política de memória histórica: um estudo de sociologia histórica comparada

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Em 2010, residindo por seis meses na Europa, o autor Fernando Ponte de Sousa acompanhou e presenciou na Espanha uma convergência, ou uma tríplice relação: um movimento pela memória histórica, como verdade e justiça, uma crise econômica e social (mais vasta nos seus efeitos cotidianos do que o noticiado pela grande mídia) e um nascente movimento de contestação, cuidadosamente controlado pelas maiores centrais sindicais e, ao mesmo tempo, rebelde e inconformado, por parte de iniciativas autônomas, outras expressões de esquerda e a juventude indignada.

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  • Poltica de Memria Histrica

    Um estudo de sociologia

    histrica comparada

  • S725 Sousa, Fernando Ponte de Poltica de memria histrica: um estudo de sociologia histrica comparada / Fernando Ponte de Sousa Florianpolis: UFSC, 2011.

    127 p.; 14,8 x 21 cm.

    ISBN 978-85-61682-58-3

    1. Poltica. 2. Memria histrica. I Sousa, Fernando Ponte de. CDD 306.2

    Copyright 2011 Fernando Ponte de Sousa

    Capa Tiago Roberto da Silva

    Foto da capa Arquivo pessoal do autor

    Reviso Carmen Garcez

    Editorao eletrnicaFlvia Torrezan, Tiago Roberto da Silva

    Bibliotecria Luiza Helena Goulart da Silva

    Apoio

    Middlebury College (EUA)

    Todos os direitos reservados a

    Editoria Em Debate Campus Universitrio da UFSC Trindade

    Centro de Filosofia e Cincias Humanas Bloco anexo, sala 301

    Telefone: (48) 3338-8357Florianpolis SC

    www.editoriaemdebate.ufsc.br www.lastro.ufsc.br

    Impresso no Brasil

    2011

  • Fernando Ponte de Sousa

    Poltica de Memria Histrica

    Um estudo de sociologia

    histrica comparada

    Florianpolis

    2011

  • Agradeo...

    Ao prof. Gonzalo lvarez Chillida, pela dedicada acolhida no Ps-Doutorado na Universidad Complutense de Madrid (Departamento de Historia del Pensamiento y

    de los Movimientos Sociales y Polticos).

    Ao Eduardo e Ana Rita pela carinhosa hospitalidade em Cercedilla.

    Ao Beni, pela solidariedade em tempos sombrios.

  • SUMRIO

    Introduo .............................................................................................. 9

    1. Marco terico .................................................................................15

    2. A transio democrtica .........................................................35

    3. Poltica de memria histrica .............................................53

    4. Memria e medo sob o autoritarismo .............................65

    5. Olhar estrangeiro .......................................................................69

    6. Espanha e Brasil: histrias distintas, mas no to incomuns ...............................................................73

    7. Alguns argumentos para a pesquisa em poltica de memria histrica .............................................79

    Referncias ..............................................................................................87

    Anexos .........................................................................................................91

  • Introduo

    A Espanha uma histria instigante. Certamente no apenas como pas, que pode ser formalmente uma abstrao, mas como territorialidades e autonomias, como disperso e conjun-o de povos e culturas, como histrias de alternativas e re-presso, como resistncias heroicas, como colonizao e derro-tas, como monarquias e repblicas, como arte e literatura, como antiguidade e contemporaneidade e, mesmo com crises, como um desafio permanente de futuridade, de imaginao.

    Possivelmente, o mais instigante ao visitante captar um ethos, como se em busca de uma sntese a partir de antagonis-mos que parecem se refazer continuamente. Tarefa impossvel, mas talvez a arte, a poesia, a msica, no seu conjunto plural e rico, faam uma melodia que lembre: isto castelhano, tem algo de hispnico, ibrico. Como memria e histria.

    Para um breve plano de pesquisa, essa tentao tambm presente, e a dificuldade limitar, delimitar, recortar, fechar-se s inmeras e permanentes motivaes, enfim, renunciar ao ins-tigante e ao impossvel.

    Mais provocante ainda se apresenta para um olhar a partir da colonizao, embora no hispnica, como se o mundo tivesse o outro lado para conhecer, como condio de reconhecimento e, quem sabe, de esclarecimento.

  • 10 Fernando Ponte de Sousa

    Assim, segue-se a obedincia ao mtodo, ao plano original de pesquisa, e especific-lo mais ainda, lembrando que, embo-ra no plano de pesquisa ps-doutoral no esteja prometida uma anlise de poltica comparada entre esses pases (Brasil e Espa-nha) e sendo assim tal desafio no desenvolvido neste livro , algumas referncias quanto memria histrica parecem indicar que nesse mbito certas questes no so to incomuns e, pelo menos assim, so mencionadas.

    O foco especfico proposto compreender a poltica para a memria histrica na Espanha, quanto sua oficializao ou institucionalizao, bem como as controvrsias pelas contendas no resolvidas. Afinal, a histria, incluindo a da memria hist-rica, cambiante pelos interesses e relaes de poder existentes.

    Como no Brasil a poltica para a memria histrica algo ainda em debate e em disputa, como um movimento social e poltico envolvendo diferentes sujeitos polticos, as referncias do ocorrido na Espanha, bem como noutros pases que passaram por ditaduras na histria contempornea, tornam-se de grande importncia, mesmo situadas aqui como uma breve reflexo vi-sando aprender e, qui, contribuir com o desenvolvimento te-mtico do assunto, bem como com as polticas em definio em Santa Catarina, Brasil, onde estamos constituindo o Memorial dos Direitos Humanos (vide anexo 1). Ao menos o modesto objetivo deste livro.

    A produo de pesquisas acadmicas, romances, memrias, reportagens, filmes e investigaes impressas e eletrnicas, alm dos acervos de centros de memria e documentao estatais, de partidos polticos, de sindicatos e de organizaes autnomas , fazem deste tema na Espanha um oceano extremamente vasto e impossvel de conhecer em sua totalidade, mas, por outro lado, repleto de possibilidades de descobertas. Ao menos parece ser o que anima parte da literatura e do possvel interesse dos leitores.

  • Poltica de memria histrica 11

    O estudo da memria histrica da guerra civil e posterior ditadura torna-se ainda mais vasto e complexo se considerados seus interminveis desdobramentos polticos e sociais, de alguma forma ainda presentes nas tenses dirias das contendas polti-cas. Como afirmou a jornalista Maruja Torres: Seguir los debates parlamentarios, leer a continuacin las crnicas que los reflejan, empaparse de los anlisis pertinentes: he aqu una de las tareas ms demoledoras a que pudieron entregarse ayer los ciudadanos de este pas [...] (El Pas, 17 jun. 2010). A citao aqui colocada para sugerir quanto so recorrentes, no debate poltico atual sobre a crise econmica que atravessa a Espanha, as referncias crise social que contextualiza a guerra civil e a ditadura, e no poucas vezes como memria histrica sacada para a legitimao discursi-va, instigando-se os contendores parlamentares sobre o perigo de aquele cenrio assombroso voltar a acontecer.

    Sendo assim, no tarefa fcil encharcar-se da crnica diria sobre os acontecimentos atuais que expressam conflitos no acomodados, como, por exemplo, numa linha de discusso, promover ou no o julgamento dos agentes responsveis pelos crimes cometidos na guerra civil e no perodo da ditadura co-locando em discusso a Ley de Amnista e o prprio papel do Judicirio , correspondente outra linha, que o debate sobre as medidas econmicas diante da crise, o que soa para alguns contendores somar as duas crises: a econmica e a institucional. Quer dizer, apesar da Ley de Amnista, no h um ponto final.

    Se parte da literatura situada como pesquisa histrica ten-de a observar o tema em referncia como objeto histrico fixo, situado historiograficamente dentro de uma cronologia do pas-sado, cuja memria a prpria pesquisa, outra parte no segue na mesma direo, em especial a literatura crtica da transio democrtica e dos limites das leis que lhe do conformao institucional, assim como a literatura novelstica e memorial,

  • 12 Fernando Ponte de Sousa

    abordando aspectos subjetivos, afetivos, psicolgicos e polti-cos propriamente ditos.

    O memorialista Jos Manuel Caballero Bonald queixa-se de que el franquismo nos sobrevuela (El Pas Semanal, 11 abr. 2010, p. 28). E ainda confirma: un indicio clarsimo es la maniobra contra el juez Garzn [...] es el franquismo que la Transicin mantuvo vivo [...] latente. Perguntado se a socie-dade se sente cmoda com essa situao, confirma que h de certo modo um silncio cmplice de gente que no quer expor--se a nada.

    A mesma percepo subjetiva tambm exposta pela es-critora Soledad Purtolas, autora de conhecidos livros, como o recentemente lanado Compaeras de viaje. Para Soledad, sobre sua juventude na poca da ditadura, o problema que mais a in-trigava era: Como vas a convivir com unas personas a las que tienes miedo? Portanto, complementa sobre os jovens de agora, culpar a juventude em geral por uma suposta despolitizao no tem sentido. Em especial, indaga, como ter compromissos, os jovens, se no tm as mesmas circunstncias? E acentua sobre algo ainda pendente da ditadura: El peligro de las dictaduras es que te hacen creer que los dos bandos son muy distintos, que es-t el bien por un lado y el mal por otro. T crees que hs escogi-do el bien, y no (El Pas Semanal, 4 abr. 2010). Dessa maneira, sentencia tambm o perigo das revolues, como as disputas de poder entre os grupos e as vocaes ditatoriais tambm entre os revolucionrios. A recusa revoluo, que pode tornar-se mais injusta que as leis, parece deslocar seu pensamento poltico das instituies para as pessoas e suas escolhas: Las ideas no hacen a las personas, sino que a veces es al revs. Tal percepo, em suas reflexes, deriva da prpria ditadura, que catastrfica e no desejvel, porm aclara as coisas, s vezes mal, porque ves que lo que te han aclarado es peor. Sem dvida, trata-se de uma

  • Poltica de memria histrica 13

    memria poltica como parte a

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