pinturas rupestres pré-históricas na serra das talhadas

Download Pinturas rupestres pré-históricas na Serra das Talhadas

Post on 07-Jan-2017

228 views

Category:

Documents

8 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • PINTURAS RUPESTRES PR-HISTRICAS NA SERRA DAS TALHADAS.

    PRIMEIRA NOTCIA

    Prehistoric rock paintings on Serra das Talhadas (Proena-a-Nova).

    First news

    Francisco Henriques, Mrio Chambino, Joo Carlos Caninas, Andr Pereira e Emanuel Carvalho

    Vila Velha de Rdo, 2011

  • PINTURAS RUPESTRES PR-HISTRICAS NA SERRA DAS TALHADAS (PROENA-A-NOVA). PRIMEIRA NOTCIA Francisco Henriques, Mrio Chambino, Joo Carlos Caninas, Andr Pereira e Emanuel Carvalho

    AAFA On Line, n 4 (2011) Associao de Estudos do Alto Tejo www.altotejo.org

    2

    PINTURAS RUPESTRES PR-HISTRICAS NA SERRA DAS TALHADAS (PROENA-A-NOVA).

    PRIMEIRA NOTCIA1

    Prehistoric rock paintings on Serra das Talhadas (Proena-a-Nova). First news

    Francisco Henriques, Mrio Chambino, Joo Carlos Caninas, Andr Pereira e Emanuel Carvalho2

    Palavras-chave: pintura rupestre esquemtica; Pr-Histria Recente;

    abrigos; quartzitos; Serra das Talhadas.

    Keywords: schematic rock art; Recent Prehistory; shelters; quartzites; Serra das Talhadas.

    1 Capa: vista do abrigo do Almouro. 2 Membro e colaboradores da Associao de Estudos do Alto Tejo.

    Resumo

    Caracterizam-se os dois primeiros abrigos, com pinturas pr-histricas,

    de tipo esquemtico, identificados na Serra das Talhadas. Os motivos

    circunscrevem-se a pontos, barras e a um possvel ursdeo. A escassez

    de grafismos pintados neste relevo quartztico poder explicar-se pelo

    efeito de substituio exercido pelo vasto complexo de gravuras pr-

    histricas do Tejo, que se distribui por ambas as margens deste rio, a

    montante e a jusante da serra das Talhadas.

    Abstract

    We characterize the first two shelters identified on Serra das Talhadas

    with prehistoric schematic paintings. The figures identified are limited to

    the points, bars and a possible representation of a bear.

    The lack of graphics painted on quartzitic reliefs can be explained by the

    substitution effect exerted by the vast complex of prehistoric pictures of

    the Tagus, which focus on both banks of the river upstream and

    downstream of the mountain Talhadas.

  • PINTURAS RUPESTRES PR-HISTRICAS NA SERRA DAS TALHADAS (PROENA-A-NOVA). PRIMEIRA NOTCIA Francisco Henriques, Mrio Chambino, Joo Carlos Caninas, Andr Pereira e Emanuel Carvalho

    AAFA On Line, n 4 (2011) Associao de Estudos do Alto Tejo www.altotejo.org

    3

    Introduo

    Este texto corresponde primeira apresentao pblica de dois abrigos

    com pinturas pr-histricas, identificados na Serra das Talhadas, nos

    stios de Cho de Galego e de Almouro, ambos situados no concelho

    de Proena-a-Nova. Na regio do mdio Tejo, a serra das Talhadas era,

    porventura, a ltima grande crista quartztica onde faltavam identificar

    pinturas rupestres com esta antiguidade. Como referido no ttulo, este

    texto uma primeira notcia sobre tal achado; em tempo posterior

    voltaremos a abordar este tema e este espao com maior detalhe e em

    maior extenso.

    A identificao de abrigos com pinturas rupestres na regio de Castelo

    Branco tem sido um dos objectivos prosseguidos pela Associao de

    Estudos do Alto Tejo, h j algumas dcadas. E, nesse mbito, a crista

    quartztica da serra das Talhadas tem sido um alvo recorrente da

    investigao arqueolgica.

    J Francisco Tavares de Proena Jnior, nos primrdios do sculo

    passado, por ali andou a identificar alguns fortes dos sculos XVIII e XIX

    e na sua documentao indita, datada de 20 de Julho de 1903, num

    tpico relativo a minas, existe a referncia ao: lugar da Capela, junto

    Catraia Cimeira (uma caverna, perguntando se seria natural ou

    artificial) (Antunes, 2008: 153). Explormos esta pista. Estivemos em

    Catraia Cimeira e ningum conhecia o stio da Capela. A actual capela

    foi construda depois da data do registo de 1903 e tambm ningum

    conhecia uma caverna nem um stio com o nome Capela, como

    mencionada por Tavares Proena. Estaria aquele investigador a referir-

    se ao stio da Buraca da Moura de Cho de Galego que fica a curta

    distncia de Catraia? Refira-se, por semelhana, a informao a uma

    cavidade denominada Igreja dos Mouros, na Serra do Moradal, uma

    outra crista quartztica situada a Norte das Talhadas.

    1. A Serra das Talhadas

    A Serra das Talhadas fica no centro interior de Portugal e tm a

    orientao, NNW-SSE. Geologicamente constituda por uma

    imponente crista de quartzitos do Ordovcico Inferior, que emergem da

    plataforma de metagrauvaques e xistos que constitui o Grupo das Beiras

    (Carvalho et al., 2006), do Neoproterozico. Alm dos quartzitos, que

    podem encontrar-se dobrados em sinclinal, ocorrem no seu interior

  • PINTURAS RUPESTRES PR-HISTRICAS NA SERRA DAS TALHADAS (PROENA-A-NOVA). PRIMEIRA NOTCIA Francisco Henriques, Mrio Chambino, Joo Carlos Caninas, Andr Pereira e Emanuel Carvalho

    AAFA On Line, n 4 (2011) Associao de Estudos do Alto Tejo www.altotejo.org

    4

    xistos argilosos e, nas encostas, espessos depsitos de vertente. O

    contacto com o Grupo das Beiras faz-se por falhas.

    Tem 27km de comprimento e a largura varia entre os 875m e 2500m.

    Emerge a Norte no relevo de Venda (Proena-a-Nova) e termina em

    So Miguel (Nisa). As cotas da linha de cumeada variam entre 500m e

    614m, oscilando entre 300m e 400m na plataforma envolvente. Os

    pontos mais elevados ocorrem nos vrtices geodsicos de Cho de

    Galego (614m) e do Penedo Gordo (570m).

    Ao longo do seu percurso atravessa trs administraes municipais

    (Proena-a-Nova, Vila Velha de Rdo e Nisa) e tem vrias

    designaes: Serra do Cho de Galego (Figura 1), em Proena-a-Nova;

    Serra do Perdigo, Serra do Penedo Gordo e Serra da Vila, em Vila

    Velha de Rdo; Serra do Pal, Serra da Corga e Serra de So Miguel,

    em Nisa. Para a designar adoptamos a forma mais ampla de serra das

    Talhadas.

    Esta crista funciona como reserva aqufera natural, factor que poder

    justificar o assentamento de vrias dezenas de aglomerados

    populacionais nas suas encostas, tanto do lado nascente como do lado

    poente.

    Figura 1. Vista da serra das Talhadas, na rea do abrigo do Cho de Galego (Proena-a-Nova).

    atravessada perpendicularmente por falhas, onde se encaixaram os

    rios Tejo e Ocreza, formando dois geomonumentos notveis, as Portas

    de Rdo e as Portas do Almouro, respectivamente.

    A AEAT tem procurado pinturas rupestres, ao longo desta crista

    quartztica, desde h vrias dcadas. Segundo o depoimento de

    Francisco Henriques (Henriques, 2011), em texto includo nesta edio

    de AAFA on line, o interesse por esta temtica existe desde 1972, com

    as primeiras pesquisas do Grupo para o Estudo do Paleoltico Portugus

    devido, fundamentalmente, proximidade daquela serra em relao ao

    complexo de Arte do Tejo. Refira-se que a interseco geolgica entre o

  • PINTURAS RUPESTRES PR-HISTRICAS NA SERRA DAS TALHADAS (PROENA-A-NOVA). PRIMEIRA NOTCIA Francisco Henriques, Mrio Chambino, Joo Carlos Caninas, Andr Pereira e Emanuel Carvalho

    AAFA On Line, n 4 (2011) Associao de Estudos do Alto Tejo www.altotejo.org

    5

    rio Tejo e a Serra das Talhadas, as Portas de Rdo, tem sido

    considerada um axis mundi daquele complexo grfico pr-histrico

    (Gomes, 2010, entre outros textos).

    Investiram-se recursos apreciveis para atingir este objectivo, incluindo

    o empreendimento de campanhas de prospeco especficas.

    Mantnhamos a convico da existncia de pinturas antigas nesta serra,

    tendo em considerao a sua presena em relevos de idntica natureza

    na regio envolvente, com destaque para os conjuntos mais expressivos

    da Serra de So Mamede (Arronches) e da Sierra de San Pedro

    (Santiago de Alcntara) e do conjunto mais modesto, e mais prximo, da

    serra da Zimbreira (Mao). Era uma questo de persistncia.

    Entretanto, fazer prospeco ao longo de uma crista quartztica, como

    esta, no tarefa fcil. O coberto vegetal muito denso, a irregularidade

    do terreno, a saturao e cansao dos participantes (principalmente

    aps vrios dias de prospeco), a desmotivao (porque ao fim de

    tantas tentativas e tanto esforo, no se obtm resultados positivos), a

    dificuldade em chegar aos stios (agora um pouco mais facilitados

    devido abertura de caminhos florestais), e a limitao dos recursos

    para atingir, adequadamente, os 27km de serra, eram e so factores

    limitativos. Mas esta extenso tem que ser duplicada, considerando o

    lado nascente e o lado poente da crista e mais do que isso naqueles

    trechos onde o sinclinal se desdobra em duas cristas paralelas.

    O mtodo de prospeco mudou ao longo do tempo. Nas dcadas de 80

    e 90 seleccionvamos um troo da serra que se percorria

    sistematicamente, o que se traduzia num enorme esforo dedicado a

    uma rea restrita.

    Posteriormente passmos a ser mais selectivos e optmos por visitar

    locais de referncia popular, como as Buracas da Moura (Gavio, Vale

    do Cobro, Rabacinas e Cho de Galego), massas rochosas com

    abrigos (lapa Cimeira, lapa Fundeira, lapa do Homem3 e abrigos da foz

    do Cobro), penhascos com designaes especficas (penha Amarela,

    na Foz do Cobro, e Galiana, em Nisa) e stios de passagem e

    atravessamento da crista (Portela da Milharia, em Alvaiade, Portas de

    Rdo, no rio Tejo, e Portas do Almouro, n