Perspetivas do consumidor face à informação presente nos rótulos (relatório)

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Dezembro de 2013 | Perspetivas do consumidor face informao presente nos rtulos, no mbito da unidade curricular de Introduo s Cincias do Consumo e Nutrio do Mestrado em Cincias do Consumo e Nutrio da Faculdade de Cincias da Universidade do Porto (FCUP) e da Faculdade de Cincias da Nutrio e Alimentao da Universidade do Porto (FCNAUP). Autores: Cludio Carvalho; Leandra Neto; Mariana Pereira. Avaliao: 18 em 20 valores.

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<ul><li> 1. 2013 ICCN FCUP/FCNAUP 1 Perspetivas do consumidor face informao presente nos rtulos Cludio Carvalho, Leandra Neto e Mariana Pereira Resumo: Ao longo dos anos tem vindo a ser desenvolvida uma uniformizao da rotulagem das embalagens. Esta uniformizao tem como objetivo tornar as informaes presentes nas embalagens mais regulares, esclarecedoras, elucidativas, melhorando a perceo do consumidor sobre a mesma. Neste trabalho apresentamos diferentes abordagens perceo da rotulagem e embalagens pelo consumidor. Percebemos que so diversos os fatores que influenciam a escolha dos produtos no ato da compra e que o consumidor reage de maneiras diferentes s diversas informaes presentes na rotulagem. Desde de esquemas de cores e formatos visualmente atrativos e bsicos que foram desenvolvidos, para no s informar de forma rpida e eficiente o consumidor mas tambm influenciar a escolha de determinado produto em detrimento de outro, at s entidades responsveis pelo bem-estar nutricional e segurana alimentar. Conjuntamente com o aumento do leque de escolha de determinados produtos, o consumidor tornou-se mais exigente, mais ativo na sua escolha e mais seletivo, exigindo das indstrias alimentares uma maior dedicao s suas embalagens e um melhoramento dos produtos, e das entidades reguladoras exigiu progresso e adaptao da legislao. Dados relativos informao nutricional e sensorial do produto, dose diria recomendada, sua rastreabilidade, sua validade pretendem dar ao consumidor o poder de fazer uma escolha consciente e saudvel. Zelando pela sade tambm informaes relativas presena dos alergnios so agora obrigatrias nos rtulos. Conclumos no entanto, que tanta informao por vezes no totalmente absorvida pelo consumidor dificultando em certos casos a sua perceo. Submetido a 30/12/2012. Os autores so das Faculdades de Cincias e de Cincias da Nutrio e Alimentao, Universidade do Porto, Rua do Campo Alegre, 4169-007 Porto. Questes sobre o estudo devem ser remetidas a Cludio Carvalho, a Leandra Neto ou a Mariana Pereira (E-mail: respetivamente, up200500442@fc.up.pt ou up200902679@fc.up.pt ou up200804679@fc.up.pt). </li> <li> 2. 2013 ICCN FCUP/FCNAUP 2 Introduo A embalagem um conjunto de elementos materiais que so vendidos com o produto, ainda que no faam parte intrnseca do mesmo, com o intuito de facilitar ou permitir a sua proteo, transporte, armazenamento, identificao e utilizao pelos consumidores (Lindon e outros 2013). A embalagem possui trs nveis, isto um nvel primrio, secundrio e tercirio, sendo que as suas funes dividem-se por duas categorias principais: (i) funes de cariz tcnico e (ii) funes de cariz comunicacional. As funes tcnicas dizem respeito proteo e conservao do produto, facilitao do manuseamento, transporte, armazenamento, arrumao e eliminao e ainda, a proteo ambiental. Quanto s funes comunicacionais associam-se: a funo de alerta (i.e. impacto visual), o reconhecimento da marca associada ao produto, a identificao da tipologia de produto, a expresso do posicionamento do produto adotado pela marca, o impulso compra e, finalmente, a informao ao consumidor. As informaes podem revestir-se de diferentes formas, desde indicao de datas limite de utilizao, at composio do produto, modo de preparao, possveis receitas, alertas de sade e dos produtores, entre outras. Assim, neste estudo iremo- nos focar nas questes associadas qualidade e segurana alimentar e s nutricionais. O quadro abaixo esquematiza o que acabamos de expor, sendo que daremos destaque s vertentes que esto associadas s questes de segurana alimentar, nutricional e alertas. Embalagem Funes tcnicas Funes comunicacionais Proteo Conservao Facilitao do manuseamento Transporte Armazenamento Arrumao Eliminao Proteo ambiental Alerta (impacto visual) Reconhecimento da marca Identificao da tipologia de produto Expresso do posicionamento adotado Impulso compra Modo de preparao Possveis receitas Datas de limite de utilizao Composio do produto </li> <li> 3. 2013 ICCN FCUP/FCNAUP 3 Alertas de sade Alertas dos produtores Particularmente, quanto ao rtulo da embalagem alimentar, este tem sido definido como uma ferramenta educacional e um apoio aquisio de um produto que possibilita aos consumidores comparar o valor nutricional das diferentes marcas ou diferentes produtos alimentares com novos produtos alimentares similares (Bender e Derby 1992). Esta informao pode ser colocada nas diversas faces das embalagens, sendo que se for colocada na parte da frente da embalagem i.e. face visvel para o consumidor no respetivo ponto de venda - tida como um formato front-of-pack e se for colocada na parte traseira tida como rotulagem back-of-pack (FIPA e CIAA). De acordo com o esquema de rotulagem nutricional aprovado em sede de Confederao da Indstria Agroalimentar Europeia (vulgo, CIAA) ao qual a Federao das Indstrias Portuguesas Agroalimentares (FIPA) aderiu implementando, consequentemente, o plano de rotulagem nutricional. Assim, neste sentido, definiram-se diversos elementos a implementar aos dois nveis: front-of-pack e back-of-pack. Com o intuito referido, os elementos primrios, ao nvel front-of-pack, foram definidos como sendo a energia ou calorias por poro ou dose e a percentagem do valor dirio de referncia, enquanto que, ao nvel back-of-pack, foram definidos como sendo a tabela nutricional, a informao nutricional por poro ou dose e o valor dirio de referncia. Na parte da frente ou front-of-pack a informao deve ser "grfica, simples e diferenciadora", enquanto que "os painis de informao nutricional so tipicamente colocados na parte de trs" (back-of-pack) ou lateral, no sendo "imediatamente visvel para os consumidores" (Costa 2011). No plano de rotulagem nutricional da FIPA so estabelecidas linhas orientadoras relativas ao grafismo e informao. Relativamente front-of- pack estipulado que a percentagem do valor dirio recomendado para calorias/energia deve ser baseado no valor dirio recomendado para adultos (devendo ser esclarecido que este valor serve apenas de referncia pois varia com o gnero, idade, peso, atividade fsica entre outros fatores e que no deve ser entendido como recomendaes individuais), para a back-of-pack relevante mencionar que a poro/dose deve refletir a quantidade de produto que se espera que seja consumido numa refeio ou momento, quando o produto exige preparao a informao relativa a poro/dose devem ser referentes ao produto finalizado, a nvel da informao contida no rtulo (caso a embalagem seja demasiado pequena) a informao em falta dever ser facultada ao consumidor atravs de uma linha de apoio ou por meios informticos, salienta-se tambm que quando mencionado o valor de sal, este deve estar seguido do valor de sdio sendo o valor de sal 2,5 vezes o valor de sdio. </li> <li> 4. 2013 ICCN FCUP/FCNAUP 4 So tambm apresentados alguns modelos ilustrativos para a front-of- pack e back-of-pack nos seguintes formatos (fig.1, fig.2, fig.3). Figura 3: Modelo relativo informao nutricional por poro/dose, observa-se que o valor de sal corresponde a 2,5 vezes o valor de sdio como orientado pela FIPA. Figura 2: Modelo relativo informao nutricional por poro/dose back-of-pack Figura 1: Diferentes modelos de apresentao para front-of-pack esquerda e ao centro modelos informativos idnticos, direita o modelo que dever ser apresentado em embalagens multilingue. </li> <li> 5. 2013 ICCN FCUP/FCNAUP 5 possvel associar aos cones anteriores novos cones referentes a outros nutrientes com valores dirios recomendados acordados (fig. 4). Importa, ainda, realar que a nvel grfico do front-of-pack tm sido utilizados dois sistemas (Costa 2011): (i) o sistema de classificao de semforo (i.e. verde, amarelo e vermelho, ou seja de produtos com menos teor para mais teor, por exemplo de um dado macronutriente como lpidos), que vulgarmente designado como traffic label (doravante TL); (ii) o sistema ou formato baseados nos valores dirios de referncia. Figura 5: Exemplos dos sistemas de classificao de semforo (A, B) e formato baseado nos valores dirios de referncia (C). Este estudo desenvolve uma curta reviso bibliogrfica quanto rotulagem alimentar na esfera especfica acima elencada e na perspetiva do consumidor, sem descurar o papel das autoridades enquanto agentes reguladores e com influncia no papel de deciso de compra e do respetivo consumo. Figura 4: Exemplo de outros nutrientes que podem ser associados aos modelos anteriores back-of-pack. </li> <li> 6. 2013 ICCN FCUP/FCNAUP 6 As preocupaes com a segurana alimentar, a regulao e a ao das autoridades No mbito associado segurana alimentar, as embalagens e os rtulos tm sido, historicamente, objeto de grande preocupao de autoridades1 e consumidores. Nos Estados Unidos da Amrica (EUA), por exemplo, a Federal Trade Commission Act (Lei da Comisso Federal de Comrcio dos EUA), aprovada em 1914, estabeleceu que embalagens ou rtulos falsos, enganosos ou ilusrios configuram como concorrncia desleal visto que podem enganar os consumidores ou omitir a descrio de ingredientes importantes (Kotler e Armstrong 2003). Concomitantemente, neste mbito ainda de cariz jurdico-legal, regulador ou de superviso, os rtulos devem incluir instrues de segurana necessrias. Seguiram-se a esta lei muitas outras com o objetivo de salvaguardar o consumidor e responder a exigncias ou necessidades dos mesmos, nomeadamente a divulgao do preo por unidade de medida, a descrio da data de validade, a rotulagem nutricional, entre outras. Esta tendncia no foi nem s norte-americana, mas tambm europeia e nacional. As questes aliadas segurana alimentar tm uma importncia fulcral no processo de deciso de compra do consumidor, sendo que "existe evidncia que sugere que os consumidores esperam que toda a 1 Autoridades, deve ser conceptualizada no sentido lato, de agentes associados s administraes pblicas e rgos de soberania, nomeadamente com fins legisladores, de superviso e/ou regulao. alimentao seja intrinsecamente segura e um consumidor bem informado e racional nunca comprar ou consumir [produtos alimentares inseguros sabendo-o partida]" (Verbeke e outros 2007). Verbeke e outros (2007) destacam que a imagem quanto segurana alimentar da carne tem vindo a decair junto dos consumidores, nomeadamente na Unio Europeia em que, por exemplo, as autoridades reguladoras no consideram o uso de certas hormonas como seguro para a sade humana. Os mesmos autores destacam, particularmente, a quebra de confiana na carne de vaca resultante da crise da BSE. De igual forma, fazem referncia ao Eurobarmetro do outono de 2005 que refere que os consumidores consideram os qumicos, os pesticidas e as substncias txicas como o segundo fator que mais associam a possveis riscos alimentares. Um estudo publicado por Angulo e outros (2005) incide na desconfiana provocada nos consumidores pela crise da BSE em relao segurana alimentar. Esta insegurana despertou no consumidor uma perceo negativa da produo agrcola no ambiente e na sade. A "crise da carne" e a consequente queda no consumo de carne de vaca foraram as autoridades a agirem. Neste sentido, foram implementados sistemas de rastreabilidade e de qualidade, assim como de rotulagem para lidar com o problema. Em Angulo e outros (2005) procuraram saber, entre os consumidores espanhis, se estes estariam dispostos a pagarem mais por carne certificada. Os resultados obtidos deste estudo revelam que embora a preocupao dos consumidores em relao segurana alimentar </li> <li> 7. 2013 ICCN FCUP/FCNAUP 7 tenha aumentado, eles no esto dispostos a pagar mais pela carne certificada. Os consumidores entendem que a segurana alimentar intrnseca venda do produto e que a mesma de responsabilidade dos produtores que devem garanti- la pelo que no devem ser obrigados a pagarem mais pela mesma. Os incrementos segurana alimentar implementados entretanto possibilitam a melhoria das condies de incerteza, fomenta a confiana e facilita, assim, o processo de deciso de compra dos consumidores (Verbeke e outros 2007). Em Wandel (1997), os inquiridos que participaram no referido estudo entendem que necessrio mais ou melhor informao sobre aditivos, processo de cultivo, contaminantes, ingredientes, contedo nutricional, tratamento animal e pas de origem (vd. grfico abaixo do estudo em causa devidamente traduzido). Portanto, como se constata, este estudo revela a importncia marcada da segurana alimentar, por exemplo, face s questes nutricionais, ou pelo menos da maior necessidade informativa e preocupao inerente. Figura 6: Grfico ilustrativo sobre a necessidade informativa nas embalagens. Loureiro e outros (2002) realizaram um estudo sobre rotulagem ecologicamente certificada de mas, no seguimento de preocupaes crescentes com pesticidas e atendendo necessidades de produtos "amigos do ambiente". Assim, os objetivos centrais do estudo consistiram em analisar o impacto de fatores com influncia na vontade dos consumidores pagarem por mas com rotulagem com garantia ecolgica e a predisposio mdia para o respetivo pagamento. O estudo em causa mostrou que os consumidores dispostos a pagar um valor superior (i.e. premium) por mas com rotulagem ecologicamente certificada so, genericamente, do sexo feminino, de agregados familiares onde indivduos com menos de 18 anos de idade marcam presena e, ainda, indivduos com preocupaes com a segurana alimentar e atitudes positivas em questes ambientais. A qualidade percebida destas mas devidamente rotuladas afeta positivamente a capacidade de se pagar um valor superior por elas. Quanto ao segundo objetivo, o mesmo estudo infere ainda que os consumidores esto dispostos a pagar, em mdia, 5% do preo normal das mas, o que </li> <li> 8. 2013 ICCN FCUP/FCNAUP 8 tido como um valor bastante reduzido e que "reflete a dificuldade em criar um produto diferenciado com base em padres produtivos ambientalmente saudveis e condies de trabalho adequadas" (Loureiro e outros 2002). No obstante, pode estar- se na presena da possibilidade dos consumidores estarem mais dispostos a comprar mas orgnicas do que mas com o rtul...</li></ul>