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  • 11 Parte do presente artigo baseado numa conferncia que realizei a28-10-2000 em Braslia, na Reunio Anual da Sociedade Brasileirade Psicologia.

    2 Endereo: Rua da Consolao, 3617 ap. 42,. CEP: 01416-001 - SoPaulo, SP. E-mail: aengelmann@attglobal.net

    3 Aparelho com clares regulares e com espaos para a insero derepresentaes estticas que permitem a iluso de percepo de mo-vimento ao se mover rapidamente. O movimento percebido chama-do de estroboscpico.

    Psicologia: Teoria e PesquisaJan-Abr 2002, Vol. 18 n. 1, pp. 001-016

    A Psicologia da Gestalt e a Cincia Emprica Contempornea1

    Arno Engelmann2

    Universidade de So Paulo

    RESUMO - Wertheimer realizou um experimento que era explicado seguindo-se fatores holsticos gestlticos, e isto h maisde noventa anos. Apesar disso, estudos recentes demonstram a vivacidade desse tipo de explicao. Basicamente, ao se obser-var coisas do mundo, observa-se suas formas ou melhor suas Gestalten. A seguir, pode-se dividir essas Gestalten em partes.Porm cada parte ser sempre parte daquela Gestalt que lhe deu inicio e no um elemento constituinte bsico. A teoria daGestalt no exclusivamente psicolgica, como o demonstraram principalmente Wertheimer, Khler e Koffka. Iniciou-se comum experimento sobre a viso de movimentos correspondendo a estmulos estticos, mas continuou propondo-se inclusive, deum lado, uma Gestalt fsica formada da corrente eltrica gestlticas dentro de um condutor ou, de outro, uma Gestalt sociol-gica formada de muitos seres humanos, como o danar de pares ao som de um samba realizado por um grupo de msicos.

    Palavras-chave: Psicologia da Gestalt; teoria da Gestalt; epistemologia; histria da psicologia; teoria geral de sistemas.

    Gestalt Psychology and Empirical Contemporaneous Science

    ABSTRACT - Although there has passed ninety years since Wertheimers first thought to demonstrate through Gestalt expla-nation experimental psychology problems, the Gestalt holistic approach continues now-a-days strongly in light. In looking atthe world, the Gestalten is the first happening. Then, through divisions, parts can be formed. But these parts are always partsfrom a formative Gestalt and not basic elements. The Gestalt approach is not exclusively psychological but rather largelyempirical, as mainly Wertheimer, Khler and Koffka have demonstrated. The beginning was a motion visual experiment inwhich the stimuli were static. Later Gestalt problems could be physical electric charge structure in conductors, on one side, ora sociological super-psychological Gestalt composed of dancing couples and to musicians playing a samba, on the other side.

    Key words: Gestalt psychology; gestalt theory; epistemology; history of psychology; general system theory.

    No outono de 1910, isto quer dizer na nossa primavera,Max Wertheimer estava de frias viajando num trem de Vie-na para a Rennia. No caminho olhou para um sinal ferrovi-rio que continha duas lmpadas. Uma lmpada se acendiae pouco depois se apagava. Aps um tempo bem pequeno, aoutra lmpada passava pelo mesmo processo. Depois, nova-mente a primeira lmpada se acendia e apagava, e assim pordiante. As pessoas que olhavam para o arranjo, inclusive oprprio Wertheimer, viam apenas uma luz que ia continua-mente no espao entre as duas lmpadas, para um lado e aseguir para o outro.

    Wertheimer ficou to excitado com o que viu, que pen-sou na possibilidade de um experimento a respeito. Desceudo trem ao passar por Frankfurt, comprou cartolinas e umestroboscpio3 numa loja de brinquedos na cidade, alugouum quarto num hotel e comeou a construir l mesmo algu-mas figuras em duplicidade que deixassem a luz passar numtempo muito curto. Se a luz se acendesse e se apagasse numafigura e a seguir se acendesse e apagasse na outra, com in-

    tervalo entre eles de mais ou menos 60 milissegundos, en-xergava-se apenas a figura indo de um lugar para outro.

    Estando em Frankfurt, telefonou para o Instituto de Psico-logia da Academia Comercial. Explicou seus problemas ex-perimentais a Wolfgang Khler, que trabalhava h poucotempo na Academia. Khler arranjou um espao paraWertheimer no laboratrio, arrumou um aparelho que permi-tisse a viso muito rpida de figuras e serviu-lhe como sujei-to. Mais tarde, Khler contou a Koffka, que tambm traba-lhava na mesma Academia, o experimento de Wertheimer.Koffka foi o segundo sujeito e sua esposa, Mira Klein-Koffka,o terceiro. Depois Wertheimer utilizou alguns outros sujeitossem treino de observao. O chefe do laboratrio, FriedrichSchumann, ao se inteirar do experimento convidou Werthei-mer a trabalhar oficialmente no laboratrio (Ash, 1995;Wertheimer, 1912/1961; Wertheimer, Michael, 1970/1979.)

    A percepo de um movimento diante de duas luzes r-pidas e estticas em localizao diferentes, separadas porum tempo relativamente curto, fora descoberto em data bemanterior. Fora observado na primeira metade do sculo XIXpelo fsico Plateau. O experimento de Plateau foi repetidocom descargas eltricas por Exner em 1875. Exner foi a pri-meira pessoa a representar o movimento aparente como aque-le no qual os estmulos no so nem lentos demais nem cur-tos demais. Bem mais tarde, o mesmo Exner foi professorde Wertheimer na Universidade de Praga. Houve tambmum grande nmero de pesquisadores que repetiram, e me-lhoraram, a percepo das iluses de movimentos. nessa

  • 2 Psic.: Teor. e Pesq., Braslia, Jan-Abr 2002, Vol. 18 n. 1, pp. 001-016

    A. Engelmann

    poca que em dezembro de 1895 os irmos Lumire exibi-ram pela primeira vez aquilo que se iria configurar numanova arte: o cinema. O cinema realmente uma sucesso defotografias estticas que so apresentadas com uma rapideztal que as pessoas que as assistem vm, no uma srie defotografias, mas os movimentos contnuos no tempo. Noentanto, a enorme pluralidade de movimentos encontradosentre uma fotografia e a seguinte no permite a perfeita rea-lizao de investigaes psicolgicas (Ash, 1995; Sekuler,1996.)

    A facilidade do experimento de Wertheimer que os es-tmulos so extremamente simples, a ordem em que so apre-sentados utilizam controle de tempo (veja a Figura 1). Quan-do dois estmulos so apresentados com um intervalo entreeles de 200 milissegundos, os observadores vem umpercepto4, seguido de um intervalo e finalmente um segun-do percepto sucesso. Quando o intervalo entre as duasapresentaes for curto, de 30 milissegundos, ento os ob-servadores vem dois perceptos ao mesmo tempo simul-taneidade. Entretanto, quando o intervalo entre as duas apre-sentaes for ao redor de 60 milissegundos, os observadoresvem um percepto movimentando-se da primeira localiza-o para a segunda movimento chamado de timo. Oimportante nesse movimento que entre o primeiro estmu-lo na primeira localizao e a segundo estmulo na segundalocalizao, h um tempo no qual no existe qualquer est-mulo. Apesar disso, o sujeito ignora a correspondncia entrea estimulao fsica e o percepto. O movimento, sem repre-sentante na estimulao, foi chamado de movimento fi. muito interessante que indivduos eram impotentes de dis-tinguir se o fato existente da apresentao teria sido movi-mento real ou aparente.

    Ao publicar um artigo em 1912, Wertheimer discutiu asteorias que poderiam ser utilizadas para explicar o movimentofi. Descartadas diversas interpretaes tericas, como porexemplo, que seriam traos, que seriam iluses de julgamen-to, todas elas com falhas na explicao, apresentou a solu-o que achava a melhor. Tratar-se-ia de um processo total econtnuo visto como uma Gestalt5. todavia importante,como disse Wertheimer em suas aulas de 1913, que osperceptos de objetos individuais eram Gestalten6 e o perceptodo relacionamento entre os diversos objetos individuais per-cebidos era tambm uma Gestalt (Ash, 1995; Sekuler, 1996;Wertheimer, 1912/1961.)

    O que se entende pela palavra Gestalt? O substantivoalemo Gestalt, desde a poca de Goethe, apresenta doissignificados algo diferentes: (1) a forma; (2) uma entidadeconcreta que possui entre seus vrios atributos a forma. osegundo significado que os gestaltistas do grupo, que poste-riormente vai se chamar de Berlim, utilizam. por isso quea traduo da palavra Gestalt no se acha nas outras ln-guas e a melhor maneira encontrada pelos prprios gestaltis-tas ao escrever em idiomas diferentes simplesmente mant-la (Engelmann, 1978c; Khler, 1929/1947.)

    Wertheimer disse, nos anos que se seguiram a 1912, queas Gestalten so basicamente diferentes do que se chamavana poca de sensaes. As Gestalten, percebidas em primei-ro lugar, podem ser decompostas em partes. Mas as partesso sempre partes da Gestalt formadora. Est completamen-te errada a sentena, atribuda falsamente aos gestaltistas, deque o todo mais do que a soma dos elementos. A psico-logia da Gestalt diferente daqueles que falam em soma deelementos. Pelo contrrio, a Gestalt, de incio, vai ser divi-dida em partes. A Gestalt anterior existncia das partes.A determinao de cima ou descendente e no de baixo ouascendente. Se examinarmos, por exemplo, os desenhos apre-sentados na Figura 2 veremos, em primeiro lugar, as Gestaltenque poderamos chamar de linha ziguezagueante e de cr-culo. A seguir, olhando para as partes dessas Gestalten, noprimeiro caso veremos pequenas retas e no segundo casouma circunferncia incompleta. uma soluo que invertetudo o se fazia, e o que muita gente ainda faz, ao descreverteoricamente os acontecimentos. Esta foi a soluo deWertheimer e a soluo de seus primeiros companheiros-sujeitos, Koffka e Khler, na explicao do percepto demovimento aparente e na explicao de todos os outros ex-perimentos de psicologia (Arnheim, 1986; Ash, 1995; Khler,1944; Wertheimer, 1924/1938a.)

    muito importante que Wertheimer no acreditava ape-nas na teoria da Gestalt quanto aos acontecimentos consci-entes, mas acreditava igualmente na teoria da Gestalt funci-onando em sua base fisiolgica. Os processos fisiolgicoscentrais no poderiam ser vistos como soma de elementos,mas

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