Pré-história e História da Justiça Eleitoral

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Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 1 Pr-histria e Histria da Justia Eleitoral Teresa Cristina de Souza Cardoso Vale1 A histria poltica brasileira teve nas fraudes eleitorais um grande problema que impactava diretamente os resultados oficiais, manipulando a verdade eleitoral e garantindo que tudo permanecesse exatamente como estava. Ainda que com algumas diferenas na Colnia, no Imprio e na Primeira Repblica, as fraudes eram fatores determinantes para o impedimento das transformaes substanciais na poltica brasileira. Diversos polticos dessas fases denunciaram-nas como sendo um retrocesso brasileiro. Por exemplo, Assis Brasil, poltico gacho e crtico das fraudes eleitorais na Repblica Velha, afirmou, no Manifesto da Aliana Libertadora do Rio Grande do Sul ao Pas, em 1925: Ningum tem certeza de ser alistado eleitor; ningum tem certeza de votar, se porventura foi alistado; ningum tem certeza de que lhe contem o voto, se porventura votou; ningum tem certeza de que esse voto, mesmo depois de contado, seja respeitado na apurao da apurao, no chamado terceiro escrutnio, que arbitrria e descaradamente exercido pelo dspota substantivo, ou pelos dspotas adjetivos, conforme o caso for da representao nacional ou das locais. (Assis Brasil, 1998:312) A primeira fraude eleitoral da Repblica, oficialmente documentada e divulgada pela imprensa, ocorreu j na eleio inicial para o Congresso Constituinte, no Estado da Bahia. Na poca, apenas duas chapas apresentaram candidatos e ambas receberam votos regularmente em todas as sees. No dia seguinte ao pleito, o jornal da capital baiana, Dirio da Bahia, divulgava o resultado da apurao informando, inclusive, quantos votos os candidatos receberam em cada localidade. Esses dados constavam nas atas de cada seo e, depois de apurado o pleito que se iniciou a fraude, atravs da adulterao, muitas vezes grosseira, das atas de apurao (Souza, 1996:71). 1 Doutora pelo Iuperj em Cincia Poltica e professora da UFVJM (teresa.vale@ufvjm.edu.br). mailto:teresa.vale@ufvjm.edu.brAnais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 2 Na literatura se encontram diversos exemplos, como Raymundo Faoro que afirmou que a eleio ser o argumento para legitimar o poder, no a expresso sincera da vontade nacional, a obscura, catica e submersa soberania popular. A vergonha dos chefes no nasce da manipulao, mas da derrota. O essencial vencer, a qualquer preo (Faoro, 2000:708). Jairo Nicolau, autor contemporneo, escreveu: as eleies, mais do que expressar as preferncias dos eleitores, serviram para legitimar o controle do governo pelas elites polticas estaduais. A fraude era generalizada, ocorrendo em todas as fases do processo eleitoral (alistamento dos eleitores, votao, apurao dos votos e reconhecimento dos eleitores) (Nicolau, 2004:34). At a concepo da Justia Eleitoral, contra esse mal foram experimentadas diversas frmulas, todas frustradas. A criao dessa instituio se deu em meio a uma luta entre faces oligrquicas que tinham como nico objetivo conquistar o poder do Estado2. Como veremos, ela no foi calcada em bases slidas, seja do pensamento liberal, ou positivista, ou autoritrio, existentes poca. Embora seja um avano para a democracia poltica brasileira, seu surgimento assenta-se unicamente na traio e na luta entre as foras oligrquicas que se utilizavam deslavadamente das fraudes. O objetivo deste trabalho apresentar a histria da Justia Eleitoral, bem como seus antecedentes. Para tanto, subdividi este em quatro partes. Na primeira, apresento os antecedentes; na segunda, o momento da criao e seus idealizadores; na terceira, falo brevemente sobre a suspenso, para finalmente, na quarta parte falar do ps-1945 aos dias atuais3. Os antecedentes da Justia Eleitoral At o Imprio, os juzes tiveram participao crescente no processo eleitoral, mas ainda pequena se comparada participao da Justia Eleitoral. Para citar um exemplo, em 1824 passou a ser obrigatria a presena de um juiz na mesa receptora; posteriormente este ganhou o direito de ser o presidente da mesma. A gradual participao dos 2 As fraudes eleitorais eram praticadas por todos, sem exceo. Assis Brasil, por exemplo tambm se beneficiou de fraudes eleitorais. Apesar desse ser um tema relevante e que complexifica o argumento desta tese, este mereceria um estudo exclusivo, pois que permite supor que a Justia Eleitoral, num primeiro momento, surgiu para servir a elite poltica dominante. 3 Uma cronologia dos principais fatos encontra-se em anexo. Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 3 magistrados deveu-se s sucessivas tentativas de inibir as fraudes. E foi por causa das mesmas que, em 1881, Rui Barbosa redigiu o Projeto de Lei que ficou conhecido como Lei Saraiva (Decreto n 3.029, de 9 de janeiro de 1881). Esta lei objetivava a moralizar as eleies com a criao do ttulo de eleitor, juntamente com as eleies diretas e com a atribuio magistratura do alistamento eleitoral, abolindo as Juntas Paroquiais de Qualificao. Ao redigir o projeto dessa lei, Rui Barbosa estava muito preocupado com as fraudes, mas no obteve muito resultado, pois as mesmas continuaram a ocorrer. Logo aps a Lei Saraiva, houve a primeira eleio direta para a Cmara dos Deputados, o Senado e as Assemblias Provinciais. Com a Proclamao da Repblica, houve uma ruptura significativa no que se refere s leis eleitorais, que eram inspiradas no modelo francs. Os polticos acreditavam que as leis brasileiras no eram eficazes para o controle eleitoral, e por isso passou-se a adotar o modelo norte-americano. As principais inovaes implementadas, a partir desse novo modelo, foram a eliminao do "censo pecunirio", ou "voto censitrio", a instituio do voto direto para presidente e vice, alm de afirmar, no Regulamento Alvim (Decreto n. 511, 23 de junho de 1890), a importncia de os eleitos exprimirem a vontade nacional. Embora com tais inovaes, o Regulamento Alvim no alterou substantivamente a prtica eleitoral, permitindo que as fraudes permanecessem na base de todo o processo. Mas no se pode deixar de mencionar que, pela primeira vez, uma lei eleitoral brasileira expressou claramente a necessidade de moralizao, ainda que isso no tenha ocorrido de fato. No que se refere ao plano eleitoral, ao longo da Repblica Velha se encontram diversas leis, decretos e instrues4. Embora em nmeros haja um acervo vasto de legislao 4 Seguindo em ordem cronolgica, as principais: decretos 200A de 8 de fevereiro, 277D e 277E de 22 de maro, 480 e 511 de, 13 e 23 de junho, e 563, de 14 de agosto de 1890, que regulam o alistamento e a eleio pra a constituinte republicana. Para a convocao e eleio das assemblias legislativas dos estados foram expedidos os decretos 802, de 4 de outubro, e 11.899, de 20 de dezembro de 1890. A Constituio j mencionada acima foi promulgada em 24 de fevereiro de 1891. Logo aps a Constituio, foi sancionada a lei eleitoral n 35, de 26 de janeiro de 1892, que estabelece o processo para as eleies federais. Esta foi modificada pelas leis n 69, de 1 de agosto de 1892, 153 e 184, de 3 de agosto e 23 de setembro de 1893, 342 e 347, de 2 e 7 de dezembro de 1895, 380, 411 e 426, de 22 de agosto, 122 de 7 de dezembro de 1896, 620, de 11 de outubro de 1899, 907, 908 e 917, de 13 de novembro e 9 de dezembro de 1902, sendo, em grande nmero, atos emanados do Poder Executivo, regulamentando, criando instrues e interpretando vrios dos seus dispositivos, mas que no significaram, na prtica, qualquer transformao significativa. Em 15 de novembro de 1904 foi sancionada a lei 1.269, conhecida como Lei Rosa e Silva. Esta teve alteraes parciais; as mais Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 4 eleitoral, essas no trouxeram modificaes substantivas que inibissem as fraudes. As falsificaes das atas eleitorais, um dos mais graves e delicados problemas do sistema eleitoral brasileiro, permaneceram. Esse tipo de fraude nas eleies fez com que essas ficassem conhecidas como eleies a bico de pena. Outro problema grave era a degola que ocorria quando a Comisso de Verificao de Poderes do Legislativo federal ou estadual no reconhecia a eleio de um candidato, no dando posse ao mesmo. Existiam tambm as fraudes ocorridas no dia mesmo da votao, que eram praticadas pelos cabalistas (aqueles que incluam nomes na lista de votantes) e pelos capangas ou capoeiras (que intimidavam o eleitor utilizando-se, muitas das vezes, da fora fsica). Mas tambm era bastante comum agrupar eleitores no curral eleitoral para a distribuio de cdulas j lacradas para serem depositadas diretamente na urna (Gomes, Pandolfi e Albert: 2002). Outra prtica comum na Primeira Repblica era a existncia de duas Assemblias, bem como de dois presidentes de estado empossados no mesmo Estado e no mesmo perodo. Essas contendas sempre eram resolvidas pelo Supremo Tribunal Federal, mas nunca traziam resultados satisfatrios. Revoltas e assassinatos eram as principais formas encontradas para resolver os problemas entre os oponentes5. Alm disso, a prtica do regime era autoritria com o abandono do princpio da representao. Melhor dizendo, ainda que houvesse um nmero expressivo de leis, ainda que permanecesse o voto para a escolha do representante, a verdade das urnas no existia. Mais ainda, a ltima palavra era sempre dada pelos aliados do governo que importantes foram as da lei 2.419, de 11 de julho de 1911. Diversos projetos foram apresentados entre 1911 e 1915, os mais importantes sero apresentados a seguir. Iniciando pelas leis 3.139 e 3.208, de 2 de agosto e 27 de dezembro de 1916, a primeira prescreve o modo por que deve ser feito o alistamento eleitoral; a segunda, reguladora do processo das eleies, consolidou, corrigindo e melhorando, tudo o que havia de bom e aproveitvel nas leis anteriores e adotou vrios dispositivos novos tendentes a atenuar muitos dos vcios e falhas que afetam os costumes polticos, entre elas confiou aos juzes algumas funes eleitorais. Essa ltima foi conhecida como Lei Bueno de Paiva. As leis 3.139 e 3.208, citadas acima, tiveram modificaes nas leis 3.424, de 19 de dezembro de 1917, e 3.542, de 25 de setembro de 1918, 4.226 e 4.227, de 30 de dezembro de 1920 (Tavares de Lyra, 1921 apud Cadernos da UnB, setembro de 1980). 5 No livro A Primeira Repblica, de Edgard Carone, encontra-se um bom exemplo ocorrido no Sergipe, em 1910. Os polticos envolvidos na contenda foram Batista Itajahy e Rodrigues Dria. Ambos se diziam chefes do poder Legislativo sergipano, criando-se um impasse que s foi resolvido pelo Supremo Tribunal Federal. Esta notcia foi publicada na Folha de S. Paulo de 10 e 11 de abril de 1910. Ver Carone (1973:117-26). Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 5 desejavam manter as coisas como sempre estiveram. Diferentemente do Imprio, na Repblica surgiu uma nova configurao do poder em que o conflito entre grupos oligrquicos era exclusivamente direcionado para a conquista do patrimnio constitudo pelo Estado. Segundo Paim (1989), essa conquista, no mbito das antigas provncias, revela-se, de pronto, insuficiente. Para o autor, era necessrio assegurar a posse do Executivo Central. Para apaziguar esse conflito inventou-se a poltica dos governadores ou o chamado caf com leite (alternncia de So Paulo e Minas Gerais na suprema magistratura) (Barreto e Paim, 1989:204). O liberalismo, que imps ao pas a Constituio de 1891, foi sufocado, permitindo o surgimento da prtica autoritria que se configurou posteriormente pela doutrina castilhista. Nesse sentido, concordo com Paim quando diz que a doutrina liberal de Rui Barbosa, do mesmo modo que a de Assis Brasil, peca pelo abandono do entendimento firmado no Imprio de que a representao era de interesses (ibidem:219). E esse abandono permitiu a sustentao da falsa convico de que a Repblica era o governo de todo o povo e, tambm, permitiu o surgimento de uma nova oligarquia que governava ao arrepio da Constituio. Tudo isso fez com que os partidos polticos fossem necessrios apenas nos perodos eleitorais, utilizados como instrumento para tentar retirar do poder grupos oligarcas e, em seu lugar, colocar outros grupos oligarcas. Ou seja, como sabiamente afirmou Faoro (2000), esse perodo configurou-se pela distribuio natural do poder entre as oligarquias estaduais. Somado a isso, a corporao militar se modernizou e se profissionalizou, permitindo o seu fortalecimento doutrinrio e corporativo, ainda que existissem iderios em minoria que desembocariam no Tenentismo. Em sntese, mesmo passando a ser o fio condutor da Repblica para a escolha dos representantes, o processo eleitoral no recebeu um tratamento adequado. E isso permitiu aos estudiosos, como Leal (1978), Lessa (1988), Barreto e Paim (1989), entenderem esse perodo como um retrocesso na questo eleitoral, se comparado ao Imprio. Sua organizao e estrutura eram bastante precrias, o que permitia, ainda, a permanncia de fraudes. Vrias leis foram implementadas na tentativa de inibi-las, mas nenhuma obteve resultado relevante. Isso porque as fraudes tinham um significado importante nessa fase da Repblica: elas garantiam a poltica dos governantes e, consequentemente, a estrutura de poder oligrquica inabalada. Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 6 No entanto, a frgil base dessa configurao poltica no iria, e nem poderia, se sustentar por muito tempo. Diversos so os motivos para o seu desmoronamento: havia tentativas, no Congresso, de moralizao das eleies, a modernizao, a industrializao e a urbanizao do pas j estavam acontecendo e permitindo o surgimento de novas classes, novas demandas, alm do fortalecimento do sindicalismo. Bastava um desentendimento entre as oligarquias dominantes para que tudo viesse ao cho, e se reconfigurasse de outra maneira. Em todo o perodo da Primeira Repblica houve discusso, tanto na Cmara quanto no Senado, sobre solues que inibissem as fraudes eleitorais. Essas solues sempre traziam discusso a ideia de atribuir Justia o controle do processo eleitoral. Havia polticos que acreditavam que a retido dos juzes acabaria por contaminar os processos eleitorais, evitando as fraudes. Mas havia aqueles que pensavam o contrrio: os juzes se contaminariam com a politicagem. Independente do posicionamento dos deputados e senadores em relao ao controle do processo eleitoral, dificilmente se encontrava um poltico que duvidasse da integridade moral dos juzes. Essa integridade, aqui, entendida como sendo uma virtude em que a histria e a moral so utilizadas pelo juiz Hrcules no trato do direito, tal como a descreve Dworkin (2003). Um bom exemplo do temor pela contaminao dos juzes pela poltica pode ser encontrado no Senado, nas palavras de Arthur Rios, quando das discusses da Lei Rosa e Silva (1903). Segundo ele, porque so puros [os juzes], no devemos envolv-los em impurezas (Anais do Senado, 16/07/1902). Em 1916, na discusso sobre a reforma eleitoral, Abdias Neves protestava: onde se v convenincia, onde se v uma teraputica maravilhosa para os males da decadncia eleitoral, eu vejo, pois, uma inconvenincia e um perigo. [...] no convm arrastar a magistratura da serenidade em que paira para o terreno da politicagem (ibidem, 27/09/1916). Sob o impasse de quem controlaria o processo eleitoral, trs momentos apresentam-se com maior relevncia6: 6 Sobre o assunto, a tese de Cristina Buarque de Hollanda (2007) tem informaes relevantes e mais aprofundadas. Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 7 a) as discusses de 1903 (perodo da elaborao da Lei Rosa e Silva): Francisco Bernardino props a incluso da magistratura no processo eleitoral. As discusses, bastante acaloradas, com especial preocupao com o alistamento eleitoral que ocorria de maneira fraudulenta, tinham como ideal a incorporao do alistamento pelos Judicirios estaduais, ainda que as eleies tivessem leis e respaldos nacionais. Segundo o deputado, os alistamentos perderam toda a f. Os alistamentos so, em geral, imperfeitos, clandestinos, simulados e falsos. Com esta base, senhores, impossvel que se faa obra digna e patritica (Anais da Cmara dos Deputados, 04/08/1903). Francisco Bernardino no desejava que o Judicirio fosse includo na ordem poltica. Para ele, era necessrio manter a independncia dos poderes, por bem da independncia, da inamovibilidade da magistratura dos Estados, eu entendo que um grande perigo confiar-lhe funo poltica: pervert-la, desgra-la, sujeit-la a imensos dissabores (ibidem, 04/08/1903). Como Francisco Bernardino acreditava na retido do Judicirio, mas temia que ele fosse contaminado pela politicagem, props um projeto bastante avanado para sua poca, qual seja, sugeriu a criao de um Judicirio especial para as questes eleitorais. Vrios colegas de Bernardino foram terminantemente contra sua proposta. Joo Luiz Alves e Tavares de Lyra, por exemplo, alegaram que o princpio de neutralidade seria gravemente comprometido pelo critrio previsto de recrutamento da magistratura, j que estes poderiam estar vinculados aos coronis e chefes locais. Embora o projeto de Bernardino no tenha se transformado em lei, sua importncia deve ser registrada, pois, pela primeira vez na histria do Brasil, houve uma discusso na Cmara dos Deputados sobre o papel da magistratura no processo eleitoral. Nesse sentido, pela primeira vez as atenes do Congresso se voltaram para a ideia de se criar uma magistratura independente, capaz de controlar uma parte do processo eleitoral. Este foi o primeiro momento no qual se reuniram algumas das principais caractersticas da Justia Eleitoral em uma discusso parlamentar, qual seja, o controle do processo eleitoral por um Judicirio especial. b) as discusses de 1914: em 1914 o tema de uma magistratura prpria para o processo eleitoral foi retomado por Victor de Britto. Seu projeto diferencia-se daquele de Francisco Bernardino por se preocupar com o processo de verificao de poderes que servia apenas para os congressistas ajustarem os resultados eleitorais como bem lhes conviesse. Nessa ocasio, discutiu-se muito o fim da degola, mas sem muito Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 8 resultado. Apoiando-se em estudiosos internacionais, Britto acreditava que delegar a habilitao poltica ao poltico era o mesmo que permitir as fraudes, porque estaria autorizando o interessado no resultado a interferir no mesmo. Diante disso, Britto concluiu, em seu projeto, que o remdio lgico para sanar esse mal seria evitar a causa principal delle, isto , entregar a verificao de poderes a verdadeiros juzes (ibidem, 11/08/1914). Esse projeto no teve muita repercusso no Congresso, mas se torna importante aqui, em vista do tema que explorou a preocupao com as fraudes na verificao de poderes. c) as discusses de 1916: a comisso mista composta por Bueno de Paiva (presidente), Augusto de Farias, Joo Luiz Alves (relator), Alberto Sarmento, Christiano Brasil, Alcindo Guanabara e Guilherme Campos foi criada para trabalhar nos assuntos eleitorais. O objetivo desta era reformar as leis eleitorais do perodo e seu resultado ficou conhecido como Lei Bueno de Paiva (Lei 3.208, de 27 de dezembro de 1916) que introduziu a magistratura no processo eleitoral. Ainda no era a criao da Justia Eleitoral porque se confiou o alistamento a um Juiz de Direito (juiz comum) e manteve a verificao dos poderes com o Congresso. Segundo os Anais da Cmara, a primeira preocupao desta Comisso foi a de evitar a duplicidade dos diplomas eleitorais. Tambm se preocupou em manter a guarda da urna pelos magistrados, no intuito de no permitir que estas fossem corrompidas. Dos idealizadores dessa lei, Christiano Brasil foi, sem dvida, o maior entusiasta dessa mudana. Segundo ele, o espetculo deprimente das eleies tinha impacto avassalador sobre a f republicana. Era preciso refundar esta f com base numa lei eleitoral boa e s, por isso a incluso dos juzes no processo eleitoral. Este deputado se surpreendeu ao ver seus colegas condenarem a participao da magistratura porque, para ele, esta classe era uma das mais independentes e honestas da Repblica. Dentre as trs discusses apresentadas, sem dvida a ocorrida em 1916 foi, alm de mais longa, a mais importante para este estudo, porque ela insere o Judicirio de maneira definitiva no processo eleitoral da Repblica brasileira. Embora ainda no seja a criao da Justia Eleitoral, esse avano na lei eleitoral abre espao para o surgimento da mesma. E isso pode ser considerado o primeiro grande passo para a moralizao do regime eleitoral brasileiro. Embora essas discusses no tenham trazido, de fato, o Judicirio para o controle do Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 9 processo, elas demonstram a preocupao, bem como o amadurecimento da ideia entre os polticos de ento. A criao da Justia Eleitoral Com o trmino da Revoluo de 1930, um decreto governamental estabeleceu que fosse formada uma comisso para estudo e reviso de toda a legislao eleitoral brasileira. O Ministrio da Justia e Negcios Interiores, incumbido de acompanhar os trabalhos da comisso, s o fez realmente quando seu ento ministro, Oswaldo Aranha, foi substitudo por Maurcio Cardoso, que dirigiu pessoalmente a reviso final do projeto apresentado ao Governo Provisrio. Essa Comisso era composta por Joaquim Francisco de Assis Brasil, Mrio Pinto Serva e Joo Crisstomo da Rocha Cabral (relator). Por motivos de sade, Mrio Pinto Serva teve pouca atuao junto Comisso. A Subcomisso para preparar o anteprojeto do Cdigo Eleitoral dividiu o trabalho em duas partes: a primeira dizia respeito ao alistamento dos eleitores, que se realizou em setembro de 1931; a segunda, ao processo eleitoral propriamente. Entendiam eles que as partes obedecem aos mesmos princpios fundamentais e se entrosam em um sistema, como partes independentes e harmnicas (Cabral, 1929:16). O trabalho da Subcomisso passou pela apreciao de alguns jurisconsultos notveis. So eles: Antnio de Sampaio Dria, Juscelino Barbosa, Mrio Castro, Bruno de Mendona Lima, Srgio Ulrich de Oliveira, Adhemar de Faria e Octavio Kelly. A Justia Eleitoral foi criada em 1932, pelo Decreto n 21.076, de fevereiro de 1932 o primeiro Cdigo Eleitoral do pas. Suas responsabilidades eram preparar, realizar e apurar as eleies, alm de reconhecer os eleitos, ou seja, ela era responsvel por todo o processo eleitoral, o que a difere, em muito, dos projetos apresentados ao Congresso e mencionados anteriormente. No entanto, sendo a Justia Eleitoral um rgo Judicirio especializado, encarregado de administrar e julgar casos eleitorais, no se pode dizer que as participaes de juzes nas eleies, durante o Imprio e Primeira Repblica, sejam o incio de sua formao. E, embora muitos polticos da poca tenham atribudo reforma Bueno de Paiva Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 10 promulgada no governo Wenceslau Brs como o primeiro passo para a sua criao, esta tambm no pode ser considerada como embrio porque, nesta lei, somente a qualificao para as eleies foi confiada atividade judiciria. Alguns polticos e juristas desse perodo, como, por exemplo, Pedro Lessa, afirmaram ser essa lei uma desmoralizao da Justia, j que as juntas eleitorais reviam o trabalho do Judicirio. Para Edgard Costa, a revoluo poltica de 1930 deixou, inegavelmente, como a sua maior e melhor conquista, a reforma do sistema eleitoral, iniciada com o Cdigo de 1932 (Costa, 1964). Para Pontes de Miranda, o verdadeiro significado sociolgico da Revoluo de 1930 e da Constituio de 1934 foi o de unificar o processo e o direito eleitoral material, enfeixando-os nas mos do Poder Legislativo quanto legislao e da Justia Eleitoral quanto aplicao (Miranda, 1937 e 1967). A relevncia do Cdigo pode ser vista em seu eco na formatao da Constituio de 1934. Nesta, o Cdigo foi largamente reproduzido, dando a ele maior firmeza e impossibilitando os espritos reformadores da poca. Segundo ngela Castro Gomes, os tenentes revolucionrios consideraram o Cdigo Eleitoral uma precipitao, pois acreditavam que o retorno ordem legal ainda no era vivel. Para os tenentistas, tal retorno ameaava os rumos polticos renovadores que imprimiam a direo dos negcios pblicos. Gomes ainda nos lembra que um dia aps sancionado o decreto, os tenentes reagiram duramente contra os rumos dado ao processo de constitucionalizao. O evento smbolo foi o empastelamento do prestigioso jornal pr-Constituinte, Dirio Carioca (Gomes, 2007:20-1). Walter Costa Porto (2002), ao falar da criao da Justia Eleitoral brasileira, nos chama a ateno para o fato de que a Inglaterra, desde 1868, Portugal, desde 1896, e outros como Alemanha, Prssia, ustria, Grcia, Polnia e Tchecoslovquia j tinham delegado ao Judicirio a matria eleitoral. Segundo afirma Ferreira Filho (1984; 1989), esse anteprojeto foi inspirado nas Justias Eleitorais tcheca7, uruguaia, argentina e na obra Democracia Representativa: do voto e da maneira de votar, de Assis Brasil. Pela 7 Manuel Gonalves Ferreira Filho, em suas obras Comentrios Constituio Brasileira e Curso de Direito Constitucional, atribui a criao da Justia Eleitoral Brasileira como inspirada nas inovaes da Constituio Tcheca de 1918, e sua Lei Eleitoral de 1920. Segundo ele essas duas ltimas foram elaboradas por influncia de Kelsen. Ver Ferreira Filho (1989:157). Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 11 importncia do pensamento de Assis Brasil e de Joo da Rocha Cabral, estes merecem uma cuidadosa apresentao de suas obras, antes mesmo de escrever sobre o Cdigo de 1932. Assis Brasil e a Justia Eleitoral O principal idealizador da Justia Eleitoral brasileira foi Assis Brasil. Alm de ser o principal membro da Subcomisso responsvel pela redao do cdigo, Brasil redigiu duas importantes obras para o Direito Eleitoral. Seu livro Democracia representativa: do voto e do modo de votar (1931) tornou-se um clssico no Direito Eleitoral brasileiro, embora o autor no tenha se dedicado exatamente a escrever sobre a criao da Justia Eleitoral. Nele, Assis Brasil mostra que nada era mais perigoso para a garantia da liberdade poltica que o sistema, ento quase universalmente usado, da refuso peridica dos registros de eleitores. Para esse autor, a Lei Saraiva tinha sido o nico progresso nas leis eleitorais brasileiras. Embora Assis Brasil no tenha dedicado tratamento minucioso criao de uma Justia Eleitoral em Democracia Representativa, o autor reafirma, em todo o seu texto, uma leitura positiva acerca da magistratura: o Poder Judicirio, pela srie de condies que reveste, em todos os pases o mais independente de paixo partidria e o menos subserviente aos governos (Assis Brasil apud Brossard, 1989:162). No segundo livro, Do Governo Presidencial na Republica Brasileira (1934), outra grande obra do autor, Assis Brasil diz que o Brasil o primeiro pas no mundo a fazer um Cdigo Eleitoral e a tornar a Justia independente do poder Executivo. Alm disso, afirma que os juzes so, em parte, os verdadeiros interessados pela justa representao, por isso deve-se delegar Justia Eleitoral a direo de todo o processo eleitoral. Para ele, por ser a Justia independente do poder poltico, ela a melhor fora para se controlar quem entra e quem sai desse poder. Mas no h dvida de que sua maior obra poltica foi a elaborao do anteprojeto que criou o Cdigo Eleitoral de 1932. Adequando seus estudos e a doutrina liberal dominante com a realidade brasileira, Assis Brasil conseguiu criar uma grande obra que, em linhas gerais, mantm-se at os dias atuais. Ainda em 1925, Assis Brasil j reivindicava a necessidade de implementao da Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 12 representao e justia. Ele afirmou, no Manifesto da Aliana Libertadora do Rio Grande do Sul ao Pas (1925), que para o Brasil ser considerado um pas civilizado muitas mudanas deveriam ocorrer, pois que o Brasil no tem representao e no tem justia (Assis Brasil, 1925:312). Esse ser o lema que Assis Brasil sustentar ao longo de toda a sua carreira poltica, e ser tambm esse lema que a Aliana Liberal tomar como base para a Revoluo de 1930. nessa base representao e justia que Assis Brasil e seus colegas revolucionrios comporiam as leis reformadoras e inovadoras que marcariam, em definitivo, e positivamente, o direito poltico do cidado brasileiro. Ainda que a regulamentao da Justia Eleitoral no tenha sido um desejo unnime dos aliancistas, pois trazia a possibilidade de rompimento em definitivo com o antigo regime, ela foi implementada com maestria. Logo aps Getulio Vargas assumir o governo, Assis Brasil foi nomeado Ministro de Estado da Agricultura (em 3 de novembro de 1930). Em 28 de fevereiro de 1931, sem deixar o Ministrio da Agricultura, Assis Brasil foi designado Embaixador em Misso Extraordinria e Ministro Plenipotencirio na Repblica Argentina. E em Buenos Aires que recebe uma Carta de Getulio Vargas dizendo: (...) a lei eleitoral, primeiro passo para a debatida constitucionalizao, teve terminada a sua reviso, respeitando-se, em suas linhas gerais, o plano primitivo, de sua autoria, no tocante a sistema e princpios (Carta de Vargas a Assis Brasil, novembro de 1931 - Arquivo CPDOC GV c 1931.11.00/1 FGV). Especificamente sobre a reformulao eleitoral, Assis Brasil tem a dizer: A lei eleitoral tem por fim estabelecer regras para que todos os que possam conscientemente votar votem ao abrigo da fraude e da violncia; dessa concorrncia de capacidades e influncias mais ou menos culminantes, mais ou menos definidas, nascer forosamente a mdia do pensamento nacional. Bom ou mau o resultado, ele deve ser aceito como o nico natural e, pois, o nico legtimo. (Assis Brasil, 1931:72) Para o autor necessria uma fiscalizao do processo, alm da existncia de mesas Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 13 escrutinadoras, com mesrios de todas as parcialidades. E para tal fiscalizao, diz ele que o poder Judicirio, pela srie de condies que reveste, em todos os pases o mais independente de paixo partidria e o menos subserviente aos governos. O juiz letrado, pois, presidir com dois secretrios por ele escolhidos a organizao da mesa [...]. Tudo gira em torno da preocupao constante de combinar a simplicidade com a verdade da eleio. (Assis Brasil apud Brossard, 1989:258). Para ele, o Brasil deveria resolver suas questes com solues brasileiras. Se havia grandes linhas-mestras, havia, tambm, peculiaridades nas sociedades que reclamavam tratamentos especficos. Por isso ele prope um projeto inovador, especfico para o pas, o qual tem o Supremo Tribunal de Justia Eleitoral (STJE) o poder mximo para as decises eleitorais e, subordinado a ele, os Tribunais Regionais. Assis Brasil termina sua obra com os seguintes dizeres: As melhores leis sero incuas ou danosas se ao seu lado no houver Justia organizada que as cumpra e faa cumprir integralmente. Que Justia essa? Os textos pr-revolucionrios o dizem e repete-o o documento mximo cimentador da Aliana Liberal: a Justia esclarecida, a Justia independente do poder poltico, a Justia constituda por Juzes que penetram na carreira por concurso; que sejam promovidos pela antiguidade combinada com o mrito taxativo; que sejam administrados, processados, julgados, punidos ou absolvidos por Tribunais da sua prpria classe. A reforma que instituir essa Justia h de ser decretada em definitivo pela assemblia soberana cuja eleio se regulamenta com a lei agora em elaborao. [...]. Desde j, porm, ele [o governo provisrio] no poderia deixar de prover a organizao judiciria na parte em que esta essencial a plena operao do processo eleitoral. o que se fez nas disposies do Ante-Projeto que entendem com a interveno de Juzes para a sua execuo. [...] Quanto mais se pesarem os princpios e as circunstncias e se cotejarem aqueles com estas, mais se consolidar a convico de que a verdade est na Democracia e o pensamento democrtico est cristalizado no lema imortal: representao e justia (ibidem:339-40). Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 14 Rocha Cabral e a Justia Eleitoral Outro nome relevante para a criao da Justia Eleitoral foi Joo da Rocha Cabral. Ele nos deixou dois preciosos trabalhos sobre a Justia Eleitoral. O primeiro um captulo de seu livro Sistemas eleitorais do ponto de vista da representao das minorias (1929), em que trata a questo da atribuio do processo eleitoral ao Judicirio. O segundo foi o livro Cdigo Eleitoral da Repblica dos Estados Unidos do Brasil (1934) em que so apresentados os trechos principais da exposio de motivos feita por ele e Assis Brasil perante o Ministro e a Comisso Revisora. No primeiro, Rocha Cabral afirma que nunca houve, no Brasil Republicano, eleies que no levantassem contestaes. Em todas havia argies de fraudes, fundadas queixas de compresso e suborno, inextricveis questes quanto legalidade e aos resultados finais do processo eleitoral (Cabral apud Porto, 1989:256). Neste mesmo livro, Rocha Cabral escreveu sobre a urgncia em se aperfeioar o regime eleitoral para que o Governo e o Parlamento fossem verdadeiramente responsveis perante a nao. Em mais de 30 anos de revoluo republicana no pas, esse ainda se encontra, na escala dos praticantes do sufrgio universal, abaixo do antepenltimo grau de aperfeioamento. [...] o alistamento fraudado; o voto comprimido; o resultado das urnas, burlado at no processo do reconhecimento nas cmaras (Cabral apud Porto, 2000:86). No entanto, Rocha Cabral (1929) sugeriu apenas que fosse dada aos Tribunais a misso preliminar de resolver as contendas levantadas sobre o processo eleitoral, deixando para as Cmaras a competncia de verificar e reconhecer os poderes de seus membros. Ou seja, este autor no deu uma soluo concreta para o problema. Sua sugesto era de mudar, sem mudar concretamente, pois como j mencionado anteriormente a degola era uma das principais fraudes cometidas. J seu segundo livro, Rocha Cabral (1934) comenta o Cdigo no seu mrito, apresentando os principais avanos do mesmo. Segundo ele, o livro foi feito com o objetivo de tornar acessvel ao cidado brasileiro a primeira expresso legal da mais importante obra que se espera da Revoluo Brasileira de 1930 (Cabral, 1934: 11). Bastante elogioso s obras de Assis Brasil, Rocha Cabral chama a ateno para o fato de Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 15 Assis Brasil sempre, desde o incio do regime republicano, denunciar os problemas do processo eleitoral. Segundo a exposio de motivos, a reforma de que mais carecemos nesta hora, mesmo como condio para a menor mudana, ou alterao nos artigos do formoso pacto de 24 de fevereiro de 1891, a reforma do voto (ibidem: 12). Em sua opinio, a Revoluo de 1930 permitiu essa reforma. Rocha Cabral lembra que o Governo Provisrio teve o cuidado de escolher tcnicos capazes para elaborar o anteprojeto, isentos da contaminao do antigo perodo. Alm disso, esses tcnicos tinham a conscincia de que para preparar o projeto era necessrio que as regras abrangessem as verdadeiras necessidades do pas. Por isso, viram a necessidade de redigir com cautela, fazendo as devidas reconstituies histricas, para que as tcnicas eleitorais pudessem ser o alicerce do edifcio poltico. Edifcio que na poca presente exige bases de extrema solidez e resistncia. E quaisquer falhas nesses fundamentos comeariam por tornar dvidas a prpria solidez do edifcio, a prpria autoridade da Conveno (ibidem:13). O autor menciona, ainda, que o mtodo da cincia poltica utilizado pelos membros da Subcomisso para a redao do anteprojeto do Cdigo , acima de tudo, experimental e inspirado nos ensinos de Leon Donat. Dentre os princpios fundamentais8, mundialmente aceitos, adotados pela Subcomisso para a redao do anteprojeto, o 8 diz que toda matria de qualificao de eleitores, instruo e deciso de contendas eleitorais ser sujeita a jurisdio de juzes e tribunais especiais, com as garantias inerentes ao Poder Judicirio (ibidem: 15-6). Rocha Cabral deixa bem claro que as inspiraes vieram de experincias bem-sucedidas da atribuio ao poder Judicirio da questo eleitoral, como, por exemplo, pases do Velho Continente, da Argentina e do Uruguai. Segundo os autores do Cdigo Eleitoral de 1932, tornara-se no Brasil uma aspirao geral arrancar-se o processo eleitoral, 8 Os primeiros sete princpios fundamentais so: 1) o poder poltico emana do povo. Deve ser conferido por meio de eleio; 2) todo cidado e membro da soberania da nao tem precipuamente o dever de concorrer para a formao, sustentao e defesa da autoridade pblica; eleitor e elegvel, nos casos e formas que a lei determina; 3) a inscrio do Registro Cvico obrigatria; 4) as causas que possam fazer perder o direito eleitoral, ou seu exerccio, so reduzidas ao mnimo; 5) o voto absolutamente secreto; 6) a representao dos rgos coletivos de natureza poltica automaticamente integralmente, ou tanto quanto possvel, proporcional; 7) todas as corporaes de carter eletivo, designadas para intervir nas questes do sufrgio, devem ser escolhidas com as garantias dos princpios acima consignados. O 8 foi mencionado acima. Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 16 ao mesmo tempo, do arbtrio dos governos e da influncia conspurcadora do caciquismo local (apud Porto, 1989:257). O projeto buscou o melhor a se adaptar ao momento brasileiro e adotou 1) para o processo eleitoral, essencialmente poltico, sem deixar de envolver direitos individuais garantidos pela Constituio, haver uma especial magistratura, tanto quanto possvel independente do arbtrio do Governo, ainda mesmo em relao aos seus rgos auxiliares, de carter administrativo; 2) sendo a funo judicante, mesmo em matria eleitoral, distinta da tcnica e administrativa, haver tribunais e juzes especiais para exercerem a primeira e reparties e funcionrios tambm especiais para o desempenho das segundas; 3) os juzes e tribunais, estabelecidos embora a ttulo provisrio at a reconstituio definitiva do regime, gozaro das garantias prprias da magistratura. Deles se afastam absolutamente as contaminaes das suplncias legais, de experincia recente bem dolorosa. Com esta caracterstica, absoluta independncia de ao e precisa responsabilidade, os magistrados eleitorais diro judicialmente da qualificao e de todas as contendas que se travarem a respeito do direito eleitoral desde o alistamento dos eleitores at a proclamao final dos eleitos; e 4) ao lado, anexos e subordinados a essa magistratura, funcionrios, tcnicos e reparties adequadas foram encarregadas da identificao dos eleitores, da sua inscrio, do arquivo eleitoral e de todo o processo referente ao servio eleitoral, em uma e em outra das referidas fases (Cabral, 1934:32). O curioso que essa estrutura se mantm inabalada at os dias atuais. O autor termina sua exposio de motivos dizendo que entende ter cumprido todas as exigncias demandadas para a elaborao do anteprojeto. Alm disso, diz que toda a complexidade do problema eleitoral no encontraria terreno para se desenvolver, pois, com o cdigo, estava assegurada a reconstruo da Repblica. Diz o autor, ainda, que o projeto procura corresponder a esta necessidade e se apresenta integral, em sistema racional e prtico, baseado nos mais modernos e aperfeioados processos de justia poltica, de tcnica democrtica e de representao democrtica, desafiando a comparao com os mais completos e prticos do mundo (ibidem:39). E para finalizar, Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 17 diz Rocha Cabral: a instituio da Justia Eleitoral um dos pontos mais fortes da reforma poltica trazida por este Cdigo (ibidem:54). A criao da Justia Eleitoral foi relevante para o surgimento da democracia poltica no pas porque era necessria uma soluo rpida e eficaz que fosse capaz de estancar os abusos dos demais poderes sobre a representao da soberania popular. Tal como mencionado no primeiro captulo desta tese, a judicializao da poltica pode nascer no momento em que, com o aparecimento de litgios, h uma necessidade de rpida soluo, no podendo esperar que o Legislativo legisle sobre o assunto. Alis, como explicado ao longo deste captulo, vrias foram as tentativas do Legislativo em estancar tais abusos, mas nenhuma se demonstrou eficaz. Com a criao da Justia Eleitoral, as fraudes eleitorais no foram erradicadas, mas, sem dvida nenhuma, foi o primeiro grande passo para tal. Com sua criao, a degola foi completamente eliminada. Isso s foi possvel porque, ao atribuir ao Judicirio o poder de controlar o processo eleitoral, no se permitiu que os prprios representantes legitimassem seus sucessores. Esta tinha sido a base na qual se estruturou toda a poltica dos governadores da Repblica Velha. Nas discusses do Congresso, historicamente os magistrados no se envolviam nas questes polticas e sempre foram considerados detentores de uma retido inquestionvel. interessante ressaltar, no dizer dos prprios parlamentares brasileiros, que os juzes eram idneos e os polticos corrompidos e que no havia um poltico que duvidasse da retido do Judicirio. Este assunto foi mencionado quando se falou da integridade do juiz no captulo anterior. No Brasil no foram diferentes as questes, apontadas pela literatura, que levaram valorizao do Judicirio, fazendo com que este surgisse como o terceiro gigante. A instituio encarregada pela Justia Eleitoral foi o Tribunal Superior de Justia Eleitoral, criado em 24 de fevereiro de 1932, cujo principal objetivo era fazer com que se cumprissem as leis eleitorais da maneira mais idnea possvel. Seu primeiro presidente foi o ministro Hermenegildo Rodrigues de Barros. Alm do Tribunal Superior havia os Tribunais Regionais9, em cada circunscrio judiciria, com juiz 9 O Tribunal Superior, com jurisdio em todo o pas, tinha sede no Distrito Federal. Em cada Estado, no Distrito Federal e no Territrio do Acre, funcionava um Tribunal Regional. Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 18 eleitoral de primeira instncia, sendo este o juiz local vitalcio, ou aquele escolhido pelo Tribunal Regional (onde houvesse mais de um), e juntas apuradoras nos lugares designados. Estas juntas eram constitudas, cada uma, por trs juzes locais vitalcios, sob a presidncia do que tivesse jurisdio no municpio da sede. A Justia Eleitoral tinha Ministrio Pblico prprio, exercido por um procurador geral, que funcionava junto ao Tribunal Superior, e 22 procuradores regionais, funcionando cada um junto a um Tribunal Regional, todos nomeados pelo Presidente da Repblica dentre juristas de notvel saber; perante as juntas apuradoras funcionavam os representantes do Ministrio Pblico da Justia local (Leal, 1949:231-2). Justia Eleitoral, alm da atribuio de expedir, por seus rgos superiores, instrues complementares legislao eleitoral, competia todo o trabalho de alistamento, apurao e reconhecimento e, ainda, a diviso dos municpios em sees eleitorais, a distribuio dos eleitores pelas vrias sees e a formao das mesas apuradoras. Estas, uma para cada seo, eram compostas de um presidente, primeiro e segundo suplentes, todos nomeados pelo juiz eleitoral, e de dois secretrios, escolhidos pelo presidente da mesa. Discriminava a lei as incompatibilidades e preferncias para o exerccio da funo de mesrio, e permitia que os trabalhos das mesas fossem inspecionados pelos fiscais e delegados dos partidos (ibidem:231-2). Com o Cdigo de 1932, as mesas receptoras perderam a atribuio de contar os votos. Estas eram as fontes permanentes de atas adulteradas. Os Tribunais Regionais passaram a ser responsveis pela contagem das cdulas das eleies estaduais e nacionais. No nvel municipal, a responsabilidade coube s juntas apuradoras, presididas por juzes vitalcios. Outro importante ponto que a diplomao dos eleitos passou a ser de responsabilidade dos Tribunais Regionais e Superior, abolindo, dessa maneira, os reconhecimentos fraudulentos e vergonhosos feitos pelas Assemblias Legislativas. Ruy de Oliveira Santos publicou, em 1937, seu Cdigo Eleitoral anotado. Segundo ele, a criao de uma magistratura especial para a questo eleitoral delega ao Judicirio a qualificao e de todas as contendas que se travarem a respeito do direito eleitoral desde o alistamento dos eleitores at a proclamao final dos eleitos (Santos, 1937:31). Classificado como original e harmnico por Santos, o Cdigo de 1932 Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 19 oferece solues brasileiras para o caso brasileiro. Afirma, ainda, que a Justia Eleitoral, autnoma como e com a competncia que lhe assegurou a Constituio, , sem dvida, a caracterstica principal e eixo do regime inaugurado pela Revoluo de 1930 (idem). Segundo Santos, o Direito Eleitoral Substantivo passou a ser tutelado e dirigido pela Justia Eleitoral, o que permitiu sua real execuo. Ainda ele afirma que os tempos eram de especializaes e a Justia Eleitoral constituiu-se exemplo, no campo jurdico, do imperativo dessa poca. Alm disso, o prprio Santos sugere pensar a criao da Justia Eleitoral como uma forma de judicializao da poltica. Pelo antigo regime, a parte decisria estava entregue ao Poder Legislativo, nico que conhecia das argies de incompatibilidade e inelegibilidade, reconhecimento ou perda de mandato, enfim, ao rgo essencialmente poltico se entregava causa da mesma natureza. O mal desastrado de tal sistema dispensa criticas. Norteando-se pela orientao do Cdigo de 1932, o constituinte, sabiamente, despolitizou toda a verificao de poderes, na expresso do eminente Pontes de Miranda, judicializando a proclamao dos eleitos e excluindo o elemento poltico na formao dos corpos polticos e na eleio do cargo poltico maior, o de Presidente da Repblica. (Pontes de Miranda, apud Santos, 1937:11, nfases minhas). Assim sendo, a instituio da Justia Eleitoral como um organismo autnomo e vigilante do processo eleitoral permitiu o combate fraude eleitoral e todo o mecanismo enviesado das eleies. Judicializar as eleies seria a nica maneira de garantir lisura ao processo, alm da competitividade, h muito suprimida. No entanto, embora em vrios momentos os fatos apresentem semelhana, no podemos falar de judicializao da poltica como proposto para esta tese. Judicializar, no sentido dado por Pontes de Miranda delegar justia o controle do processo. No entanto, o sentido que trato o termo judicializao da poltica no o mesmo de Pontes de Miranda. Alm de delegar o controle do processo eleitoral a uma justia especial, entendo a judicializao como associada ao ativismo jurdico, ou seja, quando o Judicirio cria leis, alm das decises contrrias aos poderes majoritrios em contextos favorveis - o que, nesse momento, no ocorreu. Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 20 Nessa primeira fase (1932-1937), trs importantes pleitos foram organizados pela Justia Eleitoral: em 1933, quando foram escolhidos os constituintes nacionais; em 1934, quando foram escolhidos os constituintes estaduais e, em 1935, quando foram escolhidos prefeitos e vereadores. As eleies de 1933 foram as primeiras eleies em que se experimentou a verdade eleitoral. Segundo Leal (1978:241-2), com efeito, de todas as eleies havidas at ento foram as de maio de 1933 as mais regulares quanto ao mecanismo do alistamento, da votao e da apurao e reconhecimento. Em 1935, os termos prefeito e vereador substituram a denominao de intendente e conselheiro municipal. Durante todo o perodo estudado, no possvel encontrar concordncia entre os polticos sobre quem deveria administrar o processo eleitoral. A grande maioria era contra a retirada do controle feito pelas Cmaras, mas existiam polticos, como Pedro Lessa que, mesmo defendendo a autonomia dos municpios, acreditavam ser importante a delegao das funes eleitorais ao Poder Judicirio. Nas palavras de Lessa: s ao Poder Judicirio licito decidir recursos sobre apuraes e sobre verificao de poderes municipais; porque o Poder Judicirio julga pelo alegado e provado; e, conseguintemente, as suas decises no podem ser contrrias ao que manifestou querer o municpio nas suas eleies (Lessa apud Leal, 1949:125). Segundo Leal, delegar a eleio ao Judicirio foi a soluo que apresentou o menor inconveniente poltico no Brasil. Victor Nunes Leal, avaliando a criao e o papel da Justia Eleitoral, afirmou: [...] , sem dvida, a soluo que apresenta menores inconvenientes polticos, porque o Judicirio, ao menos em princpio, julga pelo alegado e provado e, conseqentemente, as suas decises no podem ser contrrias ao que manifestou querer o municpio nas suas eleies. (Leal, 1949:127) Como nos aponta Faoro (2000), desde o Imprio havia uma especial predileo pelo Judicirio. Lembrando Rui Barbosa, Faoro diz que a justia a chave de todo o problema da verdade republicana. Derivando de Faoro, posso dizer que a Justia Eleitoral seria, nesse sentido, apenas um desdobramento de uma fora que vinha se articulando ao longo do Imprio e passando pela Repblica. Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 21 Oliveira Vianna (1974), ao relatar a poltica dos governantes, mostra a impressionante teia em que as faces oligrquicas foram enredando o Executivo, o Legislativo e at mesmo os Judicirios Estaduais; faltava apenas o Judicirio Federal para o domnio completo. Para ele, o problema central era a necessidade de se reverem as leis brasileiras e, com o intuito de avanar, deveria, ou investir o poder Judicirio centralizado e autnomo, ou criar um quarto poder, tal qual o poder moderador. Diz Vianna, Ou isto ou qualquer outra coisa que represente um centro de fora, de natureza essencialmente poltica; mas, completamente fora de qualquer atinncia ou dependncia com os grupos partidrios. Este centro de fora, cuja necessidade todos sentimos, seria organizado de maneira tal que pudesse agir direta e espontaneamente, e com eficincia imediata quando se fizesse preciso, sobre os grupos, as faces, os cls, neutralizando-lhes a influncia e a nocividade da vida administrativa do pas. (Vianna, 1974:45) E, em nota de rodap, completa: e a Justia Eleitoral, que veio com a Constituio de 1934, foi um comeo disto e um bom comeo (idem). Para Vianna, as leis no foram feitas para a sociedade brasileira existente. Ainda que estivessem calcadas em ideais nobres e extremamente avanadas, elas representavam uma sociedade fictcia que no a brasileira. Para o autor, esse hiato entre as leis e a sociedade deveria ser suprimido, e uma das principais atitudes a se tomar era organizar a justia como um dos meios de dar realidade nossa democracia em letra de forma. Pode-se dizer, mesmo, que, se at hoje no temos tido nem liberdade civil, nem liberdade poltica, principalmente porque nunca tivemos uma eficiente organizao da justia (ibidem:65). Outro importante ponto a ser trabalhado por Vianna era a educao, pois as leis brasileiras eram avanadas para um povo sem a educao adequada. Ser aps a Revoluo de 1930 que tudo se transformar. A nova organizao eleitoral cunhada em 1932, com a criao da Justia Eleitoral, trouxe transformaes significativas ao sistema representativo brasileiro, transformaes essas que podem ser sentidas at os dias atuais. Atualmente, ningum duvida da lisura dos processos Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 22 eleitorais; e se o assunto Justia Eleitoral, todos concordam que uma instituio bastante sedimentada e idnea. importante ressaltar aqui que o amplo direito ao voto, em condies iguais (isto , com a reduo das fraudes), se deu durante um breve perodo autoritrio, quando se encaminharam as reformas polticas, como por exemplo, a institucionalizao da Justia Eleitoral. Melhor dizendo, foi necessrio um golpe, seguido da posse provisria de Getulio Vargas para que as transformaes em direo a uma democracia poltica pudessem ser implementadas. Para isso, era necessrio o fim das milcias estaduais e, consequentemente, o esvaziamento do coronelismo e do poder oligrquico. Essa ao fortaleceu o poder central, permitindo-lhe operar reformas de maior profundidade poltica e social, muitas delas advindas da nascente e crescente classe mdia. As reformas polticas, no que se refere questo eleitoral, prometidas pela Aliana Liberal foram todas cumpridas nos primeiros anos do Governo Vargas. E o mais importante que as reformas eleitorais foram, sem dvida, decisivas para que o pas alcanasse um sistema eleitoral democrtico baseado no voto secreto e comandado pelo Poder Judicirio, ainda que a execuo somente ocorra uma dcada depois. No h dvidas de que o pas avanou no que se refere transparncia nos procedimentos, na correo e no clima de liberdade durante o perodo eleitoral. No entanto, no significa que as fraudes foram extintas com a criao da Justia Eleitoral. Sua criao mostrou ser a mais consistente, se comparada s tentativas anteriores, mesmo que ela ainda tivesse (e ainda tem) muitos pontos a alcanar. Tanto verdade essa afirmao que, ao retomarmos as eleies em 1945, a Justia Eleitoral reaparece como foi proposta por Assis Brasil em 1932, com apenas algumas poucas alteraes. O Imprio preocupou-se com o aprimoramento da representao. A Repblica Velha rompeu com esse esforo de aprimoramento e transformou a poltica em terra de ningum, sem lei, aumentando as fraudes e afastando o pas do eixo democrtico. A criao da Justia Eleitoral, embora parea motivada pelo sentimento de revanche e excluso de parte da elite poltica, permitiu o surgimento de uma instituio necessria para a consolidao da democracia poltica no Brasil. Ainda que em 1937 a Justia Eleitoral tenha sido suspensa, esse duro golpe no foi suficiente para acabar com o Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 23 germe plantado em 1932, e aprimorado em 1935, quando tivemos a elaborao do segundo cdigo eleitoral. O cdigo de 1935 surgiu para corrigir imperfeies do primeiro cdigo que dificultavam sua opercionalidade. Este segundo cdigo foi propostos pelos membros do TSJE. A criao da Justia Eleitoral, nesses termos, significou um importante avano em direo democracia ao menos poltica, j que rompeu com as regras do antigo regime, baseado nas fraudes, e configurou-se em guardi da neutralidade e verdade eleitoral. Noutras palavras, a Justia Eleitoral foi fundada como uma instituio isenta da apetncia poltica, com envergadura inquestionvel, capaz de moderar o processo e realmente permitir o rompimento com o passado fraudulento. No caso brasileiro, os motivos em favor dos juzes tambm passam por motivos como a integridade. Como demonstrado ao longo do texto, a sociedade e at mesmo os polticos estavam desacreditados em relao s eleies no pas. Somando-se a isso era unnime a crena na idoneidade do Judicirio. Ainda que houvesse alguns que temessem a entrega do controle do processo eleitoral a esse poder, pois que esse poderia se contaminar com a politicagem, todos confiavam que as fraudes eleitorais seriam erradicadas com a criao da Justia Eleitoral. Como apresentado ao longo do captulo, havia uma tendncia a preferir o Judicirio desde o Imprio. Associado a isso, o colapso da Repblica Velha permitiu uma maior abertura do mundo poltico ao poder Judicirio, sobretudo com a criao das duas justias especializadas, quais sejam, a Eleitoral (em 1932), e a do Trabalho (em 1934). Essa abertura permitiu a criao da base para que a judicializao da poltica germinasse no pas, pois que esses judicirios especiais tinham funes para alm de judicante. Mas isso no significa que seu surgimento tenha sido instantneo. Se pensarmos que a fraude desequilibrava a balana da igualdade do voto em favor de um pequeno grupo de oligarcas, fica fcil perceber por que a agenda das transformaes polticas da poca redefiniu as relaes entre os Trs Poderes, permitindo ao Judicirio controlar a escolha dos representantes que iriam integrar os demais poderes polticos. Melhor dizendo, a busca pela igualdade do voto que impulsiona as transformaes Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 24 advindas das demandas aliancistas permitindo o surgimento do que Cappelletti chamou de Terceiro Gigante. E esse novo Judicirio, diria mais poderoso, foi capaz de controlar ao menos quem representa no legislador mastodonte e o leviantanesco administrador (Cappelletti, 1993:47). O Executivo e Legislativo utilizavam-se da poltica dos governadores para manter o eixo Minas Gerais/So Paulo no poder. Tambm se utilizavam das fraudes eleitorais para garantir maioria no Congresso, minando os alicerces que manteriam o processo eleitoral nas mos dos representantes do povo soberano. O Judicirio surgiu, ento, como a ltima esperana da busca democrtica, ou ainda, o reduto da verdade eleitoral, o guardio da neutralidade, o moderador do processo eleitoral. Nas palavras de Garapon, o ltimo refgio de um ideal democrtico desencantado (Garapon, 1999:26). Sendo assim, a partir do instante em que o Judicirio ganhou maior visibilidade e ao, no que tange ao mundo das eleies e ao mundo trabalhista, ainda na dcada de 1930, surge a possibilidade de judicializao da poltica no pas. Mas a possibilidade, de fato, no se concretiza. Como para todos os setores da vida social a moral a regra do jogo, isso abre espao para o crescimento da fora judicial, pois ela quem tem sido chamada a garantir a moralidade da vida social, poltica, econmica e cultural. Retomando Vallinder, a judicializao da poltica surgiu com a crescente demanda do Judicirio para a resoluo de problemas polticos; e o Judicirio demonstra ser capaz de assegurar os direitos fundamentais, neste caso os direitos polticos. Sendo assim, a judicializao da poltica transforma o Judicirio em arena de deciso poltica. A judicializao da poltica pode estar relacionada no s ampliao do acesso justia e reorganizao do sistema judicial, mas tambm deficincia dos poderes Executivo e Legislativo em atender adequadamente as presses sociais por mudana. At aqui poderamos afirmar que se trata de um caso de judicializao da poltica. No entanto, s h judicializao quando juzes apresentam uma postura poltica ou ideolgica contrria quela predominante nas instituies majoritrias, opondo-se, assim, s polticas por estas adotadas. E isso no foi questo do Judicirio eleitoral nesse perodo. certo que a Justia Eleitoral reduziu a quase zero as fraudes quando da sua criao, mas isso no se configura em judicializao da poltica. Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 25 Se voltarmos literatura, veremos que os mesmos autores h pouco mencionados demonstram que o Judicirio tende a ser uma autoridade moral maior que os demais poderes, o que lhe permite promover os valores da justia bsica, aumento da igualdade e a liberdade de expresso. Sendo assim, o poder de controlar o processo eleitoral dado ao Judicirio surgiu da falta de confiana do pblico nos seus prprios representantes em garantir que o processo de escolha dos mesmos fosse justo, ao mesmo tempo em que percebeu que o Judicirio possua um maior apego s normas ticas e iseno do processo (j que sua base no se pauta no princpio da representao, mas da equidade, justia e integridade), o que garantiria maior lisura. No momento em que a Justia Eleitoral surgiu foi permitido ao Judicirio legislar, j que desde 1932 cabe Justia Eleitoral normatizar sobre a questo. Tambm permitiu ao Judicirio um maior ativismo, j que ele no chamado somente para resolver questes eleitorais. Cabe a ele julgar, normatizar e, principalmente, administrar todo o processo eleitoral, desde o alistamento do eleitor e do candidato, at a apurao e diplomao. Mas no encontrei indcios que permitam dizer que esse perodo foi de judicializao da poltica. Nesse sentido, parto do princpio de que desde a criao da Justia Eleitoral possvel falar em ativismo jurdico. Quando este se torna judicializao da poltica o que tentaremos descobrir nos prximos captulos. A suspenso da Justia Eleitoral Como j mencionado, algumas crticas foram feitas ao Cdigo de 1932 pela prpria magistratura eleitoral, que culminou nas alteraes que resultaram na Lei n 48, de 4 de maio de 1935, o Cdigo de 1935. Esse um exemplo de ativismo jurdico, no entanto, no podemos supor judicializao da poltica. Nesse mesmo ano, a Lei de Segurana Nacional suspendeu a Justia Eleitoral. Embora o Cdigo de 1935 tenha vigorado at o Golpe de 1937, no chegou a ser utilizado, pois Vargas outorgou uma Nova Constituio, redigida por Francisco Campos conhecida como polaca. Nessa, o agora ditador fechou o Congresso Nacional (que s foi reaberto em 1945), extinguiu a Justia Eleitoral, suspendeu as eleies livres, aboliu os partidos polticos existentes e estabeleceu eleio indireta para presidente da Repblica, com mandato de seis anos. Por dez anos no houve eleies no pas, ou seja, entre os anos de 1935 a 1945, o estado Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 26 de direito foi duramente atingido, comprometendo seriamente o desenvolvimento da cidadania brasileira. Somente em 28 de maio de 1945, atravs do decreto n 7.586, a Justia Eleitoral foi restaurada e no mais suspensa. Com a emenda de 2 de dezembro de 1937, os partidos polticos foram extintos. Dentre eles, quase todos efmeros e com resqucios ainda da Republica Velha, somente dois tinham projeo nacional: o PCB (Partido Comunista do Brasil, que praticamente desde a sua criao encontrava-se na clandestinidade) e a AIB (Ao Integralista Brasileira). A lei que suspendeu os partidos polticos em 1937, dizia: [...] considerando que o sistema eleitoral ento vigente, inadequado s condies da vida nacional e baseado em artificiosas combinaes de carter jurdico e formal, fomentava a proliferao de partidos, com o fito nico e exclusivo de dar s candidaturas e cargos eletivos aparncia e legitimidade. (Carone, 1985:28). A Constituio de 1937, redigida por Francisco Campos, era forte, centralizadora, autoritria, de inspirao fascista, sobretudo do ditador polons Jzef Pilsudski, e uma parte das leis do regime de Mussolini, na Itlia, tal como desejaram os positivistas, em 1889. A polaca consagrou a corrente positivista, autoritria e caudilhista de Benjamin Constant, Floriano Peixoto, Flores da Cunha e Lindolfo Collor (e outros, sob a influncia do castilhismo e do Colgio Militar de Porto Alegre, onde estudaram todos os presidentes do regime militar ps-1964). A Constituio de 1937 tambm estabeleceu eleies indiretas para presidente, com mandato de seis anos e previu a realizao de um plebiscito para referend-la, o que nunca ocorreu. Mesmo com a suspenso, a Constituio de 1937 diz, em seu artigo 117, que so eleitores os brasileiros de um e de outro sexo, maiores de dezoito anos, que se alistarem na forma da lei. Diz, ainda, no mesmo artigo, pargrafo nico no podem alistar-se eleitores: os analfabetos, os militares em servio ativo, os mendigos e os que estiverem privados, temporria ou definitivamente, dos direitos polticos. O artigo 118 fala da suspenso dos direitos polticos, sendo esta por incapacidade civil e por condenao criminal. O artigo 119 diz que perdiam os direitos polticos quem recusasse os servios ou obrigaes impostas por lei, aceitasse ttulo nobilirquio ou condecorao estrangeira, e quem perdesse a nacionalidade brasileira. Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 27 Com essa nova Constituio o Presidente da Repblica, alm de dissolver a Cmara dos Deputados, poderia expedir decretos-lei sobre matria de competncia legislativa da Unio, excetuando-se: modificaes Constituio; legislao eleitoral; oramento; impostos; instituio de monoplios; moeda; emprstimos pblicos; e alienao e onerao de bens imveis da Unio. Os decretos-lei expedidos pelo presidente dependiam do parecer do Conselho de Economia Nacional, que possua como competncia o poder consultivo. O Estado Novo significou um grande golpe para os avanos institucionalizados em 1932. Esses somente puderam retornar em 1945, como veremos adiante. Mas, de uma maneira geral, vimos um amadurecimento das correntes autoritrias na dcada de 1930. Getulio Vargas empenhou-se em transformar as questes polticas em problemas tcnicos, prevalecendo, acima de tudo, o bem comum e o ideal republicano. No h dvidas de que o ponto culminante da reforma implementada no ps-1930 foi a institucionalizao de uma justia especial, a Justia Eleitoral, que, segundo Costa (1964), surgiu como a mais ldima garantia da verdade e da legitimidade do voto. Ainda que o sistema tenha fracassado em seguida, com o abandono das ideias liberais, no foi o suficiente para o completo desmoronamento dos ideais de representao e justia. Ser com o retorno da democracia, em 1945, que a Justia Eleitoral retomar seu curso, como veremos nos prximos captulos. Assim, devemos reconhecer que o pensamento liberal consolidou-se a partir da conquista de 1932, e essa assertiva se reafirma com a consagrao desse ideal atravs da incorporao da Justia Eleitoral como parte do Poder Judicirio brasileiro, a partir da Constituio de 1946. Em 1945, com a deposio de Vargas, finaliza-se o Estado Novo permitindo o retorno dos ideais democrticos levantados pela revoluo de 1930. Com esses ideias retorna tambm a necessidade de uma instituio que controlasse os processos eleitorais e esta ser novamente a Justia Eleitoral. Do retorno da Justia Eleitoral aos dias atuais Com o fim do regime autoritrio e a retomada democrtica, o processo eleitoral de 1945 foi regulado pela Lei Agamenon (Decreto-Lei 7.586/1945), que estabeleceu as eleies Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 28 para presidente, senadores e deputados federais. Nesse Cdigo, a Justia Eleitoral ficou sob a responsabilidade do Supremo Tribunal Federal, j que as leis da poca no permitiam a criao de um Judicirio especial. Essa lei, redigida pelos membros do prprio Supremo, criou a obrigatoriedade de filiao partidria como requisito fundamental para a candidatura a cargos pblicos, vigorando sem muitas modificaes at ser substitudo pelo Cdigo Eleitoral de 1950. importante ressaltar que a Justia Eleitoral organizou-se nos moldes da Justia Federal, desde seu ressurgimento, em 1945. Foi criado um Tribunal Superior, na capital da Repblica, e Tribunais Regionais, nas capitais dos estados. Afora os Tribunais, em cada circunscrio judiciria havia um juiz eleitoral de primeira instncia. A Justia Eleitoral passou, tambm, a possuir um Ministrio Pblico prprio, exercido por um Procurador Geral, junto ao Tribunal Superior, e procuradores regionais, junto a cada um dos 22 Tribunais estaduais. A Constituio de 1946 veio reafirmar os direitos polticos inerentes ao processo eleitoral. Nesse perodo, o presidente e o vice eram eleitos por maioria simples, mas em pleitos independentes, com mandato de cinco anos e sem direito a reeleio imediata. Com o retorno das atribuies da Justia Eleitoral ao TSE, na Constituio de 1946, reafirmou-se, tambm, uma maior autonomia da mesma, se comparada com os poderes dados aos demais tribunais ligados ao Poder Judicirio brasileiro. Pouco se alterou, nessa Constituio, no que tange s leis institudas anteriormente. Entretanto, a Carta de 1946 trouxe uma novidade significativa: extinguiu a distino de procedimento nas apuraes dos pleitos municipais, estaduais e federais, passando todas elas para a competncia da junta apuradora, presidida por um juiz e composta por dois outros cidados nomeados pelos Tribunais Regionais Eleitorais. O terceiro Cdigo Eleitoral, redigido em 1950 por um senador, tambm manteve a estrutura originria da Justia Eleitoral, com poucas modificaes. No entanto, as falhas na redao desse Cdigo fizeram com que, em 1955, o presidente do Tribubal Superior Eleitoral redigisse duas emendas ao mesmo para melhor operacionalidade das leis eleitorais. O perodo seguinte, que vai de 1964 at 1985, caracteriza-se pelo aparecimento de uma Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 29 ditadura militar, que alterou as atribuies dos poderes Executivo e Legislativo, bem como regulou a organizao e o funcionamento dos partidos ainda que o papel institucional da Justia Eleitoral no tenha sido modificado. Com isso, a Justia Eleitoral manteve a responsabilidade sobre as eleies no que concerne ao alistamento, admisso de candidatos, apurao das eleies e posse dos eleitos. E mais, durante os 21 anos de permanncia no poder, o governo militar no se caracterizou pela obstruo da crescente incorporao de novos cidados em relao ao direito de voto. Autores como Olavo Brasil de Lima Junior, veem na manuteno da participao poltico-eleitoral do cidado brasileiro uma tentativa de a ditadura militar legitimar o regime repressor. Segundo ele, essa participao foi suprflua e deu ao governo militar a possibilidade de extinguir as instituies democrticas construdas na fase anterior (Lima Jnior, 1998). Outro ponto bastante intrigante pode ser percebido se olharmos para os resultados dos pleitos do perodo em questo. Apesar do bipartidarismo compulsrio, a Justia Eleitoral conseguiu garantir a posse de candidatos contrrios situao. Sem dvida, o principal nus do regime autoritrio, na esfera poltica brasileira, deu-se com a outorga de uma srie de Atos Institucionais, entre os quais, para os objetivos desse trabalho, interessam o AI-2, AI-3 e AI-5. Com o AI-2, de outubro de 1965, extinguiu-se as eleies diretas para presidente da Repblica, dissolveu-se os partidos polticos criados em 1945, estabeleceu-se o bipartidarismo (Arena, da situao, e MDB, de oposio) e, principalmente, hipertrofiou o Executivo, cujos poderes incluam a autoridade para dissolver o Parlamento, intervir nos estados, decretar estado de stio e demitir funcionrios civis e militares. Em seguida, com o Ato Institucional n 3, as eleies para governador e vice passaram a ser indiretas e os prefeitos das capitais nomeados por governadores (com o assentimento das Assemblias Legislativas). Por fim, com o AI-5, os direitos civis e polticos foram alvo de grandes restries, resultando no fechamento do Congresso, na cassao de mandatos e na suspenso de direitos polticos de deputados e vereadores. O AI-5 s foi revogado em 1978, quando ento a Justia Eleitoral recuperou as atribuies que at aquele momento tinham sido sufocadas pelos efeitos desse Ato Institucional. De 1968 a 1978, ou seja, durante os dez anos de vigncia do AI-5, o regime autoritrio apresentou sua face mais cruel, pois deu poder de exceo aos governantes para punir, de forma arbitrria, todos aqueles que fossem contrrios ao regime. Esta foi a nica fase, desde o ressurgimento da Justia Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 30 Eleitoral, em 1945, em que ela teve seu poder reduzido. Durante a ditadura militar, coube ao Cdigo Eleitoral de 1965 a regulao dos pleitos. Nesse Cdigo estabeleceu-se a obrigatoriedade de votar em candidatos de um mesmo partido nas eleies proporcionais; proibio de coligao eleitoral; prazo de seis meses para o registro do candidato e multa para cidados no alistados ou eleitores que se ausentassem na eleio. As atribuies do Judicirio eleitoral foram ampliadas, se comparadas aos cdigos anteriores, e a sua estrutura no se alterou. Cabe ressaltar aqui que as eleies nesse perodo foram regulares e foram proclamados resultados desfavorveis elite governante, o que, conforme dito anteriormente, confere mais importncia Justia Eleitoral no Brasil. Tal qual os Cdigos de 1935, de 1945, e as emendas de 1955 ao Cdigo de 1950, o Cdigo de 1965 foi redigido por membros do Judicirio Eleitoral, evidenciando o ativismo jurdico. Nos captulos posteriores aos dois prximos tratarei de verificar se se pode dizer de judicializao da poltica nesses casos. No ano da abertura, em 1985, a Emenda Constitucional n 25 acabou com a excluso do direito de voto dos analfabetos embora esses no tivessem (e ainda no tm) o direito de serem votados. importante considerar que esse perodo foi marcado por grandes transformaes na legislao eleitoral e, no ano de 1986, foi feito um novo recadastramento, sob a responsabilidade da Justia Eleitoral, no intuito de erradicar possveis fraudes nesse processo. Com a Constituio de 1988, retomaram-se todos os direitos polticos, bem como a sua ampliao, permanecendo com a Justia Eleitoral a atribuio de regular os processos eleitorais vindouros. Foi estabelecido, ento, o sistema de eleies em dois turnos para os Executivos; o voto facultativo para os analfabetos e para os maiores de 16 e menores de 18 anos; alm de assegurar aos partidos polticos autonomia para se estruturarem, prevendo, tambm, a realizao de um plebiscito para a escolha do sistema de governo realizado em 1993, com a vitria da Repblica sobre a Monarquia e do Presidencialismo sobre o Parlamentarismo. Posterior Constituio de 1988, as leis que merecem destaque so a Lei Complementar n 64/1990 (Lei das Inelegibilidades); a Lei n 9.096/1995 (Lei Orgnica dos Partidos Polticos); e a Lei n 9.504/1997 (Lei das Eleies). Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 31 Concluses Preliminares Ainda que existam grandes debates sobre o papel da Justia Eleitoral, com alegaes de que esta tem usurpado o poder do Legislativo, a Justia Eleitoral teve e tem um papel moralizador sobre a boa representao. As funes atribudas a ela, como qualificao do eleitor, recepo do voto, apurao da eleio e diplomao do eleito, mostram terem sido acertadas, uma vez que com a Justia Eleitoral a fraude foi praticamente erradicada. A Justia Eleitoral garantiu, e garante, a lisura do processo, ainda que algumas dificuldades sejam encontradas em seu caminho. Das solues propostas ao longo da histria brasileira, a Justia Eleitoral foi, sem dvida, a mais eficaz e sua criao trouxe maior poder ao Judicirio. Lembre-se que, pelo menos no quesito eleitoral e admisso dos representantes do povo soberano, a Justia est acima dos demais poderes, pois que ela decide quem pode ou no ser diplomado. Da criao aos dias atuais, a Justia Eleitoral mostra-se um instituio forte, ainda que sua estrutura organizacional parea frgil, e nos permite pensar sobre a tcnica versus a poltica. Desde o princpio, temos a defesa de que o corpo tcnico, formado por especialistas da rea jurdica, seria a resposta para os problemas polticos eleitorais. Ao contrrio, na mesma defesa, encontramos que o corpo poltico (o legislativo e o executivo) se demonstraram incapazes de controlar o processo eleitoral com a mesma integridade que o judicirio o fez e faz. Nesses termo a tcnica sobrepe a poltica permitindo inmeros estudos e discusses na cincia poltica. Essa tese apenas aponta para essa discusso. Alm disso, deriva-se desse o sentido pedaggico e apartidrio que a justia eleitoral vem demonstrando ao veicular nos meios de comunicao propagandas chamando a ateno do eleitor da importncia do seu voto. O judicirio eleitoral brasileiro mostrou-se, em toda a histria aqui contada, um relevante ator para a consolidao da democracia, ao menos poltica. A atuao desse ator permitiu que se garantisse os princpios bsicos da democracia representativa, quais sejam, soberania popular garantida por eleies limpas e por resultados seguros. Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 32 Bibliografia A JUSTIA eleitoral de 1932 ao voto eletrnico. Rio de Janeiro: TRE/RJ, 1996. 114 p. ALBUQUERQUE, A R. Cdigo Eleitoral, legislao em vigor. Araraquara: Bestbook Editora, 2004. AMADO, Gilberto. Eleio e representao curso de direito poltico. Rio de Janeiro: S Cavalcante Editores, 1969. 3 Edio. ASSIS BRASIL, J. F. A democracia representativa na Repblica (antologia). Braslia: Editora do Senado Federal, 1998. _____. A democracia representativa na Repblica (antologia). Braslia: Senado Federal, 1998. _____. Democracia representativa. Do voto e da maneira de votar. 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