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  • PREFCIO AO PODER GLOBAL*

    Jos Lus da Costa Fiori**

    Este trabalho, dividido em trs sees, tem por objetivo apresentar uma sistematizao de questes-chave para o estudo das transformaes mundiais desde a segunda metade do sculo XX, bem como para a anlise da conjuntura internacional contempornea, com o objetivo de tentar identificar suas tendncias de longo prazo. Na introduo, apresenta-se o debate sobre a formao dos Estados e das economias nacionais europeias, apontando algumas de suas implicaes sobre as relaes entre poder, dinheiro e acumulao capitalista. Na seo 2, explicita-se o debate sobre a internacionalizao do poder e do capital e o funcionamento do sistema mundial, apresentando em linhas gerais as trs grandes escolas de pensamento da economia poltica: a teoria do imperialismo, a teoria da hegemonia mundial e a teoria do world-system. Nas concluses, discute-se a dimenso prospectiva de tais premissas tericas.

    PREFACE TO GLOBAL POWER

    This paper, divided into three sections, aims to present a systematization of key issues for the study of global changes since the second half of the twentieth century, as well as for the analysis of the current international scenario, with a view to trying to identify long-term trends. In the introduction, the debate on the formation of States and European national economies is presented, and some of its implications on the relations between power, money and capital accumulation are pointed out. In section 2, the debate on the internationalization of capital and power and operation of the world system is presented, outlining the three major schools of thought in political economy: the theory of imperialism, the theory of world hegemony and the theory of world system. In the conclusion, the prospective dimension of such theoretical assumptions is discussed.

    1 POWER, SURPLUS AND MONEY

    A anlise da conjuntura internacional contempornea e o estudo das transformaes mundiais da segunda metade do sculo XX nos levaram a uma longa viagem no tem-po, at as origens do sistema mundial moderno,1 com o objetivo de compreender suas tendncias de longo prazo. Partimos das guerras de conquista (CONTAMINE, 1992) e da revoluo comercial (PIRENNE, 1982; LOPEZ, 1976; SPUFFORD, 2002; LE GOFF, 2004) que ocorrem na Europa nos sculos XII e XIII para chegar

    * Este texto foi escrito em julho de 2007, durante um ps-doutoramento na Faculdade de Economia e Poltica da Universidade de Cambridge, Inglaterra. Foi publicado pela primeira vez como prefcio do livro O poder global e a nova geopoltica das naes, editado pela Boitempo em 2008.** Professor titular e coordenador do Programa de Ps-graduao em Economia Poltica Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).1. Essa expresso ficou clssica com a obra de Wallerstein (1974). Nesta introduo, entretanto, ela utilizada para referir-se apenas ao perodo cronolgico de que fala Wallerstein, entre os sculos XVI e XXI, sem ter as mesmas co-notaes tericas do autor.

  • revista tempo do mundo | rtm | v. 2 | n. 1 | abr. 2010132

    transio para o capitalismo, de Marx (1995), e ao longo sculo XVI (1450-1650), de Braudel (1987a), Wallerstein (1974) e Arrighi (1994), quando se formam os Estados e as economias nacionais e se inicia a vitoriosa expanso mundial dos eu-ropeus (ABERNETHY, 2000; FERRO, 1994). Como sabido, na Europa ao contrrio dos imprios asiticos , a desintegrao do Imprio Romano e, depois, do Imprio de Carlos Magno provocou uma fragmentao do poder territorial e um desaparecimento quase completo da moeda e da economia de mercado entre os sculos IX e XI (ELIAS, 1994). Mas essas desintegrao poltica e atrofia econmica se reverteram nos sculos XII e XIII (ABU-LUGHOD, 1993), quando comearam os processos de centralizao do poder territorial e de mercantilizao da economia (BRAUDEL, 1996a), que culminaram com a formao dos Estados-economias na-cionais (FIORI, 2004) europeus.2 Essa pr-histria do sistema mundial moder-no oferece um ponto de observao privilegiado das relaes iniciais entre o poder, o dinheiro e a riqueza que se tornaram a especificidade e a grande fora propulsora do milagre europeu. O estudo dessa pr-histria, entretanto, nos levou a algumas concluses que diferem s vezes dos autores pelos quais partimos.

    1.1

    Em sua histria da formao da economia-mundo europeia, Braudel (1996a, p. 403) estabelece uma distino fundamental entre os conceitos de economia de mercado e os de capitalismo.3 Mais do que isso, ele defende a tese de que o capitalismo o antimercado, porque o mercado o lugar das trocas e dos ganhos normais e o capitalismo, o lugar da acumulao dos grandes lucros e dos grandes predadores.4 Mas, apesar disso, em sua histria da economia-mundo mediterrnea, Braudel (1996b) privilegia a evoluo das trocas indivi-duais e dos mercados e transmite a ideia de uma transio gradual no jogo das trocas para o mundo das altas engrenagens do capital e do capitalismo. Marx (1995, p. 103/638), por sua vez, ao falar da acumulao primitiva, salienta a importncia do poder do Estado e da fora concentrada e organi-zada da sociedade para acelerar o processo de transformao do regime feudal de produo no regime capitalista. Mas, ao mesmo tempo, ele afirma que a biografia moderna do capital comea com o comrcio e o mercado mundiais (MARX, 1995, p. 105). E isso se explica porque, de fato, a violncia do po-der aparece em seu raciocnio como uma condio histrica, e no como uma dimenso terica relevante da sua teoria do capital. E, at mesmo em sua teoria do modo de produo capitalista, no existe espao relevante para os conceitos de territrio, de nao e de competio e luta interestatal. Por isso, to difcil

    2. Longo processo secular que avanou na Europa a despeito da Peste Negra e da epidemia da fome que dizimaram quase metade da populao europeia no sculo XIV.3. Ver tambm Braudel (1987b, captulo 2).4. O capitalismo s triunfa quando se identifica com o Estado, quando ele o Estado. Ver Braudel (1987b, p. 55).

  • Prefcio ao Poder Global 133

    de se compatibilizar a viso histrica de Marx (1995) sobre a origem e a acu-mulao primitiva do capital com sua deduo terica do valor e das leis da acumulao capitalista. Como difcil de transitar, diretamente, da histria do jogo das trocas, de Braudel (1996a), para sua teoria dos grandes lucros e dos grandes predadores capitalistas, sem a mediao do poder e das guerras que tem pouco destaque em sua histria do nascimento europeu do capitalismo.

    De nosso ponto de vista, entretanto, no h como se explicar ou se deduzir a necessidade da acumulao do lucro e da riqueza, a partir do mer-cado mundial ou do jogo das trocas. Mesmo que os homens tivessem uma propenso natural para trocar como pensava Smith (2006) , isso no implicaria necessariamente que eles tambm tivessem uma propenso natural para acumular lucro, riqueza e capital. Porque no existe nenhum fator intrnseco troca e ao mercado que explique a deciso de acumu-lar e a universalizao dos prprios mercados. Pelo contrrio, o comrcio sempre existiu, em todos os tempos, mas, durante a maior parte da histria, sua tendncia natural foi manter-se no nvel das necessidades imediatas ou da circulao simples e s se expandir de forma muito lenta e secular. At mesmo depois da remonetizao da economia europeia a partir do sculo XII , o comrcio permaneceu, por longos perodos, restrito a terri-trios pequenos e isolados.5 Ou seja, a fora expansiva que acelerou o cresci-mento dos mercados e produziu as primeiras formas de acumulao capita-lista no pode ter vindo do jogo das trocas ou do prprio mercado, nem, nesse primeiro momento, do assalariamento da fora de trabalho. Veio do mundo do poder e da conquista,6 do impulso gerado pela acumulao do poder, at mesmo no caso das grandes repblicas mercantis italianas,7 como Veneza (LANE, 1973) e Gnova (EPSTEIN, 2000).

    5. O campons, ao seguir seus hbitos imemoriais, dificilmente teria conscincia de estar agindo segundo uma moti-vao econmica; na verdade, no estava; seguia as ordens do senhor feudal ou os ditames do costume. Nem mesmo o senhor estava economicamente orientado. Seus interesses eram militares, polticos ou religiosos, e no diretamente orientados para a ideia de lucro e de expanso. At mesmo nas cidades, a conduta habitual dos homens de negcios estava inextricavelmente mesclada com outros propsitos no econmicos (...) ganhar dinheiro era uma preocupao antes perifrica do que central na existncia medieval ou antiga. Ver Heilbroner (1979, p. 80).6. Essa precedncia lgica do poder sobre a produo e a distribuio da riqueza bvia no perodo que vai do sculo XI ao XVII. Mas ela se mantm at mesmo depois da formao do modo de produo capitalista e da consolidao do processo de concentrao e centralizao privada do capital. Crescem a autonomia dos mercados e o papel da competio intercapitalista, mas aumenta cada vez mais o papel do poder poltico na expanso vitoriosa e internacionalizante dos capitais nacionais, na administrao das grandes crises financeiras, na ponta da inovao tecnolgica e na contnua e silenciosa funo do crdito e do gasto pblico indispensveis expanso agregada das economias nacionais.7. De acordo com George Friedrich Knapp, foi o sucesso militar veneziano entre os sculos XIII e XV que permitiu a as-censo de sua moeda de conta nas relaes dos europeus com o Oriente. E, assim como sucedeu depois da Conquista de Constantinopla em 1204, a passagem dos sculos seguintes assistiu a desdobramentos semelhantes: da conquista militar dominao mercantil e, por conseguinte, transformao de sua moeda em moeda de referncia no circuito comercial do Mediterrneo. Ver Metri (2007, p. 179).

  • revista tempo do mundo | rtm | v. 2 | n. 1 | abr. 2010134

    1.2

    O poder poltico fluxo, mais do que estoque. Para existir, precisa ser exercido; precisa se reproduzir e ser acumulado permanentemente. E o ato da conquista a fora origi-nria que instaura e acumula o poder.8 Des