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Polticas pblicas e energias renovveis: propostas de aes de induo diversificao da matriz energtica na BahiaRoberto Fortuna Carneiro,* Pauletti Karllien Rocha**

Resumo Ao longo dos tempos, o modelo de desenvolvimento vigente baseia-se na energia originria dos combustveis fsseis e no renovveis, sendo o petrleo a principal fonte, seguida do carvo mineral e do gs natural, todas responsveis por uma grande parcela dos desequilbrios ambientais enfrentados na atualidade. Com o possvel esgotamento das reservas mundiais de petrleo, faz-se necessrio uma diversificao da matriz energtica visando a sustentabilidade econmica, social e ambiental. Dessa forma, o novo paradigma energtico para a sustentabilidade dever ter como pilares as fontes de energia renovveis. Muitos esforos tm sido feito em todo o mundo no sentido da utilizao dessas energias. Para isso, faz-se necessrio a consolidao de polticas pblicas que estruturem a oferta para atender eficazmente essa nova demanda. Nesse sentido, o presente artigo tratar da importncia das polticas pblicas para o desenvolvimento do setor energtico e destacar as aes em execuo pelos governos federal e estadual no sentido de diversificao da matriz energtica local. Ao final, sero propostas algumas aes de interveno no sentido de contribuir para esse debate na Bahia. Palavras-chave: energias renovveis, polticas pblicas, bioenergia, diversificao da matriz energtica.

Abstract Presently development is based, as it was throughout the ages, on energy derived from non-renewable fossil fuels, being oil the main source, followed by coal and natural gas. These sources are greatly responsible for the environmental imbalance we face in the present days. The possibility of a worldwide exhaustion of the oil reserves makes it necessary to diversify the energy matrix aiming economic, social and environmental sustainability. Therefore, the new energy paradigm aiming sustainability must have renewable energy sources as pillars. Many efforts have been made worldwide to use this type of energy and, for that, public policies must be consolidate to structure the offer and attend this new demand efficiently. Therefore, this paper will deal with the importance of public policies for the energy sector development and will highlight the actions being carried out by the Federal and State Government of Bahia towards the diversification of the local energy matrix. To finalize, intervention actions will be suggested aiming to contribute with this debate in Bahia. Key words: renewable energies, public policies, bioenergy, energy matrix diversification.

* Diretor de Fortalecimento Tecnolgico Empresarial da Secretaria de Cincia, Tecnologia e Inovao - SECTI e Coordenador do Probiodiesel Bahia. Professor dos cursos de Administrao do Centro Universitrio da Bahia - FIB e da Faculdade Baiana de Cincias - FABAC. rcarneiro@secti.ba.gov.br.

** Eng Agrnoma e Coordenadora Tcnica da Rede Baiana de Biocombustveis. Professora do curso de Administrao com Habilitao em Agronegcios da Fundao Visconde de Cairu. pauletti.rocha@uol.com.br.

BAHIA ANLISE & DADOS Salvador, v. 16, n. 1, p. 23-36, jun. 2006

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POLTICAS P BLICAS E ENERGIAS RENOVVEIS: PROPOSTAS DE AES DE INDUO...

INTRODUO O objetivo deste artigo analisar o papel das polticas pblicas como elemento de induo e estruturao de um setor estratgico para a atividade socioeconmica: o de energia. Para tanto, ser realizada uma rpida abordagem acerca da importncia das polticas pblicas como elemento de promoo do desenvolvimento de atividades scio-produtivas e uma breve anlise do conceito de energias renovveis. Aps essa etapa de contextualizao, verificaremos como o Estado vem atuando para fomentar, estruturar e regular essa atividade em nvel mundial, nacional e estadual. Ao final, sero propostas algumas aes no sentido de contribuir para esse debate na Bahia.

CONTEXTUALIZAO Esta contextualizao est dividida em trs partes: a primeira vai analisar a importncia do planejamento governamental para promover o desenvolvimento de um pas ou de uma indstria; a segunda abordar a importncia da energia como condio sine qua non para esse desenvolvimento, principalmente as energias renovveis, pelo seu carter estratgico em um mundo dependente de uma fonte finita de energia; e, por ltimo, uma sntese das partes anteriores no sentido de tentar demonstrar que, em funo das caractersticas do setor de energia, principalmente das renovveis, uma ao governamental planejada de vital importncia para garantir o perfeito desenvolvimento do setor de maneira sustentvel.

O Estado e as polticas pblicas de carter estruturante Durante muito tempo, duas correntes tericas travaram um embate acerca do papel do Estado como agente promotor do desenvolvimento de novos setores da atividade econmica: a Neoclssica, da teoria econmica tradicional, e a Estruturalista, basicamente schumpeteriana e neo-schumpeteriana. Para a primeira no h necessidade de interveno do governo sobre a liberdade decisorial dos agentes econmicos, j que a competio perfeita do mercado fornece os est24

mulos necessrios melhor alocao dos recursos disponveis. Essa anlise , fundamentalmente, microeconmica e baseada no comportamento de atores individuais e nas condies de um equilbrio esttico. No considera a existncia de crises econmicas, porm, afirma que em determinadas situaes o mercado no propicia a minimizao dos custos de oportunidade dos recursos ocorrendo as falhas de mercado. As principais falhas de mercado podem ser descritas como: externalidades, informao assimtrica ou imperfeita, bens pblicos e poder de monoplio. Na anlise microeconmica da Teoria Neoclssica, o Estado atua como obstculo otimizao de recursos, coisa que as foras de mercado produziriam na ausncia da interferncia governamental. A segunda corrente, a Estruturalista, principalmente a de base neo-schumpeteriana, aceita que os fatores produtivos de uma nao podem ser criados, a exemplo da fora de trabalho qualificada, da consolidao de uma base cientfico-tecnolgico (PORTER, 1990) e, principalmente, das transformaes causadas pelo progresso tcnico na base produtiva (SCHUMPETER, 1982). Para essa corrente, o Estado, na realidade, exerce de forma significativa, principalmente nos pases em desenvolvimento ou de desenvolvimento recente, forte interveno na economia. Alm dos exemplos citados acima podem tambm ser criadas polticas governamentais para financiamento de exportaes de bens e servios e importaes de bens de capital, apoio a indstrias selecionadas, concesso de subsdios, entre outros. Essa interveno se d atravs de um aparato poltico-institucional (DAHAB; TEIXEIRA, 1990) que uma tentativa do Estado de superar as falhas existentes no mercado, sobretudo em tecnologia e finanas, que impedem ora a combinao adequada dos fatores de produo existentes, ora o crescimento da dotao nacional de fatores. Seu objetivo criar, portanto, vantagens comparativas dinmicas para as indstrias e empresas locais. Outros autores, entre eles Hasenclever (1991), Haguenauer (1989) e Perez (1989), analisaram o processo de interveno estatal atravs de polticas tais como: poltica de competio, para influenciar o mercado; polticas regionais, para localizao de atividades econmicas; polticas de inovao, para influenciar a tecnologia utilizada pelas empresas; e polticas comerciais. UmaBAHIA ANLISE & DADOS Salvador, v. 16, n. 1, p. 23-36, jun. 2006

ROBERTO FORTUNA CARNEIRO, PAULETTI KARLLIEN ROCHA

das principais a de apoio inovao, atravs da criaEsgotamento das reservas de petrleo. Dados da o de sistemas nacionais e locais de inovao. Reviso Estatstica de Energia Mundial de 2004, da A ao de interveno governamental atravs das British Petroleum, e constantes do Plano Nacional de polticas pblicas , portanto, um elemento de supor- Agroenergia 2005, estimam que existiam reservas de te s atividades socioeconmicas que no pode ser 2,3 trilhes de barris de petrleo antes de sua explorao. As atuais reservas comprovaminimizado na sua importncia A energia sempre teve um para o desenvolvimento de setodas do mundo, segundo a mesma papel fundamental no res produtivos, regies e pases. fonte, somam 1,137 trilhes de desenvolvimento e barris. Essas reservas permitem crescimento de um pas. suprir a demanda mundial por um Cada vez mais se faz perodo de 40 a 50 anos, mantido Energia: recurso estratgico necessrio o uso das fontes o atual nvel de consumo. para o desenvolvimento de energticas, renovveis ou O fator geopoltico. O Oriente uma nao no, para a produo de Mdio e os pases exportadores alimentos, bens de consumo (OPEP) dominam 78% das reA energia sempre teve um pae de servios, lazer e, servas mundiais de petrleo. A pel fundamental no desenvolviprincipalmente, para vitria do Hammas nas eleies mento e crescimento de um pas. promover o palestinas e a crise internacional Cada vez mais se faz necessrio desenvolvimento provocada pela polmica produo uso das fontes energticas, reeconmico, social e cultural o de energia nuclear pelo Ir novveis ou no, para a produo s agravam o j complicado palde alimentos, bens de consumo e de servios, lazer e, principalmente, para promover co de disputas polticas e blicas do Oriente Mdio. Todos esses fatores provocaram, nos ltimos anos, o desenvolvimento econmico, social e cultural. A energia pode ser classificada em dois tipos: no- fortes impactos sobre os preos, os fluxos de abasrenovvel ou fssil e renovvel. Como energia fssil tecimento e o cumprimento de contratos de fornecidestacam-se as originadas do petrleo, como gasoli- mento. Essa presso fez com que nos ltimos 30 na, diesel, querosene e gs natural. As renovveis po- anos a valorizao real do petrleo fosse de 505%, dem ser classificadas em energia solar (painel solar, sendo de 85% entre o final de 2004 e meados de clula fotovoltaica), energia elica (turbina elica, cata- 2005 (BRASIL, 2005). Demanda crescente de energia. Estudos do Banco vento), energia hdrica (roda dgua, t