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11 | Organizao do trabalho pedaggico na EPT: desafios e possibilidadesIndiana Reis da Silva Becevelli

11.1 REFLEXES INICIAISPara iniciarmos a nossa reflexo, convido-os para o exerccio de olharmos para trs e analisarmos o que a histria tem a nos dizer sobre a organizao do trabalho. Acreditamos que essa tarefa possibilita-nos entender muitas prticas cotidianas, sobretudo a organizao do trabalho pedaggico na atualidade. Comearemos nossa viagem pelas comunidades primitivas, perpassando pela diviso social do trabalho at a perspectiva de integrao entre trabalho, vida e educao. Inicialmente, nas comunidades primitivas, os homens apropriavamse coletivamente dos meios de produo. Assim, todos participavam do plantio, da colheita e tinham a posse dos bens produzidos. Tudo era feito em comum. Com a organizao do trabalho dentro desses moldes, no havia a diviso de classe e tampouco do trabalho. Entretanto, o desenvolvimento da produo conduziu diviso do trabalho e apropriao privada da terra, provocando a ruptura da unidade vigente nas comunidades primitivas. A apropriao privada da terra gerou a diviso dos homens em classes, sendo duas fundamentais: a dos proprietrios e a dos no proprietrios. Essa forma de organizao do trabalho predominante e vigente at os dias atuais e fez com que a organizao do trabalho pedaggico tambm se baseasse nessa separao. Nesse sentido, conforme Kuenzer (1997), houve um distanciamento entre trabalho intelectual e trabalho manual; entre aqueles que concebem, a elite; e aqueles que executam, o proletariado. Essa dicotomia apresentada pela autora muito presente no cotidiano da escola. Vivemos momentos em que as polticas pblicas educacionais so elaboradas pelas classes dirigentes, rgos oficiais, e nos resta muito pouco, ou seja, apropriarmo-nos dessas transformaes e executarmos o que nos imposto. Podemos citar como exemplo o currculo prescrito, construdo

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pelos rgos oficiais e quase sempre sem a participao dos sujeitos que, de fato, praticam o cotidiano, que vivem o cho da escola (FERRAO, 2005). Nessa concepo de separao entre os que concebem e os que executam, o trabalho pedaggico desenvolvido de forma autoritria, fragmentada, dicotmica e individualista. Nesse sentido, acreditamos que um dos grandes desafios na organizao do trabalho pedaggico na Educao Profissional e Tecnolgica desenvolver um trabalho baseado na participao coletiva, no dilogo e na integrao de todos os segmentos que compem essa modalidade de ensino. De fato, como aponta Muramoto (1991, p. 41), Trabalhadores que no se comunicam horizontalmente, para a reflexo de sua prtica profissional, tendem a uma viso parcial, truncada, do processo de trabalho, perdendo a possibilidade de controle sobre este processo. Portanto, neste artigo, iremos discutir e apontar possibilidades para se pensar o trabalho pedaggico numa viso sistmica (MORIN, 2005). Apresentaremos, sobretudo, a especificidade dessa modalidade de ensino e como se desenvolve, atualmente, a organizao do trabalho pedaggico na Educao Profissional e Tecnolgica.

11.2 ORGANIZAO DO TRABALHO PEDAGGICO E CONTEXTO ATUALNo atual momento histrico, vivenciamos profundas mudanas e transformaes nos processos produtivos. Nesse contexto, a educao se constitui numa possibilidade de formao dos indivduos para o exerccio da cidadania. Para Brando (1995), todos ns vivemos educao. O autor discute sobre os diferentes tipos de educao existentes e para ele [...] a educao , como outras, uma frao do modo de vida dos grupos sociais que a criam e recriam, entre tantas outras invenes de sua cultura, em sociedade (p.8). Assim, a educao possui importante papel na sociedade do conhecimento:

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Ela ajuda a pensar tipos de homens. Mais do que isso, ela ajuda a cri-los, atravs de passar de uns para os outros o saber que os constitui e legitima. Mais ainda, a educao participa do processo de

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produo de crenas e ideias, de qualificaes e especialidades que envolvem as trocas de smbolos, constroem tipos de sociedades. Esta a sua fora (p. 11).

Assim, a organizao do trabalho pedaggico constitui condio para que o processo educacional favorea a constituio de sujeitos emancipados e no meramente qualificados para o mercado de trabalho e seus interesses. Refletir sobre a organizao do trabalhado pedaggico na Educao Profissional e Tecnolgica um caminho para que no reproduzamos esse distanciamento entre quem detm o capital e quem o produz, como tambm entre aqueles que concebem, e os que executam.

11.2.1 A funo social da escolaDiscutir a organizao do trabalho pedaggico na Educao Profissional relevante, uma vez que os cursos de licenciatura e de Pedagogia pouco discutem acerca dessa modalidade de ensino. Acrescentemos, tambm, que muitos docentes que atuam na Educao Profissional no tm formao pedaggica. O fazer pedaggico complexo. Cada modalidade de ensino tem a sua especificidade. Portanto, imprescindvel conhecer a Educao Profissional para direcionarmos nossa prtica pedaggica. Sabemos que a escola tem uma grande funo social: a formao de seres humanos emancipados, sobretudo nas relaes. Assim, no contexto contemporneo, a funo social da escola restabelecer o vnculo entre formao geral e formao especfica, eximindo a separao entre trabalho manual e trabalho intelectual (Parecer CNE 16/99; KUENZER, 1997; FRIGOTTO, 2005; RAMOS 2004). O conceito mais amplo de educao incorpora o conceito de trabalho, reconhecendo a associao entre essas categorias. O trabalho possui dimenses ontocriativas e pedaggicas. Por sua vez, a educao deve vincular-se ao mundo do trabalho e prtica social. Dessa forma, para que a escola cumpra sua funo social diante desse 263 novo contexto, necessria uma educao bsica unitria, politcnica, que articule cultura, conhecimento, tecnologia e trabalho como direito de todos e que proporcione a emancipao humana e social.

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Concordamos com Ribeiro (2000, p. 41) ao apontar que O carter de educar para a vida, para a cidadania e tambm para o trabalho se traduz na possibilidade da construo do indivduo crtico e emancipado, oportunizando a transformao social. Nesse cenrio, a organizao do trabalho pedaggico fundamental. A sala de aula um dos lcus da tessitura do conhecimento. Se almejamos uma educao emancipatria, nossas prticas no podem se pautar em uma educao puramente tecnicista. A educao profissional e tecnolgica deve ter o compromisso de formar indivduos empreendedores, autnomos, com esprito investigativo e aptos a continuar aprendendo.

11.2.2 Modelo de formao por competncia e as diretrizes curriculares nacionais para a Educao Profissional e TecnolgicaIniciaremos nossas discusses neste tpico a partir desse questionamento: Como formar indivduos na atualidade diante da sociedade intensiva do conhecimento? Entre outras possibilidades, acreditamos que seja indispensvel a formao de indivduos competentes. Mas, de fato, o que competncia? Por muito tempo, acreditou-se que a palavra competncia fosse de cunho neoliberal, e essa representao ainda prevalece em muitos meios acadmicos. Propomos aqui uma discusso do termo e uma (re)ssignificao do mesmo para nos aproximar do conceito que consideramos mais apropriado. O conceito de competncia profissional expresso nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educao Profissional de Nvel Tcnico (Parecer 16/99) refere-se ao termo competncia como sendo a capacidade de articular, mobilizar e colocar em ao valores, conhecimentos e habilidades necessrios para o desempenho de atividades requeridas no trabalho (MEC, 1999). Assim, competncia envolve os conhecimentos conceituais, procedimentais e atitudinais. No entanto, nesse processo, o papel do professor fundamental, pois 264 para se ensinar por competncia fundamental que ele tenha vivenciado um processo formativo baseado nesse modelo. Isso implica profundas mudanas nos cursos de formao de professores, pois

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No se pode falar em desenvolvimento de competncias em busca da polivalncia e da identidade profissional se o mediador mais importante desse processo, o docente, no estiver adequadamente preparado para essa ao educativa (MEC, Parecer 16/99, p. 47).

O conceito de competncia vai alm de determinar a capacidade intelectual do indivduo. Ser competente ter uma viso sistmica relacionada a todas as reas de vivncia e atuao. Segundo Morin (2005), a organizao em sistema produz qualidades ou propriedades desconhecidas das partes concebidas isoladamente. Dessa forma, ao pensarmos na organizao do trabalho pedaggico na educao profissional e tecnolgica, no podemos reduzi-la ou simplific-la a somente dar aulas. O cotidiano escolar, assim como a vida, efmero e hbrido. No espao pedaggico h implicaes polticas, sociais, econmicas e subjetivas. Como vimos, a funo social da escola vai alm de qualificar mo de obra para o mercado capitalista. Para cumprirmos a nossa funo social, cabe a ns refletirmos sobre a nossa atuao e discutirmos qual a viso de homem e de sociedade que temos e a que queremos. Para desenvolver um trabalho pedaggico baseado em competncias, algumas estratgias pedaggicas podem ser utilizadas, como: adoo do mtodo de ensino orientado por projetos; prtica profissional centrada em trabalhos de laboratrio e oficinas; realizao de pesquisas como instrumento de aprendizagem; utilizao das novas tecnologias de informao; realizao de visitas tcnicas a empresas e instituies do setor produtivo; promoo de eventos; realizao de estudos de caso; promoo do trabalho em equipe.

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As estratgias apresentam possibilidades para que o professor possa organizar o trabalho pedaggico de forma que alcance o desenvolvimento de competncias.

11.3 PERFIL DOCENTE PARA A EDUCAO PROFISSIONAL E TECNOLGICA,