paternalismo populismo

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  • Paternalismo,populismo ehistria social

  • PATERNALISMO, POPULISMO E HISTRIA SOCIALRESUMOSe repararmos no debate sobre paternalismo, possvel constatarque a pesquisa histrica se defrontou com um termo crtico emuitas vezes rebatido ; mas afinal resgatado e reformulado. Esteartigo defende que esse procedimento pode ser estendido apopulismo. No uma questo de preservar ou descartar, mas deexaminar o que desejamos nomear e investigar e o que h comoalternativa. Em relao s alternativas, outros aspectos da discussosobre paternalismo contribuem para os rumos da histria social.PALAVRAS-CHAVEHistria social; Paternalismo; Trabalhismo; Populismo

  • Aprendemos que as pessoas comuns eram, o mais das vezes,bem mais capazes que ns. Elas haviam levado ao esforo deguerra, em seus mais diferentes nveis, aptides que ns,que havamos tido uma criao protegida e havamos ido,talvez, a escolas de alto nvel, jamais tnhamos conhecido.Trabalhar com pessoas de todas as classes em todos os nveisde autoridade reforou nosso socialismo e diminuiu qualquerhesitao que pudssemos ter em adotar os valoresrevolucionrios da liberdade, fraternidade e igualdade. Creioque foi essa experincia de servir na guerra, tanto como civisquanto como recrutas homens e mulheres , quedespertou o grande interesse pela histria das pessoas.

    (Dorothy Thompson.)

    INTRODUONo Encontro Nacional da Associao Nacional de

    Histria (ANPUH) de 2003, nos debates em seguida s palestras,ngela de Castro Gomes, em rplica a um dos presentes (quechamara o sindicalismo peronista de pelego), perguntou: Se osescravos faziam o diabo, por que no os trabalhadores?3 Com essainterrogao, ngela de Castro Gomes se referiu ao avanado

    1 Professor da Universidade Federal da Bahia. negro@ufba.br2 Este artigo resultado do projeto Diferenas, territrios, identidades: os

    trabalhadores no Brasil (1790-1930), apoiado pelo Programa Nacional deCooperao Acadmica PROCAD da CAPES. Uma verso anterior foiapresentada na II Jornada Nacional de Histria do Trabalho, realizada no XEncontro Estadual de Histria da ANPUH/SC, de 30 de agosto a 2 de setembrode 2004, Florianpolis.

    3 GOMES, A. de C. Propaganda poltica, construo do tempo e mito Vargas:o calendrio de 1940. In: SIMPSIO NACIONAL DE HISTRIA, 22, 2003,Joo Pessoa. Mimeografado. Da mesma autora, ver: GOMES, A. de C. Questosocial e historiografia no Brasil do ps-1980: notas para um debate. In:SEMINRIO BRASIL-ARGENTINA: A VISO DO OUTRO SOBRE AQUESTO SOCIAL, 2003, Buenos Aires. Mimeografado.

    PATERNALISMO, POPULISMO EHISTRIA SOCIAL2

    Antonio Luigi Negro1

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    estgio dos estudos em histria social que, para resumir,descoisificaram o lugar dos negros e dos escravos na histria doBrasil. Esses estudos mostraram que o paternalismo senhorial no campo ou na cidade, no privado ou na esfera pblica, nacasa-grande ou na lavoura, no sobrado ou nas ruas podia sernegociado e carcomido. Mostraram, em segundo lugar, que issopodia acontecer tanto no cotidiano ordinrio quanto desafiado emexcepcionais lances de envergadura e ousadia (os quais eramurdidos durante o dia-a-dia de pessoas comuns).4

    Exemplo dessa produo o artigo de Marcus de Carvalho,que retoma o problema da participao poltica das classessubalternas querendo precisar o alcance de suas aes, bem comoseus motivos. O universo: a Revolta Praieira, no Recife de 1848.Ao indagar se as classes subalternas eram uma massa de manobraque atendia aos interesses das camadas superiores ou se iam alm doroteiro estabelecido pelo patronato, respondido que sim asclasses subalternas escapam da dominao e se defendem, exibindointeresses prprios. Investiga-se, para tal, a formao de lideranascapazes de intermediar as relaes entre a haute politique [alta poltica]partidria e os interesses imediatos dos trabalhadores livres pobres urbanos.Um segundo exemplo vem, a calhar, da histria social daescravido: Soares e Gomes sustentam que africanos e seusdescendentes no viviam isolados do mundo das idias. Logo, avaliavama grande poltica e a partir dela mantinham expectativas e empreendiamaes, provocando temor.5

    Sintetizando e citando , Sidney Chalhoub colocou aquesto da seguinte maneira: os senhores exerciam a sua prerrogativade comprar e vender escravos no interior da arena da luta de classes, tinhamde lidar com as expectativas e presses dos cativos; podiam torturar e matar,mas sabiam que tambm corriam riscos. Alm destes riscos certas

    4 GOMES, F. dos S. Histrias de quilombolas: mocambos e comunidades desenzalas no Rio de Janeiro, sculo XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional,1995; LARA, S. H. Blowin in the wind. E. P. Thompson e a experincianegra no Brasil. Projeto Histria, So Paulo, n. 12, 1995; REIS, J. J. Rebelioescrava no Brasil: a histria do levante dos males, 1835. So Paulo: Companhiadas Letras, 2003.

    5 CARVALHO, M. de. Os nomes da revoluo: lideranas populares naInsurreio Praieira, Recife, 1848-1849. Revista Brasileira de Histria, So Paulo,n. 45, p. 209-210, 2003; SOARES, C. E.; GOMES, F. Sedies, haitianismo econexes no Brasil escravista. Novos Estudos, So Paulo, n. 63, p. 132, 2002.

  • Paternalismo, populismo...

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    vezes traumticos , os senhores tinham de lidar com o dia-a-dia eos costumes em comum dos negros, apesar das diferenas erivalidades vigentes. Com tradies reelaboradas na experinciasob o domnio senhorial, os cativos impunham-lhe limites ao mesmotempo em que, via de regra, ajudavam a reproduzi-lo.6 Tais costumes,vale acrescentar, tinham serventia para vislumbrar direitos incomuns,levando a relao senhor/escravo (ou benfeitor/dependente, oucapital/trabalho) aos limites do imprevisvel e at do insustentvel.Em busca de uma posio vantajosa, o que exige estratgia eorganizao consistentes, as classes subalternas chegavam aalianas inesperadas, superando obstculos de baixa auto-estimae desunio.

    Em vista disso, a pergunta que se faz : Se os escravosendiabravam a poltica de domnio senhorial, por que ostrabalhadores no teriam feito o mesmo com a arquitetura dapoltica trabalhista e isso j nos anos 30 do sculo XX? Por quantotempo, em segundo lugar, vamos nos haver com uma era populista conduzida por um chefe maquiavlico , durante a qual teriaocorrido o triunfo da manipulao (em que os trabalhadorestombam errantes, iludidos ou incapazes)?

    Para comear, a classe trabalhadora sob o cativeiro ouem liberdade estava presente ao seu prprio fazer-se, num processoativo, que se deve tanto ao humana como aos seus condicionamentos.7Dito isso, precisamos conhecer os nomes, os valores e estratgias,as iniciativas e rumos dos trabalhadores ou das classes chamadasde subalternas ou perigosas, o que nos levar de encontro aduas posies muito aceitas e difundidas. A primeira alega oseguinte: os trabalhadores vivem em desarraigo social; soestranhos uns diante dos outros. So, mais ainda, rivais entre si.No falam o mesmo idioma, seja na lngua, seja na cultura. Em seugrande livro Eder Sader escreveu que, ao pintar os trabalhadoresdesse jeito dispersos ou divididos (sendo assim impotentes para

    6 CHALHOUB, S. A enxada e o guarda-chuva: a luta pela libertao dosescravos e a formao da classe trabalhadora no Brasil. In: SIMPSIO DAANPUH, 21, 2001, Niteri. Mimeografado.

    7 THOMPSON, E. P. A formao da classe operria inglesa. Rio de Janeiro: Paz eTerra, 1987. p. 9. v. 1.

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    formularem idias, prticas e estratgias) , se abre um vazio aser preenchido pelo lder que eletriza a massa.8 A segunda posiocom a qual vamos no chocar situa no operariado o manancial derecrutas annimos para o qual, voltando-se um destacamento deelite, se arregimentar o invencvel exrcito do proletariado. Dessejeito, ambas as posies tiram os trabalhadores de cena e se escalamem seu posto, agigantando-se no papel que atribuem a si mesmas:de cabeas letradas e esclarecidas, capazes de guiar osacontecimentos.

    PATERNALISMONo captulo Patrcios e plebeus, Thompson afunda e acode

    o conceito de paternalismo.9 Ele afirma que se trata de um conceitoimpreciso, que recai sobre fenmenos dspares, no tempo e noespao. Imprestvel para comparaes, paralelos ou contrastes,apenas rotula. Seu uso, por causa disso, registra desastradaamplitude. Depois, sua prpria perspectiva estabelecida a partirde cima no comporta uma relao, mas implica o oposto: umavia de mo nica, sugerindo manipulao. A histria decididano nvel superior, aonde moram a clarividncia, a habilidade, oplano e a iniciativa, mal importando o que vem debaixo se que debaixo vem alguma coisa.

    Uma outra ressalva acrescentada por causa da insinua-o de solidariedade e coeso entre grupos sociais contrapostos:paternalismo sugere calor humano, numa relao mutuamenteconsentida; o pai tem conscincia dos deveres e responsabilidades paracom o filho, o filho submisso ou complacente na sua posio filial.

    Na seqncia mais objeo. Em forma de mito ou ideolo-gia, paternalismo promove uma viso retrospectiva, que idealizao passado, confundindo atributos reais e ideolgicos. De tudoisso resulta, o no-reconhecimento do conflito de classes e, por-tanto, o desconhecimento da histria das classes subalternas.

    8 SADER, E. Quando novos personagens entraram em cena: experincias, falas elutas dos trabalhadores da Grande So Paulo. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1988. p. 31.

    9 THOMPSON, E. P. Patrcios e plebeus. In: _____. Costumes em comum. SoPaulo: Companhia das Letras, 1998. p. 29 et seq.

    ubuntuUnderline

  • Paternalismo, populismo...

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    O conceito populismo tem sofrido vrias censuras, algumasparecidas com as acima. Contu