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  • Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 1

    PESSOAS DEFICIENTES, INVISIBILIDADE, SABER E PODER

    Ana Maria Morales Crespo

    A deficincia to antiga quanto a humanidade

    O que deficincia? Esta uma daquelas perguntas que parece ter uma resposta

    simples. Todavia, a resposta a esta questo no nica, muito menos simples.

    Desde a pr-histria at hoje, as pessoas sempre tiveram que decidir qual atitude

    adotar em relao aos membros mais vulnerveis que precisavam de ajuda da

    comunidade para obter alimento, abrigo e segurana, tais como as crianas, os velhos e

    as pessoas com deficincia.

    Recentemente, no dia 31 de maro de 2009, matria do jornal Folha de S. Paulo,

    informa que foi achado o "crnio de uma criana que viveu h 530 mil anos" que "pode

    ser a primeira evidncia de que os humanos ancestrais no eliminavam sua prole quando

    ela nascia com defeitos congnitos."

    Segundo a matria, a criana (no se sabe se era menino ou menina) pertencia a

    um grupo de homo heidelbergensis (antepassados diretos dos neandertais). Tinha entre

    5 e 12 anos. O fssil apresenta sinais claros de uma rara doena chamada

  • Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 2

    craniossinostose, "causada pelo fechamento prematuro das suturas sseas que envolvem

    o crebro", que, alm da deformidade, pode causar danos psicomotores.

    De acordo com Ana Gracia, do Centro de Evoluo Humana e Comportamento

    da Universidade Complutense de Madri e do Instituto de Sade Carlos III, e principal

    autora do artigo publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences

    (PNAS), o "crnio apresentava depresses muito desenvolvidas, o que oferece indcios

    de presso intracraniana elevada". Para a pesquisadora, possvel que a criana tenha

    sofrido leses no encfalo. "E, se sofreu algum tipo de dano cognitivo ou motor, deve

    ter recebido cuidados especiais (dos outros membros do grupo)".

    A descoberta desse fssil, dentre outras evidncias arqueolgicas, desmente o

    senso comum de que as pessoas deficientes sempre foram descartadas como consta

    que ocorria na Grcia Antiga, quando, sob a liderana

    de Esparta, as crianas deficientes eram atiradas num

    precipcio para a morte certa ou enfrentavam sua sorte

    ao serem expostas em

    lugares considerados sagrados, tais como as

    florestas, os vestbulos dos templos, as beiras dos

    rias, as cavernas, onde as crianas eram deixadas

    bem embrulhadas numa grande panela de barro ou

    num cesto, com roupas que continham seus smbolos

    maternos. (SILVA, 1986, p. 123).1

    De acordo com Otto Marques da Silva, autor

    de "A Epopia Ignorada", ossos pr-histricos com

    fraturas consolidadas, amputaes e crnios trepanados so evidncias de que, at

    mesmo na pr-histria, eventualmente, pessoas com deficincia sobreviviam.

    Outro exemplo citado pelo mesmo autor a placa de calcrio com inscries

    hieroglficas, famosa entre ortopedistas e profissionais da reabilitao que acreditam ser

    essa estela com 27 centmetros de altura e 18 centmetros de largura a primeira

    representao de uma pessoa com seqelas de poliomielite.

    1 Para o leitor que desejar aprofundar-se no assunto, indicamos o site da Faster-Frente para Assessoria

    Tcnica em Reabilitao (http://www.crfaster.com.br/), cujo coordenador geral Otto Marques da

    Silva, autor do livro A Epopia Ignorada - a Pessoa Deficiente na Histria do Mundo de Ontem e de

    Hoje, que, como o ttulo indica, traz, em suas 470 pginas, uma enorme quantidade de informaes

    sobre a presena das pessoas com deficincia e a maneira como foram tratadas ao longo dos tempos.

  • Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 3

    A placa faz parte do acervo do museu Ny Carlsberg Glyptotek, de Copenhague,

    na Dinamarca, e, segundo Silva, retrata

    um momento muito significativo na vida de um homem portador

    de deficincia fisica que viveu no Egito aproximadamente 1.300

    anos antes da Era Crist e que tinha uma profisso de alta

    responsabilidade no mundo egpcio de ento: era porteiro, e seu

    nome era Roma. (SILVA, 1986, p. 61)

    Como a gravura nos mostra, o porteiro Roma est com cabea raspada e usa uma

    tnica curta pregueada como era a moda da poca.

    O que torna a figura diferente de todas as outras que representam egpcios

    fazendo oferendas a seus deuses que a perna esquerda do porteiro apresenta

    anomalia de musculatura e o p est atrofiado, semelhante ao chamado p eqino,

    leso causada pelo encurtamento do tendo de Aquiles, bastante comum na paralisia

    cerebral e na poliomielite. Alm disso, provavelmente, para andar, o porteiro Roma se

    apoiava num basto, que como todas as pessoas que usam bengalas e muletas fazem

    questo mantinha sempre a seu lado. (SILVA, 1986, 61)

    Segundo Silva, no Egito Antigo, o nanismo era bastante comum e os anes

    aparecem em muitas obras de arte como trabalhadores e membros participativos da

    comunidade. Representados com fidelidade: corpos musculosos e cabea de tamanho

    normal, um pouco obesos, membros curtos, pernas por vezes arqueadas e muitas vezes

    corcundas, os anes no eram marginalizados, nem desprezados.

    Se certo que, ao longo da histria, a deficincia foi percebida como coisa

    sobrenatural e tratada como ameaa social e as pessoas deficientes foram excludas da

    sociedade, a exemplo do que ocorria com os loucos, leprosos, contagiosos e

    delinqentes em geral, Silva nos fala tambm de um sem nmero de pessoas com

    deficincia que no apenas sobreviveram, mas, tambm se destacaram. Um exemplo

    disso foi Ddimo, o telogo cego e diretor da Escola de Alexandria, entre os anos de 345

    e 395, cujo conhecimento e cultura enciclopdicos eram famosos. Foi professor, por

    exemplo, de So Jernimo, um dos maiores doutores da Igreja dos primeiros sculos e

    tradutor da Bblia para o latim.

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    A ateno s pessoas deficientes: do modelo da lepra para o modelo da peste

    Da Antiguidade at a Idade Mdia, para aliviar seus males, os doentes podiam

    ser atendidos pelos sacerdotes, nos templos e mosteiros, como uma atividade

    coadjuvante ateno espiritual e assistencial das ordens religiosas. A cura exigia a

    interveno divina e o mdico era o intermedirio dotado de um dom ou carisma. No

    por acaso que o termo terapeuta (do grego therapeuts) significava originalmente "o que

    cuida, servidor ou adorador de um deus"2.

    Com Hipcrates (460-377 a.C.), considerado o "pai da medicina", a prtica

    mdica perde seu carter mgico-religioso e passa a ser feita a partir da observao

    clnica. Para ele, as doenas seriam o resultado do desequilbrio entre o que chamava de

    humores: o sangue, a fleuma (estado de esprito), a blis (amarela) e a atrabile (blis

    negra) e todo organismo traz em si os elementos para a sua cura. Esta teoria influenciou,

    por exemplo, Galeno (129-200), mdico de gladiadores, que se baseou na medicina

    hipocrtica para criar um sistema de doenas e tratamentos que dominou o

    conhecimento at o sculo XVIII e cuja concepo organicista da doena (...) ainda

    hoje constitui o essencial do paradigma biomdico. 3

    De acordo com Silva (1986, p. 162), graas ascendncia do cristianismo e seus

    preceitos de caridade ao prximo, foram criados os primeiros hospitais para viajantes,

    doentes, loucos, pobres e deficientes. Segundo esse autor, de acordo com historiadores,

    o primeiro hospital cristo de que se tem notcia foi aquele

    criado por So Baslio, o Grande (329 a 379) (...) construdo s

    portas de Cesara [na Capadcia, hoje Turquia], no ano 375 (...)

    conhecido pela genrica e famosa designao de

    xenodquium, termo muito utilizado, naquelas pocas quanto

    durante toda a Idade Mdia, e que acabou sendo aceito para

    designar abrigo para doentes, quando na verdade pela

    derivao do grego significa abrigo para estrangeiros.

    (SILVA,1986, p. 163)

    2 Graa, L. (1999) - Higia e Panaceia: da Arte de Curar a Doena Arte de Conservar a Sade [Hygia and

    Panacea: from the Art of Healing to the Art of Health Promotion] disponvel no endereo

    http://www.ensp.unl.pt/lgraca/textos2.html, acessado em 20/6/2008.

    3 Idem.

    http://www.ensp.unl.pt/lgraca/textos2.html

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    Segundo Araci Nallin autora de Reabilitao em Instituio: suas razes e

    procedimentos. Anlise de representao do discurso obra que desconstri o

    discurso da reabilitao e desvela a verdadeira relao que esta mantm com sua

    clientela os deficientes, considerados um tipo de doentes, eram abrigados em

    hospitais que, em suas origens, no se assemelhavam em nada aos de hoje, ligados s

    clnicas mdicas. (NALLIN, 1994)

    Nos seus primrdios, o hospital era uma instituio que servia tanto para abrigar

    os necessitados, como tambm para manter os doentes longe do convvio social, ou seja,

    para proteger quem estava do lado de fora do contgio das doenas dos internados. Um

    lugar mais para se morrer do que para se curar. Em outras palavras, um hospital muito

    mais parecido com aquele anterior ao sculo XVIII descrito por Foucault, em

    Microfsica do Poder:

    O hospital que funcio

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