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  • Caderno Brasileiro de Ensino de Fsica, v. 34, n. 1, p. 64-108, abr. 2017. 64

    DOI: http://dx.doi.org/10.5007/2175-7941.2017v34n1p64

    Presso atmosfrica e natureza da cincia: uma sequncia didtica englobando fontes primrias + *

    Deyzianne Santos Fonseca1

    Mestranda em Ensino de Cincias UFRN Juliana Mesquita Hidalgo Ferreira Drummond2

    Departamento de Fsica UFRN Wesley Costa de Oliveira3

    Doutorando em Ensino de Cincias UFRN Giovanninni Leite de Freitas Batista4

    Instituto Federal de Educao do Rio Grande do Norte

    Daniel Brito de Freitas5

    Departamento de Fsica UFRN Natal RN

    Resumo

    O presente artigo apresenta uma sequncia didtica, de perspectiva his-

    trico-filosfica, cujo objetivo trazer contribuies para o ensino do

    conceito de presso atmosfrica e a insero de discusses sobre a natu-

    reza do conhecimento cientfico na educao bsica. Busca-se contemplar

    a compreenso de aspectos da construo histrica do conceito cientfico

    em atividades que despertam o pensamento crtico. Prope-se que os es-

    tudantes se engajem em processo investigativo sobre determinado fe-nmeno fsico e confrontem suas explicaes s que emergem da interpre-

    tao diacrnica de excertos de fontes primrias, devidamente contextu-

    alizados ao longo das etapas. Sugere-se uma sequncia didtica mediada,

    +

    Air pressure and nature of science: a didactic sequence with primary sources

    * Recebido: maro de 2016. Aceito: novembro de 2016.

    1 E-mail: deyzifonseca@yahoo.com.br 2 E-mail: juliana_hidalgo@yahoo.com 3 E-mail: wesleyoliveira177@yahoo.com 4 E-mail: giovanninni@gmail.com 5 E-mail: danielbrito@dfte.ufrn.br

    http://dx.doi.org/mailto:deyzifonseca@yahoo.com.brmailto:juliana_hidalgo@yahoo.commailto:wesleyoliveira177@yahoo.commailto:giovanninni@gmail.com

  • Fonseca, D. S. et al. 65

    de carter dialgico, organizada em momentos de discusso a respeito de

    contedos de cincia e sobre a cincia.

    Palavras-chave: Presso atmosfrica; Natureza da Cincia; Fontes pri-

    mrias.

    Abstract

    This paper presentes a didactic sequence based on historical and

    philosophical approach, which aims to contribute to the teaching of the

    concept of air pressure and the insertion of discussions on nature of

    scientific knowledge in basic school. It takes into account the historical

    construction of this concept in activities that arouse critical thinking.

    Particularly, students are supposed to engage themselves in an

    "investigative" process of a given physical phenomenon. They are also

    supposed to confront their own conceptions to those arising from excerpts

    of historical sources properly contextualized. It is suggested a mediated

    intervention of dialogical character, organized in discussions on scientific

    contents and on nature of science.

    Keywords: Air pressure; Nature of Science; Primary sources.

    I. Introduo

    Documentos que compem a legislao educacional brasileira para o ensino de Fsica

    preconizam que o conhecimento fsico seja explicitado como um processo histrico, objeto de contnua transformao (BRASIL, 2000, p. 24) levando compreenso de que modelos ex-plicativos no so nicos nem finais, tendo se sucedido ao longo dos tempos (BRASIL, 2000, p. 27).

    A legislao ecoa aspectos enfatizados por especialistas nas ltimas dcadas. Vem se

    frisando a importncia da insero didtica de discusses explcitas e contextualizadas sobre a

    natureza do conhecimento cientfico (MATTHEWS, 1995; MARTINS, 2006; LEDERMAN,

    2007; QUINTAL; GUERRA, 2009; LEDERMAN, 2012; FORATO, 2012; SASSERON; BRI-

    CCIA; CARVALHO, 2013; BOAS et al, 2013). Sugere-se a discusso de episdios histricos

    que contribuam para a contextualizao do conhecimento cientfico como tentativa de resoluo

    de problemas. Dentre outros aspectos, indica-se que:

    O estudo adequado de alguns episdios histricos tambm permite perceber o pro-

    cesso social (coletivo) e gradativo de construo do conhecimento [...] o que contri-

    bui para a formao de um esprito crtico e desmistificao do conhecimento cient-

    fico, sem, no entanto, negar seu valor. [...] O estudo adequado de alguns episdios

  • Caderno Brasileiro de Ensino de Fsica, v. 34, n. 1, p. 64-108, abr. 2017. 66

    histricos tambm permite compreender que a cincia no o resultado da aplicao

    de um mtodo cientfico que permita chegar verdade (MARTINS, 2006, p. xxi-xxii).

    Consideraes sobre o papel da Histria e Filosofia da Cincia (HFC) no Ensino en-

    globam a utilizao de abordagens de cunho histrico-filosfico para a aprendizagem de con-

    ceitos cientficos (SILVEIRA, 1992; PEDUZZI, 2001; MARTINS, 2006). Sugere-se que a HFC

    contribui para uma compreenso melhor dos conceitos cientficos por traar seu desenvolvi-mento e aperfeioamento (MATTHEWS, 1995, p. 172) e que a compreenso dos conheci-mentos fsicos est intrinsicamente relacionada ao entendimento dos problemas a que tais co-

    nhecimentos buscaram responder (MATTHEWS, 1994, p. 50). Pesquisas empricas eviden-ciam que propostas metodolgicas fundamentadas em aspectos histricos, quando implemen-

    tadas em sala de aula, podem trazer bons resultados (BOSS; SOUZA FILHO; CALUZI, 2009;

    BOSS; SOUZA FILHO; CALUZI, 2011; BRICCIA; CARVALHO, 2011; MONTEIRO; MAR-

    TINS, 2015).

    O entrelaamento entre a considerao de concepes prvias dos estudantes e abor-

    dagens de cunho histrico-filosfico uma possibilidade pedaggica desenvolvida h dcadas

    em pesquisas na linha HFC no Ensino. Afirma-se com base em pesquisas empricas que estu-

    dantes costumam apresentar ideias enraizadas acerca de fenmenos fsicos, as quais podem ser

    distintas do que a escola pretende ensinar (SALTIEL; VIENNOT, 1985; MELLADO; CAR-

    RACEDO, 1993; CARVALHO et al., 1993; NEVES, 1998; PEDUZZI, 2001; MARTINS,

    2006). So concepes resistentes a mudanas e no deveriam ser ignoradas:

    [...] o conhecimento no transferido para a mente das pessoas, e sim construdo a

    partir de ideias previamente estabelecidas por elas. [...] Os alunos vm para as salas

    de aula com ideias prvias sobre tpicos a serem trabalhados, ideias estas constru-

    das espontaneamente atravs de sua interao com a natureza ou nas relaes soci-

    ais. [...] Por elas serem construdas espontaneamente, na maioria das vezes, esto

    em discordncia com o conhecimento cientificamente aceito, logo, tambm diferen-

    ciado daquele ensinado pelos professores nas aulas de Cincias. Porm, isso no

    quer dizer que elas estejam totalmente incorretas e devam ser deixadas de lado no

    processo de ensino e aprendizagem, mas sim, que so o ponto de partida deste mesmo

    processo (LONGHINI; NARDI, 2009, p. 9).

    Afirma-se certo papel para a HFC no Ensino, tendo em vista semelhanas (guardados

    os diferentes contextos6) entre explicaes iniciais dos alunos para fenmenos fsicos e vises

    sustentadas por pesquisadores do passado:

    6 Como adverte Peduzzi (2011, p. 19): importante observar que o aluno atual vive, pensa e constri conheci-mentos em um mundo diferente daquele vivenciado pelas pessoas e pelos cientistas de outras pocas. Desse modo, esses paralelismos devem ser observados com os devidos cuidados.

  • Fonseca, D. S. et al. 67

    As suas resistncias so semelhantes s dos prprios cientistas do passado; e mesmo

    as suas ideias, por mais absurdas que paream, podem ser semelhantes as que foram aceitas em outros tempos por pessoas que nada tinham de tolas. Embora no

    haja um paralelo completo entre esses conceitos prvios e as concepes cientfi-cas antigas, as semelhanas [...] indicadas so suficientemente fortes para tornar o

    conhecimento da histria da cincia um importante aliado neste trabalho. Exami-

    nando exemplos histricos [...] o estudante pode se preparar para aceitar que um

    processo semelhante ocorra com suas prprias ideias. Pode perceber que, na hist-

    ria, sempre houve discusses e alternativas, que algumas pessoas j tiveram ideias

    semelhantes s que ele prprio tem, mas que essas ideias foram substitudas por ou-

    tras mais adequadas e mais coerentes com um conjunto de outros conhecimentos

    (MARTINS, 2006, p. xxvi).

    No contexto educacional, no entanto, a HFC ainda pouco presente como abordagem

    didtica, mesmo decorridas dcadas de pesquisas sobre sua articulao a concepes alternati-

    vas. Negligenciam-se, na prtica, eventuais repercusses nesse sentido. Costuma-se dar pouca

    importncia a conhecimentos prvios dos alunos e a uma construo contextualizada que valo-

    rize o que trazido para sala de aula (SALTIEL; VIENNOT, 1985; MARTINS, 2006).

    Efetivamente, a presena da HFC no contexto escolar ainda tmida. So insuficientes

    as iniciativas de utilizao de abordagens histrico-filosficas para ensinar cincia e sobre a

    cincia (TEIXEIRA; GRECA; FREIRE JR, 2012; PENA; TEIXEIRA, 2013; VITAL;

    GUERRA, 2014; BEZERRA; 2014). Contribuem para essa situao mltiplos fatores de natu-

    reza complexa, como a escassez de materiais didticos adequados (MARTINS, 2006, p. xxviii;

    MARTINS, 2007, p. 115)7.

    Livros didticos costumam apresentar conhecimentos j elaborados, sem aluso aos

    problemas que lhe deram origem:

    [...] enfatizam os resultados ao qual a cincia chegou as teorias e conceitos que a

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