Petrobras em marcha forçada

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  • Universidade Federal do ABC

    Ncleo de Estudos Estratgicos sobre Democracia,

    Desenvolvimento e Sustentabilidade

    Textos para Discusso

    Petrobras em marcha forada

    Prof. Dr. Giorgio Romano Schutte

    So Paulo, abril de 2016

  • Textos para Discusso 001/abril de 2016 Pgina 2

    Textos para Discusso uma publicao do Ncleo de Estudos Estratgicos sobre

    Democracia, Desenvolvimento e Sustentabilidade (NEEDDS) da Universidade

    Federal do ABC.

    Contato: needds@ufabc.edu.br

    ISSN: 2525-4405

    Comit editorial: Arilson Favareto, Cristina Reis, Giorgio Romano Schutte, Klaus

    Frey, Thiago Fonseca Morello

    Edio: 001/2016

    Autor: Giorgio Romano Schutte

  • Textos para Discusso 001/abril de 2016 Pgina 3

    ndice

    Introduo..........................................................................................................................4

    1.Trajetria histrica da explorao de petrleo no Brasil: do estabelecimento do

    monoplio da Petrobras at a abertura liberal...................................................................6

    2. Busca de novos rumos e a Petrobras at a descoberta do Pr-Sal...............................24

    2.1 Contexto da busca de um novo desenvolvimentismo...............................................24

    2.2 Tentativa de retomada do desenvolvimentismo e a Petrobras..................................28

    3. Reposicionamento da Petrobras a partir das descobertas no Pr-Sal..........................33

    3.1 Passaporte para o futuro ou maldio....................................................................33

    3.2 Era do Pr-Sal............................................................................................................37

    3.2.1 Moderada reestatizao..........................................................................................49

    3.3 Petrobras no primeiro governo Dilma.......................................................................53

    3.3.1 Reafirmao da poltica de contedo local.............................................................53

    3.3.2 Duplo descasamento...............................................................................................56

    4. Crise da Petrobras em marcha forada........................................................................60

    4.1 Outro olhar.................................................................................................................73

    4.2 Sob ataque..................................................................................................................76

    5. Consideraes Finais...................................................................................................85

    6. Referncias bibliogrficas...........................................................................................90

  • Textos para Discusso 001/abril de 2016 Pgina 4

    Tabelas, Grficos e Quadro

    Tabela 1 Evoluo da produo interna e consumo domstico no Brasil

    Entre 1978 e 1986............................................................................................................17

    Tabela 2 Evoluo dos investimentos programados da Petrobras 2006-2015.............40

    Tabela 3 Evoluo da conta de petrleo e de derivados do Brasil 2006-2014.............43

    Tabela 4 ndices de encadeamento do setor de Petrleo e Gs na economia brasileira

    2000-2009........................................................................................................................45

    Tabela 5 Participao do setor de Petrleo e Gs no total dos investimentos no Brasil

    2014.................................................................................................................................46

    Tabela 6 Trajetria do endividamento e alavancagem da Petrobras 2006-2015..........58

    Tabela 7 Trajetria da Receita, EBITDA e Lucro Lquido da Petrobras 2006-2015...59

    Tabela 8 Ajuste Contbil da Petrobras em 2014..........................................................67

    Tabela 9 Trajetria produo total da Petrobras 2001-2015........................................74

    Tabela 10- Estimativa de volumes recuperveis das Reservas da Petrobras no Pr-Sal

    (ainda) no contabilizadas no seu patrimnio lquido.....................................................75

    Tabela 11 Evoluo participao na produo total de petrleo no Brasil da Petrobras

    e do Grupo Shell/BG 2012-2015.....................................................................................79

    Grfico 1 Trajetria de vendas nacionais de leo Diesel, Gasolina C e Querosene para

    Avio (QAV) entre 2005 e 2014.....................................................................................41

    Grfica 2 Desembolso de recursos do Fundo da Marinha Mercantil 2002-2014.........47

    Grfico 3 Trajetria do emprego direto da indstria naval no Brasil 1970-2015.........64

    Grfico 4 Trajetria do valor das aes da Petrobras entre outubro 2014 e dezembro

    2015.................................................................................................................................65

    Grfico 5 Trajetria do preo de petrleo entre outubro 2014 e dezembro 2015.........66

    Grfico 6 Trajetria do cmbio BRL/US$ entre outubro 2014 e dezembro 2015.......69

    Grfico 7 Trajetria de Reservas Totais e Provadas no Brasil 2006-2014...................74

    Quadro 1 Curva de aprendizagem na construo de navios petroleiros no Brasil 2010-

    2012.................................................................................................................................48

  • Textos para Discusso 001/abril de 2016 Pgina 5

    Petrobras em marcha forada

    Quis criar a liberdade nacional na

    potencializao das nossas riquezas

    atravs da Petrobrs, mal comea

    esta a funcionar, a onda de agitao

    se avoluma.

    Getlio Vargas,

    24 de agosto de 19541

    Introduo

    A partir de meados de 2014, por fatores exgenos e endgenos, a Petrobras foi obrigada

    a mudar sua estratgia de expanso iniciada em 2007. Com isso, ganhou tambm fora a

    discusso sobre uma reviso do marco regulatrio para a explorao e produo do

    petrleo e gs nas reas do Pr-Sal, aprovado em dezembro de 2010. Neste ensaio,

    pretende-se analisar a discusso instaurada sobre o futuro da Petrobras a partir da sua

    trajetria e retomar o debate histrico que sempre esteve presente no Brasil a respeito do

    papel do governo, da estatal, das multinacionais e das empresas privadas nacionais no

    setor de petrleo. Um debate que dialoga com as vrias concepes de desenvolvimento

    que disputaram a hegemonia ao longo do perodo em anlise.

    Em meados da dcada de 2000, o governo empenhava-se para tentar promover,

    lanando mo de polticas industriais, um novo ciclo de investimentos, principalmente

    por meio do Programa de Acelerao do Crescimento (PAC). A descoberta de

    gigantescos reservatrios de petrleo e gs (P&G) em guas ultraprofundas2 nas

    provncias chamadas de Pr-Sal aconteceu exatamente nesse momento, o que levou o

    governo a interromper as rodadas de licitaes e estudar a melhor forma de aproveitar

    essas reservas, com ateno para o potencial de requalificar o parque industrial

    brasileiro, considerando as estimativas de uma demanda domstica que poderia chegar a

    1 http://www0.rio.rj.gov.br/memorialgetuliovargas/conteudo/expo8.html

    2 So diferenciadas trs situaes, partindo da distncia vertical ente a superfcie do mar e o solo marinho

    (lmina dgua): guas rasas at 300 metros, guas profundas entre 300 e 1500 metros; e ultra profundas

    acima de 1500m.

  • Textos para Discusso 001/abril de 2016 Pgina 6

    US$ 400 bilhes somente at 20203, envolvendo setores de mquinas, equipamentos e

    construo naval, bem como setores de comrcio e servios relacionados. Aps dois

    anos de intensa discusso, o governo conseguiu, no meio do ano eleitoral de 2010,

    aprovar a introduo de um marco regulatrio da explorao e produo de P&G para

    estas reas e organizar uma megacapitalizao da Petrobras. A esta altura, a explorao

    de P&G j respondia por mais de 30% da totalidade dos investimentos programados no

    mbito do PAC e mais de 10% da Formao Bruta do Capital Fixo (FBCF). A hiptese

    que a mudana do marco regulatrio expresse a viso do governo Lula sobre

    estratgias de desenvolvimento e no teria acontecido em outro governo, ou mesmo no

    primeiro mandato de Lula, quando a viso desenvolvimentista estava ainda para se

    afirmar, o que aconteceria justamente com o PAC. A palavra-chave para a utilizao do

    Pr-Sal como alavanca para o desenvolvimento industrial o contedo local. Crticas

    identificam na utilizao ampla desse conceito um retrocesso das polticas de

    substituio de importaes da poca nacional-desenvolvimentista, mas a defesa desse

    conceito estava no centro da poltica governamental. Esse debate, que se confunde com

    crticas gesto da Petrobras, remete a discusses profundas sobre a relevncia e as

    oportunidades de polticas industriais no sculo XXI e a estratgias para o

    desenvolvimento do pas.

    Na primeira seo, ser feita uma retrospectiva da trajetria histrica, e, na segunda,

    apresentado o debate sobre a tentativa de retomada de polticas desenvolvimentistas a

    partir de 2003 e o impacto disso sobre a Petrobras at as descobertas do Pr-Sal. Na

    terceira seo ser apresentada a poltica adotada a partir de 2007 at a crise da

    Petrobras, em meados de 2014. Na quarta seo entraremos nos fatores exgenos e

    endgenos da crise da Petrobras entre meados de 2014 e o incio de 2016. Nesta seo

    ser apresentado tambm o debate sobre a sada da crise, seguido das consideraes

    finais.

    3 Esta estimativa foi fruto de um estudo encomendado pela Organizao Nacional da Indstria do Petrleo

    (ONIP) publicado em 2010.

  • Textos para Discusso 001/abril de 2016 Pgina 7

    1. Trajetria histrica da explorao de petrleo no Brasil: do estabelecimento

    do monoplio da Petrobras at a abertura liberal

    Vaitsman (2001, p. 36) noticia o registro do primeiro pedido para pesquisa de petrleo

    no Brasil em 1865, somente seis anos aps a primeira descoberta por Edwin L. Drake,

    nos EUA, e um decreto de 1869 concedendo permisso ao ingls Eduardo Pellew

    Wilson para explorar petrleo em Mara (Bahia), sem desdobramentos. A Constituio

    de 1891 estabeleceu, em seu art. 72, pargrafo 17, no novo inciso b) que As minas

    pertencem aos proprietrios do solo, salvo as limitaes que forem estabelecidas por

    lei a bem da explorao deste ramo da indstria. Ainda na Velha Repblica surgiu um

    debate sobre a oportunidade de introduzir o princpio da socializao destas riquezas no

    subsolo e, em 1926, na reforma constitucional, acrescentou-se ao artigo citado que As

    minas e jazidas minerais necessrias segurana e defesa nacionais e as terras onde

    existirem no podem ser transferidas a estrangeiros. Vaitsman (2001, p. 47) alega que

    esta norma foi ruidosamente desrespeitada em vrios Estados. Ainda no se tinha

    encontrado uma gota de petrleo em solo brasileiro, mas no ano seguinte foi

    apresentado, pela primeira vez, um projeto de lei especfico sobre o petrleo

    (BERCOVICI, 2011, p. 88/89) em defesa da nacionalizao de eventuais jazidas

    petrolferas, dada sua importncia estratgica. No faltou quem defendesse uma soluo

    cosmopolita, com a proibio de diferenciar, perante a lei, entre brasileiros e

    estrangeiros.

    Com a Revoluo de 1930 mudou o contexto poltico. Embora, como afirma Corsi

    (1999), no houvesse clareza sobre os rumos a tomar e o papel da indstria, existia a

    busca de novos caminhos e um sentimento nacionalista forte. Diante disso, a

    Constituio de 1934 introduziu, em seu artigo 118, o princpio da propriedade coletiva

    das riquezas no subsolo, vigente at agora no Brasil e praticamente no mundo inteiro,

    com a notria exceo dos EUA. O artigo 119 acrescentou que as autorizaes ou

    concesses sero conferidas exclusivamente a brasileiros ou a empresas organizadas

    no Brasil. Vaitsman alega que a presso dos nacionalistas, como General Juarez

    Tvora e Monteiro Lobato, para tal mudana de paradigma ganhara fora em reao s

    concesses na Amaznia, dadas a trs companhias organizadas especialmente para

  • Textos para Discusso 001/abril de 2016 Pgina 8

    pesquisas petrolferas e pertencentes a um nico consrcio internacional, Standard Oil

    New Jersey, a futura Esso (idem, p.55).

    Na ausncia de reservas de carvo em grande escala e com a procura de um projeto

    nacional independente, aumentou o interesse do governo, sobretudo da ala militar

    nacionalista, na questo do petrleo. Particularmente na Bahia houve vrias tentativas

    de encontrar petrleo, desde a segunda metade do sculo XIX, mas foi na dcada de

    1930 que o Governador Juraci Magalhes demonstrou um interesse oficial por esta

    explorao. De acordo com Delmo, Hlio e Mauro Vaitsman (2001, p. 169/170), neste

    perodo, porm, a imprensa divulgou numerosas teses afirmando no haver no Brasil

    uma s gota de petrleo. E As companhias petrolferas estrangeiras pautadas em tal

    equivoco desenvolveram uma propaganda enganosa, destinada a provar que no havia

    petrleo no Brasil. Bercovici (2011, p 101/102) relata a polmica em torno dos

    tcnicos estrangeiros contratados para prestar servio para o Departamento Nacional de

    Produo Mineral (DNPM), que teriam sido beneficiados privadamente por

    informaes e atestavam que na rea do Recncavo no poderia existir petrleo. O

    mercado brasileiro de combustveis era abastecido pelas grandes companhias (com

    destaque para Standard Oil New Jersey, Shell e Texas Company) a partir das suas

    refinarias nos EUA e em Aruba. Esse foi inclusive o ponto de partida do conflito de

    Monteiro Lobato com o governo de Getlio. Lobato se manifestou de forma polmica

    desde a publicao de seu livro O escndalo do petrleo e ferro, em 1936, no qual

    relatou que a Standard Oil New Jersey estaria mapeando todas as reas potencialmente

    petrolferas do Brasil com a conivncia dos rgos oficias do governo brasileiro, at as

    famosas cartas ao presidente da Repblica e ao chefe do Estado-Maior do Exrcito

    afirmando a

    displicncia do sr. Presidente da Repblica, em face da questo do petrleo no

    Brasil, permitindo que o Conselho Nacional do Petrleo retarde a criao da

    grande indstria petroleira em nosso pas, para servir, nica e exclusivamente,

    aos interesses do truste Standard-Royal Dutch4.

    O argumento de Lobato (1972), que ganhou fora entre os nacionalistas, era que as

    empresas internacionais no teriam interesse de fato em que o Brasil produzisse

    4 Em seguida Lobato foi condenado a alguns meses na priso por injria ao presidente e desmoralizao

    do Conselho Nacional de Petrleo. Ele faleceu em julho de 1948, no incio da campanha pelo petrleo, e

    teve ainda a oportunidade de manifestar seu apoio.

  • Textos para Discusso 001/abril de 2016 Pgina 9

    petrleo, pois enxergariam as possveis jazidas de petrleo no Brasil como reservas para

    o futuro. Isso pressupe, evidentemente, que o Brasil teria grandes reservas explorveis,

    o que era uma hiptese, mas tornar-se-ia um argumento central no discurso nacionalista.

    Observe-se, porm, que Lobato nunca defendeu o monoplio estatal na explorao do

    petrleo. Usando a tipificao do Bielschowsky (1996), ele era um expoente da corrente

    desenvolvimentista...

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