pinturas rupestres em abrigos de rocha na serra branca, morro do

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  • ANAIS do 33 Congresso Brasileiro de Espeleologia Eldorado SP, 15-19 de julho de 2015 - ISSN 2178-2113 (online)

    O artigo a seguir parte integrando dos Anais do 33 Congresso Brasileiro de Espeleologia disponvel gratuitamente em www.cavernas.org.br/33cbeanais.asp

    Sugerimos a seguinte citao para este artigo: BARBOSA, E,P.. Pinturas rupestres em abrigos de rocha na Serra Branca, Morro do Chapu, Bahia. In: RASTEIRO, M.A.; SALLUN FILHO, W. (orgs.) CONGRESSO BRASILEIRO DE ESPELEOLOGIA, 33, 2015. Eldorado. Anais... Campinas: SBE, 2015. p.21-31. Disponvel em: . Acesso em: data do acesso.

    Esta uma publicao da Sociedade Brasileira de Espeleologia. Consulte outras obras disponveis em www.cavernas.org.br

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    PINTURAS RUPESTRES EM ABRIGOS DE ROCHA NA SERRA BRANCA,

    MORRO DO CHAPU, BAHIA CAVE PAINTINGS IN ROCK SHELTERS IN THE SERRA BRANCA, MORRO DO CHAPU, BAHIA

    Elvis Pereira BARBOSA

    Universidade Estadual de Santa Cruz UESC, Ilhus BA.

    Contatos: barbosa.elvis@gmail.com; elvisb@uesc.br.

    Resumo

    Este trabalho procura evidenciar o potencial arqueolgico rupestre de reas situadas mais ao interior do

    municpio de Morro do Chapu e iniciar um debate sobre a relevncia destes stios, tendo por base a

    classificao das tradies rupestres. Apesar da exuberncia e complexidade dos seus inmeros painis, a

    regio ainda pouco estudada pela arqueologia.

    Palavras-Chave: Arqueologia; Pinturas Rupestres; Ambientes Crsticos.

    Abstract

    This paper seeks to highlight the rock archaeological potential of areas further inland of Morro do Chapu

    city and initiate a debate on the relevance of these sites, based on the classification of rock traditions.

    Despite the exuberance and complexity of its numerous panels, the region is still little studied by archeology.

    Key-words: Archaeology; Paintings Cave; Karst Environments.

    1. INTRODUO

    A Amrica o nico continente habitado pelo

    ser humano que no possui populaes nativas na

    sua origem. Os povos responsveis pela ocupao

    do continente chegaram em pocas remotas aps a

    realizao de diversas rotas migratrias que

    proporcionaram aos indivduos oriundos do

    continente asitico ou do Norte da Oceania se

    deslocarem em direo ao Novo Mundo

    (ASTIGARRAGA, 1994). As rotas migratrias

    continuam sendo motivo de intenso debate no meio

    cientfico internacional, pois ainda no foi possvel

    estabelecer um modelo que atendesse a todas as

    correntes e tendncias tericas a respeito do tema.

    A proposta explicativa mais aceita permanece

    em torno da migrao do Homem oriundo da sia,

    atravs da Berngia, para o Alasca, em momentos de

    regresso do mar. Mais tarde, em pocas de degelo,

    o Homem teria passado para o sul da Amrica do

    Norte, e depois para as Amricas Central e do Sul,

    respectivamente, atrs de rebanhos de animais da

    megafauna pleistocnica que migravam nestas

    direes.

    Salvo novas descobertas que permanecem em

    anlise, acredita-se que o povoamento da Amrica, e

    consequentemente do Brasil, ocorreu no trmino do

    Pleistoceno. Por isto convencionou-se dividir a Pr-

    Histria brasileira em dois grandes perodos: as

    culturas do Pleistoceno, anteriores a 12.000 BP, e as

    culturas do Holoceno posteriores a 12.000 BP.

    Dentre os estados brasileiros que registram a

    presena do Homem h mais de doze mil anos antes

    do presente esto: Tocantins, Minas Gerais, So

    Paulo, Mato Grosso e Piau (MORALES, 2005).

    Destarte, a ocupao da Amrica por

    populaes pr-histricas proporciona extensas

    discusses entre os diversos profissionais que atuam

    com dados ou com as disciplinas relacionadas

    Arqueologia ou Pr-histria. Os pr-historiadores

    mais romnticos defendem a hiptese de ocupao

    do continente para o perodo anterior aos 50.000

    anos BP, j os menos romnticos preferem manter

    esta data prxima aos 25.000 ~ 30.000 anos BP,

    principalmente com base nos dados encontrados no

    Nordeste do Brasil, mais precisamente no serto do

    Piau, no stio arqueolgico da Pedra Furada em So

    Raimundo Nonato.

    Mas o fato notrio que as populaes

    pretritas eram compostas basicamente por

    caadores e coletores de alimentos que ocupavam

    extensas reas territoriais para o manejo do grupo

    social, normalmente composto por um nmero

    reduzido de integrantes, uma vez que, a quantidade

    de membros paradoxalmente o maior problema

    para a sobrevivncia dos grupos que ainda no

    dominavam a horticultura e nem eram sedentrios.

    Quanto maior o nmero de pessoas no grupo,

    menores so as chances de sobrevivncia.

    http://www.cavernas.org.br/mailto:sbe@cavernas.org.brmailto:barbosa.elvis@gmail.commailto:elvisb@uesc.br

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    Portanto, o registro arqueolgico das

    populaes de caadores coletores do Brasil pr-

    histrico pode ser classificado com base em duas

    caractersticas fundamentais: o material de pedra

    encontrado em indstrias lticas e as pinturas e

    gravuras rupestres encontrados nos painis de stios

    arqueolgicos. Evidentemente que existem outras

    formas de identificao de material pr-histrico

    oriundo de populaes de caadores coletores, como

    por exemplo os sambaquis, mas esta uma cultura

    arqueolgica especfica e encontrada em poucos

    locais no Brasil, basicamente no litoral ou nas

    margens de rios e reas alagadas.

    No incio do Holoceno, no territrio que viria

    a se constituir o Brasil, registra-se a presena dos

    grupos caadores-coletores, horizonte cultural

    associado s indstrias lticas com fabricao de

    ferramentas, armas e adornos em pedra. No

    Nordeste, a indstria ltica da tradio Itaparica

    (estabelecida por Valentin Caldern durante os

    trabalhos do PRONAPAi) encontrada numa grande

    extenso territorial em biomas bastante diversos,

    tais como: Cerrado, Caatinga e litoral. Esta tradio

    ocorre no vale do Rio So Francisco em reas da

    Serra Geral, Central, Sobradinho e Itaparica, nos

    estados da Bahia, Pernambuco, e sudoeste do Piau

    (MORALES, 2005).

    Alm da tradio Itaparica, at o momento

    no so conhecidas outras tradies lticas de grande

    difuso no Nordeste.

    Aps essa tradio ltica no parece ter

    havido, no Nordeste, uma outra tecnologia de

    confeco de instrumentos que se tenha

    difundido por grandes extenses. Pelo

    contrrio, os estudos arqueolgicos permitem

    pensar que houve um florescimento de

    indstrias locais, em diferentes perodos,

    fazendo uso de vrios recursos tcnicos,

    tornando difcil uma verdadeira identificao

    de conjunto (ETCHEVARNE, 1999-2000, p.

    120)

    Apesar dos avanos nas pesquisas

    arqueolgicas, ainda existem algumas controvrsias

    em relao ocupao do territrio brasileiro.

    Anne-Marie Pessis (1999) uma das defensoras da

    chegada do Homem regio da Serra da Capivara

    no serto do Piau para um perodo situado entre 50

    mil e 12 mil anos. Segundo ela, esta extensa faixa

    cronolgica corresponde ao perodo mido na

    regio do Parque Nacional, onde as populaes do

    Pleistoceno se instalaram muito lentamente,

    desenvolvendo uma cultura adaptada s condies

    do meio ambiente. (PESSIS, 1999, p. 63).

    Para Pessis, muitos vestgios da cultura

    material desse perodo se desintegraram pela

    fragilidade de suporte. A cestaria e o tranado,

    tecnologias que devem ter existido, no suportaram

    os efeitos do tempo e da umidade. O mesmo

    aconteceu com todas as outras matrias-primas.

    (1999, p. 63). Assim, os vestgios que restaram

    foram os artefatos lticos e principalmente as

    pinturas e/ou gravuras registradas nas rochas

    encontradas nos diversos espaos do interior do

    Brasil.

    Apesar de terem sido por um longo tempo a

    principal morada do homem, ao contrrio do que se

    pode imaginar, nem sempre as populaes usavam

    os abrigos de rocha como moradia:

    Os abrigos sob rochas das serras no

    eram utilizados como lugares de habitao.

    Muitos deles tinham depresses rochosas

    onde se acumulava gua da chuva, localmente

    denominadas caldeires, sendo frequentados

    para outros usos como pontos de caa,

    aproveitando a vinda de animais para beber.

    Como lugares de moradia foram escolhidos

    outros espaos, independentemente do grau

    de nomadismo ou sedentarismo: locais mais

    abertos, como na desembocadura de

    boqueires, em vales largos, no alto das

    chapadas, perto de fontes de gua, de rios ou

    de crregos que eram abundantes nesta poca

    mida. (PESSIS, 1999, p. 64).