PHOTOGRAFIA: DISCREPÂNCIA NAS MENSAGENS E Leite... · por Henri Cartier-Bresson e Roland Barthes,…

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PHOTOGRAFIA: DISCREPNCIA NAS MENSAGENS E FICO NA

CONSTRUO Sionelly Leite1

Universidade Tuiuti do Paran (UTP)

Resumo: O objetivo deste artigo discutir uma fotografia feita por Sebastio Salgado, em 1996, durante invaso de uma fazenda no interior do Paran, sob a interpretao que o socilogo Jos de Souza Martins defende: a de que essa fotografia no um flagrante documental, mas sim o registro de uma cena encenada. Discutem-se os efeitos sentidos com a quebra do clmax e do aspecto casual, caractersticas tpicas do registro documental, alm dos valores da imagem a partir das representaes ficcional e documental, no debate de conceitos como o momento decisivo e o isto foi, trazidos por Henri Cartier-Bresson e Roland Barthes, respectivamente; alm da contribuio de Franois Soulages nos estudos da esttica da encenao. Palavras-chaves: teorias da imagem; experincia esttica; Sebastio Salgado.

Introduo

Em artigo analtico, o socilogo Jos de Souza Martins2 (2008) discute as bases

para a construo da imagem documental, e traz como objeto emprico de anlise uma

das fotografias feitas por Sebastio Salgado em 1996. Tomada durante invaso da

Fazenda Giacometti, no Paran, ela contm a seguinte legenda: A luta pela terra: a

marcha de uma coluna humana.3 Ao fazer uma avaliao tcnica, sociolgica e

interpretativa da imagem, o socilogo reconstri a cena, afirma que a mensagem do

conjunto lhe causa impacto e confronta (MARTINS, 2008, p.133): (...) o socilogo que

sou me diz logo que essa foto tambm um conjunto de discrepncias entre o que se v

e o que no se v primeira vista. O que o autor afirma que, conforme so

interpretados os elementos contidos na fotografia, apontam-se aspectos que indiciam

uma construo ficcional, em que a disposio dos signos pode ter sido pr-planejada

para causar um determinado efeito e conter uma devida mensagem.

Alerta-se, assim, para a possibilidade de uma teatralizao da cena, e sob esse

aspecto, para Martins, o acaso e o flagrante so eliminados da fotografia, como tambm

o carter de reprter da pessoa que fotografa. Com a perda do aspecto casual, os

personagens no mais lutam, e sim fazem pose para Salgado, o qual age espera do 1Graduada em Comunicao Social, com habilitao em Jornalismo, pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal); ps-graduada em Fotografia: Prxis e Discursos Fotogrficos pela Universidade Estadual de Londrina (Uel) e mestranda em Comunicao e Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paran (UTP). 2 MARTINS, Jos de Souza. Sebastio Salgado: A epifania dos pobres da terra. In: Mammi, Lorenzo e Schwarcz, Lilia. (Org.). 8 vezes fotografia, 2008. 3 SALGADO, Sebastio. Terra, 1997.

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acontecimento em cena, assim como os fotgrafos contratados para registrar um

casamento. Para validar a discusso, vale ressaltar que se considera, aqui, o carter

documental segundo descrio de Pepe Baeza4 (2001), para o qual:

La fotografia documental se pasa em su compromiso com la realidad y los stilos que adopte o los canales de difusin que utilice son factores secundrios de clasificacin respecto a este parmetro principal. Se usa corrientemente el trmino documentalismo para designar aquellos trabajos que, exhibidos em galerias o em forma de libro, tratan temas estructurales y se realizan con amplios mrgenes de tiempo y reflexin. (BAEZA, 2001, p.41)

Salgado trata de temas de ordem social e exibe seus trabalhos em galerias de arte

e livros luxuosos, mas outro o aspecto que incomoda Martins: a lacuna aberta ao se

perceber, na imagem em anlise, o oposto de um flagrante documental: a fico. Para a

discusso, Martins debate alguns pontos importantes, dentre os quais destaco o

momento decisivo, designado por Henri Cartier-Bresson5 (1952), e o isto foi, de que fala

Roland Barthes6 (1980), ambos referentes ligao do objeto com sua imagem.

1, 2, 3 e... Sebastio Salgado entra em cena

Figura 1

A luta pela terra: a marcha de uma coluna humana Autor: SALGADO, Sebastio

Fonte: Terra Ano: 1996

4 BAEZA, Pepe. Por uma funcin crtica de la fotografia de prensa, 2001. 5 CARTIER-BRESSON, Henri. El instante decisivo, 2003. 6 BARTHES, Roland. A cmara clara, 2009.

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Conhecido como um dos mais importantes fotodocumentaristas

contemporneos, o brasileiro Sebastio Salgado traz em grande parte de seus registros

fotogrficos temas referentes denncia social e igualdade dos direitos. Retratar as

minorias lhe rende crticas diversas, entre aqueles que advertem que seu trabalho

estaria ligado explorao dos desfavorecidos e os que acreditam na coragem de seu

apoio a causas nobres. Repercusses de causa parte, suas imagens chamam

ateno por seu refinamento esttico, pelos cuidados com o enquadramento, tonalidades

de cinza, nitidez e outros aspectos visuais. O fotgrafo alcanou a marca de mais de 10

livros publicados, trazendo fotografias de paisagens e fenmenos de diversos lugares do

mundo, desde pases latino-americanos a africanos e asiticos. Com seu trabalho

reconhecido em grande parte do mundo, tambm vencedor de centenas de prmios

internacionais, dentre os quais recebeu na Holanda, em 1995, o Prmio World Press

Photo, um dos mais apreciados nos sistemas de arte.

Uma das imagens (Figura 1), publicada no livro Terra, feita em 1996 na Fazenda

Giacometti no interior do Paran (Brasil), analisada pelo fotgrafo e socilogo Jos de

Souza Martins (2008) sob o prisma da imagem documental, categoria referente s

imagens de Salgado. A escolha da imagem logo justificada no incio de seu texto:

Essa fotografia de Salgado, em especial, contm vrias e desencontradas mensagens. Contm o que o autor quis mostrar e o que no sabia estar mostrando, mas pode ser visto mediante anlise do contedo da foto. Ela extensamente reveladora luz do que tenho definido como sociologia do conhecimento visual. Essa a razo da minha escolha. (MARTINS, 2008, p.137)

Numa profunda avaliao esttica, tcnica e sociolgica, a detalhada

interpretao de Martins sobre a imagem de Salgado revela alm do que o fotgrafo

provavelmente pretenderia mostrar, pois o fingimento teria sido necessrio para se

fabricar um sentido na imagem. Para Martins (1999, p. 140) (...) nessa fotografia de

Salgado, o momento decisivo fingido. mais teatral que pictrico. Desta forma teria

sido necessria a interveno direta do fotgrafo na construo e disposio dos

elementos no quadro, j que, continua o socilogo, (MARTINS, 1999, p.140) o

fotgrafo no a apenas o fotgrafo, mas o cmplice que conhece o enredo e sabe

qual ser o desfecho., considera.

Para se chegar a essa sntese, o autor inicia o texto descrevendo os elementos da

imagem. A linha formada pela multido conduz o olhar a um passeio por boa parte da

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fotografia: uma romaria estaria representando simbolicamente a busca da Terra

Prometida, a narrativa bblica referente a Moiss e seus seguidores. As bandeiras

trazem smbolos do movimento social sem-terra e mostram quem so os participantes

do ato; j a travessia da porteira identificada como uma ruptura com o sistema, e a

invaso como uma reivindicao pelo direito estendido a todos.V-se um homem que

levanta uma foice de roar frente de todos os outros: eis o lder apontado o rumo da

caminhada, indicando, nas palavras de Martins (1999, p. 133) que ali a roada outra.

Alm desse indicativo, a foice se encontra virada com a ponta para baixo, no que se

entende a ferramenta como um simples utenslio de uso no campo; cruzando com um

martelo, smbolo referente ao proletariado, a foice voltada com a ponta para cima

representa o simbolismo visual dos partidos polticos comunistas.

Em seguida, numa anlise tcnica, o autor descreve o ngulo da tomada: o

fotgrafo fez a imagem de dentro da fazenda para ter uma dimenso de profundidade, a

fim de assegurar ao fundo a vista da multido insurgente e a invaso a partir da porteira

rompida. E a partir dessa observao que Martins atenta para a entrada do fotgrafo

na cena: ao estar do lado de dentro da fazenda, Salgado teria sido o primeiro

personagem a entrar no lugar, e sua antecipao teria rompido o clmax e a proposta

aparente da imagem pela ocupao forada dos sem-terra na fazenda.

Nessa deduo, Martins se apoia na abordagem da interferncia do fotgrafo na

cena e na construo simblica. H outros fatores que denunciam a defesa de tal

deduo, como a vista de homens mais ao fundo de braos cruzados, sem expresso de

reivindicao ou luta; ou ainda a presena da multido em um lugar afastado do centro

urbano, que normalmente o palco para os protestos, j que acontecem para serem

vistos e midiatizados. E mais: a presena de apenas um fotgrafo, um [sortudo]

fotgrafo [transeunte] que flagrou a cena. Com base nessas e outras observaes, a

fazenda no interior do Paran se torna palco para o teatro esboado por Salgado, e o

calor do espetculo congelado quando Salgado o registra.

Com isso, Martins passa a discutir a questo documental da imagem e surge a

questo: afinal, quais os efeitos de sentido causados pela construo simblica

antecipada do ato fotogrfico de Salgado? A partir da anlise de conceitos como o

momento decisivo descrito por Cartier-Bresson, e o isto foi de fala Roland Barthes, na

avaliao iniciada por Jos de Souza Martins, trago discusso o carter representativo

da fotografia e sua crena quanto dimenso mgica de simulacro e cpia dos

fenmenos do mundo que por tanto tempo imperou [e ainda impera] sobre si. E em

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seguida discuto sobre as representaes dos elementos visuais na fotografia e na pintura,

no que se refere ao hibridismo dessas duas representaes a partir de seus suportes, a

fim de discutir a ligao do objeto representao da sua imagem.

O momento decisivo

Nosotros, los fotgrafos, tenemos que enfrentarnos a cosas que estn em continuo trance de esfumarse, y cuando ya se han esfumado no hay nada en este mundo que la haga volver. (...) Nuestra tarea es percibir la realidad, casi simuntneamente registrarla en el cuaderno de apuntes que es nustra cmara. (CARTIER-BRESSON, 1952, p. 225)7

Nada faz o tempo voltar, nos fala Bresson em O instante decisivo (1952). O

autor lembra tambm que no h nada no mundo que faa restituir o passado. Assim

como o fogo, o tempo consome a madeira e nada faz voltar ao que era antes. como a

imagem captada na fotografia. Uma vez registrada no filme, os sais de prata so

sensibilizados pela luz e a imagem se fixa, para ento tornar-se o registro de uma

lembrana que ser dali pra frente rememorada.

Para Bresson, h um instante no tempo em que os elementos se encontram em

perfeita harmonia, um ponto exato inscrito na banalidade do cotidiano, um

enquadramento de elementos banais transformados em uma cena nova. Aquilo que o

fotgrafo chama de momento decisivo o momento nico do tempo num

determinado espao, em que possvel registrar com equilbrio a composio dos

elementos, das formas geomtricas que compem uma linguagem visual. Observado

como uma estratgia de composio do quadro, o decisivo momento de apertar o boto

se enquadra em um momento mgico em que os elementos ganham sentido e

equilbrio quando enquadrados no devido tempo.

Trabajamos en unicidad com el movimiento como algo premonitrio de cmo la vida misma se desarrolla y mueve. Pero dentro del movimiento hay um momento en el cual los elementos que se mueven logran un equilbrio. La fotografia debe capturar este momento y conservar esttico su equilbrio. (CARTIER-BRESSON, 1952, p.229)8

7 CARTIER-BRESSON, Henri. El instante decisivo. In: Esttica fotogrfica, 1952. 8 Idem nota 6.

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Trazendo a discusso bressoniana para a fotografia de Salgado, Martins (2008,

p.140) afirma que na imagem em questo, o momento decisivo no de escolha livre

do fotgrafo. A fotografia em anlise no seria possvel sem o fingimento, sem a pr-

visualizao do fotgrafo. O momento decisivo anulado porque no h o calor do

momento, no h um flagrante, no h uma livre escolha do fotgrafo para a tomada.

A imagem foi tomada sabendo no que resultaria, foi antes visualizada na imaginao de

Salgado, a fim de que ao ser submetida trouxesse como efeito uma mensagem pronta.

Continua Martins (2008, p.140) antes a emoo do ato fotografado, uma emoo que

o esttico recoberto pelo poltico. No quem v que imagina a partir de um cdigo

esttico. quem age que quer propor a quem v, atravs da fotografia, o que deve

imaginar. Salgado no estaria aberto ao acaso, sabendo exatamente o que deveria

fotografar, esperando e fazendo com que o objeto a ser registrado se constitusse bem

a sua frente, a sua espera.

A tese do momento decisivo pressupe no s o fotgrafo aberto para o acaso da imagem, porque aberto a certeza da criao artstica e seus cnones. Ela pressupe tambm que o expectador da fotografia veja com a mesma liberdade a fotografia resultante. Talvez por isso Salgado seja to enftico na recusa do reconhecimento da dimenso esttica de sua obra fotogrfica, em particular de fotografias como essa. (MARTINS, 2008, p.p. 140-141)

E o fotgrafo se torna ento o diretor da cena, a fim de construir imageticamente

uma mensagem pr-programada. O momento decisivo no partiria, aqui, de um

momento mgico deslumbrado pelo fotgrafo, mas de um momento antecipado, por isso

Martins (2008, p.134) afirma que o conjunto da imagem lhe causa impacto. No somos

surpreendidos pelo momento de ruptura. mais teatral que pictrico. So o clculo, a

certeza, e no o casual, que propem as bases de criao dessa fotografia, acompanhado

ainda de uma certeza imaginativa e uma certeza documental., descreve Martins. (2008,

p.140)

Assim, na perspectiva da avaliao de Martins, ao retratar o teatro montado, a

fotografia de Salgado se perde nos discrepantes efeitos e nas dspares mensagens, o que

elimina o flagrante e seu carter documental. Discutido o momento decisivo, a vez

de refletir o derradeiro tpico, a respeito do isto foi de que fala Roland Barthes. A

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partir dessa reflexo, permitir-se- divagar a re...

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