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  • O Sujeito no Pensamento Social: A Hermenutica e as Cincias Sociais e Humanas

    Regina Tralho

    AS CINCIAS SOCIAIS E A QUESTO DO SUJEITO

    No corao do Ocidente moderno est a cultura do Iluminismo. Esta assenta em crenas e pressupostos que se centram na unidade da hu-manidade; no indivduo enquanto fora criadora da sociedade e da his-tria; na superioridade do Ocidente; na ideia da cincia como verdade; e na crena no progresso social. Esta cultura est hoje em crise. Sinais de turbulncia cultural aparecem por todo o lado, com o ressurgimento dos fundamentalismos religiosos, declnio da autoridade de instituies sociais que eram consideradas fundamentos slidos da ordem social; enfraquecimento das ideologias polticas; descaracterizao ideolgica dos partidos polticos; e as guerras culturais acerca dos cnones liter-rios e estticos e sobre os paradigmas do conhecimento. Por outro lado, esta turbulncia parece dar lugar a uma nova proposta social e cultu-ral nas sociedades ocidentais, j que movimentos culturais inovadores, apresentados, habitualmente, com o epteto de ps-moderno, procu-ram captar, com sucesso varivel, os principais aspectos da mudana social acelerada da nossa poca.

    Apesar desses sinais de crise, a modernizao continua, em mui-tas partes do globo e no discurso de organizaes internacionais e de governos, a ser apresentada como o motor e objectivo da transforma-

    Interaces nmero 16. pp. 7-51. do Autor 2009

    7

  • o social. As sociedades do Sul, caracterizadas por economias agr-rias; tradies culturais etnicamente plurais; e a existncia de elites pr-modernizao, incorporam tecnologias, instituies, formas de cultura, normas de direito e padres morais, que, frequentemente, acabam por se tornar parte de conguraes de representaes e de prticas que contribuem para a rearmao da pretenso de universalidade, asso-ciada moral e ao conhecimento ocidentais. E isto ocorre, quer esta restilizao sociocultural seja induzida por opo interna, imposio ex-terna ou, o que mais habitual, por uma mistura de ambas. A Ociden-te, os principais sinais da modernidade parecem resistir, com bastante sucesso, emergncia de modos alternativos de pensar e organizar o mundo social, apesar da liturgia discursiva da crise que, de modo limi-nar ou subliminar, lhes subjaz. Referimo-me aqui economia assente nos processos de industrializao e na expanso de servios com uma forte incorporao de conhecimento; esfera poltica organizada em torno de sindicatos, partidos polticos, e grupos de interesses; ao debate ideolgico sobre os mritos relativos do mercado e da regulao estatal para assegurarem o crescimento econmico e a felicidade social. De igual modo, rero-me tambm diferenciao institucional e ao papel da especializao e do prossionalismo no interior das instituies; sistematizao do conhecimento por disciplinas organizadas em reas cientcas transdisciplinares, de crescente complexidade, associada persistncia da crena no progresso pelo conhecimento cientco e pela inovao tecnolgica; enm, celebrao pblica da cultura do consu-mo e dos estilos de vida associados a esta ideologia, e consequente valorao do ideal individualista da auto-realizao.

    A oposio do moderno e do ps-moderno polarizou, entre as dca-das de 1970 e de 1990, muita da discusso sobre as sociedades contem-porneas e sobre os seus sinais de transformao e de crise. A discus-so nunca chegou verdadeiramente a ser pertinente para alm do mun-do ocidental, e tem-se tornado clara a forma como tendeu a reproduzir as vises eurocntricas associadas modernidade. Nos ltimos anos, as abordagens do mundo contemporneo e da histria centradas em conceitos como colonialismo, descolonizao e a ps-colonialismo tm vindo a armar-se como alternativas propenso eurocntrica de medir o estado do mundo, as suas crises e as suas transformaes pela expe-rincia do Ocidente (Santos 2006; Santos e Meneses 2009). Por outras palavras, a viragem ps-moderna e o debate a que deu origem so parte da histria recente do Ocidente e no uma nova meta-narrativa que per-mitiria um olhar de cima sobre a transformao do mundo.

    8 Interaces

  • Que utilidade poder ter, ento, confrontar o moderno e o ps-moder-no nesta tentativa de compreenso das transformaes no pensamento social? Penso que essa utilidade dupla: enquanto sintoma do que uns descrevem como uma crise e outros como uma transformao criativa; e enquanto descrio de um conjunto de processos. Assim, os termos, moderno e ps-moderno referem-se a padres culturais e sociais ou a sensibilidades que podem ser analiticamente distinguidas pelo propsi-to de sublinharem tendncias sociais. Na esfera da arte e da arquitectu-ra, a emergncia ps-moderna pode vericar-se no colapso da distino hierrquica entre arte erudita e arte popular; a mistura eclctica de cdigos estticos; a nostalgia pelo passado e pelas tradies locais; e o recurso ironia. Estas mudanas estticas tm sido interpretadas, por alguns analistas sociais, como parte de uma mais ampla viragem social e cultural nas sociedades ocidentais contemporneas.

    As transformaes em causa so visveis em processos de des-di-ferenciao (a quebra das fronteiras entre instituies sociais e esfe-ras culturais) e de des-territorializao de economias nacionais e de culturas tradicionais, o que aparece, com grande visibilidade, na rea do conhecimento. Por exemplo, as fronteiras disciplinares esto a ser redenidas e, em muitos casos, a tornar-se mais porosas e novas con-guraes do conhecimento esto a emergir, como, por exemplo, a trans-disciplinaridade e as reas hbridas de produo de conhecimento. Tal o caso, em particular, dos estudos feministas, lsbicos e gays; queer studies; estudos tnicos; estudos urbanos; estudos sobre cincia e tec-nologia; e os estudos culturais que surgem como expresso de uma redistribuio dos saberes e de um novo mapeamento da produo de conhecimento cientco. Neste sentido, as linhas divisrias entre cin-cia e literatura; literatura e crtica literria; losoa e crtica cultural; alta cultura, a cultura popular e cultura de massas tm sido redesenhadas, dando lugar a novas reas e conguraes de saberes e prticas que desaam a herana iluminista.

    As cincias humanas formam protagonistas centrais da construo da modernidade ocidental. Thomas Hobbes, Charles de Montesquieu, o Marqus de Condorcet, David Hume, e Adam Smith no s reectiram e procuraram compreender a emergncia das sociedades modernas, como contriburam para construir, com as suas teorizaes, a ideia de modernidade. A nova cincia da sociedade, que se comeou a congu-rar no sculo XVII, articulou os ideais da nova ordem social; desenhou mapas para a construo de instituies e culturas; providenciou legiti-maes para um estado central burocratizado e para as suas aspiraes

    9O Sujeito no Pensamento Social: A Hermenutica e as Cincias Sociais e Humanas

  • de reordenamento da ordem social. Estas conexes constituem tcnicas e competncias indispensveis manipulao ou gesto de populaes numerosas e da sua mobilidade dos campos para as cidades, incluindo as estratgias de controlo social, atravs da denio de identidades, de normas sociais e, em geral, das diferentes formas do que Foucault designou como biopoder (Foucault 1976).

    Paralelamente aos conitos envolvidos na construo do estado mo-derno a educao laica o capitalismo industrial e a burocracia esclareci-da, o conjunto de saberes que viriam a ser agrupados sob a designao de cincias sociais e humanas tiveram de lutar pelo seu lugar e legiti-mao na nova ordem mundial que estava a ser criada. Os defensores das novas cincias bateram-se contra a igreja e as elites humanistas que defendiam as vises de mundo do Cristianismo, do Aristotelismo, ou do Platonismo, e lutaram contra a concepo do mundo social, como expresso de uma hierarquia natural e imutvel, ou de uma ordem esta-belecida por vontade divina.

    O apelo capacidade exclusiva da cincia para produzir a verdade, em contraste com a religio, a metafsica, as tradies populares ou a opinio, tornou-se, assim, a divisa central dos fundadores das novas cincias sociais. O privilegiar da cincia como critrio de verdade teve importantes implicaes sociais e polticas, particularmente a deslegiti-mao da autoridade da igreja em matrias atinentes ao mundo secular. A luta pela legitimao da cincia foi um dos temas cruciais nos coni-tos sociais e polticos que percorreram os sculos XVII e XVIII.

    Nesta sequncia, duas estratgias justicativas foram centrais para a legitimao dos saberes que viriam a integrar as cincias sociais e hu-manas. 1) Uma teoria sobre a natureza do conhecimento que distinguia conhecimento e religio, opinio e ideologia ou mito. A losoa veio a tornar-se, sobretudo atravs da epistemologia, a disciplina qual cabe-ria a estipulao (e vigilncia) dos critrios de demarcao da cincia e das diferentes manifestaes dos outros da cincia, considerados incomensurveis com esta. Neste particular, tornaram-se dominantes na losoa as posies, segundo as quais uma teoria do conhecimento envolvia a distino entre pensamento e mundo, funcionando a lingua-gem como um mdium neutro pelo qual o pensamento reectia ou des-crevia o mundo. 2) A elaborao de grandes narrativas sobre a evoluo da humanidade, que incorporavam o prprio surgimento das cincias sociais, simultaneamente, como sinal de progresso social e contributo decisivo para este.

    O desenvolvimento das cincias sociais e humanas nos sculos XIX

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  • e XX sofreu muitas mudanas, quer na forma, quer na delimitao do seu papel social. As universidades tornaram-se o lugar central de produ-o desse conhecimento e as cincias sociais humanas foram organiza-das em disciplinas (na genealogia do que viria a ser o quadro actual da sociologia, antropologia, cincia poltica, economia). Por outro lado, as fronteiras entre as cincias sociais e as humanidades endureceram e as cincias humanas foram objecto de um processo de matematizao e prossionalizao. No decurso do p