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PROPOSIES PARA UMA INTERPRETAO DA ARTE RUPESTRE NA ILHA DE SANTA CATARINA E ADJACNCIAS, BRASIL

Rodrigo Luiz Simas de Aguiar RESUMO A arqueologia antropolgica trouxe a interpretao da arte rupestre como uma possibilidade para investigar a cultura simblica de tradies arqueolgicas cujos conhecimentos antes estavam limitados anlise do universo material. A arte rupestre, desta forma, aqui entendida como o registro fsico da esfera simblica e ritualstica das populaes que ocuparam o litoral catarinense h milnios. A dificuldade de associar os petroglifos da Ilha de Santa Catarina com uma das trs tradies arqueolgicas pr-coloniais que ocuparam a regio fez com que as pesquisas l desenvolvidas raramente ultrapassassem os estudos de frequncia tipolgica e a anlise das tcnicas empregadas na elaborao. Diante disso fica evidente a necessidade de novas investidas, baseadas numa anlise mais madura do material j levantado, extraindo proposies analticas e de interpretao. PALAVRAS-CHAVE: Arte Rupestre, Interpretao, Ilha de Santa Catarina ABSTRACT Anthropological Archaeology introduced a possibility to investigate rock art as the symbolic culture of archaeological traditions of which knowledge was once restricted to material culture analysis. In that way, rock art is here understood as a physical record of the symbolic and ritualistic field of those prehistoric populations settled in Santa Catarina State coast, thousands of years ago. Associating those petroglyphs to one of the three regional pre-colonial archaeological traditions was so difficult that researchers limited their studies on rock art to typological frequencies and production techniques. In the face of this, it is evident the need of new approaches based on a mature processing of the survey data, by extracting analytical and interpretational propositions. KEYWORDS: Rock Art, Interpretation, Santa Catarina Island

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A Ilha de Santa Catarina est localizada no litoral sul do Brasil, sob as coordenadas

2722'49"S e 4821'05"W, na regio meridional do Estado homnimo. A Ilha formada por

praias arenosas de curta e mdia extenso, intercaladas por formaes rochosas,

caracterizando um tpico litoral de transgresso marinha. reas cobertas por vegetao de

restinga, plancie quaternria e Mata Atlntica, distribudas por quase 500 quilmetros

quadrados de espao territorial, associadas ao abundante recurso pesqueiro e diversidade

faunstica, acabaram por constituir um chamariz para o estabelecimento das primeiras

colnias de pescadores, que na Ilha de Santa Catarina datam de 5000 AP (LIMA, 2000).

Segundo Andr Prous (1992), condies ambientais relativamente uniformes,

dispostas em uma situao de isolamento em relao s terras interioranas, podem ter gerado

certa homogeneidade cultural, que se estendeu por todo o litoral sul do Brasil. Assim sendo,

em consequncia de uma geologia e de uma ecologia homogneas, a economia e a tecnologia

bsicas evidenciam numerosos pontos de convergncia, o que no impede que fcies culturais

diversas tenham se desenvolvido no espao e no tempo (ibid.:199). De fato, ainda que se

ocupe de tratar to somente das ocupaes de caadores e coletores, percebe-se uma grande

diversidade na cultura material, bem como na morfologia dos assentamentos, evidncias que

demonstram diferentes matrizes culturais em meio aos diversos assentamentos deste perodo

arqueolgico para o litoral catarinense.

Estudos anteriores (ROHR, 1969; AGUIAR, 2001; AGUIAR 2002; AGUIAR, 2003a),

constataram que a Ilha de Santa Catarina possui importantes stios de arte rupestre dispersos

pelos costes rochosos de suas praias e em diversas ilhas adjacentes. Estes smbolos, gravados

sobre o diabsio, so obra de alguma das (ou mais de uma) tradies que habitaram a regio

em perodos remotos. Foram trs as tradies arqueolgicas que habitaram a regio no

passado pr-colonial: os caadores e coletores, os itarar e os guarani. A dificuldade em se

relacionar a cultura material destes povos com os smbolos gravados nas pedras mostra-se um

entrave para a identificao dos autores dos petroglifos. A ausncia de relatos etno-histricos

que faam referncia ao guarani na prtica da confeco da arte rupestre coloca em dvida a

possibilidade dos indivduos desta tradio terem sido os autores dos grafismos rupestres.

Assim sendo, interessante buscar associar as manifestaes rupestres com as populaes

caadoras e coletoras e itarars. Ao partir deste pressuposto, a produo dos grafismos

rupestres estaria dividida em dois perodos: um mais antigo de sulcos estreitos, desgaste

acentuado dos smbolos e maior incidncia de ptina, que poderia estar relacionado com os

povos caadores e coletores; e outro mais recente, de sulcos mais largos e bem marcados,

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predominncia de crculos e menor incidncia de ptina, que por sua vez poderia ser

associado tradio itarar (AGUIAR, 2001).

Os incontveis assentamentos registrados pela Arqueologia, herana dos 5.000 anos de

ocupao humana na Ilha de Santa Catarina, somados grande quantidade e diversidade de

restos alimentcios encontrados nos extratos arqueolgicos demonstram que ecologia e clima

foram favorveis para que as populaes pr-coloniais usufrussem um excelente habitat

(AGUIAR, 2003b). Tal situao permitiu que estas populaes vivessem em assentamentos

relativamente estveis, no sendo necessrio mover-se por consequncia de esgotamento de

recursos naturais. Ou seja, mesmo entre os caadores e coletores, havia um relativo

sedentarismo, onde a ausncia de agricultura era compensada pela abundncia de outros

recursos naturais. Ao considerar todo o litoral de Santa Catarina, possvel supor que os

grupos de caadores e coletores pudessem permanecer num mesmo local por centenas, at

milhares de anos. Como evidncia para dar sustentao a tal suposio h a grande quantidade

de restos alimentares encontrados nos estratos arqueolgicos dos sambaquis. A prpria

dimenso de muitos dos sambaquis reitera esta hiptese, j que Santa Catarina possui os

maiores sambaquis do mundo. Alguns sambaquis catarinenses chegaram a medir trinta metros

de altura. Ainda que se justifique a dimenso de muitos sambaquis como resultado da ao de

um expressivo contingente humano, em muitos casos possvel verificar entre os estratos

arqueolgicos longos perodos de ocupao continuada, o que aponta para o uso da mesma

rea por vrias dcadas.

Porm, o objetivo deste artigo no refletir sobre os padres de assentamentos das

tradies arqueolgicas pr-coloniais, tema que aqui apresentado somente a ttulo de

contextualizao. O que se pretende apresentar algumas proposies de interpretao da arte

rupestre da Ilha da Santa Catarina e adjacncias. Antes, contudo, necessrio apresentar a

definio do objeto de estudo. Por definio, arte rupestre o nome que se d s figuras feitas

sobre as pedras ou paredes rochosas por diferentes culturas humanas do passado (AGUIAR,

2002). A arte rupestre pode ser dividida em duas categorias: as gravuras rupestres

(petroglifos) e as pinturas rupestres (pictoglifos) na Ilha de Santa Catarina existe somente a

primeira modalidade. Estes smbolos, que em muitos casos remontam milhares de anos,

chegaram contemporaneidade como um importante registro da cultura imaterial de

populaes grafas. Desta forma, a arte rupestre passa a ser o nico elemento de anlise

arqueolgica que possibilita levantar inferncias no campo da cultura simblica (AGUIAR,

2004). Entende-se, ento, a arte rupestre da Ilha de Santa Catarina como o registro fsico da

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esfera simblica e ritualstica daquelas populaes que ocuparam o litoral catarinense h

milnios.

A ecologia apresenta profundas relaes com a economia e com o modo de vida de

grupos humanos (EVANS-PRITCHARD, 1978). Assim, para tentar interpretar a arte rupestre,

deve-se antes avaliar cuidadosamente o entorno ecolgico. O campo da interpretao da arte

rupestre difcil e deve se ter em conta que as inferncias nem sempre conduzem a propostas

conclusivas. Mas, sem dvida, para obter maior probabilidade de xito em suas proposies

interpretativas, o arquelogo deve partir do levantamento da arte rupestre e, em segunda

instncia, da anlise dos vestgios arqueolgicos levantados em escavaes tradicionais em

paralelo com a avaliao das formas de apropriao do entorno ecolgico (AGUIAR, 2004).

Discute-se a possibilidade da arte rupestre ter um valor religioso, mgico; uma magia

simptica da caa, ou ainda formas de culto estelar (PROUS, 1992: 539; CONKEY, 1993:

96). Com base na anlise dos elementos e suas repeties, o arquelogo Andr Leroi-Gourhan

(1993) verificou que certos povos que ocuparam determinada regio da Europa no paleoltico

projetaram um pensamento estruturado nas paredes das grutas. O trabalho de Gourhan

demonstrou que, a partir do estudo da arte rupestre, possvel determinar aspectos da cultura

no material dos povos da pr-histria, o que seria impossvel apenas com a tradicional

escavao arqueolgica.

Ao analisar a arte rupestre de determinada regio, importante a busca de atributos

cronolgicos e culturais: quando e por quem esta arte rupestre foi feita. Para isso, o

arquelogo utiliza diferentes tcnicas, o que confere ao estudo da arte rupestre seu carter

cientfico (ARCA & FOSSATI, 1997). Quando o pesquisador se depara com um painel de

gravaes ru