poderes do relator no julgamento do conflito .josé carlos barbosa moreira, “conflito positivo

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PODERES DO RELATOR NO JULGAMENTO DO CONFLITO

DE COMPETENCIA

1. Introduo; 2. Atividade saneadora do relator; 3. Oitiva dos juizes envolvidos no conflito; 4.

Suspenso do processo; 5. Determinao do juzo competente durante o trmite do conflito de

competncia para decidir questes urgentes; 6. Deciso monocrtica do relator; 6.1.

Jurisprudncia dominante do tribunal; 6.2. Recurso de agravo contra a deciso monocrtica do

relator; a) Nome adequado ao recurso contra a deciso monocrtica do relator; b) Procedimento

do agravo interno legal do art. 120, pargrafo nico CPC; I) juzo de retratao do relator; II)

apresentao do processo em mesa; III) agravo interno e embargos de declarao; 7. Teoria da

causa madura (art. 515, 3, CPC).

1. Introduo

Segundo o art. 115, CPC, haver conflito de competncia em trs hipteses: (I) quando

dois ou mais juzes se declararem competentes; (II) quando dois ou mais juzes se

declararem incompetentes; (III) quando entre dois ou mais juzes surgir controvrsia

acerca da reunio ou separao de processos. Uma anlise mais cuidadosa do

dispositivo legal, entretanto, demonstrar que o art. 115, CPC, III, to somente uma

especificao dos outros dois incisos antecedentes, existindo apenas duas espcies de

conflito de competncia: (a) positivo (quando dois ou mais juzes se declaram

competentes para o julgamento) e (b) negativo (quando todos ou mais juzes se

declaram incompetentes). A questo de reunio ou separao de processos sempre

levar a um conflito de uma dessas espcies: (a) pretendendo a reunio, um juiz avoca

processo que tramita perante outro juiz e este nega a remessa (positivo); (b)

pretendendo a reunio dos processos perante outro juiz, determina a remessa do

processo e o outro juiz o recusa (negativo); (c) ambos juzes pretendem conduzir todos

os processos (positivos); (d) ambos os juzes pretendem que a reunio dos processos

se d perante o outro (negativo).

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O conflito somente passar a existir a partir do momento em que dois ou mais juzes

hajam proferido nos autos determinaes divergentes, criando um verdadeiro conflito

entre eles. Na teratolgica hiptese de um juiz da Justia do Trabalho se declarar

incompetente de ofcio, remetendo os autos Justia Federal, e esse juiz tambm se

declarar incompetente, mas encaminhar os autos Justia Estadual, no haver at

ento conflito, que s passar a existir se o juiz da Justia Estadual que receber o

processo tambm se declarar incompetente, apontando um dos outros dois anteriores

como competentes para o processo.1

Sobre o surgimento do conflito, as lies de Patrcia Miranda Pizzol: Para ocorrer o

conflito, preciso que: a) o juiz se entenda competente, quando outro j tinha se dado

por competente; b) o juiz se entenda incompetente e entenda que o juzo competente

um que j se declarou incompetente.2

Lembra a doutrina que na hiptese de conflito positivo de competncia no

necessria a existncia de deciso expressa de ambos os juzos afirmando sua

competncia sobre o outro, bastando para que se configure o conflito a prtica de atos

de ambos sobre a mesma causa, como se fossem os nicos competentes para

conhece-la, com o reconhecimento implcito da prpria competncia. O exemplo

rotineiramente lembrado pela doutrina do inventrio proposto por pessoas diferentes

em juzo diversos, hiptese que em muitas vezes nem o prprio juiz sabe da existncia

de outro inventrio tramitando em comarca diversa.3

1 Segundo Humberto Theodoro Jr., Curso de direito processual civil, op. cit., p. 179, se uma sucesso de recusas acontece, sem que nenhum dos magistrados restitua o processo origem, a parte no pode ser forada a assistir, sem reao, a peregrinao que lhe barra indefinitivamente o acesso Justia. (...) Depois da segunda declinao, j estar autorizada a medida preconizada pelo art. 115, sejam elas recprocas ou no. 2 A competncia no processo civil, p. 348. Ainda Nelson Nery Jr. e Rosa Maria Andrade Nery, Cdigo de Processo Civil comentado, op. cit., p. 516. 3 Assim Celso Agrcola Barbi, Comentrios ao Cdigo de Processo Civil, op. cit., p. 368; Humberto Theodoro Jr., Curso de direito processual civil, op. cit., p. 178. Jos Carlos Barbosa Moreira, Conflito positivo e litispendncia, in Temas de direito processual, 2 srie, So Paulo, Saraiva, 1980, p. 45, entende que a lio s pode ser aplicada no caso de um mesmo e nico processo.

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evidente que no se pode falar em conflito de competncia em hipteses nas quais a

divergncia se verifica entre dois rgos que mantenha uma relao entre eles de

superioridade/inferioridade hierrquica. Assim, no possvel conflito entre o Tribunal

de Justia e o Superior Tribunal de Justia, como tambm no haver conflito de

competncia entre um juzo de primeiro grau da Justia Federal e o Tribunal Regional

Federal. Nesses casos, o rgo que seja superior hierarquicamente julgar o processo,

prevalecendo sua superior hierarquia.4

Quanto sua natureza jurdica, trata-se de incidente processual, no se podendo

atribuir ao conflito de competncia natureza recursal e tampouco de ao declaratria

incidental. Seria de fato complicado explicar a legitimidade do juiz para propor o conflito

de competncia se o mesmo tivesse natureza de ao, o que no ocorre tratando-se de

natureza de mero incidente processual, existente para solucionar a questo da

competncia e permitir que a demanda - ou demandas- siga seu tramite regular.5

Instaurado o incidente de conflito de competncia, os autos sero imediatamente

encaminhados ao Tribunal competente para seu julgamento6, sendo que,

independentemente de tratar-se de tribunal de segundo grau ou de superposio, o

conflito de competncia ser dirigido ao presidente do Tribunal (art. 118, caput, CPC).

O presidente do Tribunal, entretanto, no tem competncia para decidir nem para

processar o recurso, sendo meramente o responsvel pela sua distribuio a um

relator. O presente artigo tem como objetivo exclusivo analisar os poderes desse relator

no julgamento do conflito de competncia.

4 Nesse sentido, na doutrina portuguesa, as lies de Jorge Augusto Pais de Amaral, Direito processual civil, op. cit., p. 105. 5 Nesse sentido Alexandre Freitas Cmara, Lies de direito processual civil, op. cit., p. 110; Celso Agrcola Barbi, Comentrios ao Cdigo de Processo Civil, op. cit., p. 370; Jos Frederico Marques, Instituies de direito processual civil, vol. I, op. cit., p. 461. Patrcia Miranda Pizzol, Cdigo de Processo Civil anotado, coord. Antonio Carlos Marcato, op. cit., p. 331. Em sentido contrrio, atribuindo natureza de ao declaratria ao conflito de competncia, Vicente Greco Filho, Manual de direito processual civil, op. cit., p. 214. 6 Daniel Amorim Assumpo Neves, Competncia no processo civil, So Paulo, Mtodo, 2005, 211-213.

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2. Atividade saneadora do relator

Segundo o art. 118, pargrafo nico, CPC, o ofcio ou a petio requerendo a

instaurao do incidente de conflito de competncia sero instrudos com os

documentos necessrios prova do conflito. Tais documentos no podem ser

determinados a priori, e quanto a isso o legislador andou bem em indicar uma instruo

genrica no dispositivo legal ora comentado. O suscitante deve ter em mente que os

autos do processo no subiro ao Tribunal, devendo instruir o conflito de forma a

permitir aos seus julgadores uma ampla viso do acontecido em instncia inferior,

precisamente com duas preocupaes bsicas: (a) comprovar a efetiva existncia de

um conflito de competncia e (b) demonstrar qual o juzo competente para julgar a

demanda.

No parece que a instruo insuficiente do conflito de competncia seja razo por si s

para seu no conhecimento, devendo dar o relator oportunidade para o suscitante

sanar tal vcio, que nem de longe pode ser considerado insanvel. Alm de prestigiar o

princpio da instrumentalidade das formas e afastar do processo um rigorismo formal

totalmente fora de moda, a soluo coaduna-se com o prprio propsito do conflito de

competncia, interessando qualidade da prestao jurisdicional que o juzo

efetivamente competente julgue a demanda. Se o conflito estabelecer-se em razo de

competncia absoluta, ainda pior, j que o no conhecimento do conflito pelo Tribunal

poder fixar a competncia em juzo absolutamente incompetente, o que ensejar

inclusive ao rescisria aps o transito em julgado.7

3. Oitiva dos juizes envolvidos no conflito

7 Defendendo a possibilidade de abrir-se oportunidade para o suscitante sanar o vcio, Antnio DallAgnol, Comentrios ao Cdigo de Processo Civil, op. cit., p. 82. Contra, entendendo ser caso de no conhecimento, Nelson Nery Jr. e Rosa Maria Andrade Nery., op. cit., p. 520.

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So legitimados para suscitar o conflito de competncia qualquer dos juzes envolvidos,

as partes e o Ministrio Pblico. Qualquer que seja o sujeito processual responsvel

pela suscitao do conflito de competncia, o art. 119, CPC, prev que o relator

mandar ouvir os juzes em conflito, ou apenas o suscitado, se um deles for sus