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PR O CINEMA A PENSAR DE DENTRO:A PROGRAMAO CINEMATOGRFICA

COMO HIPTESE

Ins Sapeta Dias

___________________________________________________

Trabalho de Projecto

Mestrado em Cincias da Comunicao

MARO 2010

Trabalho de Projecto apresentado para cumprimento dos requisitos necessrios

obteno do grau de Mestre em Cincias da Comunicao realizado sob a orientao

cientfica de Joo Mrio Grilo

TRABALHO DE PROJECTO

Pr o cinema a pensar de dentro: a programao cinematogrfica como hiptese

RESUMO Partindo da elaborao concreta de uma programao de cinema, este trabalho

de projecto organiza o esquema de reflexo que permitir constituir a programao

cinematogrfica como instrumento terico, como exposio de um pensamento de

cinema, atravs do prprio cinema. O objecto escolhido para essa elaborao especfica

(que ocupar a primeira parte deste trabalho) a materialidade cinematogrfica,

escolhido por colocar de forma radical um problema fundamental em causa na

programao: como mostrar, atravs da escolha e articulao de filmes, um problema

terico e abstracto, por natureza invisvel? O desenvolvimento de um plano de trabalho

a ser cumprido ao longo de estudos doutorais (na segunda parte) ser a organizao dos

problemas que a construo dessa programao de cinema revelou.

PALAVRAS-CHAVE programao, materialidade, imagem, cinema

WORK PROJECT

To make cinema think from within: the hypothesis of cinema programming

ABSTRACT Starting with the elaboration of a specific cinema program, this work project

organizes the scheme of thought necessary to conceive the concept of cinema

programming, and to develop it as a theoretical instrument. It will be seen how cinema

programming can be a cinema-thought, created from within cinema itself. The object for

this specific program (that constitutes the first section of this work) is cinematographic

materiality, chosen because it underlines a basic problem for the programming activity:

how can we show, by choosing and combining films, a theoretical and abstract problem,

invisible by nature? The elaboration of a work plan for doctorate studies (in the second

section) constitutes the organization of the problems revealed by that specific cinema

program.

KEYWORDS programming, material, image, cinema

NDICE

Introduo............................................................................................................ 1

Parte Ia construo de uma programao de cinema.................................................... 3

I. Constituio do objecto

materialidade e imagem invisvel ................................................................ 3

II. Programao

cinema pobre, cinema bruto: a materialidade do cinema ..........................25

Parte IIplano de estudos para um projecto de doutoramento ...................................... 32

I. Objectivos e resumo do plano de trabalho ............................................ 34

II. Constituio histrica do problema....................................................... 35

III. Plano de Trabalho................................................................................. 43

Concluso .......................................................................................................... 57

Bibliografia I

leituras exploratrias para cada ponto do plano de trabalho ........................... 58

Bibliografia .................................................................................................... 70

1

INTRODUO

A inscrio no mestrado de Comunicao e Artes foi instigada por um

problema que, nos ltimos anos, tinha vindo a crescer em volume e complexidade,

tornando-se cada vez mais difcil de pensar (pelo menos sem orientao ou companhia).

Parecia que quanto mais fundo se tentava ir, quanto mais perto se pensava estar dos seus

contornos, das suas fundaes, mais ele fugia; cada ponto final provocava novos e

crescentes pontos de interrogao.

O problema continuou contudo a alimentar-se nas reflexes que incorporaram o

primeiro ano deste mestrado. E no sem frustrao, que se apresenta como trabalho

final deste mestrado, um projecto que se pretende desenvolver ao longo de estudos

doutorais.

Este trabalho de projecto provocado por uma prtica continuada de

programao cinematogrfica, e pela percepo gradual de que colocar filmes lado a

lado constitui um objecto preciso, com consequncias para o cinema, e para a reflexo

terica que sobre ele se debrua. Em cada programao cinematogrfica construda se

percebia com cada vez maior clareza que uma apresentao de cinema um pensamento

de cinema, mecanismo atravs do qual cada filme provoca leituras no filme que o

antecede ou sucede (tal como os planos dentro de um s filme) e que actualiza um

trabalho especfico encetado pelo prprio cinema. O problema foi aumentando de

propores quando se percebeu que, para ser pensado, teriam de ser tocados os ncleos

fundamentais da teoria do cinema, at ao ponto de ser preciso voltar a pensar que

objecto esse e que formas existem para o pensar.

Decidiu-se simular aqui o percurso que levou ao encontro com o terreno de

reflexo provocado pela programao cinematogrfica. por isso que se comea, na

primeira parte, com a construo de uma programao concreta, desde a escolha do

objecto at articulao de filmes que o apresentam. O objecto dessa elaborao

especfica a materialidade cinematogrfica, escolhido por colocar, de forma drstica,

um dos problemas fundamentais em causa na prtica de programao. Programar,

articular e mostrar filmes lado a lado, exige no s encontrar e pensar um conceito, mas

tambm pensar como que esse conceito pode ser exposto. E uma vez que o cinema se

d a ver como imagem, tentar encontrar a sua materialidade torna-se, por um lado, um

desafio terico o que haver no cinema para l daquilo que pode ser visto? e, por

2

outro, um problema concreto como mostrar, atravs de uma srie de filmes, aquilo que

normalmente est invisvel, no cinema? A primeira parte deste trabalho ser, assim, a

descrio do processo que levou descoberta do que ser a materialidade no cinema, at

definio do seu modo de exposio. Ou, dito de outro modo, ser pensar o circuito

que leva a que o cinema se mostre, circuito que se estabelece entre o seu corpo, o seu

mecanismo ou medium e a sua imagem.

A segunda parte deste trabalho parte desta construo especfica e retira dela os

problemas necessrios para pensar a programao cinematogrfica como instrumento

terico. O seu corpo ser constitudo por um plano de trabalho onde se enumeram os

pontos em que se pressente, hoje, ser necessrio parar para constituir a programao

como essa hiptese, aquela onde o cinema poder ser posto a pensar, atravs dos seus

prprios mecanismos, construindo uma ponte entre o trabalho do cinema e o trabalho

que acontece quando ele posto a aparecer - o realizador talvez seja aquele que prepara

uma plataforma, feita de planos, e momentos de aco, e de corte, por onde as coisas do

mundo correm e acontecem cinematograficamente; o programador talvez seja aquele

que prepara a matriz flmica feita de filmes, e de uma intermitncia em cada projeco

e entre projeces - para que o cinema possa acontecer por si, apresentando-se em

pensamento.

3

PARTE Ia construo de uma programao de cinema

O percurso comea com o desenho dos contornos do objecto que depois ser

levado a aparecer com a articulao dos filmes, na programao final. Comea com a

documentao da reflexo que leva ao encontro e definio desse objecto, e que estar

invisvel na apresentao final, aparecendo apenas como ponto, vrtice visvel de uma

pirmide mais larga e subterrnea. Digamos que o que se far em seguida pensar alto

nica forma de documentar um trabalho que acontece quase todo na cabea.

I. constituio do objecto: materialidade e imagem invisvel

No ensaio Montagem, de 1938, Sergei Eisenstein faz uma distino entre

imagem e representao para melhor explicar como se deve processar a montagem

cinematogrfica, criadora de imagens.

Suponhamos um crculo branco de dimetro mdio e de superfcielisa, cuja circunferncia esteja dividida em sessenta graduaesequidistantes. Algarismos de um a doze inclusive situam-se aps cadagrupo de cinco graduaes. Fixaram-se ao centro duas placas metlicasque giram roda das respectivas extremidades, sendo a extremidade livreem ponta: uma das placas de dimenso igual ao raio, a outra um poucomais curta. Estando a ponta de placa maior pendurada no nmero doze evindo a mais pequena deter-se sucessivamente sobre os nmeros um, dois,trs, etc., at ao nmero doze inclusive, obteremos uma srie derepresentaes geomtricas sucessivas, visto que as duas placas metlicasformam sucessivamente uma em relao outra, ngulos de 30, 60, 90,etc., at 360 inclusive. Mas se o crculo em questo estiver munido de ummecanismo para fazer avanar regularmente as placas metlicas, a figurageomtrica que se forma superfcie reveste um sentido particular: j no somente uma representao; , agora, uma imagem do tempo.1

A montagem , para Eisenstein, aquilo que, atravs da justaposio de

representaes, faz aparecer a imagem, no cinema. Quando olhamos para um crculo

munido de placas metlicas que se movem autnomas e compassadas, vemos um

relgio e