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  • Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Imprios Ibricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 1

    Nobilitao dos homens de negcio no Ultramar portugus: Pombal e os

    contratadores dos diamantes

    Jnia Ferreira FURTADO*

    Departamento de Histria

    Universidade Federal de Minas Gerais

    Este texto pretende discutir as possibilidades de ascenso dos homens de negcio no

    ultramar portugus a partir do estudo de caso dos dois contratadores dos diamantes, o

    sargento-mor Joo Fernandes de Oliveira e seu filho homnimo, o desembargador.1 A

    biografia dos dois permitir discutir as formas de nobilitao abertas aos homens de negcio a

    partir da insero deles nos negcios coloniais, especialmente aps a descoberta das Minas de

    ouro e diamantes na capitania de Minas Gerais no sculo XVIII. Era constante na poltica

    portuguesa, especialmente durante a poca pombalina, entregar negcios estratgicos do reino

    aos grandes homens comerciantes do imprio. Esses negcios, arrendados nas mos dos

    particulares, eram de interesse vital para a Coroa, mas os que os arrematavam tambm se

    enriqueciam e depois demandavam habilitao para adquirir nobreza. No caso dos Joo

    Fernandes, o enriquecimento do pai foi porta de acesso para a nobilitao do filho. Em torno

    de Pombal essa elite de homens de negcio se enobrecia e conduzia os negcios da Coroa,

    especialmente no ultramar. Como se ver, a trajetria individual destes dois homens foi,

    tambm em parte, reflexo da ascenso e do ocaso deste poderoso ministro.2

    Elites, mercancia e laos familiares

    Em 1778, quando o sargento-mor Joo Fernandes de Oliveira, contratador dos

    diamantes, redigiu seu testamento, deixou cinqenta mil ris a dez rapazes que provassem que

    fossem seus parentes at o terceiro grau e que estivessem dispostos a deixar o terro natal e

    * Professora Titular de Histria Moderna, Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Este artigo

    dedicado a Vitorino de Magalhes Godinho. 1 Ver: FURTADO, Jnia F. Contratadores de diamantes. In: Chica da Silva e o contratador dos diamantes: o

    outro lado do mito. So Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.73-102. 2 FURTADO, Jnia F. Disputas. In: Chica da Silva e o contratador dos diamantes: o outro lado do mito, p.225-

    243.

  • Jnia Ferreira Furtado

    2 Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Imprios Ibricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011

    assim poder prosperar e passar para o Brasil.3 Essa disposio final do sargento-mor

    exemplifica um sem nmero de casos de imigrantes do norte de Portugal que se dirigiram em

    massa para a regio das minas de ouro na primeira metade do sculo XVIII e ali encontraram

    inmeros caminhos para a ascenso social, especialmente por meio da mercncia. Era

    culminncia de um processo que o sargento-mor dera incio to logo e medida que seus

    negcios progrediram: ao longo de sua estada em Minas ajudou na vinda e protegeu vrios

    parentes seus, permitindo que estes tambm trilhassem o mesmo caminho que construa para

    si na capitania. O primeiro a chegar foi o primo Ventura Fernandes de Oliveira, que lhe

    prestou diversos servios. Este arrematou a cobrana dos dzimos na Vila do Carmo e, j

    prspero, recebeu a patente de tenente-coronel da Cavalaria de Mariana. Vieram tambm

    outros trs primos seus, um deles chamado Miguel Fernandes de Oliveira, que foi trabalhar

    numa fazenda de gado de sua propriedade, em Formiga. Outro foi Manuel Fernandes de

    Oliveira, a quem fazia emprstimos ou adiantamentos. Em retribuio aos favores prestados,

    Manuel batizou o prprio filho com o nome de Joo e ainda chamou o bem-sucedido primo

    para apadrinh-lo4 e o sargento-mor, em retribuio sua fidelidade e servio, em testamento,

    perdoou todas as dvidas contradas.

    A proteo que Joo Fernandes de Oliveira dispensou a familiares seus aponta para o

    fato de que as relaes mercantis muito frequentemente se assentavam em conexes

    familiares que misturavam os negcios com os laos de sangue. Afinal, no havia maior

    relao de amizade do que a que unia as pessoas de uma mesma famlia, por esta razo, era

    comum que as redes familiares e de negcio se intercruzassem, fazendo com que os laos de

    sangue e de amizade, estabelecidos na esfera privada, se reproduzissem na esfera mercantil.5

    Tambm aponta para a importncia do estabelecimento de redes,6 cadeias,

    7 bandos

    8 ou teias

    hierrquicas, como formas fundantes da sociabilidade da poca, e que se configuravam como

    mecanismo de identificao das elites, inclusive os comerciantes. Estas cadeias clientelares

    eram importantes mecanismos de identificao e de sociabilidade e se estendiam para alm-

    3 Arquivos Nacionais da Torre do Tombo (ANTT). Cartrios Notariais. Testamentos. Livro 300, f.30.

    4 FURTADO, Jnia F. Chica da Silva e o contratador dos diamantes, p.76.

    5 FURTADO, Jnia F. A interiorizao da metrpole. In: Homens de Negcio: a interiorizao da metrpole e do

    comrcio nas Minas setecentistas. So Paulo: Hucitec, 1999, p.57-72. (2. edio: 2006). 6 HESPANHA, Antnio M. e XAVIER, ngela. As redes clientelares. In: MATTOSO, Jos (Org). Histria de

    Portugal; o Antigo Regime. Lisboa: Editorial Estampa, 1993, v.4, p.381-393. 7 FURTADO, Jnia Ferreira. Fidalgos e lacaios. In: Homens de Negcio, p.29-86.

    8 FRAGOSO, Joo; BICALHO, Maria Fernanda e GOUVA, Maria de Ftima. (orgs.) O Antigo Regime nos

    trpicos: a dinmica imperial portuguesa (sculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2001.

  • Nobilitao dos homens de negcio no Ultramar portugus: Pombal e os contratadores dos diamantes

    Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Imprios Ibricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011 3

    mar, sendo fundamental na estruturao das corporaes de comerciantes que, a partir do

    reino, se espalhavam por todo o imprio portugus.9

    Sintoma da prosperidade que estes portugueses alcanaram no Novo Mundo, em

    particular nas Minas do Ouro, foi a composio da lista dos homens mais ricos da capitania,

    arrolada em 1756, a pedido do Conselho Ultramarino e que vem sendo estudada por Carla

    Almeida.10

    Neste particular, a autora salienta que os portugueses e ilhus compunham 90,7%

    do universo de 118 homens listados nas comarcas de Vila Rica e Rio das Mortes. Destes,

    77,9% eram oriundos do norte de Portugal, particularmente da provncia do Minho. Repetiam

    a saga de inmeros conterrneos que na mesma poca, deixavam aquela regio.11

    O sculo

    XVIII assistiu emigrao em direo as Minas Gerais de significativa parcela de homens do

    norte de Portugal, especialmente das provncias do Minho e do Douro. Vinham quase sempre

    solteiros, sendo que alguns poucos deixavam para trs a esposa, partindo em busca do sonho

    do Eldorado. Como salienta a autora, aqueles que se enriqueciam logo se casavam,

    estabelecendo a partir do matrimnio, muito freqentemente, conexes com as famlias da

    terra. Assim, enquanto a maioria dos homens ricos listados se casava tardiamente, a partir

    dos 30 anos, as esposas eram muito jovens, estando em geral entre 13 e 19 anos. A situao

    de enriquecimento e ascenso da classe mercantil no foi muito diferente na regio

    diamantina e os exemplos dos dois Joo Fernandes de Oliveira so paradigmticos das

    trajetrias de muitos que, como eles, oriundos de um ambiente rural no norte de Portugal, sem

    muitas perspectivas de vida, encontraram na regio mineradora as fontes e os mecanismos

    para a sua prosperidade. Em 1732, o secretrio do governo atestou a importncia das

    oportunidades abertas por este setor comercial, ao afirmar que o pas das Minas , e foi

    sempre, a capitania de todos os negcios.12

    Os contratadores dos diamantes

    A descoberta oficial dos diamantes data de 172913

    e, inicialmente, a mesma foi

    arrendada a particulares mediante a cobrana de altas taxas de capitao. No entanto, devido

    9 FURTADO, Jnia F. A interiorizao da metrpole. In: Homens de Negcio, , p.57-72.

    10 Arquivo Histrico Ultramarino (AHU). Manuscritos Avulsos de Minas Gerais (MAMG). Caixa 70, doc.41.

    11 ALMEIDA, Carla Maria Carvalho. Ricos e pobres em Minas Gerais: produo e hierarquizao social no

    mundo colonial, 1750-1822. Belo Horizonte: Argumentum, 2011. 12

    Arquivo Pblico Mineiro (APM). Seo Colonial (SC).35. Representao do secretrio das Minas ao rei,

    1732. 13

    H uma distncia de cerca de dez anos entre o incio da explorao sistemtica das pedras e o comunicado

    oficial da descoberta feito pelo governador em 1729. Ver: FURTADO, Jnia Ferreira. Saberes e Negcios: os

  • Jnia Ferreira Furtado

    4 Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Imprios Ibricos de Antigo Regime | Lisboa 18 a 21 de Maio de 2011

    ao decrscimo acentuado do valor do quilate no mercado mundial, a Coroa decidiu por proibir

    a produo de diamantes a partir de 1734. Quando, em 1739, as lavras foram reabertas, optou-

    se pelo sistema de contrato, a ser monopolizado por um nico arrematante ou por um

    consrcio de arrematantes.14

    A partir de 1740, foram celebrados seis contratos, tendo sido

    alguns deles renovados, estendendo-se assim o perodo de quatro anos originalmente

    estabelecido para cada um. O sargento-mor Joo Fernandes de Oliveira foi o primeiro

    contratador, em sociedade com Francisco Ferreira da Silva. Em 1744, arremata