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  • Organizao de ANT~NIO N ~ V O A

    PROFESSOR

    J. Gimer Jos ld

    E D I

  • O PASSADO E O PRESENTE DOS

    PROFESSORES

  • Este ensaio organiza-se em dois tempos, sugerindo que o processo histrico de profssio- nalizao do professorado (passado) pode servir de base compreenso dos problemas actuais da proflsso docente (presente).

    A primeira parte preenchida com uma apresentao breve do modelo de anlise da his- tria da profisso docente em Portugal, que desenvolvi na obra Le Temps des Professeurs (1987), em torno de: quatro etapas (ocupao principal, licena do Estado, formao e asso- ciativismo), duas dimenses (conhecimentos/tcnicas e normaslvalores) e um eixo central (estatuto social e econmico).

    Na segunda parte adaptam-se estes critrios ao estudo actual do professorado, argumen- tando-se com a necessidade de encontrar novos valores de referncia e novos modelos orga- nizativos da profisso docente. O ciclo estatal de controlo do ensino est em vias de terminar e os professores atravessam um perodo de crise, isto , de tomada de decises fundamentais para o seu futuro.

    A ideia de projectar uma refex60 diacrnica numa anlise sincrnica levanta alguns pro- blemas metodolgicos. Acredito, no entanto, que ela nos confronta com uma realidade em evoluo e mudana, libertando o pensamento para a imaginao de diversos possveis. Pro- curando servir de enquadrarnento ao conjunto do livro, o presente texto limita-se a aflorar uma srie de problemas que afectam o professorado, procurando por os leitores perante a necessidade de tomar opes.

  • O processo histrico de profissionalizao do professorado

    segunda metade do sculo XVIII um perodo-chave na histria da educao e da profisso docente. Por toda a Europa procura-se esboar o perfil do professor ideal: Deve ser leigo ou religioso? Deve integrar-se num corpo docente ou agir a

    ttulo individual? De que modo deve ser escolhido e nomeado? Quem deve pagar o seu trabalho? Qual a autoridade de que deve depender? (Julia, 1981).

    Este conjunto de interrogaes inscreve-se num movimento de secularizao e de esta- tizao do ensino. Os novos Estados docentes instituem um controlo mais rigoroso dos processos educativos, isto , dos processos de reproduo (e de produo) da maneira como os homens concebem o mundo. A estratgia adoptada prolongou as formas e os modelos escolares elaborados sob a tutela da Igreja, dinamizados agora por um corpo de professores recrutados pelas autoridades estatais.

    O processo de estatizao do ensino consiste, sobretudo, na substituio de um corpo de professores religiosos (ou sob o controlo da Igreja) por um corpo de professores laicos (ou sob o controlo do Estado), sem que, no entanto, tenha havido mudanas significativas nas motivaes, nas normas e nos valores originais da profisso docente: o modelo do professor continua muito prximo do modelo do padre (Julia, 1981a).

    Inicialmente, a funo docente desenvolveu-se de forma subsidiria e no especiali- zada, constituindo uma ocupao secundria de religiosos ou leigos das mais diversas ori- gens. A gnese da profisso de professor tem lugar no seio de algumas congregaes reli- giosas, que se transformaram em verdadeiras congregaes docentes. Ao longo dos scu- los XVII e XVIII, os jesutas e os oratorianos, por exemplo, foram progressivamente con-

  • figurando um corpo de saberes e de tcnicas e um conjunto de normas e de valores espe- cficos da profisso docente:

    - A elaborao de um corpo de saberes e de tcnicas a consequncia lgica do inte- resse renovado que a Era Moderna consagra ao porvir da infncia e intencionali- dade educativa. Trata-se mais de um saber tcnico do que de um conhecimento fun- damental, na medida em que se organiza preferencialmente em tomo dos princpios e das estratgias de ensino. A pedagogia introduz uma relao ambgua entre os pro- fessores e o saber, o qual atravessa toda a sua histria profissional: assinale-se, a ttulo de exemplo, que a hierarquia interna profisso docente tem como critrio um saber geral, e no um saber especljcico, isto , um saber pedaggico (Chapouli, 1974). Por outro lado, importante sublinhar que este corpo de saberes e de tcnicas foi quase sempre produzido no exterior do "mundo dos professores", por tericos e especialistas vrios. A natureza do saber pedaggico e a relao dos professores ao saber constituem um captulo central da histria da profisso docente.

    - A elaborao de um conjunto de normas e de valores largamente influenciada por crenas e atitudes morais e religiosas. A princpio, os professores aderem a uma tica e a um sistema normativo essencialmente religiosos; mas, mesmo quando a misso de educar substituda pela prtica de um ofcio e a vocao cede o lugar profisso, as motivaes originais no desaparecem. Os professores nunca procede- ram codificao formal das regras deontolgicas, o que se explica pelo facto de lhes terem sido impostas do exterior, primeiro pela Igreja e depois pelo Estado, ins- tituies mediadoras das relaes internas e externas da profisso docente. E, no entanto, incontestvel que os professores integraram este discurso, transfor- mando-o num objecto prprio: nas dcadas de viragem do sculo XIX para o sculo XX, a poca gloriosa dos Congressos de Professores que constituram verdadeiros "laboratrios de valores comuns", sente-se a perpetuao de um iderio colectivo onde continuam presentes as origens religiosas da profisso docente.

    Simultaneamente com este duplo trabalho de produo de um corpo de saberes e de um sistema normativo, os professores tm uma preseqa cada vez mais activa (e intensa) no terreno educacional: o aperfeioamento dos instrumentos e das tcnicas pedaggicas, a introduo de novos mtodos de ensino e o alargamento dos currculos escolares dificul- tam o exercicio do ensino como actividade secundria ou acessria. O trabalho docente diferencia-se como "conjunto de prticas", tomando-se assunto de especialistas, que so chamados a consagrar-lhe mais tempo e energia.

    Apesar de se terem desencadeado no seio das congregaes docentes, estas transfor- maes extravasam o campo religioso, abrangendo o conjunto dos indviduos que se dedi- cam ao ensino. Durante longos anos imputou-se a gnese da profisso docente aco dos sistemas estatais de ensino; hoje em dia, sabemos que no incio do sculo XVIII havia j uma diversidade de grupos que encaravam o ensino como ocupao principal,

  • exercendo-a por vezes a tempo inteiro. A interveno do Estado vai provocar uma homo- geneizao, bem como uma unificao e uma hierarquizao escala nacional, de todos estes grupos: o enquadramento estatal que institui os professores como corpo profissio- nal, e no uma concepo corporativa do ofcio.

    Uma das primeiras preocupaes dos reformadores do sculo XVIII consiste na definio de regras uniformes de seleco e de nomeao dos professores. A diversi- dade de situaes educativas do Antigo Regime no serve os novos desgnios sociais e polticos: necessrio retirar os professores da alada das comunidades locais, organi- zando-os como um corpo do Estado. Neste sentido, a estratgia de recrutamento no privilegiar os candidatos que tencionam fixar-se nas suas terras de origem, visando, pelo contrrio, a constituio de um corpo de profissionais isolados, submetidos disci- plina do Estado.

    Os professores aderem a este projecto, que lhes assegura um estatuto de autonomia e de independncia em relao aos procos, aos notveis locais e s populaes: a funciona- rizao deve ser encarada como uma vontade partilhada do Estado e do corpo docente. E, no entanto, o modelo ideal dos professores situa-se a meio caminho entre o funcionalismo e a profisso liberal: ao longo da sua histria sempre procuraram conjugar os privilgios de ambos os estatutos.

    A partir do final do sculo XVIII no permitido ensinar sem uma licena ou autori- zao do Estado, a qual concedida na sequncia de um exame que pode ser requerido pelos indviduos que preencham um certo nmero de condies (habilitaes, idade, com- portamento moral, etc.). Este documento constitui um verdadeiro suporte legal ao exerc- cio da actividade docente, na medida em que contribui para a delimitao do campo pro- fissional do ensino e para a atribuio ao professorado do direito exclusivo de interven~o nesta rea.

    A criao desta licena (ou autorizao) um momento decisivo do processo de pro- fissionalizao da actividade docente, uma vez que facilita a definio de um perfil de competncias tcnicas, que servir de base ao recrutamento dos professores e ao delinear de uma carreira docente. Este documento funciona, tambm, como uma espcie de "aval" do Estado aos grupos docentes, que adquirem por esta via uma legitimao oficial da sua actividade. As dinmicas de afirmao profissional e de reconhecimento social dos pro- fessores apoiam-se fortemente na consistncia deste ttulo, que ilustra o apoio do Estado ao desenvolvimento da profisso docente (e vice-versa).

    Os professores so funcionirios, mas de um tipo particular, pois a sua aco est impregnada de uma forte intencionalidade poltica, devido aos projectos e s finalidades sociais de que so portadores. No momento em que a escola se impe como instrumento privilegiado da estratificao social, os professores passam a ocupar um lugar-chameira nos percursos de ascenso social, personificando as esperanas de mobilidade de diversas camadas da populao: agentes culturais, os professores so tambm, inevitavelmente, agentes politicos.

  • Os professores so os protagonistas no terreno da grande operao histrica da escola- rizao, assumindo a tarefa de promover o valor educao: ao faz-lo, criam as condies para a valorizao das suas funes e, portanto, para a melhoria do seu estatuto sociopro- fissional. No sculo XIX, a expanso escolar acentua-se sob a presso de uma procura social cada vez mais forte: "a instruo foi encarada como sinnimo de superioridade social, mas era apenas o seu corolrio" (Furet