Pernambuco 63

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Suplemento Cultural do Dirio Oficial do Estado de Pernambuco

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  • Suplemento Cultural do Dirio Oficial do Estado de Pernambuco n 63 - Distribuio gratuita - www.suplementopernambuco.com.br

    Os caminhos certos e incertos e a potica que a gente pode encontrar numa dedicatria

    EDUCAO SENTIMENTAL JOCA REINERS TERRON MICHEL LAUB E A MEMRIA

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    ESCrEvEr DEDiCar

  • PERNAMBUCO, MAIO 20112

    CA RTA DO EDITOR

    ThI AgO guIm A R Es

    GALERIA

    Essa foto de uns quatro anos atrs, mais ou menos, quando eu comeceia brincar de ser fotgrafo com uma cmera digital amadora. Era um dianublado, a luz do quintal favorecia e meu gato me observava muitocurioso de cima do telhado, enquanto eu manuseava minha cmera que erado tamanho de um mao de cigarros. Foi um daqueles momentos. O gatono est mais vivo, mas a foto t a pra me lembrar desse dia.http://www.about.me/thiagoguimaraes

    GOvERNO dO EstAdO dE PERNAMBUCOGovernador Eduardo Campos

    Secretrio da Casa CivilFrancisco tadeu Barbosa de Alencar

    COMPANhIA EdItORA dE PERNAMBUCO CEPEPresidenteLeda AlvesDiretor de Produo e EdioRicardo MeloDiretor Administrativo e FinanceiroBrulio Menezes

    CONsELhO EdItORIALEverardo Nores (Presidente)Antnio hermenegildo PortelaLourival holanda BarrosNelly Medeiros de CarvalhoPedro Amrico de Farias

    sUPERINtENdENtE dE EdIOAdriana dria Matos

    sUPERINtENdENtE dE CRIAOLuiz Arrais

    EdIORaimundo Carrero e schneider Carpeggiani

    REdAOMariza Pontes e Marco Polo

    ARtE, FOtOGRAFIA E REvIsOGilson Oliveira, hallina Beltro, Karina Freitas, Milito Marques e sebastio Corra

    PROdUO GRFICAEliseu souza, Joselma Firmino, Jlio Gonalves, Roberto Bandeira e sstenes Fernandes

    MARKEtING E PUBLICIdAdEAlexandre Monteiro, Armando Lemos e Rosana Galvo

    COMERCIAL E CIRCULAOGilberto silva

    PERNAMBUCO uma publicao da Companhia Editora de Pernambuco CEPERua Coelho Leite, 530 santo Amaro RecifeCEP: 50100-140Contatos com a Redao3183.2787 | redacao@suplementope.com.br

    H alguns meses, a reprter pernambucana, residente em So Paulo, Daniela Arrais sugeriu uma matria para a gente sobre dedicatrias, sobre o afeto (e a falta dele, em alguns casos) que elas encerravam. Para esse texto, percorreu sebos, entrevistou escritores, leitores e descobriu maldades de famosos. Encontrou exemplares, novinhos em folha, de Fernanda Young e Daniel Galera dedicados a J.R. Duran num sebo, com os seguintes textos: Duran, obrigada pela foto inteligente. Um grande retrato, para uma sempre inadequada escritora. Beijos, Fernanda Young e Para J.R. Duran, uma histria de amor e perda. Um grande abrao, Daniel Galera. Coitados dos dois autores...

    O texto de Daniela seria uma matria de ape-nas duas pginas, mas o universo que ela nos trouxe era to curioso, to rico, que acabou se tornando matria de capa desta edio. Para rechear a histria, Raimundo Carrero escre-veu uma crnica sobre o que vive e como sofre um autor na hora de criar essa fico chamada dedicatria. Alguns chegam a ditar o que querem ver escrito em seus livros: Lembre a nossa amizade de muito tempo, pedem uns; No esquea que lhe ajudei, implora outro, lanando mo da fico que a memria; Fui

    seu primeiro leitor, se orgulham alguns, mes-mo sabendo que pura inveno; tem sempre algum ditando que Minha me lhe adorava, escreveu Carrero.

    Samarone Lima comea nesta edio sua saga para entender Padre Daniel, poeta de 95 anos que escondia uma vasta e rica coleo de poemas, que s agora vieram a pblico, graas ao esforo dos seus amigos. Seu texto, cheio de suspense, passa a impresso de ser quase uma crnica policial.

    O reprter Talles Colatino fez uma longa en-trevista com Michel Laub, responsvel por um dos livros mais elogiados deste ano, Dirio da queda. O autor nos trouxe ponderaes bastante curiosas sobre a relao que sua obra mantm com memria e fico: Voc no pode fugir daquilo que , ainda mais se for escritor, porque seus livros no tero valor se algo seu no estiver neles. Agora, esse algo seu no necessaria-mente sua histria real. Ainda nesta edio, duas fices saborosas de Ivana Arruda Leite sobre o complicado que a etiqueta sentimen-tal e Joca Reiners Terron problematiza o olhar do leitor sobre o escritor como personalidade.

    isso, boa leitura e at junho!

  • PERNAMBUCO, MAIO 20113

    BASTIDORES

    Daqui para frente, apenas obras pstumas Prestes a lanar seu livro de contos em julho, de forma independente, um dos mais celebrados autores do pas fala de como precisou morrer para continuar escrevendo

    Marcelino Freire

    um livro pstumo. Cristo! Rezo para que eu, aqui, no suplemen-

    to Pernambuco, no esteja sendo proftico. Ave! Quero estar vivo quando ele for lanado, em julho deste ano. Mais vivo do que nunca!

    Este meu novo livro de contos, intitulado Amar crime, um verdadeiro renascimento.

    Minha morte nasceu no ano passado. Foi um ano difcil o de 2010. Perdi minha me, em maio. Perdi amigos queridos, escritores de cabeceira. Alguns heris literrios. Foi embora Roberto Piva. Alberto Guzik foi embora. Wilson Bueno, Glauco, o desenhista.

    Pancada! Nem sei como organizei a quinta edio da Balada

    Literria. Ao final dela, ca aos prantos e barrancos. Em dezembro, fugi. Fui para uma pousada de uma amiga.

    Antes, deixei um recado na revista da Folha de S. Paulo. A revista me pediu um carto de Natal. A pergunta era: para quem eu enderearia uma mensagem? Mandei um al para Chico Buarque, Edney Silvestre. Para o meu editor, da Record. Para a Companhia das Letras, para a Cmara Brasileira do Livro.

    Putz! Tanta gente desaparecida em 2010 e os caras estavam discutindo outras perdas e ganhos. Quem ganhou, oh, quem perdeu o Jabuti. Meu maior ouro j havia sido sepultado, p! Meu tesouro, repito: Maria do Carmo Freire. Minha me era a voz do meu trabalho etc.

    Na pousada, descansando os miolos, e para so-breviver, fui organizando meus novos contos. E percebia neles um flego maior. Outros ganchos sonoros. Um comeo de relacionamento. Aqui e ali, um fim de romance. Amor, morte, amor, morte. Violncia tambm porque ela ainda no acabou. Ela ainda di. E doeu, eu escrevo.

    Mas voltemos aos meus contos criminosos. Al-guns deles, extremamente amorosos. H, l no livro, amores verdadeiros, histrias bonitas e vi-toriosas. Mas que, s vezes, no conseguem tran-

    KARINA FREITAS

    quilidade para acontecer. O que amor para um, crime aos olhos do outro. Sempre tem algum metendo a colher, o pontap onde no foi chamado. E sempre tem algum colocando o amor venda. Lucrando com o corao das pessoas. Por exemplo: igreja, TV, cinema. Vive-se, diria e religiosamente, do comrcio do amor. O amor mata mais do que o dio uma hora berra um personagem meu, no p do ouvido do leitor.

    Bem, mas qual ttulo dar a este volume, meu amor?

    Pensei em Rebola. Rebolou. Pensei em O meu boy morreu. Morreu. At que, ouvindo uma msica do Dorival Caymmi, cantada pela baiana Jussara Silveira, ela comea com uma vinheta, de domnio pblico, que ri e rima: Voc diz que amar crime / Se amar crime, eu no sei no / hei de amar a cor morena / com prazer, com prazer no corao.

    Que bonitinho! Tiro certeiro. este o livro que eu quero, bati o martelo. Mas queria outra atitude para ele, suicida. Morrer junto com os meus per-sonagens. Atentar-me.

    Escrevi para os amigos da Editora Record, onde publiquei meus dois ltimos livros. Profundamente agradecido, falei que gostaria de editar o Amar crime quase caseiramente. Gostaria de dar um n no status quo. Enforcar-me em outras rvores. S. Da a ideia de o livro sair publicado por um coletivo artstico chamado Edith, do qual participo desde o ano passado. Veja quanta gente boa e indita est l, botando para feder: visiteedith.com

    Energia e alegria! Tudo isto tem me dado fora e vigor. Meio que voltei ao batente. Voltei po-ca em que lanava, suavemente, meus trabalhos independentes. Livres do mercado, do vazio, dos prmios, sei l.

    Gosto de no saber no que esta atitude apaixo-nada vai dar. Viver cada coisa a seu tempo at quando a morte chegar.

    Que no seja agora, no ? Salve, salve, viva, amm e sarav!

    Marcelino Freire autor de Cantos negreiros, vencedor do Jabuti na categoria contos, e lana Amar crime em julho.

    CARTUNSSOLDAhttp://cartunistasolda.blogspot.com/

  • PERNAMBUCO, MAIO 20114

    ARTIGO

    televiso, revistas, jornais, festas literrias: em todos os lugares, l est o autor. E o personagem, onde est? Babau, no existe mais. Morreu.

    uma poca muito chata, esta em que vivemos. Por isto a infncia atualmente anda to curta. No tempo em que o personagem tinha mais importncia que o autor que era bom.

    necessrio fazer alguma coisa para esse tempo voltar.

    3.Para comear, nada de nome de autor nas capas dos livros. Nada de foto na orelha. Nada de nota biogr-fica no final do livro. Nada de autor dar entrevista no lanamento. Ningum quer saber se os livros so escritos por algum.

    O passo seguinte deixar de pagar os milhes de dlares que so pagos a todo autor. Chega disso, quem merece todo cuidado e ateno o personagem. A par-tir de agora usaremos essa dinheirama para construir prises onde os autores ficaro presos e calados sem querer opinar sobre tudo quanto assunto. A partir de agora nada de confete para eles: s po e gua.

    Noutros tempos, quando comiam s po e gua, que eles criavam grandes personagens. Dostoivski, por exemplo: com essa dieta magra, criou Rasklnikov. E o teria criado de barriga cheia? Claro que no! O autor deve estar famlico como aquele jovem escritor criado por Knut Hamsun (que, alis, no inventaria perso-nagem to memorvel se no estivesse em idnticas condies) em seu romance Fome.

    Nesse livro, um rapaz vagueia pela cidade norue-guesa de Chistiania em busca do que comer. Na pe-rambulao, tem ideias as mais mirabolantes que mal e mal podem ser ouvidas pelo leitor, pois ficam ocultas so