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  • RFPTD, v. 3, n.3, 2015

    PIKETTY E A REFORMA TRIBUTRIA IGUALITRIA NO BRASIL

    Ricardo Lodi Ribeiro*

    "Aqueles que possuem muito nunca se esquecem

    de defender seus interesses. Recusar-se a fazer contas

    raramente traz benefcios aos mais pobres."

    (Thomas Piketty, O Capital no Sculo XXI)

    Resumo:

    A publicao da obra O Capital no Sculo XXI, de Thomas Piketty, demonstra que o aumento da

    desigualdade social, nas ltimas dcadas, levou ao quadro atual em que os 0,1% mais ricos

    detenham 20% do patrimnio global; os 1% que esto na parte superior da pirmide social, perto de

    50% e os 10% superiores, entre 80 a 90%. Para combater essa tendncia natural do capitalismo

    concentrao de riquezas, o autor francs prope uma srie de medidas tributrias como o aumento

    da tributao das rendas, heranas e patrimnio, a partir do incremento da progressividade, a

    introduo de um imposto sobre grandes capitais em escala mundial e a adoo da transparncia

    internacional como forma de combater a concorrncia fiscal entre pases. O artigo procura analisar

    as possibilidades de adoo dessas medidas no Brasil, a partir da introduo de uma reforma

    tributria igualitria, que possa contribuir para a reduo da desigualdade social em nosso pas.

    Palavras-Chaves: Desigualdade. Tributao Justa. Progressividade. Imposto de Renda. Imposto

    sobre Grandes Fortunas. Transparncia Internacional.

    Sumrio

    I) Introduo. II) A escalada da desigualdade no final do sculo XX. III) A tributao como mecanismo de combate s desigualdades sociais. IV) A base tributria e a desigualdade. V) A

    progressividade dos impostos sobre a renda. VI) A tributao sobre o capital e o imposto sobre

    grandes fortunas. VII) Globalizao, concorrncia tributria internacional e transparncia fiscal.

    VIII) Concluses. * Professor Adjunto de Direito Financeiro da UERJ. Coordenador do Programa de Ps-Graduao em Direito da UERJ. Ex-Procurador da Fazenda Nacional. Presidente da Sociedade Brasileira de Direito Tributrio (SBDT). Advogado e Parecerista.

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    I) Introduo

    A publicao, em 2014, da obra O Capital no Sculo XXI, do economista

    francs Thomas Piketty1, representou no s um enorme fenmeno editorial, como um

    grande acontecimento nos debates econmicos, filosficos e polticos, no que tange ao

    estudo do tema da desigualdade entre ricos e pobres ao longo dos ltimos sculos nos

    pases capitalistas.

    Ao contrrio do que o ttulo pode sugerir, no se trata de uma obra que procure

    adaptar as ideias de Karl Marx ao sculo XXI. Apesar de reconhecer o acerto, em parte, do

    diagnstico marxista quanto acumulao de capital inerente ao sistema de produo

    capitalista, Piketty demonstra que Marx foi refm, no sculo XIX, da inexistncia de bases

    de pesquisa de dados histricos sobre a evoluo do patrimnio e da renda, bem como da

    desconsiderao da varivel referente ao avano tecnolgico como mecanismo capaz de

    viabilizar o infinito crescimento do capital privado.

    E esse alicerce em fartos dados histricos o grande trunfo da obra de Piketty.

    Concorde-se ou no com as solues por ele propostas, indiscutvel a solidez das bases de

    informaes que ele utiliza em suas anlises, a partir de um esforo, sem precedentes

    comparveis at hoje, de compilar a evoluo de renda e do capital nos ltimos duzentos

    anos, em 20 pases2, em especial nos EUA, Reino Unido, Frana, Alemanha, Sucia, Itlia,

    Canad, Austrlia e Japo.

    Apesar da concluso de que a concentrao de renda e de capital inerente ao

    modo de produo capitalista, e de que a partir dos anos de 1980 a desigualdade social tem

    aumentado a nveis comparveis ao final do sculo XIX, Piketty no prope a superao do

    capitalismo. Ao contrrio, defende a adoo de medidas baseadas no liberalismo a partir do

    compromisso ideal entre justia social e liberdade individual3, necessrio para a salvao

    1 PIKETTY, Thomas. O Capital no Sculo XXI. Trad. Mnica Baumgarten de Bolle. Rio de Janeiro: Intrseca, 2014.

    2 O Brasil no foi estudado na obra, segundo o autor, em razo da ausncia de acesso aos dados fiscais pela Secretaria da Receita Federal

    do Brasil, o que comea a ser revertido mais recentemente.

    3 PIKETTY. O Capital no Sculo XXI, p. 492.

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    da liberdade em um mundo globalizado, j que, na sua concepo, a democracia estaria

    condenada pelo aumento vertiginoso da desigualdade.4

    Nesse combate s desigualdades comprometedoras do desenvolvimento do

    capitalismo e do livre mercado, prope Piketty como principais medidas o aumento da

    tributao dos mais ricos, com o incremento da progressividade do imposto de renda e do

    imposto sobre heranas, a introduo de um imposto mundial sobre o capital e o combate

    concorrncia tributria entre pases por meio da transparncia fiscal internacional.

    Como tais propostas causam grande impacto na base tributria dos Estados

    nacionais, importante identificar de que forma se coadunam com o sistema tributrio de

    cada pas. O presente estudo tem como objetivo a anlise dessas ideias luz do sistema

    tributrio brasileiro.

    II) A escalada da desigualdade no final do sculo XX

    A partir do exame da evoluo da renda e do patrimnio em duas dezenas de

    pases desenvolvidos e emergentes nos ltimos dois sculos, Piketty constata que a

    desigualdade entre ricos e pobres tende sempre a aumentar na medida em que a taxa de

    rendimento do capital (r) torna-se maior do que a taxa de crescimento da renda e da

    produo nacionais (g). Sempre que r > g a desigualdade aumenta pois os patrimnios

    originados no passado se recapitalizam mais rapidamente do que a progresso da produo

    e dos salrios. Segundo Piketty5:

    Essa desigualdade exprime uma contradio lgica fundamental. O

    empresrio tende inevitavelmente a se transformar em rentista e a

    dominar cada vez mais aqueles que s possuem sua fora de trabalho.

    4 Sobre a incompatibilidade da democracia com os altos graus de desigualdade e excluso social, vide: FORRESTER, Viviane: O Horror

    Econmico. Trad. lvaro Lorencini. So Paulo: UNESP, 1997 e BECK, Ulrich. Liberdade ou Capitalismo Ulrich Beck conversa com

    Johanes Willms. Trad. Luiz Antnio Oliveira de Arajo. So Paulo: UNESP, 2000.

    5 PIKETTY. O Capital no Sculo XXI, p. 555.

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    Uma vez constitudo, o capital se reproduz sozinho, mais rpido do que

    cresce a produo. O passado devora o futuro.

    Essa dinmica tende a ser exacerbada no sculo XXI quando se espera,

    como demonstra o autor, que as taxas de crescimento econmico gravitem em torno de 1 a

    1,5% ao ano, enquanto a remunerao do capital em mdia dever ficar situada na faixa

    anual de 4 a 5%. De acordo com o estudo, o crescimento futuro dos pases j

    desenvolvidos no deve superar esse patamar, ao contrrio do que ocorreu na fase urea do

    sculo XX, dos anos de 1950 a 1970, em funo dos investimentos na reconstruo e na

    recuperao da economia aps as duas Guerras Mundiais. Presentemente, crescimento

    mais elevado s ser encontrado nos pases emergentes, que ainda guardam um dficit a ser

    superado em relao aos pases mais desenvolvidos. Superado esse dficit, o crescimento

    tende a diminuir.

    A esse fenmeno soma-se o fato de que as taxas de retorno do capital tendem a

    aumentar, e at a dobrar, de acordo com o seu tamanho inicial, uma vez que os grandes

    investidores costumam encontrar melhores rendimentos se comparados aos pequenos

    poupadores.6

    Esses dois fatores somados levam a um natural aumento da desigualdade, como

    sempre aconteceu no sistema capitalista, que tende inercialmente a acumulao de capital,

    como destaca Piketty7:

    "O problema que a desigualdade r > g, reforada pela desigualdade

    dos rendimentos em funo do tamanho do capital, conduz

    frequentemente a uma concentrao excessiva e perene da riqueza: por

    mais justificveis que elas sejam no incio, as fortunas se multiplicam e

    se perpetuam sem limites e alm de qualquer justificao racional

    possvel em termos de utilidade social.

    Essa tendncia natural concentrao de riquezas no sistema capitalista s foi

    atenuada ao longo do sculo XX, em virtude das duas Guerras Mundiais e da Crise

    6 PIKETTY. O Capital no Sculo XXI, p. 420.

    7 PIKETTY. O Capital no Sculo XXI, p. 432.

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    econmica de 1929, que fizeram tbula rasa do passado, reduzindo bruscamente o retorno

    do capital, gerando a iluso da capacidade do capitalismo em superar essa contradio

    fundamental . Mas, ao contrrio dos que apontam a reduo das desigualdades na segunda

    metade do sculo XX como prova de que o desenvolvimento do capitalismo e o avano

    tecnolgico levariam a reduo das divergncias entre o topo e a base da pirmide social,

    Piketty sustenta que a convergncia verificada no perodo fruto dos referidos acidentes

    histricos que, embora no possam ser previstos ou planejados, no so inerentes

    acumulao de riquezas no capitalismo.8

    Porm, as distines na desigualdade de renda e de patrimnio verificadas entre os

    variados perodos histricos e pases pesquisados, embora sutis, no so desprezveis, e se

    devem poltica tributria adotada pelos Estados nacionais, como o caso da introduo da

    tributao pro