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  • 1

    *Professora Pedagoga participante do Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE), SEED/PR. 2007. Orientanda da professora Janira Siqueira Camargo- Departamento de Teoria e Prtica da Educao (DTP/UEM, Maring). Co-orientanda da professora Ftima A. S. Francioli- FAFIPA/Paranava.

    POLTICAS PBLICAS PARA A EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS.

    Mrcia Rodrigues Neves Ceratti*

    INTRODUO

    Prope-se debater neste texto as Polticas Pblicas para a Educao de Jovens e

    Adultos, fazendo um recorte de algumas delas, consideradas mais relevantes. Parte-se da

    idia de que importante conhec-las para transitar no seu universo. neste horizonte que

    se procura revelar o contexto que so elaboradas e quais as intenes implcitas e explcitas

    contidas em seus textos.

    A histria da Educao de Jovens e Adultos (EJA) no Brasil de acordo com Soares

    (2001, p. 201) se insere nesse contexto: em meio sua desvalorizao e indiferena,

    convivemos com numerosas iniciativas e consolidao de propostas em seu mbito.

    Observa-se a atuao de movimentos sociais e populares em experincias educativas,

    destacando-se tambm a presena dos meios acadmicos. Estas iniciativas so

    caracterizadas por denso universo, atravessado por possibilidades e necessidades variadas

    em que o processo de alfabetizao e escolarizao no se completam.

    Pode-se dizer que pouco se fez no sentido de atender adultos que tentaram muitas

    vezes voltar para a escola, pois os programas voltados EJA no Brasil tornaram-se refns

    de uma situao que durante dcadas fez desse assunto um discurso poltico rentvel e

    desconectado de compromissos reais

    Nesse sentido Torres (1994 apud HADDAD 2001 p. 198) afirma que:

    As reformas educativas, na verdade, vm dando nfase aos aspectos econmicos

    e de controle administrativo. Importa mais a formao da mo-de-obra para o

    capital do que formao do cidado para a sociedade. Importa mais o ajuste

  • 2

    econmico dos sistemas escolares pblicos lgica neoliberal da reforma do

    estado do que o investimento social que a educao proporciona para a

    sociedade. As instncias centrais estabelecem os currculos e critrios mnimos de

    assimilao de contedos, assim como o sistema de avaliao tambm

    centralizado, e deixa muitas vezes para o jogo do mercado a melhoria da

    qualidade do ensino.

    O ANALFABETISMO NO BRASIL DE 1900 CONSTITUIO DE 1988

    Olhando um pouco mais atrs, observa-se que na dcada de 1940, comearam as

    primeiras iniciativas governamentais para lidar com o analfabetismo entre adultos (BRASIL,

    2006, p.26), o problema era encarado como falta de capacidade ou de vontade de quem o

    detm, dessa maneira seria necessrio para acelerar o crescimento econmico do pas

    tomar providncias relacionadas ao combate ao analfabetismo. Mesmo que escassas e

    descompromissadas iniciou-se medidas no combate ao analfabetismo. Observando o

    quadro 1 nota-se a evoluo do analfabetismo no ltimo sculo.

    Quadro 1 Analfabetismo na faixa de 15 anos ou mais - Brasil - 1900/2000

    Populao de 15 anos ou mais Analfabeta

    Ano Total Analfabeta Taxa de Analfabetismo

    1900 9.728 6.348 65,3

    1920 17.564 11.409 65,0

    1940 23.648 13.269 56,1

    1950 30.188 15.272 50,6

    1960 40.233 15.964 39,7

    1970 53.633 18.100 33,7

    1980 74.600 19.356 25,9

    1991 94.891 18.682 19,7

    2000 119.533 16.295 13,6

    Fonte: BRASIL, 2000.

    Obs: (1) Em milhares

    (2) Em porcentagem

  • 3

    O pas estava em desenvolvimento na dcada de 1950 e o adulto analfabeto no

    tinha o direito ao voto. Dessa forma a alfabetizao de adultos teve o propsito de

    transformar o analfabeto em um eleitor em potencial.

    O mesmo documento cita que no comeo da dcada de 1960 as inquietaes e

    preocupaes de Paulo Freire1 encontraram na conjuntura do pas um espao favorvel

    para o desenvolvimento de prticas sistemticas que pudessem possibilitar s massas

    populares as condies para sua alfabetizao, pois nesse perodo o analfabetismo era

    encarado como conseqncia da misria e da desigualdade social. A educao passou a

    ser entendida como um ato poltico (BRASIL, 2006 p. 26).

    A alfabetizao propriamente dita era compreendida por Paulo Freire (apud MOURA,

    2006), muito mais do que como simples domnio psicolgico e mecnico das tcnicas de

    leitura e escrita, e sim como a formao de uma atitude de criao e recriao. Por isso, ela

    devia partir de situaes concretas e se realizar por meio do dilogo. Os contedos seriam

    de situaes da vida dos educandos, traduzidos em palavras geradoras para a

    alfabetizao e temas geradores para a ps-alfabetizao. Nesse sentido esclarece Moura

    (2006, p. 52):

    Selecionadas as palavras geradoras, criavam-se situaes nas quais elas eram

    colocadas em ordem crescente de dificuldades fonticas. O debate em torno das

    palavras selecionadas e codificadas, ao tempo em que levava os grupos a se

    conscientizarem e paralelamente se alfabetizassem, era precedido de ampla

    discusso dos alfabetizandos.

    Desta forma, Freire (apud MOURA, 2006), combate a concepo ingnua da

    pedagogia que se cr motor ou alavanca da transformao social e poltica. Combate

    igualmente a concepo oposta, o pessimismo sociolgico, que consiste em dizer que

    1 Paulo Freire, educador pernambucano, nasceu em 1921 e morreu em 1997. Durante a ditadura, foi exilado e

    passou 16 anos fora do Brasil morando no Chile, Estados Unidos e Suia. Tornou-se conhecido e respeitado, em todo o mundo, por suas idias expostas em livros, como: Educao como Prtica da Liberdade, Pedagogia do Oprimido e outros mais. Inspirou trabalhos de educao junto aos povos pobres de todos os cantos do mundo. No Brasil, suas idias esto presentes principalmente na educao de jovens e adultos. Dedicou toda sua vida ao sonho de ajudar a construir uma sociedade justa e democrtica em que homens e mulheres no fossem mais vtimas da opresso e da excluso (BRASIL, 2006).

  • 4

    a educao reproduz mecanicamente a sociedade. Acrescente-se, porm, que embora ele

    no separa o ato pedaggico do poltico, mas tambm no os confunde. Ele tenta

    aprofundar e compreender o pedaggico da ao poltica e o poltico da ao pedaggica,

    reconhecendo que a educao essencialmente um ato de conhecimento e de

    conscientizao e que, por si s, no leva uma sociedade a se libertar da opresso.

    De acordo com Moura (2006), o golpe de 1964 representou um corte no processo

    que se vinha desenvolvendo, e o incio de campanhas de alfabetizao que viriam a ser

    deflagradas nesse novo contexto histrico, como a Cruzada Ao Bsica Crist (ABC)

    (1966-1970) e posteriormente o Movimento Brasileiro de Alfabetizao (MOBRAL) que

    aconteceu no perodo de 1970 a 1985, criado pela Lei n 5.379 de 15/12/1967. O MOBRAL

    caracterizou-se, inicialmente, como campanha de alfabetizao, atingindo cerca de 500.000

    alunos nos seus primeiros quatro meses de funcionamento. Em seguida, a experincia

    mostrou a necessidade de imprimir maior profundidade ao trabalho educativo e a urgncia

    de oferecer cursos de continuao. Durante mais de 20 anos de existncia, o MOBRAL se

    tornou notvel pelo esvaziamento do sentido crtico e contextualizador que vinha sendo

    implantado anteriormente das aes pedaggicas.

    No contexto educacional, a legislao que, pela primeira vez, faz referncia EJA

    a Lei 5692/71, em captulo prprio sobre o Ensino Supletivo. Esta modalidade de ensino foi

    regulamentada tendo as seguintes funes bsicas: a suplncia, o suprimento, a

    aprendizagem e a qualificao, mediante a oferta de cursos e exames supletivos (SOARES,

    2001, p.206).

    As polticas educacionais mais expressivas relacionadas EJA tm seu incio com a

    Constituio Federal de 1988, pois ela que garante, no Ttulo dos Direitos Individuais e

    Coletivos, o direito Educao a todos os cidados brasileiros, visto que o artigo 208 diz

    que:

    Art. 208. O dever do Estado com a educao ser efetivado mediante a garantia

    de:

    I - ensino fundamental, obrigatrio e gratuito, assegurada, inclusive, sua oferta

    gratuita para todos os que a ele no tiveram acesso na idade prpria

    (BRASIL,1988).

    Observa-se, por meio deste texto a preocupao com aqueles que no tiveram

    condies de escolarizao em idade prpria. Para tanto, em cumprimento Constituio

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    Federal de 1988 a Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional LDB N 9394/96,

    define com mais clareza ao colocar a EJA como Modalidade da Educao Bsica: a

    Educao de Jovens e Adultos ser destinada queles que no tiveram acesso ou

    continuidade de estudos no Ensino Fundamental e Mdio, na idade prpria (BRASIL, 1996).

    Nesta dcada, Paulo Freire retorna do exlio e encontra um terreno frtil, porque a

    EJA passa a ter mais destaque, com conferncias e estudos sobre a necessidade de

    reduo