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  • Porqu comunicar?Nos dias de hoje a palavra cincia gera ideias que vo para alm do conhecimento relevante apenas para os que habitam os laboratrios e as universidades. Efectivamente, a cincia e a tecnologia fazem parte integrante das sociedades modernas: o progresso econmico e o bem estar de uma nao dependem do conhecimento adquirido pela cincia e da sua aplicao na tecnologia. Mais ainda, o conhecimento cientfico necessrio para muitas decises do dia a dia e para uma melhor compreenso do mundo que nos rodeia: desde os medicamentos que tomamos, ao modelo do telmovel que decidimos comprar. O exerccio da cidadania e a eficincia do processo democrtico dependem largamente de um melhor conhecimento, por parte dos cidados, de temas relacionados com a cincia e a tecnologia, que muitas vezes esto na base de diversas decises polticas. O efeito de estufa, a utilizao de organismos geneticamente modificados, a investigao com clulas estaminais humanas, as tecnologias de vigilncia pblica, so exemplos de controvrsias de base cientfica que tm repercusses na sociedade e que requerem uma maior compreenso por parte do pblico, para tornar possvel um debate mais produtivo.

    J no faz sentido pensar-se na promoo da cultura cientfica e tecnolgica dos cidados sem a contribuio da comunidade cientfica. Cada vez mais defendido que a comunidade cientfica tem o dever de manter a sociedade informada do seu trabalho e de discutir as implicaes da sua investigao. A verdade que apenas deste modo os cientistas podero desempenhar um papel activo na sociedade. Obrigaes de comunicao j foram incorporadas nas propostas de financiamento de projectos cientficos em vrios pases e tambm pela Comisso Europeia. A capacidade de dilogo com o pblico poder ter consequncias muito importantes para o percurso da Cincia no futuro, nomeadamente nas decises legislativas sobre as reas de investigao cientfica e o seu financiamento. Alm do mais, um melhor dilogo entre cientistas e o pblico incentivar e entusiasmar mais jovens a interessarem-se pela cincia. Por tudo isto, agora mais do que nunca, a comunidade cientfica deve ser activa e competente na comunicao e na discusso do conhecimento cientfico, tanto com o pblico em geral, como com os meios de comunicao social.

    A comunicao social tem um papel extremamente importante na divulgao, discusso e popularizao da Cincia. Vrias vezes os jornalistas e cientistas procuram colaborar no debate e na discusso de assuntos cientficos,

  • em especial quando estes so controversos. Contudo, bastante comum que ambas as partes fiquem descontentes com o produto final destas colaboraes: os jornalistas protestam por considerarem que os cientistas no se esforam para explicar a sua cincia; os cientistas ficam desapontados com a superficialidade com que explicada a sua investigao. Por estas razes, cada vez mais importante que cientistas e jornalistas compreendam o modo de funcionamento dos seus meios de trabalho. Os cientistas devem aprender como comunicar efectivamente com os jornalistas. Por outro lado, os jornalistas devero tambm procurar entender a natureza e as limitaes do trabalho cientfico.

  • Comunicar com os mediaE. F. Shaw escreveu em 1979 que em consequncia da aco dos jornais, da televiso e dos outros meios de informao, o pblico sabe ou ignora, presta ateno ou descura, reala ou negligencia elementos especficos dos cenrios pblicos. O que no noticiado no existe para a generalidade dos cidados. Apenas o que noticiado a realidade.

    Conseguir colocar uma notcia num alinhamento televisivo, radiofnico ou num jornal , por isso, o desafio de muitas agncias de informao e assessorias de imprensa espalhadas pelo Pas. A colocao de uma informao cientfica nesse alinhamento noticioso depende muito da atitude das fontes e do seu conhecimento sobre os mecanismos que gerem a actualidade noticiosa. preciso perceber o funcionamento dos media (rdio, televiso, jornais, revistas, etc.) e o que d valor a uma notcia. Ao jornalista interessa tudo o que novo. notcia o que sai da normalidade e que provoca uma brecha na rotina (da a ideia que os jornalistas s noticiam o que mau). H ainda regras e valores pelos quais se norteiam os jornalistas que os levam a seleccionar umas notcias em detrimento de outras e que convm ter presentes quando se pretende ter uma atitude pro-activa relativamente aos media.

    O que faz uma notcia atraente? Quanto ao contedo:

    -grau e nvel hierrquico dos indivduos envolvidos no acontecimento noticivel;

    -impacto sobre o Pas e o interesse nacional;-quantidade de pessoas que o acontecimento envolve e a proximidade

    geogrfica;-relevncia do acontecimento quanto sua evoluo futura.

    Quanto ao produto noticioso:- a quantidade de materiais disponveis (se h boas imagens ou sons, se h declaraes bombsticas, etc...);

    -a qualidade da estria (a aco, o ritmo, clareza de linguagem).Quanto ao meio de comunicao:

    -a necessidade que um rgo de comunicao tem de alimentar um assunto que lanou;-a existncia de um enviado especial ou de uma operao informativa prpria.

  • Quanto ao pblico:-as notcias que permitem uma identificao do espectador;-as notcias ligeiras ou fait-divers;-o assunto do dia e aquele de que se fala.

    Quanto concorrncia:-notcias susceptveis de arrastar os outros rgos de comunicao.

    O fim da iluso: os jornalistas no tm controlo total na pea final!Os jornalistas tm eles prprios que lutar para vender os seus artigos. Independentemente do jornalista ter formao cientfica ou no, ter que convencer o editor do jornal/rdio a publicar esta notcia. O que gere a publicao nos media no um processo de peer-review mas sim as audincias. Sem audincias no h publicidade/viabilidade econmica. Este editor recebe tambm todas as outras notcias - escndalos polticos, problemas sociais, crimes. H uma autntica batalha pelo espao. A necessidade que o jornalista tem de convencer o editor a publicar a sua pea sobre cincia influencia-o forosamente na maneira como ele a escreve. Ele tem de a tornar interessante para a audincia. Por isso pense no jornalista como um parceiro. Ajude-o, fazendo a sua histria fcil de escrever/falar/filmar. D ao jornalista material que torne a pea atraente, fcil de perceber e de vender a um editor: fotografias ilustrativas, imagens de fundo interessantes (TV), frases fceis de perceber e que sumarizem a investigao, tornando-se boas citaes. Pode at dar material escrito, com citaes, que ajude o jornalista a perceber o assunto e lhe d ideias. Para um bom trabalho no preciso ser-se amigo dos jornalistas mas necessrio respeito mtuo e alguma confiana.

    Mesmo depois da pea estar finalizada pelo jornalista provavel que um editor modifique e corte o texto ou o ttulo, para que ela se torne mais interessante e se enquadre com as outras notcias e a audincia. Por esta razo, a pea final pode vir a ser muito diferente daquela feita pelo jornalista. Oferea-se para confirmar factos e detalhes, mas no exija ver a pea final, pois isso pode ser impossvel. Se lhe pedirem para confirmar factos e detalhes ou responder a outras questes no se esquea que as notcias no se compadecem do estudo aprofundado dos temas; quando estiver preparado j a notcia deixou de ser nova! Por isso, respeite os prazos dos jornalistas.

  • Comunicar com o PblicoAumentar a cultura cientfica dos cidados, como?Durante as ltimas duas dcadas tem-se desenvolvido na Europa um movimento concertado de promoo do aumento da cultura cientfica dos cidados. Tm sido identificados vrios actores deste movimento: os governos e as instituies a eles ligadas, a comunidade cientfica, o sistema educativo (formal e informal), os museus de cincia e os centros de cincia, os media, a indstria e o sector privado. No Reino Unido, onde este movimento tem sido bem documentado, a publicao do relatrio The Public Understanding of Science (PUS), pela Royal Society em 1985, muitas vezes referido como marcando o incio deste processo. Este relatrio, que ficou conhecido como o Bodmer Report (Sir Walter Bodmer foi o coordenador do grupo de trabalho), atribui aos cientistas grandes responsabilidades em aumentar a cultura cientfica do pblico os cientistas foram incentivados a estar disponveis para comunicar com o pblico e considerar seu dever faz-lo.

    Desde a publicao do Bodmer Report tem havido um crescimento extraordinrio, em toda a Europa, na variedade e quantidade de actividades que fazem a ponte entre a comunidade cientfica e o pblico. Estas actividades recorrem aos media, a seminrios e conferncias, aos museus e a centros de actividades como mediadores da informao. Subjacente a muitas destas actividades est a vontade de aumentar o interesse na cincia e a valorizao da cincia por parte do pblico, atravs do aumento dos seus conhecimentos de cincia. Esta linha de pensamento baseia-se em sondagens europeias que revelam baixo conhecimento de cincia e falta de interesse em assuntos cientfico-tecnolgicos. Os cientistas envolvidos em PUS assumem que o problema da falta de interesse pela cincia assenta na existncia de um pblico com parcos conhecimentos cientficos, mas com vontade de aprender. O papel desses investigadores seria assim de transmitir uma cincia parcialmente digerida, atravs dos media, dos livros de divulgao cientfica, de seminrios e museus. Esta viso pedaggica, de cima para baixo, foi chamada de deficit model (modelo do dfice cognitivo) e a sua eficcia tem sido questionada. Este modelo ignora de sobremaneira vrios pontos que agora so considerados muito importantes. Para comear, ignora a existncia de diferentes pblicos que se apercebem e lidam com os vrios factos de modo inteiramente diferente. Em segundo lugar ignora que uma coleco de factos cientficos no ajuda os cidados, na sua vida do dia-a-dia, a compreender temas actuais e controvrsias cientficas. E por fim, ignora e

  • retira a possibilidade destes mesmos pblicos virem a ter uma opinio que possa tambm ser ou