Protagonismo Infantil e saberes culturais ribeirinhos no ... ?· Protagonismo Infantil e saberes culturais…

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  • UNIVERSIDADE DO VALE DO TAQUARI - UNIVATES

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM ENSINO DE CINCIAS EXATAS MESTRADO

    Programa de Ps Graduao em Ensino de Cincias Exatas UNIVATES

    Rua Avelino Tallini, 171, Universitrio 95914-014 Lajeado/RS, Brasil Fone: 51. 3714-7000

    e-mail: ppgece@univates.br home-page: www.univates.br/ppgce 1

    Protagonismo Infantil e saberes culturais ribeirinhos no ensino de

    Matemtica na Educao Infantil

    Childrens Protagonism and riverside residents cultural

    knowledge in the teaching of mathematics in Childhood Education

    Raimundo Gomes de Souza, talo Gabriel Neide, Jacqueline Silva da Silva.

    Mestre em Ensino de Cincias Exatas SEDUC/PA raysouzalto@yahoo.com.br

    Doutor em Fsica Universidade do Vale do Taquari Univates talo.neide@univates.br

    Doutora em Educao Universidade do Vale do Taquari Univates jacqueh@univates.br

    Finalidade

    Este produto educacional parte integrante de uma pesquisa de mestrado e tem por

    objetivo socializar uma interveno pedaggica que envolve saberes culturais ribeirinhos com

    noes de conceitos matemticos por meio de jogos de perguntas e respostas.

    Contextualizao

    As situaes de aprendizagens apresentadas neste produto educacional foram

    desenvolvidas durante um processo de interveno pedaggica com 14 crianas de uma turma

    do jardim I, de uma escola pblica ribeirinha localizada no municpio de Moju, Estado do

    Par. As situaes de aprendizagens descritas fazem parte da dissertao de mestrado do

    primeiro autor deste trabalho. O aporte terico que deu embasamento ao trabalho esteve

    atrelado aos saberes culturais ribeirinhos das crianas obtidas por meio da escuta e baseados

    no planejamento com Enfoque Emergente, e Protagonismo Infantil em que a criana participa

    ativamente na aquisio dos conhecimentos matemticos sobre a noo de medida de altura e

    massa (pesado) a partir da viso das prprias crianas. Nesta forma de trabalho no o

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    professor que fala o que o determinado conceito matemtico, mas busca identificar nos

    saberes das crianas como estas concebem este determinado conceito ou suas noes.

    No assunto sobre Protagonismo Infantil e participao ativa da criana, Silva (2011)

    enfatiza que esto correlacionados e que se complementam reciprocamente, em que:

    A criana protagonista ativa de seu prprio crescimento: ela dotada de

    extraordinria capacidade de aprendizagem e de mudana, de mltiplos recursos

    afetivos, relacionais, sensoriais, intelectuais, que se explicitam numa troca

    incessante com o contexto cultural e social (...). A participao: um valor e uma

    estratgia que gera e alimenta sentimentos, uma cultura de solidariedade, de

    responsabilidade e de incluso; produz trocas e uma nova cultura (SILVA, 2011, p.

    24-25).

    Por Protagonismo Infantil entende-se a criana como algum potente, capaz de criar

    formas de se comunicar e de se relacionar com o mundo desde o incio da vida, e por isso,

    capaz de participar com autonomia de seus prprios processos de ensino e de aprendizagem.

    Uma criana que problematiza seu espao, cria ideias e teorias para as situaes que a ela se

    apresenta, e de modo singular envolve-se no seu processo educacional criando formas de dar

    sentido ao que ocorre a sua volta.

    Ainda sobre Protagonismo Infantil, Pires e Branco (2007) encontraram o conceito de

    protagonismo relacionado com outros conceitos, como participao, responsabilidade social,

    identidade, autonomia e cidadania. Os autores afirmam que nem mesmo a distino conceitual

    entre participao e protagonismo ficou clara na bibliografia que consultaram. H situaes

    em que um autor pode se referir ao protagonismo em contextos em que outro falaria de

    participao, e at situaes em que as duas expresses so usadas como sinnimos.

    No assunto sobre o protagonismo, o Banco Nacional Curricular Comum (2015) ao

    citar os direitos de aprendizagem na Educao Infantil considerando as especificidades e

    formas pelas quais as crianas aprendem, elenca seis direitos de aprendizagem das crianas,

    so elas: conviver, brincar, participar, explorar, comunicar, conhecer. O protagonismo no

    aparece como um dos seis pontos considerados. Contudo, o protagonismo tomado enquanto

    participar. Assim, as crianas devem participar com protagonismo, tanto no planejamento

    como na realizao das atividades recorrentes da vida cotidiana, na escolha das brincadeiras,

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    dos materiais e dos ambientes, desenvolvendo linguagens e elaborando conhecimentos

    (BNCC, 2015, p. 20).

    Estas ideias esto de acordo com Schneider (2015) ao falar de seu protagonismo

    enquanto criana na sala de aula. A autora descreve que a sua vivncia enquanto criana

    possibilitou sua alfabetizao por meio da interao com a sala de aula, estando mergulhada

    em seus rudos, em suas experimentaes e percebendo o que se passava no seu entorno, sem

    que houvesse a inteno e um direcionamento aprendizagem (SCHNEIDER, 2015, p. 12).

    Para a autora o Protagonismo Infantil se fez presente tanto nas cenas descritas em sala de aula

    como quando procurava alfabetizar suas bonecas, ao ser uma forma de participar com

    autonomia de tudo o que ocorria a sua volta fazendo as diversas interpretaes e agindo a

    partir das leituras de mundo que fazia.

    A partir das ideias presentes nos escritos de Schneider (2015) possvel perceber o

    Protagonismo Infantil epistemologicamente presente na interao da criana em todos os

    espaos em que est presente. Contudo, este pode assumir os mais diferentes nveis de

    participao das crianas em sala de aula, desde apenas escutar e observar o que ocorre a sua

    volta, como fazia Schneider (2015) ao ficar no canto da sala de aula observando a docncia de

    sua me e os fazeres das outras crianas. Entretanto, o presente trabalho considera o nvel

    mais alto de Protagonismo Infantil onde o processo de conhecimento dinmico e a criana

    percebida como sujeito ao participar ativamente das situaes de aprendizagens com seus

    fazeres, seus pensares e suas aes. esta ideia de Protagonismo Infantil que se pautou nestes

    escritos, de uma criana autnoma que participa ativamente de seus processos de ensino e de

    aprendizagem nas situaes oportunizadas. Um processo de conhecimento que dinmico e

    privilegia a interao entre a criana e as situaes de aprendizagens sobre a noo de altura e

    pesado de forma ativa, e entendendo a construo do conhecimento matemtico como fator

    cultural. Processo esse em que a criana por meio de seu protagonismo na interao com as

    demais crianas, com a professora titular da turma e com o ambiente aaizal possibilita a esta

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    criar, recriar, agir, operar e construir a partir de sua realidade novos conceitos matemticos e

    interpretaes sociais.

    So justamente estes processos de ensino e de aprendizagem onde o conhecimento no

    passado para a criana, mas que interagindo com os objetos desse ambiente possa

    desenvolver e aperfeioar suas noes sobre os conceitos matemticos de altura e pesado que

    instigou o estudo. Entretanto, o objeto com o qual a criana interage deve tornar manipulvel

    estes conceitos, do mesmo modo que comparando as rvores de aa ou manipulando os

    cachos de aa carregando-os chega a interpretao das noes de altura e pesado

    respectivamente. a criana procurando ativamente compreender o mundo que a cerca, e

    buscando resolver as interrogaes que este mundo provoca em ao efetiva segundo seu grau

    de envolvimento no processo e objeto a ser conhecido.

    Provavelmente esta concepo de criana foi o que possibilitou o Projeto Pedaggico

    das escolas infantis da cidade de Reggio Emlia/Itlia a ser o diferencial no trabalho com

    crianas da Educao Infantil, pois como afirma Rinaldi (2012, p. 76-77):

    Um dos pontos fundamentais da Filosofia de Reggio Emlia a imagem de criana

    como algum que experimenta o mundo, que se sente uma parte do mundo desde o

    momento do nascimento; uma criana que est cheia de curiosidade, cheia de desejo

    de viver, uma criana que tem muito desejo e grande capacidade de se comunicar

    desde o incio da vida; uma criana que capaz de criar mapas para sua orientao

    simblica, afetiva, cognitiva, social e pessoal. Por causa de tudo isso, uma criana

    pequena pode reagir com um competente sistema de habilidade, estratgia de

    aprendizagem e formas de organizar seus relacionamentos. [...] a nossa imagem de

    uma criana que competente, ativa e crtica [...].

    Nessa perspectiva, a criana deve ser vista dentro do contexto sociocultural em que se

    encontra, como possuidora de ideias e teorias sobre o espao do qual faz parte, percebida de

    acordo com suas especificidades e compreendida enquanto agente de seu contexto. Deve-se

    considerar as crianas com suas inmeras linguagens, sejam estas escritas, orais, pelo

    desenho, pelo jogo, pelos gestos, bem como, pela forma como se relaciona com as demais

    crianas. S assim, valorizando cada contribuio e especificidade das crianas se estar

    promovendo o Protagonismo Infantil em um mundo construdo para e com elas.

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    Nesse sentido, devido as crianas que participaram da pesquisa serem parte de um

    contexto cultural ribeirinho possuindo uma gama de saberes elementos deste espao, abre

    possibilidade para a utilizao destes saberes em situaes de aprendizagens matemticas que

    sejam significativas s crianas. Agindo dessa maneira o professor estar criando condies

    para que a aprendizagem da Matemtica acontea, principalmente se nessas situaes de

    aprendizagens sobre noes de conceitos matemticos sejam utilizados jogos.

    No assunto, Huizinga (2000) percebe o jogo presente na essncia das principais

    atividades da sociedade. Para o autor em toda a parte encontramos presente o jogo, como uma

    qualidade de ao bem determinada que d sentido a estrutura social. O objeto deste estudo

    o jogo como forma especfica de atividade, o jogo concebido enquanto uma totalidade e

    compreendido como fator cultural da vida, como funo social. O jogo enquanto perguntas e

    respostas realizado no espao cultural das crianas.

    Na temtica sobre o jogo de perguntas e respostas enquanto adivinhao, enigmas e

    charadas era utilizado desde a Grcia Antiga. Na verdade, "os gregos gostavam muito da

    aporia como jogo de sociedade, ou seja, de fazer perguntas s quais era impossvel dar uma

    resposta definitiva" (HUIZINGA, 2000, p. 83). Para o trabalho de pesquisa esta forma de jogo

    mostrou-se de grande valia, pois possibilitou a valorizao de todas as ideias trazidas pelas

    crianas sobre os conceitos matemticos desenvolvidos em cada situao de aprendizagem.

    Ainda a respeito dos jogos de perguntas e respostas, estes aparecem como boas

    estratgias de ensino nas aulas de Matemtica devido a sua ludicidade em tornar o processo

    educacional mais dinmico. Para isso faz-se necessrio oportunizar criana situao de

    aprendizagem em Matemtica que a motive e desafie na busca de resposta s perguntas que a

    ela se apresente. Neste cenrio, considera-se que os jogos de perguntas e respostas com a

    participao ativa da criana podem contribuir para o ensino e aprendizagem de Matemtica.

    Dessa forma, conectando as ideias dos autores com um ensino e uma aprendizagem de

    conceitos matemticos sob a perspectiva de jogos, e ainda relacionando com o tema saberes

    culturais ribeirinhos, foi possvel adentrarmos neste universo e perceber vises, ideias e

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    sentidos dos conceitos matemticos de altura e pesado na vida das crianas envolvidas. A

    escola passou a no ser somente o prdio, mas o aaizal onde as crianas participaram das

    situaes de aprendizagens. Estes aaizais por serem um espao comum do contexto

    sociocultural das crianas transformaram-se em um ambiente propcio para as socializaes

    dos dois conceitos matemticos oportunizados para estas. Assim, a escola passou a fazer parte

    da vida e do cotidiano deste grupo de crianas de uma forma diferente do habitual.

    Objetivos

    Socializar uma prtica pedaggica, que pode ser efetivada na rea de conhecimento de

    Matemtica por meio de jogos de perguntas e respostas, com crianas da Educao Infantil,

    contemplando aspectos da cultura do Estado do Par, em particular os relacionados ao aa.

    Detalhamento

    Para iniciar um trabalho na perspectiva do Protagonismo Infantil relacionado aos

    aspectos socioculturais ribeirinhos, primeiramente importante dialogar com as crianas e

    explicar que as situaes de aprendizagens podem ser diferentes daquelas usualmente

    oportunizadas em sala de aula. Explicitar que o processo vai exigir que faam sada de campo

    e utilizem os seus saberes socioculturais, que suas ideias vo ser valorizadas e colocadas em

    prticas por aqueles que trouxerem a contribuio, e que estas ideias devero ser socializadas

    com as demais crianas do grupo.

    A socializao das ideias com o grupo uma forma das crianas estabelecerem

    consensos e um entendimento comum quanto as suas realizaes (PONTE; BROCARDO:

    OLIVEIRA, 2009, p. 33). Afinal, por meio da socializao das ideias que as crianas podem

    construir determinado conceito do assunto que est sendo discutido ou ampliar entendimento

    a respeito deste conceito matemtico.

    A seguir, so detalhadas as duas situaes de aprendizagens que podem proporcionar a

    explorao dessa temtica fora da sala de aula cotidiana por atividade de campo, bem como

    sero explicitados passos importantes no desenvolvimento dessa prtica.

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    1) Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

    O incio do processo deve ocorrer em uma reunio com a direo escolar, pais das

    crianas e o professor da turma. Neste momento explica-se a finalidade das situaes de

    aprendizagens, seus objetivos, as aes e a forma como as situaes de aprendizagens sero

    oportunizadas s crianas. Entrega-se o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para os

    responsveis pelas crianas para que assinem concordando de que estas participem das aes

    a serem realizadas. O professor deve tambm solicitar o Termo de Anuncia da direo

    escolar autorizando o seguimento das aes. importante que se obtenha o TCLE das

    crianas que seja assinado ou colocado a digital da mo toda concordando em participar. Isto

    importante principalmente por se tratar do Protagonismo Infantil, e as crianas precisam

    saber tudo o que est acontecendo para que possam dizer que querem ou no participar. As

    crianas precisam estar no centro de tudo o que estiver acontecendo.

    Durante a reunio com os pais, professora da turma e direo escolar para expor sobre

    o trabalho a ser desenvolvido com e para as crianas, o Termo de Anuncia foi obtido por

    parte da direo escolar autorizando a ao. Contudo, das 17 crianas da turma, apenas 14

    pais compareceram e autorizaram assinando o TCLE para que seus filhos participassem.

    Entretanto, todas as crianas fizeram parte da interveno pedaggica, mas trs destas

    crianas no tiveram suas vozes, nem aes ou imagens registradas.

    importante destacar ainda que a professora da turma assinou o TCLE para que sua

    sala e turma participassem da pesquisa, e que contribuiria como pudesse para que fosse o mais

    proveitoso s crianas. Quanto as crianas foi explicado de forma clara sobre do que se

    tratava a presente pesquisa, bem como, da importncia que estas teriam no prosseguimento

    das situaes de aprendizagens que a elas seriam oportunizadas. Aproveitando a oportunidade

    se pediu a elas que consentissem participar da pesquisa.

    2) Identificando os saberes culturais ribeirinhos por meio de histrias

    A maneira como o professor procura dar ateno especial ao que emerge das crianas

    importantssimo para o desenvolvimento de situaes de aprendizagens. Na viso de Lino

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    (1996) apud Silva (2011), os temas e ideias sobre assuntos a serem desenvolvidos com e para

    as crianas surgem tanto de um interesse manifestado pelas prprias crianas, quanto da

    observao atenta por meio da escuta por parte dos professores quando identificam

    necessidades no grupo de crianas com as quais trabalham em suas classes.

    Nesse sentido, o professor deve saber escutar seus alunos. Quando as crianas

    estiverem realizando as situaes de aprendizagens o professor deve ficar circulando por entre

    as carteiras atento sobre o que estas crianas esto falando, quais so seus interesses e

    curiosidades. O professor pode conseguir identificar durante a observao em sala de aula por

    meio da escuta elementos que possam possibilitar o desenvolvimento de uma pesquisa.

    Contudo, "escutar no fcil: requer conhecimento e ao mesmo tempo a suspenso de nossos

    juzos, requer disponibilidade para a troca, requer vencer o sentimento de quando nossas

    certezas so postas em jogo" (RINALDI, 2001, p. 24). Nos dizeres da autora escutar no

    fcil, mas precisa de muito empenho e disposio para ouvir e trocar ideias, teorias, valores,

    conhecimentos. Escuta enquanto caminho por meio do qual iro passar as situaes de

    aprendizagens e por onde vai emergir com toda pungncia as ideias, teorias, opinies e

    demais contribuies das crianas. Afinal, a escuta emoo pelo inesperado, possibilidade,

    procura, entrega, interao e comunicao. Contudo, necessrio estar preparado para

    escutar com todos os sentidos e no apenas com a audio.

    Assim, a escuta por meio da qual as crianas contriburam com suas ideias para a

    realizao da pesquisa ocorreu por meio de um jogo. Este jogo foi desenvolvido para que as

    crianas pudessem se expressar por meio de histrias. Deve ser escolhido um momento

    propcio execuo do jogo que possibilite as crianas contarem as histrias. Assim que

    terminar o jogo deve-se agradecer a todas as crianas pela contribuio com as histrias

    trazidas. Por meio destas histrias o professor pesquisador escolhe uma histria que contenha

    ou que possibilite explorar os assuntos matemticos que queira oportunizar s crianas.

    O jogo da caixa foi o escolhido. Este jogo uma caixa simples com pirulitos dentro

    em que as crianas em roda enquanto cantam as mais diversas msicas vo passando a caixa

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    de mo em mo. Quando a msica parar na mo de quem estiver a caixa, esta criana deve

    contar uma histria. Ao contar a histria poder abrir a caixa e pegar um pirulito. Assim, o

    jogo continua at no sobrarem mais pirulitos na caixa. Para que todas as crianas participem

    necessrio que caso a caixa pare na mo de uma criana que j tenha contado uma histria,

    que esta caixa passe para a mo de uma criana que ainda no tenha socializado sua histria.

    Dentre todas as histrias contadas pelas crianas, a escolhida foi: O menino subiu na

    rvore de aa ele queria descer e quando ele olhou pro cho estava alto e ele queria descer

    mas a coisa (cacho de aa) tava pesado e ele gritou para o pai dele e o cacho era grande e a

    aaizeira era fina. Ficou tremendo a mo dele. Nesta histria a criana apesar de no

    determinar o espao aaizal, mas com certeza o garoto que apanhava aa s poderia estar

    neste espao. Esta histria apresenta tambm outros elementos do espao ribeirinho paraense,

    a rvore de aa e o prprio cacho de aa, que a criana acaba chamando de coisa. Outro

    ponto que merece destaque que o menino estava l em cima da rvore que era alta com um

    cacho de aa que era pesado e grande numa aaizeira fina.

    A escolha da histria deve-se ao fato de todas as crianas se pronunciarem dizendo

    conhecerem a histria aps a criana terminar de cont-la. Outro motivo pela escolha da

    histria deve-se a passagem em que o garoto que subiu na aaizeira ficou com dificuldade

    para descer devido esta rvore ser alta e o cacho de aa ser pesado. Nesta histria

    apareceram alguns conceitos matemticos como noes de medidas de comprimento e de

    massa. Assim, surgiu a ideia de verificar como as crianas concebem dois destes conceitos

    matemticos presente nas medidas de comprimento (altura) e medidas de massa (pesado)

    levando em considerao seus espaos de vivncias por meio de situaes prticas em

    contexto ribeirinho com o ensino fazendo sentido.

    No assunto, Gurgel (2008) diz que no estudo das Unidades de Medidas na Educao

    Infantil no interessante trabalhar j de incio metro, quilogramas, litros, horas. preciso,

    num primeiro momento, aplicar a comparao, ou seja, comparar objetos fazendo a relao de

    maior ou menor, utilizando como unidade e instrumento de medidas o palmo ou passo, por

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    exemplo. Entretanto, necessrio que as crianas percebam que os instrumentos utilizados

    para medir os objetos podem possuir tamanhos variados, por exemplo, o tamanho de um

    palmo ou de um passo varia de pessoa para pessoa. Ao entender este processo a criana

    percebe a proporcionalidade de que quando o palmo ou passo maior a tarefa ser realizada

    com menor quantidade de unidades, em contrapartida, caso sejam menores ser necessrio

    maior quantidade de unidades para executar a mesma medida. Assim, as crianas podero

    entender a preciso de possuir um instrumento prprio para realizar medidas diversas.

    Nesse sentido, acredita-se que as crianas devem aprender sobre medidas se

    envolvendo em prticas sociais que necessitem medir. As crianas precisam estar envolvidas

    e mobilizadas em prticas efetivas de medies, que conversem sobre o resultado, exponham

    seus pontos de vistas e faam a devida socializao. Nada adiantar "o professor construir

    materiais para as crianas apenas olharem, e pouco adianta o professor falar sobre o contedo

    que as crianas devem aprender sem que elas faam medies e adquiram o hbito de

    conversar entre elas sobre os resultados obtidos" (VIANNA e ROLKOUSKI, 2014, p. 11).

    3) Escolhas dos lugares das atividades de campo

    O grupo de crianas em conjunto com a professora da turma e pesquisadores discutem

    o melhor lugar para que as situaes de aprendizagens sejam desenvolvidas. O professor fala

    das caractersticas do local e como obter o consentimento para que possam fazer uso deste no

    desenvolvimento das situaes de aprendizagens. Neste momento deve-se dar oportunidade

    para que as crianas falem e opinem sobre o local, que argumentem e troquem ideias com

    todo o grupo, afinal este trabalho est pautado no planejamento com Enfoque Emergente em

    que todos os envolvidos no processo devem participar em condies de igualdade.

    Dessa forma, como em muitas histrias trazidas pelas crianas e, inclusive na histria

    escolhida esta se passa em um aaizal, por este ser um espao comum para as crianas este foi

    o local escolhido como adequado para a realizao das situaes de aprendizagens. Foi por

    isso, que as duas situaes de aprendizagens foram desenvolvidas em dois aaizais, pois em

    comunidades tradicionais como esta da qual fazem parte as crianas da pesquisa,

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    estas crianas comeam desde cedo a terem contato com os elementos envolto do aaizal, que

    no um espao apenas onde existem as aaizeiras de onde seus pais tiram o sustento

    colhendo o fruto aa tanto para o consumo quanto para a venda. Este aaizal tambm o

    local onde estas crianas brincam. As brincadeiras vo desde a se esconderem por detrs das

    rvores, como subir nestas rvores ou brincar de contar quantas rvores possuem em cada

    touceira de aaizeiras. neste espao comum a todas as crianas que foram desenvolvidas as

    situaes de aprendizagens. Huizinga (2000) diz que nas situaes de jogo o espao onde

    ocorre o jogo muito importante. Para o autor, sendo um espao em que o jogador se sinta

    acolhido, a confiana aumenta. s vezes nas situaes de jogo, "o mais importante o lugar

    onde o jogo executado" (HUIZINGA, 2000, p. 45).

    Assim, as crianas puderam escolher dois aaizais nos quais seriam desenvolvidas as

    situaes de aprendizagens. Um dos aaizais seria o da casa do pastor por ser prximo a

    escola e o outro seria o aaizal dos avs de duas das crianas que localizava-se um pouco

    distante da escola e na outra margem do rio. Este ltimo aaizal foi escolhido por ser grande,

    limpo e bonito de acordo com as crianas.

    4) Jogo de perguntas e resposta sobre altura

    Objetivos:

    Propor situaes de aprendizagens por meio de jogos de perguntas e respostas;

    Identificar a maneira como as crianas percebem a noo de altura;

    Apresentar a fita mtrica como unidade de medida do comprimento da altura dos

    objetos;

    Identificar maneiras de medidas no convencionais para medir a altura de uma rvore

    de aa.

    Nesta situao de aprendizagem pede-se que as crianas se espalhem pelo aaizal para

    que identifiquem a rvore de aa mais alta. Ao identificarem mais de uma rvore alta pedir

    que comparem as rvores e que as crianas falem porque escolheram determinada rvore

    como sendo a mais alta. Buscar fazer com que as crianas defendam o porqu de sua rvore

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    ser a mais alta diante as demais colegas do grupo. Assim que as crianas terem conseguido

    identificar a rvore de aa mais alta, deve-se question-las. Por que vocs consideram esta

    rvore como sendo a mais alta? O que a torna alta?

    Em seguida deve-se comparar as ideias trazidas pelas crianas sobre como percebem a

    altura. s vezes, as crianas no percebem a altura da mesma forma que as demais. Assim,

    deve-se mostrar essa discordncia, e dar oportunidade para que a criana possa socializar o

    seu ponto de vista a respeito da forma como percebe a medida da altura com as demais. Da

    mesma forma deve-se possibilitar que as demais crianas tambm mostrem as suas ideias

    sobre a altura para esta criana que discordara do grupo.

    A respeito da altura deve-se possibilitar que as crianas percebam que esta pode ser

    medida. Assim, deve-se apresentar uma fita mtrica de um metro ou de um metro e meio s

    crianas e question-las se com esta fita possvel medir a altura de determinada rvore.

    Muitas ou at todas vo chegar ao consenso, caso usem a comparao, de que a rvore mais

    alta do que o tamanho de uma fita e por isso no d para medir. Em seguida pode-se mostrar

    vrias fitas mtricas e fazer a pergunta: Ento como fazer para medir a altura desta rvore de

    aa? Caso as crianas tragam a ideia de que emendando as fitas possvel medir a altura da

    rvore, pergunte se todas as crianas concebem a presente ideia ou se h outra soluo.

    Para a continuao desta situao sobre a medida da altura da rvore, necessrio que

    um pai ou outro familiar de alguma das crianas contribua subindo na rvore de aa.

    Enquanto a pessoa subir levando a fita, as crianas vo emendando as fitas quantas

    necessrias para se equivalerem a altura da rvore. Caso a altura da rvore no se equipare

    com fitas inteiras e seja necessrio apenas o pedao de uma para completar a altura da rvore,

    deve-se mostrar a necessidade desta pequena parte a completar junto com as demais fitas

    inteiras para que se tenha a altura da rvore.

    Aps a altura da rvore ser medida deve-se pedir que as crianas estiquem no cho as

    fitas emendadas que correspondem a altura da rvore. Em seguida mencionar s crianas que

    no esqueam de que estas fitas emendadas correspondem a altura da rvore de aa e

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    question-las. Quantas crianas juntas so necessrias para ir do cho at o cacho de aa?

    Como fazer? As crianas vo trazer vrias contribuies, e em cada ideia trazida proporcionar

    que o autor possa demonstrar as demais crianas a possibilidade de se saber quantas crianas

    correspondem a altura da rvore seja utilizando a largura do corpo destas, suas alturas ou

    outra forma. No caso de as crianas deitarem sobre a fita uma a uma encostando o p na

    cabea da outra e ir acrescentando as demais crianas possvel identificar a quantidade

    necessria para corresponder a altura da rvore. Pode ocorrer das crianas segurarem nas duas

    pontas da fita com esta em linha reta ou circular na direo de suas cinturas e preenchendo o

    espao com as demais crianas chegarem a aferir quantas crianas precisam para corresponder

    a altura da rvore de aa. No se surpreenda se aparecerem em sua turma vrias outras

    maneiras de medir a altura da rvore utilizando as prprias crianas.

    Estando a fita esticada no cho do aaizal deve-se pedir que as crianas possam

    contribuir lanando a seguinte pergunta: Algum tem mais uma ideia de como poderamos

    medir a altura desta rvore? As crianas contribuem trazendo muitas ideias. Cada ideia

    trazida pea que o autor desta demonstre para as demais colegas de grupo a possibilidade de

    execuo. Deixe que as crianas sejam as protagonistas do processo educacional. Estas

    medidas no convencionais trazidas pelas crianas proporcionam a riqueza das situaes de

    aprendizagens dando a dinmica para envolver todo o grupo nas situaes oportunizadas.

    5) Jogo de perguntas e resposta sobre pesado

    Objetivos:

    Identificar a estratgia das crianas para compararem objetos pesados de leves;

    Perceber o que as crianas concebem ser pesado;

    Apresentar a balana como instrumento de medida do peso dos objetos.

    Nesta situao de aprendizagem deve-se solicitar que um ou mais pais das crianas

    contribuam fazendo a coleta dos cachos de aa. Aps os cachos terem sido retirados das

    rvores deve-se fazer um monte com vrios cachos de aa no meio do aaizal. Estes cachos

    devem ser de vrios tamanhos e formas, entre cachos grandes, mdios e pequenos, alguns

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    cachos de aa estando cheios de caroos e outros nem tanto. Falar para as crianas por meio

    da pergunta: O que fazer para saber qual destes cachos o mais pesado? Assim que as

    crianas trouxerem a contribuio deve-se pedir que procedam da maneira que disseram ser a

    forma de saber qual dos cachos o mais pesado. Caso apaream contribuies diferentes,

    possibilite que cada ideia trazida tenha a possibilidade do autor demonstrar para as demais.

    Depois que as crianas identifiquem o cacho de aa mais pesado procede-se para que

    entre os cachos que ficaram ocorra a identificao do mais pesado. Assim, vai-se escolhendo

    o cacho de aa mais pesado entre os que ficaram at o ltimo cacho. Forma-se uma fila com

    os cachos do mais pesado para o mais leve de acordo com a classificao feita pelas crianas.

    Diante da fila feita com os cachos de aa deve-se perguntar s crianas apontando

    para o cacho que escolheram como sendo o mais pesado e perguntar. Por que este cacho de

    aa o mais pesado? O que torna este cacho de aa mais pesado do que os demais cachos?

    A cada contribuio trazida pelas crianas vai socializando a ideia com as demais crianas e

    perguntando se compreenderam a ideia e se compartilham do mesmo entendimento que a

    colega de grupo. A cada ideia que a criana trouxer mesmo que voc a considere sem sentido,

    esta deve ser registrada e valorizada. Para a criana a ideia que est expressando tem sentido,

    ento possibilite que esta defenda sua contribuio. A explicao que esta criana

    proporcionar a voc e as demais colegas ser uma grande contribuio para o entendimento de

    como a criana percebe o que ou no pesado de algo leve. Dessa maneira, vai-se mostrando

    que no existe ideias certas ou erradas, mas posicionamentos diferentes sobre a forma como

    cada um percebe o que seja ou no pesado.

    Neste sentido, para que as crianas possam perceber que existe unidade de medida de

    peso, deve-se apresentar a balana para as crianas, de preferncia balana digital.

    Primeiramente deve-se perguntar se as crianas conhecem a balana e qual a finalidade desta.

    Em seguida pesar os cachos de aa um a um do mais leve para o mais pesado conforme estes

    cachos foram dispostos pelas crianas. importante que todas as crianas acompanhem de

    perto o peso de cada cacho de aa. Cada vez que forem acertando deve-se mostrar para as

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    crianas, e caso tenham se equivocado com o peso de alguns cachos tambm deve-se mostrar

    o peso dos dois cachos para que possam comparar.

    Esta valorizao da ideia da criana est de acordo com o pensamento de Rabitti

    (1999), que enfatiza que devemos considerar a criana protagonista e co-protagonista do

    processo de ensino e de aprendizagem, e respeitar as ideias e opinies das crianas quando

    sejam expostas viva voz ou por escrito. Concepo percebida em Klemann e Nunes (2015) ao

    falarem que na aprendizagem de Matemtica no contexto escolar deva-se possibilitar que a

    criana possa compartilhar, responder e comunicar-se com o professor e os outros membros

    do grupo com respeito recproco, valorizando o esprito criativo, crtico e cooperativo e com

    as ideias sendo difundidas no grupo.

    Conforme o Referencial Curricular Nacional para a Educao Infantil (1998) as

    crianas desde a Educao Infantil precisam fazer uso de instrumentos no convencionais em

    um primeiro momento, contudo elas precisam ser expostas em medias convencionais, como

    balana, fita mtrica, rgua etc., para resolver problemas. No presente estudo, as crianas

    utilizaram a balana para medirem o peso dos cachos de aa. Elas foram colocadas diante de

    um instrumento de medida de massa que conheciam. Assim, as crianas precisam desde a

    Educao Infantil ter contato com medidas e com situaes que as desafiem a fazerem

    comparao do tipo: quantas vezes maior? quantas vezes cabe?, qual a altura?, qual a

    distncia?, qual o peso?, etc. (BRASIL, 1998, p. 227). Quando as crianas so desafiadas

    por situaes que precisam saber o peso dos objetos, as crianas procuram estratgias de

    como chegar a essa concluso por meio de situaes no convencionais. Contudo, ao usar a

    balana a criana percebe que este um dos instrumentos que mede o "peso" dos objetos e

    com isso vai construindo a noo sobre um objeto ser pouco ou muito pesado e fazer as suas

    conjecturas.

    Resultados obtidos

    Os resultados aqui apresentados so oriundos da aplicao das situaes de

    aprendizagens descritas anteriormente com crianas de uma turma do Jardim I, de uma escola

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    pblica ribeirinha de Moju/PA. Dessa forma, buscou-se demonstrar se os saberes ribeirinhos

    das crianas, estando estas dentro de seu grupo cultural e num espao cultural comum,

    poderia tornar a aprendizagem mais dinmica, expressiva e com sentido para as crianas. Os

    resultados foram positivos nesse aspecto, pois a socializao entre as crianas foi promovida,

    a cultura e os saberes desse grupo de crianas foram valorizados, e a aprendizagem sobre as

    medidas de altura e pesado foram socializados e at mesmo aperfeioados.

    Nessa perspectiva, ao mesmo tempo em que as ideias trazidas pelas crianas

    mostraram formas diferentes de perceber os conceitos matemticos estudados, pde ser

    contemplado o respeito mtuo entre os saberes desenvolvidos em sala de aula e os saberes

    culturais deste grupo de crianas. Assim, o tema saberes culturais ribeirinhos tornou-se um

    elo entre a Matemtica escolar e os conceitos matemticos presentes no contexto sociocultural

    do grupo investigado. As ideias sobre altura e pesado trazidas pelas crianas enriqueceram o

    entender a maneira como as crianas concebem estes dois conceitos, alm de possibilitar o

    entendimento de que as crianas podem participar ativamente de suas prprias aprendizagens.

    O jogo de perguntas e resposta possibilitou que as crianas pudessem explicitar as suas

    ideias nos processos de ensino e de aprendizagem a que foram expostas. Assim, a todo

    momento em que as crianas foram convidadas a exporem suas opinies e ideias, estas

    trouxeram suas contribuies. Sobre a forma como percebiam a altura, ideia como a de que

    alto o que vai na direo do cu e passa dos outros mais para cima, ou que voc pode ser

    mais alto de que determinado objeto, mas ser baixo em relao a outro, demonstra a maneira

    como as crianas desse grupo percebem a altura. Contudo, caso voc suba em uma rvore de

    aa bem alta at chegar ao topo desta rvore, esta deixa de ser alta em relao a voc. Que a

    altura da rvore pode ser medida por meio da prpria altura das crianas ou por meio de

    passos, braadas ou saltos. Quanto ao pesado um cacho de aa s pesado se for difcil de

    carregar, caso contrrio ser leve. O que faz um cacho ser mais pesado que os outros cachos

    pode ser devido ser maior, ter suas vencas mais compridas e cheias de caroos ou pelo fato do

    cacho de aa ter os caroos mais grandes que os demais cachos.

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    A forma como as crianas participaram ativamente das situaes de aprendizagens

    auxiliou no trabalho educativo das questes em estudo, pois as crianas foram instigadas a

    elaborar diversas ideias de como resolver a situao proposta, alm de colocarem em prtica a

    contribuio trazida. Dessa forma, pode-se inferir a ocorrncia de novas formas de construo

    de saberes, em que a autonomia dos estudantes est alicerada em aspectos culturais e na

    participao ativa destes nos processos de ensino e de aprendizagem.

    Assim, a interveno pedaggica aqui apresentada pde demonstrar que as crianas

    podem participar ativamente de suas aprendizagens, desde que os professores a tomem como

    parceiras do processo educacional. As crianas podem contribuir com suas ideias, seus

    saberes, seus fazeres na construo e socializao de conhecimentos. Contudo, precisam de

    um professor que abra dilogos para oportunizar que estas crianas possam responder aos

    desafios a elas lanados tanto em sala de aula quanto os encontrados em seu cotidiano.

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