per³n, peronismo e intelectuais

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Este texto aborda a relação do governo Perón (1946-1955) com o campo intelectual argentino.

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  • 1. PERN, PERONISMO E INTELECTUAIS Pern e peronismo: apresentao Como observa o historiador argentino Luis Carlos Torre (2002), a histria poltica Argentina no sculo XX se divide em duas: antes e depois do surgimento do peronismo. Ao se constituir como fora poltica em 1945 deslocou ao passado a tradicional oposio entre radicais e conservadores sobre a qual gravitavam as lutas polticas desde os debates pelo sufrgio universal no incio do sculo. No lugar desta tradicional oposio se levantou com o peronismo uma oposio mais carregada de atritos de classe e tributria dos conflitos que acompanharam a expanso dos direitos sociais e a integrao poltica e social de vastos setores do mundo do trabalho (TORRE, 2002: 13). Em 1945, se modificaram tanto os termos como a fonte da principal oposio em torno da qual estava organizada a vida poltica argentina. Sobre esta mesma questo observa Satta (2004: 8), que el perodo 1943 -1955 fue, em mucho aspectos, una divisoria de aguas em la historia argentina contempornea porque la experiencia peronista implic una nueva cultura poltica a partir de la cual se modificaron las percepciones sobre el rol del Estado y la sociedad, el papel de los partidos y de las instituciones polticas; el concepto mismo de lo que significaba ser um ciudadano y del cal era su lugar em la sociedad. O caminho histrico pelo qual Juan Domingo Pern chega ao encontro das massas trabalhadoras e conquista o poder poltico se inicia em junho de 1943 quando os militares argentinos realizam o segundo golpe de estado em pouco mais de dez anos derrubando o presidente Ramn Castillo (TORRE, 2002). A Revoluo de Junho foi obra das Foras Armadas que estavam tambm atravessadas pelos principais contrastes da vida poltica argentina. O mais importante, o posicionamento em relao Segunda Guerra Mundial. Em sintonia com a tradio do pas, o presidente Castillo optara pela poltica de neutralidade, porm prosseguiu com ela mesma depois que os EUA haviam declarado guerra ao eixo em fins de 1941. Nestas condies, a neutralidade
  • 2. mudou de significado para ser a expresso de um posicionamento poltico prEixo. A posio oficial se verteu em objeto de disputas e controvrsias entredistintos grupos da sociedade: diversos setores da opinio pblica radicais,conservadores radicais, universitrios, socialistas, comunistas e intelectuais selevantaram contra o neutralismo e exigiam a entrada na guerra ao lado dosaliados. Estas divergncias se encontravam tambm no interior das ForasArmadas: a poltica de ruptura com as potncias do Eixo era defendida pelosaltos oficiais do Exrcito, mas a opinio dominante na maioria dos quadrosintermedirios postulava a manuteno da neutralidade (TORRE, 2002; KORN,2007). Em meio a este conflito, a figura de Pern comea a surgir com forapoltica em outubro de 1943 quando ocorre um golpe dentro do golpeencabeado por um grupo de jovens coronis e tenentes pertencentes aoautodenominado Grupo de Oficiais Unidos (GOU). Oficiais de baixa patente, os membros do GOU haviam cedido a iniciativado golpe contra Castillo alta hierarquia do Exrcito e aos chefes de unidade;para si reservaram posies chave no Ministrio de Guerra e na presidncia.Destas posies ganharam poder poltico e depois de quatro meses seapoderaram da conduo poltica da Revoluo de Junho. Defensores de umneutralismo intransigente e simpatizantes dos sistemas corporativistas nazi-fascista, estes jovens oficiais concebiam o 4 de junho como a oportunidadehistrica para reorganizar as bases institucionais do pas (TORRE, 2002: 17)em direo a combater o avano do comunismo e a corrupo que a seusolhares ameaavam o pas. Assim, no controle da poltica argentina, os membros do GOU passaram aadotar medidas repressivas contra grupos de esquerda e os sindicatos;declararam fora da lei os partidos polticos; intervieram nas universidades;lanaram uma campanha moralizadora dos espetculos e costumes; eimplementaram o ensino religioso obrigatrio nas escolas pblicas (Idem). Esta reorganizao encontrava ecos e apoio em ativos setores dasociedade civil sobretudo, importantes setores da Igreja Catlica e gruposintelectuais nacionalistas que postulavam o fim da Argentina laica e liberalpara dar lugar a um pas organizado a partir do estabelecimento da cruz e daespada.
  • 3. Ocupando a chefia do Departamento Nacional de Trabalho (depoisrenomeada Secretaria de Trabalho) Pern construiu atravs de programas deconcesses de direitos aos trabalhadores uma aliana que seria vital para suaascenso poltica. No obstante, o apoio crescente das massas trabalhadoras ede importantes setores militares aliados a uma destacada habilidade poltica,possibilitou no incio de 1945 Pern ao acumular os cargos de secretrio dotrabalho; ministro de guerra e vice-presidente se tornava o lder do governogolpista. Por outro lado, a ascenso poltica de Pern era malvista tanto por civisquanto pelos militares (que no viam com bons olhos uma ascenso polticarumo ao personalismo). Mais: o trunfo dos aliados na Segunda Guerra reforavamais ainda a posio dos grupos que se denominavam democrticos que viamo trabalho de Pern na Secretaria de Trabalho como uma cpia das polticasfascistas de Mussolini (FIORUCCI, 2004). Enfraquecido pela massiva presso civil a favor da democracia, pelamobilizao dos empresrios que no viam com bons olhos as polticastrabalhistas, e em meio a conflitos palacianos de luta pela hegemonia nointerior dos grupos militares, Pern renuncia ao poder no comeo de outubro de1945. Contudo, a presso pela sua renncia e sua subsequente priso provocoua mobilizao dos trabalhadores que marcharam rumo Praa de Maio (localonde se localiza a Casa Rosada sede da presidncia na Argentina) pedindo aliberao de seu novo lder. Ovacionado, Pern convoca eleies presidenciaise numa acirrada disputa contra representantes de grupos liberais edemocrticos se torna presidente em 1946 para ser reeleito em 1950 egovernar at 1955, quando derrubado por um golpe. Peronismo e autoritarismo A eleio por voto popular e democrtico conferiu legitimidade ao governode Pern. No obstante, os setores derrotados no deixavam de aliar a imagemde Pern ao regime autoritrio iniciado com a Revoluo de Junho e viam nestetermo democrtico, iniciado em 1946, uma mera continuao do regime militargolpista. Acompanhando as reflexes de Sigal (2002); Fiorucci (2004; 2002); Korn(2007); Torre (2002), Halpern Donghi (1975), consideramos que em certa
  • 4. medida, as duas vises acerca de Pern e do peronismo so corretas: foi umregime de carter popular (apoiado por e para significativas parcelas do povo) eassim em certa medida, democrtico, mas tambm um regime com traosautoritrios. Melhor dizendo, so corretas se forem tomadas como dimenses deum mesmo fenmeno; se tomadas a partir de uma perspectiva que considere ofenmeno do peronismo como um fenmeno multifacetado, no unimendisional autoritrio ou popular. Contudo, apesar de ter sido um governo que pela primeira vez deu vozpoltica s classes trabalhadoras argentinas (ALTAMIRANO, 2002: 210) inegvel que exerceu sobre diversos setores da sociedade argentina dominaosistemtica: censura imposta aos jornais de oposio; controle estatal impostos emissoras de rdio; expulso de quadros de professores das universidades esubstituio por professores filiados vertentes intelectuais de cunho tomista(catlico e totalitrio); interveno sobre os sindicatos; fechamento do partidocomunista; tortura e priso de opositores. Os exemplos so inmeros e servem para indicar a faceta autoritria dogoverno Pern de 1946 a 1955 malgrado a legitimidade democrtica e avariao de intensidade e qualidade das diferentes formas de dominao sobrediversos setores da sociedade ao longo destes dez anos. No tocante a relao de seu governo com o campo literrio, corretoafirmar que sua poltica nacionalista e populista colocou em crisecomportamentos literrios cuja vigncia parecia antes assegurada e obrigou aosescritores, explicita ou tacitamente, a questionarem seus modos de ao e osmodelos que pareciam consolidados e seguros (PERILLI, 2002).
  • 5. Antiperonismo e peronismo no campo intelectual Intelectuais antiperonistas A imagem associada ao nascimento do peronismo, a das massasavanando rumo Praa de Maio, em 17 de outubro de 1945, deu a estemovimento poltico uma identidade plebia e anti-intelectual que veioacompanhar marcadamente (FIORUCCI, 2002): Aos gritos de alpargatas s,libros no!; haga patria mate un estudiante!; avanavam nas ruas da capitalargentina a coluna de trabalhadores em defesa do militar que havia feito eco ssuas reivindicaes (FIORUCCI, 2004: 2). A intelectualidade reagiu a estefenmeno com um mescla de horror e estupor ao que a seus olhos parecia oincio de um ciclo de barbrie e sobretudo a instaurao de um regime de tipofascista na Argentina. A partir disto, o divrcio entre as classes letradas e o peronismo durante adcada de 1946-1955 se converteu numa imagem recorrente da literatura sobreo tema e conquistou o imaginrio popular: intelectual e peronista apresentadoscomo identidades irreconciliveis (FIORUCCI, 2002). Sem embargo, nos informa Sigal (2002: 483) que existem pelo menosdois pontos de acordo entre os estudos que tratam da relao entre o campointelectual e o primeiro governo de Pern: o