na anlise do tema aqui proposto. Em ambos temos a defesa da tese da formao social da conscincia e da importncia dos processos de significao na constituio dos sujeitos.

    Embora diga-se que a linguagem sofre determinaes sociais e que sua modificao no decorre apenas de uma escolha idiossincrtica dos sujeitos do discurso, no se pode esquecer que estes sujeitos no so passivos, pois agem e transformam a linguagem na medida em que a apreendem ativamente. por isso que se pode constatar que uma mesma realidade pode ser apreendida e evocada de forma diferente por homens diferentes. Assim como contedos ideolgicos, sistemas de valores (que incluem esteretipos socialmente construdos) so veiculados atravs da linguagem e graas a ela so entranhados na conscincia de maneira a serem naturalizados", os discursos podem engendrar resistncias e contedos contra-hegemnicos fundamentais transformao social. H que ser astuto neste caso, pois, como afirma Riobaldo, personagem de Guimares Rosa:

    Todos esto loucos, neste mundo? Porque a cabea da gente uma s, e as coisas que h e que esto para haver so demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabea para o total.

    Leituras complementares

    FIORIN, J.L. Linguagem e ideologia. So Paulo: tica, 1988. - O autor mesmo, na introduo do seu pequeno (e rico) livro, esclarece seus objetivos: verificar qual o lugar das determinaes ideolgicas nesse complexo fenmeno que a linguagem, analisar como a linguagem veicula a ideologia, mostrar o que que ideologizado na linguagem" (p. 7).PALANGANA, Isilda C. A funo da linguagem na formao da conscincia: reflexes. Cadernos CEDES, n. 35,1995. - Neste artigo, a au

  • tora centra na funo da linguagem no processo de formao da conscincia tanto no sentido da histria da espcie quanto na histria do sujeito individual. A abordagem utilizada a histrico-cultural e sua discusso terica pretende colaborar para os avanos no campo da educao, embora no se restrinja a ele.PINO, Angel. O conceito de mediao semitica em Vigotsky e seu papel na explicao do psiquismo humano. Cadernos Cedes, n. 24. Campinas: Papirus, 1991. - Pino, em seu texto, discute o papel da mediao semitica na constituio do psiquismo humano. Centrando-se no pressuposto da natureza mediada da atividade humana e da produo pelos prprios homens dos mediadores culturais, o autor mostra a importncia do conceito "mediao semitica" no sentido da superao das dicotomias individual-social, biolgico-cultural, sujei- to-objeto do conhecimento.

    Recomenda-se ainda a leitura dos trabalhos da equipe de pesquisadores do Ncleo de Estudos e Pesquisa "Pensamento e Linguagem" da Faculdade de Educao/Unicamp, em especial aqueles publicados na revista Temas em Psicologia (n. 1, 1993 e n. 2, 1995).

    Bibliografia

    ANDERSON, P. A crise da crise do marxismo. So Paulo: Brasiliense, 198b.

    BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. So Paulo: Hucitec, 1981.

    LURIA, A.R. Pensamento elinguagem: as ltimas conferncias de Luria. Porto Alegre: Artes Mdicas, 1986.

    MARX, K. & ENGELS, F. A ideologia alem (Feuerbach). So Paulo: Hucitec, 1989.

    PINO, A. Semitica e cognio na perspectiva histrico-cultural. Temas em Psicologia. So Paulo, 1995, n. 2, p. 31-40.

    WATZLAWICK, P. Pragmtica da comunicao humana: um estudo dos padres, patologias e paradoxos da interao. So Paulo: Cultrix, 1967.

    WERTSCH, J.V. & SMOLKA, A.L.B. Continuando o dilogo. In: DANIELS, H. Vygotsky em foco: Pressupostos e desdobramentos. Campinas: Papirus, 1994.

    VYGOTSKY, L.S. Obras Escogidas. Vol. III. Madri: Visor, 1995.

  • ______. Obras Escogidas. Vol. II. Madri: Visor, 1993.

    ______. Formao social da mente. So Paulo: Martins Fontes, 1984.

    ______. Pensamento e linguagem. Lisboa: Antdoto, 1979.

    ZANELLA, A. V. O Ensinar e o aprender a fazer renda de bilro: estudo sobre a apropriao da atividade na perspectiva histrico-cultural. So Paulo. Tese (Doutorado). Psicologia/PUC, 1997.

  • CONHECIMENTO

    Cleci M araschin M argarete Axt

    Para discutir algumas ideias sobre conhecimento e sobre a atividade cognitiva dentro de uma perspectiva da psicologia social, precisamos primeiro demarcar os sentidos dos conceitos sobre os quais vamos trabalhar, questionando alguns modos corriqueiros de signific-los.

    Comeamos com a ideia de conhecimento. Para o senso comum conhecimento alguma coisa que se tem, no se tem ou se pode ter. A possibilidade de possuir" conhecimento(s) j nos revela um de seus sentidos. O conhecimento tido como uma substncia, ele pode ser acumulado, guardado, constituindo um acervo pblico ou privado; pode escalonar as pessoas, valorizando-as de acordo com o grau de conhecimentos que possurem; pode converter-se em mercadoria, ser tendido, ser transmitido. Outro sentido bastante difundido o de que existem conhecimentos verdadeiros e conhecimentos falsos, como se os conhecimentos tivessem uma essncia e pudssemos atestar sua verdade ou sua falsidade. Essa essncia corresponderia tanto "verdade dos fatos como deseja toda cincia emprica positivista quanto verdade do sujeito nas posies racionalistas. Existem outros sentidos comuns para conhecimento, mas, para nossos propsitos, a ideia de substncia e a de essncia so as duas primeiras, as quais gostaramos de desconstruir, constituindo outro sentido de conhecimento.

    1) A ideia de substncia poderia estar mais relacionada com o conceito de informao do que propriamente com o de conhecimento. As informaes possuem uma certa materialidade, percorrem vias, podem ser guardadas, constituem acervos. Dizemos uma certa materialidade, pois com o advento da digitalizao da informao ela desvincula-se da representao analgica, podendo ser somente representada por um sistema binrio (bits), o que possibilita outra forma de acervo global (internet). Mas como conceituar o conhecimento? O co

  • nhecimento aquilo que fazemos com a informao. o sentido que lhe damos, como a combinamos. Conhecimento relao. ao, exerccio, atividade, movimento, redes, conexes. Por essa razo que podemos empregar tanto a ideia de conhecimento quanto a de atividade cognitiva, que se sinonimam na ideia de relao.

    2) A definio de conhecimento como relao tambm permite questionar o pressuposto de uma natureza do conhecimento. Se conhecer construir sentidos, existiro sentidos que podem ser mais interessantes e resistentes para se compreender uma dada realidade, mas nem por isso sero "verdadeiros" ou iro ter validade infinita. s vezes uma teoria, um saber popular tm uma durabilidade para alm de sua verificabidade emprica. O que os faz permanecer? O conhecimento tambm est relacionado com os regimes de verdades sociais, com o poder de grupos para perpetuar certos sentidos em detrimento de outros. O encontro entre pessoas ou grupos posicionados a partir de suas certezas gera sempre desenhos estticos que, ao favorecerem a conservao das verdades" existentes, diminuem, ao mesmo tempo, as possibilidades de emergncia de novas "verdades, uma vez que as ltimas requerem abertura s incertezas, s dvidas e aos desconhecimentos.

    3) Outra ideia muito difundida a de que o conhecimento uma atividade humana um tanto desvinculada das condies scio-his- tricas de sua produo. Essa ideia faz parecer que as vises de mundo se transformam num campo prprio das ideias, ou das mentes sem muita relao com as tecnologias que lhes do visibilidade, suporte, possibilidade de expresso; ou mesmo com as prticas e instituies sociais, que lhes do as possibilidades de existncia, difuso e fixidez. Aliado a isso, as mquinas de produo simblica tornam cada vez mais difcil sustentar a ideia de que o conhecimento se processe somente no(s) crebro(s) do(s) sujeito(s). As mquinas armazenam, processam e tratam informaes, isto , realizam atividades cognitivas mediante processos de interao, anteriores ou atuais (ou mesmo futuros!), tanto com os sujeitos individuais-coletivos humanos, como entre elas prprias. Por isso fica difcil no pensar em uma "mente mais ampla que a individual. Pelo que discutimos at agora, vai se tornando insustentvel a ideia de que o conhecimento se d somente en- capsulado, no interior da mente de um sujeito - a tal ponto que mesmo a natureza, nas condies de hoje, impossvel de ser pensada separadamente da cultura, incluindo-se a a tecnocincia, em particular as novas tecnologias da informao e da comunicao. Nesse contexto,

  • trata-se de comear a pensar num processo de trocas transversaliza- das num contnuo ir-e-vir entre nveis escalares diferenciados como num sistema fractal.

    4) Resta ainda um ltimo ponto de interesse para a discusso do conhecimento/atividade cognitiva sob uma das perspectivas da psicologia social. A anlise relativa construo de conhecimento, cognio, tem se sustentado dentro da Psicologia, tomando como ponto de anlise a relao entre o sujeito cognoscente e os processos sociais como duas unidades sistmicas diferenciadas, se bem que em interao. Nosso desafio propor uma nova unidade de anlise na questo do conhecimento, ultrapassando a dade sujeito x sociedade. Tentaremos mostrar, adotando a metfora da via informacional, como as tidas "unidades" podem ser redesenhadas e uma nova configurao de entrelaamentos complexos emergir.

    Tomemos a unidade" sujeito. A ideia mesma de indivduo correspondente a uma espcie de unidade mental do sujeito humano est sendo discutida e questionada. Para Marvin Minsky (1989) no haveria nem mesmo um cdigo ou princpio de organizao comum a todo o sistema cognitivo, sendo que a prpria unidade da mente consistiria muito mais em um mito de sobrevivncia do que numa realidade psquica. Estudos recentes em neurologia (DAMSIO, 1996) evidenciam gue as mltiplas linhas de processamento sensori- al experienciadas na mente no ocorrem todas numa nica estrutura cerebral. Ao contrrio, a mente integrada resultante de uma atividade cerebral fragmentada, o que est em conjunto na mente no est em conjunto num determinado local do crebro. At mesmo a ideia de um fator g da inteligncia est sendo guestionada pela proposio das mltiplas inteligncias de Gardner (1987). Uma nova revoluo conceituai se avizinha:

    Ao invs de sujeito, talvez fosse melhor falar em componentes de sub- jetivao trabalhando, cada um, mais ou menos por conta prpria. (...) Assim, a interioridade se instaura no cruzamento de mltiplos componentes relativamente autnomos uns em relao aos outros e, se for o caso, francamente discordantes (GUATTARI, 1993, p. 18).

    Howard Gardner (1987), ao propor a teoria das Inteligncias Mltiplas, retoma um debate a respeito de um fator geral (fator g) da inteligncia proposto pelo psiclogo Charles Spearmam no princpio do sculo. De acordo com esse ltimo haveria um mecanismo geral, super- ditante da inteligncia, responsvel por todas as habilidades mentais.

  • Na poca, opunha-se concepo de um fator g o psiclogo L.L. Thurstone, postulando uma famlia de habilidades mentais primrias que apresentavam tambm relativa independncia entre si. H. Gard- ner retoma a segunda concepo na forma de Inteligncias Mltiplas, considerando que, apesar das mesmas funcionarem via de regra em harmonia, possuem autonomia podendo cada uma, separadamente, manifestar-se, ou no.

    Se difcil pensar a prpria mente singular como possuidora de uma organizao totalizante ou unidade sistmica, mais difcil ainda torna-se sustentar a ideia de sociedade como outra unidade sistmica. Mas como pensar em outra unidade? dentro desse escopo que se comea a pensar numa ecologia das ideias, ou ecologia cognitiva.

    Para uma perspectiva ecolgica da cognio

    Bateson (1991) distingue duas modalidades de trocas entre os sistemas: as trocas de energia e as trocas de informao. Segundo o autor, tendemos a indiferenciar as unidades sistmicas pensando que se tratam das mesmas quando observamos as trocas energticas e infor- macionais. Nas trocas energticas, as unidades sistmicas podem ser diferenciadas por uma diviso entre seu interior e seu exterior. Assim, uma clula constitui-se em uma unidade sistmica que delimitada pela membrana celular. Um organismo tambm uma unidade sistmica cuja pele delimita uma interioridade de uma exterioridade, etc. Mas, no caso de trocas informacionais entre sistemas, a unidade sistmica no a mesma. Para o autor, a unidade a prpria via de comunicao. As relaes entre interno/externo so modificadas. Interno passa a ter o sentido dos componentes da via. Essa diferenciao acarreta uma mudana significativa no modo de se pensar a cognio. A cognio como um sistema que troca informaes deveria ser definida, a partir de Bateson, como a via por onde essa informao percorre. Todos os componentes da via fazem parte do interior do sistema. Bateson (1991) afirma que a mente individual imanente no apenas do corpo, mas tambm das vias de mensagens exteriores ao prprio corpo: existe uma mente mais ampla na qual a mente individual s um subsistema (p. 492). Admitindo-se esta concepo, no se pode esquecer que o fato da mente individual pertencer interioridade da via faz com que ela prpria se reorganize estruturalmente, construindo novas estruturas cognitivas/mentais.

  • A unidade do sistema cognitivo constituda pelos componentes da via informacional. A via um sistema heterogneo e aberto, constituda por sinapses, redes neurais, tecnologias, instituies. Ao modificarmos um componente da via informacional transformamos o prprio sistema cognitivo. Desta forma, existe uma diferena cognitiva se um sujeito utiliza ou no uma ferramenta, se insere ou no em alguma instituio. dentro dessa perspectiva que se pode falar de uma ecologia" cognitiva, esta se caracterizando pela composio em rede de mltiplas vias informacionais. Assim podemos, por exemplo, falar de uma ecologia oral quando as trocas informacionais passam preponderantemente por tecnologias orais de comunicao. Tambm podemos propor uma ecologia cognitiva informtica quando temos mquinas de produo simblica como constituintes da via.

    Uma ideia interessante que decorre da deciso de tomar o conceito de via informacional como metfora para desenhar a unidade cognitiva poder tambm considerar: a) as instituies sociais como sistemas cognitivos; b) as instituies sociais como tecnologias intelectuais:

    a) As instituies sociais como sistemas cognitivos

    A principal ideia, nesse sentido, prope que toda instituio funcionaria como um sistema cognitivo:

    Pelo prprio fato de existir, uma estrutura social qualquer contribui para manter uma ordem, uma certa redundncia no meio em que ela existe. Ora, a atividade cognitiva tambm visa produzir uma ordem no ambiente do ser cognoscente, ou ao menos diminuir a quantidade de barulho e caos. Conhecer, assim como instituir, eqivale a classificar, arrumar, ordenar, construir configuraes estveis e periodicidades. Com apenas uma diferena de escala, h portanto uma forma de equivalncia entre a atividade instituinte de uma coletividade e as operaes cognitivas de um organismo (LVY, p. 142).

    A equivalncia fractal possibilitaria mtua retroalimentao: as instituies sociais funcionariam como potencializadoras de uma boa parte da atividade cognitiva do sujeito, assim como os sujeitos contribuiriam para a construo e reconstruo permanente das instituies. Ambos constituintes/constitudos da interioridade da via.

    Dentro dessa ideia, torna-se possvel pensar que as instituies, como um sistema cognitivo, realizam operaes com o conhecimento: constroem uma ordem, processando classificaes de diversas for

  • mas, hierarquizaes e seriaes; ordenam nveis de complexidade, atribuem significados, etc.; enfim, reconstroem o conhecimento a partir de sua perspectiva institucional. Assim, por exemplo, uma instituio como uma fbrica potencializa caminhos (vias) psicogenticos atravs de suas operaes cognitivas caractersticas. A questo : como se d essa potencializao? Uma resposta possvel seria a que leva em conta a tecnocincia como tecnologia intelectual.

    As coletividades e as instituies no so somente constitudas por sujeitos humanos. Para alm dos sujeitos e de suas aes, as tecnologias de comunicao e de processamento de informao desempenham, nelas, um papel constitutivo, configurando suas vias infor- macionais. Tal condio permite que as instituies e as prprias vias informacionais possam ser equivalentes a uma organizao reticular de tecnologias intelectuais. Assim, alm de s e i pensada com o um sistema cognitivo, uma instituio poderia s e i analisada a paitii da ied e de tecnologias que a constitui.

    b) As instituies pensadas como tecnologias intelectuais

    Outro conceito central na ideia de uma Ecologia Cognitiva o de tecnologia intelectual. De acordo com o autor citado, as tecnologias se transformam em tecnologias da inteligncia, ao se construrem como componentes da via, auxiliando e configurando o pensamento. Ao mesmo tempo, tornam-se metforas, servindo como instrumentos do raciocnio, que ampliam e transformam as maneiras precedentes de pensar. Mas a partir de que formas operativas as tecnologias intelectuais transformam e reconstituem a Ecologia Cognitiva? As tecnologias intelectuais desfazem e refazem as ecologias cognitivas, contribuindo para fazer derivar as fundaes culturais que comandam a apreenso do real. Mas essa relao no pode ser pensada como determinista: a tcnica inclina, pesa, pode m esm o inteiditai. Mas no dita (LVY, p. 186).

    Nesse sentido e a ttulo de ilustrao, a palavra oral, a escrita, a ciberntica so exemplos de tecnologias intelectuais: so prticas sociais, na medida em que criam signos, possibilitam ou limitam modos de expresso e intercmbio, pautam as interaes, constroem universos de sentido. Cada nova tecnologia que constri um mundo de novas relaes sgnicas, cada sistema semitico abre novos caminhos para o pensamento - um mundo, no s concreto, mas tambm mental, con-

  • ceitual. Os discursos no podem ser tratados como um conjunto de signos, mas sim como prtica social constituinte dos objetos dos quais falam (FOUCAULT, 1986, p. 56).

    Mas para no correr o risco de enrijecer a Ecologia Cognitiva numa relao mecnica, de causa e efeito, LVY (op. cit.) prope dois princpios de abertura:

    i) O primeiro deles, denominado de multiplicidade conectada, significa que uma tecnologia intelectual conter muitas outras. Configura sempre um sistema de mltiplas tecnologias. Assim, poder-se-ia pensar que a tecnologia da escrita, por exemplo, reorganiza outras tecnologias, j que a escrita pode empregar o lpis e o papel, a mquina de escrever ou o computador. No caso da mquina de escrever, por exemplo, h a escrita, o alfabeto, a impresso, a organizao convencional dos tipos (que no segue a ordem alfabtica), a organizao dos movimentos dos dedos, etc. No caso do papel e do lpis, h o movimento da mo, o posicionamento dos dedos, as linhas de um caderno caligrfico, etc. Pode-se pensar nas modificaes do escrever com a inveno da caneta esferogrfica, ou mesmo da borracha, com o desaparecimento do borrador", etc. Essas so questes da Ecologia Cognitiva: quais as transformaes na atividade e no sentido do escrever, caso a tecnologia empregada, para realiz-la, seja papel e lpis, mquina de escrever ou processador de textos? Poderia aqui explicitar ainda uma outra questo em relao escrita: quais as transformaes na atividade e na significao da escrita, quando a escola entra como tecnologia organizativa? (MARASCHIN, 1995).

    Retomando o princpio da multiplicidade tecnolgica, o autor citado faz ainda uma advertncia: no se pode considerar nenhuma tecnologia intelectual com o uma substncia imutvel cujo significado e papel na ecologia permaneceriam sempre idnticos (LVY, p. 146), j que os diferentes encaixes na via informacional propiciam transformaes.

    ii) Outro princpio de abertura consiste na prpria interpretao da tcnica. O sentido de uma tcnica no se encontra determinado na origem. Os sujeitos (no caso, instituies ou sujeitos individuais) podem fazer, e efetivamente fazem, novos usos, constroem novos sentidos. As inovaes tcnicas tornam possvel ou, at mesmo, condicionam o surgimento de formas culturais, mas no, necessariamente, as determinam.

  • Em suma, as tecnologias agem, ento, na Ecologia Cognitiva sob duas formas: a) transformam a configurao das vias sociais de significao, cimentando novos agenciamentos, possibilitando novas pautas interativas de representao e de leitura do mundo; b) permitem construes novas, constituindo-se em fonte de metforas e analogias.

    O conhecimento como rede sociotcnica

    Os conceitos at aqui explorados, da Ecologia Cognitiva, possibilitariam pensar o conhecimento ou atividade cognitiva como uma rede sociotcnica. Dentro dessa conceituao, o conhecimento se compe pelo interjogo dos sujeitos, dos grupos e instituies, das relaes de poder entre eles, das tecnologias de comunicao, dos processos de transmisso, das ritualidades de passagem, etc. Essa rede sociotcnica teria uma forma hipertextual. A metfora do hipertexto1 seria, segundo o autor, vlida para todas as esferas da realidade em que significaes esto em jogo, tal como a cognio humana e as prprias instituies. Seis princpios caracterizam o modelo de hipertexto, que pode ser aplicado nossa ideia de conhecimento como relao: 1) a metamorfose: a rede hipertextual encontrar-se-ia em constante construo e transformao; 2) a heterogeneidade: os ns e conexes seriam heterogneos em relao a seus constituintes; 3) a multiplicidade de encaixes: a rede apresentaria uma organizao fractal; assim cada n seria, por sua vez, organizado por redes; 4) a exteriordade: no haveria unidade orgnica, nem motor interno; 5) a topologia: o funcionamento se daria por proximidade, por vizinhana - tudo o que se desloca deve utilizar a rede ou modific-la; e (6) a mobilidade dos centros: a rede no possuiria um centro, mas diversos centros, permanentemente mveis.

    Segundo esse ponto de vista reticular, o conhecimento constitui sistemas cognitivos que funcionam como redes compostas por um

    1. A definio de hipertexto do autor a seguinte: Tecnicamente, um hipertexto um conjunto de ns ligados por conexes. Os ns podem ser palavras, pginas, imagens, grficos ou partes de grficos, seqncias sonoras, documentos complexos, que podem eles mesmos ser hipertextos. Os itens de informao no so ligados linearmente, como em uma corda com ns, mas cada um deles, ou a maioria, estende suas conexes em estrela, de modo reticular. Navegar em um hipertexto significa portanto desenhar um percurso em uma rede que pode ser to complicada quanto possvel. Porque cada n pode, por sua vez, conter uma rede inteira (LVY, 1993, p. 33).

  • grande nmero de pequenas unidades que podem atingir diversos estados de excitao. As unidades apenas mudam de estado em funo dos estados das unidades s quais esto conectadas (LVY, p. 155).

    Esse sentido da tecnologia, como potencializadora do conhecimento e da atividade cognitiva, tem sido proposto por pesquisadores da psicologia gentica. Ao referir-se s novas tecnologias da informao, Fagundes (1994) comenta: Estas novas ferramentas so capazes de potencializar os poderes mentais do hom em ". No prlogo de seu livro Logo: computadores e educao, Seymour Papert (1985) relata um exemplo de como a tecnologia pode funcionar como uma metfora do pensamento. Ele confessa sua paixo infantil por engrenagens. Escreve que passava bons momentos manipulando e testando efeitos ocasionados pelo engate de diferentes engrenagens. Segundo o autor, sua curiosidade e a decorrente atividade com as engrenagens propiciaram- lhe a construo de um modelo mental que lhe permitiu compreender muitas ideias, principalmente os algoritmos matemticos que, de outra forma, lhe teriam sido abstratos. O prprio autor comenta que "Lentamente com ecei a formular o que ainda considero o fato fundamental da aprendizagem: qualquer coisa fcil se possvel assimil-la prpria coleo de modelos" (1994: p. 12). Da a concluso do autor de que os ambientes de aprendizagem deveriam ser prdigos no oferecimento de modelos para se pensar. Os modelos e as tecnologias potencializam a cognio e funcionam, em certa medida, como objetos para se pensar com", ou como prteses mentais (BATTRO, 1986; LECOCQ, 1988).

    As ideias comentadas acima apontam para uma compreenso da relao entre instituio e atividade cognitiva, dentro da perspectiva de uma anlise ecolgica da cognio. Embora ainda realizando seus primeiros ensaios, a ecologia cognitiva, como vimos, pode oferecer ideias interessantes para se "pensar com.

    A reconstruo conceituai, ou seja, o trabalho de tornar prprio um conhecimento, pode ser pensado como possibilitado pela participao ativa do sujeito em uma ecologia cognitiva. Grifamos o termo ativa, pois existe, necessariamente, uma ao, uma atividade do sujeito na manipulao e experimentao, uma assimilao reconstruti- va dos prprios esquemas mentais, a partir das tecnologias que lhe so acessveis. Afinal, ele um constituinte da via. Um dos limites do conhecimento de um sujeito particular consiste no limite coletivo: o

  • que foi institudo como conhecido, ou conhecvel, e como as prticas coletivas e as tcnicas operam no acesso a tais conhecimentos. Assim, por exemplo, s se torna possvel pensar na psicognese do conceito de caos aps ele ter tido uma existncia como produto do campo cientfico, ter produzido mudanas na rede de significados tericos e ter possibilitado a construo de metforas. Da mesma forma, s se torna possvel estudar a aguisio da escrita quando ela se institui como uma tecnologia coletiva institucionalizada.

    Tomando-se, por exemplo, o escrever, na escola, entende-se que implica uma atividade expressiva e conceituai, na qual a ao e a compreenso dos aprendentes" esto significadas, organizadas, legisladas em prticas e tecnologias escolares, que regulam suas formas de apreenso e de expresso. As condies concretas das prticas e tecnologias escolares constituir-se-o, ento, em espaos de exerccio (vias), que possibilitaro ou impossibilitaro diferentes percursos da psicognese da escrita. Como exemplo dessas direes, destacamos duas delas: ou escrever significa o domnio de um sistema de codificao, no se constituindo, necessariamente, em uma ferramenta para o pensamento; ou trata-se de ingressar num novo modo de pensar, te- matizando a prpria fala. No se trata, aqui, portanto, da questo de saber ler e/ou escrever, e, sim, de que tal aprendizagem, em uma ecologia cognitiva, implica concepes e percepes determinadas de espao e tempo, de si prprio e dos demais, guer dizer, dos elementos fundamentais que conformam a experincia e a mente humanas.

    Em sntese, gostaramos de enfatizar ao final dessa reflexo que no interessou, aqui, discutir conhecimento em geral, como "essncia" humana, como condio que iguala, a pror, todo o humano. Tambm no interessou discutir o conhecimento como aptido, ou como dom e talento. Interessou, sim, discutir o conhecimento como relao, como forma de exerccio simblico, como resultante de (im)possibilidades de ao e de expresso, concretizado por complexas redes de vias informacionais conectando, enguanto uma nova unidade, sujeitos individuais-coletivos-intitucionais. Em realidade, o caminho em direo construo da ecologia cognitiva, como um campo interdisciplinar de conhecimento, pode nos ajudar a redesenhar um novo mapa de conceitos gue superem as velhas dicotomias no estudo do conhecimento e da cognio. A possibilidade de pensarmos a unidade sistmica como a via informacional ao invs da ideia de organis

  • mo x meio faz com que participem efetivamente da ecologia cognitiva, alm da mente individual, as instituies e as tecnologias. dentro desta perspectiva que a proposta se inscreve na psicologia social contempornea ao vincular o conhecimento s condies scio-histricas de sua produo.

    Leituras complementares

    Uma discusso mais aprofundada sobre a epistemologia do conhecimento cientfico pode ser encontrada nos escritos de Gaston Ba- chelard (1884-1962) principalmente no livro A formao do esprito cientfico traduzido e publicado pela Editora Contraponto, 1996. Nessa obra o autor apresenta o conceito de obstculo epistemolgico, mostrando que existem dificuldades e resistncias no prprio ato de conhecer. O autor foi um dos primeiros a insistir na ideia do conhecimento como relao que tem sido fundamental para o delineamento de uma epistemologia complexa, tal como enfatiza Edgar Morin no livro Introduo ao pensamento complexo, editado pelo Instituto Jean Pia- get, 1990.

    Sobre a complexidade da mente, Marvin Minsky, no livro A sociedade da mente, editado pela Editora Francisco Alves, 1989, sustenta a ideia de diversidade mental baseado numa srie de caractersticas: 1) acmulo de uma infinidade de subagentes; 2) vrios domnios de raciocnio comum; 3) talento de vrias protomentes instintivas; 4) hierarquias administrativas; 5) vestgios evolucionrios de animais que ainda permanecem dentro do crebro; 6) desenvolvimento da personalidade infantil; 7) legado complexo e sempre crescente da lngua e da cultura e 8) subordinao dos processos de raciocnio a censores e su- pressores. Cada uma delas proporciona irredutibilidade e versatilidade ao pensamento, ao oferecer maneiras alternativas para prosseguir quando qualquer sistema falha.

    As relaes entre a biologia e o conhecimento tm na obra de Jean Piaget uma das contribuies mais significativas para a psicologia. E interessante apontar neste sentido o conceito de autorregulao de Piaget que se encontra explicitado na obra Biologia e conhecimento editada pela Editora Vozes, 1973. Nesta mesma linha de preocupao pode ser interessante a anlise do conceito mais atual de autopoiesis

  • de Maturana e Varela no livro De maquinas y seres vivos da Editora Universitria, 1995.

    Sobre o conceito de ecologia cognitiva so interessantes as obras de Gregory Bateson, Flix Guattari e Pierre Lvy, todos citados nas referncias bibliogrficas. O livro de Pierre Lvy fornece muitas ferramentas conceituais para compreendermos as transformaes do conhecimento/inteligncia em uma sociedade informatizada.

    Bibliografia

    BATESON, Gregory. Pasos hacia una ecologia de la mente. Buenos Aires: Editorial Planeta, 1991.

    BATTRO, Antnio. Computacin y aprendizaje especial. Buenos Aires: El Ateneo, 1986.

    DAMSIO, Antnio R. O erro de Descartes: emoo, razo e o crebro humano. So Paulo: Companhia das Letras, 1996.

    FAGUNDES, La da Cruz. Novas tecnologias da informao e educao. In: Brasil, Ministrio da Educao e do Desporto, Secretaria da Educao Mdia e Tecnolgica. Informtica na escola: Pesquisas e experincias. Braslia:1994.

    FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das cincias humanas. Lisboa: Edies 70, 1986.

    GARDNER, Howard. Estructuras de la mente: la teoria de las mltiples inteligncias. Mxico: Biblioteca de Psicologia y Psicoanlisis, 1987.

    GUATTARI, Flix. As trs ecologias. Campinas: Papirus, 1993.

    LECOCQ, Pierre et al. A props des prothses cognitives. In: CAVENI, J.P. Psicologie cognive, modeles etmthode. Paris: PUG, 1988.

    LEVY, Pierre. O que virtual? Rio de Janeiro: Editora 34, 1996.

    ______. As tecnologias da inteligncia: o futuro do pensamento na era da informtica. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.

    MARASCHIN, Cleci. O escrever na escola: da alfabetizao ao letramento. Tese de Doutorado. Faced/UFRGS, 1995.

    MINSKY, Marvin. A sociedade da mente. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989.

  • PAPERT, Seymour. Logo, computadores e educao. So Paulo: Brasiliense, 1985.

    PIAGET, J. Adaptacin vital ypsicologia dela inteligncia. Madri: Siglo XXI, 1978.

  • COMUNICAO

    Adrane Roso

    Embora vrios estudiosos tenham se empenhado em discutir a comunicao, ela ainda no central no estudo das Cincias Humanas e Sociais. No campo da psicologia percebemos isso mais explicitamente. Poucas so as publicaes ligando comunicao e psicologia. Alm disso, existem diversas reas de especializao dentro da academia, como a psicologia clnica, escolar, psicometria, etc., mas no encontramos uma psicologia da comunicao. Isto est mudando aos poucos e, certamente, essa rea apresenta um futuro promissor. Tor- na-se vital compreender a comunicao, mesmo para aqueles que no pretendem se especializar nessa rea.

    H diversos aspectos a serem estudados na comunicao. Nossa proposta estudar a comunicao de massa. Para tal, nos deteremos nas maneiras pelas quais o desenvolvimento e as prticas ligadas aos meios de comunicao de massa podem afetar o modo como as pessoas agem e se relacionam entre si. Dito de outro modo: estamos interessados em estudar o papel de mediao, isto , como as aes humanas so atualmente mediadas pela mdia nas sociedades modernas.

    Moscovici (1972) coloca, com muita convico e clareza, que o "objeto central e exclusivo da Psicologia Social deve ser o estudo de tudo aquilo que se refere ideologia e comunicao do ponto de vista da sua estrutura, sua gnese e sua funo" (p. 55). Para aqueles que adotam uma concepo de ser humano historicamente construdo e que enxergam a sociedade como um produto histrico-dialtico, a comunicao obrigatoriamente torna-se um problema central a ser estudado e desvelado. A preocupao no mais com o que comunicado na nossa sociedade, mas, sim, com a m aneta com gue se comunica e qual o significado que a comunicao tem para o ser humano. A comunicao deve ser estudada como um campo de problemas, na medida em que sua prtica requer a superao da prpria realidade.

  • Todos os dias somos envolvidos e dominados por informaes, imagens, sons, que, de uma forma ou de outra, tentam mudar, criar, ou cristalizar opinies, ou atitudes nas pessoas. Isto a prpria mediao de nossas relaes sociais. Como assinala Guareschi (1993), no h como negar a evidncia de que hoje os meios de comunicao envolvem "os seres humanos num novo espao acstico, que McLuhan (1962; 1969; 1967) chama de mundo retrbalizado', onde eles passam a ser bombardeados, instantaneamente, por varadissimas e inmeras informaes de todas as partes do mundo" (p. 20).

    Esse espao acstico pode assumir, muitas vezes, caractersticas de um agente revolucionrio imperialista, que tem o poder de construir e moldar os seres humanos como bem entende. Assim, quem controla esse espao, pode determinar que tipo de ser humano vai se formar.

    Sendo a comunicao nosso objeto de estudo, passamos anos indagar sobre algumas questes como: De que maneiras podemos estudar a comunicao? O que as teorias em Psicologia tm a dizer sobre ela? Ela est a servio de quem?

    Iniciaremos mostrando como diferentes correntes tericas podem abordar e iluminar o tema em discusso. A comunicao tem sido vinculada s diversas concepes tericas em psicologia social. Desenvolveremos quatro dessas concepes: o Comportamentalismo, o Cognitivismo, a Psicanlise e a Teoria Crtica. O foco de nossa ateno vai centrar-se, contudo, na Teoria Crtica, pois atravs dela que se pode mostrar as limitaes e a ideologia das outras teorias.

    Comportamentalismo

    Compreender a concepo de ser humano dessa teoria fundamental. Para ela, o ser humano como se fosse uma mquina, que se comporta de maneiras previsveis e regulares em resposta s foras externas, aos estmulos, que o afetam (SCHULTZ & SCHULTZ, 1992). Consequentemente, os processos bsicos da personalidade esto fora do prprio indivduo e so gerados por estmulos e reaes que so observveis.

    Para mudar, criar, aprender ou ensinar determinado tipo de comportamento recorre-se a dois tipos de condicionamento: clssico e operante. O primeiro envolve o comportamento reflexo, onde o orga

  • nismo responde automaticamente a um estmulo. Grande parte da publicidade baseada neste processo, onde estmulos externos podem ser usados para estimular uma resposta ao marketing, quando uma necessidade criada entre os consumidores. O segundo abarca o processo de aprendizagem, no gual mais provvel que uma pessoa faa, ou no, certo ato, porque foi reforada ou punida no passado.

    Associado a isso, acredita-se que, em vez de simplesmente aprendermos pela vivncia direta do reforo, aprendemos por meio da modelagem, observando outras pessoas e estabelecendo os padres do nosso comportamento com base no delas (SCHULTZ & SCHULTZ, 1992). No caso da comunicao de massa, a aprendizagem atravs da modelagem pode ser sumarizada assim: uma pessoa observa algum na mdia, identifica-se com este e infere gue o comportamento observado poder produzir certo resultado desejado, se for imitado. Quando confrontada com circunstncias relevantes, recorda-se do modelo e reproduz o comportamento. Isso causa alvio e refora o vnculo entre esses estmulos e a resposta modelada, aumentando a possibilidade de que se repita a ao quando frente a semelhante situao.

    Mas qual a utilidade disso? Acredita-se que veiculando o modelo com o qual se pretende que o telespectador se identifique, o resultado vir automaticamente. Por exemplo, escolhe-se uma artista famosa e sexy para vender um refrigerante dzet; a telespectadora quer ser igual a ela e ento compra tal produto.

    V-se assim que quem controla os reforos pode controlar o comportamento, ou que, quem controla os modelos de uma sociedade, pode controlar o comportamento. O homem tomado como um objeto passvel de controle e a comunicao de massa passa a ser um instrumento desse controle.

    Cognitivismo

    O foco dos cognitivistas est no processo de conhecimento e no na dade estmulo-resposta, como no comportamentalismo. Os cognitivistas esto interessados na forma como a mente estrutura e organiza, de forma criativa, a experincia. A teoria da Gestalt enguadra-se aqui. O pressuposto bsico dessa teoria que as pessoas "esto constantemente organizando partculas e pedaos de informao em padres significativos" (WORTMAN, LOFTUS & MARSHAL, 1981, p.

  • 127), e o seu grande valor posiciona-se no insight de que o todo determina as partes, as quais contrastam com a assuno prvia de que o todo meramente a soma total de seus elementos. Assim, uma propaganda de tev, por exemplo, no apenas imagens + sons + palavras. A percepo que um indivduo vai ter de determinada propaganda ser construda a partir de suas sensaes e estas iro formar o todo. Acredita-se que h mais coisas na percepo do que enxergam nossos olhos e a percepo vai alm dos elementos sensoriais.

    Psicanlise

    Muitos pressupostos da psicanlise podem tambm nos ajudar a compreender, ao menos em parte, estratgias empregadas pela mdia a fim de que determinadas propagandas e publicidades tenham resultado.

    No ser humano existem inmeros desejos, como desejos de consumo, desejo de afeto, etc. Vamos considerar dois pontos da abordagem psicanaltica que iluminam o caminho em direo compreenso desses fenmenos. O primeiro refere-se aos processos mentais da ao mtua de foras que so originalmente da natureza de instintos (FREUD, 1980, vol. 20).

    Mas qual a importncia de entender os instintos, a libido e suas fases para a comunicao? Reconhece Freud que todos os desejos, impulsos instintivos, modalidades de reao e atitudes da infncia acham-se ainda demonstravelmente presentes na maturidade e, em circunstncia apropriada, podem mais uma vez surgir.

    Comerciais de televiso podem auxiliar determinadas pessoas a encontrar uma fonte de satisfao para desejos que ficaram insatisfeitos na infncia. Por exemplo, certo comercial de cerveja ilustra isso ao associar sua embalagem (smbolo flico) a uma parte do corpo da mulher, colocando uma garrafa ao lado da outra, causando a impresso de que elas formam seios (smbolos orais).

    O segundo ponto que vamos considerar refere-se ao princpio de prazer-desprazer. O desprazer est relacionado com um aumento de excitao, e o prazer com uma reduo. Como a satisfao de parte das necessidades dos seres humanos regularmente frustrada pela realidade, procuramos encontrar algum outro meio de manejar nossos impulsos insatisfeitos. justamente a que est o perigo, pois sabendo

  • que existe uma tendncia interior a buscar sempre o prazer, e que a realidade no satisfaz sempre esse prazer, os comerciais tentam, ento, suprir nossas carncias de modo que o princpio do prazer sobrepuje seu rival. Ento, comerciais que incitam busca de prazeres que so difceis de ser conquistados podem acarretar conseqncias negativas para os prprios seres humanos.

    A psicanlise poder ajudar, certamente, a compreender alguns mecanismos psicolgicos que se do no interior da pessoa, controlados, em geral, por foras inconscientes. No d conta, entretanto, de explicar todo o mecanismo social e suas implicaes.

    Teoria crtica

    Enquanto que o comportamentalismo, o cognitivismo e a psicanlise se preocupam mais com o indivduo, explicando apenas parte do caminho, os tericos crticos, ao repensarem o ser humano a partir dos aspectos ideolgicos e culturais da sociedade, explicam outros fenmenos dos guais as teorias anteriores no podem dar conta.

    Diferentemente das outras teorias, a Teoria Crtica, j de incio, se preocupou em estudar a comunicao. H mais escolas que adotam o referencial crtico, contudo a mais importante, que chamada inclusive de Teoria Crtica, a Escola de Frankfurt. Esta sempre esteve interessada na investigao da problemtica da comunicao.

    Segundo Guareschi (1993), os primeiros tericos dessa escola partiram da constatao da no realizao de um pressuposto marxista, que afirmava: estando maduras as contradies presentes nas relaes de produo, a transformao da sociedade aconteceria automaticamente. Para os frankfurtianos, essas contradies j estavam profundas em diversas formaes sociais, mas a dominao continuava sempre mais acentuada. Perceberam que havia outra varivel que influenciava a realidade da dominao nessas sociedades: a ideologia.

    Para eles a crtica radical da sociedade e a crtica da ideologia so inseparveis, e essa crtica no "moralizante". A ideologia est a para ser questionada e analisada, no por ser repugnante ou imoral, mas por ser falsa, por ser iluso. A crtica feita pelos frankfurtianos ao marxismo ortodoxo dupla: 1) a infraestrutura econmica deixa de ser o centro da anlise social, ampliando-se para todas as esferas da so

  • ciedade e 2) eles desenvolvem a noo de conscincia e recuperam a subjetividade, atravs da anlise das maneiras de desenvolvimento da subjetividade e o modo como as esferas da cultura e da vida cotidiana representam um novo campo de dominao.

    Esses dois pontos encontram-se articulados e deles se origina uma srie de conceitos que ajudam a dar sustentao teoria. No seria possvel, nesse momento, aprofundar todos os conceitos e tpicos de discusso aos quais a teoria nos remete. Entretanto, para entender como a Teoria Crtica discute a comunicao de massa, fundamental rever dois conceitos: civilizao e cultura. A civilizao o mundo concreto da reproduo material, do trabalho, da necessidade e do sofrimento. Ela representa a exterioridade. Em contrapartida, a cultura representa a interioridade, o mundo das ideias, do prazer e de tudo que se refere ao esprito (MARCUSE, 1970).

    At certo tempo atrs, a dicotomia entre esses dois conceitos, mostrados quase como opostos, explicava, em parte, o fato das pessoas se alienarem s insatisfaes e desigualdades do mundo exterior, de modo a no lutar contra a infelicidade causada pela explorao capitalista. Ou seja, a ciso entre sujeito/objeto, entre bom/mau, entre dominador/dominado servia para a preservao das assimetrias sociais.

    Esse modelo explicativo baseado nessa dicotomia, com o passar do tempo, foi perdendo sua fora no sentido de controlar o descontentamento dos trabalhadores. Surgiu a necessidade da criao de mecanismos mais sofisticados: a cultura passa a ser transformada em mercadoria, perdendo suas caractersticas, para ser um valor de troca. Isto , passa a existir uma cultura industrial".

    Segundo Freitag (1988), essa nova forma de produo de cultura tem a funo de ocupar o espao do lazer que resta s pessoas depois de um longo dia de trabalho, a fim de recompor suas foras para voltar a trabalhar no dia seguinte. A indstria cultural cria a iluso de que a felicidade no precisa ser adiada para o futuro, por j estar concretizada no presente.

    A indstria cultural, ao se vincular aos meios de comunicao, encontra uma frmula magnfica para alimentar o sistema. A primeira coisa que muitas pessoas fazem, ao chegarem em casa, cansadas e insatisfeitas, ligar a televiso no seu canal predileto, para se desligarem de uma realidade opressora. Para aqueles aos quais a televiso

  • tradicional j no respondia satisfatoriamente foram criadas a televiso a cabo e a internet. Atravs deles, os buracos do corao - que esto cada vez mais profundos - so preenchidos por desejos de consumo, por ideais de liberdade, pelo individualismo e por uma falsa felicidade. A conseqncia disso a eliminao da dimenso crtica necessria destruio dessa cultura industrial, sem a qual no haver emancipao.

    Mas como os tericos crticos agem para lutar contra a indstria cultural? Em primeiro lugar, como salienta Geuss (1988), os tericos crticos tomam posio clara diante da ao humana, visando ao esclarecimento das pessoas que a assumem, fazendo-as capazes de descobrir quais seus interesses e levando esses agentes libertao das coeres, s vezes autoimpostas e sempre autofrustrantes. Esse autor salienta ainda que, ao mesmo tempo que a Teoria Crtica uma forma de conhecimento, ela difere, epistemologicamente, das teorias das cincias naturais, que so objetificantes ao passo que as crticas so reflexivas. Esses so, resumidamente, os pilares da Teoria Crtica e a partir deles todo o referencial terico e prtico montado.

    A esquizoanlise, como pensada por Guattari, Deleuze e Rolnik, no se distancia, fundamentalmente, desse referencial. Ela traz, tambm, algumas luzes para compreendermos os mecanismos empregados pela comunicao, principalmente a comunicao de massa. Ela surge como uma crtica a alguns psicanalistas, afirmando que reproduz a essncia da subjetividade burguesa e cria uma relao de fora que arrasta os investimentos de desejo para fora do campo social. Deste modo, ela recusa a ideia de que o desejo e a subjetividade estejam centrados nos indivduos, mas, sim, afirma que eles so construdos socialmente. Ou seja, essa uma ideia de subjetividade "essencialmente fabricada, modelada, recebida e consumida que, por sua vez, ultrapassa os nveis de produo e do consumo e atinge o prprio inconsciente dos indivduos. Isto quer dizer que, tudo aquilo que acontece quando sonhamos, fantasiamos ou nos apaixonamos, so afetos produzidos, socialmente, pelo capitalismo moderno e esto diretamente relacionados com o modo dos indivduos perceberem o mundo, de s e modelizarem os comportamentos e de se articularem as suas relaes sociais" (CZERMAK & DA SILVA, 1993, p. 45).

    Essa modelagem e fabricao feita atravs de diferentes agencia- mentos tcnicos com os quais as pessoas tm contato. Hoje, essa sub

  • jetividade est marcada pela tecnologia. Essa ideia de produo de subjetividade, de desejos um ponto de partida para entendermos melhor as contribuies da esquizoanlise para a comunicao.

    O desejo aqui entendido como movimentos intensivos que se expressam atravs da subjetividade enquanto modo dos indivduos perceberem o mundo e articularem as suas relaes sociais. O desejo a produo do real e implica a noo de agenciamento, pois as pessoas desejam algo sempre dentro de um contexto. Um carro importado para o brasileiro, por exemplo, desejado porque ele representa algo, seja status social ou apenas um produto mais durvel que os nacionais.

    Assim, o desejo est sempre conectado com o exterior e a mdia transforma-se em uma das fontes mais poderosas da produo desses desejos. Ela cria o desejo de possuirmos carros cada vez mais velozes, cria a necessidade de um corpo "diettico, etc.

    Desse modo, os meios de comunicao falam ao sujeito brasileiro, criando uma massa desenraizada produtiva, que chamamos de indivduo, e mantm o sistema hierarquizante das relaes. A esquizoanlise sugere que, atravs de um processo de individuao da subjetividade, de expresso e criao, ou seja, da singularizao, a ruptura dessa ordem capitalista pode se consumar. A fonte para essa singularizao o deciframento dos modos de subjetivao dominantes na sociedade capitalista, a releitura da situao, a crtica a todas as formas de reducio- nismo gue levam a um empobrecimento dos movimentos do desejo.

    Embora Guattari (1988) afirme gue Faa-o! poderia ser a palavra de ordem da esquizoanlise, acreditamos que, dentro da Teoria Crtica, John B. Thompson (1995) que nos brinda com uma abordagem que iluminada por fundamentos de ordem prtica. Ele desenvolveu uma forma de analisar a mdia que fundamentalmente ideolgica e cultural, ou seja, gue est preocupada no somente com o carter significativo das formas simblicas, mas, tambm, com a contextualiza- o social das mesmas. No importa somente o que elas significam, mas como elas significam dentro de determinado contexto social.

    Por formas simblicas entende-se o amplo espectro de aes e falas (lingsticas ou no lingsticas ou quase lingsticas), expresses faladas ou escritas, imagens e textos, gue so produzidos por sujeitos e reconhecidos por eles como construtos significativos (THOMPSON,

  • 1995). Assim, quase tudo que vemos, ouvimos ou percebemos, em fontes de comunicao, pode ser entendido como uma forma simblica.

    O problema surge quando essas formas simblicas se colocam a servio do poder, a servio da ideologia. Ideologia, segundo Thompson, vem a ser as maneiras como o sentido (significado), mobilizado pelas formas simblicas, serve para estabelecer e sustentar relaes de dominao" (THOMPSON, 1995, p. 79). Relaes de dominao so relaes estabelecidas de poder sistematicamente assimtricas, isto , quando grupos particulares de agentes possuem poder de uma maneira permanente, e em grau significativo, permanecendo inacessvel a outros agentes, ou a grupo de agentes, independentemente da base sobre a qual tal excluso levada a efeito.

    Talvez seja Thompson quem melhor apresente um instrumental para analisar e interpretar a ideologia na mdia. Ele se pergunta como desmascarar o sentido que est a servio do poder, sugerindo que a ideologia pode operar atravs de cinco modos principais, com suas respectivas estratgias. Elegemos alguns desses modos e estratgias, remetendo o leitor para a discusso mais completa (THOMPSON,1995, p. 80-89).

    O primeiro modo denominado legitimao. A mdia, atravs dessa estratgia, veicula uma cadeia de imagens que mostra funcionrios pblicos como trabalhadores incompetentes, faltosos e bem remunerados, persuadindo a audincia de que apoiar a supresso da estabilidade empregatcia coisa louvvel e digna, que deve ser incentivada.

    Uma estratgia da legitimao a universalizao. Acordos feitos entre montadoras de automveis e governos ilustram isso. dito que tais acordos traro benefcios a todos. Na verdade, so pequenos grupos que so beneficiados e a grande maioria da populao apenas ajuda a pagar tais privilgios.

    Um segundo modo a dissimulao. Um exemplo dessa estratgia quando assistimos a uma entrevista de polticos do norte e eles usam a expresso latinos". O uso de tal termo pode dissimular, negar ou inverter as relaes entre coletividade e suas partes, pois no sabemos bem de que latinos" eles se referem.

    Um terceiro modo via unificao. A campanha televisiva de privatizaes de companhias estatais ilustrativa desse modus operan-

  • dl. Ela tenta mostrar que o governo e os telespectadores esto unidos pelos mesmos ideais e vontades, dizendo que O governo igualzinho a voc... O telespectador passa a se identificar com o governo e enxerga as atitudes deste como uma projeo de seus prprios desejos.

    Um quarto modo de operao da ideologia a fragmentao. A representao de movimentos populares de trabalhadores na mdia um exemplo claro. Ao invs da mdia enfatizar os ideais coletivos dos movimentos, ela enfatiza imagens sobre episdios de violncia, ou colocando faces umas contra as outras, fragmentando esses grupos em partes conflitantes.

    Tentamos mostrar, at aqui, como podemos interpretar aspectos da comunicao de massa a partir da ideologia. Essa uma tarefa difcil, porm necessria, se objetivamos adotar uma postura crtica no sentido de emancipar as pessoas das relaes de dominao. As contribuies da Teoria Crtica so iluminadoras nesse sentido; especialmente as contribuies de Thompson, pois elas do conta de responder questes de ordem prtica, pouco discutidas, em geral, por outras teorias.

    Consideraes finais

    Vrias teorias em psicologia social tentam compreender o papel da mdia na sociedade. Todas, de um modo ou de outro, tentam iluminar essa problemtica. Algumas teorias, contudo, no do conta de explicar determinados mecanismos e obscurecem a compreenso global da realidade. Elas explicam algo, mas ficam no meio do caminho. Assim, por exemplo, o que est por detrs do comportamentalis- mo, cognitivo e psicanlise uma viso cartesiana: a dicotomia entre o mundo externo e interno. Cada abordagem tem sua maneira especfica de explicar e lidar com essa dicotomia. Tanto os comportamenta- listas guanto os cognitivistas partem da concepo de que existem seres humanos que podem saber o que melhor para a humanidade e, portanto, so dignos de controlar e construir desejos nas pessoas.

    Muitas vezes, mesmo de forma no proposital, os pressupostos dessas trs teorias podem ser usados para um fim comum: manipular pessoas. Consequentemente, os postulados e princpios dessas correntes podem orientar pessoas e instituies no sentido da manipulao e construo de meios que reforcem as relaes de dominao.

  • A Teoria Crtica tenta romper com essa viso cartesiana. O ser humano compreendido sob a tica processual, onde a pessoa e a sociedade so tomadas como realidades histricas, contraditrias, em um processo contnuo de construo e transformao. A realidade entendida como socialmente construda.

    Podemos ver, assim, que a Teoria Crtica nos proporciona um referencial terico e prtico mais amplo e adequado para o estudo da comunicao. Ela tem o compromisso bsico de denunciar relaes assimtricas e de lutar pela libertao de qualquer forma de relao de dominao, atravs do desafio realidade, do questionamento, da crtica e da luta contra o controle e a manipulao. Ela possui, assim, uma dimenso emancipatria.

    A Teoria Crtica, com seus postulados tericos e prticos, d garantia para que no se engane todo um povo, ou algumas pessoas o tempo todo!" (GUARESCHI, 1996, p. 103). Para que a emancipao ocorra importante que as pessoas se renam para discutir criticamente comunicao que veiculada, tendo conscincia da possibilidade de mudana e de seus direitos a uma comunicao ativa e no apenas passiva.

    Sugesto de leituras

    THOMPSON, J.B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crtica na era dos meios de comunicao de massa. Petrpolis: Vozes, 1995. - Um livro abrangente e central, onde o autor, ao mesmo tempo que discute as teorias sobre ideologia, oferece uma teoria social para a compreenso do papel da mdia nas sociedades modernas. Do mesmo autor temos The Media and Modernity: A Social Theory of the Media. Cambridge: Polity Press.

    GUARESCHI, P. A. (coord). Comunicao e controle social. Petrpolis: Vozes, 1993. - A leitura desse livro interessante, pois traa uma ligao entre a psicologia social e a comunicao. Para tal, apresenta uma viso geral do fenmeno da comunicao, enfatizando temas como cultura, poder e controle social. A seguir trata sobre as contribuies que as diversas abordagens tericas da psicologia trouxeram para o campo da comunicao. Sugerimos, tambm, a leitura de dois outros livros desse mesmo autor: Comunicao e poder - A presena e o papel dos meios de Comunicao de Massa Estrangeiros na Amrica Latina

  • (1994). 10. ed. Petrpolis: Vozes, caps. 3 e 4, e Sociologia crtica - Alternativas de mudana, (1996). 44. ed. Porto Alegre: Mundo Jovem (principalmente os caps. 18, 19 e 21).

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    WORTMAN, C.; LOFTUS, E.F. & MARSHALL, M. Psychology. Nova Iorque: Alfred A. Knopf, 1981.

  • IDENTIDADE

    Maria da Graa Ja c q u es

    Sobre o que o amorSobre o que eu nem sei quem souSe hoje sou estrela, amanh j se apagouSe hoje eu te odeio, amanh te tenho amorLhe tenho amorLhe tenho horrorLhe fao amorEu sou um atorPrefiro ser esta metamorfose ambulante.

    Raul Seixas

    A msica, a literatura, o cinema, as artes em geral, tm se dedicado, com frequncia, ao tema identidade. Em geral, tem suscitado interesse quando associado a casos paradoxais como a reencarnao de almas, os transplantes de crebro, entre outros.

    No nosso cotidiano, por vezes seguidas tambm nos defrontamos com a necessidade de responder a pergunta quem s" a que a identidade remete. A repetio da resposta no traz certezas sobre seu contedo. Ao contrrio. O emprego popular do termo to variado e o contexto conceptual to amplo que, o que ostenta um nome to definitivo, continua to sujeito a inmeras variaes. H uma grande semelhana entre essa frustrao cotidiana e as dificuldades de defini-la nos variados campos do conhecimento, visto que diferentes concepes tentam explicar como nos tornamos humanos a partir de compre- enses diversas sobre natureza humana. Alm da filosofia, a antropologia, a sociologia e a psicologia tm se dedicado temtica.

    A importncia conferida ao estudo da identidade foi varivel ao longo da trajetria do conhecimento humano, acompanhando a relevncia atribuda individualidade e s expresses do eu nos diferentes perodos histricos. Os estudos etnogrficos revelam o carter difuso do conceito de eu entre povos primitivos; na Antiguidade Clssi

  • ca ganha importncia acompanhando um aumento no valor vida individual e ao mundo interno, seguindo-se um declnio acentuado a partir da influncia da concepo crist de homem e do corporativismo feudal. Este declnio foi to acentuado que os historiadores se referem descoberta da individualidade nos sculos XI, XII e XIII, o que se reflete na linguagem, na literatura, nas artes plsticas. O movimento romntico representa o pice do culto ao egocentrismo e introspec- o j por influncia do protestantismo e das formas capitalistas de produo, o que vai se refletir na profuso de produes tericas sobre o tema identidade, inclusive na rea da psicologia em seus primrdios como cincia independente.

    Os estudos sobre identidade no mbito psicolgico passam, em geral, pela psicologia analtica do Eu e pela psicologia cognitiva. Em comum, caracterizam o desenvolvimento por estgios crescentes de autonomia, e consideram a identidade como gerada pela socializao e garantida pela individualizao. Segundo a perspectiva de Erik Erik- son (1972), um dos autores cujos estudos sobre o tema so bastante difundidos, a identidade tem como modelo o indivduo em situao de competncia e eficcia sociais; crise de identidade", ciso de identidade" so terminologias empregadas que sugerem uma forma abstrata, a-temporal e a-histrica de conceb-la.

    Em psicologia social, a problemtica da identidade ocupou um lugar central nos estudos de William James (1920), e, na tradio do Interacionismo Simblico, nos trabalhos pioneiros de George Mead (1934). Aps um perodo de poucos avanos, a temtica voltou a receber ateno atravs de trabalhos sobre as relaes entre os grupos, sobre a diferenciao social, sobre a identidade marginal...

    O ponto de vista contemporneo questiona alguns princpios fortemente arraigados na tradio terica do estudo sobre o tema, especialmente as perspectivas naturalista, essencialista e maturacionista, como veremos mais adiante.

    Como os autores conceituam a identidade?

    Quando se referem ao conceito de identidade, os autores empregam expresses distintas como imagem, representao e conceito de si; em geral, referem-se a contedos como conjunto de traos, de imagens, de sentimentos que o indivduo reconhece como fazendo parte

  • dele prprio. Na literatura norte-americana, o termo consagrado self ou self-concept", correspondendo a conceito de si; a tradio europeia privilegia a noo de representao de si. A identidade pode ser representada pelo nome, pelo pronome eu ou por outras predica- es como quelas referentes ao papel social. No entanto, a representao de si atravs da qual possvel apreender a identidade sempre a representao de um objeto ausente (o si mesmo). Sob este ponto de vista, a identidade se refere a um conjunto de representaes que responde a pergunta guem s".

    Essa diversidade terminolgica expressa a diversidade terico- metodolgica dos autores ao abordarem o tema; reflete, ainda, uma certa dificuldade de exprimir conceitualmente sua complexidade.

    Em parte por esta dificuldade conceptual, os sistemas identifica- trios so subdivididos e a identidade passa a ser qualificada como identidade pessoal (atributos especficos do indivduo) e/ou identidade social (atributos que assinalam a pertena a grupos ou categorias); esta ltima ainda recebe predicativos mais especficos como identidade tnica, religiosa, profissional, etc. Jurandir Freire Costa (1989) emprega a qualificao "identidade psicolgica para se referir a um predicado universal e genrico definidor por excelncia do humano em contraposio a apenas um atributo do eu ou de algum eu como a identidade social, tnica ou religiosa, por exemplo. Habermas (1990) refere-se a "identidade do eu que se constitui com base na identidade natural" e na identidade de papel" a partir da integrao dessas atravs da igualdade com os outros e da diferena em relao aos outros. Com base no pressuposto inter-relacionai entre as instncias individual e social, a expresso identidade psicossocial" vem sendo empregada (NETO, 1985), buscando dar conta desta articulao. Constata-se, portanto, o uso de predicativos diversos para qualificar os diferentes sistemas identificatrios que constituem a identidade.

    A impreciso conceituai da temtica, resultado de abordagens diversas e de sua prpria complexidade, talvez possa ser melhor esclarecida a partir do exame de algumas especificidades gue a constituem.

    Como se constitui a identidade?

    A moderna teoria da evoluo explica as mudanas acontecidas no desenvolvimento dos seres vivos a partir dos mecanismos de repro

  • duo diferencial das variaes genticas. Esses mecanismos do conta do processo evolutivo das plantas, dos animais e da espcie humana at o surgimento do Homo sapiens sapiens. Os estudos nas reas de anatomia, antropologia e paleontologia endossam as propostas de que o processo a partir do Homo sapiens sapiens passa a ser regido pelas chamadas leis scio-histricas que garantem uma significativa transformao em curto espao de tempo, marcando definitivamente a ruptura com o mundo animal.

    Este ponto de vista reforado pelos estudos antomo-fisio- lgicos que demonstram o quanto herana morfolgica do crebro se contrape a sua capacidade de produzir conexes funcionais (no sentido biolgico) estveis que se estabelecem segundo as experincias que o indivduo vai experimentando ao longo da sua existncia.

    Com base neste enfoque, redimensiona-se a concepo sobre a constituio das especificidades humanas. As perspectivas naturalista, essencialista e maturacionista, que colocam no indivduo a origem das funes psquicas, so substitudas pela convico de que estas funes no se encontram no substrato biolgico, mas se constituem a partir da insero do indivduo no mundo (a existncia das chamadas crianas feras" refora esta convico).

    Assim, o homem concreto se constitui, nas palavras de Lucien Sve (1989), psiclogo francs contemporneo, a partir de um suporte biolgico que lhe d condies gerais de possibilidades (prprias da espcie Homo sapiens sapiens) e condies particulares de realidade (prprias de sua carga gentica). No entanto, as caractersticas humanas historicamente desenvolvidas se encontram objetivadas na forma de relaes sociais que cada indivduo encontra como dado existente, como formas histricas de individualidade, e que so apropriadas no desenrolar de sua existncia atravs da mediao do outro.

    O emprego do vocbulo apropriao ao invs de adaptao ou in- trojeo tem o objetivo de destacar o carter ativo e transformador do indivduo na sua relao com o contexto scio-histrico. Contexto s- cio-histrico resultante da ao humana enquanto externalizao do seu psiquismo que volta a se interiorizar transformado, num processo contnuo de articulao entre o individual e o social.

    do contexto histrico e social em que o homem vive que decorrem as possibilidades e impossibilidades, os modos e alternativas de

  • sua identidade (como formas histrico-sociais de individualidade). No entanto, como determinada, a identidade se configura, ao mesmo tempo, como determinante, pois o indivduo tem um papel ativo quer na construo deste contexto a partir de sua insero, quer na sua apropriao. Sob esta perspectiva possvel compreender a identidade pessoal como e ao mesmo tempo identidade social, superando a falsa dicotomia entre essas duas instncias. Dito de outra forma: o indivduo se configura ao mesmo tempo como personagem e autor - personagem de uma histria que ele mesmo constri e que, por sua vez, o vai constituindo como autor.

    Que outras dicotomias superar para compreender a identidade?

    O emprego de expresses prprias atividade cnica como personagem, autor, ator, papel, no estudo da identidade tem tradio nos textos clssicos de Erving Goffman (1985). O personagem se refere identidade emprica, que a forma que a identidade se representa no mundo. Implica sempre a presena de um ator enquanto desempenhando um papel social. O personagem ao mesmo tempo se confunde e se diferencia do papel. Em uma mesma representao possvel a existncia de um mesmo papel (de pai, por exemplo) em personagens diferentes. Os papis sociais so abstraes construdas nas relaes sociais e que se concretizam em personagens; o personagem implica a existncia de um ator que o personifica. Os papis sociais caracterizam a identidade do outro e o lugar no grupo social; o personagem, enquanto representa um papel social, representa uma identidade coletiva a ele associada, construda e mediada atravs das relaes sociais.

    Antnio Ciampa (1987), psiclogo social brasileiro que de longa data vem se dedicando ao estudo da identidade, refere-se presena de mltiplos personagens (embora a aparncia de totalidade que a identidade evoca) que ora se conservam, ora se sucedem, ora coexistem, ora se alternam. A interpenetrao entre os vrios personagens que, por sua vez, interpenetram-se com outros personagens no contexto das relaes sociais, garantem a processualidade da identidade enquanto repetio diferenciada, emergindo um outro que tambm parte da identidade. O autor emprega o termo "metamorfose" para expressar este movimento.

  • Se necessrio se fez superar a dicotomia individual/social para compreender o processo de constituio da identidade, a noo de metamorfose implica articular estabilidade/transformao. A estabilidade marcante no contexto da identidade, cuja etimologia remete a idem, no latim, o mesmo. Esta noo conferida ao conceito tem suscitado inmeras crticas por no dar conta da processualidade que lhe prpria.

    A origem etimolgica remete, ainda, outra dicotomia que precisa ser superada para a compreenso da identidade: a do igual e do diferente. O vocbulo identidade evoca tanto a qualidade do que idntico, igual, como a noo de um conjunto de caracteres que fazem reconhecer um indivduo como diferente dos demais. Assim, identidade o reconhecimento de que um indivduo o prprio de que se trata, como tambm unir, confundir a outros iguais. O nome prprio um exemplo caracterstico desta contradio. Enquanto prenome, um diferenciador de outros iguais, mas tambm um nivelador com outros iguais, similarmente nomeados. Enquanto sobrenome, distingue a individualidade, mas tambm remete a outros iguais do mesmo grupo familiar. A pluralidade humana tem o duplo aspecto da igualdade e da diferena.

    Pluralidade que, paradoxalmente, implica tambm a unicidade pois o indivduo vai se igualando por totalidades conforme os vrios grupos em que se insere (brasileiros ou estrangeiros, homens ou mulheres, etc.) sem pressupor homogeneizao: ao mesmo tempo em gue o indivduo se representa semelhante ao outro a partir de sua pertena a grupos e/ou categorias, percebe sua unicidade a partir de sua diferena. Essa diferena essencial para a tomada de conscincia de si e inerente prpria vida social, pois a diferena s aparece tomando como referncia o outro.

    O que a identidade e no ?

    Ao iniciarmos este texto fizemos referncia intranqilidade que a resposta pergunta quem s suscita. Ao finaliz-lo, tornamos ainda menos tranqila a sua resposta.

    Compreender identidade segundo a proposta terica aqui esboada implica, necessariamente, articular dimenses aparentemente contraditrias, pois avessas ao pensamento lgico formal com o gual

  • estamos habituados: individual/social, estabilidade/transformao, igualdade/diferena, unicidade/totalidade. Implica compreend-la como constituda na relao interpessoal (eu, no-eu, eu-grupo) a partir da insero do indivduo no mundo social e atravs da sua atividade que se substantiva e se presentifica como atributo do eu: eu sou trabalhador - substantivo - porque exero a atividade de trabalhar - verbo.

    Esta presentificao (eu sou) expressa um momento originrio quando nos tornamos algo" e se representa como um dado que oculta o dar-se constante que expressa a processualidade da identidade e o movimento do social. O eu, pronome prprio que a identidade evoca, enquanto pronome um substituto de substantivos ou nomes. O nome prprio uma representao da identidade precocemente adquirida a partir da forma como os outros nos chamam, e, portanto, pelo seu carter restritivo no d conta da identidade.

    importante, tambm, no limitar o conceito de identidade ao de autoconscincia ou autoimagem. A identidade o ponto de referncia a partir do qual surge o conceito de si e a imagem de si, de carter mais restrito.

    A identidade apreendida, segundo a perspectiva aqui desenvolvida, atravs da(s) representao(es) de si em resposta pergunta quem s?". Esta representao no uma simples duplicao mental ou simblica da identidade, mas resultado de uma articulao entre a identidade pressuposta (derivada, por exemplo, do papel social), da ao do indivduo e das relaes nas quais est envolvido concretamente.

    Leituras complementares

    O tema identidade no um tema de fcil compreenso ou de resposta simples. Que o digam os autores que tm se dedicado ao seu estudo nos mais diferentes campos do conhecimento. A nossa experincia cotidiana tambm confirma esta afirmao.

    Uma obra que explora exaustivamente a questo da identidade em uma perspectiva similar aqui desenvolvida A histria de Sever- no e a estria de Severina, escrita por Antnio Ciampa e referendada na bibliografia. A partir da anlise de uma histria de vida e do poema Morte e vida Severina de Joo Cabral de Melo Neto, o autor apresen

  • ta uma srie de consideraes sobre a temtica a partir de uma abordagem em Psicologia Social.

    Sobre a relao entre o papel social e a identidade, a obra de Erving Goffman, A representao do eu na vida cotidiana, alm de clssica, excelente fonte de consulta, embora dentro de uma perspectiva que no rompe totalmente a dicotomia interno/externo. Tendo em vista a importncia conferida ao papel de trabalhador em uma sociedade pautada pelo valor produtivo como a nossa, a articulao entre identidade e trabalho pode ser encontrada no captulo Doena dos nervos: o ser trabalhador como definidor da identidade psicolgica", contido no livro Relaes sociais & tica, eno captulo Psicotera- pia e doena dos nervos, do livro Psicanlise e contexto cultural, de Jurandir Freire Costa (ambos referendados na bibliografia).

    E, por fim, a concepo de homem que fundamenta a perspectiva aqui desenvolvida encontra-se em O desenvolvimento do psiquismo, em que o autor, Alexei Leontiev, apresenta importantes consideraes sobre o desenvolvimento filogentico e ontogentico do homem. Tambm o captulo de Lucien Sve, A personalidade em gestao, contm importantes contribuies a este respeito.

    No campo artstico, a pea de teatro de Pirandello Seis personagens procura de um autor", e o curta gacho de Jorge Furtado Esta no sua vida, ambos publicados em livros (ver bibliografia), so ilustrativos sobre a temtica, alm, naturalmente, do poema de Joo Cabral de Melo Neto, j comentado, e da msica de Raul Seixas, "Metamorfose ambulante", cujos versos abrem este texto.

    Bibliografia

    CIAMPA, Antnio. A histria de Severino e a estria de Severina. So Paulo: Brasiliense, 1987.

    COSTA, Jurandir Freire. Psicoterapia e doena dos nervos. In: Psicanlise e contexto cultural. Rio de Janeiro: Campus, 1989, cap. 2.

    ERIKSON, Erik. Identidade: juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.

    FURTADO, Jorge. Um astronauta no Chipre. Porto Alegre: Artes e Ofcios, 1992.

    GOFFMAN, Erving. A representao do eu na vida cotidiana. 4. ed. Petrpolis: Vozes, 1985.

  • HABERMAS, Jrgen. Para a reconstruo do materialismo histrico. 2. ed. So Paulo: Brasiliense, 1990.

    JACQUES, Maria da Graa Corra. Doena dos nervos: o ser trabalhador como definidor da identidade psicolgica. In: JACQUES, M.G. et al. Relaes sociais & tica. Porto Alegre: Abrapso, 1995, p. 62-70.

    JAMES, William. Theletters. Boston: Atlantic Monthly Press, 1920.

    LEONTIEV, Alexei. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Horizonte, 1978.

    MEAD, George. Mind, self and society. Chicago: University of Chicago Press, 1934.

    NETO, Flix. Identidades migratrias. Psiquiatria Clnica, 6(2), p. 113-128,1985.

    PIRANDELLO, Luigi. Seis personajes en busca de autor. Buenos Aires: Argentina Condor, 1927.

    SVE, Lucien. A personalidade em gestao. In: SILVEIRA, Paulo & DORAY, Bernard (orgs.). Elementos para uma teoria marxista da subjetividade. So Paulo: Vrtice, 1989, cap. 5.

  • SUBJETIVIDADE

    Nilza SilvaA nica finalidade aceitvel das atividades hum anas a p rodu o d e uma subjetividade autoenriquecedora d e m aneira contnua na sua re lao com o mundo. Flix Guattari

    Discutir a subjetividade humana na atualidade, do ponto de vista da psicologia social que se exerce, fazer opes. Opes epistemol- gicas, paradigmticas, metodolgicas, prxicas, ticas, estticas, polticas. Escolher implica percorrer as trajetrias da construo dos saberes, imanente ao processo de hominizao - mesmo que de maneira fragmentria e provisria. Escolher implica exercitar uma crtica que no seja complacente nem obsequiosa. Escolher implica respeitar o esforo coletivo do pensar.

    Neste sentido, esboa-se uma incurso pelo pensamento da Grcia Antiga e por sua irrecusvel influncia na produo dos saberes ocidentais de todas as pocas. Procura-se, ento, traar uma linha transversal entre os desafios da realidade contempornea e os saberes necessrios para suportar esta complexidade, especialmente em relao ao processo de subjetivao e s opes do profissional da psicologia social.

    Do passado ao presente

    A hegemonia do pensamento pr-socrtico estendeu-se por aproximadamente trs sculos - entre sculos VIII aC e o V aC - e afetou-se por importantes transformaes operadas no pensamento grego, inicialmente mais descritivo e posteriormente mais guestionador.

    O sculo VIII aC revelou um mundo feito para os fortes, os hbeis e os poderosos, protagonizados na escrita de Homero. AIlada descreve um mundo beligerante, cujo ideal herico, da coragem e das faanhas

  • pessoais, ressalta a excelncia na guerra. A Odissia descreve um mundo de viagens e comrcio no qual a inteligncia, a sagacidade e a esperteza so necessrias (CHEILIK, 1984).

    O sculo VI aC apresentou forte indagao sobre a constituio do mundo. Destacaram-se duas vertentes de pensamento.

    De um lado, a vertente mstica revivia o culto ao deus grego Dioni- so, na seita de Orfeu, concebendo o mundo pela ruptura da unidade divina. O humano carrega a dualidade corpo-alma. O corpo a herana titnica que aprisiona a alma, como um invlucro ou um tmulo. A alma a herana dionisaca que, pela ascese e pela resistncia aos prazeres e atrativos da vida terrena, se liberta do corpo para usufruir a vida eterna. Pela metempsicose, ou transmigrao das almas, a alma deixa um corpo e se reintroduz em outro, pelo nascimento, at a purificao (MUELLER, 1978). Viver e morrer objetivam o retorno unidade divina originria. A dualidade corpo-alma e a metempsicose influenciaram o filsofo natural jnico Pitgoras, de Samo (sculo VI aC), o filsofo eleata Empdocles, de Acragante (sculo V aC), que as estendeu aos animais e s plantas, e o filsofo clssico Plato (sculo IV aC), que as combinou com as ideias de beleza e verdade.

    De outro lado, o apogeu da Jnia, territrio grego na sia Menor, estimulou a vertente da filosofia natural que props uma explicao racional para o universo. Dentre os jnicos, destacou-se Herclito, de feso (480 aC), que apresentou a ideia da mobilidade universal, na qual o movimento, como fluxo incessante, engendra a multiplicidade das formas. o eterno devir. Assim, o processo de produo do homem imanente ao processo de produo do mundo. a afirmao da indissociabilidade homem/natureza.

    A hegemonia do pensamento clssico grego estendeu-se por aproximadamente dois sculos - os sculos V aC e o IV aC - e foi estimulada pelo apogeu de Atenas.

    No sculo V aC, destacaram-se trs vertentes de pensamento.A primeira, constituda pelos sofistas dentre os quais se destacou

    Protgoras, de Abdera (485 aC-410 aC), introduziu um novo conceito de homem, que extrai a verdade do contato com a realidade. Os sofistas ressaltaram a incomunicabilidade direta dessa experincia particular. Preconizaram tambm o carter convencional das instituies, transformveis segundo as necessidades humanas.

  • segunda se filiaram os eleatas e os atomistas. Os filsofos da Escola Eletica, da Magna Grcia, no sul da Itlia, conceberam a matria una, imvel e indestrutvel. Dentre os eleatas, destacou-se Par- mnides, que props a identidade como nico fundamento da verdade. Para ele, a realidade nica e idntica a si mesma e o devir aparncia. Portanto, afirma a dicotomia realidade-aparncia. Dentre os atomistas, destacou-se Demcrito, de Mileto (460 aC-370 aC), que props o universo formado por partculas indestrutveis e indivisveis - os tomos.

    A terceira foi representada por Scrates (469 aC-399 aC), que props um conceito de homem essencialmente moral. A verdade, identificada com o bem, o nico ordenador da felicidade humana.

    No sculo IV aC, consolidaram-se a filosofia e a retrica do perodo clssico. Plato (427 aC-348 aC), discpulo de Scrates, concebeu o mundo bipartite, afirmando a dicotomia ideia-matria (ou essn- cia-aparncia ou modelo-cpia). A ideia ou essncia ou pura forma o modelo universal, a realidade, que no se corrompe" pelo devir. Pelo princpio da identidade, verdadeiramente ser permanecer idntico a si mesmo. A matria ou aparncia (imagem) ou corpo sensvel a cpia em devir, a iluso. Pelo princpio da semelhana, a aparncia tor- na-se cpia do modelo, a matria imita a ideia, a iluso mantm-se realidade. J Aristteles, de Estagira (384 aC-322 aC), discpulo de Plato, concebeu o mundo tripartite: corpo fsico, alma incorprea - gue representa o mundo por ideias - e linguagem - que expressa as ideias. Tambm concebeu a alma tripartite: alma vegetativa, alma sensitiva e alma intelectiva. A vegetativa e a sensitiva - extensivas s plantas e aos animais - representam as paixes, os desejos, os sentimentos, as sensaes, os afetos, expressos pela linguagem cotidiana que plur- voca, isto , com pluralidade dos sentidos. A intelectiva representa a razo, expressa pela linguagem unvoca, isto , com unicidade dos sentidos (FUGANTI, 1990).

    Resumidamente: a preocupao cosmolgica pr-socrtica mergulha na preocupao antropolgica sofista que, por sua vez, trava um embate com a preocupao normativa socrtico-platnica. Do mundo mtico ao mundo racional grego.

    De forma geral, poder-se-ia, agora, traar rudimentarmente a insero do homem nos saberes produzidos nesse perodo e os princpios gue orientaram esta insero. Inicialmente, o nico homem merecedor de nota e de proteo divina o heri, o corajoso, o capaz, o inteli

  • gente, o sagaz. A seguir, o homem se inscreve diferentemente em cada uma das duas vertentes de pensamento que ora se afastam, ora se aproximam, ora se cruzam.

    Uma das vertentes afirma duas dicotomias: 1) unidade divi- na-dualidade humana e 2) corpo-alma. Todos os homens, semideu- ses, precisam libertar-se da sua metade humana para conquistar a integridade divina. A unidade e indestrutibilidade divinas so deslocadas para a matria. A identidade e a imobilidade fundamentam a verdade. Agrega-se nova dicotomia: realidade-aparncia. A identidade e a permanncia da essncia introduz o homem no mundo da moralidade, no qual a verdade identificada com o bem e o belo. A dicotomia ideia-matria fundamentada pelos princpios da identidade e da semelhana.

    A outra vertente afirma a diferena da diferena. A metamorfose, que institui o novo - mesmo que imperceptvel -, faz repercutir as disparidades de todas as coisas entre si. O homem, indissocivel da natureza, uma forma composta pelos fluxos mutantes, em devir. A verdade, como construo humana, apresenta-se plural e transitria.

    Hegemnicas ou no, marginais ou no, essas concepes do processo de subjetivao humana atravessam, influem, contaminam todo o saber ocidental, at hoje. Elas desdobram-se, estilhaam-se, desviam-se, opem-se, entrelaam-se, vibram, compem-se, deslizam umas sobre as outras. Vo criando caminhos, atalhos, pontes que suportam as escolhas atuais, a reinveno dos saberes e a construo do mundo.

    Percorrendo o esboo traado at aqui - aos saltos e sob o risco (ainda maior) de simplificaes grosseiras - saliento dois princpios que orientam a inscrio do homem nos saberes: o princpio da identidade e o princpio da diferena.

    De um lado, o princpio da identidade pressupe uma imobilidade infinita que garante a existncia do m esm o como modelo universal. O mesmo, o idntico, se refere ao conceito determinvel originrio, que fundado no sujeito pensante. Pensar pelo princpio da identidade sempre estabelecer a relao da identidade do conceito com o sujeito que pensa. A realidade ideal e esttica, j que estabelece sempre a ligao entre a unidade originria e a totalidade futura, suprimindo qualquer elemento diferencial. A identidade fundamentou as teorias dos eleatas, dos atomistas, dos socrtico-platnicos, de Hegel (no sculo XIX), dos estruturalistas (no sculo XX), dentre outros.

  • Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) props o eu como conscincia individual e parte integrante da conscincia universal. O desenvolvimento da conscincia se realiza gradualmente, quando o homem toma conscincia de si e do mundo, em progresso infinito at a liberdade total. Ento, se unifica com o divino, a ideia absoluta. A realidade, como exteriorizao da ideia, criada pela razo. A lgica dialtica hegeliana se baseia na contradio criadora, no movimento da tese (afirmao), da anttese (negao) e da sntese (negao da negao). Pelo princpio da identidade, Hegel retalha a diferena pelo seu excesso: a contradio se constitui na maior diferena, somente em relao ao idntico. Subordina, assim, a diferena identidade (DELEUZE, 1988).

    O estruturalismo, que agrupa principalmente antroplogos, historiadores, etnlogos, linguistas, marcou com seu mtodo a psicologia em meados do sculo XX. Claude Lvi-Strauss (1908), etnlogo, estudou os mitos e os fenmenos de parentesco como fenmenos de linguagem, aplicando o rigor dos modelos formais e regras combinatrias do mtodo lingstico, isolando princpios universais. Pierre Clastres (1934-1977), etnlogo, estudou o poder, os conflitos, a diviso social, a constituio do Estado, propondo uma analogia estrutural entre os fenmenos. Roland Barthes (1915-1980), linguista e semilogo, realizou estudos lingsticos e literrios das narrativas e do cotidiano, para os quais utilizou o modelo de anlise estrutural. Sob uma lgica de produo dos signos, elaborou um sistema definido pelas relaes entre seus elementos internos, fornecidos pelas determinaes contextuais. Jacques Marie Emile Lacan (1901-1981), psicanalista, ofereceu um estatuto cientfico psicanlise, unindo-a lingstica, semiologia e matemtica, para definir o inconsciente e suas leis pelo modelo da lingstica estrutural. Para ele, os papis humanos se organizam pela lei da odem simblica, formalmente idntica ordem do signifcante e fundada sob a primazia da estrutura da linguagem. Louis Althusser (1918-1990), filsofo, props o corte epistemolgico como uma ciso radical e precisa entre a abstrao terica e os fenmenos vividos. Ele estabeleceu uma separao entre a cincia - legitimada pelo mtodo formal - e os resduos fenomenolgicos ou empricos, que no so cientficos. As correntes estruturalistas propem a realidade fixada por uma axiomtica estrutural, na qual as premissas expressam verdades, cuja demonstrao desnecessria, por serem tautolgicas, isto , idnticas a si mesmas. Pelo princpio da identidade, estabelecem-se a

  • repetio, a previsibilidade e a reversibilidade. A repetio do mesmo se d porque o modelo, pertencente a um grupo de modelos, funciona como matriz analtico-explicativa de todos os fatos, vistos como ho- meostticos. Assim, todos os fenmenos da realidade so esquadrinhados por conjuntos de relaes formais. Por identidade, por semelhana, por analogia ou por oposio, os fenmenos so introduzidos na ordem dos cdigos universais, atemporais, fundantes e so explicados a partir de determinaes. Assim, qualquer modificao na realidade previsvel, porque essa mudana s se faz dentro dos limites definidos pela interdependncia estrutural das partes em relao ao todo. Do retorno possvel aos estados originrios resulta a reversibilidade no tempo (GUATTARI, 1987).

    De outro lado, o princpio da diferena pressupe uma mobilidade incessante. Sempre de um "estado a outro. A realidade, produzida por fluxos de qualquer natureza, mantm-se em estado instituinte, mutante. Em eterno devir. Por isto, no pode ser capturada por formalizaes: resiste previsibilidade. A consistncia dos fenmenos se faz num processo, no qual as composies dos elementos, as relaes entre as foras - acaso - e as concatenaes dos fluxos, cdigos, tempos, acontecimentos, velocidades, trajetrias implicam na imponderabilidade da histria, na irrepetibilidade das mesmas composies, na heterogeneidade das transformaes e na irreversibilidade do tempo. Pensar pelo princpio da diferena efetuar a relao do diferente com o diferente. afirmar a diferena. Uma dificuldade aparece: capturado pela representao, o princpio da diferena acaba sendo mediado pelo idntico, pelo semelhante, pelo oposto, pelo anlogo. Torna-se necessrio, ento: 1) desfazer a identidade do conceito e do sujeito pensante, para introduzir a diferena no pensamento; 2) reconhecer as multiplicidades como transformadoras da ideia - feita de elementos e relaes diferenciais - para compor a diferena na afirmao (e no na negao); 3) no tomar o diverso como matria do conceito idntico, para restaurar a diferena individuante, singularizante (DE- LEUZE, 1988). A diferena fundamentou as teorias de Herclito, dos sofistas, de Nietzsche (no sculo XIX), de Foucault, de Deleuze e de Guattari (no sculo XX), dentre outros.

    Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) props a indissociabili- dade vida/pensamento, afirmando que se implicam mutuamente, pela eliminao de limites, no esforo de criao do novo. Pensar inventar novas possibilidades de vida e depende das foras que entram em re

  • lao. Uma nova maneira de pensar e uma nova maneira de avaliar - transavaliao - produzem o super-homem. A vontade de poder o e- lemento diferencial e gentico da fora que se exerce sempre sobre outra fora. Portanto, para Nietzsche, vontade uma fora que entra em relao com outra, afirmando sua diferena. O super-homem se engendra neste embate de foras (vontades), sempre afirmativas da diferena. O eterno retorno, como ser do devir, a expresso do princpio do retorno do diferente, da reproduo da diferena. Ele constitui a diferena e a repetio dela. A realidade criada pelas foras (vontades), em cujas relaes so constitudos os corpos de qualquer natureza. lgica dialtica, da contradio e da negao, Nietzsche ope a lgica da afirmao da diferena (DELEUZE, s/d).

    Michel Foucault (1926-1984), Gilles Deleuze (1925-1995) e Flix Guattari (1930-1992) propem a indissociabilidade homem/natureza, afirmando que a produo do mundo se realiza num processo: 1) in- clusivo, do qual no h exterioridade possvel; 2) mutante, porque se efetua pela transformao ininterrupta; 3) flexvel, para o qual no h determinaes; 4) fortuito, por materializar o acaso; 5) comunicante, porque se d por passagens, por estados. E um processo que engendra as multiphcidades, pelas quais tudo pode se interpenetrar com tudo - sem hierarquia entre as instncias individuais, coletivas e institucionais - mudando a natureza do que se vai produzindo. Fluxos de matria/energia, de relaes vazam territrios, aumentam qualitativa e quantitativamente suas conexes, suas disjunes e suas conjunes. Os corpos emergem e se efetuam nesta luta, neste confronto de foras, de velocidades, de composies, neste movimento incessante. Os corpos so, pois, "estados dos seus movimentos - modos de estar - "superfcie de inscrio dos acontecimentos", "volume em perptua pulverizao", cujos fluxos esto sempre em "insupervel conflito" (FOUCAULT, 1989, p. 22). O tornar-se humano inclui o tornar-se no humano: a produo da subjetividade imanente produo do mundo. Pelo processo de subjetivao, o sujeito se desfaz em multiplicida- des. Pela heterogeneidade dos seus suportes fsicos, biolgicos, psquicos, verbais, econmicos, estticos, ticos, polticos, a subjetividade um produto cultural como qualquer outro. Como processo, a subjetividade emergente se relaciona com o mundo pelo limite, pela vizinhana: individua-se nas relaes de alteridade e coletiza-se nas multiphcidades, para "alm do indivduo" e para "aqum da pessoa" (GUATTARI, 1990, p. 8).

  • Do presente ao futuro

    0 final deste sculo tem sido prdigo em desafiar todos os saberes, misturando-os, separando-os, esvanecendo os limites para a investigao, mas, sobretudo, impondo uma velocidade ao difcil de perseguir. Experimenta-se, de um lado, o esgotamento do estrutura- lismo e seus universais e, de outro, o recrudescimento da vertente de pensamento que: 1) inscreve o paradigma tico-esttico-poltico no paradigma cientfico; 2) investe em processo - diverso de sistema e estrutura - na abertura, na ruptura incessante, na precariedade, na singularidade; 3) indica transformaes e suas reordenaes de limites; 4) valoriza os cruzamentos, criadores de novas condies de produo dos saberes; 5) traa os percursos dos arranjos de poderes, construtores e organizadores dos regimes de verdade e de excluso dela. A perplexidade do pesquisador talvez seja o que mais fortemente impregna o processo contemporneo de construo dos saberes. E, por isto mesmo, no deve ser desprezada.

    O modelo capitalista de produo tem-se amparado especialmente na competio e no controle como organizadores: 1) dos modos de pensar, de perceber, de sentir, de relacionar-se e 2) dos equipamentos coletivos que se engancham neste processo produtivo, ao longo da sua trajetria. Os modos, os meios, as velocidades destes fluxos no se inscrevem apenas na economia de mercado: so imanentes ao processo de constituio do mundo, em todas as suas dimenses - da planetria da subjetividade.

    A subjetividade hoje permanece massivamente controlada pelos dispositivos de poder e de saber que colocam as inovaes tcnicas, cientficas e artsticas a servio das figuras mais retrgradas da sociali- dade. E, contudo, outras modalidades de produo subjetiva - processuais e singularizantes - so concebveis. Estas formas alternativas de reapropriao existencial e de autovalorizao podem tor- nar-se amanh a razo de vida das coletividades humanas e dos indivduos que recusam abandonar-se entropia mortfera caracterstica do perodo que ns atravessamos (GUATTARI, 1989, p. 26).

    H fartos dispositivos - especialmente institucionais e massmi- diticos - que se incumbem de banalizar a vida, reduzindo-a ao trabalho: seja "colando" a preparao para viver no sculo XXI preparao para trabalhar (acesso ao emprego?) nesse sculo, seja fazendo a apologia do individualismo absoluto. Afirma-se, por todos os meios de expresso, que, num mundo diversificado, de fronteiras abertas, com

  • plexo, interdependente, com acesso internacionalizado ao capital e aos fatores de produo, a educao se apresenta como ferramenta estratgica para o enfrentamento do mundo do trabalho, cada vez mais competitivo. Maiores tambm so as exigncias da disposio para o aprendizado contnuo, da mobilidade geogrfica, da capacidade de adaptao a novos ambientes e novas situaes. Assim, a diferena est na qualidade da mo-de-obra nacional. No caso brasileiro, o governo, empresrios e estudiosos do problema esto convencidos de que as oito sries do nvel fundamental constituem a melhor base para qualquer aspirante a uma vaga no mercado de trabalho" (CAIXETA, 1997, p. 9). Que qualidade de mo-de-obra se prope aqui? Alm disso, constri-se uma subjetividade produto/produtora desse modelo, nutrida por um individualismo, cujo princpio fundamental o mesmo que rege as grandes empresas. As estratgias e as oportunidades de destaque, de promoo, de visibilidade so ilimitadas e orientadas sempre para os resultados. Esto disposio de todos e dependem exclusivamente de cada um (PETERS, 1997).

    A subjetividade, engendrada como "resduo" no processo de produo do mundo, um produto cultural complexo. Desvelar o conjunto de condies" que possibilitam a emergncia de "instncias individuais e/ou coletivas, como "territrio existencial autorreferencial na sua relao com o mundo, um dos maiores e mais potentes desafios da atualidade (Guattari, 1990, p. 7).

    A hipertrofia das injunes do mercado contemporneo se garante por trs vias principais que resignificam competio e controle: 1) a desregulamentao dos mercados financeiros; 2) a integrao mundial do capital e 3) as revolues tecnolgicas e comunicacionais. Elas facilitam a expanso e a primazia das empresas transnacionais, potencializando sua capacidade de interveno global e a mobilidade crescente dos seus processos de produo.

    A terceira revoluo industrial, impulsionada pela tecnologia do silcio, retalha e remonta unidades menores de trabalho e capital numa linha de produo separada em partes e distribuda, como uma teia, em redor do planeta. Por um lado, a produo dentro da fbrica substituda pela terceirizao; a integrao, pela desintegrao. Por outro lado, a fuso das empresas produzem seu crescimento desenfreado. a economia plug-and-play: mais competitiva, flexvel, dinmica e produtiva, combinando mxima segmentarizao com mxima des- territorializao. Cada vez mais apartados, vai-se cada vez mais longe

  • e mais rpido - mesmo sem sair do lugar (HUBER & KORN, 1997). Este modelo econmico opera, de um lado, pelo descentramento das redes de poder, que tornam as relaes de fora difusas e legitimam certos discursos e prticas custa da invalidao de outros, e, de outro lado, pela circulao do capital financeiro em busca de valorizao rpida e farta. Para a localizao dos investimentos, competem entre si Estados nacionais e/ou regies dentro do mesmo Estado. As facilidades fiscais (sobrecodificadas "guerra fiscal"), a reduo do Estado, as privatizaes, a desregulamentao do mercado de trabalho e da securi- dade social - que facilitam a flexibilizao, o arbitramento salarial, a precarizao das condies de trabalho, a volatilizao do emprego - funcionam como elementos de atrao para os grandes negcios.

    Esta acelerada transformao arrasta consigo tambm: 1) a trans- nacionalizao da misria, do desemprego, do isolamento poltico das relaes de trabalho, da instabilidade e insatisfao sociais, da degradao ambiental; 2) a excluso, porque impossibilita a apropriao e a fruio, por todos, dos meios e benefcios; 3) o descompromisso com as populaes, acentuando as desigualdades e assimetrias sociais; 4) a reduo do mercado local combinada com a expanso do mercado globalizado. Neste percurso, o capitalismo descentralizado - neolibe- ralismo - realiza o deslocamento das contradies: das relaes de produo para as relaes de mercado; das relaes de explorao (capital/trabalho) para as relaes de excluso (produto/consumidor); das relaes de excluso para as relaes de eliminao. Enguanto as relaes de produo explicitam a explorao de uns por outros e a luta de classes, as relaes de mercado privilegiam o produto e a satisfao do consumidor, cada vez mais raro. Por mecanismos de controle, o mercado se estabelece, apesar da excluso de amplas camadas da populao, "desnecessrias ordem instituda. Elas podem ser desviadas, empurradas, eliminadas.

    E o desempregado? Excludos, pela lgica do desaparecimento do emprego, os desempregados acabam por considerar-se "incompatveis com uma sociedade da qual eles so os produtos mais naturais". E como produtos esto plenamente includos. Neste processo de subje- tivao, a vergonha tem sua aplicabilidade domesticadora, funcionando como um elemento importante de lucro".

    Ela altera na raiz, deixa sem meios, permite toda a espcie de influncia, transforma em vtimas aqueles que a sofrem, da o interesse do poder em recorrer a ela e a imp-la; ela permite fazer a lei sem encontrar oposio, e transgredi-la sem temor de qualquer protesto. ela

  • que cria o impasse, impede qualquer resistncia, qualquer desmistifi- cao, qualquer enfrentamento da situao. ela que afasta a pessoa de tudo aquilo que permitiria recusar a desonra e exigir uma tomada de posio poltica do presente. ela, ainda, que permite a explorao dessa resignao, alm do pnico virulento que contribui para criar (FORRESTER, 1997, p. 12).

    Das escolhas

    Inicialmente, faz-se uma ligeira incurso por uma parte do acmulo epistemolgico dos ltimos vinte e oito sculos de enunciao humana. Esta viagem atravs dos saberes - do passado ao presente - apresenta um roteiro nem linear nem harmonioso nem necessariamente emancipador.

    Na segunda parte, descreve-se resumida e fragmentariamente a realidade contempornea "em construo, na qual se est mergulhado e com a qual se tem uma relao visceral de produto/produtor. Do presente ao futuro uma proposta de continuao da viagem. Os caminhos, as sendas, os atalhos, as pontes esto para ser construdos. Como uma provocao.

    E a psicologia social? Pode-se tom-la como uma unidade indivisvel? Se no, qual psicologia social serve de referncia s escolhas profissionais? Em quais dispositivos se engancha para interferir na realidade? De que realidade trata? Com o que, como e para que funciona? Com o que, como e para que a psicologia social constri seus saberes? De quais saberes o profissional da psicologia social se vale para suas opes? Algumas das respostas a estas questes no so to evidentes nem to simples quanto aparentam. Requerem muito mais do que ler este texto ou este livro. Exigem seguir os largos caminhos e tambm as trilhas. Exigem criar onde ainda no existe. Exigem empenhos, lutas, alianas, mergulhos, interlocues. E, principalmente, opes. Opes epistemolgicas, paradigmticas, metodolgicas, prxicas, ticas, estticas, polticas.

    Sugesto de leituras

    Apresentam-se outras sugestes de leituras que investem na inquietao e no debate, que colocam o desafio e a dvida, que exercitam a sensibilidade e o compromisso.

  • Gilles Deleuze, no livro Conversaes (Rio de Janeiro: Editora 34, 1992), realiza um passeio na sua produo terica entre 1972 e 1990. A partir de elementos da arte, da cincia, da filosofia e da poltica, faz uma interlocuo com Foucault, Guattari, Spinosa e Leibniz.

    Flix Guattari, em Trs ecologias (Campinas: Papirus, 1991), trata de trs esferas de relaes: ambiental, social e mental, que implicam heterogeneticamente o processo de produo da subjetividade.

    Umberto Eco, Furio Colombo, Francesco Alberoni e Guiseppe Sacco, em LaN uevaEdadM edia (Madri: Alianza Editorial, 1990), analisam, na sociedade contempornea, as transformaes dos Estados Nacionais, as relaes de poder, os conflitos emergentes, a ruptura do consenso, a fragmentao e a insegurana sociais.

    Boaventura de Souza Santos, em Pela m o de Alice (So Paulo: Cortez, 1995), analisa aspectos da trajetria histrica do capitalismo at a contemporaneidade, abordando modos de produo de poder, desafios dos paradigmas, democracia, emancipao social e subjetividade.

    Bibliografia

    CAIXETA, Nely. Como virar a pgina. Brasil em Exame. So Paulo: Abril, ed. especial, p. 6-11, set, 1997.

    CHEILIK, Michael. Histria antiga. Rio de Janeiro: Zahar, 1984.

    DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a filosofia. Porto: Rs Editora, s/d.

    ______. Diferena e repetio. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

    FORRESTER, Viviane. O horror econmico. So Paulo: Unesp, 1997.

    FOUCAULT, Michel. Microfsica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1989.

    FUGANTI, Luiz Antnio. Sade, desejo e pensamento. In: LANCETTI, Antnio (dir.). Sade e loucura 2. So Paulo: Hucitec, 1990, p. 19-82.

    GUATTARI, Flix. Linguagem, Conscincia e Sociedade. In: LANCETTI, Antnio (dir.). Sade e loucura 2. So Paulo: Hucitec, 1990, p. 3-17.

    ______. Cartographies Schizoanalygues. Paris: ditions Galile, 1989.

    ______. Revoluo molecular, pulsaes polticas do desejo. So Paulo: Bra-siliense, 1987.

  • HUBER, Peter & KORN, Jessica. A unha de produo agora uma teia. Exame. So Paulo: Abril, ed. 645, a. 31, n. 20, p. 102-106, 24/set., 1997.

    MUELLER, Fernand-Lucien. Histria da Psicologia. So Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978.

    PETERS, Tom. Corra! Bem-vindo Era do Eu S.A. Exame. So Paulo: Abril, ed. 643, a. 31, n. 18, p. 108-114, 27/ago 1997.

  • GNERO

    M arlene N eves Stiey

    Dentro da psicologia social cientfica, os temas de gnero tinham pouca expresso e, no mximo, apareciam como sexo, indicando as diferenas encontradas entre homens e mulheres em experimentos de laboratrio ou de campo.

    Para reverter esse quadro foi necessrio tanto o estabelecimento da conhecida crise da psicologia social, quanto as presses dos crescentes movimentos feministas, que iniciaram antes do sculo XX, mas que tiveram seu apogeu h poucas dcadas. Hoje gnero, embora seja um conceito que perpasse todas as reas de estudo da psicologia e de outras reas do conhecimento, tem ntima afinidade com a psicologia social, principalmente a psicologia social que lana seu olhar para a histria, para a sociedade e para a cultura, no conseguindo entender o ser humano separado dessas instncias.

    Antes de seguir na anlise do que seja gnero, importante abrir um parnteses para fazer algumas colocaes sobre o movimento fe minista, que est constantemente associado aos estudos de gnero. Esse movimento teve suas origens em vrios acontecimentos: na revoluo norte-americana, quando John Stuart Mill reivindica para as mulheres as promessas da Declarao de Independncia; na Revoluo Francesa, com a Declarao dos Direitos da Mulher e da Cidad redigida por Olmpia de Gouges em 1791 (inspirada na Declarao dos Direitos do Homem) e "A Reivindicao dos Direitos da Mulher de Mary Wollstonecraft de 1792, um dos seus documentos fundacionais, que, sem outorgar direitos s mulheres, proporcionaram as bases conceituais e tericas que permitiram a luta pela igualdade de direitos polticos e educativos. Abriu-se um espao publico s mulheres no qual puderam manifestar-se, ainda que o discurso e as prticas feministas se mantivessem calados durante um longo tempo.

  • 0 feminismo levou apario de mudanas conceituais importantes no sculo XIX (trabalho assalariado, autonomia do indivduo civil, direito instruo) e presena das mulheres na cena poltica. Durante o sculo XIX produziram-se constantes reformulaes e conquistas femininas que se foram plasmando nas condutas individuais e nas coletivas, na legislao, na arte e no pensamento.

    O pensamento e a luta pela igualdade e da realizao da igualdade para as mulheres se constitui no pilar bsico do feminismo. Igualdade no s no sentido jurdico, a gual foi o objetivo primordial durante as primeiras etapas de reivindicao feminista, mas que, graas ao desenvolvimento e evoluo tanto no plano conceituai como no plano das mudanas sociais e nos comportamentos, foi se transformando, a ponto de no se poder afirmar hoje que o discurso feminista contemporneo seja o mesmo que nos comeos do sculo XIX (PR, 1997).

    Sexo e gnero

    Embora muitos autores e autoras possam utilizar os termos sexo e gnero como sinnimos, trata-se de dois conceitos que se referem a aspectos distintos da vida humana.

    Sexo no gnero. Ser uma fmea no significa ser uma mulher. Ser um macho no significa ser um homem. Sexo diz respeito s caractersticas fisiolgicas relativas procriao, reproduo biolgica. A diviso sexual na reproduo j est bem entendida. Os machos produzem esperma, as fmeas produzem vulos; e depois gestam os filhotes que foram concebidos. O sexo biolgico, ou seja, as caractersticas antomo-fisiolgicas das pessoas vm determinada, em geral, pela dotao cromossmica, pelas estruturas gonadais e pela dotao hormonal (fetal, ps-natal e puberal) responsveis da estruturao ge- nital interna e externa dos caracteres sexuais secundrios (desenvolvidos na puberdade).

    As diferenas sexuais so encontradas em todos os mamferos. Entretanto, os humanos desde sua origem tm interpretado e dado uma nova dimenso a seu ambiente fsico e social atravs da simboli- zao (LANE, 1995). Humanos so animais autorreflexivos e criadores de cultura. O sexo biolgico com o qual se nasce no determina, em si mesmo, o desenvolvimento posterior em relao a comportamentos, interesses, estilos de vida, tendncias das mais diversas ndoles, res

  • ponsabilidades ou papis a desempenhar, nem tampouco determina o sentimento ou a conscincia de si mesmo(a), nem das caractersticas da personalidade, do ponto de vista afetivo, intelectual ou emocional, ou seja, psicolgico. Isso tudo seria determinado pelo processo de socializao e outros aspectos da vida em sociedade e decorrentes da cultura, que abrange homens e mulheres desde o nascimento e ao longo de toda a vida, em estreita conexo com as diferentes circunstncias socioculturais e histricas. Os seres humanos tm diferenas sexuais, mas, de maneira semelhante a todos os outros aspectos de diferenciao fsica, elas so experienciadas simbolicamente. Nas sociedades humanas, elas so vividas como gnero.

    Enquanto as diferenas sexuais so fsicas, as diferenas de gnero so socialmente construdas. Conceitos de gnero so interpretaes culturais das diferenas de gnero (OAKLEY, 1972). Gnero est relacionado s diferenas sexuais, mas no necessariamente s diferenas fisiolgicas como as vemos em nossa sociedade. O gnero depende de como a sociedade v a relao que transforma um macho em um homem e uma fmea em uma mulher. Cada cultura tem imagens prevalecentes do que homens e mulheres devem ser. O que significa ser homem? O que significa ser mulher? Como as mulheres e os homens supostamente se relacionam uns com os outros? A construo cultural do gnero evidente quando se verifica que ser homem ou ser mulher nem sempre supe o mesmo em diferentes sociedades ou em diferentes pocas.

    Principalmente nos Estados Unidos, onde o movimento feminista teve grande importncia e exerceu influncia internacional, o conceito de gnero foi introduzido em seu discurso terico na dcada de 1970 primeiramente atravs de estudos da antropologia. Mas tambm na Europa, em 1972, a inglesa Ann Oakley havia apontado a necessidade de distinguir entre m acho e fm ea e gnero, na classificao social de masculino e feminino. Diversas autoras comearam a aprofundar o tema, salientando que, alm de contar com um modo de produo, toda a sociedade possui um sistema de gnero: conjunto de arranjos atravs dos quais a sociedade transforma a biologia sexual em produtos da atividade humana e nos quais essas necessidades transformadas so satisfeitas. Este sistema incluiria vrios componentes, entre outros a diviso sexual do trabalho e definies sociais para os gneros e os mundos sociais que estes conformam.

  • 0 movimento feminista pretendia que o uso do conceito ou categoria gnero transformasse profundamente os paradigmas da histria e de outras disciplinas do conhecimento humano. Em funo desses estudos, gnero passou a ser muitas vezes equiparado mulher, pois se debruavam principalmente sobre a mulher e suas contingncias. Embora seja utilizado o termo gnero quando se fala de mulheres, sempre fica claro que no se pode obter informaes sobre elas sem, ao mesmo tempo, obter informaes sobre os homens. Assim, para conhecer-se como so as mulheres, socialmente construdas, faz-se necessrio saber sobre os homens, socialmente construdos. imprescindvel conhecer a histria do desenvolvimento de ambos os gneros, assim como importante estudar todas as classes para compreender o significado e alcance da histria de como funcionou e funciona a ordem social ou para promover sua transformao.

    A viso do gnero como construo cultural e histrica implica tratar com categorias simblicas, cujas caractersticas principais so dar prioridade interpretao construda em uma dialtica entre o dado concreto e o esquema explicativo; na centralidade dos smbolos e dos diversos fatores que podem influir em sua leitura, como por exemplo o lugar e o momento, se uma leitura individual ou se coletiva. Atravs da capacidade humana de criar e manipular smbolos, os sistemas simblicos vm a ser condio e conseqncia da interao social. No entanto, necessrio lembrar que esta capacidade simblica, tanto de produzir como de interpretar, de ler a realidade e de significar, tem sido, e ainda de certa forma , unilateral e excludente, posto que se faz prioritariamente desde o ngulo masculino. sobre essa viso distorcida que os estudos de gnero buscam lanar luz (SCOTT 1995).

    Os estudos de gnero so importantes na psicologia, na antropologia, na sociologia, na histria. O conceito de gnero abre uma brecha no conhecimento sobre a mulher e o homem, na qual torna possvel uma compreenso renovadora e transformadora de suas diferenas e desigualdades. Para alm das diferenas individuais, importante salientar as interaes sociais que influem nos resultados educativos e ocupacionais, entre outros tantos.

    Assim, o conceito de gnero deve estar presente quando estudamos desenvolvimento, trabalho, escola, famlia, personalidade, identidade, grupos, sociedade, cultura. Isto particularmente central na psicologia social de cunho histrico-crtico, pois a anlise e o estudo das situaes e condies sociais geradoras de desigualdade, o de

  • senvolvimento conceituai e de modelos tericos explicativos, a proposta de estratgias de interveno e de programas de ao eficazes, tm como objetivos fundamentais a erradicao de situaes e condies geradoras de desigualdade. Vemos ento convergirem nesse sentido os estudos de gnero e a psicologia social histrico-crtica.

    A questo da hierarquia de gnero

    A hierarquia de gnero descreve uma situao na qual o poder e o controle social sobre o trabalho, os recursos e os produtos, so associados masculinidade (GAILEY, 1987). O patriarcado uma forma de hierarquia, em que os homens detm o poder e as mulheres so subordinadas. Numa sociedade patriarcal, a autoridade social efetiva sobre as mulheres exercida atravs dos papis de pai e de marido. Sob as condies patriarcais, as mulheres s vezes exercem autoridade atravs do papel de me em oposio aos outros papis familiares, tais como esposa, filha, irm, ou tia.

    At recentemente, o patriarcado era a forma prevalecente na hierarquia de gnero na civilizao ocidental (LERNER, 1990). Hoje, todavia, a forma diferente. O poder social agora identificado com atributos considerados como masculinos. Pessoas do sexo masculino ou feminino podem desempenhar papis, atravs dos guais o poder pode ser exercitado, mas eles permanecem como papis masculinos. Em virtude de serem simbolicamente masculinos, a discriminao contra as mulheres gerada por esses papis recebe reforo ideolgico. Alm disso, vemos em algumas teorias psicolgicas, por exemplo, que opa- pel patem o considerado como benfico na ruptura da simbiose ma- temo-Mal, que conduziria uma criana a ter problemas psicolgicos. Nessas teorias, d-se por suposto que cada pessoa cumpre seu papel (invarivel, a-histrico) e que o papel masculino (paterno) necessariamente benfico e que o papel feminino (materno) pelo menos perigoso No por acaso a m e sem pie a culpada...

    Todas as sociedades explicam as hierarquias sociais atravs de origens divinas, de costumes ou naturais para as hierarquias sociais. A tendncia prevalecente nas civilizaes ocidentais contemporneas propor razes naturais para a ordem social existente. Em nossa sociedade ocidental, esta tendncia pode ser vista nas crenas disseminadas de que os recursos tm sido escassos desde a aurora da existncia humana; que a inteligncia herdada e pode ser medida acuradamen

  • te; e que, embora a discriminao racial e sexual possa ser objetada, ela est baseada em inferioridade e superioridade naturais. Essas noes tm um paralelo nas religies que apresentam razes de ordem divina para a existncia de desigualdades de raa e sexo (WOLF & GRAY, citado por GAILEY, 1987).

    Muitas pessoas assumem que os homens so naturalmente mais agressivos. As mulheres so encorajadas, s vezes, a desenvolver a assertividade, mas os homens so incentivados a canalizar o que visto como um recurso natural, possivelmente ligado ao cromossomo Y. Algumas teorias alternativas argumentam que homens e mulheres so basicamente semelhantes, ao menos com respeito a seus potenciais intelectuais e emocionais. Nesta viso, as diferenas entre mulheres e homens refletem fatores culturais, ou seja, espera-se que homens sejam de uma maneira e mulheres sejam de outra (OAKLEY, 1972). No entanto, essas teorias no dizem como as culturas chegaram a exigir essas diferenas de ambos os sexos. E tambm algumas teorias no explicam por que essas diferenas exigidas tambm comportam desigualdade e subordinao das mulheres aos homens.

    Se a subordinao poltica e econmica um fenmeno cultural, nossa tarefa buscar uma explicao histrica ou cultural para a situao das mulheres e dos homens em todas as sociedades. Destacando o mundo ocidental e com as devidas precaues, a posio de gnero um dos eixos essenciais para a manuteno do poder na hierarquia social, que essencialmente masculina no seu topo e tem estratgias de fragmentao (por classes, por idades, por grupos ou culturas minoritrias). Assim, essa hierarquia nos leva a viver rivalidades e lutas entre pessoas jovens e idosas, pobres e ricas, negras e brancas, mulheres e homens. Essas relaes antagnicas estruturam a dependncia e a submisso.

    Variaes em gnero atravs das culturas

    Os estudos de gnero nos mostram uma tremenda variedade de culturas no mundo. Em algumas sociedades, a diviso do trabalho por gnero uma das maneiras-chave sobre as quais a atividade econmica est organizada. Em outras, a diviso do trabalho por gnero encontrada primariamente na esfera domstica. As diferenas entre sociedades onde o gnero central produo econmica e aquelas

  • onde secundrio se refletem nas diferenas em todas as estruturas de autoridade.

    Em algumas sociedades, que muitas vezes so chamadas de primitivas , a propriedade considerada comum a todos os participantes da referida sociedade, as quais em geral se consideram parentes. Embora a autoridade social possa variar, podendo ser igualitria ou es- tratificada, o gue todas tm em comum a ausncia de separao entre o pblico e o privado. Existe outra maneira lgica de encarar as diferenas sexuais. Em termos fsicos, as caractersticas sexuais secundrias no so muito pronunciadas antes da puberdade e, em algumas populaes nunca so to acentuadas e culturalmente sublinhadas como em nossa sociedade ocidental. Assim, em certas culturas podem chegar a existir at quatro gneros, dependendo de quando determinado o incio e o fim da vida reprodutiva: crianas (que parecem semelhantes), adultos homens e mulheres (que parecem diferentes) e velhos(as) (que voltam a parecer semelhantes). H variantes culturais no gnero adulto, onde a preferncia sexual pode criar outros papis de gnero ou as pessoas podem trocar o gnero, ou mesmo adotar os papis procriativos do outro gnero. Colocar o foco somente nas diferenas sexuais ignorar a criatividade cultural. Nossa sociedade ocidental rotula homens e mulheres desde o nascimento at morte, mas existem outras sociedades onde as diferenas de gnero no se estendem para alm dos papis adultos de procriao.

    Os estudos transculturais nos mostram ento dois aspectos universais sobre o gnero: gnero no idntico a sexo e gnero fornece a base para a diviso sexual do trabalho em todas as sociedades. No existe um contedo universal para os papis de gnero. A maneira como homens e mulheres so conceitualizados varia enormemente. Em algumas sociedades, homens e mulheres tm a opo de poder adotar o trabalho e os papis das pessoas do sexo oposto. A diviso do trabalho por gnero pode incluir cada um ou cada uma em seu papel escolhido, mas isto no se deve a seu sexo. Em alguns casos, mulheres e homens tm uma viso antagnica entre si. Em outros casos, existe uma viso compartilhada de gue as mulheres tm menos poder, menos autonomia pessoal, mas tanto o trabalho como os direitos de propriedade, por exemplo, no so considerados necessariamente privilgio dos homens. Como podemos ento definir se as mulheres so subordinadas?

  • O que subordinao e como se expressa?

    Subordinao pode ser definida como uma relativa falta de poder. Em termos de autoridade social, um grupo subordinado tem pouco ou nenhum controle sobre a tomada de decises que afetam o futuro daquele grupo. Os trabalhadores, por exemplo, no tm nenhuma capacidade de vetar a deciso de sua empresa se ela decide fechar a fbrica num determinado lugar e abrir em outro. Podemos falar em subordinao de gnero quando as mulheres no esto no controle das instituies que determinam as polticas que afetam as mulheres, tais como os direitos reprodutivos ou a paridade nas prticas de emprego. Discriminao nos salrios e nas promoes so exemplos da subordinao das mulheres na nossa sociedade. Em outras sociedades, a subordinao pode envolver a necessidade de as mulheres casarem para poder sobreviver. A isso se alia o fato do papel de esposa trazer menos autoridade do que o de marido. Em suma, subordinao envolve dependncia sistemtica, sendo o grupo subordinado ativo ou no em tarefas produtivas.

    A subordinao mais difcil de determinar se focarmos somente as atitudes. As atitudes expressas podem mudar relativamente rpido, pois so sensveis s mudanas no clima poltico. As pessoas podem pensar que so iguais, acreditando que so to boas como qualquer outro grupo. Mas elas podem de fato ser subordinadas independentemente do que acreditem. As pessoas tm a capacidade simblica de criar crenas que justifiquem as condies existentes e assim do sustentao e continuidade ao sistema. Simbolicamente, a subordinao frequentemente expressa como uma relao de complementaridade: Os trabalhadores precisam dos patres, assim com o os patres precisam dos empregados e afirmaes do estilo. O aspecto de poder na relao negado. Por esta razo, mais confivel centrar o estudo da subordinao principalmente nas relaes polticas e econmicas do que nas atitudes, embora em Psicologia isso no seja comum, tendo em vista muitas linhas tericas centrarem-se apenas no indivduo.

    O problema sabermos se a subordinao das mulheres sempre aconteceu ou se foi desenvolvida ao longo da histria humana. Temos teorias que argumentam que essa relao natural; outras dizem que cultural e outras, ainda, dizem que, embora seja cultural, universal, ou seja, sempre esteve e estar presente nas relaes entre mulheres e homens.

  • Algumas teorias dizem que as mulheres sempre estiveram subordinadas aos homens desde a origem da humanidade. Isso teria se dado em funo de sua inerente passividade, sua fraqueza fsica ou sua incapacidade de funcionar como uma igual devido s demandas da procriao. Entre essas teorias, encontramos as abaixo relacionadas e que, embora proponham a existncia de um patriarcado primordial como fator de semelhana em todas, no apresentam muito mais em comum.

    O homem caador: subordinao baseada nas origens humanas

    Essa teoria fala sobre a adaptao humana como a base para a diviso sexual do trabalho e a subordinao feminina. Embora muito criticada, essa teoria continua ainda a ter muita vigncia, por isso vamos falar um pouco mais sobre ela, enquanto que apenas mencionaremos as demais que so mais atuais e que demandariam uma discusso mais profunda.

    De acordo com essa viso, h cerca de dois milhes de anos atrs, nossos ancestrais tinham sua sobrevivncia garantida pela caa. Os homens eram os encarregados da caa; as mulheres dependiam dos homens para conseguir carne. Os homens dividiam a caa primeiramente com suas prprias mulheres, filhos e filhas. Depois de fixado esse primitivo padro de comportamento de papel sexual na humanidade em construo, isso persistiria at os dias de hoje.

    A razo dos homens caarem seria o fato das mulheres serem mais voltadas naturalmente para suas famlias ou menos mveis devido aos encargos da maternidade e do cuidado com as crianas. As mulheres, ento, devido a isso, foram incapazes de desenvolver a agressividade, a ateno ao detalhe, ao planejamento e lealdade ao grupo e cooperao ostensiva ligada caa como uma atividade cooperativa. Essa adaptao s necessidades de subsistncia imprimiram na humanidade a diviso sexual do trabalho, na qual os homens se tornaram mais agressivos e mais capazes para o trabalho conjunto em grupos, enquanto que as mulheres se tornaram mais passivas e mais fixadas nos trabalhos domsticos e cuidado com as crianas.

  • As crticas mostram que essa viso apresenta um vis claramente masculino. Por exemplo, a nfase na caa como essencial para o desenvolvimento da cultura bastante dbia (MILES, 1989). Os homin- dios comiam carne, mas muito mais provavelmente em forma de carnia abandonada por outros carnvoros do que conseguida pela caa. Embora fossem onvoros, a maior parte da dieta era vegetariana, e qualquer pessoa, inclusive as muito jovens e de ambos os sexos, podiam conseguir mais facilmente (LIEBOWITZ, 1986). A caa deliberada parece haver surgido muito mais tarde e na forma de forar os animais a carem de despenhadeiros, onde poderiam ser facilmente mortos se j no o estivessem, o que no impediria a participao de qualquer pessoa, nem mesmo das crianas. Outro problema a suposio da nuclearidade da famlia nos primrdios da humanidade. Seriam as famlias compostas por pai, me, filhos e filhas? Existiria nos grupos ancestrais o conhecimento de como funciona o processo de procriao, que permitiria aos homens terem uma noo de quem seriam seus filhos e suas filhas? Essas so questes difceis de responder, no existindo provas suficientes nesse sentido para dar sustentao a teorias desse tipo.

    O complexo da supremacia masculina: A guerra e o controle populacional

    As explicaes tcnico-ambientais falam daquilo que seria uma lei natural (escassez de recursos, presso populacional), que levaria emergncia de caractersticas culturais para a adaptao da sociedade s estruturas das leis naturais. Um dos propsitos dessa teoria explicar por que os homens dominam as mulheres (HARRIS, citado por GAILEY, 1987). O controle populacional teria sido um problema desde tempos imemoriais. Na medida em que iam se desenvolvendo, as diversas culturas tratavam de fomentar as guerras como forma de conteno do crescimento da populao. Para isso, os homens eram levados a desenvolver ao mximo sua agressividade para poderem atuar como ferozes guerreiros e obterem suas gratificaes sexuais atravs do estupro das mulheres dos povos vencidos. J as mulheres seriam socializadas para serem passivas e submeterem-se aos interesses dos jogos de guerra.

  • A subordinao aumenta a adaptao. Os sociobiologistas, tais como Wilson (1981), atribuem a dominao masculina seleo natural, em que os mais adaptados sobrevivem e se desenvolvem. Tentativas de alterar prticas sexistas, ento, contradiriam as leis naturais, o que poderia levar, a longo prazo, a uma srie de problemas. Os homens, por possurem muitos espermatozides, procurariam dissemin-los no maior nmero possvel de mulheres, j que so elas e no eles que pagam o preo da procriao (gravidez, parto, lactao, etc.). J as mulheres, devido a isso e por terem poucos vulos ao longo de sua vida reprodutiva, procurariam para pai de seus(as) filhos(as) algum homem que pudesse ajud-las a cri-los(as) da melhor maneira possvel. Para convenc-lo, se submeteriam a ele.

    Teorias estruturalistas

    Essas teorias dizem que a subordinao feminina cultural, mas universal. Um desses grupos de teorias considera que as mulheres tm menor status e menos autoridade que os homens porque esto associadas ao domnio domstico, enquanto os homens esto associados ao domnio pblico. Isso universal e se deve a que as mulheres so responsveis pela gestao e cuidado das crianas (FIRESTONE, 1976). Tudo ento dependeria do grau de envolvimento conquistado na esfera pblica pelas mulheres e na esfera domstica pelos homens.

    Outro grupo de teorias que tambm se refere subordinao feminina como cultural, porm universal, salienta que isso se deve diviso do trabalho por gnero (GODELIER, 1981; ORTNER, 1981). Desde as primeiras culturas, as mulheres seriam simbolicamente associadas natureza, enquanto os homens seriam associados cultura, sendo esta ltima superior primeira, portanto, os homens dominam as mulheres, assim como a cultura domina a natureza.

    A subordinao como um processo histrico

    Se as teorias anteriores esto sujeitas a muitas crticas, a possibilidade de entendimento da subordinao feminina pode se dar atravs do estudo da estratificao que existe ou existiu e das relaes dessas

  • formas de estratificao com a diviso do trabalho por gnero e as relaes de propriedade.

    No mundo ocidental capitalista, a experincia de gnero e o status das mulheres advm da vida em uma sociedade estratificada por classes com uma economia capitalista. Nem todas as sociedades tm essas caractersticas atualmente e, no passado, existiram sociedades estratificadas por classe com economias muito diferentes da capitalista, como a Europa feudal, as civilizaes greco-romanas, baseadas no trabalho escravo, etc. Assim, o modo de produo, em si mesmo, no pode ser invocado como a base da subordinao feminina.

    Muitos(as) tericos(as) veem a hierarquia de gnero como um processo histrico, que est ligado a outras formas de hierarquia social. Entender essa relao exige que se estude as diversas espcies de estratificao social que existem e que existiram e as relaes dessas espcies com a diviso do trabalho e as relaes de propriedade. Tambm a formao dos Estados ligados formao de classes estaria na base da explorao em geral, com uma dinmica que criaria e daria suporte s desigualdades e explorao.

    Desde que a hierarquia de gnero emerge com a formao de classe e do estado, pode-se perguntar: se a biologia no destino, ento por que so as mulheres e no os homens que se tomaram subordinadas?

    Na formao do Estado, tanto as mulheres da elite quanto as das classes produtoras tiveram sua autoridade diminuda. Na medida em que o estado vai se formando e a distncia entre as classes da elite e as classes produtoras vai aumentando, torna-se cada vez mais necessrio que os grupos de parentesco das sociedades iniciais deixem de ser autnomos, pois necessitam providenciar produtos e servios para o suporte da elite no produtiva. A reproduo nesse sentido geral de continuidade se torna cada vez mais politizada. Nessa espcie de crise da reproduo social que est a origem da hierarguia de gnero (GAILEY, 1987).

    A reproduo das relaes de classe envolve a replicao da fora de trabalho existente, reposio atravs da conguista de povos vizinhos, ou a combinao de ambos os mtodos. As religies sustentadas pelo Estado, os militares e outras instituies no baseadas no parentesco, atuavam de diferentes modos para promover a reproduo das relaes hierrquicas atravs de noes de obedincia, aceitao, controle da sexualidade e linhas de parentesco sancionadas pelo prprio estado.

  • 0 controle sobre o trabalho e, atravs do trabalho, dos produtos, o principal item poltico na formao do Estado. A existncia de uma esfera de tributao da produo destinada para as autoridades civis e a continuao parcial da produo atravs das linhas de parentesco inicia a fragmentao da diviso do trabalho pelos integrantes dos grupos de parentesco. A diviso entre as esferas pblica/civil e parentesco/domstica tambm abala a unidade da identidade social por parentesco. A nova diviso do trabalho baseada na classe leva as pessoas para a fora de trabalho de acordo com as categorias de gnero e idade, mas estes aspectos esto separados da influncia integradora dos papis de parentesco. Em outras palavras, de acordo com Gailey (1987), pelo menos na esfera civil, as pessoas podem ter identidades abstratas: um homem adulto, uma mulher adulta. A esfera civil cria a situao na qual as pessoas podem ser consideradas somente em termos de seu sexo, independentemente de seus papis familiares (pai, me, filho, filha).

    Quando os grupos so definidos de acordo com uma ou duas caractersticas, aparece o estgio do estabelecimento do reducionismo biolgico. Os constituintes de um grupo particular de trabalho (camponeses e camponesas, cativos e cativas de guerra ou membros de uma comunidade conquistada) tendem a ser definidos em termos fsicos. Relaes de trabalho exploradoras, para a produo de bens e servios para dar suporte a uma classe no produtiva, sem o consentimento dos produtores, do lugar ao surgimento de esteretipos de classe, sexo e raa.

    Esses esteretipos variam dentro de cada sociedade estatal, mas cada uma cria uma ideologia justificando as desigualdades de classe, sexo e raa com base em diferenas inatas.

    A razo pela qual as mulheres recebem extrema sujeio ideolgica est relacionada com a abstrao na diviso civil do trabalho e a supresso da autonomia dos grupos de parentesco na reproduo. As mulheres no apenas so capazes de trabalhar, mas tambm de produzir outros(as) trabalhadores(as). Como tal, as pertencentes classe trabalhadora se tornam o foco principal do controle estatal.

    Quanto s mulheres da elite, elas tinham para seu reconhecimento somente sua capacidade biolgica de reproduo, j que eram to improdutivas quanto os homens de sua classe. Assim, sua sexualidade e alianas maritais eram ainda mais supervisionadas que as da classe trabalhadora. Fertilidade fora de lugar poderia causar tumulto

  • poltico. No entanto, as mulheres da elite mantinham bastante poder e autoridade social. Essa fase na formao do Estado frequentemente confundida pelos pesquisadores como o matriarcado. As mulheres da classe dominante tinham considervel poder poltico, mas nunca es- tavam sozinhas no poder.

    Com a transposio das relaes de parentesco para a esfera domstica, o poder poltico das mulheres dentro da elite declina e com o tempo as mulheres em geral so vistas abstratamente de uma maneira que as relaciona com a reproduo biolgica, afastada da cultura e basicamente ligada natureza.

    O Gnero na psicologia

    Na psicologia, as tentativas de olhar mais detidamente as mulheres e os homens tm sido mais frequentemente associadas com as diferenas sexuais (DEX & KITE, 1987). So discutidas se essas diferenas so biolgicas ou fruto de prticas de socializao, mas quase sempre enfocadas no indivduo como sendo a fonte das mesmas.

    Isso um problema sob os mais diversos aspectos, entre eles o da generalizao dos resultados de pesquisas, por exemplo. Ainda nessa perspectiva, vemos inmeros estudos que buscam diferenas em caractersticas de personalidade e comportamentos sociais; atitudes emocionais; comportamentos agressivos; comportamentos de ajuda; comunicao no verbal; influncia social. Mais especificamente no que diz respeito s mulheres, saltam luz conceitos tais como o medo ao sucesso ou uma nfase na moralidade do apego e questes ligadas responsabilidade.

    Uma variante na vertente das diferenas tem sido uma tentativa de definir as dimenses psicolgicas da masculinidade e da feminilidade. So buscadas a verificao das diferenas entre homens e mulheres, mas, acima de tudo, se elas realmente existem e quais seriam os seus determinantes.

    Durante muitas dcadas as escalas de masculinidade e feminilidade (M e F) refletiam e promoviam um certo nmero de acepes sobre sua natureza. As respostas normativas eram consideradas como um sinal de sade psicolgica. Assim, os desvios dos escores da mdia eram vistos no simplesmente como um dado estatstico, mas

  • como um diagnstico psicolgico vlido. Em particular, a homossexualidade e os problemas familiares eram vistos como sendo ligados aos desvios dos escores de masculinidade e feminilidade.

    As crticas s escalas que se baseavam na crena que masculinidade e feminilidade eram um contnuum com a mxima masculinidade num extremo e a mxima feminilidade no outro serviram para o desenvolvimento de outras escalas que consideravam esses dois conceitos como dimenses independentes. A escala mais conhecida nesse sentido o Bem Sex Role Inventory (BEM, 1974). Da saiu tambm o conceito de androginia (A), onde as pessoas apresentariam M e F aproximadamente equivalentes. As pessoas andrginas seriam consideradas como tendo vantagens sobre as pessoas masculinas ou femininas, principalmente no que dizia respeito sade mental. Outros estudos questionaram essas crenas de predizer comportamentos ou sade mental a partir de tipos de M, F ou A. Spence (1984), um dos estudiosos do tema e elaborador de escalas desse tipo, afirma que importante distinguir entre os conceitos tericos de M e F e toda a gama de comportamentos de gnero que apresentam uma multiplicidade de determinaes sociais e culturais com pouca relao direta a conceitos tericos mais globais.

    Todas essas crenas, tanto as baseadas em diferenas biolgicas, como as baseadas em diferenas psicolgicas de homens e mulheres, so causadoras de grandes vieses nos estudos cientficos de gnero. As diferenas encontradas entre ambos os sexos, alm de no serem to grandes quanto se possa pensar, podendo ser mais aparentes do que reais, dependem muito do contexto e de situaes bastante concretas. Felizmente essa descoberta j est presente nos trabalhos de muitos pesquisadores e pesquisadoras na psicologia.

    Apesar disso, como bem salientam Dex & Kite (1987), ainda existem muitas crenas sobre diferenas de gnero que persistem, tanto no senso comum como no campo cientfico, o que leva manuteno de esteretipos no senso comum e distores nos estudos ditos cientficos. Nessas crenas sobre gnero aparecem e se entrelaam elementos descritivos (como so as diferenas) e prescritivos (como deveriam ser as diferenas).

    Assim, vemos que os homens so considerados como sendo mais instrumentais (que agem, competem, buscam realizao profissional)

  • que as mulheres, enquanto elas seriam mais expressivas (so mais afetivas, buscam aproximao) que eles. importante notar que os traos considerados masculinos costumam ser avaliados mais positivamente na sociedade que os traos considerados femininos, e as razes disso nem sempre so buscadas ou consideradas pelas pesquisas realizadas.

    De todos os modos, as pesquisas transculturais revelam que, de uma maneira geral, os homens so vistos como mais ativos, com mais necessidade de realizao, de domnio, de autonomia, sendo tambm mais agressivos. J as mulheres seriam vistas como mais fracas, menos ativas, mais preocupadas com suas necessidades afiliativas e de afeto. Os pesquisadores e pesquisadoras admitem que necessrio cautela na generalizao desses resultados, j que existe uma grande variabilidade, lado a lado com semelhanas atravs das culturas.

    Atualmente, o gnero, na psicologia social histrico-crtica, visto como uma construo histrica, social e cultural. Assim, o estudo das diferenas de qualquer tipo entre homens e mulheres (ou das semelhanas), inclusive as psicolgicas, deveria ser evocado sob esse prisma. Alm disso, mais importante que diferenas ou semelhanas, o reparto de poder entre ambos os sexos que permite que uns dominem outros, que uns tenham maior possibilidades de realizaes que outros. A Psicologia tem que estar atenta a este tipo de questes que aceitam e incentivam a multiplicidade e a plenitude dos indivduos e coletivos, independentemente do sexo.

    Leituras complementares

    No Brasil, diversas autoras tm escrito sobre gnero e menos autores tm feito o mesmo, embora sejam cada vez mais numerosos. Especificamente dentro da Psicologia Social histrico-crtica, indicamos os textos da seo 4 (Psicologia e relaes de gnero) do livro da Abrapso - regio sul - publicado em 1997, Psicologia e prticas sociais. Outras obras tambm so interessantes e atuais, principalmente os livros coletivos que renem as ideias de diversas pessoas, tanto da psicologia como de outras reas. Nesse caso se encontram os livros uma mulher..., organizado por Reolina Cardoso e publicado pela Vozes, com autoras psiclogas e o organizado por Marlene Neves Strey,

  • Mulher - Estudos de Gnero, reunindo artigos de autoras de diversas reas das cincias sociais e polticas, publicado pela Unisinos. Outro livro cuja leitura recomendada o publicado pela Artes Mdicas, de Porto Alegre, e integrado por profissionais da rea da sade, Gnero e sade. Ainda de autoras gachas, est o livro de Helena Scarparo, gue trata sobre mulheres da classe popular, intitulado Cidads brasileiras, editado pela Revan. A respeito dos homens, o livro organizado por Da- rio Caldas uma das contribuies sobre a discusso do gnero masculino. O livro intitula-se Homens - Comportamento, sexualidade, mudana e editado pela Editora Senac de S. Paulo. Uma publicao recente sobre o tema a obra Gnero, sexualidade e educao de Garcia Lopes Louro, editado pela Vozes, 1977.

    Bibliografia

    DEX, K. & KITE, M.E. Thinking about gender. In: HESS, B.B. & FERREE, M.M. (orgs.). Analyzinggender: a handbook of social Science research. New- bury Park: Sage, 1987.

    FIRESTONE, S. A dialtica do sexo: um estudo da revoluo feminista. Rio de Janeiro: Labor do Brasil, 1976.

    GAILEY, C.W. Evolucionary perspectives on gender hierarchy. In: HESS, B.B. & FERREE, M.M. (eds.). Analyzing gender: a handbook of social Science research. Newbury Park: Sage, 1987.

    GODELIER, M. The origins of male domination. New Let Review, 127, p. 3-19, 1981.

    LANE, S.T.M. Linguagem, pensamento e representaes sociais. In: LANE, S.T.M. & CODO, W. (orgs.). Psicologia social: O homem em movimento. So Paulo: Brasiliense, 1995.

    LERNER, G. La creacin dei patriarcado. Barcelona: Crtica, 1990.

    LIEBOWITZ, L. In the begining... The origins of the sexual division of labour and the development of the first human societies. In: COONTZ, S. & HENDERSON, P. (eds.). Womens work, mens property. Thetford: Verso,1986.

    MILES, R. A histria do mundo pela mulher. Rio de Janeiro: LTC, 1989.

    OAKLEY, A. Sex, genderand society. Nova York: Harper & Row, 1972.

  • ORTNER, S. Genderandsexualityinhierarchicalsocieties. In: ORTNER, S. & WHITEHEAD, H. (eds.) Sexual meanings. Nova York: Cambridge University Press, 1981.

    PR, J.R. O feminismo como teoria e prtica poltica. In: STREY, M.N. (org.). Mulher: estudos de gnero. So Leopoldo: Unisinos, 1997.

    SCOTT, J. Gnero, uma categoria til de anlise histrica. Educao e Realidade, vol. 20, n. 2, jul.-dez., 1995.

    WILSON, E.O. Da natuieza humana. So Paulo: Queiroz, 1981.

  • O PROCESSO GRUPAL

    Srgio Antnio Carlos

    Todos ns temos alguma experincia de participao grupai. Para uns mais intensa que para outros, mas de qualquer forma muito importante para a estruturao de nossas convices e para o desenvolvimento de nossas capacidades. Estas vivncias grupais, no nosso cotidiano, nos deixam marcas mais ou menos profundas dependendo da forma como se d a nossa insero e as relaes que a se desenvolvem.

    Parte-se do princpio de que estamos constantemente nos relacionando com outras pessoas, com os mais diversos objetivos. Relaes mais intensas e duradouras, ou menos intensas e passageiras. Todas nos marcam, de uma forma gratificante e/ou traumtica. com toda esta carga das experincias anteriormente vividas que nos jogamos em novas experincias de relacionamentos grupais.

    A nossa insero grupai pode ser realizada de uma forma consciente ou no. Temos conscincia de que participamos de alguns grupos, comumente aqueles que aderimos por uma opo pessoal. A participao nos demais feita, geralmente, de maneira rotineira e sem nos darmos conta. Muitas vezes somos carregados pelo grupo.

    At aqui estvamos nos referindo aos chamados grupos espontneos ou naturais". Claro que precisamos tambm considerar os grupos organizados com finalidades especficas. Organizados e coordenados pelos prprios participantes, ou por profissionais das mais variadas formaes. Podemos pensar em todo o leque dos grupos de annimos (AAs, NAs, DQAs, AL-ANONs, ALATEENs, CCAs), em grupos ligados s Igrejas, em grupos que atuam nas comunidades, nos partidos polticos, nos sindicatos, nas escolas, nas fbricas, nas praas. So formas de organizao da sociedade que refletem e participam dos embates que acontecem no seu seio. Grupos que tanto podem estar a servio da transformao social quanto da sua manuteno.

  • Estamos, portanto, rodeados de grupos e participando ou negando participar deles em todos os momentos de nossa vida.

    A preocupao com o grupo

    Historicamente, sabe-se que o vocbulo groppo ou grupo" surgiu no sculo XVII. Referia-se ao ato de retratar, artisticamente, um conjunto de pessoas. Regina Duarte Benevides de Barros (1994) diz que foi somente no sculo XVIII que o termo passou a significar "reunio de pessoas". A mesma autora afirma que o termo pode estar ligado tanto a ideia de "lao, coeso" quanto a de "crculo" (p. 83). Tanto a sociologia quanto a psicologia tm demonstrado interesse no estudo dos pequenos grupos sociais, pensando o grupo" como uma intermediao entre o indivduo e a massa.

    Os estudos dos pequenos grupos sociais, embora sejam realizados por vrias reas de conhecimentos humano-sociais, so em geral associados com a sociologia e a psicologia. Na psicologia, o estudo sistemtico dos pequenos grupos sociais, buscando compreender a dinmica dos mesmos, tem incio na dcada de 1930 e 1940, com Moreno e com Kurt Lewin. Moreno inicia com o teatro da espontaneidade que vai levar ao psicodrama. Na rea de pesquisa cria a sociometria para o estudo de relaes de aproximao e afastamento entre as redes de preferncia e rejeio, tanto nos grupos quanto na comunidade como um todo. Lewin cria o termo dinmica de grupo", que foi utilizado pela primeira vez em 1944. No podemos esquecer que a preocupao com grupos, tanto de Moreno quanto de Lewin, aparece em seguida s inovaes tayloristas e fordistas que levam elevao dos lucros, mas tambm deteriorao das relaes tanto dos operrios entre si quanto em relao a chefias e patres (apud BARROS, 1994).

    H uma tradio, no estudo e na interveno com pequenos grupos, que est ligada ao trabalho junto a escolas e a fbricas, que privilegia o treinamento em busca da produtividade. Os especialistas em grupos se atm aplicao de tcnicas grupais que desenvolvem a cooperao entre os participantes e no levam o grupo a se autocriti- car e buscar o seu caminho para o funcionamento, pois uma das possibilidades no se constituir enquanto grupo. Neste caso, a constituio do grupo est a servio da instituio e utilizada como um dos instrumentos de controle que a mesma exerce sobre o indivduo.

  • Grupo ou processo grupai

    Em geral, os autores, ao se referirem ao conceito de grupo, partem da descrio do mesmo fenmeno social: a reunio de duas ou mais pessoas com um objetivo comum de ao. O que difere a leitura que os mesmos fazem do processo de constituio do grupo e do entendimento da finalidade do mesmo.

    Lewin (1973, p. 54) afirma que "a essncia de um grupo no reside na similitude ou dissimiiitude de seus membros, seno em sua interdependncia. Um grupo pode ser caractenzado como um todo dinmico': isto significa que uma mudana no estado de uma das partes modifica o estado de qualquer outra parte. O grau de interdependncia das partes ou membros do grupo vana, em todos os casos, entre uma massa sem coeso alguma e uma unidade composta". Lewin centra a sua definio na interdependncia dos membros do grupo, onde qualquer alterao individual afeta o coletivo. Demonstra uma preocupao em buscar a essncia do grupo, o que traz junto uma imagem de o grupo como um ser que transcende as pessoas que o compem. H uma viso de um grupo ideal: aquele marcado por uma grande coeso.

    Olmsted um outro autor que trata o tema, define um grupo como uma pluralidade de indivduos que esto em contato uns com os outros, que se consideram mutuamente e que esto conscientes de que tm algo significativamente importante em comum (1979, p. 12). Esta definio traz consigo a ideia da considerao mtua, sem a preocupao da homogeneidade. Aponta para a diversidade dos participantes e para o sentimento de compartilhar algo significante para cada um deles.

    Nas afirmaes acima encontramos pontos que ainda hoje so importantes para o estudo dos pequenos grupos sociais. Um deles o contato entre as pessoas e a busca de um objetivo comum, a interdependncia entre seus membros, a coeso ou esprito de grupo que varia em um contnuo que vai da disperso at unidade.

    Podemos dizer que, de acordo com o referencial de homem e de mundo que os cientistas sociais assumem, vai variar o entendimento e a explicao que os mesmos vo dar em relao ao grupo e aos processos grupais.

    Os estudos sobre os pequenos grupos dentro da perspectiva lewi- niana trazem implcitos, conforme Lane (1986), valores que visam reproduzir os de individualismo, de harmonia e de manuteno. A mes

  • ma autora enfatiza que a funo do grupo definir papis, o que leva a definio da identidade social dos indivduos e a garantir a sua repro- dutividade social.

    Existe um modelo ideal de grupo? Na tradio lewiniana temos um ideal de grupo coeso, estruturado, acabado. Passa a ideia de um processo linear. Neste modelo no h lugar para o conflito. Estes conflitos so vistos como algo ameaador e que deve ser resolvido tentando-se chegar a um consenso. A questo do grupo vista como um modelo de relaes horizontais, equilibradas, equitativas, ou seja, um lugar onde as pessoas se amam, se respeitam e cooperam umas com as outras. Algo que pode e deve ser buscado e atingido, como um modelo ideal de funcionamento social. Algo semelhante ao que Lwy (1979) denomina de anticapitalismo romntico.

    O grupo tambm pode ser visto como um lugar onde as pessoas mostram suas diferenas. Onde as relaes de poder esto presentes e perpassam as decises cotidianas, onde o conflito inerente ao processo de relaes que se estabelece. Onde h uma convivncia do diferente, do plural. No como um movimento de defesa das minorias, mas num movimento de cada um e de todos procurando discutir suas ideias com o(s) outro(s). Num confronto de ideias, buscando conciliar apenas o concilivel, deixando claro as individualidades, o diferente. A importncia de afirmar que as pessoas so diferentes, pensam de maneira diferente porque possuem valores diferentes, mas que podem produzir juntas o seu processo grupai. Este um embate dirio das relaes pessoais que trazem consigo toda uma histria de vida. Relaes onde estaro presentes as mltiplas determinaes de cada sujeito. Determinaes de classe social, de gnero, de raa e de nacionalidade. Relaes que embater-se-o tanto na busca consciente de uma dominao quanto de defesas inconscientes utilizadas para lutar e/ou fugir das ameaas que as novas situaes - desconhecidas - lhes colocam. Conflitos que podem gerar, conforme Bion (1975), situaes de funcionamento na base de ataque ao desconhecido ou da espera de um messias que venha trazer a salvao ao grupo.

    O grupo precisa ser visto como um campo onde os trabalhadores sociais que se aventuram devem ter claro que o homem sempre um homem alienado e o grupo uma possibilidade de libertao (LANE, 1986). Mas tambm pode ser uma maneira de fix-lo na sua posio de alienado. O grupo no a garantia do engajamento. Neste caso, as relaes que a se estabelecem podem ser meramente de reproduo

  • das relaes de dominao e de alienao da sociedade capitalista que nos rodeia. Podem, em contrapartida, ser um momento em que o grupo se pense, explicite as situaes que entravam o seu funcionamento; onde as pessoas pensam, elaboram, enfim, trabalham as suas relaes e conseguem estabelecer uma experincia nica, refletida e que faz os seus participantes se sentirem sujeitos.

    Para esta possibilidade um autor latino-americano que contribuiu muito foi Enrique Pichon-Rivire (1982). A partir do questionamento da psiquiatria e dos grupos em hospitais psiquitricos, cria a tcnica dos grupos operativos. Um dos conceitos fundamentais o de Ecro - Esquema Conceituai Referencial e Operativo. Pichon afirma que cada um de ns possui um Ecro individual. Ele constitudo pelos nossos valores, nossas crenas, nossos medos e nossas fantasias. Quando nos encontramos para trabalhar com outras pessoas trazemos o nosso Ecro e com ele dialogamos com os outros, ou melhor, com os Ecros dos outros. Como nem sempre explicitamos os nossos Ecros o nosso dilogo pode ser dificultado. Quando se est trabalhando em grupos, a realizao da tarefa estabelecida pode ser dificultada pelas diferenas de Ecros que esto em jogo. O autor fala na construo de um Ecro grupai. Este Ecro seria um esquema comum para as pessoas que participam de um determinado grupo - sabendo o que pensam em conjunto - poderem partir para agir tambm coletivamente a partir do aclara- mento das posies individuais e da construo coletiva que favorece a tarefa grupai.

    Como funciona" o processo grupai

    Quando pensamos em processo grupai no estamos nos referindo ao grupo como uma entidade acabada. Estamos pensando o grupo como um projeto, como um eterno vir-a-ser. Pensando como Sartre e Lapassade (1982) este processo dialtico. E constitudo pela eterna tenso entre a serialidade e a totalidade. H uma ameaa constante da dissoluo do grupo e a volta serialidade, onde cada integrante assume e afirma a sua individualidade sendo mais um na presena dos demais. Ao mesmo tempo h uma busca constante da totalidade, onde cada um dos integrantes participa com os demais, introjeta-os e d sentido relao estabelecida. Cada integrante se afirma e assume a totalidade do grupo.

  • Partindo da ideia de processo e da construo coletiva do projeto, no podemos pensar em um treinamento" de grupo, no sentido de aplicao de uma srie de exerccios que possam ajudar as pessoas a atingir um ideal de grupo pertencente ou criado pelo profissio- nal-treinador". As chamadas dinmicas de grupo nada mais so do que tcnicas de submisso do grupo ao profissional e instituio/organizao.

    A constituio do grupo em processo pode requerer a presena de um profissional - tcnico em processo grupai. O trabalho do mesmo ser auxiliar a que as pessoas envolvidas na experincia pensem o processo que esto vivenciando. O se pensar no cada um individualmente, mas cada um participando de um mesmo barco que busca estabelecer uma rota. Talvez o porto no seja seguro, porque no existe um destino final. Quando isto acontece o processo acaba e o grupo se dissolve. Enquanto o grupo persiste um constante navegar. Um constante questionar a rota. Um aprender a conviver com a insegurana e com a incerteza. Talvez, uma mudana de rota devido a avaliao do trajeto j percorrido e do que falta. Enfim, h uma preocupao em centrar na tarefa e tornar explcitas as questes implcitas que esto dificultando a realizao da tarefa pretendida, ou que a esto facilitando. Esta uma maneira de o grupo se tornar sujeito do seu prprio processo. Os integrantes da experincia tero condies de tomar decises de forma mais lcida e, portanto, podendo avaliar os benefcios e os riscos das futuras aes que pretendem desenvolver.

    guisa de fechamento

    No decorrer deste texto deixamos clara a nossa preocupao na compreenso dos pequenos grupos sociais. Compreenso, no sentido de comentar acerca deles, pois como Peralta (1996) no acreditamos que o movimento grupai possa ser lido - no sentido de uma certeza. Tendo claro que este comentrio est impregnado dos valores e posies teri- co-metodolgicas de cada um dos comentaristas. Portanto, no existem verdades absolutas, mas apenas hipteses que devem ser colocadas para o grupo. O prprio grupo poder trabalhar confrontando o nosso comentrio com os comentrios produzidos pelos seus integrantes. Da resultaro situaes de manuteno de relaes j estabelecidas ou a mudana das mesmas, numa deciso muito mais dos participantes do que do profissional que compreende, mas no vive o processo.

  • De acordo com a compreenso que temos do processo grupai que vamos buscar uma maneira de interveno profissional. o referencial que utilizamos para o entendimento que nos dar sustentao para a escolha de tcnicas adequadas para a interveno grupai. Interveno que pretendemos seja numa perspectiva transformadora onde as pessoas que participam de um processo grupai sejam vistas como sujeitos que em conjunto podem decidir o seu destino tendo claras as possibilidades e os limites.

    Sugesto de leituras

    Para aprofundar as questes sobre grupo e processo grupai fundamental a leitura do texto O processe grupai, de Silvia Lane. Nele a autora d uma viso dos principais autores que abordam o estudo dos pequenos grupos sociais. Faz uma anlise crtica destas abordagens do ponto de vista do materialismo histrico. Deve ser considerado como um roteiro para aprofundar a questo.

    O texto de Henrique Pichon-Rivire O processo grupai um clssico latino-americano para o estudo e a interveno de pequenos grupos. Nele so encontrados os fundamentos e o detalhamento do que o autor denomina de grupo operativo. Na mesma linha, porm com uma linguagem mais simplificada, indico a coletnea de textos de Madalena Freire Weffort, Juliana Davini, Ftima Camargo e Mirian Celeste Martins Grupo - indivduo, saber e parceria : malhas do conhecimento. resultado de um seminrio coordenado pelas autoras.

    Quem desejar se aprofundar dentro de um referencial psicanalti- co necessrio buscar a base em Sigmund Freud, principalmente no texto Psicologia das m assas e anlise do eu. A partir da Psicologia das multides, de Gustavo Le Bon o autor aborda o contgio e o efeito hipntico que acontece nas massas e desenvolve conceitos de relaes li- bidinais, tanto dentre os integrantes entre si quanto destes com o seu "chefe. muito interessante a anlise que realiza do Exrcito e da Igreja, mostrando as relaes hierarquizadas.

    Bibliografia

    BARROS, Regina Duarte Benevides de. Grupo: a afirmao de um simulacro. So Paulo, 1994. Tese de Doutorado em Psicologia Clnica. PUC-SP.

  • BION, W.R. Experincias com grupos. 2. ed. So Paulo: Edusp, 1975.

    BOUDON, Raymund & BOURRICAUD, Franois. Dicionrio critico de socio- logia. So Paulo: tica, 1993.

    FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e anlise do eu. In: FREUD, Sig- mund. Obras Completas. Rio de Janeiro: Delta, s/d. Vol. IX, p. 4-105.

    LANE, Silvia. Processo grupai. In: LANE, Silvia et al. Psicologia Social: o homem em movimento. So Paulo: Brasiliense, 1986, p. 78-98.

    LAPASSADE, George. Dialtica dos grupos, das organizaes, das Instituies. In: ID. Grupos, organizaes einstituies. 2 aed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982, p. 237-263.

    LEWIN, Kurt. Problemas de dinmica de grupo. 2. ed. So Paulo: Cultrix, 1973.

    LOWY, Michael. Para uma sociologia dos intelectuais revolucionrios. So Paulo: Lech Livraria Editora Cincias Humanas, 1979.

    OLMSTED, Michael S. O pequeno grupo social. So Paulo: Herder, 1970.

    PERALTA, Juan. Grupos. Mxico, Maestna en Psicologia Social de Grupos e Instituciones. http://cueyalt.uam.mx/~mpsi/textos/grupal.html, 16 de novembro de 1996. 9f.

    PICHON-RIVIRE, Hennque. O processo grupai. So Paulo: Martins Fontes, 1982.

    WEFFORT, Madalena Freire. O que um grupo? In: WEFFORT, Madalena Freire; DAVINI, Juliana; CAMARGO, Ftima; MARTINS, Mirian Celeste. Grupo - indivduo, saber e parceria: malhas do conhecimento. So Paulo: Espao Pedaggico, 1994.

    WILSON, Gertrude & RYLAND, Gladys. Prtica do servio social de grupo: uso criador do servio social. Rio de Janeiro: Servio Social do Comrcio, 1961.

  • PSICOLOGIA POLTICA

    Louise A. Lhullier

    Para comeo de conversa precisamos definir do que estaremos tratando, ou seja, o que psicologia, o que poltica e o que psicologia poltica. Essas definies so necessrias para que se estabelea uma base comum para a nossa comunicao (autora/leitores), mas importante que se diga que no h consenso sobre elas.

    Desde o incio do curso de Psicologia, os estudantes tomam contato com a discusso sobre o objeto de estudo dessa disciplina. Vocs j devem ter percebido, ento, que diferentes escolas de pensamento definem o objeto da psicologia de acordo com a perspectiva terica que lhes prpria. Assim, uma escola diz que ela estuda o comportamento humano, outra que estuda a mente humana, e assim por diante.

    Neste texto adotaremos a perspectiva da psicologia social crtica, na tradio de pensamento representada no Brasil pela Associao Brasileira de Psicologia Social - Abrapso. Nessa abordagem, a psicologia pode ser definida como a disciplina que estuda o sujeito em sua relao com o mundo. Nessa relao com o mundo esse sujeito se constitui, ao mesmo tempo, como produto e como produtor da sua histria e da histria da sociedade em que vive.

    H trs palavras-chave nessa definio: sujeito, relao e mundo. O sujeito sempre sujeito da ao - seja ele indivduo ou grupo, "eu ou "ns. Ele s existe porque age, na sua relao com o mundo. Essa relao o foco da anlise, pois a que o sujeito se constitui, a que ele existe enquanto tal e a, portanto, que a psicologia pode encontr-lo como objeto de conhecimento. Por outro lado, atravs dessa relao que ele vai construir a realidade, o mundo. Trata-se aqui tanto da realidade/mundo para si, ou seja, como existe para o sujeito, quanto da realidade/mundo em si, porque os efeitos da ao humana transcendem as existncias particulares. Em outras palavras, o efeito transformador da ao dos sujeitos vai alm dos limites da existn

  • cia do indivduo, do grupo, tanto em termos de tempo quanto de espao. Ao agir no mundo imprimimos marcas, desencadeamos movimentos cujos mltiplos efeitos frequentemente no conseguimos antever.

    Quanto definio de poltica, a diversidade de perspectivas tambm muito grande. Bobbio (1992), em seu Dicionrio de Poltica, nos mostra como historicamente o conceito de poltica esteve "estreitamente ligado ao de poder, mais especificamente ao de poder poltico. Ele distingue poder poltico de outras formas de poder (poder econmico e poder ideolgico) como pertencente

    categoria do poder do homem sobre outro homem, no do poder do homem sobre a natureza. Esta relao de poder expressa de mil maneiras, onde se reconhecem frmulas tpicas da linguagem poltica: como relao entre governantes e governados, entre soberano e sditos, entre Estado e cidados, entre autoridade e obedincia etc. (p. 955).

    Neste texto, definiremos poltica de uma forma muito ampla e simples, comeando por situ-la como atividade humana que se d na esfera das disputas pelo poder entre grupos organizados. Essa atividade humana entendida conforme a concepo de Lane (1986):

    a atividade implica aes encadeadas, junto com outros indivduos, para a satisfao de uma necessidade comum. Para haver este enca- deamento necessria a comunicao (linguagem) assim como um plano de ao (pensamento), que por sua vez decorre de atividades anteriormente desenvolvidas (p. 16).

    Essas "aes encadeadas, junto com outros indivduos, para a satisfao de uma necessidade comum", no caso da poltica, renem, de um lado, aqueles que buscam transformar uma determinada relao de poder poltico - seja no plano macrossocial, seja no microssocial - e, de outro, os que buscam mant-la.

    Um primeiro aspecto fundamental nessa perspectiva que reconhece que todo fazer humano necessariamente comprometido com valores. Sendo a cincia um fazer humano no existe possibilidade de que seja neutra ou isenta de valores. Na mesma linha de raciocnio, considera essencial explicitar os compromissos do fazer cientfico, no campo dos valores, da ideologia, em seus determinantes sociais e histricos. Da mesma forma, no concebe estudar a ao humana - e sobretudo a atividade poltica - desvinculada das suas determinaes scio-histricas. A denio de Sabucedo (1996) revela, embora de maneira no explicitada, esse compromisso:

  • a psicologia poltica consiste no estudo das crenas, representaes ou senso comum que os cidados tm sobre a poltica e os comportamentos destes que, por ao ou omisso, incidam sobre ou contribuam para a manuteno ou mudana de uma determinada ordem socio- politica (p. 22).

    Seria impossvel estudar as aes ou omisses que contribuem para a mudana ou manuteno de uma determinada ordem sociopo- litica sem analisar esta ltima e as relaes entre ela e as aes/omisses dos sujeitos. Portanto, a definio de Sabucedo contempla as dimenses que j destacamos: poltica como atividade humana que se d na esfera das disputas pelo poder entre grupos organizados. Atividade humana como "aes encadeadas, junto com outros indivduos", voltada ou para a transformao de uma determinada relao de poder poltico, ou para a sua manuteno. No entanto, como impossvel a neutralidade na ao dos sujeitos a omisso tambm objeto de estudo da psicologia poltica. Esta trata tambm, portanto, do apoliticismo, da ausncia de participao poltica ou da negao da poltica, j que esses posicionamentos contribuem para a manuteno ou transformao da ordem sociopoltica, independentemente das intenes dos sujeitos que os adotam.

    interessante, ainda, esclarecer que o fato da atividade poltica se dar na esfera das disputas pelo poder entre grupos organizados" ou de se constituir de aes encadeadas, junto com outros indivduos", no significa necessariamente que, para se considerar o comportamento de uma determinada pessoa como poltico, esta deva estar inserida num grupo organizado ou estar articulada politicamente com outras. Significa, isso sim, que o seu comportamento tem a inteno de contribuir ou contribui de alguma forma para a manuteno ou para a transformao de uma determinada relao de poder poltico, ou ordem sociopoltica.

    Finalmente, bom lembrar que os estudos que originaram a psicologia poltica frequentemente ultrapassaram as fronteiras das disciplinas formalmente constitudas - Psicologia, Sociologia, Cincia Poltica etc. em busca de uma melhor compreenso dos fenmenos estudados. Ela se constituiu, ento, a partir da contribuio de pesquisadores e estudiosos de diversas reas do conhecimento. Pode-se afirmar, portanto, que uma disciplina de tradio multidisciplinar. Por outro lado, a complexidade dos problemas de que se ocupa e a multiplicidade de reas de conhecimento de origem dos profissionais que construram a psicologia poltica fizeram com que grande parte da sua

  • construo se desse no teneno da interdisciplinaridade. Isso significa gue boa parte do conhecimento nessa rea situa-se numa rea compartilhada com outras disciplinas - especialmente com a Sociologia e a Cincia Poltica constituindo uma regio de fronteira" parte das disciplinas-mes, um territrio gue de todos e no de ningum em particular.

    Este o caso, por exemplo, dos estudos sobre comportamento poltico, gue tratam de temas tais como comportamento eleitoral e movimentos sociais, entre outros. Tanto isso verdade gue a Associao Nacional de Pesguisa em Comportamento Poltico -Anapol criada em junho de 1996 por pesquisadores de diversas das mais importantes universidades brasileiras, presidida por uma psicloga, mas compem sua diretoria e Conselho Deliberativo tanto psiclogos guanto socilogos e cientistas polticos.

    Psicologia poltica ou psicologia da poltica

    Para alguns autores so os problemas estudados pela psicologia poltica gue a definem, j gue ela tem se caracterizado at agora muito mais pelos temas que aborda do que por um referencial terico-me- todolgico prprio. Para outros, no entanto, essa caracterizao como rea temtica insuficiente, porque nos diz do que tem se ocupado a psicologia poltica, mas nada nos revela sobre as suas possibilidades e perspectivas na construo do conhecimento. Alm disso, no distingue entre, de um lado, as abordagens fundamentadas na concepo crtica e, de outro, na perspectiva da neutralidade cientfica.

    Embora primeira vista essa questo possa no parecer muito importante, veremos que ela fundamental. Como nos alerta Sabucedo (1996), ao definirmos essa disciplina estamos apontando diretamente para suas possibilidades e seus limites. Assim, esse autor nos leva a refletir sobre as diferenas entre uma psicologia poltica e uma psicologia da poltica:

    Se falamos de psicologia poltica, nos deparamos com uma disciplina que assume que a psicologia no algo completamente alheio e margem da poltica, que a prpria psicologia contm teorias polticas. Se, em vez disso, nos referimos a uma psicologia da poltica, estamos ante uma abordagem totalmente diferente. Neste ltimo caso, a psicologia e a poltica seriam duas entidades absolutamente diferenciadas. A finalidade dessa disciplina, a psicologia da poltica, consistiria

  • na aplicao do conhecimento psicolgico ao estudo dos fenmenos polticos. Esse conhecimento psicolgico seria gerado a partir de instncias cientficas que se consideram axiologicamente asspticas e neutras (p. 19).

    A psicologia da poltica estaria identificada, portanto, com uma abordagem acrtica de psicologia, que supe a possibilidade da neutralidade cientfica, de um conhecimento psicolgico objetivo e isento de valores. Mais do que isso, essa perspectiva defende uma postura neutra por parte do cientista. O trabalho de Lasswell, considerado o pai da psicologia poltica na histria dessa disciplina escrita pelos autores norte-americanos, um bom exemplo dessa orientao, na medida em que buscou encontrar na psicologia as chaves para a compreenso do comportamento poltico, centrando seus estudos nos processos psicolgicos individuais e grupais. As categorias tericas que privilegiou na investigao das causas do comportamento apontam com clareza nessa direo: personalidade e psicopatologia, motivao, conflito, percepo, cognio, aprendizagem, socializao, gnese das atitudes e dinmica de grupo.

    Um dos grandes problemas na psicologia da poltica que promove uma reduo da poltica psicologia, atravs da psicologizao dos fenmenos polticos e da desconsiderao das condies sociais e histricas em que eles ocorrem.

    Como Sabucedo (1996) nos alerta, essa abordagem "introduz um aspecto de fatalism o e de im potncia quanto possibilidade de mudana social". Por exemplo:

    A aproximao cognitiva ao tema do preconceito ilustra perfeitamente essa dinmica. Desde o momento em que a categorizao colocada como um processo cognitivo normal e responsvel pelos esteretipos, se est afirmando que o prejuzo e as condutas de discriminao so inevitveis [... ] O discurso da autodenominada nova direita, rtulo sob o qual se enquadram velhas ideias fascistas, utiliza esse tipo de abordagem, assinalando que o etnocentrismo uma tendncia humana natural (p. 22-23).

    Essa perspectiva neutra" teria, portanto, conseqncias polticas que derivam diretamente das concluses objetivas" de seus estudos. Isso porque, se elegemos como nvel de anlise o indivduo, ou a psicologia individual, as perguntas que faremos e as respostas que obteremos sero limitadas a essa esfera. Ou, como fica mais claro nas palavras de Kelman (1979):

  • se definimos o problema como um problema psicolgico prprio de um determinado grupo de pessoas, ento o mais provvel desenvolver polticas que incluam estratgias de mudana dessas pessoas e no polticas que modifiquem a estrutura social que possibilita a existncia desses problemas (p. 102).

    Creio que j est razoavelmente claro o que a psicologia da poltica. Consequentemente, avanamos na direo de esclarecer o que no a psicologia poltica. Porm, necessrio lembrar que a distino que fazemos nesse texto e que compartilhamos com outros autores no consensual. H muitos outros - notadamente norte-americanos - que no distinguem entre as abordagens crtica e acrtica, como veremos em seguida, ao analisar um pouco da histria da disciplina.

    Um pouco de histria

    No fcil escrever a histria de uma disciplina. necessrio escolher os personagens e fatos que sero includos ou excludos, o que ter destaque e o que ser mencionado apenas de passagem, que fontes de informao devero prevalecer em caso de divergncias... Enfim, h uma multiplicidade de escolhas a fazer. recomendvel, portanto, que se tenha um critrio para orient-las, assim como clareza quanto s razes que nos levam a adot-lo. No caso deste texto, por exemplo, a distino que fazemos entre psicologia poltica e psicologia da poltica exige que tenhamos uma postura crtica em relao s histrias que no estabelecem tal diferena.

    Nesse sentido, uma discusso interessante e necessria colocada por Sabucedo (1996) quando trata da questo da paternidade da disciplina. Tanto o pioneiro H andbook oPolitical Psychology organizado por Knutson (1973) quanto a International Society o f Political Psychology consideram Lasswell como o pai da psicologia poltica. Ora, como j foi assinalado acima, independentemente de seus reconhecidos mritos, o trabalho de Lasswell centrado na perspectiva individualista e acrtica gue caracteriza a maior parte da produo norte-americana nessa rea. Contudo, na tradio (acrtica) norte-ame- ricana de pensamento psicopoltico, na qual foi escrita a histria oficial da psicologia poltica, compreensvel a atribuio de paternidade a Lasswell. O guestionamento cabe aos que no se identificam com essa tradio de pensamento.

  • As origens da psicologia poltica remontam Grcia Clssica, mas no trataremos aqui desse passado distante. J no Renascimento, entre os pensadores que se ocuparam em analisar as relaes entre os fenmenos psicolgicos e polticos, no podemos ignorar Maquia- vel. Suas ideias influenciaram, nos ltimos sculos, tanto o cotidiano das sociedades ocidentais quanto a ao de diversos governantes e a construo do conhecimento nas cincias humanas. Para ilustrar o alcance de sua influncia, bastaria lembrar que foi ele o autor de uma srie de mximas e reflexes que foram apropriadas pelo senso comum e incorporadas ao nosso cotidiano, como, por exemplo, a popular expresso "os fins justificam os meios (e, para ele, o poder era um fim...). Mas, alm disso, em O prncipe, Maquiavel presenteou seus leitores com diversos ensinamentos sobre como manter o poder poltico. No toa que essa leitura tem servido de referncia a poderosos e aspirantes ao poder, desde ento at os nossos dias. No campo da cincia, recentes trabalhos sobre o maquiavelism o mostram como esse pensador renascentista continua sendo uma rica fonte de inspirao para novos estudos sobre a questo do poder.

    Mais recentemente, nos ltimos cem anos, so muitos os nomes que podemos citar como precursores da psicologia poltica. Vrios deles so familiares aos estudantes de Psicologia porque fazem parte da histria dessa rea do conhecimento, como Le Bon, Freud, Wundt, Fromm e Reich. Outros certamente no lhes so estranhos, como We1 ber, Durkheim e Adorno.1 Considerando, porm, a psicologia poltica em seu sentido estrito, diferenciada da psicologia da poltica, a principal referncia entre esses precursores mais recentes certamente Adorno, atravs de uma grande investigao sobre a personalidade autoritria, publicada em 1950, com seus colegas do Grupo de Berke- ley (Adorno; Frenkel-Brunswick; Levinson; Sanford, 1965)2.

    No entanto, embora a partir da dcada de 1930, atravs de diversos estudos e pesquisas, tenha comeado a se constituir uma base para a sua formalizao, a psicologia poltica somente se instituciona

    1. Muitos outros nomes poderiam e deveriam ser citados e comentados para que se fizesse justia a esses precursores. No possvel faz-lo, no entanto, no espao desse captulo. Aqueles que se interessarem por esse tema precisaro recorrer bibliografia indicada ao final, especialmente a Sabucedo (1996), que tambm servir como fonte de referncia a outros autores.

    2. Esse trabalho se constituiu, na verdade, num conjunto de estudos conduzidos por diferentes pesquisadores, de base terica psicanaltica, que buscou identificar relaes entre personalidade (a personalidade autoritria) e ideologia (fascismo).

  • lizou como uma disciplina independente a partir da dcada de 1970. Entre os anos 1930 e os anos 1970, foram desenvolvidos diversos estudos sobre atitudes sociopolticas, autoritarismo, ideologia e subjetividade, poder e influncia, comunicao de massa, propaganda e comportamento eleitoral, socializao e participao poltica, entre outros, mas no havia, ainda, nem uma identidade que unificasse os pesquisadores, nem o reconhecimento externo de uma totalidade que englobasse esse conjunto de pesquisas.

    Na dcada de 1970 a psicologia poltica adquire identidade, visibilidade social e presena institucional. Entre os diversos acontecimentos que contriburam para isso, Sabucedo (1996) menciona o lanamento do H andbook o f Political Psychology (KNUTSON, 1973), que reunia textos de psiclogos, socilogos e cientistas polticos. Inclua tambm, por sinal, um captulo sobre a histria da disciplina, cujo contedo fortalecia a afirmao de autonomia da psicologia poltica e concedia a Lasswell a sua paternidade. Outras publicaes foram surgindo nos anos seguintes, dando visibilidade e consistncia disciplina. Ao mesmo tempo, foi se estruturando uma associao entre estudiosos e pesquisadores da rea, nos Estados Unidos, que culminou, em 1978, com a criao da International Society o f Political Psychology. Essa entidade, amplamente reconhecida como o principal foro de discusses no mbito da psicologia poltica at os nossos dias, realiza reunies cientficas anuais e publica a revista trimestral Political Psychology.

    Fica evidente, pelo acima exposto, que a histria da psicologia poltica como disciplina autnoma e reconhecida nos crculos acadmicos deve muito aos pesquisadores norte-americanos. Consequentemente, a histria oficial da disciplina se confunde com frequncia com a sua histria nos Estados Unidos. importante ter clareza disso para compreender que uma outra histria vem sendo escrita em outros pases, na Europa e na Amrica Latina. nessa "outra histria" que surge a distino com a psicologia da poltica.

    A psicologia poltica na Amrica Latina e no Brasil: uma breve notcia

    A predominncia de outras tradies de pensamento em pases europeus e latino-americanos produziu, bvio, outras perspectivas, outras abordagens aos problemas psicopolticos. A histria recente

  • desses pases - especialmente o fim de diversas ditaduras e a reconquista de liberdades democrticas - desafiou e estimulou os pesquisadores a se ocuparem de problemas muito diversos daqueles prprios da realidade norte-americana.

    Na Amrica Latina o desenvolvimento da psicologia poltica mais recente, datando da dcada de 1980. claro que tambm aqui tivemos precursores, trabalhos isolados que abordaram as relaes entre psicologia e poltica, mas ainda sem constituir, no seu conjunto, uma disciplina autnoma. Uma caracterstica marcante desse desenvolvimento entre ns, pesquisadores latino-americanos, que ele se deu em resposta a necessidades sociais concretas. Ardila (1996) enumera como principais abordados pelos pesquisadores em nosso contexto:

    movimentos sociais, democracia, modernizao, identidade nacional, participao poltica, comportamento eleitoral, conscincia poltica, conflito, negociao, alienao, dependncia, liderana, tortura, nacionalismo, internacionalismo, autoritarismo, movimentos ecolgicos e ambientalistas, luta de classes, relao do Terceiro Mundo com o Primeiro e o Segundo, meios de comunicao de massa (com a sua influncia sobre decises polticas), participao, papel da mulher e socializao poltica de crianas e adolescentes (p. 339).

    Ardila (1996) destaca Freud e Marx como influncias marcantes no desenvolvimento da psicologia poltica latino-americana, e os nomes de Maritza Montero, da Universidade Central da Venezuela, e de Ignacio Martin-Bar (falecido em 1989) como seus principais autores. Ainda segundo esse autor, Mxico, Chile, Venezuela, Porto Rico, Costa Rica e Colmbia so os pases onde a disciplina se encontra mais desenvolvida, mas o Brasil, Argentina e El Salvador tambm contribuem com trabalhos importantes construo dessa rea de conhecimento.

    No Brasil, a psicologia poltica ainda se encontra em fase de afirmao enguanto disciplina autnoma. Sua presena nos espaos institucionais ainda tmida. Embora nos anais de diversas reunies cientficas da Psicologia - principalmente da Abrapso - possam ser identificados muitos estudos e pesquisas que se inserem nessa rea de conhecimento, a identidade da disciplina e a identificao da maioria dos pesquisadores com a mesma ainda est em construo.

    A consolidao da psicologia poltica entre ns exige um resgate da sua histria no contexto brasileiro e um panorama completo da situao atual. Da mesma forma, necessrio que conquiste uma maior visibilidade acadmica e social atravs da presena nos currculos de gradua

  • o e ps-graduao e, principalmente, que sejam fortalecidos os grupos de pesquisa j existentes e que seja estimulada a criao de novos.

    Para concluir, no poderia deixar de assinalar que h muitos nomes que devero ser mencionados como personagens importantes quando contarmos a (nossa) histria da psicologia poltica no Brasil. Fica assim como convite e desafio a outros pesquisadores que estejam empenhados em resgatar a importncia dessa rea de conhecimento para a construo de uma sociedade mais igualitria.

    Sugesto de leituras

    Para ir um pouco mais adiante na explorao dessa fascinante rea de conhecimento que a Psicologia Poltica sugere-se algumas leituras, abaixo referenciadas. O critrio adotado para escolh-las foi a sua utilidade para um mapeamento do territrio da disciplina, em geral e no Brasil. No seguem, necessariamente, a mesma linha teri- co-metodolgica. Constituem um bom comeo e espero que estimulem a avanar. Boa leitura!

    Em PortugusPENNA, Antnio Gomes. Introduo psicologia poltica. Rio de Janeiro: Imago, 1995.SANDOVAL, Salvador A.M. O comportamento poltico como campo interdisciplinar de conhecimento: a reaproximao da Sociologia e da Psicologia Social. In: CAMINO, Lencio; LHULLIER, Louise & SANDOVAL, Salvador A.M. (org.). Estudos sobre comportamento p o ltico. Florianpolis: Letras Contemporneas, Abrapso, 1997.______ . Algumas reflexes sobre cidadania e formao de conscincia poltica no Brasil. In: SPINK, Mary Jane (org.). Cidadania em construo: uma reflexo transdisciplinar. So Paulo: Cortez, 1994. PONTE DE SOUZA, Fernando. Histrias inacabadas: um ensaio de Psicologia Poltica. Maring: Editora da UEM, 1994.CAMINO, Lencio. Uma abordagem psicossociolgica no estudo do comportamento poltico. Psicologia e Sociedade: 8(1): 16-42; jan./jun., 1996.CAMINO, Lencio; MENANDRO, Paulo R.M. Apresentao geral. In: CAMINO, Lencio; MENANDRO, Paulo R.M. (orgs.). A sociedade na

  • perspectiva da psicologia: questes tericas e metodolgicas. Rio de Janeiro: Associao nacional de Pesquisa e Ps-Graduao em Psicologia - Anpepp, 1996.FREITAS, M.F.Q. Contribuies da psicologia social e psicologia poltica ao desenvolvimento da psicologia social comunitria. Psicologia e Sociedade; 8(l):63-82; jan./jun., 1996.LHULLIER, Louise A. A psicologia poltica e o uso da categoria "Representaes Sociais" na pesquisa do comportamento poltico. In: ZANELLA, Andra; SIQUEIRA, Maria Juracy T.; LHULLIER, Louise A. & MOLON, Suzana (orgs.). Psicologia e prticas sociais. Porto Alegre: Abrapsosul, 1997.GUARESCHI, Pedrinho. Qual a prtica da psicologia social da ABRAPSO? In: ZANELLA, Andra; SIQUEIRA, Maria Juracy T.; LHULLIER, Louise A. & MOLON, Suzana (orgs.). Psicologia eprticas sociais. Porto Alegre: Abrapsosul, 1997.CROCHIK, Jos Leon. A (im)possibilidade da psicologia poltica. In: AZEVEDO, Maria Amlia & MENIN, Maria Suzana De Stefano. Psicologia e poltica: reflexes sobre possibilidades e dificuldades deste encontro. So Paulo: Cortez; Fapesp, 1995.

    Em espanholSABUCEDO CAMESELLE, Jos Manuel. Psicologia poltica. Madri: Editorial Sntesis, 1996.SEOANE, Jlio & RODRGUEZ, ngel. Psicologia poltica. Madri: Edi- ciones Pirmide, 1988.

    Em inglsARDILA, Ruben. Political psychology: the Latin American perspective. Political Psychology. 17(2): 339-351; jun., 1996.

    Bibliografia

    ADORNO, T.W.; FRENKEL-BRUNSWICK, E.; LEVINSON, D.J.; SANFORD, R.N. La personalidad autoritria. Buenos Aires: Proyeccin, 1965.

    ARDILA, Ruben. Political psychology: the Latin American perspective. Political Psychology. 17(2): 339-351; jun., 1996.

  • BOBBIO, N. et al. Dicionrio de poltica. Vol. I, Braslia: EdUNB, 1992.

    KELMAN, H.C. Ethical imperativos and social responsability in the oractice of political psychology. Political Psychology. 1: 100-102, 1979.

    KNUTSON, J.N. Handbook of political psychology. San Francisco: Jos- sey-Bass, 1973.

    LANE, S.T.M. & CODO, Wanderley (orgs.). Psicologia social: o homem em movimento. So Paulo: Brasiliense, 1986.

    LASSWELL, H.D. Psychopatology and politics. Chicago: The University of Chicago Press, 1930.

    SABUCEDO CAMESELLE, Jos Manuel. Psicologia poltica. Madri: Editorial Sntesis, 1996.

  • CO

    EXPERINCIAS

  • PSICOLOGIA SOCIAL E ESCOLA

    A ndra Vieira Zanella

    A compreenso do texto a sei alcanada por sua leitura crtica implica a percepo das relaes entre o texto e o contexto. (Paulo Freire, 1981, p. 12).

    Partindo do que nos aponta Paulo Freire, solicito que o leitor me acompanhe na tarefa de buscar as relaes entre o texto e o contexto: o texto aqui proposto, o qual diz respeito atuao do psiclogo no espao escolar em uma perspectiva social crtica; e o contexto, que se refere tanto histria da psicologia escolar no Brasil quanto s suas implicaes sociais e polticas.

    Gostaria inicialmente de destacar a prpria dificuldade com o ttulo. Afinal, vrias so as terminologias adotadas: Psicologia Escolar; Psicologia Educacional; Psicologia da Educao; Psicologia na Educao. Goulart (1987) e Davis e Oliveira (1992) apresentam razes para essas diferentes terminologias, e com certeza leitores vidos em identific-las podero recorrer bibliografia indicada.

    De nossa parte, interessa demarcar que a diversidade e complexidade da atuao do psiclogo (afinal, so tantas as chamadas "reas de atuao: escolar, organizacional, do esporte, clnica, jurdica, comunitria, etc.) tm revelado, ao que parece, como cada vez mais inadequada a discusso sobre essas reas de atuao tal qual vinha acontecendo, isto , como reas estanques, separadas, com arcabouo tcnico e terico delimitado. Para complicar ainda mais os leitores iniciantes na rea, h uma diversidade enorme de orientaes teri- co-metodolgicas.

    No que diz respeito atuao do psiclogo, os esforos na delimitao de espaos to demarcados tm srias implicaes, sendo que

  • me parece importante assinalar ao menos uma: a no reflexo sobre as conseqncias sociais e polticas dessas aes. Isto porque, se concordamos que o texto se relaciona com o contexto que por sua vez se relaciona com o texto, certamente entendemos que nossas aes sempre e necessariamente resultam de situaes e concomitante- mente contribuem para a constituio de novos contextos. Cabe, pois, refletir sobre esse novo contexto que estamos produzindo.

    A discusso da psicologia enquanto reas de atuao nos parece, pois, deslocada. Afinal, como nos aponta Eizirik (1988, p. 33):

    No o lugar que define a postura de um profissional - embora nem todos pensem assim -, antes a capacidade de refletir criticamente sobre teorias, mtodos e prticas, avaliando resultados e pensando acerca das necessidades do pas em que nos encontramos.

    Espero que essas colocaes iniciais ajudem o leitor a entender por que o ttulo se refere atuao do psiclogo na escola: o local demarcado, mas a atuao profissional gue defendemos necessariamente mltipla, posto que assim se caracteriza a realidade.

    Psicologia e educao: uma longa histria

    Continuando a nossa conversa, faz-se necessrio destacar alguns dados, ainda que breves, a respeito das contribuies da psicologia educao. Apesar de "nova" enguanto cincia e profisso (vale lembrar que seu reconhecimento no Brasil data de 1962), a presena da psicologia j era realidade em nosso pas desde o final do sculo passado e incio deste sculo, seja atravs das teses de concluso de curso defendidas por mdicos da Bahia e Rio de Janeiro, seja como disciplina nos cursos de formao de professores (YAZZLE, 1990).

    Contextos diferentes, mas com uma mesma perspectiva teri- co-metodolgica: a do ajustamento, da identificao de distrbios (sejam estes de personalidade, de conduta, de aprendizagem), visando correo dos mesmos ou ento sua preveno. Sob essa tica, a psicologia exerceu sobre a educao "...uma influncia bastante n efasta, pois os problem as de escolarizao passaram a ser localizados basicam ente nos prprios alunos e em suas famlias, geralm ente vistas com o desorganizadas e desestruturadas" (ANDAL, 1997, p. 169).

    Desse modo, mais do que contribuir com a superao do fracasso escolar, a psicologia historicamente contribuiu para a legitimao do

  • mesmo e, consequentemente, para a manuteno da ordem social vigente. Isto na medida em que os problemas sociais eram reduzidos a problemas psiquitricos, sendo o sujeito visto como doente mental em potencial.

    Com a regulamentao da profisso, os servios de psicologia junto s instituies escolares caracterizaram-se por essa perspectiva, a qual ainda no foi superada. Tanto isso verdade que em um jornal de uma associao de profissionais da rea1 encontramos a seguinte referncia atuao do psiclogo:

    preciso que nos manifestemos a respeito do nosso perfil profissional, que mostremos o quanto podemos fazer sob a tica da sade e do desenvolvimento, que convenamos a todos de que o desenvolvimento de uma criana e de um jovem em um adulto sadio requer ateno e cuidados especiais de uma grande equipe de tcnicos, e que o psiclogo escolar parte fundamental dessa equipe. Ao mesmo tempo, preciso que convenamos a todos de que um desenvolvimento saudvel na infncia previne desajustamentos na idade adulta, ou melhor, que quando jovens aprendem a identificar e a lidar com seus "pesadelos, eles previnem problemas futuros.

    Sob essa tica a atuao pauta-se, portanto, em uma perspectiva preventivo-curativa, em que os conhecimentos da psicologia so utilizados fundamentalmente para o diagnstico e interveno junto a alunos que apresentam as chamadas dificuldades de aprendizagem. Ao psiclogo atribuda, pois, uma funo eminentemente tcnica.

    Em contraposio, temos a atuao do psiclogo em uma perspectiva social crtica, o que caracteriza as discusses e trabalhos que vm sendo desenvolvidos pelos profissionais ligados Abrapso (Associao Brasileira de Psicologia Social). Partindo da compreenso de que o homem social e historicamente constitudo e, concomitante- mente, caracteriza-se como produtor de cultura e histria, a interveno do psiclogo na escola pauta-se na anlise das situaes educativas em sua complexidade, considerando os vrios aspectos a envolvidos: histricos, econmicos, polticos, sociais etc.

    Uma breve anlise destas diferentes perspectivas de atuao junto s instituies escolares o que apresentaremos a seguir.

    1. Jomal Abrapee Nacional. Ano 5, Vol. 1 e 2, Jan-dez, 1996.

  • Psiclogo escolar - Tcnico da Educao

    Desde a sua insero nas escolas, o psiclogo tem sido geralmente considerado como um tcnico que, juntamente com os demais especialistas da educao (orientadores, supervisores e administradores escolares) contribui para a maximizao do processo ensino/aprendizagem.

    A concepo desse trabalho como especialismo tcnico-cientfico tem se prestado, no entanto, a fins distintos do que os apregoados. Compreender essa outra funo nos remete histria da diviso social do trabalho (DST), fenmeno que se consolidou no sculo passado. Como nos esclarece Coimbra (1990, p. 10), mais do que em decorrncia das necessidades tecnolgicas, a DST originada nas fbricas explicada pela necessidade de fiscalizar, hierarquizar e disciplinar os trabalhadores, delegando a estes funes cada vez mais distanciadas dos meios e do processo de produo como um todo.

    Essa funo de fiscalizao assumida, portanto, pelo pessoal tcnico. No entanto, mais do que tcnica a funo destes claramente poltica, pois consiste em ...perpetuar a dependncia dos operrios, sua subordinao, sua separao dos meios e do processo de produo" (GORZ in: COIMBRA, 1990, p. 10).

    No contexto educacional brasileiro essa DST foi acentuada na dcada de 1970, no auge do regime militar, na poca do chamado milagre econmico brasileiro. Atravs da lei 5.692/71, os especialistas da educao traziam consigo a proposta de modernizao da escola, herdada do taylorismo.

    Aos tcnicos, tidos como detentores do saber, caberia a funo de assessorar os professores, os que "no sabem". Aos primeiros, pois, caberia a funo de planejamento, enquanto os docentes eram tidos como os executores.

    Essa perspectiva aparece claramente em trabalhos que versam sobre o papel do psiclogo escolar e que tem sido amplamente discutidos e divulgados em cursos de formao do psiclogo em todo o Brasil, como o caso do texto de Reger. Para este autor, o objetivo bsico do psiclogo escolar consiste em:

    ajudar a aumentar a qualidade e a eficincia do processo educacional atravs da aplicao dos conhecimentos psicolgicos... Enquanto

  • educador comprometido com a identidade do acadmico, o psiclogo escolar pode tentar ensinar a outros profissionais no sistema escolar (REGER, 1989, p. 14/15 - grifo nosso).

    Essa perspectiva ainda compartilhada por grande parte dos profissionais que atuam em escolas ou que discutem a questo, conforme apontamos anteriormente. Desse modo, assumindo uma atuao eminentemente tcnica, o psiclogo, mais do que contribuir com a escola na discusso de seus impasses, legitima a hierarquizao do trabalho, assumindo funo de controle. Nesse sentido, nega aos demais (professores, alunos, orientadores, pais, diretores, merendeiras etc.) a possibilidade de se perceberem como corresponsveis tanto pela realidade encontrada quanto por um projeto social outro que se queira construir.

    Superar essa atuao politicamente comprometida com a manuteno do status guo vigente reguer deste profissional, entre outras coisas, a compreenso do carter histrico da diviso social do trabalho. Desse modo este poder atuar no sentido de desmistificar esses territrios to bem marcados e fechados - do 'no saber e saber - para gue outros saberes possam fluir e circular, saberes gue no seriam monoplio de uns poucos (COIMBRA, 1990, p. 14).

    O psiclogo na escola - Para alm da funo tcnica

    Repensar o papel do psiclogo reguer, como foi apontado acima, superar a viso tcnica. Mas afinal, se a funo do psiclogo no tcnica (ou no somente tcnica), como podemos entend-la?

    Toda e qualquer ao humana (a incluindo-se o quefazei psicolgico) sempre e necessariamente poltica, pessoal, social e histrica. , nesse sentido, concomitantemente afetiva, cognitiva, social, motora, posto que em toda e qualquer situao apresentamo-nos como um todo, enquanto sujeitos histrica e socialmente constitudos e, ao mesmo tempo, como constituidores ativos do contexto no qual nos inserimos. A nossa ao, portanto, est sempre comprometida, tenhamos conscincia disso ou no, com um projeto de sociedade.

    Desse modo, necessria se faz a reflexo crtica constante sobre a nossa atuao. Por sua vez,

    .. .as perguntas crticas que os psiclogos devem se formular a respeito do carter de sua atividade e, portanto, a respeito do papel que est

  • desempenhando na sociedade, no devem centrar-se tanto no onde, mas no a partir de quem; no tanto em como se est realizando algo, quanto em benefcio de quem; e, assim, no tanto sobre o tipo de atividade que se pratica (clinica, escolar, industrial, comunitria ou outra), mas sobre quais so as conseqncias histricas concretas que essa atividade est produzindo (MARTIN-BAR, 1997, p. 22).

    Considerando essas questes, como pode ento ser entendida a atuao do psiclogo junto s instituies escolares? Recorro a Paulo Freire (1983) que h muito nos alertou para o fato de que cabe aos profissionais de um modo geral e aos profissionais que atuam na educao, como o caso, constiturem-se como trabalhadores sociais, historicamente comprometidos com o processo de mudana.

    Desse modo, o psiclogo, entendido como trabalhador social, teria como papel atuar e refletir com os indivduos para conscientizar-se junto com eles das reais dificuldades da sua sociedade" (FREIRE, 1983, p. 56).

    Nesse processo de atuao conjunta, de produo coletiva de uma nova prxis educativa, o psiclogo pode contribuir em muito com a anlise e redimensionamento das relaes sociais que se estabelecem no contexto educacional. E por que essa questo importante?

    As relaes sociais caracterizam-se como palco onde as significaes so coletivamente produzidas e particularmente apropriadas. , pois, nas relaes sociais que os homens constituem-se enquanto sujeitos, enquanto capazes de regular a prpria conduta e vontade. Tal compreenso vem ao encontro dos postulados de Vygotsky (1987), o qual esclarece que as funes psicolgicas superiores2 so constitudas nas e pelas relaes que o homem estabelece com outros homens, num movimento dialtico que compreende o social e o particular, sendo ambos mutuamente constitutivos.

    As relaes sociais entabuladas no contexto escolar, por sua vez, organizam-se em razo das atividades que caracterizam a prpria escola: o ensinar e o aprender. Ao falarmos em redimensionamento das relaes sociais enfatizamos, pois, a necessidade de que essas possibilitem a todos a concretizao com pleno xito das atividades citadas, de modo a que o acesso ao conhecimento historicamente produzido possa efetivamente ser prerrogativa de todos.

    2. De acordo com Vygotsky (1987), as funes psicolgicas superiores so funes caracteristi- camente humanas, socialmente constitudas, que se pautam pela mediao dos signos.

  • A atuao de psiclogo caracteriza-se, nesse sentido, como ao voltada para a cidadania, sendo esta entendida enquanto possibilidade de os indivduos ...se apropriarem dos bens socialmente criados, de atualizarem todas as possibilidades de realizao humanas abertas pela vida social em cada contexto historicamente determinado" (COUTINHO, 1994, P- 14).

    Desse modo, procurando conhecer a realidade escolar como um todo, com suas mltiplas determinaes, o psiclogo pode contribuir para o repensar da escola, na medida em que redimensiona sua prpria atuao e contribui para que os demais integrantes desta reflitam tambm sobre a forma como agem/interagem frente ao real. Estaria, assim, contribuindo efetivamente para a transformao social pois, como nos esclarece Freire (1983, p. 50),

    ...no momento em que os indivduos, atuando e refletindo, so capazes de perceber o condicionamento de sua percepo pela estrutura em que se encontram, sua percepo muda, embora isso no signifique, ainda, a mudana da estrutura. Mas a mudana da percepo da realidade, que antes era vista como algo imutvel, significa para os indivduos v-la como realmente : uma realidade histrico-cultural, humana, criada pelos homens e que pode ser transformada por eles.

    O compromisso do psiclogo no contexto educacional deve ser, portanto, com a superao da dicotomia planejamento/execuo que alija os professores/os alunos/os pais/as faxineiras e outros da possibilidade de conhecimento, imputando a estes o posto da submisso, do no ser capaz, do no saber. s relaes de dominao/submisso contrapem-se as relaes de cooperao, marcadas por laos de solidariedade e pelo compromisso com uma sociedade no exclusora, onde os direitos civis, polticos e sociais possam efetivamente ser prerrogativa de todo cidado.

    O quefazer psicolgico crtico no contexto escolar caracteriza-se, portanto, como ao pautada pela indignao em relao a toda e qualquer forma de violncia, como ao que se ope aos processos de excluso social e, nesse sentido, ao fracasso escolar. A atuao que se almeja comprometida, assim, com um projeto de realidade que busca para todos uma vida mais digna de ser vivida (CROCHIK, 1992).

    Sugesto de leituras

    Entendendo a atuao do psiclogo como mltipla, posto que assim se caracteriza a realidade, vrias so as leituras que poderiam ser

  • indicadas. Apontarei aqui algumas que me parecem importantes, destacando que certamente muitas outras igualmente relevantes poderiam aqui constar.

    Dois livros j considerados clssicos e indispensveis, ambos de Maria Helena Souza Patto, so: Psicologia e ideologia (So Paulo: T.A. Queiroz, 1984) e A produo do fracasso escolar (So Paulo: T.A. Queiroz, 1990). Mais recente temos o livro Psicologia escolar: em busca de novos rumos (So Paulo: Casa do Psiclogo, 1997), organizado por Adriana M. Machado e Marilene P.R. de Souza.

    A respeito do sucesso escolar uma coletnea de textos importantes e crticos encontra-se no Cadernos Cedes n. 28, editado pela Papirus.

    Por fim, textos que caracterizam a perspectiva da Abrapso podem ser encontrados na revista Psicologia e Sociedade e no livro Psicologia e prticas sociais, este editado pela Regional Sul da Abrapso.

    Bibliografia

    ANDAL, Carmen S. Psicologia e educao. In: ZANELLA, A.V. et al. Psicologia e prticas sociais. Porto Alegre: Abrapsosul, 1997.

    COIMBRA, Ceclia. A diviso social do trabalho e os especialismos tcni- co-cientficos. Revista do Departamento de Psicologia da UFF, a. II, n. 2. Io sem., 1990.

    COUTINHO, Carlos N. Cidadania, democracia e educao. In: BORGES, A. et al. Escola: Espao de construo da cidadania. So Paulo: FDE, 1994.

    CROCHIK, Jos Leon. Notas sobre a relao tica-psicologia. Psicologia, cincia e profisso. CFP, a. 12, n. 2, 1992.

    DAVIS, Cludia & OLIVEIRA, Zilma. Psicologia na educao. So Paulo: Cor- tez, 1992.

    EIZIRIK, Marisa F. Psicologia hoje: uma anlise do quefazer psicolgico. Psicologia, cincia e profisso, a.8, n. 1, 1988.

    FIGUEIREDO, Lus Cludio. Matrizes do pensamento psicolgico. Petrpolis: Vozes, 1991.

    FREIRE, Paulo. A importncia do ato deler. em trs artigos que se complementam. So Paulo: Cortez, 1990.

    ------. Educao e mudana. So Paulo: Paz e Terra, 1983.

  • GOULART, ris Barbosa. Psicologia da educao: fundamentos tericos e aplicaes prtica pedaggica. Petrpolis: Vozes, 1987.

    MARTIN-B AR, Ignacio. O papel do psiclogo. Estudos de Psicologia, a.2, n. 1, 1997.

    REGER, Roger. Psiclogo escolar: educador ou clnico? In: PATTO, M.H.S. (org.). Introduo psicologia escolar. So Paulo: T.A. Queiroz, 1989.

    VYGOTSKY, Lev Semionovitch. Histria dei desarroilo de las funciones psquicas superiores. La Habana/Cuba: Cientfico-Tcnica, 1987.

    YAZZLE, Elisabeth G. A formao do psiclogo escolar no estado de So Paulo: subsdios para uma ao necessria. So Paulo: 1990. Dissertao (mestrado). PUC-SP.

  • PSICOLOGIA SOCIAL NO TRABALHO

    C aim em Ligia Ioch in s G nsci G islei Rom anzini Lazzarotto

    O nosso dia a dia constitui-se de prticas, e elas so aliceradas a partir das mais diversas inseres que se estabelecem. Sobre elas, no entanto, nem sempre se debrua um olhar mais apurado e, em razo disso, pode-se incorrer na ideia de que uma prtica algo que acontece desconectado de sentidos.

    H de se considerar, contudo, que uma prtica no s representa o mundo, como inventa o mundo. Derivada do latim - praticare -, prtica significa agir, tratar com as gentes" (vocbulo praticai, FERREIRA, 1986). Neste sentido, uma prtica jamais prescindir de uma relao e de uma tica (GUARESCHI, 1995). Uma prtica social porque constitui a realidade que, por sua vez, mltipla; porque toma o sujeito como algo em contnua construo, porque os modos de pensar do sujeito no se do dissociados dos modos de pensar do mundo e da cultura na qual se inscreve.

    A prtica profissional e cientfica no se coloca, portanto, como meramente tecnicista, devendo estar ciente de que no s transforma o sujeito que a pratica, como tambm o mundo. O corpo de conhecimento da psicologia social , sem dvida, recortado por valores. Independentemente do recorte, no entanto, a tica sempre se far presente. Portanto, diz respeito a que psicologia falamos, e de que sociedade nos propomos a construir.

    Nem sempre a psicologia norteou suas prticas no sentido de considerar a tica. No que se refere ao trabalho, a psicologia contribuiu muito para que o mrito e o fracasso, por exemplo, fossem vistos como caractersticas que dissessem respeito nica e exclusivamente aos sujeitos individuais.

    No que se refere sade, sabemos que a atuao da psicologia voltou-se, prioritariamente, para a classificao dos sujeitos em sau

  • dveis ou no saudveis, aptos ou inaptos ao trabalho, atentos ou desatentos diante de riscos do cotidiano e assim por diante. Ao agir desta maneira, a psicologia debruou-se mais para a produo, em busca de resultados, do que para o trabalho e os(as) trabalhadores(as). Desta forma, tornou suas prticas um dos fatores mantenedores de uma estrutura social tida como natural e inevitvel.

    Dimenses constitutivas do sujeito tais como classe social, gnero, raa/etnia, foram deixadas margem das prticas vigentes relacionadas a trabalho, tendo como conseqncia sua fragmentao e mar- ginalizao. O interesse dominante, alm de privilegiar apenas algumas das condies visveis do trabalho, tratava de invisibilizar outras tantas caractersticas com repercusses diretas sade dos sujeitos.

    Nota-se que, desta maneira, o trip - psicologia, trabalho e sade- evidencia-se enquanto prtica de uma relao de dominao, em que alguns expropriam as possibilidades que outros tm de construir e de se construrem no cotidiano da vida. Esta relao assimtrica define o que muitos hoje chamam de ideologia (THOMPSON, 1995). A partir da coerncia ideolgica permeada neste trip assim caracterizado, resta ao(a) trabalhador(a) a doena. A respeito da doena, sim, permitido ao() trabalhador(a) deter o conhecimento de seu "processo de produo", e ele(a) realmente a detm, como possvel observarmos dos detalhamentos provenientes de suas explanaes. Um processo mais ou menos lento, desde seu desencadear at a instalao completa gue, dentro da tradio que culpa e individualiza o(a) trabalhadora), somente a ele(a) diz respeito, ficando a Psicologia com o papel de classific-lo.

    Atravs de suas falas, os trabalhadores(as) ilustram formas pelas quais o trabalho que realizam lhes traz prejuzos sade. Como evidncia disso, registram que ao ingressarem no trabalho eram normais e saudveis, mas que ao longo do tempo perderam tais caractersticas. Assumir a dor normal do trabalho como algo de sua nica e exclusiva responsabilidade comum entre esses trabalhadores(as) gue, estimulados pela tradio dominante, se culpam pela falta de um organismo resistente, ou por no se terem cuidado (LAZZAROTTO, 1992).

    Decorrente destes equvocos, legitimou-se o descrdito da palavra dos sujeitos do trabalho pela organizao do trabalho, organizao esta que planeja e executa sem minimamente considerar as interferncias impostas em sua vida, causando assim o sofrimento individual e o adoecimento coletivo da classe trabalhadora, em resposta ideolo

  • gia da vergonha e do fracasso tal como considerado por Christophe Dejours (1988, 1994).

    possvel que, na iluso de uma nica verdade, a busca por frmulas oriundas de um fazer j concebido, estipulado e executado ainda se manifeste. No entanto, num mundo em mudana constante e veloz, a busca por novas possibilidades, pelo respeito das singularidades, pela compreenso de que trabalho tambm pode ser uma experincia digna e de prazer, mostra-se urgente. Embora nem sempre mensurvel, ou passvel de completa apreenso, a nova ordem do trabalho traz implicaes diretas aos(s) trabalhadores(as) nas mais diversas dimenses que compem a vida. Toda e qualquer prtica eticamente comprometida deveria, a princpio e por princpio, caracterizar-se enquanto prtica contextualizada social e historicamente, sob o risco de anlises incompletas e deturpadas.

    A ideia ainda muito presente de uma Psicologia dividida em reas especficas de atuao, geralmente marcada por esteretipos, compromete tanto o reconhecimento social da profisso quanto a articulao dos prprios psiclogos(as). Resgatar a histria de nossa prpria construo fundamental para que no nos coloquemos to somente enquanto "aplicadores de conhecimentos, mas como fazedores" de conhecimento; no somente reprodutores de tcnicas, mas produtores de novos modos de fazer.

    Para alm dos modos tradicionais do fazer psicologia em relao ao trabalho

    A psicologia tem, no que se refere ao trabalho, possibilidades cruciais. Basta que se admire e inquiete diante da realidade de trabalho experienciada por cada trabalhador(a). Sua importncia evidencia-se, principalmente, na possibilidade de resgatar a fala abafada enquanto medida de anulao dos(as) trabalhadores(as), atravs da capacidade de escuta das experincias geradoras de sofrimento vivenciadas no dia a dia do trabalho (GUARESCHI & GRISCI, 1993).

    Desta capacidade de escuta derivam-se novas possibilidades de relao. Entre elas, nos deparamos com a passagem de uma situao de alienao do(a) trabalhador(a) para uma situao de conscincia crtica produzida no resgate de seus modos de pensar, sentir e viven- ciar. Tal resgate poder constituir-se em novos modos de experienciar

  • o trabalho, proveniente dos prprios trabalhadores e trabalhadoras, no que diz respeito reconstruo de seus vnculos enquanto classe trabalhadora, com o prprio trabalho e com quem compartilham a vida.

    A ordem social que se globaliza e se complexifica vem dinamizando representaes sociais do trabalho, diferenciaes nos modos de organiz-lo, e complexificaes produtivas que acarretam distines no mundo do trabalho e dos(as) prprios(as) trabalhadores(as), sobre os quais (contexto e sujeito) a psicologia no pode se furtar de lanar o olhar. Atenta interdisciplinaridade, em funo da complexidade de objetos, a psicologia deve buscar novas fontes e novos referenciais.

    H de se discutir acerca daqueles(as) que trabalham, conforme proposto no livro organizado por Eduardo Davel e Joo Vasconcelos (1996): So eles(as) trabalhadores(as) ou "recursos" humanos? So eles(as) descartveis ou reciclveis?"

    Como vimos anteriormente, as lgicas que deram sentido s prticas psicolgicas nem sempre se voltaram para esta discusso. A questo do gnero do(no) trabalho, por exemplo, no recebeu destaque pelo conhecimento, cincia e profisso at os movimentos feministas. No entanto, a diviso sexual do trabalho produz/reproduz desigualdades sociais que vo para alm do espao de realizao do trabalho (SOUZA-LOBO, 1991).

    Alm disso, desde a dcada de 1970 o interesse acerca das conseqncias das inovaes tecnolgicas centravam-se nos efeitos mais visveis de tais inovaes, sendo que a busca pelo conhecimento do que elas representam para os(as) trabalhadores(as) manteve-se marginalizada (ITANI, 1997).

    Tal constatao encontra eco na atual desordem do trabalho (MATTOSO, 1995) que indica mais para a perda de direitos, o desemprego e a marginalizao, entre outros, do que para a libertao da- queles(as) que trabalham. Embora no mais apresentados como aque- les(as) trabalhadores(as) massificados(as) que o fordismo cunhou, os(as) trabalhadores(as) de hoje encontram-se numa nova ordem de massificao. A ordem da massa dos(as) excludos(as) que aumenta vertiginosamente as filas do desemprego devido a um mundo do trabalho que no mais necessita de sua fora para se movimentar (FORRESTER, 1997).

    Em relao s novas tecnologias, observa-se que, por mais que elas proporcionem maior produo em menor tempo, no libertam os(as) trabalhadores(as), uma vez que o que estes(as) ainda vendem

  • o seu tempo de trabalho. Conforme Paulo Maya (1996), no contexto das sociedades capitalistas industrializadas, mesmo as perifricas, como o Brasil, o tempo livre foi incorporado ao processo produtivo obedecendo s mesmas regras da lgica de produo de mercadorias que regem o tempo de trabalho dos indivduos.

    No mundo do trabalho, particularmente, observa-se gue mudanas - expressas nos processos de virtualizao propiciados pela informtica, a comunicao instantnea e globalizada, a rapidez dos fluxos, as empresas virtuais - indicam para novos modos de ser que tm gerado experincias traumticas nos sujeitos do trabalho, com implicaes imediatas sua sade. Reestruturaes do trabalho apresentam mensagens duplas aos(as) trabalhadores(as), tais como competio/cooperao, submisso a regras/criatividade, individualismo/times, controle externo/controle interno, reguerendo deles(as), por sua vez, reestruturaes psquicas.

    Discursos bem elaborados indicam formas diferenciadas de gesto, como o neotaylorismo, o tecnoburocrtico, o baseado na excelncia e o participativo entre outros (CHANLAT, 1996). Embora estas formas repercutam direta e diferenciadamente na sade dos(as) traba- lhadores(as), o que se observa que elas no minimizam seus sentimentos de estar em constante falta, em constante despreparo, em constante insegurana frente s possibilidades de excluso do mercado de trabalho em transformao. Pelo contrrio, elas so acrscimos s conhecidas preocupaes gue assombraram, e assombram, a classe trabalhadora.

    Tal quadro merece, a nosso ver, ser amplamente considerado pela psicologia voltada ao mbito do trabalho no sentido de compreender e intervir nos possveis efeitos sociais e subjetivos dele decorrentes. Ainda mais gue, embora o contedo do trabalho tenha sido enriquecido em determinados aspectos e setores, exigindo uma melhor qualificao, no possvel ignorar que um grande nmero de trabalhadores continua a executar atividades fragmentadas, sem sentido e de baixa qualificao. Alm disso, no podemos nos esquecer de que as novas polticas de pessoal tentam, a sua maneira, normalizar os comportamentos e o pensamento, o que coincide inegavelmente com o ideal taylorista (LIMA, 1996, p. 42).

    A importncia de se ampliar escutas e olhares sobre estas questes faz parte de mltiplos esforos. Esforos estes tomados no sentido de pluralizar a compreenso da realidade social, de identificar dife

  • renas/igualdades que permeiam o universo da classe trabalhadora, para que a sade ou a falta dela no se centre unicamente na culpabili- zao dos indivduos como conseqncia de seu no ajustamento nova ordem social.

    Alguns exemplos do fazer psicologia em relao ao trabalho

    Prticas profissionais e cientficas em psicologia social - tais como pesquisas e consultorias - realizadas com trabalhadores(as) em diferentes inseres, no perodo de 1994 a 1997, no Rio Grande do Sul - visando abordar a questo sade a partir de um recorte que tome visveis os riscos aos quais os sujeitos se expunham no dia a dia, tanto no espao territorializado do trabalho quanto na comunidade e nos movimentos sociais, evidenciam que a possibilidade de uma prtica no meramente tecnicista vivel. Seguem alguns exemplos:

    1. Em uma pesquisa que visava relacionar gnero, sade e risco no cotidiano do trabalho, realizada num Hospital de Clnicas Veterinrias (GRISCI, PIVETTA & GOMES, 1997), comprovou-se que se os(as) trabalhadores(as) devem ser vistos desde a perspectiva do gnero, inclusive os espaos de trabalho, e o mesmo propriamente dito se colocam nesta perspectiva. Embora tanto os homens quanto as mulheres estejam expostos aos riscos do(no) trabalho, eles so representados, sentidos e vividos de uma forma diferenciada desde a perspectiva do gnero. Cabe aos homens a preocupao para com os riscos visveis e que tragam danos materiais imediatos ao fsico, e s mulheres a preocupao para com os riscos invisveis e que possam trazer danos igualmente invisveis em um tempo futuro.

    Essa investigao, alm de descrever os riscos do cotidiano do trabalho no hospital atravs da construo de mapa de riscos, permitiu elucidar que eles no somente extrapolam o mbito do corpo fsico e do territrio do trabalho, como tambm causam interferncias na qualidade de vida e nas relaes dos sujeitos, cabendo s estratgias defensivas (DEJOURS, 1994) um papel importante no sentido de possibilitar entender que se os(as) trabalhadores(as) no esto se protegendo dos riscos com atitudes e equipamentos concretos/corretos de proteo, o esto fazendo psicologicamente. Contudo, sabemos que esta proteo, longe de proteger efetivamente, alimenta comportamentos de exposio aos riscos por parte dos(as) trabalhadores(as) e alimenta a falta de medidas na estrutura para eliminar os riscos.

  • 2. Nossa experincia relativa formao de cipeiros (membros das Comisses Internas de Preveno de Acidentes), numa proposta de organizao sindical, revelou a necessidade de repensar a noo de sade a partir das relaes de produo (de bens materiais e servios) e reproduo (alimentao, vesturio, moradia, educao, lazer, etc.), uma vez que sade limitava-se a aspectos que diziam respeito unicamente aos indivduos isoladamente. O dar-se conta de que as relaes estabelecidas causavam adoecimento do(no) trabalho e conseqente excluso do(no) trabalho, extrapolava tradicionais anlises meramente condicionadas a definir atos ou condies inseguras.

    A possibilidade de estabelecer relaes entre as formas de trabalhar e as formas de viver traz como conseqncia a noo de que somos, ao mesmo tempo, seres singulares e coletivos inseridos num contexto de relaes sociais. O resgate do significado das prprias aes revela-se no discurso sobre as atividades desenvolvidas com es- tes(as) trabalhadores(as), ao avaliarem que aprenderam e ensinaram muitas coisas sobre o trabalho, o ser cipeiro e a vida. Torna-se claro, portanto, que ensinar e aprender algo que se d em conjunto e que remete ao social. A valorizao do prprio conhecimento e do conhecimento do outro apresenta-se como um espao de afirmao da existncia da identidade destes(as) trabalhadores(as), mostrando que o mesmo sujeito quem ensina e quem aprende. Destaca-se, ainda, a percepo de que at ento o(a) cipeiro(a) sentia-se somente como aquele responsvel por cobiar dos colegas o ato inseguro, reproduzindo uma forma ideolgica de agir frente aos acidentes do trabalho.

    3. Em pesquisa que investiga as representaes sociais do acidente de trabalho entre trabalhadores da construo civil, trs dimenses principais foram evidenciadas em relao ocorrncia de tais acidentes: fatalismo (destino, sorte ou azar); individualismo (descuido, desateno ou caractersticas psicolgicas individuais); e determinadas mediaes (trabalho perigoso, medo, pressa, falta de equipamento de proteo, coero, desafio).

    Estas mediaes se colocam como um espao negado pelos tra- balhadores(as), e eles s falam delas quando se insiste em que se procurem as verdadeiras razes dos acidentes. Assim, por exemplo: quando perguntados por que tinham se acidentado, a resposta imediata, em 80% dos casos, era "porque me descuidei" (minha culpa); foi um azar", no tive sorte" (meu destino). Mas, discutindo mais a fundo o fato, eles referem outras razes que levam aos acidentes:

  • porque o patro mandou apurar o servio, para entregar a obra"; ou porque ele foi chamado a fazer outro servio, e na volta o andaime caiu porque tinha esquecido de prender; e ainda mais: se no se arriscasse no era considerado suficientemente viril etc. Isso evidencia uma ideologia de individualismo e fatalismo, escondendo as verdadeiras razes dos acidentes. As representaes sociais do trabalho cir- cunscrevem-se, desta maneira, no que o autor denomina como "Minha culpa, m eu destino" (POSSAMAI, 1997).

    4. Uma outra experincia voltada para a comunidade, em vilas perifricas da regio metropolitana, que se constituiu na elaborao de mapas de riscos sociais, demonstrou, tal qual no hospital acima referido, e na pesquisa com trabalhadores da construo civil, a necessidade de um alargamento da noo de risco, comumente voltada para o concreto e o fsico conforme encontrada na literatura em geral. Cabe ressaltar, no entanto, que os riscos acarretam, alm do sofrimento fsico, sofrimento mental aos sujeitos. Ao construir categorias de riscos a partir de seus prprios referenciais, os sujeitos das vilas perifricas constataram, por exemplo, que a falta de energia eltrica no s limitava aes no espao domstico, mas tambm reproduzia os limites sociais impostos ao ir e vir destes sujeitos no espao pblico; que os esgotos a cu aberto no s traziam possibilidades de contaminao, mas evidenciavam o descaso dos rgos oficiais para com a sade de uma populao excluda. Estas evidncias confirmam que os riscos podem ser considerados como riscos sociais.

    Estas experincias desvelam a imprescindvel necessidade de perguntar e de analisar o porqu de serem sujeitos especficos os que mais retratam e denunciam o sofrimento fsico e mental. So, comumente, as mulheres, os(as) pobres, os(as) trabalhadores(as) no quali- ficados(as), aqueles(as) que habitam as periferias, etc., os(as) que sofrem em decorrncia de uma ideologia j cristalizada nas relaes de trabalho que se expande ao cotidiano da vida. atravs desta anlise que podero surgir prticas realmente voltadas para a relao sade e trabalho que entrelacem modos de trabalhar e modos de viver.

    Consideraes finais

    Ao finalizar, perguntamo-nos: o que de novo" se pode perceber nestas pginas? Esta , com certeza, uma dimenso que afeta aque

  • les(as) que tentam pensar praticamente o mundo do trabalho. Na incessante tentativa de busc-lo necessrio, no entanto, que no nos deixemos cegar pelo ritmo acelerado do descartvel, do oportunismo que vem caracterizando nossa poca, impondo, muitas vezes, um descrdito a formas de compreenso crticas, no sentido de neutraliz-las.

    As reflexes que permearam o presente texto visaram compartilhar um pouco do que experienciamos a partir de uma realidade que no mais acreditamos tal como se apresenta: neutra e natural; e a compartilhar nossa experincia terico-prtica enquanto psiclogas e pesquisadoras voltadas para o mundo do trabalho. Elas no se propem como novas", mas sim querem demonstrar que as novas formas do fazer no podem, de maneira alguma, prescindir das trajetrias dos sujeitos da(na) histria.

    somente a partir do outro que podemos saber de nossas prticas, pois, enquanto seres isolados, no temos como sab-las. Se nossas prticas so relativas, assim o so em relao a um outro que contm/est contido em um dado cenrio. Sem esse outro, experimentamos a sensao tida ao sobrevoarmos, de avio, acima das nuvens. Se as nuvens se apresentam uniformes, tudo parece esttico. Embora nos locomovamos a uma velocidade aproximada de 800 km/h, isso, por si s, no nos d a saber que nos deslocamos. necessrio, pois, que o cenrio se transforme, e, ao se transformar, nos d a conhecer o efeito da prtica que desenvolvemos.

    Por longo tempo, a psicologia no se preocupou com a relao sade e trabalho, como se ambos fossem objetos estticos em relao a ela, tampouco considerou a perspectiva dinmica daqueles que trabalham. H de se considerar, entretanto, a existncia de um outro mundo, no apreendido pela psicologia quando esta se utiliza apenas da tcnica, no se mostrando interessada no trabalho, nem nos trabalhadores, mas apenas em maximizar a produo e a qualidade de mercadorias.

    Sugesto de leituras

    Um livro j considerado clssico e indispensvel em relao ao trabalho e sade o de Christophe Dejours A loucura do trabalho: es tudo de psicopatologia do trabalho, 3. ed., So Paulo: Cortez/Obor,

  • 1988. De Pedrinho A. Guareschi e Carmem L.I. Grisci, A fala do trabalhador, Petrpolis: Vozes, 1993, um livro em que a fala cristalina dos trabalhadores retrata a dura realidade do trabalho. 0 recente livro de Viviane Forrester, O horror econm ico, So Paulo: UNESP, 1997, uma tima referncia sobre o fenmeno atual do desemprego.

    Bibliografia

    CHANLAT, Jean Franois. Modos de gesto, sade e segurana no trabalho. In: DAVEL, Eduardo & VASCONCELOS, Joo (orgs.). "Recursos"humanos e subjetividade. Petrpolis: Vozes, 1996.

    DAVEL, Eduardo & VASCONCELOS, Joo (orgs.). "Recursos" humanos e subjetividade. Petrpolis: Vozes, 1996.

    DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 3. ed. So Paulo: Cortez/Obor, 1988.

    DEJOURS, Christophe et al. Psicodinmica do trabalho: contribuies da escola Dejouriana anlise da relao prazer, sofrimento e trabalho. So Paulo: Atlas, 1994.

    FERREIRA, Aurlio B .H. Novo dicionrio Aurlio da Lngua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

    FORRESTER, Viviane. O horror econmico. So Paulo: Unesp, 1997.

    GRISCI, Carmem L.I., PIVETTA, Ana & GOMES, Sandra. Gnero, sade e risco no cotidiano do trabalho. In: ZANELLA, Andrea et al (orgs.). Psicologia e prticas sociais. Porto Alegre: Abrapsosul, 1997.

    GUARESCHI, Pedrinho A. tica e relaes sociais: entre o existente e o possvel. In: JACQUES, Maria da Graa et al (org.). Relaes sociais e tica. Porto Alegre: Abrapsosul, 1995.

    GUARESCHI, Pedrinho A. & GRISCI, Carmem L.I. A fala do trabalhador. Petrpolis: Vozes, 1993.

    ITANI, Alice. Subterrneos do trabalho: imaginrio tecnolgico no cotidiano. So Paulo: Hucitec/Fapesp, 1997.

    LAZZAROTTO, Gislei D.R. A organizao do trabalho e a construo do sujeito: uma apreciao crtica da psicologia: o caso da digitao. Porto Alegre: PUCRS, Dissertao de mestrado, 1992.

  • LIMA, Maria E.A. Os equvocos da excelncia: as novas formas de seduo na empresa. Petrpolis: Vozes, 1996.

    MAYA, Paulo Valrio. Trabalho e tempo livre. Porto Alegre: PUCRS, Dissertao de mestrado 1996.

    MATTOSO, Jorge. A desordem do trabalho. So Paulo: Escrita, 1995.

    POSSAMAI, Hlio. Minha culpa, meu destino: representaes sociais de acidente do trabalho. Porto Alegre: PUCRS, Dissertao de mestrado, 1997.

    SOUZA-LOBO, Elisabeth. A classe operria tem dois sexos: trabalho, dominao e resistncia. So Paulo: Brasiliense/SMC, 1991.

    THOMPSON, John B. Ideologia e cultura modema: teoria social crtica na era dos meios de comunicao de massa. Petrpolis: Vozes, 1995.

  • PSICOLOGIA SOCIAL E COMUNIDADE

    Sissi M alta N evesN ara M ana G uazzelli B ern ardes

    Na esfera humana impossvel entender o presente social se no tentarmos mud-lo.

    J.L. Moreno

    No Brasil, a trajetria do saber-fazer da psicologia em relao comunidade iniciou-se em meados dos anos 1960 e sofreu transformaes tericas, epistemolgicas e metodolgicas importantes neste espao de tempo relativamente curto, o que resultou a diversidade que hoje pode ser encontrada com respeito ao desenvolvimento dos trabalhos dos(as) psiclogos(as) nas comunidades.

    Uma perspectiva importante nessa diversidade aquela que entende a psicologia comunitria como uma rea da psicologia social que estuda a atividade do psiquismo decorrente do modo de vida do lugar/comunidade; estuda o sistema de relaes e representaes, identidade, nveis de conscincia, identificao e pertinncia dos indivduos ao lugar/comunidade e aos grupos comunitrios. Visa ao desenvolvimento da conscincia dos moradores como sujeitos histricos e comunitrios, atravs de um esforo interdisciplinar que perpassa o desenvolvimento dos grupos e da comunidade. [...] Seu problema central a transformao do indivduo em sujeito (GIS, 1993).

    A insero da psicologia comunitria no campo da psicologia social, por um lado, afirma o pressuposto de que o ser humano construdo scio-historicamente e, ao mesmo tempo, constri as concepes a respeito de si mesmo, dos outros e do contexto social. Por outro, marca uma diferenciao com outras perspectivas tericas e prticas da psicologia em comunidade, importadas principalmente

  • dos Estados Unidos, que se caracterizam por um carter predominantemente assistencial-paternalista e so destinadas a pessoas consideradas desfavorecidas ou por um carter promocional-desen- volmentista e so voltadas para o indivduo e sua preparao para enfrentar as adversidades do cotidiano (BERNARDES, GUARESCHI, 1992; FREITAS, 1996).

    A psicologia comunitria opera com o enquadre terico da psicologia social crtica e prope-se a compreender a constituio da subjetividade dos seres humanos numa comunidade, seja geogrfica como, por exemplo, um bairro, ou psicossocial, como, por exemplo, os participantes de um centro comunitrio. Ao compreender e para faz-lo, funda-se no respeito ao saber e s prticas desses sujeitos e atua predominantemente com grupos. Lane (1992) acentua que o grupo condio fundamental para o desenvolvimento da conscincia, no qual um membro se descobre no outro, espelhando-se conjuntamente. Nesta atitude reflexa (de espelho) e reflexiva descobrir-se no resulta apenas de um discurso, mas de uma prtica conjunta. Compete, portanto, aos psiclogos(as) comunitrios(as) trabalharem na construo de uma conscincia crtica, de uma identidade coletiva e individual mais autnoma e de uma nova realidade social mais justa.

    Abordagem do psicodrama

    Uma das possibilidades de assim trabalhar que vem se configurando, nas ltimas dcadas, consiste na abordagem do psicodrama.

    O psicodram a foi definido por Moreno (1974, p. 17) "como a cincia que explora a verdade por m todos dram ticos." A palavra drama vem do grego e significa ao ou algo que acontece, mostrando que o bero do psicodrama o teatro. A existncia humana comporta-se semelhana de um drama, representado por mltiplos atores cujo enredo , para eles, inconsciente. Somente a revelao do drama pode transformar a existncia.

    A m etodologia psicodram tica leva em conta trs contextos: social, grupai, dramtico.

    O contexto da realidade social impe ao indivduo os papis que ele deve desempenhar.

    Define-se papel como a menor unidade de conduta, em que se fundem componentes individuais, sociais e culturais. O desempenho

  • dos papis anterior ao surgimento do "eu, pois o eu" emerge dos papis (MORENO, 1978). Os papis psicossom ticos so indispensveis sobrevivncia da criana; os papis psicolgicos ou psicodra- m ticos tm como funo a fantasia e o imaginrio e referem-se mais ao aspecto singular do psiquismo do sujeito; os papis sociais so delimitados pela sociedade na qual o sujeito interage.

    Todo papel exige a presena de um outro - o contrapapel - que, ao conter expectativas desse desempenho, denuncia as determinaes ideolgicas presentes na relao. A ideologia subjuga a espontaneidade e a criatividade do desempenho de papis mediante suas prticas e seus rituais. Por exemplo, mesmo antes de nascer, h uma expectativa de que a criana venha a ser um tipo de sujeito adequado configurao ideolgica familiar.

    O contexto grupai formado pelos integrantes do grupo, cujo vnculo se mantm atravs do que Moreno denominou tele. A noo de tele (palavra de origem grega, cujo significado refere-se a algo que est distante ou influncia distncia) significa a mtua percepo ntima dos indivduos. Derivou-se da experincia com o Teatro da Espontaneidade (inventado por ele) caracterizado pela improvisao do ator que, ao criar a forma e o contedo da dramatizao ao invs de trabalhar com a forma acabada de uma pea teatral, revelava, ao mesmo tempo, o drama da platia.

    O contexto dramtico formado pelo produto do protagonista, no qual as cenas, repletas de significados, aparecem como se" fossem a realidade. Este contexto caracteriza-se por cinco instrumentos fundamentais: protagonista (paciente ou grupo), cenrio, egos auxiliares, diretor ou terapeuta e auditrio. O cenrio o lugar em que se realiza a dramatizao, desempenhando-se papis em cenas que podem se modificar e alterar o tempo. Ego auxiliar o integrante da equipe teraputica, como um prolongamento do diretor, que contracena com o protagonista. Diretor o responsvel pelo psicodrama, deve iniciar a sesso teraputica, detectar o emergente grupai e identificar o protagonista. Auditrio consiste no conjunto de pessoas que esto no contexto grupai. Protagonista a pessoa que traz o tema para ser dramatizado. A noo de protagonista remonta tragdia grega, significando "o primeiro com batente" (ou o primeiro que enlouquece), um heri meio humano, meio divino, que voltava sua ao contra o destino. A

  • tentativa de controlar estas aes, que eram possudas por foras divinas, d sentido ao termo espontaneidade (cujo termo de origem latina significa vontade prpria), e resume os esforos do heri trgico.

    Na comunidade, o drama do protagonista, personagem central do enredo, o emergente do grupo (contexto grupai) e porta-voz do sofrimento coletivo (contexto social) ao criar conjuntamente a cena psico- dramtica (contexto dramtico).

    O protagonista est embasado no conceito de coinconsciente ou inconsciente comum, uma espcie de inconsciente social, como reservatrio de memria histrica gue condensa as tradies transmitidas por vrias geraes (NETO, 1985).

    A categoria drama remete ao sujeito concreto, individual ou coletivo, relacionado s variadas dimenses da trama social, historicamente construda. Nas cenas dramticas, ao serem focalizados os vnculos entre os papis, ocorre o processo teraputico de desalienao dos personagens, numa constante reflexo sobre aquilo que desempenham sem saber e aquilo que gostariam de ser. Na linguagem moreniana, seria a dialtica entre tomar o papel" ou cri-lo.

    O encontro, que significa comunicao com o outro ou comunicao existencial, prope o rompimento da conserva cultural pelo estmulo da espontaneidade/criatividade. A conserva cultural tudo aquilo que se cristaliza aps ser criado. Como produto do processo criativo, ela preserva os valores de uma cultura, ao mesmo tempo em que determina novas formas de expresso criativa.

    O psicodrama acredita que a inverso de papis, objetivando o encontro entre o Eu e o Tu, possibilite a um indivduo assumir o papel de um outro e recom por o sentido da unidade, da identidade e do perten- cimento ao grupo.

    A espontaneidade e a criatividade, estando estrategicamente unidas, ocupam lugar central na viso moreniana de cultura. Quando aplicadas ao fenmeno social, conferem iniciativa e mudana aos indivduos inter-relacionados.

    A espontaneidade impele o indivduo em direo resposta adequada nova situao ou resposta nova para situao j conhecida. "O universo criatividade infinita. A definio visvel de criatividade a criana" (MORENO, 1992, p. 151). A interao espontaneida- de-criatividade manifesta-se por meio de variados estados ou atos criativos: no parto, nas artes, nas invenes tecnolgicas, na criao de

  • instituies sociais, nas conservas sociais e nos esteretipos, assim como no esforo dispendido para o surgimento de nova ordem social.

    Para Moreno, o indivduo deveria usar seu potencial espont- neo-criativo na mutiplicidade de papis, constantemente em devir, no se deixando amarrar pelos laos que o fixariam na mesma forma de ser. Este convite a olhar, perceber e modificar a rigidez dos papis sociais, vistos como parte do contexto relacionai entre indivduo e sociedade, faz do psicodrama uma proposta de transformao permanente.

    A experincia comunitria traz em si o desafio do reconhecimento da alteridade a partir do respeito diferena desse outro, como nica possibilidade de encontro. Na vivncia de sujeitos concretos, ao desvelarem a expressividade e os significados de suas aes, os corpos se recriam. Grupos em atos ou gestos de todos, em comunho do sentir, so sinnimos de psicodramatizar.

    Psicodrama em ato numa comunidade

    O psicodrama vem sendo utilizado, desde 1993, em servios da rede municipal de Porto Alegre: Centro de Comunidade, Escola Aberta e Projeto de Educao Social de Rua. Estas iniciativas destinam-se ao atendimento socioeducativo de crianas e de adolescentes em situao de risco cujas caractersticas de vida precria - trabalho, profissionalizao, sade, escolarizao, habitao, lazer - colocam-nos em situao de dependncia das instituies assistenciais.

    O cerne dessas iniciativas est na trajetria das classes populares, da casa rua1, devido conjuntura socioeconmica e poltica que cria obstculos para que a famlia e a escola possam cumprir sua funo de subsistncia, de cuidado e de socializao. Tal socializao como processo de formao de valores, crenas, atitudes e padres de comportamento das crianas de determinados segmentos das classes populares, parece configurar uma cartografia da excluso. H urgncia de mapear o nomadismo institucional dessas crianas e desses jovens,

    1. Em Porto Alegre, recente pesquisa identificou 376 jovens em situao de rua como vendedores, cuidadores de carro ou mendigos. Da amostra de 197 sujeitos, 84,27% identificou a necessidade de subsistncia pessoal ou familiar como o motivo de estarem na rua. Destes, somente 50 seriam realmente de rua", no retomando a casa no final do dia, por se encontrarem em processo de rompimento de laos familiares (REIS et al., 1997).

  • ou seja, traar os movimentos de rompimento dos laos grupais que determinam sua mobilidade de pertencer ou no famlia, escola ou aos servios de atendimento assistencial. A dificuldade de vinculao com o prprio grupo de iguais, com os educadores ou com os tcnicos que os assistem to determinante para a no permanncia" quanto a inadequao das metodologias de trabalho dessas instituies.

    Atualmente, embora os direitos das crianas e dos adolescentes sejam debatidos em esferas do poder pblico e jurdico, nas reas da sade e da educao, seu carter polmico e contraditrio leva-nos triste constatao de que a cidadania dos jovens das classes populares est longe de ser alcanada. O pano de fundo destes debates continua sendo a manuteno de direitos distintos para classes sociais diversas.

    Enquanto o Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA) afirma a garantia da proteo integral a todas as crianas e a todos os adolescentes, concebendo-os como pessoas em desenvolvimento (BRASIL, 1993), anlises de nossa realidade denunciam a assistncia das polticas sociais, voltadas aos meninos e s meninas em situao de risco, como cidadania tutelada pelo Estado.

    A infncia e a juventude excludas estaro construindo sua cidadania de modo mais pleno quando participarem na discusso dos seus prprios direitos. Buscando esta construo, algumas estratgias de interveno em contextos que assistem a estes jovens focalizam o desenvolvimento das relaes interpessoais e sua influncia no imaginrio, tanto da instituio quanto da populao atendida.

    Psicodrama num centro de comunidade2

    Iniciou-se em agosto de 1993 o projeto poltico-pedaggico Jovem Cidado", desenvolvido em nove Centros de Comunidade com a finalidade de manter e ampliar a assistncia populao de baixa renda, nas regies perifricas da cidade, com base no ECA (FESC, 1993). O Conselho Tutelar da regio encaminhava os jovens envolvidos em situao de furto, drogadico ou violncia aos Centros para que recebessem atendimento socioeducativo.

    2. As reflexes desse item se referem dissertao de mestrado em Psicologia Social e da Personalidade (PUCRS) de Sissi Malta Neves, intitulada Psicodramatizando a construo da cidadania: o ser criana e adolescente em um centro de comunidade. Alguns aspectos deste estudo foram recentemente publicados (NEVES, 1997).

  • Na rea da psicologia, a direo do projeto apontava a necessidade de acompanhamento psicolgico que fosse adequado situao de vida da maioria dos jovens, assim como urgncia de atender grande demanda. As oficinas de psicodrama possibilitavam o atendimento so- cioeducativo desejado, em virtude de suas caractersticas diferentes de um grupo teraputico formal, pois no se apoiavam na dinmica individual dos sujeitos para sua incluso, mas no desejo de participao.

    As oficinas de psicodram a abordaram a socializao de crianas e de adolescentes em situao de risco a partir da percepo dos participantes guanto ao seu mundo de relaes interpessoais, e o conseqente aprendizado e desempenho de papis sociais face a seu cotidiano. Elas se caracterizaram como atos teraputicos cujo objetivo era promover maior integrao pessoal, alm do resgate da linguagem espontnea e criativa dos participantes, naquele encontro especfico.

    O referencial metodolgico das oficinas observou as etapas de uma sesso de psicodram a: o aguecimento, a dramatizao e os comentrios. O aguecim ento facilitou a interao grupai, pelo relaxamento, sensibilizao e ateno tarefa proposta. A dramatizao era a etapa da produo criativa, mediante recursos plsticos e dramticos, em que os participantes compartilhavam suas fantasias. Os com entrios integraram a escuta, a linguagem verbal e gestual. A integrao grupai aconteceu devido ateno e respeito fala do companheiro, estmulos entrega e confiana de cada um ao ser escutado pelos demais.

    A tcnica de inverso de papis foi uma experincia nova para os participantes das oficinas. Ao serem solicitados a dar voz a um desenho, ou a algo modelado na argila, ou mesmo a representar o papel de um colega de grupo, assumindo a existncia deste outro, falando e agindo como ele, desafiavam sua criatividade tantas vezes esguecida.

    Assim, recriavam psicodramaticamente como interagiam com as pessoas mais significativas para eles, conforme seu tom o social. Entende-se tomo social como o ncleo de todos os indivduos com guem uma pessoa est relacionada sentimentalmente, ou gue lhes esto vinculadas ao mesmo tempo (MORENO, 1972).

    A proposta de interveno psicossocial objetivava uma re-matriz de identidade para esses meninos e meninas. A matriz de identidade (MORENO, 1978) o primeiro processo de aprendizagem emocional da criana, no qual ela se relaciona com pessoas e objetos; geralmente esta matriz a famlia gue constitui a base do desempenho de papis.

  • A conscientizao dos papis desempenhados psicodramtica ou socialmente, na fantasia ou na realidade do contexto grupai, auxiliaria essas crianas a tomarem uma nova posio, pretendendo-se que, de sujeitos mais submissos, se tornassem sujeitos mais autnomos. Partia-se da convico de que a mudana na qualidade dos vnculos, dentro e fora do contexto grupai, favoreceria a alterao de sua autoima- gem, modificando seu tomo social.

    O resgate da histria individual de cada participante das oficinas foi possvel, mediante a investigao das redes sociom trcas. Estas so interconexes dos tomos sociais que revelaram os vnculos e as identificaes processadas nos grupos (MORENO, 1972). A sociom e- tra grupai, entendida como as relaes de atrao e de repulsa entre seus membros, foi averiguada em diversas atividades que demonstraram a constelao da rede afetiva existente.

    O instrumento do tom o social variava, podendo sua representao dar-se a partir de uma configurao de vnculos afetivos que se expressavam por meio de desenhos, de marionetes, da modelagem na argila, de brinquedos ou at da dramatizao. A avaliao do tom o social focalizava a criatividade de cada participante, os sentimentos despertados, as intromisses nos relatos e as manifestaes quanto a falar ou fazer determinada tarefa.

    A abordagem das relaes entre o tomo social e os papis sociais, desempenhados pelos sujeitos da pesquisa, permitiu visualizar os cdigos de participao e excluso em seu cotidiano familiar, escolar, religioso e do Centro de Comunidade. Os papis sociais relativos ao gnero, classe social, raa e ao imaginrio do mundo da rua, como espao no institucional, estavam repletos de sentido para as crianas e os adolescentes.

    A anlise dos papis sociais evidenciou que esses sujeitos so produzidos pela sua condio de classe social, de gnero, de etnia e que aprendem a ocupar os lugares, socialmente possveis, conforme os ensinamentos da escola, da religio, da famlia e at mesmo do Centro de Comunidade. A possibilidade' de tomar o seu papel, desempenh-lo ou cri-lo, depende da estrutura socioeconmica que os diferencia das camadas mais favorecidas, apenas quanto ao acesso a determinadas condies de subsistncia, lazer, educao e concretizao de projetos de vida futuros.

    Meninos e meninas demonstraram diferenas significativas quanto ao seu autoconceito, as quais aumentavam com a idade, de acordo

  • com os esteretipos sociais referentes ao gneio. A avaliao dos papis sociais relativos raa identificou a desqualificao nos comentrios das crianas e adolescentes no negros, dirigidos aos colegas de raa negra, embora admirassem manifestaes da cultura afro-brasileira (capoeira, pagode, dana e religio). Os papis sociais relativos religio reforavam a noo de identidade e autoestima destes jovens, conforme a religio a que pertenciam.

    Em relao ao contexto familiar, apareceu o modelo matrifocal como aquele que se organiza em torno da mulher, embora os papis de pai e me fossem demarcados em territrios prprios para cada gnero. Estava presente a necessidade de zelarem pelos irmos menores. Para eles, o cotidiano escolar era referncia para construo de projetos de vida futura.

    A rua aparecia como smbolo de liberdade, para onde se foge, alm de ser lugar de conflito e representao do abandono. O Centro de Comunidade, como um espao fora, de periferia, foi significado, por esses jovens, como sendo deles", onde encontravam muitas possibilidades, dentre elas, o resgate de novos papis sociais.

    Tanto a instituio assistencial como a famlia e a escola contm em si os princpios normatizantes e disciplinadores, responsveis pela excluso do convvio grupai. Como matriz cultural, necessitam de uma reestruturao, pois no esto mais conseguindo ser suporte afetivo para seus membros.

    Essas experincias mostraram que as oficinas de psicodram a auxiliaram na maior interao das crianas e adolescentes para se organizarem em outros espaos. A pedagogia de direitos se concretizou em virtude do reconhecimento de si e do outro, da escuta recproca, do respeito ao potencial criativo e da valorizao da fantasia. Consta- tou-se gue o primeiro ato de construo da cidadania sempre exige a trama de uma rede cultural entre os sujeitos.

    Psicodrama da escola que se abre

    A Escola Aberta referncia de lugar e de tempo para meninos e meninas gue fazem da rua lugar de sobrevivncia, em virtude de representar um corte no imediatismo de seus cotidianos.

    A presente interveno psicodram tica em uma escola aberta, sob forma de assessoria psicolgica aos professores, partiu da de

  • manda da instituio quanto ao desejo de refletir sobre suas prticas, reordenando seus propsitos, mediante a qualificao do atendimento e adequao de metodologias. Ao investigar a relao entre os papis sociais desempenhados pelos seus diversos atores, essa proposta avaliou o desenvolvimento do papel de educador, propiciando a conscientizao de sua postura profissional, de sua percepo dos contextos da escola e da rua como referncias de socializao, e da qualidade da relao estabelecida com os alunos e com os colegas neste fazer conjunto.

    A anlise institucional priorizou trs aspectos da interao entre seus membros: a com unicao, as determ inaes das relaes de p o der e o conhecim ento de si e do outro. Focalizou-se o desvelamento dos papis desempenhados pelos professores a partir da noo de identidade grupai, da percepo do que comunicar e a quem, e da capacidade de reconhecer quem este outro a quem se est vinculado e de como colocar-se diante dele.

    O estudo das relaes entre as vrias instncias hierrquicas da escola abordou a percepo da coordenao, professores e pessoal de apoio sobre a qualidade do vnculo entre eles e o existente com os alunos. Neste sentido, propunha-se uma nova configurao dos papis institucionais em sua totalidade.

    A m etodologia psicodram tica consistiu de recursos ldicos, das linguagens expressivas corporal e grfica, alm de jogos dramticos, centrando-se na ao como possibilidade de perceber o desenvolvimento dos papis e as caractersticas de seu desempenho em referncia criatividade e espontaneidade. Estabeleceu-se a matriz grupai que possibilitou cada vez maior envolvimento com as problemticas do cotidiano institucional por meio da criao conjunta de histrias, de desenho grupai, de sensibilizao corporal, de psicodrama interno e de cenas dramatizadas sobre o espao da escola.

    Quanto relao educador-educando observou-se que a vivncia subjetiva do tempo e do espao, prpria da classe social do educador, como trabalho e projeto de vida, induz a preconceitos relativos sobrevivncia dos jovens na rua. As expectativas dos professores, quanto s diferenas do ser masculino ou ser feminino (papel de gnero), so geradoras de dificuldades em lidar com questes referentes ao poder e sexualidade no cotidiano escolar. A insuficiente rede de assistncia aos alunos provoca ansiedade e depresso nos educadores devido ao fato de terem de trabalhar com os temores dos educandos di

  • ante das doenas sexualmente transmissveis e dos efeitos das drogas de que fazem uso.

    A escola, com o espao pedaggico, necessita de uma linguagem comum entre coordenao, professores, funcionrios e guardas que construa cdigos de pertencimento e excluso dos alunos diferentes daqueles da rua, para no se reproduzir a dinmica perversa do contexto social. Os professores e alunos percebem a peculiaridade desta escola pela importncia dada reflexo da ao pedaggica.

    Com relao s m etodologias de ensino constatou-se que a metodologia ldica e corporal da assessoria identificada como responsvel pelo crescimento grupai, embora o educador, muitas vezes, no reconhea esse resultado em sua prtica por desconsiderar a resposta do grupo como um espelho.

    Psicodrama no projeto Educao Social de Rua

    O projeto propunha a vinculao de educadoras com as crianas e os adolescentes em situao de rua para que retomassem os laos institucionais em processo de rompimento.

    Inicialmente, a sensibilizao do estai na rua possibilitou desvelar o imaginrio das educadoras acerca deste processo. O grafodrama, tcnica do desenho em psicodrama, explorou a dinmica das relaes sociais estabelecidas em uma das praas abordadas pela equipe. Partindo da noo de rua, como palco do social, recorreu-se metfora de um espetculo teatral e seus diferentes atores como sendo os transeuntes e freqentadores em interao. Foram abordadas as determinaes existentes entre o espao pblico e privado de cada agente social implicado nesta dinmica. Concluiu-se que cada ator social desempenha um papel que est ligado a algum gue com ele contracena e que a educadora social de rua, para a inserir-se, deve saber ler estas relaes que no esto explcitas, na maioria das vezes. Avaliou-se, tambm, como cada educadora sentiu o seu estar na rua diante das situaes especficas dos vrios pontos em que atuava.

    O relacionam ento da equipe foi investigado, revelando-se como os participantes percebiam seu trabalho, pelo recurso da sociometria, enquanto fenmeno grupai que demonstrava as atraes e rejeies estabelecidas entre seus componentes.

  • Alguns temas foram dramatizados, como o modelo de famlia que a educadora possui internalizado e aquele que possuem as crianas e adolescentes com as quais trabalhava. Apareceram cenas contrastantes da famlia da rua com o m odelo esperado de famlia mantido de forma inconsciente pelas educadoras, os quais so geradores de dificuldades na vinculao com estes jovens. A famlia, em sua funo de socializao primria dos indivduos, instala controles sociais que so repetidos em outros espaos de convivncia. Refletiu-se sobre este fenmeno, compreendendo-se que ele no era decorrente do espao fsico interno ou externo das instituies, mas estava relacionado ao mundo afetivo desses indivduos, sua capacidade de vincular-se.

    Esta experincia demonstrou que a identidade do educador social de rua ser construda por meio de uma reformulao, no somente conceituai, mas vivencial, da prpria postura relativa instituio e ao estar na rua.

    ltimo ato

    Os trs contextos institucionais focalizados nesta anlise mostraram que so importantes referncias de laos afetivos na relao estabelecida entre a assistncia e o excludo. Nesses palcos, cenas da comunidade expressaram o drama do vnculo. Alguns protagonistas teciam os fios que os ligavam, outros, sem que percebessem, saam da rede como se desnecessria fosse a sua sobrevivncia.

    Finda o espetculo. As cortinas se fecham. As luzes se apagam. Que os espectadores voltem a casa ou rua sentindo que o teatro, como dizia Brecht, , ainda, o ensaio da revoluo.

    Sugesto de leituras

    Para saber mais sobre psicologia em comunidade altamente recomendvel a leitura da coletnea que apresenta reflexes do grupo de trabalho em psicologia social comunitria da Associao Nacional de Pesquisa e Ps-Graduao em Psicologia (Anpepp) organizado por Regina Helena de Freitas Campos, Psicologia social comunitria: da solidariedade autonomia, tambm publicado pela Vozes, em 1996. Convm, igualmente, consultar a revista Psicologia e Sociedade, que

  • vem sendo publicada pela Abrapso, uma vez que ali se encontram diversos trabalhos que focalizam essa temtica. Para saber mais sobre interveno psicodramtica nas comunidades destaca-se o livro de Romana (1987) sobre Psicodrama pedaggico que resgata, no palco educacional, a afetividade e a capacidade simblica presentes no ato de aprender, reconstruindo experincias individuais e coletivas, tanto de educadores quanto de alunos. H um pequeno nmero de experincias em instituies assistenciais com segmentos de classes populares, destacando-se o atendimento em creche (FRANCO, 1984), o trabalho com grupos de mulheres da periferia (VIEIRA, 1988), e a preparao para o parto com grupos de grvidas (PAMPLONA, 1990). Ainda mais raras so aquelas relativas s populaes excludas, sejam prostitutas (SOUZA, 1984), sejam meninos ou meninas em situao de rua (RAMOS, 1994). Vale a pena examinar os Anais do 7o Congresso Brasileiro de Psicodrama - Psicodramatizando, realizado no Rio de Janeiro, em 1990.

    Bibliografia

    BERNARDES, N.M.G. GUARESCHI, P.A. El saber-actuar de la psicologia y la comunidad: reflexiones producidas desde um lugar latino-americano. Inter- vencin psicosocial. Madri, vol. 1, n. 1, p. 67-77, 1992.

    BRASIL, D.F. Congresso Nacional. Estatuto da Criana e do Adolescente. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispe sobre o Estatuto da Criana e do Adolescente, e d outras providncias. Porto Alegre, Centro Social Pe. Joo Calbria, 1993.

    CAMPOS, R.H. de Freitas (org.). Psicologia social comunitria: da solidariedade autonomia. Petrpolis: Vozes, 1996.

    FESC - Fundao de Educao Social e Comunitria/Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Projeto de ampliao e qualificao do atendimento a crianas e adolescentes nos centros de comunidade da FESC. Porto Alegre, ago., 1993.

    FRANCO, V.L. Psicodrama e periferia. In: Congresso Brasileiro de Psicodrama. 4.1984, guas de Lindoia. Revista da Febrap. Anais. Campinas, Federao Brasileira de Psicodrama, ano 7, n. 4,1984, p. 81-85.

    FREITAS, M. de F.Q. Psicologia na comunidade, psicologia da comunidade e psicologia (social) comunitria: Prticas da psicologia em comunidade nas

  • dcadas de 1960 a 1990, no Brasil. In: CAMPOS, R.H. de Freitas (org.). Psicologia social comunitria: Da solidariedade autonomia. Petrpolis: Vozes, 1996, p. 54-80.

    GIS, C.W. de L. Noes de psicologia comunitria. Fortaleza: Edies UFC, 1993.

    LANE, S. Psicologia da comunidade - histria, paradigmas e teoria. In: Congresso Brasileiro de Psicologia da Comunidade e Trabalho Social - Autoges- to, participao e cidadania, 1. 1992. Tomo 2. Belo Horizonte, Anais, ago., 1992, p. 49-53.

    MORENO, J.L. Quem sobreviver? Fundamentos da Sociometria, Psicotera- pia de Grupo e Sociodrama. Vol. 1. Goinia: Dimenso, 1992.

    ______. Psicodrama. So Paulo: Cultrix, 1978.

    _____ . Psicoterapia de grupo e psicodrama. So Paulo: Mestre Jou, 1974.

    ______. Psicodrama. Buenos Aires: Horm S.A.E., 1972.

    NAFFAH NETO, A. Poder, vida e morte na situao de tortura. So Paulo: Hu- citec, 1985.

    NEVES, S.M. Os papis sociais e a cidadania. In: Zanella et al. (org.). Psicologia e prticas sociais. Porto Alegre: Abrapsosul, 1997, p. 39-59.

    ______. Psicodramatizando a construo da cidadania: o ser criana e adolescente em um centro de comunidade. Porto Alegre, PUCRS, 1995. Dissertao (Mestrado em Psicologia Social e da Personalidade). Instituto de Psicologia, Pontifcia Universidade Catlica do Rio Grande do Sul, 1995.

    PAMPLONA, V. Mulher, parto e psicodrama. So Paulo: gora, 1990.

    RAMOS, E. Meninos de rua: Problema sem soluo? Revista Brasileira de Psicodrama. So Paulo, vol. 2, fascculo 1, 1994, p. 87-94.

    REIS, C.N., PRATES, J., PRESTES, N. &NEVES, S.M. Meninos e meninas em situao de rua em Porto Alegre: Quem so? Qual seu modo de vida? Relatrio de pesquisa. Fundao de Educao Social e Comunitria/Prefeitura Municipal de Porto Alegre/Faculdade de Servio Social/Pontifcia Universidade Catlica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, jan., 1997.

    ROMANA M. Construo coletiva do conhecimento atravs do psicodrama. Campinas: Papirus, 1992.

    SOUZA, J.C.M. A carreira de prostituta ou leitura psicodramtica da prostituio. In: Congresso Brasileiro de Psicodrama. 4.1984, guas de Lindoia. Re

  • vista da Febrap. Anais. Campinas, Federao Brasileira de Psicodrama, ano 7, n. 2, 1984, p. 90-99.

    VIEIRA, L.M. O mtodo do psicodrama: Anlise de aspectos de dominao e submisso nas relaes familiares, A Partir de uma experincia com mulheres que vivem na periferia da cidade de So Paulo. In: Congresso Brasileiro de Psicodrama. 6.1988. Tomo 3. Salvador. Anais, Salvador, Federao Brasileira de Psicodrama, p. 39-42.

  • NDICE

    Sumrio, 5

    Prefcio, 7

    Apresentao, 9

    Introduo, 13

    PARTE 1 - Pressupostos 17 Histria, 19

    Algumas rpidas palavras sobre histrias, 19 Um passeio pela psicologia social no Ocidente, 21

    a) O "Repdio positivista de Wundt, 21b) O longo passado e o curto presente da psicologia", 23c) Formas e formas de contar histrias da psicologia social, 24

    Psicologia social no Brasil, 30Indicaes de leituras dos desdobramentos e atravessamentos te

    ricos, 31Bibliografia, 33

    Epistemologia, 36A crise e a perda de confiana na epistemologia, 37Novos espaos, novos paradigmas, 42Sugesto de leituras, 46Bibliografia, 47

    tica, 49Introduo, 49tica, o que isso?, 50O paradigma da lei natural, 50

  • 0 paradigma da lei positiva, 51 tica como instncia crtica, 52

    a) A dimenso crtica e propositiva, 53b) A dimenso da relao, 54

    Concluso, 56Leituras complementares, 56 Bibliografia, 57

    Indivduo, cultura e sociedade, 58 Indivduo e sociedade, 59 Cultura, indivduo e atividade, 60 Outros enfoques sobre a relao indivduo-cultura, 64 A cultura, o eu e as atividades, a emoo e a motivao, 66 Consideraes finais, 69 Leituras complementares recomendadas, 71 Bibliografia, 71

    Pesquisa, 73Definindo a atividade de pesquisa em psicologia social, 74 Decorrncias metodolgicas, 77Alguns modos de pesquisar: a pesquisa-ao e a pesquisa partici

    pante, 80Sugesto de leituras, 83Bibliografia, 83

    PARTE 2 - Temticas 87 Ideologia, 89

    Ideologia: domando um conceito amplo e complexo, 89Juntando as duas linhas, 93Um modo prtico de se tratar a ideologia, 94

    a) Ideologia como uma concepo crtica, 96b) Sentido e formas simblicas, 96c) O conceito de dominao, 97

  • d) Modos e estratgias como o sentido pode servir para estabelecer e sustentar relaes de dominao, 97

    e) A valorizao das formas simblicas, 99 Concluso, 101Leituras complementares, 101 Bibliografia, 102

    Representaes sociais, 104 Como nasceu esta teoria?, 104 Mas o que so as representaes sociais?, 105 Para que estudamos as RS?, 107 Por que criamos as RS?, 108Qual a diferena entre representaes sociais e outras teorias?, 109Que relaes se podem estabelecer entre o estudo das RS e ideolo

    gia?, 111Como investigamos as RS?, 112Consideraes finais, 114Leituras complementares, 115Bibliografia, 115

    Linguagem, 118O que a linguagem?, 118A linguagem segundo Vygotsky e Bakhtin, 120 guisa de concluso para o momento? 130Leituras complementares, 130Bibliografia, 131

    Conhecimento, 133Para uma perspectiva ecolgica da cognio, 136

    a) As instituies sociais como sistemas cognitivos, 137b) As instituies pensadas como tecnologias intelectuais, 138

    O conhecimento como rede sociotcnica, 140Leituras complementares, 143

  • Bibliografia, 144 Comunicao, 146

    Comportamentalismo, 147 Cognitivismo, 148 Psicanlise, 149 Teoria crtica, 150 Consideraes finais, 155 Sugesto de leituras, 156 Bibliografia, 157

    Identidade, 158

    Como os autores conceituam a identidade?, 159 Como se constitui a identidade?, 160

    Que outras dicotomias superar para compreender a identidade?, 162 O que a identidade e no ?, 163 Leituras complementares, 164 Bibliografia, 165

    Subjetividade, 167Do passado ao presente, 167 Do presente ao futuro, 174 Das escolhas, 177 Sugesto de leituras, 177 Bibliografia, 178

    Gnero, 180Sexo e gnero, 181A questo da hierarquia de gnero, 184 Variaes em gnero atravs das culturas, 185 O que subordinao e como se expressa?, 187

  • Teorias sobre a hierarquia de gnero, 188O homem caador: subordinao baseada nas origens huma

    nas, 188O complexo da supremacia masculina: a guerra e o controle

    populacional, 189Teorias ligadas sociobiologia, 190Teorias estruturalistas, 190A subordinao como um processo histrico, 190O gnero na psicologia, 193Leituras complementares, 195Bibliografia, 196

    O processo grupai, 198A preocupao com o grupo, 199Grupo ou processo grupai, 200Como funciona o processo grupai, 202 guisa de fechamento, 203Sugesto de leituras, 204Bibliografia, 204

    Psicologia poltica, 206Psicologia poltica ou psicologia da poltica, 209Um pouco de histria, 211A psicologia poltica na Amrica Latina e no Brasil: uma breve no

    tcia, 213Sugesto de leituras, 215Bibliografia, 216

    PARTE 3 - Experincias 219 Psicologia social e escola, 221

    Psicologia e educao: uma longa histria, 222 Psiclogo escolar - Tcnico da Educao, 224 O psiclogo na escola - Para alm da funo tcnica, 225

  • Sugesto de leituras, 227Bibliografia, 228

    Psicologia social no trabalho, 230Para alm dos modos tradicionais de fazer psicologia em relao

    ao trabalho, 232Alguns exemplos do fazer psicologia em relao ao trabalho, 235 Consideraes finais, 237 Sugesto de leituras, 238 Bibliografia, 239Psicologia social e comunidade, 241

    Abordagem do psicodrama, 242Psicodrama em ato numa comunidade, 245 Psicodrama num centro de comunidade, 246 Psicodrama da escola que se abre, 249 Psicodrama no projeto Educao Social de Rua, 251 ltimo ato, 252 Sugesto de leituras, 252 Bibliografia, 253

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