pensar sobre o vandalismo: os ataques contra o patrimônio cultural

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  • Pensar sobre o vandalismo: os ataques contra o patrimnio cultural e as possibilidades

    de investigao no campo da Histria

    DIEGO FINDER MACHADO*

    Todo agente social aspira, na medida dos seus meios, a este poder de nomear e de

    construir o mundo nomeando-o (BOURDIEU, 2008:81).

    Recentemente, em 5 de junho de 2015, foi noticiado em um telejornal que, em

    Balnerio Piarras, um pequeno municpio localizado no litoral norte do estado de Santa

    Catarina, uma traquinagem realizada por desconhecidos estava tirando o sossego dos

    habitantes do lugar. Um morador compartilhou em sua pgina pessoal no Facebook a

    fotografia de uma rua onde as placas de sinalizao de trnsito indicavam a proibio de

    converso tanto direita quanto esquerda. Na reportagem, algumas pessoas foram

    entrevistadas para saber como reagiriam ao se depararem com esta situao inusitada. Em

    resposta, a maioria delas lidou de maneira jocosa com o acontecido. Contudo, a brincadeira

    no agradou o responsvel pela organizao do trnsito no municpio. Visivelmente irritado,

    este servidor pblico demonstrou preocupao com a possibilidade de algum grave acidente

    provocado pela confuso. Mostrando que uma das placas de trnsito havia sido movida para

    uma posio diferente da qual originalmente foi fixada, ele considerou isto uma manifestao

    de vandalismo. Tal rotulao foi reforada pelo telejornal ao divulgar a matria em sua

    pgina oficial na internet1.

    O que intriga nesta reportagem aparentemente banal a evidencia, em nossa

    contemporaneidade, da ampla maleabilidade dos significados atribudos palavra vandalismo.

    Atualmente, este neologismo pode servir para explicar tanto a destruio intencional de um

    bem reconhecido como patrimnio cultural de um determinado lugar, como qualquer ato, por

    menor e inofensivo que possa parecer, que seja interpretado como um dano propriedade

    * Doutorando pelo Programa de Ps-graduao em Histria da Universidade do Estado de Santa Catarina

    PPGH/UDESC, sob orientao da Profa. Dra. Janice Gonalves. Bolsista CAPES-DS. Membro dos Grupos de

    Pesquisa Cidade, Cultura e Diferena, da Universidade da Regio de Joinville UNIVILLE, e Linguagens e

    Representao, da Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC. E-mail: diego_finder@yahoo.com.br. 11 Esta reportagem, transmitida no Jornal do Meio Dia no canal de televiso RIC da Rede Record, pode ser

    assistida na internet: . Acesso em 13 jun. 2015.

  • 2

    pbica ou privada. Se em alguns casos esta dilatao semntica pode servir ao estmulo de

    reaes caricatas, como no caso narrado, em outros momentos o uso desta palavra demonstra

    a violncia simblica que entremeia as relaes entre diferentes grupos sociais,

    desencadeando reaes de desprezo, indignao, raiva, dio e outros ressentimentos. No caso

    brasileiro, desde 2013 esta palavra tem sido mobilizada em defesas pblicas pelo

    endurecimento das aes repressivas do Estado contra manifestaes sociais que utilizam o

    dano a bens materiais como uma estratgia de luta2.

    Diante da banalizao contempornea dos usos e apropriaes da palavra vandalismo,

    tenho buscado compreender as maneiras como tal neologismo tem sido empregado para

    nomear prticas sociais. Ao refletir sobre os ataques contra o patrimnio cultural e as

    possibilidades de investigao no campo da Histria, uma primeira e importante aproximao

    a histria do conceito de vandalismo. Para tanto, preciso lembrar o alerta lanado pelo

    historiador Reinhart Koselleck (2006:105): As palavras que permaneceram as mesmas no

    so, por si s, um indcio suficiente da permanncia do mesmo contedo ou significado por

    elas designado. H no conceito de vandalismo a sobreposio de diferentes camadas de

    significao que foram forjadas ao longo dos ltimos sculos. A investigao de algumas

    destas camadas, sedimentadas no solo do nosso presente, pode indicar algumas chaves de

    interpretao ao pensar sobre a escrita de histrias que problematizem os ataques contra o

    patrimnio cultural. Neste breve ensaio, aproximo duas experincias significativas: os

    relatrios do abade jesuta Henri Grgoire contra o vandalismo na Frana ps-Revoluo e a

    repercusso da campanha Contra o Vandalismo e o Extermnio, liderada pelo intelectual

    Paulo Duarte no Brasil dos ltimos anos da dcada de 1930.

    A pacificao de um passado infame e a inveno de uma barbrie

    Em 1794, representando a Comisso para a Instruo Pblica perante a Conveno

    Nacional Francesa, o abade jesuta Henri Grgoire apresentou trs relatrios pelos quais

    denunciou publicamente o saque e a destruio de monumentos franceses. Em um momento

    no qual ainda ecoavam com forte intensidade os clamores da Revoluo Francesa, grande

    parte deste acervo do passado nacional era identificada por muitos dos seus compatriotas

    como herana simblica do Antigo Regime. O primeiro destes relatrios, apresentado em 11

    2 Ainda consta em tramitao no Congresso Nacional alguns Projetos de Lei que visam tipificar o crime de

    vandalismo, propondo inserir no Cdigo Penal (Decreto-Lei 2848/40) uma nova modalidade para o tipo penal

    de dano qualificado, tornando mais rgida a pena para quem praticar este tipo de crime

  • 3

    de janeiro, j evocava a palavra vandalismo. Tal palavra possivelmente j era

    compreensvel aos destinatrios do acalorado discurso, o que dispensava a necessidade de

    uma explicao do seu delineamento semntico. O objetivo do relatrio era claro: denunciar

    as destruies provocadas pelo vandalismo e apresentar os meios possveis para coibir tais

    atos de dilapidao dos bens nacionais, combatendo ferreamente aquilo que se considerava

    as evidncias da ignorncia e da ganncia de um esprito contra-revolucionrio que

    empobrecia e desonrava a nao. Nas palavras impressas no Relatrio, tal denncia era

    tomada como o grito de indignao da Conveno que reverberaria por toda a Franca,

    incentivando todos os bons cidado a vigiar os monumentos s artes, a ajudar a conserv-

    los, denunciando os instigadores de atos de vandalismo (GRGOIRE, 1794).

    Em meio a numerosos exemplos, o relatrio conclua que em todos os lugares, a

    pilhagem e a destruio a ordem do dia. Para este abade, uma voz poderosa na Conveno,

    isto parecia um frenesi de brbaros, um fanatismo que, como era lembrado, estava muito

    bem ao gosto dos ingleses. Estes, cientes do alto valor das relquias, aproveitavam o

    momento para abarc-las em suas prprias colees. Tinha-se em mente que era preciso, a

    todo custo, parar a disperso: Uma horda de bandidos emigrou, mas as artes no iro emigrar

    com eles. Como ns, as artes so as filhas da liberdade; como ns, elas tm uma ptria, e

    iremos transmitir esta dupla herana posteridade (GRGOIRE, 1794). Como destacou o

    historiador Dominique Poulot (1995) a respeito deste momento histrico, os atos de

    vandalismo eram explicados, em meios cultivados na Frana, como um compl anti-

    revolucionrio orquestrado por alguma agncia oculta, por brbaros estrangeiros.

    Porm, como convencer, queles que se rebelaram contra a tirania do absolutismo, de

    que era necessrio e importante preservar monumentos que haviam simbolizado a opulncia

    do poder e que ainda eram vistos como marcados por este toque infame? Henri Grgoire, ao

    defender a inventariana das riquezas culturais da nao francesa, afirmou, sem titubeao,

    que era preciso fornecer novas armas para a liberdade dos monumentos que o despotismo

    tentou esconder (GRGOIRE, 1794). Afinal, como artigos de luxo destinados a um uso

    restrito aos aristocratas do passado, muitos destes monumentos eram invisveis a grande

    parte da populao. Alm do mais, mesmo quando colocados em uma circulao pblica mais

    ampliada, essa invisibilidade, como deixa transparecer a narrativa de Grgoire, era fruto da

    suposta ignorncia de uma populao cujo olhar ainda no havia sido educado para

    reconhecer o seu verdadeiro valor. Pra tanto, o Relatrio conclamava os legisladores a usar

    as colees imensas e preciosas para um novo fim: servir instruo de seus cidados

    (GRGOIRE, 1794).

  • 4

    Para usar uma ideia inspirada nas anlises de Pierre Bourdieu, houve neste momento a

    busca por uma transubstanciao simblica. Um novo produto simblico estava sendo

    forjado a partir dos vestgios do passado, o que tornou necessrio a produo da crena em

    uma nova maneira de olhar os remanescentes do Antigo Regime, uma crena que deveria

    disseminar-se imediatamente. Como afirmou este socilogo, na produo de bens

    simblicos, as instituies aparentemente encarregadas de sua circulao fazem parte

    integrante do aparelho de produo que deve produzir, no s o produto, mas tambm a

    crena no valor de seu prprio produto (BOURDIEU, 2004:163). Foi preciso pacificar os

    vestgios que ressoavam a presena de um passado desptico, convertendo-os, pelo

    investimento de mentes ilustradas, em monumentos histricos e artsticos necessrios a um

    ideal civilizatrio. Um novo sentido a estes bens culturais estava sendo forjado, um sentido

    que coadunava com a vontade de estimular um renovado sentimento patritico.

    Assim, como sugeriu Grgoire, para alm de medidas repressivas, o sucesso do

    combate demandaria algumas medidas morais: vamos fazer um apelo s sociedades

    populares, a todos os bons cidados, e especialmente aos representantes do povo [...], para

    dobrar os seus esforos