PRODUTIVIDADE E ARMADILHA DO LENTO CR ?· da produtividade do trabalho (2,4% a.a.), da variação nas…

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  • PRODUTIVIDADE E ARMADILHA DO LENTO CRESCIMENTO

    Regis Bonelli1

    1 INTRODUO

    Uma das principais preocupaes dos analistas da economia brasileira com sua perda de dinamismo no longo prazo e, novamente, aps a crise mundial iniciada em 2008. Nos ltimos anos, associada a uma reduo dos ganhos de produtividade, esta preocupao ficou mais aguda diante do fraco desempenho do trinio 2011-2013. certo que houve significativa recuperao do crescimento e da produtividade de 2003 a at aproximadamente 2010. Mas, recentemente, constatou-se que essa recuperao teve vida curta. Por qu? Como as medidas usuais de produtividade podem ajudar a entender o que se passou e qual a relao entre elas? Qual a importncia das mudanas na estrutura setorial da economia para esse quadro?

    Diante da evidente complexidade dessas questes, este texto tem como objetivo to somente sugerir respostas para algumas delas, no intuito de avanar no conhecimento das causas da perda de dinamismo econmico do pas. As dificuldades do momento atual foram tentativamente denominadas de armadilha do lento crescimento.

    A organizao do texto a seguinte: a seo 2 destaca a importncia dos ganhos de produtividade para o crescimento brasileiro, ainda mais crucial no mdio e longo prazos devido ao final da fase de bnus demogrfico. A seo 3 analisa a evoluo da produtividade no longo prazo. Um esboo de explicao para a reduo do seu ritmo de crescimento consta da seo 4, ao passo que a seo 5 explora o aspecto pr-cclico da produtividade e sua importncia para a formao das perspectivas de crescimento. A seo 6 apresenta decomposies setoriais dos ganhos de produtividade como elemento adicional para a compreenso das dificuldades recentes. A seo 7 conclui o artigo.

    2 O IMPERATIVO DA PRODUTIVIDADE

    Uma viso de longo prazo do crescimento brasileiro revela que a perda de dinamismo ocorreu depois de 1980, quando a taxa mdia decenal do produto interno bruto (PIB) crescia 8,6% ao ano (a.a). A taxa decenal mais baixa ocorreu em 1990 (1,6% a.a.). J a acelerao at 1994 (2,8% a.a.) foi abortada por conta das crises externas da segunda metade dos anos 1990. De 2000 a 2004, a taxa mdia decenal ficou em torno de 2,5% a.a., quando comeou a acelerar at chegar aos 3,8% a.a., em 2011. J em 2014, a taxa decenal dever atingir cerca de 3,3% a.a. Em particular, a taxa mdia do quadrinio 2011-2014 alcana pouco menos de 2%, sendo o aspecto mais visvel do que se denomina de armadilha do lento crescimento.

    Uma parte da desacelerao do crescimento reflete as mudanas demogrficas pelas quais o pas vem passando; em particular, menor aumento da fora de trabalho. Apesar de este aspecto no ser por si s suficiente para explicar a desacelerao dos ltimos anos, sua importncia para o desenho do futuro justifica apreciao mais detida.

    Uma forma de especular sobre as tendncias de crescimento futuras do PIB levando-se em conta a produtividade do trabalho e o final do bnus demogrfico que o pas vem vivendo parte de uma identidade em que o PIB (Y) descrito como produto da populao (POP) e das relaes:

    1. Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundao Getulio Vargas (FGV). Este texto um resumo de um trabalho em elaborao com o mesmo ttulo. O autor agradece a colaborao do assistente de pesquisa Daniel A. Duque.

  • 8 Radar

    (Y/PO), a produtividade da mo de obra;

    (PO/PEA), a taxa de ocupao (complemento da taxa de desemprego);

    (PEA/PIA), a taxa de atividade (na definio do IBGE); e

    (PIA/POP), a taxa de participao.

    No passado, tanto a populao total e as taxas de participao e atividade cresciam aceleradamente. Logo, mesmo que a produtividade da mo de obra e a taxa de emprego no aumentassem, o PIB cresceria pela incorporao de mais pessoas atividade econmica.

    No entanto, medida que o pas avanou econmica e socialmente, a importncia desse bnus demogrfico diminuiu. E, se se projetar para o futuro, em algum momento no muito distante, a populao em idade ativa (PIA) deixar de crescer. Como a relao entre a populao economicamente ativa(PEA) e a populao em idade ativa no tem flutuado muito2 e a taxa de emprego no pode crescer indefinidamente e j se encontra em nvel historicamente muito elevado , o crescimento do PIB passar a depender cada vez mais dos ganhos de produtividade da mo de obra.

    Na tabela 1 construda a partir de decomposio logartmica da identidade j referida , nota-se, na primeira linha, que a taxa mdia de crescimento do PIB entre 2003 e 2013 (3,7% a.a.) a soma do crescimento da produtividade do trabalho (2,4% a.a.), da variao nas variveis socioeconmicas3 e do crescimento da PIA de 10 anos e mais de idade (1,5% a.a.).

    Para o futuro com a populao crescendo no perodo 2013-2023 a 0,7% a.a., em mdia , a populao em idade ativa aumentar apenas 1,1% a.a. Esta uma taxa historicamente muito baixa. Indica que a fora de trabalho (PEA), que se extrai da PIA, possivelmente crescer a taxas prximas a esta, limitando a oferta de trabalho.

    TABELA 1Taxas mdias de crescimento: PIB, produtividade do trabalho,1 variveis socioeconmicas e PIA 10+ (2003-2023)(Em %)

    Perodos PIB Produtividade do trabalho Variveis socioeconmicas (taxa de ocupao1 e taxa de atividade) PIA 10+

    2003-2013 3,7 2,4 - 0,2 1,5

    2013-2023 (1) 2,1 1,0 0 1,1

    2013-2023 (2) 3,1 2,0 0 1,1

    2013-2023 (3) 4,1 3,0 0 1,1

    Elaborao do autor.Nota: 1 Na medida da produtividade, o trabalho medido pelo nmero de horas trabalhadas, segundo a srie gentilmente cedida por Fernando de Holanda Barbosa

    Filho, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundao Getulio Vargas (FGV).

    As trs linhas inferiores da tabela 1 apresentam simulaes do que pode ser o crescimento do PIB no perodo 2013-2023. Lendo da direita para a esquerda: dado o crescimento projetado da PIA, e supondo-se constante o produto representado na tabela pelas variveis socioeconmicas, o crescimento do PIB depender unicamente dos ganhos de produtividade do trabalho. Se a produtividade crescer 1% a.a. na dcada, o PIB crescer 2,1% a.a., e se aumentar em 2% a.a., este indicador crescer 3,1% a.a., e assim sucessivamente. Logo, se o objetivo acelerar o crescimento, com o fim do bnus demogrfico, os ganhos da produtividade do trabalho tornam-se um imperativo.

    Mas qual tem sido o desempenho recente da produtividade? Responder a esta questo o objetivo da prxima seo.

    2. Em particular, tem cado.

    3. Ligeiramente negativa entre 2003 e 2013; a taxa de atividade caiu mais que cresceu a taxa de ocupao medida em horas trabalhadas em relao populao economicamente ativa(PEA).

  • 9Produtividade e Armadilha do Lento Crescimento

    3 DESACELERAO DO CRESCIMENTO E EVIDNCIAS PARA A PTF E A PRODUTIVIDADE DO TRABALHO

    De uma perspectiva de longo prazo, e consideradas fases tpicas de crescimento ou de regimes caractersticos de poltica econmica no Brasil, o desempenho da produtividade do trabalho e da produtividade total dos fatores (PTF) nos ltimos dez anos no to ruim quanto foi na dcada anterior, ou no perodo 1981-1992. A tabela 2 revela isto ao apresentar uma decomposio do tipo da de Solow, que separa o crescimento da produtividade do trabalho em duas parcelas: o aprofundamento do capital e o crescimento da PTF, denominado neste trabalho de PTF.

    Vrios aspectos se destacam nessa tabela. Um destes a elevadssima taxa de aprofundamento do capital at 1980, ao lado de ganhos muito fortes da PTF em dois subperodos desta fase: 1948-1962 e 1968-1973. Outro o fato de que na longa dcada perdida de 1981-1992 tanto o trabalho quanto o capital continuaram a ser incorporados produo, mas ineficientemente: a produtividade do trabalho e a PTF tiveram queda no perodo. Um terceiro a constatao de que quando o crescimento do PIB arrefece algo que se reflete em menor crescimento da produtividade do trabalho a PTF tambm aumenta mais lentamente.

    TABELA 2Decomposio do crescimento da produtividade do trabalho: perodos selecionados (1948-2013)(Em % a.a.)

    Perodos (Y/L) =y= produtividade do trabalho alfa*k k= (K/L) (alfa = 0,4) Aprofundamento do capital PTF'

    1948-1962 4,7 2,2 2,4

    1963-1967 2,4 1,6 0,8

    1968-1973 5,7 2,1 3,6

    1975-1980 3,6 2,3 1,3

    1981-1992 -0,6 0,3 -0,9

    1993-2002 1,0 0,4 0,6

    2003-2013 2,1 0,8 1,3

    (2003-2013)- (1975-1980) -1,5 -1,5 0

    Elaborao do autor. Obs.: o valor adotado para alfa (0,4) um pouco inferior ao que se obtm das Contas Nacionais do Brasil do perodo 2000-2009, mas est em linha com coeficientes

    adotados internacionalmente em exerccios de decomposio deste tipo.

    Destaque-se que o desempenho da PTF em 2003-2013 no to ruim, como sugerido pela taxa de 1,3% a.a. que, de fato, somente inferior ao da longa fase de crescimento do ps-Guerra a 1962 e ao do perodo do milagre econmico de 1968-1973. Nesta perspectiva, a reduo observada na produtividade do trabalho entre o perodo 1975-1980 e a dcada mais recente, apresentada na ltima linha da tabela, deve-se unicamente reduo do aumento do capital por trabalhador: de 5,8% a.a., entre 1975 e 1980, para apenas 2% a.a., mais recentemente.

    No entanto, analisando-se as mdias mveis trienais do crescimento do PIB e da PTF mais recentemente, fica claro que a da PTF est desabando: esta passou de cerca de 2,5%, no trinio 2006-2008, para pouco menos de 2%, no trinio 2008-2010, e, por fim, para quase 0 no trinio 2011-2013. No difcil perceber que o carter pr-cclico da PTF registra variao negativa sempre que o PIB cresce abaixo de certa taxa. Como explicar esta queda da produtividade, e quais as possveis implicaes para o crescimento?

    4 UM ESBOO DE EXPLICAO

    Como j exposto, do ponto de vista da oferta, parece claro que a reduo da produtividade se associa principalmente ao crescimento mais lento do capital por trabalhador. Mas a taxa de crescimento do PIB tambm caiu muito entre os trinios mencionados; caiu metade. Pelo lado da demanda, uma possibilidade que o ritmo mais lento no Brasil reflita a reduo do ritmo da economia mundial. Evidentemente que quanto mais interconectada a economia em relao ao mundo, maior ser o efeito de aceleraes e desaceleraes da atividade econmica sobre o pas.

  • 10 Radar

    Mesmo sendo o Brasil, como se sabe, economia relativamente fechada, foi, ainda assim, beneficiado pelo acelerado crescimento da China e de outros pases asiticos e pelos melhores termos de troca de 2003 ao perodo 2010-2011. E isto ocorreu em diversos pases da Amrica Latina.

    Mas note-se que esse efeito da demanda afetou desproporcionalmente o Brasil ps-2010. A tabela 3 ilustra a diferena entre o desempenho do pas e do restante da Amrica do Sul em comparao de perodos (P).

    TABELA 3Taxas de crescimento do PIB, da Amrica do Sul e do Brasil, por perodos selecionados (1999-2014)(Em % a.a.)

    P1 P2 P3

    Diferenas

    Taxas mdias de crescimento 1999-2003 2003-2010 2010-2014 P2-P1 P3-P2

    Amrica do Sul 1,5 4,4 3,2 2,9 -1,2

    Amrica Sul (exclusive Brasil) 1,0 4,3 3,8 3,3 -0,5

    Brasil 2,3 4,4 2,0 2,1 -2,4

    Fonte: Fundo Monetrio Internacional (FMI) (IMF, 2014).

    De fato, quando houve acelerao do crescimento, de antes para depois de 2003, o Brasil elevou sua taxa entre perodos de 2,3% a.a. para 4,4% (ganho de 2,1 pontos percentuais p.p.) enquanto o restante da Amrica do Sul passava de 1% a.a. para 4,3% a.a. (um ganho de 3,3 p.p). J na fase de desacelerao, enquanto a Amrica do Sul perdeu 0,5 p.p., o Brasil perdeu 2,4 p.p., tendo passado de 4,4% para 2%. Logo, ganhou menos na acelerao e perdeu mais na desacelerao. Algo ocorreu na passagem de P2 para P3 capaz de causar esta derrubada do crescimento brasileiro.

    Um relatrio recente da Organizao para Cooperao e Desenvolvimento Econmico (OCDE) (OECD, 2014) resume uma lista de possveis razes da piora do desempenho a partir de 2010: a falta de ambiente de negcios apropriado e o alto custo de endividamento, que geram reduzida taxa de investimento privado. Com carga tributria semelhante da OCDE, maiores receitas fiscais, burocracia, gargalos na infraestrutura, bem como a maior tarifa de energia eltrica mdia do mundo, tudo isto fazendo parte do custo Brasil, so tambm barreiras modernizao e ao investimento em novos setores e atividades.

    Sendo essas explicaes gerais e de difcil quantificao, possvel avanar um pouco mais avaliando o papel da produtividade nessa reduo mais que proporcional do crescimento brasileiro. oportuno recordar que assim como a produtividade do trabalho e a PTF a produtividade do capital tambm , aparentemente, pr-cclica. O crescimento das produtividades do capital, do trabalho e da PTF est relacionado pela seguinte equao:

    em que j foi definido, Y [u.K] uma aproximao para o crescimento da produtividade do capital e Y L, para o da produtividade do trabalho. A tabela 4 apresenta os resultados desta decomposio do crescimento da PTF entre as produtividades do capital e do trabalho para as mdias dos trinios 2008-2010 e 2011-2013 e as diferenas entre ambos.

    TABELA 4Crescimento da PTF e das produtividades ponderadas por e (1 - ) do capital e do trabalho e diferena entre perodos selecionados (2007-2013)(Em % a.a.)

    Perodos PTF' *(Y' - uK') (1-)*(Y' - L')

    (1) 2007-2010 1,77 0,25 1,52

    (2) 2010-2013 0,34 -0,78 1,12

    Diferena (2)-(1) -1,42 -1,03 -0,39

    Elaborao do autor.

  • 11Produtividade e Armadilha do Lento Crescimento

    Os resultados esclarecem que as produtividades de cada fator e a PTF cresceram menos depois de 2010 do que antes. Mas a contribuio da queda na produtividade do capital (v, doravante) foi preponderante para a da PTF. Conclui-se que a PTF cresceu pouco no trinio 2011-2013, principalmente porque a produtividade do capital diminuiu. Mas quais as causas da reduo de v?

    Uma possibilidade a de que as mudanas na composio setorial do PIB possam ter contribudo para a queda. Como se sabe, no perodo entre 2010 e 2013, houve aumento expressivo da participao dos servios no PIB. Se a produtividade do capital nos servios diminuiu mais que nos demais setores, isto poderia explicar a queda na produtividade agregada do capital. Infelizmente, porm, no existem dados para fundamentar esta conjectura.

    5 PRODUTIVIDADE PR-CCLICA?

    Os ganhos de produtividade esto associados expanso do investimento em capital fixo isto , tecnologia incorporada em mquinas e equipamentos e aos investimentos em capital humano e inovao. A teoria e a experincia brasileira e internacional ensinam que o crescimento lento dificulta a realizao de economias de escala e no estimula as mudanas tecnolgicas e de aprendizado, nem a adoo de inovaes logo, limita a expanso da produtividade.

    Obviamente, essa associao pode ser espria: a expresso que define a variao da PTF revela que esta contribuio residual ao crescimento, depois que os insumos de mo de obra e capital so levados em considerao.

    Mas a intuio sugere que esse resduo se deve a uma combinao de vrios fatores, quase todos associados ao ritmo do nvel de atividade. Os mais importantes entre estes so: retornos crescentes de escala; melhoria da eficincia na utilizao dos insumos e uso de insumos de qualidade superior importados, por exemplo; realocao dos fatores; aprendizado, experincia no trabalho e mudanas organizacionais no interior das unidades produtivas; melhoramento na qualidade dos...