Portugal, anos 60: crescimento económico acelerado e papel ... ?· Portugal, anos 60: crescimento ...…

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<ul><li><p>E d g a r R o c h a Anlise Social, VOL. XIII (51), 1977 - 3., 593-617</p><p>Portugal, anos 60:crescimento econmico aceleradoe papel das relaes com as colnias</p><p>INTRODUO</p><p>O estudo da dcada passada crucial para a compreensoda evoluo recente da sociedade portuguesa. Industrializao,acelerao do crescimento econmico, emigrao macia e guerracolonial so as principais caractersticas desse perodo. Um dosaspectos interessantes desta situao o facto de que Portugal,pas pequeno e relativamente pouco desenvolvido, conseguiu supor-tar os custos da guerra, e mesmo assim apresentou taxas de cresci-mento relativamente elevadas.</p><p>Assim, a principal questo que o presente texto trata aseguinte: como se explica que Portugal tenha apresentado altastaxas de crescimento durante a dcada de 60, apesar das despesasinerentes guerra colonial? Ser tal situao explicvel pelaprpria explorao colonial? Tentar-se- mostrar que as relaesestritamente econmicas com as colnias no permitem explicarcabalmente a acelerao de crescimento que se verificou no perodoem anlise; e que certas alteraes na estrutura da produoe do consumo tiveram provavelmente um papel mais importante.</p><p>Seco 1: CARACTERIZAO GERAL DO CRESCIMENTOECONMICO EM PORTUGAL NOS ANOS 60</p><p>1. Embora os dados da contabilidade nacional publicados peloI. N. E. no cubram toda a dcada de 50, sabido que este perodo caracterizado por um crescimento relativamente lento, quandocomparado com a dcada de 60. O quadro n. 1 apresenta os dadosdisponveis, sendo claro que os anos 60 evidenciam uma aceleraodo ritmo de crescimento econmico.</p><p>A anlise da parte B do quadro n. 1 sugere que a aceleraodo crescimento teve de facto incio em 1959. No entanto, devidoa existirem compilaes de sries estatsticas para 1960-70, sereste perodo que analisaremos em maior detalhe1.</p><p>1 Cf. I. N. E., Estatsticas para o Planeamento 1960-70, Lisboa, 1972. 593</p></li><li><p>Produto nacional bruto ao custo dos factores, preosconstantes</p><p>[QUADRO N. 1]</p><p>A Taxas de crescimento mdio anual:</p><p>1955-60 4,71956-58 3,31960-70 6,1</p><p>B Taxas de crescimento anual:</p><p>1956 361977 351958 301959 531960 %$1961 4,91962 6,21963 6,11964 7,11965 7,41966 3,61967 7,41968 7,71969 3,11970 7,2</p><p>Nota At 1960 (inclusive) foram usados dados a preos de1958; para o perodo 1960 (inclusive)-70 foram usados dados apreos de 1963.</p><p>Fonte: OECD, National Accounts Statistics, 1955-64 e 1960-70.</p><p>2. A dcada de 60 est associada no s com uma aceleraodo ritmo de crescimento econmico, mas tambm com a ocorrnciade importantes alteraes ao nvel da estrutura econmica.Os quadros n.os 2 e 3 resumem alguns dados sobre esta questo.Por a se pode ver que o sector primrio perdeu posio, tantoem termos da sua contribuio para o PNB, como em termos dapercentagem da populao activa que ocupa; e o sector industrialtornou-se predominante em ambos os aspectos. Alm disso, dentroda indstria transformadora, os ramos que mais se expandiramforam os que caracterizam a implantao dum sector industrialmoderno (metalrgicas de base, qumicas, produtos metlicos,mquinas, equipamento de transporte), e no os de tipo mais oumenos tradicional (como alimentao ou txteis). De notar, noentanto, que, em termos de contribuio para o aumento do valoracrescentado entre 1960 e 1970, os ramos industriais dos txteis,vesturio e calado tm ainda uma posio muito importante.</p><p> tambm durante este perodo que a integrao da economiaportuguesa na economia internacional se acentua, quer atravsdo aumento da importncia relativa das importaes e exportaes,quer atravs do aumento substancial das entradas de capital pri-vado estrangeiro a mdio e longo prazo.</p><p>As migraes populacionais foram outra caracterstica impor-594 tante do perodo em anlise. Na dcada passada, a emigrao</p></li><li><p>Crescimento do produto nacional bruto ao custo dos factores no perodo1960-70, a preos de 1963</p><p>[QUADRO N.o 2]</p><p>A Estrutura do crescimento do PNBcf</p><p>Agricultura, silvicultura, caa, pescaIndstrias extractivasIndstrias transformadorasElectricidade, gs, guaConstruoServios</p><p>PNBcf</p><p>Taxasde crescimento</p><p>mdio anual</p><p>Participaono aumento do valor</p><p>acrescentado(percentagem)</p><p>5,20,3</p><p>47,24,06,2</p><p>37,1</p><p>100,0</p><p>B Discriminao do sector indstrias transformadoras</p><p>Alimentao, bebidas, tabacoTxteis, vesturio, caladoIndstrias da madeiraPapel, tipografiaIndstrias qumicasMinerais no metlicosMetalrgicas de baseProdutos metlicos, mquinas, material</p><p>de transporteOutras indstrias transformadoras ...</p><p>Total nas indstrias transformadoras</p><p>Taxasde crescimentomdio anual</p><p>Participaono aumento do valor</p><p>acrescentado(percentagem)</p><p>100,0</p><p>Fonte: I. N. E., Estatsticas para o Planeamento 1960-70, Lisboa, 1972.</p><p>duplicou em relao dcada de 50; atingiu cerca de 10 % dapopulao residente em 1960 e teve como resultado o decrscimopopulacional verificado em 17 dos 22 distritos do continente eIlhas Adjacentes. A concentrao populacional num nmero res-trito de distritos industrializados aumentou ainda mais: em 1970,cerca de % da populao vivia nos distritos de Lisboa e Porto.</p><p>Assim, e dum modo geral, pode-se dizer que a dcada de 60foi um perodo de crescimento econmico rpido e de importantesalteraes na estrutura produtiva, com importncia crescente daindstria em relao agricultura e dos ramos industriais modernosem relao aos ramos tradicionais e indstria ligeira.</p><p>3. A partir de 1961, com o incio da guerra colonial, as despesasmilitares tornaram-se um peso crescente para a economia nacional.O quadro n. 4 apresenta alguns dados fornecidos pela contabilidade 595</p></li><li><p>Alguns indicadores comparando 1960 e 1970 e os perodos 1951-60 e 1961-70</p><p>[QUADRO N.o 3]</p><p>1. Estrutura da populao activa (percentagem)(a):AgriculturaIndstriaServiosActividades mal definidas</p><p>2. Estrutura do PNBcf, preos de 1963 (percenta-gem):</p><p>AgriculturaIndstriaServios</p><p>3. Importaes e exportaes em percentagem doPIBpm, preos correntes:</p><p>ImportaesExportaesImportaes + exportaes</p><p>4. Fluxos de capital privado a mdio e longo prazo(milhares de contos):</p><p>Entradas no Pas TotalEntradas no Pas Montante lquido ...</p><p>5. Emigrao:Expressa em percentagem da populao</p><p>total no princpio de cada dcada (b) ...Expressa em percentagem da populao</p><p>activa no princpio de cada dcada (b) ...</p><p>1960</p><p>42,227,826,83,2</p><p>25,136,638,3</p><p>21,813,134,9</p><p>1951-70</p><p>1,091616</p><p>43113</p><p>1970</p><p>30,132,030,07,9</p><p>16,345.937,8</p><p>24,414.538,9</p><p>1961-70</p><p>34,40415,302</p><p>10,4</p><p>28,6</p><p>(a) O contingente militar est includo na populao activa segundo a actividade exercidaanteriormente.</p><p>(b) Por populao no princpio de cada dcada entende-se a populao nos anos de 1950ou 1960, conforme o caso.</p><p>Fontes: I. N. E., Estatsticas para o Planeamento 1960-70, Lisboa, 1972, para 1, 2, 3 e 5;Banco de Portugal, Relatrio do Conselho de Administrao, 1951 a 1970, para 4; M. L. Mari-nho Antunes, A Emigrao Portuguesa desde 1950, Lisboa, 1973, para 5.</p><p>596</p><p>nacional e publicados pelo I. N. E. Os montantes apresentados,embora sejam j bastante importantes, so notveis pela suanormalidade: no perodo 1965-70, a percentagem das despesasde defesa no PNBcf teria sido em Portugal (7,7%) ligeiramenteinferior correspondente nos E. U. A. (8,1 %). Na realidade, asdespesas militares devem ter sido mais elevadas. Um valor daordem dos 120 milhes de contos para o perodo at 1970 temsido sugerido como sendo mais realista e elevaria as despesasmilitares para 10 % do PNBcf e 66 % das despesas do Estado.</p><p>De qualquer forma, mesmo aceitando os dados oficiais, claroque a guerra se tornou um peso muito grande para a economiaportuguesa nos anos 60, tanto em termos da parte do PNB absor-vida pelas despesas militares, como em termos da percentagem</p></li><li><p>Alguns indicadores sobre os custos da guerra</p><p>[QUADRO N.o 4]</p><p>A A despesa militar como percentagem mdia anual de:</p><p>PNBcf (preos correntes):1955-60 3,981961-70 7,55</p><p>Despesas do Estado (preos correntes):1955-60 25,7(a)1961-70 39,6</p><p>PNBcf (preos constantes):1955-60 4,0 (preos de 1958)1961-70 8,2 (preos de 1963)</p><p>B O contingente militar como percentagem da populao activa:</p><p>1960 0,71965 4,41970 6,2</p><p>(a) Apenas 1960.Fontes: OECD, National Accounts Statistics, 1955-64 e 1960-70, para A. I. N. E., Estatsticas</p><p>para o Planeamento 1960-70, Lisboa, 1972, para A e B.</p><p>da fora de trabalho desviada pelo contingente militar. Assim, umavez que uma parte importante dos recursos disponveis estavasendo afectada a usos no produtivos, constituindo portanto umalimitao ao investimento e/ou ao consumo, poder-se-ia esperarum efeito negativo sobre o crescimento econmico.</p><p>Seria bastante complexo estudar aquilo que teria acontecidona ausncia de guerra colonial. No entanto, um aspecto importanteressalta da anlise do quadro n. 1: a economia portuguesa con-seguiu acelerar o seu crescimento, apesar da guerra colonial.Uma possvel explicao para este facto consistiria em associara determinao poltica com que o regime prosseguiu na manu-teno das colnias e o papel destas no crescimento econmico doPas. Neste caso, a explorao colonial seria a varivel explicativafundamental para a performance econmica da dcada de 60.Esta questo analisada com algum detalhe nas seces seguintes.</p><p>Seco 2: ANALISE DAS IMPORTAES PROVENIENTESDAS COLNIAS</p><p>1. Para analisar o papel das colnias no processo de cresci-mento econmico portugus nos anos 60 necessrio estudara estrutura e as tendncias fundamentais das relaes econmicasestabelecidas, o que se procura fazer nas seces 2 a 4. O objectodo estudo o conjunto das colnias portuguesas; mas o caso de 597</p></li><li><p>Angola tomado como exemplo representativo sempre que setorne necessria anlise mais detalhada2.</p><p>Para que as colnias fossem consideradas elemento funda-mental explicativo do crescimento econmico nacional teriam deconstituir:</p><p>Fonte de matrias-primas a preos privilegiados;Mercado importante para os mercados mais dinmicos da</p><p>economia portuguesa;Fonte de recursos financeiros e de divisas.</p><p>2. O comrcio de mercadorias um elemento central na anlisedeste tpico. O quadro n. 5 apresenta alguns dados sumriossobre as importaes e exportaes portuguesas. As importaesdo estrangeiro cresceram mais rapidamente do que as provenientesdas colnias, principalmente durante a dcada passada. Por outrolado, as exportaes para as colnias cresceram ligeiramente maisdepressa do que as para o estrangeiro durante a dcada de 50;mas a diferena tornou-se insignificante ao longo da dcadaseguinte. Alm disso, a parte das colnias no comrcio externoportugus importante, mas no dominante: 25 %-26 % dasexportaes, 16 %-12 % das importaes.</p><p>Portanto, de um modo geral, e a um nvel ainda muito agre-gado, o quadro sugere que o comrcio colonial portugus foi per-dendo importncia ao longo dos anos 60. Mas uma anlise maisdetalhada torna-se necessria para dar contedo a esta afirmao.O caso de Angola ser utilizado para esse efeito.</p><p>3. Comeando a anlise pelo lado das importaes, foi seleccio-nado um grupo de 8 produtos importantes que constituam maisde 60 % das importaes portuguesas provenientes de Angola.A parte A do quadro n. 6 apresenta a lista dos referidos produtos.A principal caracterstica comum o serem produtos primriosque no passaram por qualquer processo de transformao indus-trial (a farinha de peixe a nica excepo, mas o processoindustrial respectivo de tipo bastante elementar).</p><p>Do ponto de vista da economia portuguesa, o que interessaestudar a funo econmica dos referidos produtos, uma vezimportados. E, a este respeito, um aspecto essencial ressalta:nenhum dos produtos est relacionado com qualquer ramo daindstria pesada em Portugal. Alguns desses produtos so consu-midos sem terem sofrido qualquer transformao industrial(bananas). Outros so objecto apenas de uma ligeira transformaoantes do seu consumo final (caf, milho e farinha de peixe).Outros ainda so matria-prima de indstrias relativamente maiscomplexas, embora consideradas ainda indstrias ligeiras (caf,leo de palma, tabaco, algodo-em-rama e sisal). Verifica-se (ver</p><p>2 Deve notar-se que, se, por um lado, razovel pensar-se que a estru-tura do comrcio colonial idntica em Angola e nas restantes colnias, poroutro lado, a restrio da anlise ao caso daquela colnia levanta alguns</p><p>598 problemas generalizao das concluses a que se possa chegar.</p></li><li><p>Estrutura do comrcio externo portugus</p><p>[QUADRO N. 5]</p><p>A Comrcio com as colnias em percentagem do comrcio total</p><p>Anos</p><p>195019601970</p><p>Importaesdas colnias</p><p>16,314311,5</p><p>Exportaespara as colnias</p><p>25,025,625,7</p><p> Taxas de crescimento mdio anual das importaese das exportaes</p><p>Importaes totais</p><p>Importaes das colnias ...Importaes do estrangeiro ...</p><p>Exportaes totais</p><p>Exportaes para as colnias ...Exportaes para o estrangeiro</p><p>C A parte de Angola no comrcio colonial portugus</p><p>Anos</p><p>1960-621964-661968-70</p><p>Importaes(a)</p><p>51,655,552,2</p><p>Exportaes(fc)</p><p>37,644,945,6</p><p>(a) Importaes de Angola em percentagem do total das importaes portuguesas das col-nias; no esto includas as importaes de diamantes de Angola.</p><p>(b) Exportaes para Angola em percentagem do total das exportaes portuguesas para ascolnias; no esto includas as exportaes de diamantes para a Gr-Bretanha.</p><p>Fonte: I. N. E., Estatsticas do Comrcio Externo, 1950, 1960 a 1962,1964 a 1966 e 1968 a 1970.</p><p>parte B do quadro n. 6) que, para todos os produtos que atra-vessam algum processo de transformao industrial, a parte dosprodutos importados de Angola no total utilizado de cada umdos referidos produtos importante. No entanto, para rela-cionar o comrcio colonial com o crescimento econmico em Por-tugal, necessrio estudar com mais detalhe aqueles produtosque servem de matria-prima para indstrias que tiveram umacontribuio significativa para o crescimento econmico portugus.</p><p>Dos 8 referidos produtos, apenas 3 esto relacionados comindstrias que deram uma contribuio importante para o aumentode produo verificado ao longo dos anos 60: leo de palma, algo-do-em-rama e sisal. Mas o leo de palma representa menos de 5 % 599</p></li><li><p>das matrias-primas utilizadas na indstria do sabo, uma inds-tria que uma pequena parte do conjunto da indstria qumica.E o mesmo argumento aplica-se ao sisal. A situao diferenteno que diz respeito ao algodo-em-rama: a indstria txtil doalgodo uma parte importante do conjunto da indstria txtile o algodo-em-rama a matria-prima principal. O algodo deAngola representa uma percentagem importante do total de algo-do-em-rama utilizado (25% em termos de quantidade). E a inds-tria txtil em Portugal, embora crescendo a um ritmo mais lentodo que o conjunto da indsria transformadora, teve uma parti-cipao significativa no aumento do valor acrescentado duranteo perodo em anlise (cf. parte B do quadro n. 2).</p><p>Independentemente de quaisquer diferenciais de preos (quesero analisados a seguir), de notar que o simples facto deserem provenientes das colnias percentagens importantes dasmatrias-primas utilizadas pela indstria portuguesa tem conse-quncias de relevo. O acesso aos produtos mais fcil do queseria se Portugal tivesse de competir com outros pases paraobter matrias-primas no mercado internacional. Esta situaono uma contribuio directa para o crescimento da indstriaportuguesa; mas tem como consequncia o relativo desapareci-mento de uma limitao potencial ao crescimento do lado dasfontes de matria-prima.</p><p>4. No entanto, se os preos pagos pela indstria portuguesapelas matrias-primas importadas das colni...</p></li></ul>

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