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  • Programa de Formao Permanente

    2015 Interioridade agostiniana

    2. A palavra,caminho de interioridade

  • C O N V E R T A M O - N O S E C R E I A M O S ( C F . M C 1 , 1 5 )

    A P A L A V R A , C A M I N H O D E I N T E R I O R I D A D E

    PARA ADENTRAR-NOS... Fizestes-nos, Senhor, para Vs, e o nosso corao estar inquieto enquanto no descansar em Vs (conf. 1, 1, 1).

    Essa afirmao de nosso Pai Santo Agostinho, bastante clebre e repetida de gerao em gerao, pode resumir bem o fundamento para a interioridade crist, estabelecido desde a poca dos grandes Padres at os nossos dias. Em tal viso, a interioridade expressa o desejo do bonum supremo que habita no homem, e entendida como um movimento do corao em direo ao infinito, ao eterno, ao absoluto.

    Na mesma linha, no incio do sculo passado, Miguel de Unamuno respondia, com estas palavras, a um jovem que lhe escrevera a pedir conselhos:

    Dizes-me em tua carta que, se at agora teu lema foi: Adiante!, a partir de agora ser: Para o alto! Deixa isso de adiante e atrs, de para o alto e para baixo; deixa de brincar de progressismos e ranos; deixa-o aos progressistas e aos retrgrados, aos ascendentes e aos

  • 2015 INTERIORIDAD AGUSTINIANA

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    descendentes, que se movem to somente no espao exterior, e procura o outro, o de teu mbito interior, o de tua alma. Luta por introduzir nela o universo inteiro, que a melhor maneira de derramar-te nele (). Em vez de dizeres: Adiante!, ou Para o alto!, dize: Para dentro! Reconcentra-te para irradiar. Deixa-te encher para que transbordes depois, conservando o manancial. Recolhe-te em ti mesmo para melhor dar-te aos demais, todo inteiro e indiviso. Dou quanto tenho, diz o generoso. Dou quanto sou, diz o heri. Dou-me a mim mesmo, diz o santo; dize tu com ele ao dar-te: Dou comigo o universo inteiro. Para isso, tens de fazer-te universo, procurando dentro de ti. Para dentro!

    necessrio recordar ainda aquilo que as nossas Constituies nos apresentam em seu nmero 12, do qual se depreende, em nosso ponto de vista, um caminho de interioridade:

    Com efeito, recoleo um processo ativo pelo qual o homem, disgregado e desparramado pela ferida do pecado, e movido pela graa, entra em si mesmo, onde Deus j o est a esperar e, iluminado por Cristo, mestre interior, sem o qual o Esprito Santo no instrui nem ilumina ningum, transcende-se a si mesmo, renova-se conforme a imagem do homem novo que Cristo, e pacifica-se com a contemplao da Verdade.

    Iluminado por Cristo, mestre interior, sem o qual o Esprito Santo no instrui nem ilumina ningum,

    transcende-se a si mesmo, renova-se conforme a imagem do homem novo que Cristo, e pacifica-se com a contemplao da Verdade.

    Interioridade , sem dvida, voltar a ns mesmos, com o qual estamos a dizer,

    implicitamente, voltar a Deus. voltar a desfrutar do sentir-nos criaturas. ser criao, voltar a respirar o sopro vital do Deus criador, que imprime Sua imagem trinitria (cf. Gn 1,26; 2,7). Na aceitao dessa realidade, arrisca-se nossa vida espiritual, nossa vida interior; na verdade, arrisca-se a vida ou a morte.

  • LA PALAVRA, CAMINHO DE INTERIORIDADE

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    Aceitar o sopro de Deus ( ) rejeitar as aparncias e o engano das coisas que tornam a existncia por demais mundana, em detrimento de uma vida criativa, inteligente, de uma vida em liberdade, que o fim com o qual ns fomos criados. No somos escravos nem filhos de escravos. Somos filhos livres de um Pai que nos torna livres e de um irmo, Jesus, que pagou nossa condenao ao preo de Seu sangue, para que j no vivamos como prisioneiros (cf. 1Cor 7, 23).

    por isso que a interioridade ser encontrar-nos com o mais genuno e original de cada um, e, nessa originalidade, voltaremos prpria origem de cada um, que Deus. Ser reconhecer donde que nos viemos e para onde somos destinados a ir.

    Ensinai-nos a contar os nossos dias e dai ao nosso corao sabedoria (Sl 89[90],12): essa a orao que o saltrio atribui a Moiss, homem de Deus (cf. Sl 89[90],1), fruto de sua peculiar e extraordinria experincia religiosa e, ao mesmo tempo, expresso do comum desejo de todo homem de adquirir uma sabedoria divina, como um caminho autntico de vida. O homem, de fato, com suas buscas interiores, pode refletir sobre sua condio de ser histrico; mas somente Deus pode ensinar-lhe a atribuir o justo peso a seus dias, de modo a portar assim, a partir dessa iluminao, a semente de uma conduta inteligente, boa e fecunda1.

    O homem caminho para Deus. Disseram-no todas as filosofias e religies. O Cristianismo acrescenta: Deus caminho para o homem. Deus abriu-Se caminho na histria que o homem forjou, para chegar at onde ele est2. Estas pginas tm o objetivo de oferecer algumas luzes para o caminho.

    CONVERSO E INTERIORIDADE. VIDA PROFTICA No Antigo Testamento, a vida no Esprito acha-se intimamente associada s

    profecias. Os profetas eram pessoas movidas e motivadas pelo Esprito, mais que quaisquer outras. Na Bblia, ser movido pelo Esprito e ser um profeta praticamente a mesma coisa. Tanto que quando queremos identificar o Esprito em quem cremos, dizemos: Creio no Esprito Santo... Ele que falou pelos profetas (Credo niceno-constantinopolitano).

    Antes de Cristo, esse Esprito s era dado a umas poucas pessoas, mas, em Pentecostes, o Esprito de Deus foi derramado sobre muitos, tornando-Se a todos acessvel. O resultado imediato disso que todos agora podem ser como os

    1 Cf. P. Bovati, I giorni di Dio, Milano 2013, 7. 2 Cf. O. Gonzlez de Cardedal, La entraa del cristianismo, Secretariado Trinitario, Salamanca

    2001, 323.

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    profetas, podem partilhar, de uma forma ou de outra, o Esprito dos profetas. Como Pedro nos diz, em Atos 2, 15-21, a profecia de Joel 3, 1-5 j uma realidade:

    Nos ltimos dias, diz o Senhor, derramarei o meu Esprito sobre todo ser humano, e vossos filhos e filhas profetizaro, vossos jovens tero vises e vossos ancios tero sonhos.

    Tero vises e tero sonhos so maneiras metafricas de fazer referncia atividade dos profetas.

    O mais caracterstico desses homens foi manifestar a vontade de Deus quando o povo comeava a colocar seus prprios interesses em coisas que no eram Deus, nos dolos. por isso que, quando se nos pede vivamos uma vida religiosa proftica, temos de entend-la, ante tudo, como sendo uma vida afastada dos dolos e cheia de Deus. Para que isso ocorra, necessria una vida de contnua converso, de contnua volta s fontes ou, melhor dizendo, Fonte.

    O conceito de converso, na Bblia, particularmente difcil de compreender, dadas as numerosas conotaes associadas ao termo. So como elemento de convergncia de diversos grupos religiosos da poca. A dificuldade aumentou pelo fato de que as realidades agrupadas em tal conceito, nos escritos bblicos, no podem ser reunir-se em torno de uma nica ideia. O verbo shub () significa eminentemente voltar, retornar. Conecta-se raiz que significa tambm responder e que faz da converso um sempre renovado retorno ao Senhor. Sempre aparece no fundo a ideia de mudar de sentido. Tal palavra quer transmitir-nos uma necessidade radical, j que, para Jesus, o termo define o prprio ser cristo (cf. Mc 1, 15)3.

    preciso entender a converso para chegar ao mais especfico da interioridade, que o encontro ntimo e transformador do corao do homem por parte de Deus. preciso reconciliar-nos, com ns mesmos, e com Deus. Para voltar, preciso um ponto de partida. A experincia do povo de Israel e sua meta ao longo da histria , sem dvida, um afastamento e uma volta ao Senhor. O shub hebraico o retorno s fontes da prpria vida e da vida interior; voltar s guas que do vida.

    Dois pecados cometeu meu povo: abandonou-Me a Mim, fonte de gua viva, e preferiu cavar cisternas, cisternas defeituosas que no podem reter gua (Jr 2,13).

    O afastamento o primeiro dos atos que permitem a volta, a reconciliao e a interioridade. Deve-se entender primeiro a nossa disperso para chegar ento a nosso interior. A mudana e a confisso, o reconhecimento das prprias culpas e a volta ao Deus abandonado no so coisa de pouca monta, porm uma mudana no mais profundo do ser. Trata-se de um retorno fcil de compreender superficialmente, mas difcil de realizar:

    3 Cf. E. Bianchi, Lessico della vita interiore, Rizzoli 2004, 29.

  • LA PALAVRA, CAMINHO DE INTERIORIDADE

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    Pois bem, vou julgar cada um de vs, casa de Israel, segundo a sua conduta orculo do Senhor Deus. Arrependei-vos (), convertei-vos () de todas as vossas transgresses, a fim de no terdes ocasio de cair em pecado. Afastai-vos de todos os pecados que praticais. Criai para vs um corao novo ( ) e um esprito novo ( ). Por que haveis de morrer, casa de Israel? Pois Eu no sinto prazer na morte de ningum orculo do Senhor Deus. Convertei-vos () e vivereis! (Ez 18, 30-32)

    A mensagem de todos os profetas tem a mesma estrutura. H um chamado metnoia , (arrependimento, converso, transformao), como advertncia a respeito de um juzo que vir se o povo no mudar, e uma promessa de salvao se o povo, realmente, mudar. O juzo futuro ou a salvao futura no so absolutos inevitveis. Limitam-se por condicionais: se no vos transformardes, se vos converterdes. Em outras palavras, o que os profetas preveem so as consequncias daquilo que est a suceder-se agora mesmo ou no. Eles preveem o futuro no presente, nas tendncias atuais, nos sinais dos tempos.

    Os profetas desviaro a ateno do povo, do passado para o futuro. Em vez de tentarem entender o presente luz de fatos passados (xodo, Sinai, Davi etc.), pedem ao povo que entenda o presente luz de uma futura ao de Deus. Os profetas orientavam-s

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