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    PERONISMO: MOVIMENTO POPULAR DEMOCRTICO, OU POPULISMO

    AUTORITRIO? (1945-1955)

    Margarita Victoria Rodrguez Universidade Catlica Dom Bosco

    Este trabalho um estudo histrico do governo peronistaP1P (1946-1955), perodo que

    teve grande influncia na vida poltica argentina, a partir da dcada de 1940, e que ainda um

    tema que suscita amplos debates.

    O Peronismo tem sido razoavelmente investigado em seus aspectos polticos,

    econmicos e sociais. Autores como Ipola (1982), Laclau (1979), Waldmann (1986) tm

    chamado a ateno para algumas das condies econmicas que o originaram: supremacia da

    burguesia sobre as oligarquias agrrias, vitria da indstria sobre a agricultura, a hegemonia

    da cidade sobre o campo, processo de mudanas sociais, entre outros.

    O estudo deste perodo ganha relevncia e atualidade, na medida em que permite

    entender muitas das polticas pblicas posteriores que buscavam contestar ou derrogar

    medidas do governo peronista.

    O peronismo apresenta certa semelhana com as polticas adotadas pelos diferentes

    governos na Amrica Latina, em relao ao processo de re-acomodao do capitalismo em

    nvel mundial, no perodo de entre guerras e ps-guerra. Assim, foram implementados

    planos de governo que transcenderam a fronteira do nacional.

    Citamos, a ttulo de exemplo, algumas medidas adotadas pelo peronismo no perodo

    que vai de l946 a l955:

    a) Interveno estatal na esfera econmica.

    b) Nacionalizao da economia.

    c) Substituio de importaes.

    d) Re-acomodao da burguesia agrria e sua participao na industrializao do pas.

    O aparelho estatal criou as condies para o desenvolvimento de uma indstria

    nacional. Octavio Ianni, em seu livro Estado e Capitalismo, explica que o Estado teve como

    objetivo o desenvolvimento dos instrumentos e das instituies que tinham por fim a

    realizao de operaes destinadas ao desenvolvimento da economia nacional.

    No mbito educativo, o peronismo mostrou um interesse por ampliar as vagas em

    todos os nveis do ensino, contradizendo a poltica liberal e laica dos perodos anteriores.

    Utilizou os meios de comunicao - cinema, jornal e rdio-, e o aparelho escolar como rgo

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    difusor de suas idias. O governo procurou dominar o aparelho educativo, para tanto se valeu

    de complexas estratgias que no obedeciam aos modos institucionais tradicionais. Assim,

    criou uma srie de organizaes paralelas, ao sistema oficial, com o objetivo de control-lo.

    Perante a falta de um programa escolar com contedos e aes concretas e diante s

    resistncias encontradas no mbito educacional, o regime desenvolvesse uma srie de

    medidas fundadas numa poltica de massa que priorizava estratgias paralelas ao sistema

    educacional. Assim o governo privilegiou a reforma administrativa em detrimento da reforma

    pedaggica, pregada nos discursos, mas no efetivada na prtica. Usou simultaneamente a

    escola primria como rgo de difuso e aparelho disciplinador da populao, visando

    consolidar a hegemonia poltica e ideolgica do regime.

    Cabe esclarecer que no fazemos uma caracterizao do peronismo porque, como

    fenmeno complexo, oferece demasiados perfis e variveis, e provavelmente acabaramos por

    formular uma esquematizao inoportuna. Portanto, nos detemos apenas em alguns aspectos

    marcantes do movimento.

    Num primeiro momento, analisamos o contexto social, poltico e econmico que dei

    origem ao peronismo. A seguir destacamos sua particular interlocuo com os trabalhadores e

    a relao do regime peronista com os grupos de poder da sociedade argentina. E por ltimo,

    elaboramos uma periodizao do regime e discutimos as influncias filosficas, polticas e

    ideologias das que foi objeto.

    1. O regime peronista e a construo de uma nova hegemonia

    O movimento peronista surgiu num contexto nacional marcado por mudanas nas

    condies do desenvolvimento econmico. Com a crise mundial de 1929 os pases

    desenvolvidos -compradores de produtos primrios- adotaram medidas de corte protecionista,

    e a Argentina enfrentou dificuldades para colocar seus produtos tradicionais (carnes e

    cereais), no mercado internacional. Este fato levou ruptura do crescimento para fora e

    gerou condies para um virtual crescimento interno, propiciando o desenvolvimento da

    indstria leve. Este processo de lenta industrializao provocou a perda da exclusividade do

    poder econmico da burguesia agrria. O processo industrializador em gesto corresponde entrada em cena de novos setores sociais,

    com interesse de influir na composio da estrutura econmica argentina e a presena, organizada

    ou no, de setores do trabalho (PINKASZ, 1989: 21).

    TP

    1PT Este perodo relevante na medida em que se apresenta populao como uma proposta diferente da liberal e

    da conservadora conhecidas at ento.

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    De 1850 a 1930, as economias da Amrica Latina se incorporam ao mercado mundial

    a partir da consolidao dos Estados Nacionais, que criaram as condies necessrias para as

    atividades econmicas. Na Argentina, antes da crise de l930, oligarquias latifundirias locais

    tinham o poder, e organizaram um Estado central que representava seus interesses, tendo

    como princpio articulador o liberalismo econmico.

    A implantao do Estado oligrquico esteve sustentada pela ideologia liberal, que

    demonstrou uma grande capacidade de absorver a ideologia das massas e integr-la ao seu

    discurso. O pensamento oligrquico estava alicerado em duas concepes filosficas e

    polticas, por um lado a idia do progresso positivista permitiu o desenvolvimento econmico

    ligado ao mercado mundial. Por outro, a concepo europesta, que defendia as formas de

    vida e os valores europeus como smbolo da civilizao em desprezo pelas tradies

    populares nacionais, por representar o atraso e obscurantismo. Tambm a ideologia liberal

    argentina rejeitava o personalismo poltico. Sendo assim, a presena de lderes polticos,

    como Hiplito Yrigoyen, que faziam contato direto com as massas, prescindindo dos espaos

    tradicionais, gerou ampla desconfiana no poder oligrquico.

    Com efeito, os governos de carter popular como o de Yrigoyen (1916-1922 e 1928-

    1929), que possibilitavam o acesso da classe mdia ao poder poltico, foram questionados e

    atacados pela oligarquia tradicional. Porm, durante este governo, manteve-se sem mudanas

    o esquema capitalista imperialista de crescimento para fora. O governo de Yrigoyen poderia ser caracterizado como nacional-popular, mas no produziu modificaes substanciais na estrutura econmica e de dominao do pas. O poder seguiu sendo controlado, fundamentalmente, pelos grandes proprietrios de terras e pelos setores ligados exportao de carne, atravs dos frigorficos de propriedade inglesa e norte-americana (AZNAR, 1982: 293).

    Em 1922, o triunfo eleitoral da Unio Cvica Radical-UCR levou ao poder Marcelo T.

    de Alvear, que se afastou do populismo original do radicalismo. Seu governo esteve

    constitudo por personalidades ligadas aos setores tradicionais, opostos aos interesses da

    classe mdia e dos proletrios. Nas eleies de 1928, triunfou novamente Yrigoyen, como

    candidato pela UCR. Nesta segunda presidncia, teve que enfrentar uma forte crise

    econmica e social. Simultaneamente, houve um reagrupamento dos grupos conservadores,

    que abandonaram seu projeto liberal e tomaram posies prximas ao fascismo europeu.

    O crescimento poltico da UCR e sua insero nas massas determinaram que, em

    1930, setores da oligarquia delegassem aos grupos conservadores nacionalistas e aos setores

    antiliberais do Exrcito a tarefa de restaurar a hegemonia da classe oligrquico-liberal que

    interrompeu a continuidade democrtica. Finalmente, em 6 de setembro de 1930, mediante

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    um golpe militar assumiu o governo General Jos E. Uriburu, ex-deputado conservador e

    propugnador do corporativismo.

    A oligarquia detinha o poder de modo fraudulento e, a partir de l930, aplicava

    estratgias de falsificao da vontade eleitoral. Entretanto, as Foras Armadas representavam

    para a opinio pblica a nica instituio que ficava distante das prticas polticas corruptas.

    Retomando o controle do aparelho estatal os grupos ruralistas, que sempre mantiveram

    o poderio econmico. A oligarquia agrria comeou a desenvolver uma transformao do

    modelo de acumulao, mediante a industrializao de produtos primrios.

    Mas o sistema poltico, que tinha atingido um precrio equilbrio dentro do esquema

    conservador, em 1940 entrou novamente em crise, devido aos efeitos da Segunda Guerra

    Mundial. O quadro de abastecimento externo era semelhante ao da primeira Guerra e

    entraram em conflito as mesmas foras internacionais. Interrompeu-se o ingresso de artigos

    importados favorecendo a indstria nacional. Na Segunda Guerra, a estrutura fabril argentina,

    tinha uma base mais slida e diversificada, com tecnologia relativamente moderna e eficiente,

    contava com um desenvolvimento da indstria militar nacional e se havia intensificado o

    desenvolvimento da indstria leve.

    A oligarquia detinha o poder de modo fraudulento e, a partir de l930, aplicava

    estratgias de falsificao da vontade eleitoral. Entretanto, as Foras Armadas representavam

    para a opinio pblica a nica instituio que ficava distante da

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