Preceptoria: um olhar sob a ótica fenomenológica* ?· uma perspectiva fenomenológica. É fundamental…

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Preceptoria: um olhar sob a tica fenomenolgica*

Preceptorship: an analysis within the phenomenological perspective

Preceptoria: una mirada bajo la ptica fenomenolgica

Gilberto Tadeu Reis da Silva1, Vitria Helena Cunha Espsito2, Dulce MariaNunes3

RESUMOObjetivo: Este estudo teve como objetivos compreender e interpretar os sentidos do fazer preceptoria, tal como ela se mostra para os alunosde um Curso de Graduao em Enfermagem. Mtodos: Nessa busca utilizamo-nos da pesquisa de natureza qualitativa, modalidadefenomenolgica. Foram realizadas entrevistas com oito preceptorandos, sujeitos deste estudo, a partir da pergunta norteadora: O que preceptoria para voc?. Resultados: Aps a anlise das descries, emergiram as seguintes categorias temticas: aproximao, coexistncia,formao e orientao. Concluses: A preceptoria mostrou-se como ao educativa que remete a uma situacionalidade que se desdobra natridimensionalidade pessoal, cidad e profissional. A partir dessa construo, sempre inacabada, necessrio se fez refletir sobre a formao doenfermeiro.Descritores: Tutoria; Educao em enfermagem; Pesquisa em enfermagem

ABSTRACTObjective: This study aimed to understand and interpret the meanings of preceptorship, as it shows itself to the students of an UndergraduateNursing course. Method: In this study, a qualitative research was used, in the phenomenological modality. Eight students undergoingpreceptorships were interviewed, the subjects of this study, with the guiding question: What is a preceptorship for you? Results: After theanalysis of the descriptions, the following thematic categories emerged: approximation, coexistence, education and orientation. Conclusions:Preceptorship was shown to be an educative action, referring to a situationality that unfolds in three dimensions: personal, citizenship andprofessional. From this construction, always unfinished, it was necessary to reflect about the education of the nurse.Keywords: Preceptorship; Nursing education; Nursing research

RESUMENObjetivo: En este estudio se tuvo como objetivo comprender e interpretar el sentido de hacer preceptoria, tal como se muestra a los alumnosde un curso de Pregrado en Enfermera. Mtodos: En esa bsqueda utilizamos la investigacin de naturaleza cualitativa, modalidadfenomenolgica. Se llevaron a cabo entrevistas con ocho preceptorandos, sujetos de este estudio, a partir de la pregunta orientadora: Ques preceptoria para ti?. Resultados: Despus del anlisis de las descripciones, emergieron las siguientes categoras temticas: aproximacin,coexistencia, formacin y orientacin. Conclusiones: La preceptoria se mostr como accin educativa que remite a una situacin que sedesdobla en la tridimensionalidad personal, ciudadana y profesional. A partir de esa construccin, siempre inacabada, se hace necesarioreflexionar sobre la formacin del enfermero.Descriptotres: Tutoria, Educacin en enfermera; Investigacin en enfermera

Autor Correspondente: Gilberto Tadeu Reis da SilvaR. Cachoeira Utupanema, 40 - Itaquera - So Paulo - SPCep: 08270-140. E-mail: prodiretoria@fasmit.edu.br

Artigo recebido em 22/05/2007 e aprovado em 03/12/2007

Acta Paul Enferm 2008;21(3):460-5.

Extrado de captulo da Tese de Doutoramento: Preceptoria como Ao Educativa: uma leitura hermenutica fenomenolgica. So Paulo (SP): UniversidadeFederal de So Paulo; 2003.1 Doutor, Professor Titular na Faculdade Santa Marcelina, Lder do Ncleo de Ensino, Pesquisa e Extenso em Formao e Educao em Sade (NEPEFES) FASM So Paulo (SP), Brasil.2 Doutora, Professora Titular na Faculdade de Educao da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo PUC-SP - So Paulo (SP), Brasil.3 Doutora, Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS Porto Alegre (RS), Brasil.

Acta Paul Enferm 2008;21(3):460-5.

461A preceptoria: um olhar sob a tica fenomenolgica

INTRODUO

Em uma sociedade cada vez mais individualista comoa que vivemos, causa-nos perplexidade a velocidade comque se tem dado a desintegrao dos valores ticos emorais que, tradicionalmente, de forma visvel ou no,tm ordenado a vida, a educao e o comportamentodas pessoas em sociedade.

A modernidade, marcada pelo auge do conhecimentocientfico, instaura um modo de conhecer e ser no mundo,no qual a medida, a preciso, a objetividade, sovalorizadas; a subjetividade humana acaba por ser eliminadado processo cientfico de construir conhecimento. Tanto ocampo da sade como o da educao, ao se proporemtrabalhar com o homem em suas relaes sociais, englobamquestes complexas, nem sempre contempladas pela lgicatradicional do pensamento que enfoca o homem segundooutras perspectivas(1).

Habitando o mundo da educao, desenvolvemoso presente estudo na Faculdade Santa Marcelina, situadana regio Leste da Grande So Paulo. Essa Instituiopauta-se por uma tica que reflete o pensamento deLuigi Biraghi*(2).

Do nosso conviver com graduandos, de formaparticular na rea de enfermagem, no ato de educar, nossoolhar deteve-se na preceptoria como possibilidade naformao do enfermeiro.

No presente estudo, entendemos que a preceptoria um programa institucional de suporte acadmico paraos alunos do curso de graduao em enfermagem. Nessesentido, insere-se no mbito da educao. O aluno comquem coexistimos no mundo da escola, na sala de aulaou onde quer que ele esteja, um ser reflexivo, que tempreocupao com sua singularidade como pessoa, comas formas de responder vida, com seu prprio corpo.Ao mesmo tempo em que um Ser singular, um Ser -com, isto , com pessoas e com coisas. um ser temporal,que se preocupa consigo prprio, mas, ao mesmo tempo,toma conscincia de si mesmo e se projeta no futuro(3).

A pessoa que realiza atividades de preceptoria est naescola, ou seja, encontra-se na esfera da educao. Pelaexpresso estar na escola, colocamo-nos frente a duaspossibilidades: a estar simplesmente presente ou existirna presena, fazendo parte da obra educacional(4).

Assim, de nosso cotidiano de trabalho, convivendocom a preceptoria, o que envolve preceptores epreceptorandos, surgiram algumas inquietaesinterligadas a essa estratgia de ensino.

Verificamos que as pesquisas existentes sobrepreceptoria preocupavam-se em abordar o tema comoum ensinamento caracterstico, principalmente dos cursosda rea da sade, nos quais o ensino, por meio da

preceptoria, se d por seus pares, professores-alunos, sem,contudo, explicitarem os princpios e fundamentos quenorteiam esse trabalho.

Observamos que, no desenvolvimento desseprograma, houve mudanas tanto no modo de se trabalhara preceptoria, como na forma de coordenao, uma vezque, no desenvolvimento das atividades de preceptoria,so realizadas, sistematicamente, avaliaes que contribuempara a organizao desse trabalho, possibilitando suareordenao e realinhamento como processo(5).

Assim, planejamos o presente estudo com a propostade des-velar algumas facetas de como a preceptoria percebida pelos alunos de enfermagem, na Instituiomencionada.

A partir das falas dos preceptorandos, atingir parteda essncia de como a preceptoria se mostra a eles e,assim, compreender os sentidos e fazer a leitura dossignificados por eles atribudos preceptoria.

MTODOS

Nesse caminho, numa perspectiva fenomenolgica**,o ensinar e o aprender consistem na possibilidade que aspessoas tm de tomar conscincia da necessidade dereorganizar um projeto pessoal e social.

Acreditamos que isso possibilita uma posturaprofissional mais aberta realidade, estimulante, levandoo aluno e o educador a refletirem sobre o seu ser, oseu fazer e o seu agir, em direo a um pensarreflexivo e atuante sobre a prtica profissional, segundouma perspectiva fenomenolgica. fundamental ter emmente que a educao se d numa relao dialtica, poisse trata de uma relao de cuidado, de zelo entre aqueleque educa e o educando. Trata-se, pois, de uma relaoaberta em direo a uma sntese que tambm no se fechaem si, mas que permanece como um horizonte depossibilidades(4). Observamos que nessa forma depesquisar, diferentemente da pesquisa quantitativa, noh objetivo pr-dado; este tem na interrogao o seuaporte, constituindo o caminho no prprio caminhar.

Idias bsicas da fenomenologia

Fenomenologia o estudo das essncias(6). Surgiu ecresceu, tendo suas origens no pensamento de Husserl.Seu ponto fundamental est na descrio, como formade ir s coisas mesmas e isto quer dizer focalizar, situar oque deseja conhecer e, ao situar, passamos a descrever

* Religioso, Doutor da Biblioteca Ambrosiana, Fundador daCongregao das Irms de Santa Marcelina.

** Fenomenologia: palavra que tem origem no termo gregophainomenon, que significa o que aparece; aquilo que se mostra; o queest claro para a viso. Phainomenon a expresso grega, derivada doverbo phainestai, que quer dizer mostrar-se a si mesmo. Phainomenarefere-se quilo que se mostra em si mesmo, situando-se luz do dia,vindo luz.

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com vistas compreenso. Tal compreenso s se tornapossvel quando o pesquisador, usando o recurso dafenomenologia, assume o resultado da reduo comoum conjunto de asseres significativas para ele,pesquisador, mas que apontam para a experincia dosujeito, isto , para a conscincia que ele tem do fenmeno.Esse conjunto de asseres denomina-se unidades designificado que devem ser tomadas exatamente comoso propostas pelo sujeito que est descrevendo ofenmeno. Em seguida, o pesquisador transforma asexpresses cotidianas do sujeito em expresses prpriasdos discursos que sustentam o que est buscando.Finalmente, o pesquisador organiza uma sntese dasunidades significativas. Essa sntese resultante das anlisesdos vrios sujeitos da pesquisa(4).

Nessa inteno que optamos por esse caminho e,para uma primeira aproximao a maior compreensoda preceptoria -, interrogarmos como essa experinciase mostra queles que a vivenciam. Considerando ospreceptorandos como parceiros nessa construo emexerccio, entrevistamos, em um primeiro momento,acadmicos de enfermagem, tendo como perguntanorteadora: O que significa preceptoria para voc?.

A pergunta norteadora(7) da entrevista fenomenolgica,ao ser formulada, traz dificuldades, pois rastreia verdadesque no so absolutas, uma vez que h mltiplaspossibilidades de o fenmeno mostrar-se. Haver semprefacetas do fenmeno a serem desvendadas. Haversempre algo a ser apreendido; o fenmeno no se esgota;revela-se em perspectivas, em perfis.

Sabemos que o mtodo fenomenolgico busca areduo, mais especificamente, obter acesso coisa mesma,tal como ela se d no pr-reflexivo, na experincia vividados sujeitos. Para tanto, coletamos as descriesfenomenolgicas feitas pelos preceptorandos, sujeitos nestapesquisa. Realizamos duas aproximaes prvias dossujeitos de forma que nos familiarizssemos, dando-nos aconhecer e aprimorando a abordagem dos mesmos(8).Nessa trajetria de pesquisa, ouvimos os preceptorandos,sujeitos deste trabalho, gravando cada descrio eperscrutando os universos simblicos*** que se fizerampresentes nos seus discursos e pelos quais manifestaram acompreenso de si, do outro, do mundo e da preceptoria(7).

Na pesquisa de natureza fenomenolgica, delimitadaa temtica, proposta a questo norteadora, o pesquisadorestar interrogando a partir do que o inquieta que a suaregio de inqurito, de natureza filosfica. O critrio parao nmero de sujeitos a serem entrevistados norteadopela saturao dos dados estabelecidos. Neste trabalho,

durante o processo de coleta de dados, aps as duasprimeiras entrevistas, foram coletadas mais seis descries,segundo a questo norteadora. Aps lidas e extradas asunidades de significado destacadas na reduofenomenolgica, foram organizadas as conflunciastemticas, e verificados os temas comuns, bem como asdivergncias e as idiossincrasias que se mostravam. Aseguir, observamos que as temticas que emergem dasunidades de significado, extradas dos discursos, confluemem direo a uma organizao a que denominamos decategorias abertas, considerando que a ordenao foiestabelecida pelo pesquisador, enquanto ser atribuidorde significados. A partir das temticas e da presena deuma ou mais categorias abertas e das idiossincrasias,organiza-se uma reordenao, momento em que o autorpode dialogar com outras obras estabelecendo novascompreenses/interpretaes do fenmeno interrogado,no caso a preceptoria.

Nessa fase, no ir e vir (parte/todo/parte) prprio aover fenomenolgico, o pesquisador apresenta umasynthesis****. Considera-se que, nesse percurso a cadacompreenso acha-se j uma interpretao espreitando.

O estudo respeitou os aspectos tico-legais daResoluo n. 196/96 do Conselho Nacional de Sade,tendo sido aprovado pelo Comit de tica em Pesquisada Faculdade Santa Marcelina FASM Parecer n 004/02 e pelo respectivo Comit da Universidade Federal deSo Paulo Parecer n 0315/03. Previamente ao inciodas entrevistas, realizamos a leitura integral do Termo deConsentimento Livre e Esclarecido, solicitando a anuncia pesquisa e assinatura nesse documento, para os queconcordaram com a realizao da entrevista.

CONSTRUO DOS RESULTADOS

Ao retomar a histria do nosso percurso profissional eacadmico, do mundo vivido, consideramos que ao analisare vivenciar as inquietaes, os desafios, as dificuldades, asrenncias e superficialidades, revimos as trajetrias, gerandoo distanciamento necessrio para que, nessa movimentao,novas compreenses e interpretaes gerasseminterrogaes. Essas interrogaes, ao se constituremforam colocando-se de forma a ver-nos, constituindo-nos enquanto seres docentes, preceptores e orientadores,construindo nessa trajetria nossa prpria humanizao.

Enquanto docentes, temos nos perguntado: como oprofessor pode ser o mediador do conhecimento doaluno e de seu aprendizado na constituio de sua

*** Os universos simblicos so corpos de tradio terica queintegram reas de significados e abrangem a ordem institucionalem uma totalidade simblica, fornecendo condies, pelalegitimao destes, para que se d a integrao unificadora deprocessos institucionais separados.

**** Synthesis que no significa aqui uma unio ou ligao conjuntade representaes; mas como syn, que significa permitir que algoseja visto na sua conjuntura como alguma coisa. Tem uma funo decomo, visto que deixam algo seja visto como algo. Portanto,fenomenologia, enquanto phainestai e logos, significa deixa que as coisasse manifestem como o que so, sem que projetemos nelas as nossasprprias categorias.

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formao profissional? Vemo-nos como?Vemo-nos, ento, como professores, preceptores,

quando no dilogo com nossos preceptorandos falamosde vivncias e experincias nossas e deles. Nesse exerccio,quando o relatado e o aprendido posto no mundo epartilhado com o aluno, delineia-se uma situao educativa.Ensinar e aprender imbricam-se na existncia.

Assim sendo, o docente, na vivncia da preceptoria,compreende-se como um ser que formador/preceptor/educador, um ser ntico/ontolgico que sendo naconcretude da ao educativa, se dispe a intervir,transformando. Trans-forma-o que, na FASM temcomo norte a humanizao luz de valores cristocntricos,universais.

O processo de preceptorar na perspectiva enfocada,vendo homem e mundo como um todo, est distante deser somente um processo de ensinar e aprender, ou aindaem ser uma preparao meramente tcnica especializada.Esse ver holstico e em movimento o que permite buscaro fenmeno em bases mais slidas, a fim de investir naconstruo de uma formao educacional slida eeticamente fundamentada.

A preceptoria como um projeto institucional. Amisso da FASM e seus desafios

Ao dizer da misso da FASM: desafios, e para o quenos colocado, necessrio se faz observar que essa parteinsere-se num conjunto maior, que visa possibilitar eefetivar a misso da Instituio. Nessa intencionalidade,dois desafios se apresentam, a serem enfrentados:proporcionar formao universitria em uma localidadecuja tnica a excluso social de seus elementos, o querevela a concretude da presena institucional no contextoscio-econmico em que se vive, e que parece ser a foramotriz para a consolidao das aes. O segundo, aconstruo cotidiana de um projeto poltico pedaggicoque proporcione ao alunado ir alm do mero fazer,permitindo ao professor poder atuar intelectualmente,contribuindo com ensinamentos tericos, tcnicos eprincipalmente prticos, comprometidos com atransformao da sociedade atravs dos tempos. Nessemovimento, as intervenes buscam e tm provocadomudanas politicamente necessrias, transformando emagentes os sujeitos envolvidos no processo. Para que istose d, consideramos ainda, poeticamente, que o ideal, opossvel no est pronto: gesta-se na situao construdoa partir dela. Muitas vezes, ele se encontra escondidodentro da casca do impossvel. Para descobri-lo eacion-lo, preciso recorrer imaginao utpica, quese articula razo e impulsiona o desejo que se desvelacomo fruto. Construir o possvel significa explorar oslimites longnquos, para reduz-los e edificar pontes,aproximar margens, construir lugares perscrutando asalternativas de ao para ampli-las sempre.

Dizendo da pesquisa propriamente dita:Posto o desafio, a preocupao com o como fazer,

instituiu-se o Programa de Preceptoria como umprograma institucional. Mas o que a preceptoria?

A preceptoria vista como um programa institucionalde suporte acadmico para os alunos do Curso degraduao em Enfermagem, tem sido comumenteabordada como um ensinamento caracterstico,principalmente dos cursos da rea da sade, em que o ensinose d por seus pares, professores-alunos, sem, contudo,explicitarem os princpios e fundamentos que regem essetrabalho. Essa preocupao nos levou a investig-la, numprimeiro momento, tal como ela se organiza, enquanto umaestratgia de ensino. Num segundo momento, no trabalhoaqui referido, luz de uma concepo fenomenolgica deeducao, a preceptoria investigada a partir de como elase d ao ser vivenciada pelos preceptorandos, antes quecategorias crtico-reflexivas possam direcionar ou pautarinterpretaes exteriores ao processo. E o que a preceptoriasignifica para o preceptor?

Dizendo de suas vivncias no desenvolvimento dasatividades de preceptor, observamos que essas so distintas,peculiares e surpreendentes quando, em sua participaoativa nos encontros mensais, nos dilogos cotidianos dafaculdade, cursos, ou at mesmo quando na verificao dorendimento acadmico, tm criado vnculos, geradoencontros. O que se observa que o processo depreceptorar, na perspectiva enfocada, est distante de sersomente um processo de ensinar e aprender, ou ainda deser uma preparao meramente tcnica, especializada.Solicita que os envolvidos coloquem-se em face de umaconcepo de educao, como se dando em situao, naexistncia, vendo homem e mundo como um todo. Essever holstico o que permite buscar o fenmeno em basesmais slidas, a fim de investir na construo de umaformao educacional coerente e eticamente fundamentada.

Nessa trajetria, numa perspectiva fenomenolgica, oensinar e o aprender consistem na possibilidade que temo humano de tomar conscincia da necessidade de ver-seinserido no mundo humano, um ser com o outro e, ento,reorganizar um projeto de vida que pessoal e social.Acreditamos que isso acarreta uma postura profissionalmais aberta realidade, estimulante, levando o aluno e oeducador a refletirem sobre o seu ser, o seu fazer eo seu agir, em direo a um pensar reflexivo e atuantesobre a prxis, numa perspectiva existencial. Nessaperspectiva, a ao educativa, desenvolvendo-se luz dascontribuies da Filosofia da Existncia, caracteriza umatrajetria de vivncias, podendo vir a constituir-se emespao efetivo de formao, de explicitao e deproduo de conhecimentos e saberes que se fazemnecessrios formao de ambos, professor/preceptore aluno/preceptorando a serem realizados no convvio ena cumplicidade do cotidiano.

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Mais ainda, sendo o trabalho proposto de naturezaterico-prtica, portanto, regido por uma tica que seexplicita no iderio institucional, o como fazer encontrana preceptoria, enquanto projeto institucional, dirigido formao profissional do enfermeiro, no apenas umatcnica, ou estratgia de ensino, mas uma maneira debuscar a trans/forma/ao. Produzir uma trans/forma/ao significa produzir um outro, substantivamentediferente do anterior, um trans-fazer.

Ao explicitar a natureza prtico-poitica, criadora doque se pretende, buscamos a essncia do fenmenopreceptoria. Colocamos-nos como um hermeneuta,ouvindo os alunos e, a partir dos seus discursosfenomenolgicos, nos aproximamos da forma como elesa apreendem, tal como ela se d no seu pr-reflexivo,enraizada no seu mundo vida, no tempo e no espao decada um, dando-se em situao e no movimento. Tendoem mos os depoimentos coletados (as entrevistasfenomenolgicas de oito preceptorandos), aps anlise einterpretao, quatro categorias temticas foramdestacadas: aproximao, orientao, formao ecoexistncia, temticas essas que se desvelam comoessenciais ao exerccio do preceptorar.

Significativamente, ao dizer da aproximao, apreceptoria ao proporcionar aos alunos uma aproximaocom os professores, na convivncia, solicita que eles re-vejam seus valores, busquem pontos comuns, para que sed a aceitao do outro e, assim, poderem iniciar estaproposta. Sugerem que haja um encontro de horizontes,os do aluno e os do professor, para que possa concretizar-se uma outra forma de ver o mundo. Esse entendimentorevela-se compreenso, na expresso de alguns alunos,de que a aproximao, para alm da academia, afeta a suavida pessoal e social, sendo importantes e necessrios ocomprometimento e a intencionalidade dos envolvidos.Outro dado que se revela como fundamental preceptoria o seu carter de orientao.

Lembramos que, ao repensar os significadosatribudos orientao, tem como referncia valorescristocntricos(2), cuja tica impele a uma ao, umainterveno concreta, garantindo que essa orientaoacompanhe a mudana dos tempos. Ao ter o docentecomo referncia, o aluno busca-o para esclarecer suasdvidas e tem a certeza de que, em qualquer momento, oprofessor se dispe a ouvi-lo. A orientao para essesujeito entendida como a promoo das coisas boasque o aluno possui e um estmulo, incentivando-o a crescercomo pessoa, social, intelectual e institucionalmente, nosmeandros da universidade. Orientao que, neste estudo,significa perceber a inclinao de uma pessoa ou de umeducando, impulsionando-o para o seu objetivo. Sugere,ainda, a ao que visa direcionar, estimular, incentivar.

No extremo significativo e que no privilegiado nosdiferentes discursos, destaca-se que falar em orientao

pressupe falar tambm em desorientao, sentidoantagnico registrado, no lxico, como desencaminhar,desnortear, desorientar como possibilidade humana deestar-com-o-outro na impropriedade do ser. Oacadmico manifesta que ter o professor como refernciapossibilita ao aluno guiar-se numa direo que o norteieem um como se posicionar, frente s diferentespossibilidades de escolha.

Os alunos ouvidos percebem o professor como aqueleque os guia, apontando a direo, influenciando-os. Umarticulador que capta os potenciais, estimulando-os eincentivando-os em suas trajetrias, permitindo assim que,ao gerir suas dvidas, possam recomear a busca de umnorte, mesmo que situado num longnquo oriente. Aimportncia da orientao posta em destaque quando,ao orientar, o mestre apresenta possibilidades, imagens,diagramas da realidade, nem sempre percebidos peloeducando e que podem favorecer a formao de umaidentidade profissional compromissada com o outro.

Da temtica formao falamos: Ao dar forma nossaao (forma+ao), temos a preocupao de mantercoerncia com os princpios e valores que fundamentama misso institucional. Ao torn-los exeqveis, mantivemo-nos fiis a uma tica cuja fundamentao teve, comohorizonte, o mtodo evanglico*****, desde o incio dosculo XIX, que diz, a juventude possui perspiccia,agudeza de esprito, fina sensibilidade capaz de desvendaros sentimentos mais sutis das atividades, tanto sadiascomo banais, incrustados no mago imperceptvel de umavida. A educadora Marcelina a que se adapta vidadas educandas, estando com elas em todos os momentos,sempre sua volta, formando por meio de aesconcretas, mais do que com palavras.

Os discursos enfatizam a crena dos alunos de quetodos os questionamentos e dvidas devero ser sanadosantes de sua graduao. Vemos explicitar-se, assim, a suapercepo de formao como algo que se limita a umperodo de quatro anos.

No entanto, trazemos outra dimenso, quando umanova perspectiva de formao emerge como sendo oresultado de um processo de vir a ser, algo que nasce deum processo interno de constituio que permanece emevoluo e aperfeioamento contnuos. Essa compreensodo termo formao o que torna passvel de desconfianacolocar-se como meta de formao uma ao de naturezaexterna ao processo em si, pois esta ser sempre secundriaa ela. Por outro lado, reafirma que, na formao, tudo preservado, nada desaparece. No se trata de adquirir algoqualitativamente novo, ou do(5) que se ensina sobre isto ouaquilo, mas de buscar um saber-se (a si mesmo), vivenciadoou dirigido a algo que no ela (formao) mesma.

Emerge tambm, da pesquisa temtica, a coexistncia,

***** Biraghi L. Positio super virtutibus. Roma: [s.n.]; 1995. 1v.

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que traz como sentido mais amplo ser prprio da condiohumana ser e estar no mundo com o outro, almejandocompreender esse modo de ser/estar com o outro.Observamos, de forma significativa, que ao se manifestarna pesquisa, o sujeito acredita que sua vida acadmica oaproxima da atuao profissional e docente, como ser nomundo. No instante em que isso ocorre, temos oconhecimento libertador, autntico e no apenas a merareproduo de conhecimento. Ao acolher o aluno, o docenteestar possivelmente expressando que a postura ativa doprofessor reconhecida como prpria, democrtica.

Na convivncia cotidiana com a presena do professor,o aluno constri uma aproximao uma ponte entremundos. com a realidade do mundo exterior, presenteem toda sua variedade e diversidade existente na palavrae ao do professor e no vivido, que ambos reconhecemas dificuldades e evidenciam-se os passos da autonomia,da liberdade e os sucessos possveis. Ao orientar-se pelaconvivncia que se estabelece em sala de aula ou no campoda prtica e na preceptoria, o aluno, enquanto presena,empreende a construo do conhecimento, sua e do outrocomo ser-no-mundo.

Para alm das temticas enfocadas, algumasidiossincrasias aparecem nos discursos dos alunos e queaqui apenas registramos: escolha, afetividade eresponsabilidade.

CONSIDERAES FINAIS

No presente trabalho, os pesquisadores enfocam ohomem em sociedade, como um ser com o outro,inserido no mundo quando, ento, interrogando apreceptoria luz da fenomenologia, desvelam suasestruturas essenciais, explicitando-a como um fazer denatureza prtico-poitica. Falam, pois, nesse movimento,de idealizaes, de valores, de diversidades. Dizem dediversidades, de situaes, quando mais do que se dandonuma relao aos pares, situa-a em sociedade, no mundohumano. Nesse fazer, sendo uma construo terico-prtica, quando se confronta cotidianamente com um

pensar fundado na lgica do improvvel, a preceptoria,enquanto ao educativa, requer escolhas e a constantetomada de decises em contextos de incerteza, solicitaaes, intervenes. Nessa configurao, muda-se ocomo enfocar o desafio institucional: este no se restringemeramente a um programa acadmico, mas passa a exigira viso de insero dos sujeitos no mundo, em situaeseducativas, quando a contribuio da pesquisa, aliada conscincia do papel poltico, de forma visvel ou no,delimita as diretrizes que balizam as aes que se propemcomo educativas. Necessrio se faz, portanto, o auxlioda filosofia tica, como um pensar fenomenolgico, masque se mostra tambm como hermenutico que iluminaa construo das respostas aos desafios postos efetivaoda misso institucional. nesse sentido que pensamosestar explicitando uma concepo que, ancorada nopensamento biraghiano, ao iluminar o fazer na ao, nasociedade e no mundo, responda de forma coerente aosdesafios postos pela misso institucional. Nessemovimento, o que se explicita para alm da preceptoria a prpria Concepo Marcelina de Educao.

Finalizando, importante ressaltar que a fenomenologianos educa para a contnua insatisfao com as conclusesalcanadas, a busca incessante por verdades, sabendo, deantemo, que h sempre mais a receber e a dizer, acompreenso se retoma a cada instante, sem jamais sedar por acabada.

O questionamento coloca-nos em atitude de aberturaao que se mostra. Assim, o fenmeno sempre vistodentro de um contexto.

necessrio ainda mencionar que nossa formao narea da sade torna difcil o caminhar por um saber, atento pouco estudado por ns, muito embora a produocientfica nessa rea, particularmente na Enfermagem, jesteja percorrendo um caminho de apropriao do pensarfilosfico, com vistas a melhor compreender o humano,sujeito de suas aes de cuidar e a imprimir, com rigorcrescente, os pressupostos filosficos bsicos dafenomenologia e da hermenutica que tambm se mostraa continuidade em seus estudos.

REFERNCIAS

1. Crrea AK. A crise do conceito tradicional de homem e suasimplicaes para a sade e educao.Santo Andr(SP): s.n.;2004.[Conferncia proferida no Simpsio de Fenomenologiado Cuidar]

2. Biraghi L. Linhas de ao. Milano: [s.n.]; 1880.3. Martins J, Bicudo MAV. Estudos sobre existencialismo,

fenomenologia e educao. So Paulo(SP): Moraes; 1983.4. Martins J. Um enfoque fenomenolgico do currculo:

educao como poesis. So Paulo: Cortez; 1992.5. Silva GTR, Alexandre LBSP, Gomes PC. Refletindo sobre a

Preceptoria em Enfermagem, rumo para o Desenvolvimentodo Ser Humano [resumo]. In: 53 Congresso Brasileiro deEnfermagem, 2001, Curitiba(PR). Curitiba; 2001.

6. Husserl E. A filosofia como cincia do rigor. Traduo deAlbim Blau. Coimbra: Atlntida; 1965.

7. Espsito VHC. A escola: um enfoque fenomenolgico. SoPaulo: Editora Escuta; 1993.

8. Simes SMF, Souza IEO. Um caminhar na aproximao daentrevista fenomenolgica. Rev Latinoam Enferm. 1997;5(3):13-7.

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