Perspectivas, Tendências e Polêmicas nos Estudos da ... ?· disciplina de Estudos da Tradução, faço,…

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  • Perspectivas, Tendncias e Polmicas nos Estudos da Traduo:Comentrios do Debatedor John Robert Schmitz Instituto dos Estudos da Linguagem-Universidade Estadual de Campinas

    Caixa Postal 6045- 13083-970, Campinas-SP-Brasil

    Abstract. As coordinator of the round-table concerned with the area of Translation Studies, in this afterword, I comment on the papers read by four specialists involved in teaching, research and translation in Brazil.

    Keywords. Derrida; Hurtado Albir; deconstruction; translation competence; visibility.

    Resumo. Na qualidade de debatedor da mesa-redonda voltada para a

    disciplina de Estudos da Traduo, fao, neste encaminhamento, alguns comentrios sobre as respectivas comunicaes apresentadas por quatro especialistas brasileiras engajadas no mercado da traduo, na pesquisa e no ensino da traduo em nvel superior.

    Palavras-Chave. Derrida; Hurtado Albir; desconstruo; competncia tradutria; visibilidade.

    A mesa redonda, cujo foco a rea de Estudos de Traduo, objetiva, em primeiro

    lugar, a apresentao de uma viso geral a respeito das diferentes correntes tericas existentes e, em segundo lugar, um debate sobre os principais temas polmicos que constituem a referida disciplina nesta primeira dcada do sculo XXI. Na qualidade de debatedor da atividade, pretendo comentar as comunicaes na ordem de sua apresentao durante o evento. Das quatro apresentadoras, trs encaminharam os respectivos trabalhos por escrito (Rodrigues, Darin, e Ferreira) para a redao deste relato. A quarta participante (Alfarano) optou por uma apresentao visual assistida pelo computador e resolveu no encaminhar uma verso escrita da interveno, preferindo que este debatedor comentasse o contedo de alguns dos slides que integraram a sua apresentao. Muito importante na comunicao intitulada Ecos de Babel de Cristina Carneiro Rodrigues a preocupao por parte da autora com o perigo da crena em ... uma disciplina unificada abordada por uma nica perspectiva que implicaria a imposio da perspectiva de um grupo acarretando ... o silenciamento de vozes dissidentes. Rodrigues acerta na sua crtica a Gentzler (2001) que rotula pases to diversos como Canad, Brasil, ndia, Filipinas e Irlanda, como sendo parte de uma periferia uma entre outras culturas ps-coloniais. Os que trabalham no suposto centro nem sempre se do de conta que a sua viso do mundo uma construo de seu prprio imaginrio. Diria que temerrio tentar situar ou rotular os outros. Cabe citar Said (1978) a esse respeito quando

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    argumenta que a noo de Oriente reflete uma viso construda pelos europeus para incluir ou excluir o que foi respectivamente conveniente ou inconveniente para eles. Neste incio do sculo XXI, os pases hegemnicos como EUA, Canad, Austrlia, Nova Zelndia e Gr-Bretanha, por um lado, e os pases chamados o terceiro mundo, por outro, tm vrias caractersticas comuns que contribuem para a sua semelhana: (i) multilingismo crescente, (ii) diversidade tnica, religiosa e cultural, (iii) migrao, (iv) pobreza, (v) violncia e (vi) desigualdade social e discriminao.

    A autora traz para reflexo o nome de Jacques Derrida e a prtica de desconstruo que tem contribudo para um questionamento de posturas logocntricas no campo de traduo. A postura logocntrica ou essencialista reverencia o autor de um determinado texto original e a lngua-fonte na qual o referido texto est escrito. Essa orientao quer proteger os significados vistos como sempre estveis e intocveis. A crtica desconstrutivista funciona como um importante corretivo do rumo de diversas questes e equvocos da rea de traduo. Para Derrida, uma traduo na realidade um outro original. As idias derridianas so estimulantes e provocantes, assim contribuindo para o dinamismo da disciplina. Nas palavras de Rodrigues, a desconstruo atua no plano do traduzir, enquanto uma forma de leitura, enquanto atitude e estratgia. Rodrigues se refere ao debate havido entre Pym (1995) e Arrojo (1996) a respeito da presena da desconstruo na disciplina de estudos da traduo. Muitas ressalvas com respeito s idias desconstrutivas se devem, na minha viso, a uma leitura parcial (nas duas acepes desta palavra!). No tenho condies de afirmar se a leitura que Pym faz das obras de Derrida incompleta ou tendenciosa. A pergunta central a respeito do debate .todo a seguinte: A disciplina de estudos da traduo deve ser limitada a Derrida e desconstruo ou deve haver uma multiplicidade de vozes? Pergunto se a desconstruo uma teoria ou uma prtica. Ela deveria chegar a ser uma teoria central ou a teoria central (grifos meus)? Sem sombra de dvida o impacto das idias desconstrutivistas importante demais para ser ignorado. Um exemplo basta: Deconstruction and Translation de autoria de Kathleen Davis (2001).

    A mesma importncia dada desconstruo por Rodrigues se observa tambm na interveno intitulada Traduo e Desconstruo: seu papel na Universidade Brasileira" de autoria de lida Ferreira. Procedente o comentrio feito pela autora de que a desconstruo tornou possvel, deslocamentos de natureza epistemolgica. Ferreira observa tambm que a dimenso desconstrutivista tem sido salutar no somente para os estudos da traduo, mas tambm para a universidade brasileira em geral. Segundo ela, a introduo da desconstruo no contexto universitrio brasileiro serviu institucionalmente como uma resistncia a paradigmas tradicionais, a posturas conservadoras e mecanizao da traduo. A presena de desconstruo na universidade propiciou, sem dvida, a elaborao de vrios textos, teses e dissertaes e livros em lngua portuguesa na rea de estudos da traduo. Cabe tambm citar o projeto de pesquisa qual a prpria Ferreira est ligada --- Traduzir Derrida adscrito ao Departamento e Programa de Ps-Graduao em Lingstica Aplicada da Universidade Estadual de Campinas. A referida atividade acadmica est voltada no somente para a traduo de obras de Derrida, mas tambm para a elaborao de trabalhos crticos sobre a produo do renomado filsofo.

    Com respeito aos vocbulos traduo e desconstruo, palavras cruciais contidas no ttulo do texto de Ferreira, importante lembrar que o subttulo do mesmo seu papel na Universidade Brasileira. Sem dvida, a presena das idias derridianas essencial no contexto universitrio brasileiro, no sendo privativas rea de estudos da traduo, mas

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    presentes nos campos de filosofia, crtica literria e literatura comparada. Nem todos sabem que esse conceito tem sido utilizado na desconstruo na rea de Direito nos Estados Unidos (Balkin, 1998). Leila Darin, na comunicao que tem por ttulo Questes polmicas nos Estudos da Traduo: foco no ensino-aprendizagem, examina especificamente a questo da formao de tradutores no contexto universitrio brasileiro. guisa de sugerir subsdios para essa finalidade, a autora apresenta uma reflexo bastante crtica e ponderada sobre o trabalho de Hurtado-Albir (1996), especialista engajada no ensino de traduo e da preparao de futuros professores para a profisso. De acordo com a pesquisadora espanhola, para chegar a ser um tradutor competente, o curso de graduao deve desenvolver nos discentes uma Competncia Tradutria que abrange uma competncia ou proficincia bilnge, um conhecimento sobre o mundo e a cultura em geral, conhecimento explcito sobre habilidades cognitivas e conhecimento operacional ou implcito (=como proceder) no ato da traduo. Darin informa que o aporte metodolgico concretiza-se no enfoque por tarefas (nfase de Darin), isto , no sequenciamento de tarefas de traduo e objetivos de aprendizagem. Para Darin, uma contribuio do modelo proposto por Hurtado-Albir ... a gama de exerccios, dinmicas, atividades e sugestes prticas que os pesquisadores voltados para o ensino-aprendizagem da traduo tem tornado acessvel para os docentes. A reflexo de Darin no se limita simplesmente a louvar o modelo, pois ela apresenta, no decorrer do trabalho. algumas ressalvas com respeito proposta de Hurtado-Albir. O modelo e a prtica de traduo, segundo Darin, podem funcionar num contexto europeu, mas possivelmente seja um tanto ideal, distante do legado educacional de nosso pas. Outro problema detectado que o modelo cuja pedra fundamental um currculo integralizador que visa co-participao de discentes e professores, que, nas palavras de Darin, ... no reconhece a prtica pedaggica na complexidade de sua dimenso social, prevendo para o aprendizado condies ideais de cooperao e negociao. Ela conclui que embora consistente em seu recorte de base emprico-experimental, no aponta como realmente relevante para a formao do tradutor a aquisio e desenvolvimento de conhecimentos tericos (nfase de Darin) que possam, por exemplo, elucidar a natureza poltica e ideolgica da traduo. Concluindo a sua reflexo, Darin, alm de suas consideraes de ordem terica, faz perguntas de ordem prtica voltadas para a realidade da maior parte dos tradutores: Como orientar negociaes com o cliente, como preparar para as parcerias, como lidar com as implicaes autorais na confeco de tradues e glossrios realizados, por exemplo, por meio de memrias de traduo?

    Essas inquiries por parte de Darin levam diretamente interveno de Regina Alfarano cujo texto se intitula: Perspectivas, Tendncias e Polmicas nos Estudos da Traduo. Alfarano inicia sua apresentao com as palavras: No se pode pensar em tendncias e polmicas nos estudos de traduo sem se considerar o contexto, o universo amplo da traduo no Brasil. E, por contexto e universo entende-se: a teoria e a prtica, em seus multifacetados meandros. O que importante na prtica tradutria, segundo a especialista, o no-convencional, o caso a caso. Uma observao por parte de Alfarano com referncia prtica de traduo no mundo real fora dos muros das universidades o fato de que o profissional da traduo raramente - muito raramente - o responsvel direto pelo produto final do processo tradutrio. Alfarano fala de dois mundos diferentes: o primeiro o ensino da prtica de traduo numa universidade pblica e o segundo o contato intenso com o mercado de trabalho na rea de traduo

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    A realidade nua e crua no mercado de traduo que muita traduo feita em equipe e muitas mos invisveis participam do ato tradutrio tais como o tradutor e vrios revisores, alm de um desconhecido todo poderoso que d o toque final traduo. No contexto brasileiro, bem como em outros pases, tambm os textos a serem traduzidos entram numa linha de montagem, completamente impessoal, sem a possibilidade de identificar o(s) responsvel/ responsveis e sem controle da qualidade do servio fornecido, em certos casos. Com respeito (in)visibilidade, Alfarano fala de outro lugar, diferente daquele a partir do qual Venuti (1985) fala: ela descreve a realidade do processo tradutrio realizado em reparties pblicas e em empresas internacionais, ao passo que ele se refere a um tradutor contratado para traduzir um romance, uma pea de teatro, um volume de contos, uma antologia de poesias. Dorothy Sayers, a tradutora da Divina Comdia de Dante goza de uma visibilidade que uma tradutora contratada pela Unio Europia para traduzir documentos oficiais dificilmente gozar. Em sua exposio, Alfarano pergunta como se possvel conciliar a visibilidade e a invisibilidade e a teoria e a prtica. A visibilidade, objeto de desejo de Venuti, de interesse institucional por parte dos que lutam por mais espao nas universidades norte-americanas e tambm em outros pases do mundo para a disciplina de estudos de traduo. Existe, por um lado, a visibilidade pblica de uma determinada disciplina e a visibilidade individual de um lingista cientista, tradutor ou terico da traduo. Valiosa na apresentao de Alfarano a referncia histria da traduo no Brasil, pois, refletindo bem, muito se avanou desde a fundao do primeiro curso de traduo na dcada de 1970. O termo entorno utilizado por Alfarano significa, na minha leitura, que os cursos universitrios tm de lidar com a(s) teoria(s), mas tambm precisam preparar os discentes para a realidade quando eles se formarem e se inserirem no mercado de trabalho. Darin, ao se referir conciliao de teoria com a prtica, lana mo das consideraes de Ottoni (2003: 138): prtica e teoria se interpenetram, se completam e, s vezes, se contradizem. O ttulo desta mesa redonda apresenta trs palavras ligadas especificamente ao campo de Traduo, isto , perspectivas, tendncias e polmicas. Com respeito primeira, diria que as quatro colegas que participaram da mesa redonda esperam, com base nos seus comentrios, o crescimento da disciplina na universidade. Rodrigues considera os estudos da traduo como ... meios de estimular a reflexo sobre o impacto que a traduo produz nas culturas e no prprio conhecimento de um povo. Alm disso, ela considera as idias advindas do pensamento de Derrida e as reflexes feitas por Arrojo importantes no contexto brasileiro. Ferreira tambm v a presena do pensamento derridiano essencial para o campo de traduo, para o preparo do prprio tradutor e para o destino da disciplina na universidade brasileira. Darin traz uma anlise equilibrada a respeito das contribuies e limitaes do modelo de Competncia Tradutria considerado como um avano em termos metodolgicos; todavia, ela afirma que o referido modelo ignora problematizaes referentes noo de autoria, a questes de gnero, e aos questionamentos desconstrutivistas (traduo como interpretao, transformao, transgresso)". Com base nessas consideraes, diria que existe certa convergncia de idias por parte de Rodrigues, Ferreira e Darin. natural que cada participante da mesa veja as tendncias na disciplina de acordo com a experincia vivida e o contexto institucional em que atua. Com referncia a esta palavra, o segundo vocbulo presente no ttulo, Alfarano enfatiza as mudanas de ordem tecnolgica no campo de traduo. A presena de sistemas sofisticados de processamento e

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    armazenamento de dados est rapidamente mudando o trabalho do tradutor. Nem todas as universidades esto em condies de acompanhar a revoluo tecnolgica. Diria que Ferreira e Rodrigues concordariam com a minha recepo do teor de suas respectivas intervenes: por um lado, o pensamento de Derrida deve receber mais espao na universidade brasileira e, por outro, a universidade deve ser o local indicado para a traduo de obras de grandes pensadores nos moldes do projeto Traduzir Derrida. A participao da Universidade na traduo de obras para o portugus relativamente nova no sendo a tendncia, digamos, trinta anos atrs. Outra tendncia que deve continuar nos prximos anos por parte de pesquisadores brasileiros na rea de estudos da traduo a introduo de diferentes abordagens e modelos propostos por partidrios de diferentes correntes tericas na disciplina em todas as partes do mundo. O fato de que Darin lana mo do modelo utilizado na Espanha nos cursos de traduo mostra uma vontade de conhecer e experimentar outras formas de lidar com a traduo com o intuito de melhorar o nvel dos cursos de formao de tradutores na universidade brasileira. Sem cursos de graduao com excelncia acadmica demonstrada, a prpria qualidade dos cursos de ps-graduao cair. Isto vale realmente para qualquer disciplina. De acordo com a minha recepo dos textos produzidos e apresentados, concluo que nenhuma das conferencistas recomenda uma nica teoria, abordagem ou forma de pensar na disciplina de estudos da traduo. Quanto terceira palavra do texto, isto , polmica, quero crer que todas as participantes da mesa concordam comigo que sem a existncia de diferentes vises e posturas, qualquer disciplina acadmica se torna um mero culto onde as teorias (ou hipteses) se tornam dogmas. A polmica realmente a fora motriz que contribui para a reflexo e o avano das disciplinas. As questes referentes preparao de futuros tradutores e professores de traduo sempre vo acarretar polmicas. Sem polmica e diferentes pontos de vista, a disciplina no sobrevive. Disputas sobre o currculo desejvel em nvel de graduao para a formao de tradutores destinados a atuarem no mercado de trabalho e discusses sobre a natureza das disciplinas ideais para a formao de futuros mestres e doutores como pesquisadores no campo de traduo sempre estaro presentes. natural que cada docente proponha um determinado currculo com base na sua experincia acumulada, suas leituras e sua viso do mundo. Por um lado, Darin enfatiza o contexto da graduao ao passo que Alfarano reala o mercado de trabalho. Rodrigues e Ferreira, nas suas intervenes, no identificam um lugar especfico, mas depreende-se de suas falas que o contato com as idias derridianas deve comear em nvel de graduao e continuar ao longo do curso de ps-graduao. Qual seria a base que as quatro pesquisadoras da rea de traduo compartilham? Todas acreditam que o seu trabalho srio. Todas gostam da disciplina e esto convictas de que o campo de traduo tem muito a contribuir para outras disciplinas e para a sociedade brasileira. Eis a minha leitura das comunicaes proferidas. Referncias

    ARROJO, R. On perverse reading, deconstruction, and translation theory: a few comments on Anthony Pyms doubts. TradTerm, v. 3:9-21, 1996. BALKIN, J. Deconstructive practice and legal theory. http://www.yale:edu/lawweb/jbalkin/articles/deprac3.htm Acesso em: 14 ago.2003.

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    DAVIS, K. Deconstruction and Translation. Manchester: St. Jerome Publishing Co., 2001. GENTZLER, E. Expanding horizons or limiting growth? Target v. 13, no. 1:160-164, 2001. HURTADO-ALBUR, A. La enseanza de la traduccin. Castelln: Universitat Jaume I, 1996. OTTONI, P. A traduo entreo ensino e a aprendizagem: como seguir regras sem dispor de regras para aplicar regras. Traduo e Comunicao. No. 12:133-145, 2003. PYM, A. Doubts about deconstruction as a general theory of translation. TradTerm, v. 2: 11-18, 1995, SAID, E. Orientalism, New York: Random House, 1978. VENUTI, L. The Translators Invisibility. London: Routledge, 1995.

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