prospecto de filosofia medieval - .a filosofia antiga e a patrística são fontes para a filosofia

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    PROSPECTO DE FILOSOFIA MEDIEVAL

    (PARTE II)

    Apostila para aula de filosofia medieval

    Prof. Marcos Aurlio Fernandes

    Fil-UnB

    2017.1

    A ESCOLSTICA

    A filosofia antiga e a patrstica so fontes para a filosofia medieval escolstica. A

    escolstica se difere da patrstica por uma maior distino entre f e saber, filosofia e

    teologia. A escolstica a forma mais amadurecida do pensamento medieval no

    mundo latino. Os perodos da escolstica so:

    1. A pr-escolstica: a filosofia da poca do renascimento carolngio (sc. IX);

    2. A escolstica nascente, que se desenvolve da primeira metade do sculo XI

    at o fim do sculo XII;

    3. A alta escolstica, que vai de 1200 at cerca de 1340 o pice da filosofia e

    da teologia na idade mdia latina;

    4. A escolstica tardia, de 1340 at o incio do renascimento um tempo de

    estarrecimento do pensamento escolstico, de demolio, e de passagem

    para o pensamento moderno.

    Escolstica o ttulo que se emprega para o saber cultivado na schola. De

    schola vem o ttulo scholasticus.

    o termo que designava inicialmente qualquer

    pessoa que ensinasse as septem artes liberales, as sete artes

    liberais, herdadas do antigo sistema de ensino. So elas a

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    gramtica, a dialtica, a retrica, que formam os trs

    primeiros caminhos, o trivium, da educao; enquanto a

    aritmtica, a geometria, a msica e a astronomia compem

    os quatro outros caminhos da formao fundamental de

    toda a idade mdia. So ensinadas desde Carlos Magno nas

    escolas do palcio, das catedrais e dos conventos. Como os

    mestres de todo ensino, seja do primeiro, do segundo ou do

    terceiro grau, so quase sempre telogos, o termo

    scholasticus, na forma de doctores scholastici, foi sendo

    transferido tambm para os professores e docentes de

    teologia, chegando, por fim, a designar todos os que se

    ocupavam com a scientia numa instituio de ensino. O

    termo uma latinizao do grego skholastikos, cujo uso mais

    antigo pode-se constatar numa carta de Teofrasto, sucessor

    de Aristteles, na direo do Perpato, escrita a seu discpulo

    Fanias, conservada em parte por Digenes Larcio, um

    compilador do segundo sculo. O termo grego se deriva do

    substantivo skhol, em alemo Schule, em ingls school, em

    latim schola, nas neolatinas cole, scola, escola, escuela.

    Skhol, em grego, diz o cio criativo de foras e valores

    culturais, os latinos traduziram por otium, o cio, e o

    contrrio a-skhol, por neg-otium, o no cio. Assim, o

    negcio, supe que se suspenda a criao e a inventividade

    cultural e se opere com os recursos j criados em condies

    j dadas!

    PR-ESCOLSTICA: A FILOSOFIA DA POCA DO RENASCIMENTO CAROLNGIO (SC.

    IX)

    A escola romana, pblica e laica, aps as invases brbaras e a queda do Imprio

    Romano do Ocidente (476), desapareceu nos primeiros decnios do sculo VI na Glia,

    na Espanha e Itlia, junto com a prpria instituio do Estado tardo-antigo, imperial. Em

    seu lugar organizou-se uma rede de escolas eclesisticas, instaladas junto a mosteiros e

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    catedrais. Sob a gide da Igreja foi definido o programa e os mtodos de ensino a partir

    da herana patrstica. Depois de Agostinho e da queda do Imprio Romano do Ocidente,

    os esforos dos doutos cristos foi o de transmitir o legado da cultura greco-romana aos

    povos dominadores, os germanos (francos, vndalos, alamanos, burgndios, visigodos,

    ostrogodos) chamados de brbaros, antes de tudo, pelas Artes Liberais. O De doctrina

    Christiana, de Agostinho, lanou o projeto do cultivo do saber na cristandade latina

    medieval1. Depois da contribuio de Agostinho, a de Bocio, que era cristo laico, a

    que mais se destaca.

    Com Cassiodoro (514-584)2 inaugura-se a poca da produo cultural dos

    mosteiros. No campo dos saberes se destacam, por este tempo, o bispo Isidoro de

    1 Na concepo de Agostinho, o estudo das Artes Liberais (o trivium: gramtica, dialtica e retrica; e o quadrivium: geometria, astronomia, msica e aritmtica) ajudaria no somente a tornar o homem eloquentssimo e doutssimo (eloquentissimus et sapientissimus), segundo o projeto romano de formao (a Humanitas, verso romana da Paideia grega), mas tambm perfeito (perfectus), no sentido tico e religioso do cristianismo1. Com efeito, neste projeto cristo de saber, o cultivo das Artes Liberais constitui o mais elementar do studium sapientiae (estudo da sabedoria). Elas formam o degrau bsico da formao do homem cristo, a filosofia seria o degrau intermedirio e a doctrina christiana (doutrina crist: estudo da sacra pagina, da Bblia, o degrau superior). As Artes Liberais teriam um papel propedutico para a filosofia. Elas ajudariam a fornecer argumenta certssima (argumentos certssimos) para quem se prope a filosofar. Depois, serviriam para exercitar o animus (nimo, esprito), no sentido da sua afinao (eruditio) e no sentido de torna-lo capaz de discernir as coisas mais sutis (ad subtiliora cernenda), pois teriam a capacidade de ajudar o estudante a passar das coisas corpreas s incorpreas, do temporal ao intemporal, do real ao ideal, da criatura ao Criador. O estudo das Artes Liberais e da Filosofia, porm, serviriam ao estudo da Doctrina Christiana, que partiria da investigao da Bblia (os medievais falaro do estudo da sacra pagina) e que se dedicaria compreenso dos dados da revelao divina contidos no livro sagrado do cristianismo, os artigos de f confessados pela Igreja, segundo a sentena de Agostinho, que se tornou um mote para os medievais latinos: credo ut intelligam (creio para compreender). 2 Cassiodoro foi sucessor de Bocio como Mestre dos Ofcios no reinado de Teodorico. Este viveu no centro da tenso entre romanos, godos e bizantinos. Depois de ter vivido um tempo em Constantinopla, fundou na costa do mar Jnio, na Calbria, um mosteiro de nome Vivarium. No seu mosteiro, Cassiodoro criou uma biblioteca que no perodo final da Antiguidade Clssica pretendia colocar textos gregos disposio de leitores latinos e preservar para a posteridade textos sagrados e profanos. Ali formou leitores, copistas e tradutores dos manuscritos gregos antigos. Dedicou-se tambm histria natural e medicina. Seu projeto pedaggico se inspirou nas escolas de Alexandria e de Nsibe. Para guiar a leitura dos monges, Cassiodoro redigiu as suas Instituies das letras divinas e seculares (560-580). A filosofia era representada a por uma diviso das cincias e por um resumo do Organon.

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    Sevilha (560-633)3 e Beda, o Venervel (672/673-735)4. Desde o sculo VI, pois, at o

    sculo XI o monaquismo foi o principal ambiente da transmisso cultural latina. A Igreja

    se tornou, assim, atravs do monaquismo, a educadora do ocidente latino nos primeiros

    sculos de Idade Mdia5.

    O ocidente brbaro cristo e telogo. Cristo, ele

    v a ascenso de um monarquismo especfico. Telogo, ele

    desenvolve suas concepes trinitrias. Cristo e telogo,

    ele confia a monges o cuidado de produzir uma cultura que

    tenha seus prprios objetivos, ritmos, tempos, ideais. At o

    ano mil, o mundo da clausura que assegura, sozinho, a vida

    do esprito, a manuteno da vida antiga e as indispensveis

    renovaes6.

    Estes monges, certamente, no intencionavam dedicar-se filosofia como tal,

    mas, ao tratarem de questes teolgicas, tinham que se haver com a filosofia. Assim,

    estabeleceram as condies de uma prtica filosfica propriamente ocidental7.

    O renascimento carolngio trouxe consigo um novo impulso de estudos e de

    pensamento na Alta Idade Mdia, incorporando mais fortemente o estudo da filosofia8.

    3 A obra mais famosa de Isidoro chama-se Etimologias. uma espcie de enciclopdia de saberes profanos e religiosos, dedicada ao rei visigodo Sisebut. Ele escreveu tambm um livro de Sentenas, manual de teologia dogmtica, moral e espiritual. Isidoro procura escrever, nas Etimologias sobre as diferenas das palavras e as diferenas das coisas. Pressupe que se conhece melhor a natureza de uma coisa quando se conhece melhor a natureza de seu nome. Ele detinha o conhecimento da gramtica dos alexandrinos. Sua definio de particpio se tornou clebre posteriormente. Um particpio (participium) aquilo que toma uma parte do nome e uma outra do verbo. um particaptor (particapium). Nomeia um participador. Mas, o que participar? Participare est partem capere: participar tomar parte. 4 Beda escreveu um Tratado da natureza, inspirado na Histria Natural de Plnio. No campo da retrica, o seu tratado sobre os tropos (figuras do discurso) foi importante para a retrica medieval. 5 O monaquismo ocidental, ento, se estruturou em torno de dois eixos. Um eixo o da Glia (Lrins, Marselha, Arles), em que se destacam nomes como Honorato, Joo Cassiano, Cesrio de Arles. No sculo VI surge, em Monte Cassino, a Regra de So Bento, mais comunitria e menos asctica, em que se impe o ora et labora (ora e trabalha) como lema. O trabalho tanto manual quanto intelectual. O papa Gregrio Magno (590-604) ir disseminar a forma de vida da regra beneditina. O segundo eixo irlands. Patrcio, com sua obra de evangelizao da Irlanda, deixou um grande nmero de mosteiros. As comunidades monacais tinham at trs escolas, em que se estudava letras latinas, poesia e direito irlands. O irlands Columbano (+615) fundou numerosos mosteiros, sobretudo na Glia e na Lombardia, que seguem uma regra mais asctica. 6 De Libera, A. A filosofia medieval. So Paulo: Loyola, 1998, p. 264. 7 Idem, ibidem. 8 Os francos comeam a se destacar no cenrio do ocidente latino com C