pseudo&cult #2

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Revista independente produzida pelo pessoal que participa do Encontro Skoob realizado, quinzenalmente, em cafeterias de Porto Alegre. Contos, quadrinhos, poesias e muito mais.

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  • Encontrei a vida de algumEm meu caminho para o trabalhoEstava l, atirada no choUma vida simplesDe trabalho duroPara alimentar os filhosQue hoje no tero leiteEncontrei o sonho de algumDurante o horrio de almooEsquecido sobre uma mesaO sonho distanteDe ir para a o exteriorVisitar a DisneyQue nunca se realizarEncontrei o medo de algumQuando voltava para casaSozinho, no banco da praaMedo por um ente queridoEnfermo, em estgio finalMedo de no poder fazer nadaDe ser apenas humano

    Poesia ---------------------

    Paulo Diovani

  • mame disse que no queria saber onde tnhamos escondi-do o seu corpo. fica mais fcil pra esquecer, meninos. mas o tnhamos enterrado no fundo da propriedade, depois do bosque de cidrelas, pouco antes do rio. se ela pensasse um pouco, saberia. era o mesmo lugar que tnhamos enterrado Toby e Bailarina, nossos labradores, Mamo e Lisa, os caseiros, e o Velho Pael, nosso vizi-nho. ela nos pediu, ento, pra que a deixssemos na estante. encaixei-a entre os livros que eram de papai e a estatueta de Gibraltar. no se preocupem, quero ficar sozinha um pouco. t certo, mame. falei. Andr e eu comeamos a fechar as cortinas da biblioteca, uma por uma. o silncio artificial do meu irmo era notvel. depois de termos escondido o ambiente da lua que entrava pelas vidraas, desli-gamos as luzes. sem me esperar, Andr saiu porta fora. passou reto pela sala, e, sem olhar para trs uma nica vez, sumiu no corredor que levava cozinha. deixei-o, ele sempre foi emotivo demais. fechei a porta da biblioteca com toda calma do mundo e girei a chave duas vezes. co-

    No bolso interno do palet

    Conto--------------------- Diego Saldanha

  • loquei-a no nico bolso desocupado de dentro do palet. dirigi-me, ento, cozinha. do corredor, avistei Andr sen-tado na beirada da mesa. tinha aquele semblante distante, como se os pensamentos lhe fossem mais pesados e vvidos que qualquer fragmen-to de realidade. dos olhos vazios e vermelhos deduzi que havia chorado. mas eu no concebia o motivo para tal coisa. descansou o copo de us-que sobre a mesa e amassou o cigarro com a mo esquerda. tu acha isso tudo certo, Diogo? ele me interrogou, hostil, da mesma forma que fizera duran-te a nossa infncia, quando eu, culpado por ter as mos pequenas de-mais, derrubava tudo o que lhe era estimado e frgil. permaneci quieto, apenas observei sua ira descabida se dirigir a mim. no havia, em hip-tese alguma, motivo para ele estar daquela maneira. eu nem ningum havamos feito alguma coisa errada. ein? tu acha isso certo ou no? foi ela que pediu pra que a deixssemos na biblioteca, An-dr. eu respondi, por fim. ele saltou da mesa e veio na minha direo. agarrou-me pelo pescoo, como j havia feito em alguns ataques de raiva. no disso que eu estou falando, seu imbecil! empurrei-o. eu no era mais a criana de antes. depois que papai morreu, eram minhas as maiores mos da casa. olhou-me nos fundo dos olhos e voltou mesa. engoliu a bebida sem ao menos respi-rar e voltou at mim novamente. vem c! pegou-me pelo brao e me puxou at a sala. paramos na frente da porta de madeira da biblioteca.

    Conto--------------------- Diego Saldanha

  • olha isso! apontou pra fresta de baixo da porta. pequenas ondas de luz, ora azuladas, ora esbranquiadas, saam por ali. a mame. eu disse. Andr levou as mos cabea. que tipo de doente tu , Diogo? como tu consegue agir com essa naturalidade toda frente a uma coisa dessas? como, alis, tu tiveste coragem de fazer tudo o que tu fizeste essa semana? eu no havia feito nada sozinho, mas no ia entrar em dis-cusso por um simples descuido na construo da frase. era pro bem da mame. falei. Andr me esmurrou. desabei sobre a guarda do sof e uma gil corrente de sangue comeou a convergir do meu nariz para a minha boca. desculpa, Diogo, desculpa. ele disse, transtornado. enquanto eu me recompunha, ele veio pra cima de mim no-vamente, mas sem me tocar. me d a chave da biblioteca. pra qu? aquilo no nossa me. que tu vai fazer, Andr? aquilo no nossa me. repetiu. me d a merda dessa chave! j de p, levei a mo dentro do palet. ele mantinha a mo estendida, espera. eu sempre cedia s suas splicas, ou melhor, s suas exigncias inequvocas de irmo mais velho. me d o brinquedo que

    Conto--------------------- Diego Saldanha

  • tu pegou da minha caixa, ele meu. tu j comeu teu bombom, abre a mo, Diogo, esse a que tu pegou a me comprou pra mim. olha o que tu fez, como tu vai querer que algum goste de ti desse jeito? tu tem merda na cabea? no bolso direito de dentro do palet, a chave. levei a mo ao esquerdo e saquei de l o punhal de rubis. enfiei-lhe o objeto no seu peito, como instrura o homem que mame conheceu em Gibraltar. enquanto a figura estampada no cabo do punhal, idntica estatueta da biblioteca, banhava-se de sangue, Andr caiu de joelhos no cho. agar-rou-se imediatamente s minhas pernas e ergueu aqueles olhos grandes e redondos, negros e foscos, suplicantes, minha cara. desvencilhei-me do seu corpo agonizante, o procedimento no poderia durar mais que alguns minutos. ao dar as costas, suas mos, agora to mnimas, numa ltima tentativa desesperada, grudaram-se nos meus sapatos. chutei-as. fui em direo estante onde depositara nossa me, e, atrs dos livros do papai, peguei a segunda garrafa de cristal. o que tu pegaste, meu filho? perguntou-me a voz dela, metlica, vinda da luz oscilante da primeira garrafa, justaposta estatueta. Andr quer te fazer companhia. respondi. jamais deixaria mame se sentir sozinha naquela biblioteca.

    Conto--------------------- Diego Saldanha

  • Foto - Moacir Lopes

  • Skoober---------------------

    Aline Santos

    Nosso grupo multifacetado, alguns du-vidam mas isso a, cada Skoober traz aos encontros, particularidades que interligam a galera deixando todos em sintonia. o caso de Zuleica Lima Ja-roszewski, 60 anos, uma das integrantes mais antenadas do cl. Moradora de Porto Alegre e apreciadora da natureza, Zuleica uma leitora voraz (caracterstica herdada do pai, que priorizava o hbi-to), tanto que precisou adquirir um Kobo pois a bolsa no acomodaria o nmero de livros que ela gostaria de carregar.

    Buscando no leitor digital da skoober, podemos encontrar um pou-co de Guerra e paz, Os Fantoches de Deus, algumas pitadas de Sand-man e um molhinho especial incluindo Asimov e Tolsti (ufa! Isso o que chamo de engorda literria!). Alm da leitura, cuja preferncia abrange ensaios e fico, a integrante curte escrever.

    Mas como essa diva chegou ao grupo? Ela conta que foi por inter-mdio do Lucas Zingano (valeu Luco!) e a cafeteria da Praa Otvio Rocha, cenrio do seu 1 encontro com o pessoal, ficou guardada em seu corao.

    Pra finalizar, a Skoober cita para ns um trecho de James Hilton que segundo ela, traduz seu sentimento pelo Skoob. O esforo em agrupar, em comunicar e criar comunidades uma meta linda. Quer saber mais sobre a Zuleica? Puxa papo na prxima! Vai ser uma troca de conhe-cimento e tanto.

    Perfil Zuleica

  • Dirio de Viagem----------------------- Roberto Caloni

    Sempre tive vontade de fazer um mochilo viajando por vrios lugares, mas quando pensava nisso achava que iria gastar muito dinheiro. Come-cei a acompanhar blogs de mochileiros e ver suas dicas. Li uma matria sobre um portugus que viajou pela Europa gastando um euro por dia, ou seja, com menos de quatro reais. Quando li pensei que era loucura. Que era impossvel. Ele viajou trabalhando como voluntrio em fazen-das, hostel, bares, escolas, em qualquer lugar que estivesse precisando de alguma ajuda. Em troca do trabalho ele recebia abrigo e alimentao. Gostei muito dessa ideia e resolvi pesquisar como poderia fazer o mesmo.

    Encontrei trs sites bem legais. O WWOOF (wwoof.net), para traba-lhar em fazendas orgnicas, o Help Exchange (helpx.net) e o Workaway (workaway.info) onde voc encontra qualquer tipo de voluntariado. Am-bos os sites funcionam da mesma maneira, voc paga um valor para criar seu perfil e poder procurar por hosts (como so chamadas as famlias que recebem os voluntrios). Aps isto, basta voc procurar pelas famlias, enviar uma mensagem para a que gostar e esperar a resposta. O objetivo dos sites proporcionar a troca de experincias, tanto para os viajantes quanto para os hosts, pois os voluntrios tm a oportunidade de conhecer novos lugares e as famlias ganham um par de mos extras para ajudar. O

    Experincia como voluntrio

  • objetivo um ajudar o outro, a troca. Algumas horas de trabalho (ge-ralmente cinco) por dia em troca de um lugar para dormir e alimentao.

    Achei a ideia incrvel! Optei pelo Workaway, pois achei mais fcil de utilizar e tambm por ser mundial, tem hosts em todo mundo. Como estava estudando na Irlanda, resolvi tirar uns meses de frias e viajar pelo interior como workawayer. Quando contei para minha famlia e amigos, eles ficaram meio assustados. No acreditavam e achavam que isso po-dia ser uma espcie de armadilha para roubar turistas (infelizmente essas coisas acontecem, para no correr esse risco bom sempre procurar sites srios, e certificar-se que o lugar para onde voc vai realmente existe, ter cuidado), mas isso no me fez mudar meus planos.

    Trabalhei em trs lugares. Conheci pessoas de vrias nacionalidades viajando do mesmo modo que eu. Encontrei chileno, espanhis, france-ses, italianos, polons, alemes, e canadenses. Conheci tanto a Irlanda como um pouco de cada um dos pases dos outros voluntrios. E eles aprenderam um pouco sobre o Brasil. Fui pedreiro, pintor, agricultor, domador de bezerros, e at professor de portugus, nunca me imaginei trabalhando nessas profisses. Fui a lugares incrveis que no esto em guias de viagens. Mesmo trabalhando me diverti muito.

    Como voluntrio me senti parte dos lugares por onde passei. Pude conhecer pessoas e histrias fantsticas. Quando voltei me perguntaram se eu senti medo enquanto viajava, e a resposta no. Encontrei bondade