populismo no brasil de 1945 a 1964: as interpretações da ...des .estudos dos pensadores...

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    Populismo no Brasil de 1945 a 1964: as interpretaes da Escola de Sociologia da USP, do

    ISEB e do pensamento econmico liberal

    ResumoO pensamento social brasileiro procurou, ao longo do sculo passado, compreender os processos de mudana no pas, especialmente na relao entre o Estado e a sociedade. Este artigo procurou discutir as interpretaes sobre as manifestaes populistas no perodo de 1945 a 1964, oferecidas pela Escola de Sociologia da Universidade de So Paulo, pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros, e por representantes do pensamento econmico liberal. Foi possvel verificar que as contribuies estudadas afirmaram a relevncia dos estudos sobre o populismo para a compreenso da poltica brasileira no perodo de 1945 a 1964, como tambm ajudaram na propagao do debate sobre o fenmeno do populismo no mundo pblico. Entretanto, em razo dos pressupostos tericos diferentes que fundamentavam suas anlises, no foram capazes de contribuir para uma definio precisa do fenmeno aqui estudado.Palavras-chave: Populismo; Escola de Sociologia da Universidade de So Paulo; ISEB; pensamento econmico liberal.

    AbstractThe Brazilian social thought sought, throughout the past century, to understand the processes of change in the country, especially the relation between the State and the society. This article tried to discuss the interpretations on the populist manifestations during the period from 1945 to 1964, proposed by the School of Sociology of the University of So Paulo, by the Superior Institute of Brazilian Studies (ISEB), and by representatives of the liberal economic thought. It was possible to verify that the studied contributions pointed out the relevance of populism studies for better understanding Brazilian politics during the period from 1945 to 1964, as well as helped to spread the discussion about the phenomenon of populism in the public sphere. However, as a consequence of the distinct fundamentals through which different theoreticians based their analyses, they had not been able to accomplish to a precise definition of the phenomenon.Key words: Populism; School of Sociology of the University of So Paulo; ISEB; liberal economic thought.

    Leo Posternak1

    1 Bacharel e Mestre em Cincias Sociais pela PUC-Rio. E-mail: lposternak@gmail.com

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    Introduo

    A ao poltica de inmeros governos contemporneos tem sido chamada de populista. Este termo, acerca do qual estamos longe de ter um consenso nos estudos a ele relacionados nas Cincias Sociais, vem sendo usado, tanto pela literatura especializada, quanto pela sociedade, sem que possamos claramente conceitu-lo. Temos encontrado governos e polticos aos quais se tem chamado de populistas em uma grande variedade espacial e histrica. Pode-se dizer que no h uma conceituao acabada no objeto de estudo ao qual se tem denominado populismo, pois encontramos diferentes anlises no pensamento social brasileiro, marcadas por ocorrncias histricas, interpretaes, e ideologias distintas.

    A expresso populismo comeou a frequentar a agenda poltica na Rssia, no sculo dezenove. De acordo com Daniel Aaro Reis Filho (2007), o movimento populista na Rssia apresentou-se, em funo de diferentes circunstncias, de formas distintas. No entanto, haveria certo consenso em relao a algumas recorrncias bsicas que tm justificado atribuir o nome de populista a diversas prticas e pensamentos presentes na Rssia czarista daquele sculo. Os populistas abominavam o Estado czarista, e clamavam pela substituio da autocracia, emancipao dos camponeses e oprimidos da cidade, e pela superao das desigualdades caractersticas da sociedade russa. No fim do sculo dezenove a expresso populismo estava presente na agenda poltica dos Estados Unidos da Amrica. Surgiu a partir de um movimento que unia os fazendeiros do Sul e do Meio-Oeste em uma luta contra as modificaes introduzidas pelo forte desenvolvimento econmico trazido pelas ferrovias e pelas novas formas de comercializao que, ao diminuir o poder de barganha relativo dos fazendeiros, trouxe como consequncia uma deflao nos preos dos produtos agrcolas.

    Em sua anlise sobre as alteraes nas estruturas polticas, sociais e econmicas no Brasil, em funo do crescimento demogrfico, urbano e industrial, Michael Conniff (1981) afirma que, medida que a classe trabalhadora urbana crescia, suas aes no mais podiam ser totalmente controladas como era tradio na Repblica Velha. Lderes populares de diversos matizes convenciam os operrios a se unir aos sindicatos e s sociedades de ajuda mtua, com o objetivo de melhorar seus padres de vida. Era difcil, na dcada de 1920, manter a militncia, mas a difuso de associaes voluntrias no seio da classe trabalhadora era o pressgio de um importante incremento da presena das massas na vida pblica. Alguns membros da elite e setores da classe mdia enxergavam a necessidade de reformas e de programas para os mais necessitados. A importncia eleitoral da populao urbana reflete-se no fato de que os dois candidatos Presidncia, em 1930, prometiam reformas que eram apoiadas pelos eleitores urbanos, como temas relacionados ao trabalho, servio pblico, comrcio, e planejamento urbano.

    Conniff argumenta, ainda, que quando o populismo surgiu adotou propostas reformistas que atuavam como uma ponte entre as antigas tradies que marcavam os governos locais e os sistemas polticos do sculo vinte. O populismo chegou favorecendo

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    as eleies representativas, o intervencionismo e um sistema social orgnico, tendo a qualidade de olhar, tanto para o tradicional, quanto para o moderno. Os lderes populistas nem sempre estavam conscientes das fontes de sua inspirao, mas os costumes e tradies coloniais ofereciam legitimidade e aceitabilidade s suas propostas. Estas pareciam familiares e justas, ficando mais prximas de um consenso do que o conseguiram as ideologias importadas. Alm disso, para Conniff, o populismo prometia restaurar a sociedade holstica e autogovernada, que foi sendo substituda ao final do sculo dezenove. Isto fazia sentido para uma sociedade na qual havia um lugar para todos os indivduos, indistintamente da classe qual pertenciam. Ao contrrio do liberalismo, que parecia somente poder ser aproveitado pelos mais ricos, o populismo clamava por um Estado intervencionista que cuidaria de todos os indivduos, regularia as relaes econmicas, promoveria o bem-estar dos oprimidos, e traria justia social a todos. A fora do populismo provinha do fato de que ele reavivava costumes que ainda no haviam ficado esquecidos na memria popular. Evidentemente, os polticos populistas no poderiam recriar, no sculo vinte, as cidades coloniais; no entanto, trouxeram, evitando anacronismos, os elementos que puderam ser adaptados cidade grande. Combinaram uma ordem patrimonialista com as antigas tradies da autonomia municipal. Desta forma, o populismo prometia a restaurao da soberania ao povo e relaes harmoniosas com as autoridades nacionais. Conniff considera que a dificuldade em se caracterizar ideologicamente o populismo est no fato de que ele remetia a uma tradio claramente compreendida pela maioria das pessoas, sem necessidade de maiores elaboraes; em consequncia, o lder populista mantinha a f dos seus seguidores, mesmo quando suas metas falhavam, tendo em vista a promessa implcita de restaurao das tradies que se haviam perdido.

    Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a democracia representativa chega ao Brasil com a derrubada da ditadura Vargas, cercada de expectativas. As oligarquias j no mais podiam definir o sistema poltico em um ambiente de expanso do eleitorado e de existncia de partidos competitivos. Passa a haver uma disputa eleitoral real, cujo resultado no podia ser antecipado, como antes, por acordos oligrquicos. Estas mudanas eram mais sentidas nas reas urbanas. Nos grotes, a ao das oligarquias ainda se fazia sentir, mas sua influncia sobre os resultados finais perderam fora, e a imprevisibilidade passou a ser um fator presente nas eleies majoritrias. Neste novo contexto poltico, ganha impulso o fenmeno populista.

    No Brasil, podemos aceitar que foi no Estado de So Paulo onde a expresso populismo surgiu com significado poltico. Regina Sampaio (1982) descreve que Adhemar de Barros e seus partidrios usavam expresses associadas a este termo no sentido de alcanar o eleitorado paulista, conforme pode ser visto neste depoimento tomado pela autora: Todas as noites, s sete horas, [...] ele tinha aquela conversa de caboclo franco [...] falava errado at. Era uma novidade, nunca houve isso, foi da que surgiu o termo populismo (Sampaio, 1982:45). Nesta ocasio, comeou a surgir o mito Adhemar de Barros, que era composto pelo administrador empreendedor, mas com um absoluto desprezo pelas limitaes de

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    ordem financeira, ao lado do poltico identificado com o Estado e responsvel direto pela proteo aos humildes, que no tinham acesso s estruturas de poder.

    Embora a ao poltica de lideranas polticas no ps-1945 seja vista como responsvel pelo fortalecimento do populismo no Brasil, Jos Murilo de Carvalho (2002) aponta o governo do prefeito Pedro Ernesto, na dcada de 1930, no Distrito Federal, como o que deu os primeiros passos daquilo que se tem chamado de populismo. Ao procurar apoio na populao pobre das favelas, e ser o pioneiro na utilizao poltica do rdio em suas campanhas, o prefeito teria iniciado o que depois foi chamado de poltica populista no Brasil. Considero que o esforo para um melhor entendimento sobre o populismo no Brasil est ligado, e com grande aceitao na literatura a este tema relacionada, utilizao deste termo para o perodo de 1945 at 1964, ou seja, da redemocratizao do ps-guerra at o movimento militar de 1964. De acordo com Maria Celina DArajo (1992), o populismo visto, por uma maioria de cientistas polticos e historiadores, como um aspecto primordial da poltica brasileira no perodo ps-1945.

    Para Octavio Ianni (2004), uma das caracters