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  • MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS

    POESIA ( 1 9 4 4 - 1 9 5 5 )

    A POESIA CIVIL • DISCURSO SOBRE A REABILI­ TAÇÃO DO REAL QUOTIDIANO • PENA CAPI­ TAL • MANUAL DE PRESTIDIGITAÇÃO • ESTADO SEGUNDO • ALGUNS MITOS MAIORES ALGUNS MITOS MENORES PROPOSTOS À C IRCULAÇÃO

    PELO AUTOR

  • P O E S I A

    Desenho à pena de João Rodrigues

  • PO ES IA CIVIL

  • P R Ó L O G O

    Um tempo havia muito feliz em que eu pedia ao céu raiz

    A terra era — julgava eu — sala de espera carinho meu

    11

  • Nossa Senhora do Maü Ladrão chegada a hora da coroação

    Agrilhoado — antes, depois — chorei dobrado por nós os dois

    12

  • PR Ó L O G O

    Pelo caminho verde vem Maria A dos seios de rosa a dos olhos de mãe. Pelo caminho sóbrio vem

    Maria

    13

  • PR Ó L O G O

    O jogral do céu riscou uma estrela no manto judeu

    E o milagre veio sem perdão nenhum sem forma sem meio

    Sobre a palha loura caiu o menino de Nossa Senhora

    Menino perfeito com fomes e prantos, com raivas e peito

    14

  • /

    Cecília pediu o céu Nossa Senhora não

    Teresa pediu as dores Nossa Senhora não

    Inês falou ao Senhor Nossa Senhora não

    15

  • Helena morreu no circo Joana fugiu de casa Kuth cortou os cabelos

    Nossa Senhora não

    Senhora por humildade Nossa por submissão

    Madalena teve um filho Nossa Senhora não

    16

  • 11

    Para que houvesse altar para nascer figura para o galo cantar à noite escura

    — Aquela que em vida foi desapossada foi morta descida crucificada e ao terceiro dia não foi nada

    2 17

  • III

    E uma vez uma vez só Nossa Senhora desesperou

    — AH ... Ah .. . AH . . . —

    Mas Nossa Senhora é decência claridade pureza maternidade

    18

  • Na revolta que teve não durou

    — Desapareceu na poalha do céu

    E assim é que ela passa no andor Nossa Senhora do Exterior

    A que ficou no fundo a que não foi só ao poeta doi

    19

  • IV

    Alta, seroal, na tarde canora vai Nossa Senhora pelo meloal

    20

  • A ver o melão que se há-de comer — se Jesus quiser — antes da Paixão

    E quer dos maiores e procuram bem os olhos de mãe quebrados de dores

    Céu da Galileia que a viste fu rtar ; brisa, que ao passar na túnica feia

    Não tiveste enleio nem religião que a coroação depois é que veio

    Foi Nossa Senhora que está no altar sem poder andar livre como outrora

    21

  • Quem ali sagrou para os filhos teus os pecados nossos a terra e os ossos do corpo de Deus

  • /. N. R. /.

    V

    Sobre a cruz o ergueram. Assim ele veio ao mundo.

    Pedro Paulo Simão Sobre a cruz o ergueram.

    23

  • Cânticos de guerreiros (Pedro Paulo Simão)

    ódios de velhos monges (assim ele veio ao mundo)

    Sobre a cruz o ergueram

    24

  • VI

    Junto do rio cantam os galos de Jerusalém enquanto amanhece. Na relvagem os dorsos dos cavalos com uma nudês que entontece esperam a hora de amarrá-los à lida, mãe fulva do campo agora, numa estrela, todo branco e sóbrio, enquanto cantam galos

    25

  • v i l

    Nossa Senhora morreu à hora da missa. Ninguém percebeu. E o mundo que ela tanto amou não teve uma lágrima só!

    Mas soaram acordes finais quando ela, de morta, passou com círios de estrelas reais nos pés ainda sujos de pó

    26

  • Está agora mais perto do céu sem lá ter entrado, porém. E pede, com o rosto seu naquele menino judeu, que oremos por ela também

    27

  • NICOLAU CANSADO ESCRITOR

  • Nota do Fiel Depositário

    Perdida, entre tanta outra coisa que se perdeu à roda de 1944,

    a biografia de Nicolau Cansado moldada em verso jâmbico por

    Papuça de Arrebol; sumida com este nas ruas do Cais do Sodré

    a documentação para a descascagem ontológica de um ser a todos

    os títulos raro na literatura e na vida; inglòriamente perdida tam­

    bém a obra em prosa do autor do «A TI» (a qual nunca vi mas disse­

    ram, em 1945, ser ainda melhor que os poem as): — restam os versos

    que ora se publicam antecedidos de nótula crítica da incansável

    polígrafa e companheira do poeta, D. Marília Palhinha.

  • de Oliveira Guimarães, lembra-me ter visto um fólio rabiscado pelo

    poeta a quando da sua viagem a Espanha, onde, premido pela sua bem

    conhecida fome de autenticidade, Cansado fora colher, o mais possível

    in loco, alguns quadros multímodos da guerra civil espanhola. Tanto

    quanto lembro, e já não lembro muito, tratava-se de um feixe de

    ditirambos «ao pobre Federico» claramente datados Agosto-Setembro

    de 1943. As numerosas imitações feitas depois e até também lá fora,

    deste tema de Cansado, nunca, quanto a mim, farão esquecer a impres­

    são deixada pelo Mestre.

    32

  • EM T O R N O D A POESIA D E C A N S A D O

    LISBOA, 1945 — Os fortes laços de amizade que desde cedo me ligaram a Nicolau Cansado fazem com que seja a expensas de uma profunda mágoa que eu deva pôr aqui uma por assim dizer restrição aos inéditos vindos agora a lume : eles não serão compreendidos «por toda a gente!

    Com efeito, só uma escassa roda de iniciados na última fenomenologia poética portuguesa (futurismo, sobrerrea- lismo, nervosismo, etc.) poderá acolher sem surpresa toda a sua mensagem. Uma vez mais, digamo-lo sem disfarce, a contradição fez a obra. E nisto, como em tudo, apesar de

    33

  • umas coisas esquisitas, umas audácias aliás mais brilhantes que fecundas, o poeta seguiu a tradição. Tive oportunidade de verificá-lo ante o desprendimento que muitos «homens da rua» — (eu buscava Cansado nas suas incursões aos ha- bitáculos do povo) — manifestaram pela Fantasia Gramá­ tica e Fuga, por exemplo *. Alguns chegaram mesmo a interromper-me nestes termos : (tentava eu explicar-lhes a grandeza e a utilidade do poema) : «ó doutor, dê cinco tostões para uma sopa, que ainda lá não fui hoje!»! Em contrapartida, os literatos terão com que regozijar-se. Esses, e mais quem anda a par, sagrarão o poeta Cansado como um grande incompreendido, uma genial vítima de um meio estupefacto.

    *

    Falar do substractum da sua obra — para quê ? De certo modo, a poesia é o real absoluto, já o disse um editor que também escreve. Atravancador se torna portanto qualquer didatismo, e ainda mais no caso de Cansado. Este homem, que abandonou as concepções burguesas sem por isso ter

    * O poema deste título foi perdido pela própria Marília Palhinha,

    não tendo aparecido até hoje qualquer cópia. — M. C. V.

    34

  • mudado de vida, é um artista muito complexo. Formalmente, não é raro vê-lo brincar com as subtis experiências de um Paulo Neruda. Noutros passos, chama a si Maiakovsky, e, então, que esplendor épico! Noutros, ainda, deita um olhar amigo a, por assim dizer, Fernando Pessoa. E Camões. Conhece a fase íntima. Atravessa a fronteira do religioso. E quando desistíamos de ver nele qualquer coisa mais do que um jogral de prodigiosos recursos, eis que nos oferece as iluminações do Herói, do Raio de Luz, do A Ti! Obra pequena, sim, mas de tentado alcance e forte significado, ousando, mesmo, esperar repercussão, eu quero repeti-lo : ainda é cedo para falar de Nicolau. Não faltará, porém, gente disposta a acusá-lo de ter, ele, o meu santo!, plagiado meio mundo e subsistido, como dizer ?, assim. Eternos incom- preensivos.

    Outra coisa : Cansado nunca versou o tema do amor. Inapetência? Excesso de ombridade? Penso que nso. O amor é, para muitos poetas de hoje, um tema de segunda, para não dizer terceira categoria.

    Novos luzeiros brilham no estelar do mundo, como Can­ sado, certa vez, me disse. E todos compreendemos.

    MARÍLIA PALHINHA

    35

  • OS POEMAS

  • Para A. Casais Monteiro

    M IG R A Ç Ã O

    Ah não me venham dizer ah não quero saber ah_ quem me dera esquecer

    Só e incerto é que o poema é aberto e a Palavra flui inesgotável!

    39

  • A TI

    ó minha casta esposa vais sofrendo ... E eu sofro de ver-te sofrer! Espera um pouco! Façamos como o caule da rosa des- fo- lhada

    40

  • Nosso convívio é triste. A vida, errada. Só a tortura existe e o poema é. Ah TENHO A ALMA CHEIA DE GAROTOS. Não queiras ah não queiras vir comigo para esta atmosfera do café.

    41

  • HERÓI

    Do claro sol e dum teatro cheo seriam dignas tão notáveis obras. Ó noite, que em, teu seio tenebroso, tão grandes feitos de armas escondeste!

    TOKQUATO TASSO — «Jeru­ salém Libertada»

    Herói é o meu nome.

    Meu olhar frio, arguto não vê coisa que o dome. Meu esforço rudo e sano não desmaia um minuto.

    42

  • Sou herói todo o ano.

    Quando passar por vós, naturalmente, eom este meu ar simples e