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  • Ministrio da Agricultura, Pecuria e Abastecimento

    ISSN 1518-6512Dezembro, 2007 91

    Pragas ocasionais em lavouras de soja no Rio Grande do SulFotos/imagem: Paulo Pereira/Jos Roberto Salvadori

    Jos Roberto Salvadori1Paulo Roberto Valle da Silva Pereira

    Beatriz Spalding Corra-Ferreira2

    Insetos e outros pequenos invertebrados fitfagos s so considerados pragas agrcolas quando ocorrem em nveis populacionais que causem prejuzo efetivamente, ou seja, que tenham potencial para causar perdas cujo valor supere o custo total da operao de controle. A partir desta premissa, os organismos fitfagos associados produo vegetal podem ser classificados em pragas-chave (ou principais), aquelas que geralmente exigem a adoo de medidas de controle, e pragas secundrias, aquelas que apenas ocasionalmente atingem nvel populacional que justifica o controle.A cultura da soja serve de alimento e de abrigo para dezenas de espcies de insetos, caros, moluscos e diplpodes, as quais podem ser englobadas na denominao genrica de pragas-de-soja. No Rio Grande do Sul, pela abrangncia geogrfica e pela freqncia com que ocorrem, os percevejos pentatomdeos, a lagarta-da-soja e o tamandu-da-soja podem ser considerados pragas-chave. As pragas secundrias da lavoura de soja variam muito com a regio e, como a prpria denominao sugere, com a estao ou o ano.O fator alimento geralmente est por trs do aparecimento de novas espcies de pragas na cultura, resultante de um processo adaptativo em funo da diminuio ou mesmo da supresso do substrato alimentar natural. Embora o aparecimento de novas pragas em uma cultura possa ser percebido de uma hora para outra, no caracteriza um surto, pois resultante de um processo de crescimento populacional gradual. Uma nova praga poder, a partir de sua constatao, permanecer em nveis insignificantes ou ento desenvolver populaes que venham lhe dar o status de praga principal, de forma mais ou menos constante, ou de praga secundria.1 Pesquisador, Embrapa Trigo. Rodovia BR 285, km 294, Cx. P. 451, CEP 99001-970 Passo Fundo, RS, Brasil.2 Embrapa Soja.

  • Alteraes no manejo das culturas e/ou do solo ou, de forma mais ampla, no sistema de produo como um todo, tambm podem exercer efeito determinante na dinmica de pragas (novas pragas e/ou surtos de pragas secundrias) na medida que interfiram nos fatores causais primrios (substrato, inimigos naturais e clima). Um exemplo disto o efeito da adoo de sistemas de produo conservacionistas, como o plantio direto, de rotaes e sucesses de culturas, de safrinhas e de preservao de cobertura morta sobre o solo (palha).Neste texto so abordadas, sob o ttulo de pragas ocasionais, em muitos casos de forma superficial devido carncia de informaes e em outros com um pouco mais de detalhamento, tanto organismos j reconhecidos como pragas eventuais (pragas secundrias) como aqueles que tm aparecido recentemente (novas pragas), em associao com a cultura da soja no Rio Grande do Sul.Adotando-se um conceito particular de pragas, so considerados neste trabalho insetos e outros pequenos invertebrados (caros, lesmas, caracis e milpodes) que se alimentam das plantas de soja.A inteno dos autores reunir e ofertar um conjunto de informaes, geralmente esparsas e que circulam apenas verbalmente, que sirvam de subsdios a assistentes tcnicos e produtores de soja para identificao das pragas e, principalmente, para a tomada de decises de controle. Para facilitar a identificao das espcies, evitaram-se longas explicaes sobre a caracterizao morfolgica e descrio das mesmas, em favor do uso de fotografias que passem aos leitores estas informaes, diretamente. Alm da identificao dos insetos, tanto a vistoria das lavouras como o monitoramento dos insetos-praga so necessrios e de grande importncia, pois auxiliaro o produtor na tomada de deciso das medidas de controle.Com relao a inseticidas, diante da falta de informaes de pesquisa em alguns casos, optou-se por no sonegar eventuais conhecimentos resultantes de observaes em nvel de campo. Todavia, ao mesmo tempo, decidiu-se no mencionar nomes tcnicos e nomes comerciais, uma vez que no se trata de um texto de recomendaes ou indicaes de uso. A escolha de inseticidas e de mtodos de aplicao deve considerar o registro de produtos no Ministrio da Agricultura, Pecuria e Abastecimento e as indicaes das comisses regionais de pesquisa de soja, especialmente da Comisso de Pesquisa de Soja da Regio Sul (Reunio, 2007).

    Larvas rizfagas

    Formas jovens (larvas) de diversas espcies de colepteros alimentam-se de razes de soja, destacando-se os cors e os gorgulhos-da-raiz.Os cors so larvas de escarabedeos que apresentam longo ciclo biolgico. Constituem um complexo de espcies que vivem no solo, beneficiadas por sistemas de manejo e semeadura que no revolvem totalmente o solo. Dependendo da espcie, consomem razes, matria orgnica morta ou fezes, entre outros tipos de alimento. Por isso importante identificar corretamente as espcies uma vez que nem todas so pragas. Nos sistemas de produo de gros que envolvem soja no sul do pas, as espcies de cors mais comuns so o cor-do-trigo (Phyllophaga triticophaga) e o cor-das-pastagens (Diloboderus abderus). Ambos so pragas principais em trigo e em outras culturas de inverno, entretanto, quando da semeadura de culturas de vero, a partir dos meses de outubro-novembro, as larvas (cors) esto parando ou j pararam de se alimentar, e no mais causam danos. Destas duas espcies, o cor-do-trigo tem sido mais freqentemente encontrado na cultura da soja, mas mesmo assim de forma eventual como praga de incio de ciclo, em plantios mais precoces. Tambm pode ocorrer, embora de forma ainda mais excepcional, como praga de fim de ciclo da soja,

  • especialmente em cultivares mais tardias. Neste caso, tratam-se de larvas que se desenvolveram no solo durante os meses de janeiro e fevereiro e que, em funo do seu crescimento e conseqente aumento da capacidade de consumo, s vo ser percebidas atravs de seus danos, nos meses de maro ou abril.Na realidade, a espcie de cor que apresenta maior potencial de dano para a soja Demodema brevitarsis, denominada de cor-sulino-da-soja. Esta espcie porm, que s recentemente foi registrada em lavouras, apresenta uma restrita distribuio geogrfica no Rio Grande do Sul (Salvadori et al., 2006a). Todavia, nas reas em que ocorre, pode causar danos expressivos, seja pela morte de plntulas que secam aps a destruio das razes, seja pelo comprometimento do crescimento e da capacidade produtiva das plantas que, diante de danos parciais no sistema radicular, sobrevivem ao ataque. Em funo de seu ciclo biolgico, os cors desta espcie podem danificar a soja nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro (Fig. 1).

    Fotos/imagem: Paulo Pereira/Jos Roberto Salvadori

    Fig. 1. Cor-sulino-da-soja Demodema brevitarsis: a) adulto, b) larva e c) danos. (escala = 1cm)

    Os gorgulhos-da-raiz ou gorgulhos-do-solo tambm constituem um complexo de espcies de curculiondeos que na fase jovem (larva) vivem associados s razes de vrias plantas cultivadas ou no. Na cultura da soja j foi relatada a ocorrncia de seis espcies, sendo cinco pertencentes ao gnero Naupactus e uma ao gnero Pantomorus (Kuss et al., 2007).

  • Fotos/imagem: Paulo Pereira/Jos Roberto Salvadori

    Fig. 2. Gorgulho-da-raiz Pantomorus sp.: a) larva e b) adulto.

    Na safra 2003/04, foi constatado pela primeira vez na cultura da soja o ataque da larva do cerambicdeo Mysteria darwini (Salvadori & Pereira, 2007). Trata-se de uma larva rizfaga que causou prejuzos expressivos em apenas uma lavoura, em Rio Pardo, possivelmente devido ao fato da soja ter sido semeada em rea anteriormente cultivada com accia-negra, que hospedeira do inseto (Fig. 3).A sintomatologia do ataque de larvas rizfagas em soja caracterizada pelo murchamento de plntulas, o qual pode evoluir para amarelecimento, secamento e morte do vegetal. Em situaes onde isto no ocorre, as plantas cujas razes foram consumidas parcialmente, apresentam diferentes graus de retardo no crescimento e de reduo na produo de gros.O controle de larvas rizfagas necessrio quando espcies reconhecidamente daninhas atingem nveis populacionais com potencial para causar redues significativas no rendimento de gros da cultura. As decises sobre controle no devem ser deixadas para a vspera do plantio, e sim serem resultantes do acompanhamento das reas, ano aps ano, nas safras e nas entressafras. Para tanto, os passos a serem seguidos so: a) identificao das espcies de larvas rizfagas presentes no solo (se so pragas ou no), b) monitoramento da populao destas larvas e dos seus danos e c) aplicao de tticas de controle o mais diversificadas e seletivas quanto possvel, quando a populao atingir a densidade tolerada (nvel de ao ou nvel de controle)(Salvadori & Pereira, 2006).

  • Fotos/imagem: Paulo Pereira/Jos Roberto Salvadori

    Fig. 3. Mysteria darwini: a) fmea, b) macho, c) larva, d) dano em planta de soja e e) lavoura de soja com dano severo.

    Grilos

    Grilos so ortpteros de hbitos predominantemente noturnos, onvoros e que vivem em lugares sombrios, em tocas ou sob restos culturais, pedras, tocos etc. Assim como os cors, apresentam ciclo biolgico longo (cerca de um ano) e so beneficiados pelo no revolvimento do solo, uma vez que neste caso apresentam uma maior taxa de sobrevivncia e por conseguinte, de multiplicao.As espcies mais comuns em nosso meio so o grilo-preto ou grilo-comum (Gryllus assimilis) e o grilo-marrom (Anurogryllus muticus). A primeira espcie muito conhecida por tambm viver em ambientes antrpicos, em hortas e em gramados. A segunda, adquiriu importncia mais recentemente devido a sua ocorrncia em lavouras (Fig. 4).Os danos desses insetos so mais crticos na fase da emergncia da soja, sendo caracterstico dos grilos o hbito de cortar plntulas ao nvel do solo, alimentando-se no local e/ou carregando partes vegetais para dentro de sua toca. Devi