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39Ano 52 Nmero 205 jan./mar. 2015

MNICA SETTE LOPES

Precisamos falar sobre a sano

Mnica Sette Lopes Professora Associada da Faculdade de Direito da UFMG, desembargadora do Tribunal Regional do Trabalho da 3 Regio e doutora em Filosofia do Direito.

Sumrio

1. A narrativa do direito, os oficiais de justia e os carcereiros. 2. A sano e os oficiais de justia. 3. A sano e os carcereiros. 4. Precisamos conversar.

1. A narrativa do direito, os oficiais de justia e os carcereiros

Se queremos conhecer bem o direito, como escolher os temas de que precisamos nos ocupar nas vrias escalas da epistemologia jurdica? Essa a pergunta que este texto pretende fazer, na medida em que seu objetivo tratar da sano como acontecimento invisvel da experincia jurdica. A pena e a execuo forada no so apenas a letra da lei que as prev como parte de um rito. E, por isso, preciso falar sobre a sano. E, para isso, parte-se de um livro que virou filme.

Em Precisamos falar sobre Kevin (SHIVER, 2007)1, de cujo primeiro pargrafo foi extrado o trecho que vem como prtico desse artigo, a me-personagem no tem limites quanto ao que pode dizer-pensar e encurrala o leitor que pretende fazer um juzo sobre ela, sobre seu filho, sobre sua famlia, sobre os fatos. O desejo de entender por que um ado-

1 O ttulo em ingls We need to talk about Kevin, o mesmo do filme de 2011, dirigido por Lynne Ramsay.

No sei ao certo por que o incidente banal desta tarde acabou provo-cando em mim a vontade de lhe escrever. O fato que, desde que nos separamos, o que mais sinto falta, acho, chegar em casa e ter a quem contar as curiosidades narrativas do meu dia, do jeito como um gato s vezes larga um camundongo aos ps do dono, as pequenas, modestas oferendas com que os casais se brindam, depois de revolver quintais diferentes (SHIVER, 2007, p. 9).

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lescente matou tantas pessoas num colgio cede lugar estupefao de percorrer o somatrio das contingncias no fluxo da histria, sem que ela consiga reconstruir a totalidade das vivncias e das justificativas que permitam entender o acontecimento. E, discutindo sua prpria culpa, escreve cartas ao marido rasgando-se em sentimento e exposio. O rato que o gato joga aos ps do dono. A histria na narrativa mida. O livro virou filme, mas a inteno analgica apropria-se aqui da carpintaria da escrita, porque ela condensa a narrativa escancarada e o desenlace de todas as certezas e dvidas de uma me que sobreviveu aos crimes que o filho cometeu. Retomando o lugar comum, o livro melhor do que o filme: nem tudo o que acontece se traduz na ao, nem tudo visvel, audvel. A linguagem epistolar, porm, traduo da mincia no aces-svel aos sentidos na experimentao do mais sentido, do mais sincero. A intimidade substancial. A explicitao do sentir no ngulo mais aberto. A liberdade de exposio absoluta entre os que se conhecem to bem e compartilham as boas e as ms viradas da vida.

No arrevesado das possibilidades de narrar o cotidiano do direito, esse um bom mote. preciso falar sobre a sano. preciso que nos apropriemos dela com curiosidade narrativa, como se escavssemos um quintal e depois contssemos a histria de cada resto reencontrado. Jogar o rato, recolhido no dia vivenciado, aos ps do dono um movimento fundamental dos que somos os caadores do direito e dos que o experi-mentamos na realidade que no nos autoriza devaneios ou iluses. No esperar que a notcia da primeira pgina do jornal devolva visibilidade a ferida que lateja, o entumecido da cela cheia de sempre, da morte por vingana, do descontrole na cena dos presdios, da execuo forada que no se materializa no dinheiro devido ao credor.

Falar sobre a sano no dizer de sua estrutura, mas escancarar a estrutura em uso, a estrutura no seu modo de funcionar, porque s as-sim ela existe. Por isso, precisamos falar sobre a sano como a me que procura entender por que seu filho no foi exatamente o que a roupagem terica ou abstrata do amor materno projetava para ele. O amor que se espera das mes pode, nesse sentido s vezes assustador da metaforizao, ser comparado s expectativas que se tecem no direito como tcnica para resolver os vnculos humanos. E para falar sobre a sano, preciso ouvir para alm do que normalmente se dispe a ouvir. Porque ela no apenas o potencial: a sano s interessa em ato. E ela um acontecimento de variados detalhes. preciso escutar quem pode dizer como as sanes se do. Entre tantas possibilidades importantes, preciso falar com os oficiais de justia e com os agentes penitencirios. preciso conhecer--lhes o ofcio de fazer a ao e a sano acontecerem. preciso deixar que eles se exponham.

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Nas salas de aula das faculdades de direito, desde os primeiros dias, os alunos so estimu-lados a associar a regra jurdica sano. Ela representa o ponto de distino entre a norma tipicamente jurdica e regras de outra natureza que disciplinam a conduta humana. A compa-rao reprisa a contraposio com a etiqueta, a moda, a religio, a moral etc., as quais tambm impem normas de conduta, mas com efeitos diversos das normas jurdicas em sua tipicida-de heternoma. Do ponto de vista conceitual ou estrutural, associando-se, na concepo kelseniana, esttica e dinmica jurdicas, ela produzida fora dos seus destinatrios (no--autonomamente) e incide independentemente da vontade deles:

Se o Direito concebido como uma ordem de coero, isto , como uma ordem estatui-dora de atos de coero, ento a proposio jurdica que descreve o Direito toma a forma da afirmao segundo a qual, sob certas con-dies ou pressupostos pela ordem jurdica determinados, deve executar-se um ato de coao, pela mesma ordem jurdica especi-ficado. Atos de coero so atos a executar mesmo contra vontade de quem por eles atingido e, em caso de resistncia, com o em-prego da fora fsica (KELSEN, 1985, p. 121).

Como desdobramento, tem-se o carter incondicional da sano que implica, de igual modo, justificao para a incidncia indepen-dentemente da adeso do destinatrio. nela que se condensa a possibilidade do emprego da fora, obrigando algum a fazer o que no quer.

Tecnicamente, tudo isso preceito que deve ser essencialmente transposto para a formao do conhecimento jurdico em sua especifici-dade, inclusive para a conformao da cadeia argumentativa. No se constri o argumento jurdico sem escalar a dimenso correlacional de incidncia da sano sempre que uma norma jurdica no cumprida.

O aluno que comea a penetrar o mundo da esttica jurdica, logo imerge nos conceitos de pena e de execuo forada. Repetem para ele, com a naturalidade das relaes de causalida-de mais singelas depois da primavera vem o vero, depois do vero, o outono, o inverno e, de novo, o vero , que, descumprida a norma, incide a sano. Ele compreende a estrutura dinmica de autorizaes segundo a qual uma norma mais geral autoriza a vigncia de outra mais individualizada at chegar ao contrato e sentena, ambos a exigir a aplicao de efeitos concretos que, no mais das vezes, vo resultar em compelir algum a fazer algo contra a sua vontade mais rasa.

E, de novo, o velho Kelsen recitado ou confrontado com verses diversas que no detalhe no so suficientes para escamotear o automatismo do nexo entre a norma jurdica e a sano:

As sanes no sentido especfico desta palavra aparecem no domnio das or-dens jurdicas estaduais sob duas formas diferentes: como pena (no sentido estrito da palavra) e como execuo (execuo forada). Ambas as sanes consistem na realizao compulsria de um mal ou para exprimir o mesmo sob forma negativa na privao compulsria de um bem (KELSEN, 1985, p. 121).

Privao compulsria da liberdade, uso da fora, realizao compulsria de um mal, as expresses estruturais deixam encobertas questes fundamentais: Quem admite que a aplicao da sano sinal da disfuncionali-dade do direito? Quem usa a fora, priva da liberdade, realiza o mal para fazer com que a sano acontea?

No fcil expor, numa perspectiva cientfi-ca, ordenada, metodologicamente concentrada quanto aos meios e aos procedimentos, em que medida a trama do direito compe um emara-

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nhado confuso no que concerne aos fenmenos jurdicos e aos seus processos de aplicao.

Se falta um relato minudente da forma como a processualidade do direito se efetiva, falta espe-cialmente a descrio/a narrativa da contingen-cialidade na atuao dos agentes de elaborao dos fenmenos tpicos. Isso no ocorre apenas a partir da anlise do teor deles ou dos efeitos de sua aplicao a partir dos textos. No basta acessar as etapas formais do processo legislativo ou o contedo de uma deciso que resultou da interpretao de uma norma. No basta ler a lei ou a sentena. preciso uma ateno maior para o percurso de formao da lei e da deciso judi-cial como matria da teoria jurdica. preciso uma ateno maior para as etapas de formao essencialmente oral do processo legislativo (que se realizam nos corredores e atrs das portas dos gabinetes de parlamentares e dos interessados de vrios matizes) e do processo judicial (que se realizam nas secretarias e nas salas de audincia em movimentos que nem sempre so traduzidos para a escrita, mas que trazem implicao efetiva no resultado da ao). Todas essas so coisas sobre as quais precisamos falar.

A invisibilidade da dinmica do direito torna-se silncio eloquente quando se considera a sano como um acontecimento na ordem concreta da juridicidade, e no apenas como um fator na sua composio abstrata. A expresso mais enftica disso est precisamente em que a atividade dos agentes que so os responsveis por sua realizao nos efeitos no tm qualquer importncia na epistemologia jurdica. Eles so o outro do direito, so o dejeto da cincia do direito. Se ningum quer falar sobre a sano, menos ainda se quer falar sobre os oficiais de justia e sobre os agentes penitencirios

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