Prevalência de dor Resumo musculoesquelética em ?· A rede municipal de ensino abrange a ... rede…

Download Prevalência de dor Resumo musculoesquelética em ?· A rede municipal de ensino abrange a ... rede…

Post on 08-Dec-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

<p>604Rev Bras Epidemiol2009; 12(4): 604-14</p> <p>Prevalncia de dor musculoesqueltica em professores </p> <p>Prevalence of musculoskeletal pain among teachers</p> <p>Jefferson Paixo CardosoI</p> <p>Isadora de Queiroz Batista RibeiroII</p> <p>Tnia Maria de ArajoIII</p> <p>Fernando Martins CarvalhoIV Eduardo Jos Farias Borges dos ReisIVI Programa de Ps-graduao em Sade Coletiva da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Feira de Santana, BahiaII Programa de Ps-graduao em Sade, Ambiente e Trabalho da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador, BahiaIII Ncleo de Epidemiologia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Feira de Santana, BahiaIV Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador, Bahia</p> <p>Correspondncia: Jefferson Paixo Cardoso. Universidade Estadual de Feira de Santana UEFS, Centro de Ps-graduao em Sade Coletiva, Ncleo de Epidemiologia. Av. Transnordestina, s/n Novo Horizonte CEP: 44.036-900 Feira de Santana Bahia. E-mail: cardoso.jefferson@hotmail.com</p> <p>Resumo </p> <p>Este artigo descreve a prevalncia de dor musculoesqueltica segundo variveis sociodemogrficas e ocupacionais de professores do ensino bsico. Um estudo epidemiolgico de corte transversal, de carter censitrio, incluiu todos os 4.496 professores do ensino fundamental da rede municipal de Salvador, Bahia, Brasil. As prevalncias de dor musculoesqueltica em membros inferiores (41,1%), membros superiores (23,7%) e dorso (41,1%) foram elevadas. A prevalncia global de dor mus-culoesqueltica relacionada a qualquer um dos trs segmentos corporais foi de 55%. A dor musculoesqueltica foi mais prevalente, nos trs segmentos investigados, entre as mulheres, os mais velhos, de nvel educacio-nal mdio, casados, com trs ou mais filhos e que trabalhavam mais de quatorze anos como docente. A prevalncia de dor ms-culoesqueltica associou-se s seguintes variveis ocupacionais: tempo de trabalho superior a cinco anos na escola estudada, elevado esforo fsico, outra atividade remu-nerada no docente e calor em sala de aula. Esses achados alertam para a necessidade de adoo de polticas pblicas para melho-ria das condies de trabalho do professor.</p> <p>Palavras-chave: professor; sade do tra-balhador; educao; dor lombar; dor nas costas. </p> <p>605 Rev Bras Epidemiol2009; 12(4): 604-14Prevalncia de dor musculoesqueltica em professores</p> <p>Cardoso, J.P. et al.</p> <p>Abstract</p> <p>The article describes the prevalence of musculoskeletal pain according to socio-demographic and occupational variables among elementary school teachers. A cross-sectional study included all 4,496 school teachers of the municipal elementary education network of Salvador, Bahia, Bra-zil. There was a high prevalence of muscu-loskeletal pain in lower limbs (41.1%), upper limbs (23.7%) and back (41.1%). The overall prevalence of musculoskeletal pain related to any of the three body segments was 55%. Musculoskeletal pain was more prevalent in the three body segments investigated: among women, the elderly, those with high-level school education, married, with three or more children, and who had worked over fourteen years as teachers. The prevalence of musculoskeletal pain was associated with the following occupational variables: working over five years at the school, high level of physical exertion, not having a paid activity other than teaching, and reporting heat in the classroom. The findings draw attention toward the need to adopt public policies to improve the working conditions of teachers.</p> <p>Keywords: teacher; occupational health; education; low back pain; back pain. </p> <p>Introduo</p> <p>O trabalho fundamental na vida de homens e mulheres; contudo, quando realizado de maneira inadequada, pode transformar-se em fator prejudicial sade humana. Alguns grupos de trabalhadores, por suas caractersticas ocupacionais, tornam-se mais expostos ao surgimento de dores musculoesquelticas relacionadas ao trabalho1. Dentre estes grupos, destacam-se os professores. Por vezes, o trabalho docente exercido sob circunstncias desfavorveis, sob as quais os docentes mobilizam as suas capacidades fsicas, cognitivas e afetivas para atingir os objetivos da produo es-colar, gerando com isso sobreesforo ou hipersolicitao de suas funes psicofi-siolgicas2. Se no h tempo para a recupe-rao, so desencadeados ou precipitados os sintomas lgicos que explicariam os elevados ndices de afastamento do trabalho por agravos sade neste grupo de traba-lhadores. Assim, o trabalho docente uma atividade que promove estresse, com reper-cusses sobre a sade fsica e mental e com impactos no desempenho profissional1,3.</p> <p>As transformaes sociais, as reformas educacionais e os novos modelos pedaggi-cos influenciaram as condies de trabalho docente atuais, provocando mudanas na profisso. Assim, o profissional docente passou da situao de estabilidade e de relativa segurana para uma situao de insegurana no trabalho, em conseqncia das novas formas de trabalho, precarizadas e desregulamentadas2.</p> <p>Nos ltimos anos, o setor educacio-nal sofreu mudanas que levaram in-tensificao das atividades docentes e precarizao das relaes de trabalho. Os cortes nos recursos financeiros destinados educao so reflexos dos novos processos de organizao social na era globalizada. Frente s exigncias de mercado impostas no processo de globalizao econmica, as instituies escolares passaram a enfrentar novos obstculos, especialmente com rela-o a cumprir adequada e satisfatoriamente seus compromissos educacionais. Este pro-</p> <p>606Rev Bras Epidemiol2009; 12(4): 604-14Prevalncia de dor musculoesqueltica em professoresCardoso, J.P. et al.</p> <p>cesso gerador de intensos conflitos para os professores, que so ainda agravados pelas exigncias sociais do papel do professor: de um lado as exigncias de ensino de qualida-de e de resultados positivos; mas de outro, num contexto de produo em massa, escassez de recursos materiais e humanos. Esses movimentos, em sentidos contrrios, empurram um dilema: gerar resultados positivos sem dispor de ferramentas ade-quadas e necessrias para isto. Este quadro tende a gerar desprestgio e desvalorizao dos docentes, j sobrecarregados pela ne-cessidade de cumprir as novas exigncias da Educao4.</p> <p>O aumento das responsabilidades e exigncias sobre a classe docente con-seqncia de um processo histrico que ocorreu rapidamente no contexto da so-ciedade brasileira. Um dos reflexos dessas transformaes estrutura o denominado mal-estar docente representado por um conjunto de agravos sade decorrente, en-tre tantos fatores, do processo de adaptao s novas exigncias da profisso2. </p> <p>Na ltima dcada, diferentes estudos descreveram os problemas de sade mais prevalentes entre os professores, com desta-que para as desordens musculoesquelticas, problemas vocais e distrbios psquicos1,5-10.</p> <p>A dor musculoesqueltica ou sensao dolorosa apontada em diversos estudos com professores como um relevante pro-blema de sade e as doenas decorrentes de agravos ao sistema musculoesqueltico aparecem como as principais causas de afastamento do trabalho e de doenas pro-fissionais nessa categoria11. Toda pessoa, excluindo os indivduos com insensibilida-de congnita, j sentiu dor em algum mo-mento da vida. Porm, quando o sintoma se prolonga, torna-se um problema, motivo de reduo da atividade laboral, licenas e afastamento do trabalho, alm da possibi-lidade de desenvolvimento de quadros de depresso12. Vrios fatores sociodemogrfi-cos, psicossociais, fsicos e organizacionais esto relacionados ao desencadeamento, desenvolvimento e manuteno da dor musculoesqueltica13.</p> <p>Os custos mdicos e sociais advindos dessa problemtica tm crescido inces-santemente nos ltimos anos e atingem atualmente cifras da ordem de bilhes de dlares em vrios pases, representando significativo impacto na sade e qualidade de vida dos trabalhadores14. Portanto, a anlise e adequado dimensionamento do problema, bem como a investigao de seus fatores associados, so relevantes para constituir medidas que possam intervir sobre o problema.</p> <p>Este estudo tem como objetivo descre-ver a prevalncia de dor musculoesqueltica segundo caractersticas sociodemogrficas e do trabalho docente entre professores da rede municipal de ensino de Salvador, Bahia, Brasil.</p> <p>Material e Mtodos</p> <p>Realizou-se um estudo epidemiolgico de corte transversal, de natureza descritiva, sobre as condies de trabalho e sade dos professores da rede municipal de ensino de Salvador. A rede municipal de ensino abrange a educao infantil (pr-escola), ensino fundamental I (1 a 4 srie) e ensino fundamental II (5 a 8 srie). Um inqurito que incluiu todos os professores da rede municipal de Educao de Salvador foi realizado durante o recadastramento dos professores, no ano de 2006. </p> <p>O instrumento de coleta de dados utili-zado era composto por blocos de questes relativas s informaes sociodemogrficas, destinadas a caracterizar o professor; seu trabalho na rede municipal de Salvador; condies do ambiente de trabalho na es-cola; sade mental; sade vocal e principais problemas de sade referidos pelo profes-sor. O questionrio foi entregue ao professor em envelope lacrado e no identificado. O envelope, alm do questionrio, continha tambm uma carta do Secretrio Munici-pal de Educao e Cultura, solicitando a participao do docente no inqurito e in-formando que esta era de carter voluntrio, e que o professor no deveria identificar-se. </p> <p>A varivel dependente, freqncia de </p> <p>607 Rev Bras Epidemiol2009; 12(4): 604-14Prevalncia de dor musculoesqueltica em professores</p> <p>Cardoso, J.P. et al.</p> <p>dor musculoesqueltica, foi investigada em trs regies corporais: membros inferiores: dor nas pernas; membros superiores: dor nos braos e no dorso: dor nas costas/coluna. A freqncia da dor foi medida numa escala do tipo Likert: 0=nunca; 1=ra-ramente; 2=pouco freqente; 3=freqente e 4=muito freqente. Neste estudo, foi con-siderada como queixa de dor musculoes-queltica quando o professor referiu sentir a queixa lgica como freqentemente ou muito freqentemente, para cada regio corporal acima mencionada.</p> <p>Inicialmente foi feita anlise descritiva considerando variveis sociodemogrficas, variveis relativas ao trabalho docente e variveis relativas s cargas de trabalho.</p> <p>As prevalncias de dor musculoesquel-tica foram estimadas segundo as variveis sociodemogrficas (idade, sexo, situao conjugal, nvel de escolaridade, presena de filhos e nmero de filhos), caractersticas do trabalho docente (tempo de trabalho como professor, tempo de trabalho na escola em que o professor respondeu o questionrio, turno de trabalho, nmeros de turmas que ensinava, nmero mdio de alunos por turma, carga horria semanal e outra atividade remunerada alm da docncia) e cargas de trabalho (cargas fsicas: calor; cargas ergonmicas: mobilirio e tamanho das salas de aula). Foram calculadas razes de prevalncia e seus respectivos intervalos de confiana a 95%. Para avaliao da medi-da de significncia estatstica utilizou-se o teste de qui-quadrado de Pearson, adotando =5%. A prevalncia de queixas musculo-esquelticas segundo tempo de trabalho foi ajustada por faixa etria utilizando o mtodo de Mantel-Haenszel.</p> <p>O presente estudo seguiu as recomen-daes da resoluo 196/96 do Conselho Nacional de Sade. Foi assegurado aos professores o sigilo dos dados fornecidos, sendo as informaes usadas exclusi-vamente para atender aos objetivos da pesquisa. Em nenhuma situao o pro-fessor foi identificado, garantindo assim, a confidencialidade das informaes. O projeto foi aprovado pelo comit de tica em Pesquisa da Maternidade Climrio de Oliveira da Universidade Federal da Bahia, parecer n.83/2007.</p> <p>Resultados</p> <p>Foram estudados 4.496 professores dos 4.697 docentes da rede municipal de ensino do municpio (taxa de resposta de 95,1%). As mulheres representaram a maioria da populao estudada (92,0%); 47,9% tinham 40 anos ou mais de idade, variando de 18 anos a 69 anos; a mdia de idade foi 40,0 9,4 anos. O tempo de trabalho como profes-sor e na escola variaram, respectivamente, de 1 a 45 anos (mdia de 14,4 8,4 anos) e de 1 a 37 anos (mdia de 6,5 6,3 anos). No ensino Fundamental I estavam 68,3% dos docentes. Os professores tinham, em mdia, 2,11,7 turmas e 31,2 5,8 alunos por sala de aula. Aproximadamente 14% dos professores trabalhavam em outra escola da rede municipal de ensino e 31,9% em escola de outra rede de ensino.</p> <p>A prevalncia de dor musculoesque-ltica (DME) foi de 41,1% para membros inferiores, 41,1% para o dorso e 23,7% para os membros superiores (Tabela 1). A pre-valncia global, para DME relacionada a qualquer um dos trs segmentos corporais </p> <p>Tabela 1 - Prevalncia (%) de dor musculoesqueltica em professores segundo localizao corporal. Salvador, Bahia, 2006.Table 1 Prevalence (%) of musculoskeletal pain in teachers according to body region. Salvador, Bahia, 2006.</p> <p>Dor musculoesqueltica N n %</p> <p>Membros inferiores 4298 1761 41,0</p> <p>Membros superiores 4238 1005 23,7</p> <p>Dorso 4306 1764 41,0</p> <p>608Rev Bras Epidemiol2009; 12(4): 604-14Prevalncia de dor musculoesqueltica em professoresCardoso, J.P. et al.</p> <p>foi de 55%: 19,7% referiram dor apenas em um dos trs segmentos corporais analisa-dos, 19,9%, em dois segmentos, e 15,4%, nos trs segmentos. </p> <p>A prevalncia de DME foi mais elevada entre aqueles que referiram, conjuntamen-te, dor no dorso e em membros inferiores (29,8%). A concomitncia de DME no dorso e membros superiores foi referida por 18,5% e, entre membros superiores e membros inferiores, 17,7% dos professores. </p> <p>A prevalncia de dor musculoesque-ltica na populao estudada mostrou-se mais elevada entre as mulheres do que entre os homens nos trs segmentos corporais: membros inferiores, membros superiores e dorso (Tabela 2). Em relao faixa etria, </p> <p>observou-se que a prevalncia de DME aumentava com a idade (Tabela 2). Os pro-fessores que possuam nvel de escolaridade mdio apresentaram maior prevalncia de dor nos membros inferiores (46,4%) do que no nvel de escolaridade superior. Maiores prevalncias de dor nos membros supe-riores e dorso foram observadas entre os docentes vivos, separados ou divorciados. Ter mais de trs filhos associou-se positiva-mente DME (Tabela 2).</p> <p>Professores que possuam quatorze ou mais anos na profisso apresentaram prevalncias mais elevadas de DME em nveis estatisticamente significantes nos segmentos analisados (Tabela 2). Quando ajustada pela idade a associao entre tem-</p> <p>Tabela 2 - Prevalncia (%) de dor musculoesqueltica em membros inferiores, membros superiores e dorso, segundo variveis sociodemogrficas de professores de Salvador, Bahia, 2006.Table 2 Prevalence (%) of musculoskeletal pain in lower limbs, upper limbs, and back according to socio-demographic variables of teachers of Salvador, Bahia, 2006.</p> <p>Membros Inferiores Membros Superiores Dorso</p> <p>% RP (IC95%) % RP (IC95%) % RP (IC95%)Sexo Masculino Feminino</p> <p>22,042,6</p> <p>1,001,98 (1,57- 2,38)***</p> <p>15,424,6</p> <p>1,001,59 (1,22 - 2,07)***</p> <p>26,642,1</p> <p>1,001,58 (1,31 - 1,90)***</p> <p>Faixa Etria At 29 anos 30 a...</p>