pegadas de sangue

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Entertainment & Humor

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História de ficção fantástica escrita por Lucas Zanella.

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  • Pegadas deSangue

    Lucas Zanella

  • 1.O sol ardia no cu, cegando todos que se atreviam aolhar para cima.

    Para Cornlio, o sol ardia ainda mais. O homemde cabelo preto e barba curta andava se arrastando.Seus olhos brilhavam e pareciam j estarem cegos. Seusangue fervia e seu crebro explodia.

    - Senhor? - uma moa de vinte e tantos anos oparou, um pouco mais jovem que ele, embora, naquelascondies, ele parecesse mais velho. Pareciapreocupada com o bem-estar do desconhecido. - Ah,meu deus. Venha comigo!

    Ela o arrastou para um banco, logo abaixo deuma grande rvore, numa praa vazia.

    Cornlio sentia sua boca seca, gritando por algoque saciasse sua sede. Ele sabia o que faria isso.

  • - O senhor quer que eu chame algum? - elatornou a perguntar.

    - Muito obrigado, minha jovem - sua voz estavarouca por conta da idade que chegava correndo. - Seaproxime, lhe falarei o nmero de meu filho!

    Ela o obedeceu. Certamente no desconfiaria deum pobre velho que caa aos pedaos. A desconhecidase agachou e aproximou o ouvido de sua boca, jpensando que ele no teria foras para falar.

    No foi rpido e tampouco indolor. Mordeu-anum instante e o sangue que caa do pescoo pingavano cho duro e ardente, debaixo da sombra emitidapela grande rvore. Cornlio saciava sua sede erestaurava sua juventude, a mulher gritava elentamente morria. Ele no parecia se importar, afinal,j eram dcadas de gritos e mortes.

  • A moa, Camila, era gentil e se preocupava comos outros. No possua filhos e seus pais moravam emoutra cidade, mas estava noiva de Bruno, e achava quefosse realmente, com ele, ser feliz para sempre. Talvezat mesmo fosse ser, fosse ter uma vida feliz. Apenasno teria porque resolveu, numa tarde montona, pararpara ajudar uma pobre alma.

    Cornlio j se sentia restaurado. O homemvoltara a ter sua aparncia de quase 30 anos e estavasaudvel. Apesar do sol, agora teria sangue o suficientepara chegar em casa e trancar-se dentro dela. Quanto moa? Ah, deixe-a a, pensou.

    Essa no uma histria onde vampiros sobonzinhos. Essa a vida real, aqui eles matam pessoasinocentes e no possuem um pingo de emoo. E assim como um deles foi descoberto.

  • 2.Victor examinava papis, mas sem nenhuma esperanano olho ou alma.

    Sentado em sua cadeira, em frente a sua mesa,os papis se pareciam mais com uma grandemontanha de decepo. Nunca antes se sentira assim,to decepcionado. Exceto, talvez, trs anos atrs.

    Sempre h aquela hora em que voc se v noespelho e percebe que no h nada para fazer emrelao ao que ocorreu no passado. O que aconteceuno pode ser mudado, pois impossvel.

    Isso aconteceu para Victor quando ele jogou napilha outra pasta cheia de folhas completas e vazias aomesmo tempo. O aperto no corao veio primeiro,como sempre vem, depois foram as lembranas, e, porfinal, a lgrima que caiu primeiro pelo olho esquerdo.

  • Pousou os dois cotovelos na mesa de madeiralisa, ps os culos sobre a pilha e passou a mo pelacara, limpando as lgrimas e expulsando a tristeza, queagarrava-o como se fosse um amado.

    No conseguiu. A tristeza no o largou, mas aesperana o deixou na sarjeta enquanto seguia seurumo o mais longe possvel.

    Lorenzo quebrou o clima de tristeza de Victorbatendo na mesa pequena do grande salo, enquantocorria at ele desesperadamente, como um garoto queacaba de perceber que perdera a me de vista no meiode uma multido. Usava um casaco de couro marrom,sapato e cala preta.

    - Merda. Merda. Merda - xingou a mesinhaenquanto pulava numa perna s, segurando amachucada como se isso fosse resolver alguma coisa.

  • O grande salo da casa de Victor no tinha essenome apenas por ter, mas sim era um enorme salo,digno de realizaes de danas antigas, com todos oscavalheiros de terno e damas de belos vestidos. Possuabastante dinheiro, embora agora isso no importavamais.

    Por conta de bons investimentos no passado,agora o dinheiro aparecia em sua conta bancriaautomaticamente; ele, por sua vez, perdeu a vontadepor trabalhar. Escrevia e calculava; estudava e estudava.Os clculos eram sua paixo, sua terceira paixo.

    - Um quilmetro de salo, mas eu precisava terbatido na porra da mesa! - criticou-se Lorenzo, agoraagachado e esfregando o tornozelo com seus olhosfranzidos.

    Deixara cair ao cho os documentos quecarregava. Suspirou e os pegou novamente, comeou

  • procurando por Victor na sala onde sempre trabalhava.Aps tanto tempo, o chefe at mesmo passou a dormirali, investigando sem parar.

    - Victor! - ele disse ao v-lo. Andou at a mesae estendeu a mo com os papis.

    - intil! - respondeu sem tirar as mos dosolhos e o cotovelo de cima da mesa.

    - Ah, no, Victor. No novamente. No intil,lembre-se disso. Voc foi o que me disse para que,sempre que voc perdesse as esperanas, era para telembrar de que isso o que quer fazer!

    - E - concordou. - Mas intil querer fazer, intil fazer - levantou-se e passou a andar pela salaapreensivamente. - H trs anos que investigo essamerda e no encontro nada h trs anos tambm. intil.

    - A esperana a ltima que morre.

  • - No, Lorenzo, a esperana foi a primeira quemorreu. O que pensei que ainda no tivesse morridoera minha vontade, mas at mesmo essa parece ter sedado descarga e corrido para longe.

    - Voc no tem vontade de encontrar a porra docara que matou elas? - comeou a gritar de raiva.Ajudava Victor h tanto tempo que passara a tambmse importar sobre o assunto.

    Victor tambm gritou, de raiva e frustrao.Lgrimas comearam a novamente escorrer pelo rosto.Lgrimas de raiva e de tristeza.

    - claro que tenho, mas no acho nada htempo demais. Demais para mim, pelo menos. tarde,Lorenzo, ele no deve mais estar na cidade, ou mesmovivo. Provavelmente j foi preso.

  • Preso por outro assassinato que cometeu, e nopelo da minha mulher e filha, pensou. Os policiaisteriam ligado se tivessem o pegado, no teriam?

    Caiu de joelhos ao cho. Estava sem foras paragritar ou continuar em p. Tudo escorregava pelo seucorpo, sua energia parecia o deixar.

    - Victor! - gritou e correu at o amigo,ajudando-o a se levantar. Sentou-o num sof bege e deaparncia antiga.

    A aparncia antiga da casa se dava pelo gosto damulher. Victor tambm gostou, mas apenas depois quetudo ficou pronto. Odiava coisas antigas, mas estavadisposto a fazer isso se fosse deixar ela feliz.

    Agora, seu prprio desgosto o trara. Eracercado de coisas antigas por todos os cantos: fotos damulher e da filha penduradas nas paredes, sobre amesa, ao lado da cama.

  • O quarto em que passara a dormir era outro,pois no conseguia mais entrar naquele em que eladormira. Temia que no fosse aguentar tamanhadepresso caso entrasse. E agora, estando repleto deteias de aranha que ele mesmo deixara que seformassem, a depresso seria ainda maior.

    Ele chorava, pela quarta vez naquele dia.Era de noitinha, e o sol j despencara do cu.- Eu vou deixar eles l em cima! - Lorenzo

    olhou para os papis sobre a mesa. - Se voc quiser,pode l-los amanh. Durma, agora, melhor quedurma para que pense melhor sobre o assunto.

    - No adianta, Lorenzo, no adianta - disse semforas. J comeava a deitar-se no sof que, aps tantotempo, j possua a forma de seu corpo no couro.

    Lorenzo ps sob a cabea do amigo umaalmofada e deixou-o ali, onde sempre dormia.

  • ...Xingou-se em pensamento por terem discutido.

    Aquela no era a vida dele, ento no tinha direito deinterferir. No sabia o que se passava na cabea deVictor, ento no tinha como consol-lo.

    Sabia, porm, que ele apenas no se matouporque queria achar quem as matou antes. Agora, comele sem vontade e esperana, no sabia o que poderiaacontecer.

    Talvez, amanh, quando descesse de seu quarto,fosse encontr-lo sobre sua mesa, com o sangue de suacabea sobre as centenas de papis que l estavam.

    Talvez fosse o encontrar no mesmo local,deitado no sof, com um copo de gua e plulas ao seulado. Dormindo em paz, mas nunca acordando.

    Talvez, a caminho da escada que leva para oprimeiro andar, passaria na frente do quarto dela e

  • veria a porta aberta. A dor poderia ser tanta que elecairia ao cho, sem nem mesmo ter a chance de, l noParaso, chegar para elas e falar que O encontrou e omatou.

    A mulher no aprovaria, mas ficaria aliviada, se que se pode no ficar aliviado no Paraso, se que eral para onde Victor iria quando o matasse.

    Lorenzo sabia que o amigo no pensava sobreisso, pois era intil. No as verei novamente, o queele dizia, ento intil me matar achando que irei.Mas, s vezes, quando ele isso dizia, seu olho brilhava.Era uma lgrima que ele lutava para segurar, e sempreconseguia.

    No sabia se Victor falava aquilo para eleapenas para o tranquilizar ou se realmente pensavadaquela maneira.

  • Para Lorenzo, era impossvel no pensar sobrever seus entes queridos novamente. Pensava que a vidano tinha sentido nenhum se no fosse ter algo apstudo isso.

    Passou a mo pelo rosto, querendo parar depensar sobre isso, e conseguiu.

    ...O sol entrava pela janela e batia no rosto de Victor,isso o acordou. Sua cabea doa.

    Se esquecera, por um minuto, da briga do diaanterior. Ento se lembrou e achou melhor ao menosolhar o que Lorenzo encontrou.

    O amigo o ajudava a encontrar pistas sobre oassassinato delas havia um bom tempo, mas nuncaencontraram nada. Isso o deixava triste.

    Sentou na cadeira e ps os culos, ento pegouos papis e se preparou com um suspiro longo.

  • ... claro que eles j teriam descoberto o corpo, afinal,ele no estava assim to escondido.

    Cado no meio da praa, e